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quinta-feira, 25 de março de 2021

Histórias Possíveis. As Narrativas sobre Artemisia Gentilrschi. Rachel Nóbrega S. Fé. «O propósito da epopeia era o mesmo: manter viva a memória do que aconteceu e não podia ser esquecido. No entanto, para Homero, não era importante…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 (…) Publicado em 1989, a obra de Garrard - Artemisia Gentileschi: the image of the female hero in italian baroque art, é considerada o mais completo estudo sobre a vida e obra da pintora, enriquecido com documentos como suas cartas, os anais do julgamento e ilustrações de obras de arte renascentistas, além daquelas de autoria da artista. A vida de Artemisa Gentileschi também motivou a criação de três romances: Artemisia (1947) da escritora italiana Anna Banti e os romances contemporâneos Artemisia: a novel (1998) da francesa Alexandra Lapierre e The Passion of Artemisia (2000) da norteamericana Susan Vreeland. Também foi produzido o filme da directora francesa Agnes Merlet, Artemisia, lançado em 1997. Além dessas narrativas sobre a vida de Artemisia, também podem ser encontrados romances que fazem menções à artista ou à sua obra como The book of Mrs Noah (1987) da britânica Michele Roberts, Veinte años y un día (2003) do espanhol Jorge Semprún e Frida Kahlo (1985) da mexicana Rauda Jamis. Ao realizar uma pesquisa com o intuito de identificar recentes publicações sobre Artemisia Gentileschi até o momento, constatei vários estudos da vida e obra da pintora. A respeito dos romances sobre Artemisia, apenas alguns trabalhos foram encontrados. No Brasil, as narrativas ficcionais sobre a pintora foram pouco exploradas. Dentre todas as obras analisadas, apenas o romance The Passion of Artemisia foi publicado em português, em 2010. No âmbito de pesquisas académicas, há um artigo de autoria de Cristina Stevens, que analisa o romance The passion of Artemisia, e também o artigo da professora da UFPB, Maria das Vitórias de Lima Rocha, que menciona o romance de Vreeland, sem, no entanto, analisá-lo […].

O percurso da história inicia-se no período anterior a Cristo, com escritos de Tucídides (460 A.C. - 395 A.C.) e Heródoto (484 A.C. - 425 A.C.). Esses primeiros historiadores procuraram distinguir as suas narrativas das de Homero, buscando um maior comprometimento em estabelecer verdades factuais; no entanto, as obras de Tucídides e Heródoto ainda eram muito próximas à épica. Os dois historiadores colocam-se como testemunhas dos acontecimentos descritos nas suas narrativas. O crítico literário Luiz Costa Lima (2006) destaca que, nesse processo, eles ainda mostravam uma certa preocupação com os aspectos discursivos, criando esteticamente a ilusão de que eles próprios eram os narradores e observadores das suas narrativas.

O propósito da epopeia era o mesmo: manter viva a memória do que aconteceu e não podia ser esquecido. No entanto, para Homero, não era importante, por exemplo, a exacta reconstituição do que acontecera em Tróia, mas sim a reunião de diversas fontes para a construção da narrativa épica. Costa Lima destaca que, apesar de as finalidades do poeta e do historiador serem bem-parecidas, as estratégias que eles utilizavam, no entanto, não se equivaliam: se a Tucídides Homero parecia um adornador, a Homero Tucídides parecia um tacanho, preocupado com coisas pequenas. Ainda nessa época, não havia um critério explícito que distinguia essas duas formas narrativas. Uma das primeiras tentativas de estabelecer uma concepção poética precisa foi feita por Aristóteles, que utilizava basicamente um critério, a mímesis. A partir dessa ideia de que a poesia (poesis) seria a imitação (mímesis) das acções do homem, o filósofo propõe que história e ficção tenham, consequentemente, outras diferentes características. Na sua A poética, há referência directa a essas diferenças em dois momentos da sua obra, nos capítulos IX e XXII. Na primeira referência, ele afirma Pelas precedentes considerações se manifesta que não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. O filósofo acreditava que não era, então, a forma do texto, verso ou prosa, que diferenciaria as duas narrativas, pois, se a obra de Heródoto fosse colocada em verso, ela não deixaria de ser história. Enquanto a poesia representa o que poderia acontecer, a história narra o que já aconteceu no passado. O historiador Ronaldo Silva Machado (2000) destaca que essa mímesis deve ser entendida como a representação do homem em ação, não em termos de uma simples cópia ou transcrição, mas como uma universalização de possibilidades dessa ação, segundo a verossimilhança. O poeta deve representar apenas uma só acção com causa e consequência. Ao citar o exemplo da Odisséia, o filósofo destaca que Homero compôs tudo em apenas uma única acção, sua viagem de retorno. Se a obra contasse toda a vida de Odisseu, seria história. Esta, ao invés de contar uma única acção, narra todos os eventos, na devida ordem de sucessão, passado num período de tempo. Enquanto na poesia, um acontecimento é a causa do outro, na história há apenas uma sequência de acontecimentos». In Rachel Nóbrega S. Fé, Histórias Possíveis. As Narrativas sobre Artemisia Gentilrschi, Dissertação de Mestrado em Literatura da Universidade de Brasília, IL, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, 2014.

Cortesia de UBrasília/IL/DTLLiteraturas/JDACT

JDACT, Artemisia Gentilrschi, Pintura, Século XVI, A Arte, 

quarta-feira, 24 de março de 2021

Histórias Possíveis. As Narrativas sobre Artemisia Gentilrschi. Rachel Nóbrega S. Fé. «… apesar de utilizar as mesmas técnicas, Artemisia propôs uma perspectiva diferenciada, na qual essas personagens são representadas como corajosas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Como bem nos lembra Virginia Woolf (2000), a história das mulheres precisa não apenas ser descoberta mas também inventada. Essa motivação tem permitido a produção de romances contemporâneos que, através de uma voz autoral feminina, criam personagens capazes de contar suas próprias histórias, reconstruindo ficcionalmente a biografia de mulheres fascinantes, contribuindo, cada vez mais, para a visibilidade das mulheres. Esquecida pela historiografia tradicional, a pintora renascentista italiana Artemisia Gentileschi foi representada de maneira distorcida e sua genialidade artística foi ignorada, de forma que a autoria de suas obras foram atribuídas a outros artistas e a seu pai. A recente (re) descoberta e o reconhecimento da pintora têm motivado riquíssimos estudos, além de três romances e um filme. A partir das contribuições dos estudos feministas e da metaficção historiográfica, analiso no meu trabalho algumas dessas representações literárias e não-ficcionais da artista, com ênfase no romance The Passion of Artemisia (2000) da escritora contemporânea da USA, Susan Vreeland; enfatizamos a impossibilidade de reconstituição da verdade histórica sobre a vida de Artemisia Gentileschi». In Resumo

«O presente trabalho objectiva analisar obras literárias e não ficcionais sobre a pintora renascentista italiana Artemisia Gentileschi. Após um silêncio que durou quase três séculos, a artista tem sido recuperada apenas recentemente pelos Estudos Feministas. Seu reconhecimento tem, cada vez mais, motivado obras a partir de múltiplos olhares que, consequentemente, produziram diferentes representações desta mesma personagem histórica.

Nascida em Roma, no ano de 1593, Artemisia tem se destacado cada vez mais como uma das poucas mulheres a adquirir reconhecimento em um momento histórico em que elas dificilmente eram aceitas pela comunidade artística. Naquela época, se uma mulher decidisse tornar-se uma artista, ela não poderia trilhar o caminho tradicional destinado aos homens, pois não havia possibilidade de receber formação com os grandes mestres, realizar viagens, conviver com a comunidade artística ou participar de outras actividades que aconteciam no espaço público, ao qual elas tinham pouco acesso. O único contato de Artemisia com a pintura foi através de seu pai, o famoso pintor Orazio Gentileschi, de quem recebeu os primeiros ensinamentos; ela foi a única dos quatro filhos,  sendo três deles homens, de Orazio, que desenvolveu aptidão para a pintura. Com apenas 17 anos, ela já havia pintado os famosos quadros Madona com o Menino Jesus (1609) e Susana e os Anciãos (1610). Vale destacar que, mesmo vivendo numa época na qual as mulheres, quando pintavam, o que era raro , eram consideradas capazes de pintar apenas retratos e cenas domésticas, Artemisia pintou heroínas mitológicas e históricas como nos quadros Judite decapitando Holofernes (1620), Cleópatra (1622) e Lucrécia (1621). Seus quadros são considerados marcantes também pela forma inovadora como ela representou essas personagens. Essas mulheres eram tradicionalmente pintadas por artistas masculinos como figuras delicadas e passivas. No entanto, apesar de utilizar as mesmas técnicas, Artemisia propôs uma perspectiva diferenciada, na qual essas personagens são representadas como corajosas, fortes e determinadas.

Um dos episódios mais conhecidos e marcantes da sua vida e que, para muitos historiadores da arte, influenciou várias das suas obras, foi o abuso sexual que sofreu aos 17 anos. O agressor, Agostino Tassi, pintava algumas obras em parceria com Orazio Gentileschi e foi escolhido para ensiná-la algumas técnicas de perspectiva. Devido à ausência do pai, Tassi aproveitou-se desses momentos para abusar dela. Orazio Gentileschi, então, levou Tassi a julgamento no ano de 1611, acusando-o de não somente ter tirado a virgindade da sua filha mas também por ter roubado uma das suas pinturas. Durante o processo, Tassi alegou que as relações foram consensuais e que ela também já havia mantido relações sexuais com outros homens. No entanto, Artemisia afirmava que havia sido violada por ele e deixou que a situação ocorresse outras vezes porque Tassi prometeu que se casaria com ela. Para comprovar que realmente estava falando a verdade, Artemisia foi submetida a um exame ginecológico feito por parteiras, além de ser torturada para confirmar seu testemunho. Ao fim do julgamento, Tassi é considerado culpado. No entanto, não há nenhuma evidência de que ele foi sentenciado, apenas de que ele foi liberado um mês após o depoimento da última testemunha.

Apesar de Artemisia ter passado pela dolorosa e escandalosa experiência do estupro e do julgamento, seu pai conseguiu arranjar-lhe um casamento com o artista Pietro Antonio di Vicenzo Stiattesi. A cerimónia aconteceu em Novembro de 1612, quando ela, então, passou a morar em Florença, cidade natal do pintor. Nesta, tornou-se bastante conhecida, chegando a ser a primeira mulher aceita na famosa Accademia del Disegno, formada pelos mais renomados artistas da corte de Cosimo de Medici I. Um dos seus primeiros trabalhos foi uma encomenda de Michelangelo Buonarroti, sobrinho do ilustre artista Michelangelo, para a reforma da casa da família. Além de ter sido uma das artistas mais bem remuneradas do projecto, esse trabalho também ajudou a impulsionar a carreira. Posteriormente, ela recebeu várias comissões e o apoio de influentes pessoas como Cosimo de Medici II e Cristina de Lorena, a Grã-Duquesa de Toscana. As encomendas lhe possibilitaram uma independência financeira, que a tornou capaz de viver sem depender do cônjuge. Essa liberdade permitiu também que ela morasse, já separada de seu marido, com sua filha nas cidades de Génova, Veneza e Roma, a fim de pintar para outros patronos.

Embora houvesse ganho notoriedade no século XVII, Artemisia Gentileschi foi esquecida por quase 300 anos. Segundo a historiadora da arte e pesquisadora da vida e obra da pintora, Mary D. Garrard, Artemisia foi pouquíssimo mencionada por pesquisadores e biógrafos nos séculos XVII e XVIII, evidência de que nenhum deles reconheceu a verdadeira importância da artista, chegando a atribuir várias de suas obras ao seu pai e a outros pintores. Apenas a partir das últimas décadas do século XX, graças, sobretudo, aos esforços de pesquisas na área dos Estudos Feministas, Artemisia foi (re)descoberta e reconhecida como uma das primeiras mulheres a produzir uma arte considerada genial e também como uma das grandes artistas do barroco italiano». In Rachel Nóbrega S. Fé, Histórias Possíveis. As Narrativas sobre Artemisia Gentilrschi, Dissertação de Mestrado em Literatura da Universidade de Brasília, IL, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, 2014.

Cortesia de UBrasília/IL/DTLLiteraturas/JDACT

JDACT, Artemisia Gentilrschi, Pintura, Século XVI, A Arte,