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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Os bons velhos tempos da prostituição em Portugal. Alfredo A. Pessoa. «Foi um tumulto indescritível, mas ninguém, nem mesmo as mulheres, soltou um grito perante a iminência do perigo. Os guerreiros armaram-se a toda a pressa, porque a fuga era impossível»

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«(…) Vê-se destas inscrições que o deus dos lusitanos era advogado da saúde. Reinésio é de opinião que o deus era o Apolo Belino das inscrições de Aquileia, o que não parece suficientemente demonstrado. Seja como for, a lenda que atribui a Maherbal a fundação do templo de Endovélico está longe de se basear em argumentos sólidos. Antes de os Cartagineses pisarem pela primeira vez o solo da Lusitânia, já o deus Endovélico tinha as suas aras em Vila Viçosa, segundo se depreende de tradições antiquíssimas. A estátua do deus parece ter bastante analogia com a de Cupido. Lê-se em Viterbo (Elucidário): ... a figura do ídolo com os olhos fechados, o coração na boca e as asas nos pés, bem claramente nos mostra a natureza do amor profano, que em nada repara, tudo descobre e num instante se remonta, foge e desaparece, deixando frustrados e iludidos os seus devotos. Há tradição de ter existido, no famoso templo situado perto da vila de Terena, uma bela estátua de Endovélico, em prata maciça. Por ocasião da conquista romana, os soldados de Júlio César despojaram o templo de todas as suas preciosidades, e a estátua lá foi parar às mãos dos Romanos. A sensualidade que acompanhava as cerimónias do culto de Endovélico era mais feroz do que lúbrica. Havia mais sangue derramado no recinto sagrado do templo do que suspiros de amor ou ósculos libidinosos.

Vae victis!, ou a orgia da soldadesca romana com as vencidas lusitanas. A violação de Olia e a sua vingança. Viriato
Outra história não menos trágica, mas muito mais digna, do pudor e castidade das lusitanas é a que vamos contar. É Aladio quem cita este rasgo de heroísmo, digno de facto de passar à posteridade. Celebrava-se estrondosamente um noivado numa tribo lusitana. A cidra circulava em abundância na mesa do festim e os convidados faziam honra ao banquete, em que reinava a maior animação. Tentalo, o noivo, era um guerreiro valente que se ilustrara já por vários feitos, sob as ordens de Viriato. Olia, a noiva, era a donzela mais encantadora da região, e fora prometida, em recompensa do seu valor, ao jovem guerreiro, da última vez que partira para a campanha contra os romanos. Voltara coberto de glória e viera a recordar a promessa que durante a luta tantas vezes lhe alentara a coragem, porque amava a sua noiva com todo o fogo de uma paixão impetuosa. Pela sua parte, a lusitana correspondia do íntimo da alma à paixão que inspirara. Tentalo era o jovem mais esforçado da tribo e distinguia-se, além disso, por uma figura simpática e atraente. Poucos dias depois do seu regresso, celebrava-se com júbilo o auspicioso enlace, a que assistia toda a tribo. Mas naqueles tempos de lutas incessantes, a felicidade era coisa muito contingente.
As cerimónias religiosas, os banquetes nupciais, as honras fúnebres dos Lusitanos eram a cada passo interrompidos pela irrupção das tropas romanas. Vivia-se na incerteza constante do lugar onde se passaria a noite. Não havia tréguas, como outrora, nem mesmo os Romanos guardavam já, para com os Lusitanos, a fé dos tratados. Disputava-se o país palmo a palmo. À derrota de hoje sucedia a investida do dia seguinte, e de Roma, humilhada por aquela guerra interminável e inglória, partiam de quando em quando numerosos contingentes de tropas para a Lusitânia. No dia do banquete nupcial, a que nos referimos, nada havia que fizesse suspeitar uma investida dos Romanos. A guerra tinha agora por teatro uma região distante, aquela parte do país gozava há meses um sossego completo. Porém uma derrota das tropas romanas fizera tomar aquela direcção aos invasores e, de repente, quando menos se esperava, quando o banquete corria no meio de uma alegria e animação extraordinárias, um lusitano chegou ofegante ao recinto consagrado ao festim e pronunciou esta frase terrível: Os Romanos!...
Foi um tumulto indescritível, mas ninguém, nem mesmo as mulheres, soltou um grito perante a iminência do perigo. Os guerreiros armaram-se a toda a pressa, porque a fuga era impossível. Ficava ainda distante dali a montanha que podia proteger a tribo contra a invasão do inimigo. Daí a pouco surgiam os Romanos. Era um numeroso esquadrão de velites. Travou-se o combate. A investida foi temível e a defesa verdadeiramente heróica. Obraram-se de parte a parte prodígios de valor. Muitos romanos morderam rudemente o pó, derribados dos cavalos pelas fundas dos adversários. Mas nos Lusitanos houve também graves perdas, causadas pelas lanças romanas! Enquanto durou o combate, as mulheres e as crianças, a pequena distância do teatro da luta, esperavam ansiosamente o desenlace, animando com os seus gritos o esforço dos guerreiros da sua raça. Apesar de numerosos, os velites não levariam a melhor nessa peleja se a fortuna os não favorecesse, trazendo-lhes a tempo um novo reforço de combatentes. Desde esse momento a resistência dos lusitanos era completamente inútil. O número esmagava-os. Felizes dos que tinham tido tempo de morrer, porque aos sobreviventes esperava-os o cativeiro!...» In Alfredo Amorim Pessoa, Os bons velhos tempos da prostituição em Portugal, Antologia, 1887, Anotações, 1976, Antígona_Frenesi, 2006, Lisboa, ISBN 972-608-175-0.

Cortesia de Antígona /JDACT

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Os bons velhos tempos da prostituição em Portugal. Alfredo A. Pessoa. «Divergem as opiniões a respeito deste deus, cujo nome alguns derivam da palavra grega ‘Balos’ ou ‘Valos’, que quer dizer ‘caminho’, e do nome ‘Endon’, que quer dizer ‘dentro’»

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Influências (más) gregas na Lusitânia. Os deuses lusos.
«Os povos de Entre-Douro-e-Minho participaram intimamente dos costumes dos gregos. Tinham jogos públicos que celebravam com grande pompa, davam festins enormes em que os jovens cantavam os louvores dos heróis do país. As mulheres destas tribos distinguiram-se muito tempo pela sua castidade. A espécie de civilização que nelas culminava não tardou a corromper-lhes os costumes primitivos e a breve trecho esqueceram a castidade dos seus antepassados para se dedicarem freneticamente ao culto de Vénus e ao excesso de todas as sensualidades. Lendas antiquíssimas celebram a valentia destas mulheres, que se batiam com denodo e preferiam procurar a morte na ponta das lanças de cobre dos contrários a ficarem prisioneiras de guerra. Há tradições de uma famosa batalha entre os Galaicos e estes povos em que as mulheres dos dois partidos obraram prodígios de valentia. Esta batalha é conhecida pelo nome de batalha das mulheres, porque ao sexo frágil coube nesse prélio cruento a maior parte da glória de famosos rasgos heróicos. Além dos deuses de que já falámos, adoravam os Lusitanos o grande Endovélico.

O deus Endovélico, senhor da Lusitânia
Divergem as opiniões a respeito deste deus, cujo nome alguns derivam da palavra grega Balos ou Valos, que quer dizer caminho, e do nome Endon, que quer dizer dentro. Os que são deste parecer afirmam que o deus presidia aos caminhos, como o deus Término, que velava pela propriedade nos limites dos campos. Algumas inscrições encontradas em Vila Viçosa levam-nos a outra conclusão. Vasconcelos, nas suas notas a Resende (Antiquitates Lusitania), assegura que a palavra Endovélico se compõe de Endo, nome de algum herói da antiga Ibéria, e do verbo evellere, que significa tirar e arrancar, e por isso a esse herói divinizado se atribuía o poder de arrancar das feridas o ferro que ali fora cravado. Parece ser este o sentido da antiquíssima inscrição: Herculi Patrio Endovellico Toletum urbs victrix Osca Deis Tutelaribus compeditos Ursos, Tauros, Aves, Lívicas Quotannis decreto dicaverunt. (Toledo e a cidade vitoriosa de Osca consagram aos seus deuses tutelares, a Endovélico, o Hércules do país, touros, ursos e avestruzes metidos num parque, para a solenidade dos jogos que todos os anos se celebram). Vasconcelos, firme nesta opinião e esquecendo que o deus Endovélico talvez já tivesse este nome, antes de existir na Lusitânia a língua latina, não podendo por conseguinte o nome Endovélico compor-se do termo evellere nem da palavra Endo ibérica, censura asperamente Resende por afirmar que o nome do deus tirava a sua etimologia da cidade Endovellia, quando, em seu parecer, jamais semelhante cidade existira em Espanha.
Pelo que nos autores encontramos, Resende esteve nesta questão mais perto da verdade que o seu contraditor. O douto antiquário é de parecer, na sua dissertação, que o nome do deus Endovélico se formara de dois termos: Endo e Vellico, sendo o primeiro o nome da divindade e o segundo o do país onde era particularmente adorado. O nome Vellicos compunha-se de Vellica, cidade da Cantábria, nas nascentes do Ebro, cidade célebre pelo culto do deus que daqui foi chamado Endo de Vellicos, como a Apolo se chamava de Delfos e, a Hércules, de Tiro. Luís Alphitander sustentou que Endovélico era Tubal, considerado geralmente pelos antiquários espanhóis como o patriarca da sua nação, e metamorfoseou este neto de Noé em Cupido, ou deus do amor, atribuindo-lhe a virtude de curar as paixões amorosas e de dar saúde ao corpo. Parece esta opinião algum tanto conforme ao sentido das inscrições achadas em Vila Viçosa, e que vamos transcrever aqui:

Endovellico sacratum
Marcus Julius
Proculus animo
Libens votum solvit.
Deo Endovellico sacratum
Julia Ediana, voto suscepto
Elvia. Ubas, Mater, Filiae
Suae. Votum susceptum
Animo libens posuit.
Ex voto. Pro Critonia. C. F.
C. Julius novatus, Endovellico
Pro salute Vincuminae venustae
Maniliae suae. Votum solvit».

In Alfredo Amorim Pessoa, Os bons velhos tempos da prostituição em Portugal, Antologia, 1887, Anotações, 1976, Antígona_Frenesi, 2006, Lisboa, ISBN 972-608-175-0.

Cortesia de Antígona /JDACT

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Os bons velhos tempos da prostituição em Portugal. Alfredo A. Pessoa. «Os Fenícios chamavam a Astarte a mãe dos deuses. Instalando-se nas costas meridionais da Espanha, este povo não tardou a corromper os costumes primitivos dos indígenas, que seduziam com o seu comércio e com os seus costumes…»

Cortesia de rosa ramalho 
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Os Fenícios: suas deusas impuras, que afinal eram os órgãos sexuais da mulher
«(…) Nas festas de Astarte, era enorme a multidão aglomerada nos templos, multidão que não se compunha só de fenícios, mas também de estrangeiros, porque o obsceno culto da deusa lisonjeava as paixões de todos os povos. A deusa Astarte de Tiro e Sídon encontrava facilmente adeptos por toda a parte para onde era levada. Os adoradores de Milita, Anaítis, Urânia, Mirta, ou de qualquer outra divindade propícia aos extravios da sensualidade, não podiam mostrar-se adversos à boa deusa fenícia, tão condescendente para todas as fraquezas, tão propensa a favorecer o vício! Sob a tenda sagrada onde as mulheres fenícias, casadas ou solteiras, e as escravas dos mercadores esperavam as carícias dos romeiros, havia lugar amplo para todos, e o estrangeiro, o hóspede, era recebido até com uma notável predilecção. Eram para ele as mulheres mais formosas e as provocações mais lascivas, e quando o sacerdote fazia ressoar o pandeiro religioso, os braços voluptuosos das sacerdotisas de Astarte abriam-se para quem queria, num abandono prometedor das mais requintadas delícias. Mais tarde, nestas cerimónias lúbricas, o pandeiro sagrado foi substituído por instrumentos mais aperfeiçoados e a lira, a flauta e o saltério dos orientais vieram estimular a libertinagem dos actores, juntando o seu encanto voluptuoso à música dos ósculos ardentes daquelas mulheres sensuais. Às festas de Astarte associavam-se também as festas de Adónis. Depois dos sacrifícios a Posídon, o deus marinho protector dos navegantes, Adónis, a personificação divina da natureza máscula, recebia também as homenagens dos fenícios. Em honra deste deus caçador devorado por um javali, e continuamente chorado por Vénus, celebravam-se as festas fúnebres e as festas da alegria. As festas fúnebres constavam de lamentações e, durante elas, a imensa multidão cosmopolita vagueava em torno do templo, onde as mulheres iam sacrificar ao deus o seu pudor e os seus cabelos. Ao coro de lamentações sucediam-se bem depressa as fustigações. As mulheres batiam-se mutuamente com as mãos, e às vezes com varas. Sob o pórtico estava, nesses dias, a estátua falófora do deus ressuscitado e, apenas o simulacro aparecia, casadas e solteiras eram obrigadas a ceder os cabelos ao altar ou o corpo à prostituição. Quando se obstinavam em conservar as tranças, dirigiam-se a uma espécie de mercado, onde desta vez só os estrangeiros podiam ter acesso. Conta Luciano que essas pobres mulheres estavam ali à venda um dia inteiro, entregando-se ao tráfico desonesto todas as vezes que eram solicitadas e retribuídas. Depois das festas patéticas, seguiam-se as festas da alegria e, por essa ocasião, praticavam-se no recinto do templo espantosas monstruosidades. Os Fenícios chamavam a Astarte a mãe dos deuses. Instalando-se nas costas meridionais da Espanha, este povo não tardou a corromper os costumes primitivos dos indígenas, que seduziam com o seu comércio e com os seus costumes dissolutos. Até ao promontório sacro, hoje cabo de São Vicente, o litoral do Algarve foi logo povoado de feitorias fenícias e, por toda a parte, o culto depravado de Astarte encontrou milhares de prosélitos». In Alfredo Amorim Pessoa, Os bons velhos tempos da prostituição em Portugal, Antologia, 1887, Anotações, 1976, Antígona_Frenesi, 2006, Lisboa, ISBN 972-608-175-0.

Cortesia de Antígona /JDACT

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Os bons velhos tempos da prostituição em Portugal. Alfredo A. Pessoa. «Era o culto impuro inventado pelos homens, e as mulheres não tardavam a imitá-los, inventando o culto da natureza máscula, deificada em Adónis…»

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Os Fenícios: suas deusas impuras, que afinal eram os órgãos sexuais da mulher
«Não era só o comércio e as artes que as galés fenícias transportavam, sulcando rapidamente o mar, para as terras ocidentais. Juntamente com Melcarte vinha o simulacro de Astarte, e o culto dessa deusa impura teria de perverter os costumes simples dos primitivos habitadores das regiões da Ibéria. De Babilónia, a grande cidade corrompida, a prostituição espalhara-se largamente, como um flagelo, pela Ásia e pela África, até ao fundo do Egipto e da Pérsia. Em cada país onde a semente corruptora germinava, a prostituição ia tomando novos aspectos e o culto impuro revestia novas formas.
Na Arménia, Vénus, a deusa impura, tinha o nome de Anaítis; a fenícia chamava-se Astarte. Sob este nome deificavam-se os órgãos sexuais da mulher. Era o culto impuro inventado pelos homens, e as mulheres não tardavam a imitá-los, inventando o culto da natureza máscula, deificada em Adónis, que foi mais tarde o lúbrico Príapo, adorado no Ocidente. A Vénus fenícia tinha templos em Tiro, em Sídon e nas principais cidades da nação, sendo os mais célebres os de Heliópolis e de Afaque, nas proximidades do monte Líbano. À noite, a multidão povoava esses templos e, em honra da deusa, os homens disfarçavam-se em mulheres e as mulheres em homens, entregando-se com furor à mais infrene orgia. O sacerdote dirigia as lúbricas cerimónias e uma música horrenda sufocava os gritos libidinosos daquelas cenas nefandas, permitidas por uma religião imoral e imprópria de um povo tão adiantado.
A lei da hospitalidade impunha aos Fenícios o dever de prostituírem suas filhas aos estrangeiros. O hóspede não podia sem desdouro recusar este testemunho de benevolência, e o chefe de família era o próprio que apresentava a vítima para o sacrifício obsceno. Quando os Fenícios aportaram à Espanha, e povoaram de cidades o litoral, os templos de Vénus multiplicaram-se em todos os seus estabelecimentos. A marinha mercante deste povo encarregava-se de levar a toda a parte a corrupção que o infestava e cada novo empório aceitava de bom grado um culto que lisonjeava todas as paixões. Em volta dos templos da deusa impura levantavam-se tendas onde as raparigas iam sacrificar-se à Vénus fenícia. De princípio, estes sacrifícios obscenos não tinham carácter religioso. Os navegadores estabeleciam ao longo das costas lugares de prostituição, onde pudessem encontrar facilmente o prazer, depois de uma longa travessia. Com o andar dos tempos, os sacerdotes associaram a estas orgias a ideia religiosa, invocando, para proteger o recinto dissoluto, a Vénus fecunda dos seus altares.
Os templos da deusa eram, de ordinário, edificados em lugares elevados, de onde se avistava o mar. Ao largo, os navegadores descobriam a mansão da deusa e esta visão suave aparecia-lhes como uma promessa de prazer e de repouso, após uma viagem difícil e arriscada. Industriados pelos Fenícios no comércio e nas artes, os povos do litoral da Ibéria não tardaram também a imitar-lhes a corrupção. A prostituição teve, por essa época, nos estabelecimentos fenícios da Península, o mesmo carácter de mercantilismo que este povo imprimia a todas as suas manifestações. Antes do casamento, as  raparigas iam fazer o sacrifício do pudor para ganharem o dote e tinham o direito de escolher marido quando a quantia ganha desse modo era considerável. Como já dissemos, o esposo por elas escolhido não podia deixar de aceitar semelhante honra e, bom ou mau grado seu, tinha de receber por legítima esposa aquela mulher prostituída.
Havia também a prostituição na escravatura. Os Fenícios compravam ou raptavam donzelas que levavam para o seu país, ou que vendiam mesmo nas suas paragens ao longo do Mediterrâneo, quando o preço era convidativo. A Ibéria fornecia-lhes um grande contingente para este comércio odioso, que eles exploravam torpemente, no seu positivismo de mercadores endurecidos, que não atendiam senão ao lucro e dele faziam o seu deus predilecto». In Alfredo Amorim Pessoa, Os bons velhos tempos da prostituição em Portugal, Antologia, 1887, Anotações, 1976, Antígona_Frenesi, 2006, Lisboa, ISBN 972-608-175-0.

Cortesia de Antígona /JDACT

sábado, 18 de julho de 2015

Os bons velhos tempos da prostituição em Portugal. Alfredo A. Pessoa. «Sobre o conceito de bárbaro, os Gregos designavam pela palavra bárbaros todos os estrangeiros (mormente os persas) que não falavam a sua língua. A etimologia é estranha e complicada…»

jdact e wikipedia

Uma história celta
«A origem dos povos antiquíssimos envolve-se quase sempre nas mais estranhas lendas. A lenda da origem dos Celtas é curiosíssima. Celtina, filha de Britanus, rei de um país setentrional, era uma donzela de uma castidade feroz, que fazia o desespero dos seus adoradores. Desprezava todos os pretendentes, repelia-os com desdém, numa palavra: era inacessível a todos os galanteios. Um dia, o acaso fez-lhe encontrar no seu caminho Hércules, líbio, herói de mil extraordinárias proezas e dotado, ao que parece, de uma formosura varonil excepcional. A princesa, loucamente enamorada do herói, declara-lhe o seu amor, mas, ao que diz a lenda, não logra cativá-lo. Hércules acabava de praticar uma façanha de primeira ordem: roubara os bois de Gérion e ia conduzindo os animais, muito orgulhoso daquela presa. O ensejo não era dos mais propícios para idílios, embora com a mais formosa das princesas, e o latagão mostrava-se indiferente a todas as sugestões.
A frieza do seu amado mais irrita o temperamento da princesa. Sente-se arder em desejos sensuais poderosíssimos e persegue o indiferente. Quando viu que os seus rogos e o seu amor não conseguiam abrandar aquela pena, Celtina, que, apesar de mulher, tinha ânimo e esforço para a luta, rouba a Hércules os seus bois e declara-lhe peremptoriamente que não poderá reavê-los enquanto não saciar os desejos que a devoram. Hércules rende-se e satisfaz a vontade de Celtina. Desta ligação sexual nasce Celto, o pai da raça celta. Da Gália céltica, os Celtas vieram à Península e ocuparam primeiramente, ao que parece, a parte da Bética conhecida pelo nome de Betúria, a oriente do Guadiana, entre a Estremadura espanhola e o oceano Atlântico. Passando à Lusitânia, estabeleceram-se na parte do Alentejo ao norte dos Turdetanos. O Guadiana extrema-os a oriente dos celtas da Betúria.
Dizem que Elvas, Estremoz, Vila Viçosa e a antiga Meróbriga eram as principais cidades de que os Celtas estavam senhores. Segundo a tradição, a invasão dos celtas foi contrariada na Lusitânia pelos antigos habitadores do país. Os bárbaros ou sarrienos, que, da serra da Arrábida se estendiam até à confluência do Canha com o Tejo, foram os seus mais encarniçados inimigos. Estes povos sustentaram contra os Celtas lutas sanguinolentas. Segundo alguns autores, o nome de bárbaros proveio-lhes da sua natural ferocidade, e por isso, até ao cabo da Roca, que era um dos limites do seu domínio, chamaram os antigos promontório bárbaro. Segundo Resende (Antiquitates Lusitaniae) o nome de bárbaros proviera-lhes do termo barbarii, derivado de barbaricarii, significando tintureiros. Entre estes povos fazia-se importante comércio de grã escarlate, que se criava na serra da Arrábida.
Seja como for, os Sarrienos vagueavam pelas serras, mantendo-se da caça e do que roubavam aos vizinhos. Eram indomáveis, e os Romanos, mais tarde, tiveram de sofrer da sua parte a mais tenaz das resistências. Não tinham a menor noção de pudor, segundo antiquíssimas tradições, a que daremos apenas a fé que merecem afirmações feitas sem base que as robusteça. As mulheres acompanhavam os homens na caça e na rapina e a prostituição era para elas um dever imposto pelos costumes. Quando o mar encapelado rugia contra as costas, os Sarrienos procuravam aplacar as divindades marinhas sacrificando-lhes em cima dos rochedos um homem e uma mulher; outras vezes algumas crianças eram imoladas por aqueles selvagens ao Oceano temeroso, deus temível, pai e dispensador de todas as coisas: oceanum, patrem rerum.
NOTA:
Sobre o conceito de bárbaro, os Gregos designavam pela palavra bárbaros todos os estrangeiros (mormente os persas) que não falavam a sua língua. A etimologia é estranha e complicada, e o Resende onde diz que a recolheu não o é menos. Mas chamar bárbaros aos habitantes da península é, de qualquer das maneiras, um anacronismo. Se a palavra é grega, só muitos anos depois é que houve alguém a chamar-nos esse nome...» In Alfredo Amorim Pessoa, Os bons velhos tempos da prostituição em Portugal, Antologia, 1887, Anotações, 1976, Antígona_Frenesi, 2006, Lisboa, ISBN 972-608-175-0.

Cortesia de Antígona/JDACT

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

História da Prostituição em Todos os Povos do Mundo. Pedro Dufour. «Por mais severo que se mostrasse Moysés, nem por isso o mau exemplo deixou de ser seguido, e uma multidão de superstições obscenas ficaram incarnadas nos costumes hebreus. Mesmo destruindo os altares de Baal e de Moloch, onde se levavam as impúdicas oferendas»

Cortesia de libraryuniversityoftoronto

NOTA: Texto na versão original

«Como se vê, Moysés não se occupava somente de moralisar os israelitas, pretendia também destruir os germens das suas enfermidades secretas, colocando as suas leis de hygiene publica debaixo da salvaguarda e santificação do tabernaculo. Mas os israelitas atravessando os povos estrangeiros, moabitas, ammonitas, chananeus e todas aquellas raças cynicas, mais ou menos corrompidas e idólatras, contagiavam-se dos vicios e gostos de seus hospedes ou alliados. Ora a prostituição mais audaz e escandalosa era a que florescia, digamol-o assim, entre os incestuosos descendentes de Loth e suas filhas. A prostituição religiosa, sobretudo, havia ampliado o seu infernal império com o culto dos falsos deuses que os habitantes do paiz adoravam com um phrenesi deplorável.
Muloch e Baal-Phegor eram os monstruosos ídolos da prostituição de que os hebreus se deixaram corromper. Por mais severo que se mostrasse Moysés nos seus castigos contra os libertinos do povo, nem por isso o mau exemplo deixou de ser seguido, e uma multidão de superstições obscenas ficaram incarnadas nos costumes hebreus, posto que se houvessem destruido os altares de Baal e de Moloch, onde se levavam as impudicas offerendas. No capitulo XX do Levitico, e no XXXIII do Deuterononio, Moysés infligiu um stygma de infamia a esse culto execravel e aos apostatas que o praticavam em offensa do verdadeiro Deus de Israel. Qualquer dos filhos de Israel ou dos estrangeiros que haja em Israel, que der o seu sémen ao idolo de Moloch, será punido de morte: o povo deve apedrejal-o.
Assim falla o Senhor a Moysés, ordenando-lhe que separasse do seu povo os manchados de tão immunda abominação. No Deuteronomio condemna Moysés certas impurezas que dizem mais respeito a Baal do que a Moloch: Não offerecerás, diz elle, no templo do Senhor o lucro da prostituição, nem o preço do cão, qualquer que seja o voto que tenhas feito, porque estás duas cousas são abominações deante do Senhor teu Deus. Os sábios tem-se dado a um improbo trabalho para descobrir o que eram esses idolos moabitas Moloch e Baal-Phegor e tiraram do Thalmud e dos comentadores judeus os mais estranhos dados sobre o assumpto. Moloch, segundo elles, era representado por um homem com cabeça de bezerro, o qual com os braços estendidos esperava que lhe offerecessem em sacrificio a flór da farinha, rôlas, cordeiros, carneiros, bezerros, touros e creanças. Estas differentes offerendas collocavam-se em sete boccas que se abriam no meio do ventre d'aquella ávida divindade de metal, collocada sobre um immenso forno, que se accendia para consumir ao mesmo tempo as sete especies de offerendas.
Durante o holocausto, os sacerdotes de Moloch faziam uma terrível musica com sistros e tambores a fim de não deixarem ouvir os gritos das victimas. Era então que se realisavam as infamias malditas por Jehovah: os molochitas entregavam-se a praticas dignas da patria de Onan, e animados pelo ruido cadenciado dos instrumentos musicos, agitavam-se em redor da estatua incandescente, que apparecia vermelha atravez do fumo, gritavam phreneticamente e, segundo a expressão bíblica, davam posteridade a Moloch…
Esta abominação de tal modo se espalhou em Israel que alguns insensatos ousaram introduzil-a no culto de Jehovah e mancharam com estas impurezas o sanctuario. A colera de Moysés fulminou então raios de justiça, e o grande legislador repetiu estas palavras do Senhor: Indignarei o meu rosto contra os sectários de Moloch, e expulsal-os-hei do meu povo.


Este Moloch, ou Molec, não era outro senão a Milita dos babylonios, a Astarfé (??) dos filhos do Sidónia, a Venus geradora, a mulher divinisada. D’aqui as oferendas que se lhe faziam: flòr de farinha para significar a substancia da vida; ròlas para indicar as ternuras do amor; cordeiros para significar a fecundidade; carneiros para caracterisar os ardores dos sentidos; bezerros para indicar a exhuberancia da natureza; touros symbolisando as forças creadoras, e, finalmente, creanças para indicar o objecto do culto da deusa». In Pedro Dufour, História da Prostituição em todos os Povos do Mundo, Typ da Empreza Litteraria Luso-Brazileira, Pateo do Aljube 5, 1885, Library University of Toronto, May 23 1968, Lisboa.

Cortesia de Library University of Toronto/JDACT

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Pedro Dufour. História da Prostituição em todos os Povos do Mundo: Parte VII. «Por mais bellas que fossem as hebreias com os seus olhos negros e rasgados, a sua bocca voluptuosa com dentes de pérolas e lábios de coral, a sua estatura flexível, as suas formas opulentas, essas mulheres, cujo seductor retrato achamos no ‘Cântico dos Cânticos’, padeciam, segundo nos diz Moysés, enfermidades secretas»


Cortesia de wikipedia
NOTA: Texto na versão original

«Estes dois artigos do código de Moysés regularam a prostituição entre os hebreus, quando estes se fixaram na Palestina, constituindo-se em corpo de nação sob o governo dos seus juízes e dos seus reis. Os lugares de prostituição eram dirigidos por estrangeiros, ordinariamente syrios, e as mulheres de prazer ou consagradas, como se lhes chamava, eram todas estrangeiras, syrias também pela maior parte. As razões que decidiram Moysés a excluir as mulheres hebreias da prostituição legal, podem perfeitamente deduzir-se dos capítulos de “Levítico”, em que o legislador não escrupulisa em revelar as enfermidades secretas a que então estavam sujeitas as mulheres da sua raça. Daqui todas as precauções que toma para que as uniões sejam saudáveis e prolíficas.
Não pode explicar-se de outro modo o capitulo XVIII do “Levítico”, onde o legislador enumera todas as pessoas do sexo feminino, cujas túnicas não poderia levantar o bom israelita (‘turpitudinem non discoperies’), sob pena de desagradar ao Senhor.

Assim, pois, o hebreu não podia sem crime conhecer sua mãe ou sogra, sua irmã ou cunhada, sua filha ou neta, sua tia paterna ou materna, sua prima co-irmã ou sobrinha. Moysés julgou estabelecer d'este modo os graus de parentesco que tornam uma alliança incompatível e mais contraria ainda ao estado physico de uma sociedade, do que á sua organisação moral. Por motivos análogos, prohibiu também e ás vezes com pena de morte, ter copula com a mulher nos dias da sua indisposição menstrual. Verdade seja que o perigo era mais grave no povo hebreu do que em qualquer outro povo.
Por mais bellas que fossem as hebreias com os seus olhos negros e rasgados, a sua bocca voluptuosa com dentes de pérolas e lábios de coral, a sua estatura flexível, as suas formas opulentas, essas mulheres, cujo seductor retrato achamos no ‘Cântico dos Cânticos’, padeciam, segundo nos diz Moysés, enfermidades secretas, nas quaes certos archeologos da medicina pretenderam encontrar os symptomas da syphilis. Como esse mal, decerto, não lhes viria de Nápoles nem da America, achamos imprudente e arriscado pronunciarmo-nos em assumpto tão delicado. Em todo o caso, não podemos deixar de approvar as precauções de Moysés para perservar de tal infecção a saúde dos hebreus, e para impedir o gérmen da degeneração da sua raça.


Cortesia de pc 

Segundo outros commentadores, pouco ou nada competentes em medicina, mas atilados theologos por certo, não se tracta senão do fluxo de sangue e das hemorrhoidas n'esse terrível capitulo do “Levítico”, cuja traducção omittimos por decência. O texto da Vulgata não deixa dúvidas a respeito da natureza d'este fluxo, ou pelo menos da sua origem; (Vir qiii patitur fluxum semims immundus erit; et tunc indicabitur huic vitiis subjacere, cum per singiila momenta adhoeseri cari ejus atque concrererit foedus humor.) Eis aqui porque Moysés prescreveu abluções tão rigorosas e provas tão austeras aos que fluíam, segundo a expressão das traducçôes orthodoxas da Bíblia.
O enfermo que tornava impuro tudo aquillo que tocava e cujos vestidos deviam ser lavados no mesmo instante em que se manchavam, apresentava-se á entrada do tabernáculo ao oitavo dia do seu fluxo, e sacrificava duas rolas ou dois pombos, um pelo seu peccado, outro em holocausto. Estes dois pombos que o paganismo havia consagrado a Vénus, por causa do ardor e frequência das suas carícias, representavam evidentemente os dois auctores de um peccado que havia tido tão nojentas consequencias. O sacrifício expiatório não curava o enfermo, o qual permanecia separado de Israel e longe do tabernáculo até que terminava a sua doença.

Moysés dá ainda importantes regulamentos de policia tendentes a impedir quanto possivel que uma enfermidade immunda, que viciava as fontes da geração entre os hebreus, não se propagasse, aumentando os seus estragos e acabando por infeccionar todo o povo de Deus.
Apesar de tudo isto, a enfermidade tinha-se de tal modo agravado, e tanto se propagara, durante a estada do povo no deserto, que Moysés teve de expulsar do campo todos os que d'ella estavam atacados. Por ordem do Senhor, os filhos de Israel expulsaram também sem piedade nem compaixão todos os leprosos e todos os que fluíam. Podemos crer, sem receio de nos enganarmos, que aquelles desgraçados, a quem sem duvida o Senhor não enviou o manná, morreram á fome e ao frio, se não foi que succumbiram á sua cruel enfermidade.

Seja-nos lícito ainda attribuir a este mal estranho e odioso a lei dos zelos, que Moysés formulou para tranquillisar os maridos que accusavam suas mulheres de lhes haverem prejudicado a saúde, commettendo um adultério, de que ellas próprias conservavam a triste prova. Disputas frequentes e inextinguíveis surgiam por este motivo no interior das tendas. O marido desconfiava de sua mulher e procurava as provas das suas suspeitas no estado de saúde recíproca; a mulher jurava e perjurava em vão que não se havia manchado com o crime de adultério, imputando por sua vez ao marido as accusações que este lhe fazia. Então o marido e a mulher apresentavam-se ao sacrificador. O marido offertava por sua mulher um pequeno pão de cevada sem azeite, e os dois permaneciam de pé em presença do Senhor. O sacrificador collocava a offerenda nas mãos da mulher, tendo nas suas as aguas amargas que traziam a maldição.
  • «Se nenhum homem te conheceu, dizia-lhe, e se não te manchaste de impureza, estás isempta da maldição d’estas aguas. Se, porém, te manchaste, ou se qualquer homem além de teu marido te conheceu, que o Senhor te entregue á execração a que debaixo de juramento te sujeitas, e que estas aguas de maldição entrem nas tuas entranhas para te incharem o ventre e seccarem a perna»
A mulher respondia, assim seja, e bebia as aguas amargas, em quanto o sacrificador punha a offerenda sobre o altar. Se mais tarde o ventre da mulher inchava, ou a perna se lhe seccava, era convicta de adultério e vinha a ser infame aos olhos de Israel. O marido, pelo contrario, achava-se justificado, se não curado do seu mal, com a compaixão e os louvores do povo, que o chamava victima innocente, visto que, apesar de não ter bebido as aguas amargas em presença do sacerdote, tinha com frequencia a maior parte das enfermidades asquerosas e accidentes terríveis que a execração fazia pesar sobre sua mulher culpada. Quando esta podia manifestar a sua innocencia com o bom estado do seu ventre ou da sua perna, não tinha que soffrer mais as censuras de seu marido e podia ter filhos do seu sémen». In Pedro Dufour, História da Prostituição em todos os Povos do Mundo, Typ da Empreza Litteraria Luso-Brazileira, Pateo do Aljube 5, 1885, Library University of Toronto, May 23 1968, Lisboa.

Cortesia de Library University of Toronto/JDACT

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Pedro Dufour. História da Prostituição em todos os Povos do Mundo: Parte VI. «O fim evidente da lei de Moysés era impedir quanto fosse possivel que a raça hebreia degenerasse, em consequência dos excessos que já lhe haviam viciado o sangue e empobrecido a natureza. Estes excessos sensuaes acarretavam de mais a mais um grande prejuizo ao desenvolvimento da população e á saúde publica»

Cortesia de libraryuniversityoftoronto

NOTA: Texto na versão original

«É este por sem duvida o mais antigo exemplo de prostituição legal que a historia nos pode apresentar, pois que o facto referido por Moysés com todas as circumstancias que o caracterisam, remonta ao século XXI antes de Christo.
Vemos já a prostituta hebreia sentada á beira dos caminhos para se entregar ao primeiro viandante que a sollicite. Era este desde a mais remota antiguidade o papel que desempenhava a prostituição entre os hebreus. Os livros santos estão cheios de passagens que nos mostram as encruzilhadas dos caminhos como uns mercados do mais infame dos commercios, como umas feiras de meretrizes, que, envoltas n’um amplo veu, como n'um sudário, ou estavam inertes para alli, ou vestidas e adornadas com trajos e atavios deshonestos, queimando perfumes, entoavam voluptuosos cantos ao som da lyra, da harpa ou do pandeiro, e dançavam ao compasso da flauta e de outros instrumentos.

Não eram hebreias a maior parte das meretrizes, pois que a Escriptura lhes chama ordinariamente mulheres estrangeiras. Eram syrias, egypcias, babvlonias, que sobresaiam na arte lúbrica de excitar os sentidos. A lei mosaica prohibia expressamente ás mulheres hebreias de servirem de auxiliares da prostituição, posto o auctorisasse a respeito dos homens, uma vez que não o condemnava. Explica-se, pois, como as mulheres estrangeiras não tinham o direito de prostituir-se no recinto das cidades, e porque motivo os caminhos públicos tinham o privilegio de servir de asylo a estas leviandades.

Cortesia de libraryuniversityoftoronto

Não houve excepção n'estes costumes, senão em tempo de Salomão, que permittiu ás cortezãs o estabelecerem-se nas cidades. Nem antes nem depois d'esta regra se encontravam nas ruas de Jerusalém. Viam-se apenas sentadas como em vil e infame leilão ao longo dos caminhos, onde erguiam as suas tendas cobertas de pelles ou de panos de cores vivas. Quinze séculos depois da aventura de Thamar, dizia o propheta Ezequiel na sua linguagem symbolica:
  • «Tu estabeleceste, oh Jerusalém! um lupanar em cada encruzilhada; arvoraste em cada caminho a bandeira da tua deshonra, e fazendo o mais abominável emprego da tua belleza, entregaste-te a todos os que passavam».
A permanência dos hebreus no Egypto, onde os costumes estavam tão corrompidos, acabou de prevertel-os, fazendo-os retroceder ao estado da natureza. Viviam n'uma promiscuidade vergonhosa, quando Moysés os arrancou da escravidão e lhes deu um código de leis religiosas e politicas. Conduzindo-os á terra da promissão, teve necessidade de recorrer a uma penalidade terrível para conter os excessos da corrupção moral que deshonrava o povo de Deus.
O legislador fez-lhe ouvir do alto do Sinay estas palavras que o Senhor pronunciou em meio de relâmpagos e trovões : — Não fornicarás! Não desejarás a mulher do teu próximo!
Em seguida, o legislador não teve escrúpulo de regular em nome de Jehovah as formas de uma prostituição, que fazia essencialmente parte da escravatura.
  • «Se alguém vendeu como escrava uma sua filha, diz Moysés, esta não poderá abandonar o serviço do seu senhor á imitação dos outros servos. Se desagradar a seu senhor, este que a expulse, mas não terá poder para a vender a estrangeiros, se quizer desemharaçar-se d'ella. Se tomar outra, proverá ao dote e ao vestido da sua escrava e não lhe negará o preço do seu pudor. Faltando a estas condições, a escrava sahirá da sua escravidão sem dever cousa alguma ao seu senhor».

Cortesia de libraryuniversityoftoronto

Esta passagem, que os commentadores entenderam de diversos modos, prova á evidencia que entre os hebreus, pelo menos antes da redacção definitiva das tábuas da lei, o pae tinha o direito de vender sua filha a um senhor, que fazia d'ella sua concubina pelo tempo determinado no contracto da venda.
Vê-se também n'esta singular legislação que a filha vendida d'este modo em proveito de seu pae não obtinha nenhuma vantagem pessoal pelo sacrifício a que se obrigava, excepto no caso em que o senhor, depois de a ter promettido a um filho seu, quizesse substituil-a por outra concubina. Fica, pois, claramente estabelecido que os hebreus traficavam entre si com a prostituição de seus filhos. Moysés, o sábio legislador que fallava aos hebreus pela bocca de Jehovah, dirigia-se a peccadores incorregiveis, e teve de deixar-lhes por prudência, e como indemnisação do que lhes tirava, a liberdade de terem commercio com meretrizes estrangeiras. No emtanto, foi intransigente com a sodomia e a bestialidade.
  • «O que tiver relações carnaes com uma besta de carga, será punido de morte», diz elle no Êxodo, cap. XXII;
  • «Não terás relações sexuaes com um homem como com uma mulher, diz ainda o legislador no Levitico, cap. XVIII, porque é uma abominação;
  • «Não cohabitarás com as bestas nem te mancharás com ellas;
  • «A mulher não se prostituirá com um animal, nem se misturará com elle, porque é uma abominação.

Cortesia de libraryuniversityoftoronto

No emtanto, ao passo que fallava d'estas abominações, Moysés, desculpa os hebreus, que não as tinham inventado e que as commettiam a exemplo, de outros povos.
  • «Os povos que eu aparto do vosso lado, diz o caudilho de Israel, estão manchados por todas as torpezas sensuaes. A terra que habitam está maldita, e eu vou castigar a sua iniquidade, e a terra tragará os seus habitantes».
Moysés, que conhece a obstinação do seu povo nos seus infames costumes, junta a ameaça aos rogos, para vêr se consegue pôr um freio salutar aos desarranjos dos sentidos. «Todo aquelle que tiver feito uma só destas abominações será tirado do meu povo».
Todavia não era isto ainda bastante para intimidar os culpados, e o legislador insiste muitas vezes na penalidade que se lhes deve applicar:
  • «Os dois auctores da abominação morrerão igualmente apedrejados ou queimados, o homem e a besta, a besta e a mulher, o varão e o seu cúmplice varão».
Moysés tinha, pois, previsto que o sexo feminino podia também entregar-se a similhante monstruosidade, e recommendava constantemente aos israelitasa necessidade de não se parecerem com os povos que ia expulsar da terra de Chanaan.

O fim evidente da lei de Moysés era impedir quanto fosse possivel que a raça hebreia degenerasse, em consequência dos excessos que já lhe haviam viciado o sangue e empobrecido a natureza. Estes excessos sensuaes acarretavam de mais a mais um grande prejuizo ao desenvolvimento da população e á saúde publica. Taes foram, por certo, os dois principaes motivos que determinaram o legislador a não tolerar a prostituição legal senão entre as mulheres estrangeiras. Entre as mulheres do seu povo prohibia-a absolutamente (23)». In Pedro Dufour, História da Prostituição em todos os Povos do Mundo, Typ da Empreza Litteraria Luso-Brazileira, Pateo do Aljube 5, 1885, Library University of Toronto, May 23 1968, Lisboa.

Cortesia de Library University of Toronto/JDACT

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Pedro Dufour. História da Prostituição em todos os Povos do Mundo: Parte V. «Judá apressou-se a cumprir a sua palavra, mandando-lhe por «um pastor o prometido cordeiro, e dando ordem ao seu emissário para receber da mulher com quem estivera os objectos que lhe deixara. Como o pastor não encontrasse, porém, no sítio indicado pelo amo aquela a quem procurava, perguntou aos que passavam…»

Cortesia de LibraryUniversityofToronto

«O dilúvio renovou a superfície da terra, mas as paixões e vícios, que Deus quisera afogar nas grandes águas, de novo apareceram e se multiplicaram com os homens. Nem a própria hospitalidade foi uma coisa respeitada e respeitável nas cidades malditas da Pentapole. Quando os dois anjos que haviam anunciado a Abrahão que Sara, a sua velha esposa, lhe havia de dar um filho, foram a Sodoma e se hospedaram em casa de Loth para ali passarem a noite, os habitantes da cidade, desde o mais novo até ao ancião, cercaram a casa, e chamando por Loth, disseram-lhe:
—Onde estão esses mancebos que vieram visitar-te? Obriga-os a sair, porque os queremos conhecer.
— Meus irmãos, rogo-vos que não ofendais os meus hóspedes. Tenho duas filhas que ainda não conheceram varão. Entregar-vol-as-hei para que façais delas o que quiserdes, contanto que respeiteis estes mancebos, que recebi debaixo do tecto da minha casa.
Loth, que assim fazia o sacrifício do pudor de suas filhas à hospitalidade, não leria concedido de boamente aos seus dois hospedes o que oferecia bem a seu pesar a uma populaça indigna?
Enquanto às filhas deste patriarca, o espectáculo da chuva de fogo sobre Sodoma e Gomorra não lhes inspirou sentimentos de pudor e de continência. Ambas elas, uma após a outra, abusaram estranhamente da embriaguez de seu desgraçado pai. Temos neste caso a prostituição, apesar de que ela não seja ainda a legal, a que se realiza em virtude de um uso que a lei não condena. Esta espécie de prostituição manifesta-se entre os hebreus desde o tempo dos patriarcas, dezoito séculos antes de Cristo, na época em que o casto Joseph, escravo e intendente do eunuco Putiphar no Egipto, resistia às impúdicas provocações da mulher do seu senhor, deixando-lhe entre as mãos a capa, afim de poder salvaguardar a virtude.

Cortesia de LibraryUniversityofToronto

Um dos irmãos de Joseph, Judá, o quarto filho de Jacob, casara sucessivamente com uma rapariga chamada Thamar dois filhos que tinha tido de uma chananéa. Estes dois filhos, Her e Onan, morreram sem sucessão, e a viúva dispunha-se a contrair terceiro matrimónio com o último irmão, chamado Sela. Judá, porém, não quis consentir neste novo matrimónio, para o qual os precedentes, que haviam sido estéreis, eram de mau agouro. Thamar, descontente com esta oposição do sogro, imaginou um meio bem singular de lhe provar que não era ela a infecunda. Sabendo que Judá tinha de ir aos montes de Tinnath proceder à tosquia dos seus gados, despojou-se dos seus vestidos de viúva, ataviou-se com outros mais alegres, cobriu o rosto com um véu, e foi sentar-se na encruzilhada de um caminho por onde o velho tinha de passar.
Quando Judá a viu, julgou que aquela mulher era uma meretriz, e aproximando-se dela, disse-lhe:
— Queres que me detenha contigo?
— E que me darás em paga das minhas carícias?, perguntou-lhe Thamar.
— Mandar-te-ei o melhor cordeiro dos meus rebanhos.
— Faça-se em mim segundo o teu desejo, se me deixares uma prenda até que cumpras a tua promessa.
— E que prenda queres tu que te dê ?
— O teu anel, o teu bracelete e esse báculo que levas na mão.

Judá deteve-se com ela, e Thamar concebeu.

Cortesia de LibraryUniversityofToronto

Em seguida continuou o seu caminho, separando-se de Thamar, que voltou a casa e tornou a envergar a sua lutuosa túnica.
Judá apressou-se a cumprir a sua palavra, mandando-lhe por «um pastor o prometido cordeiro, e dando ordem ao seu emissário para receber da mulher com quem estivera os objectos que lhe deixara. Como o pastor não encontrasse, porém, no sítio indicado pelo amo aquela a quem procurava, perguntou aos que passavam:
— Sabeis para onde iria a meretriz que costumava estar sentada neste sitio ?
— Neste sítio, responderam-lhe, nunca houve meretriz nenhuma.
O rapaz, de volta a Tinnath, disse a seu amo:
— Não encontrei a mulher, e os passageiros a quem pedi informações disseram que não havia meretrizes naquele sítio.
Pouco tempo depois, anunciaram a Judá que Thamar estava grávida, e, ao saber de tal escândalo, o velho indignado ordenou que fosse imediatamente queimada como adúltera. Foi então que Thamar lhe fez reconhecer o autor do fruto que trazia nas entranhas, restituindo-lhe o anel, o bracelete e o báculo (21)». In Pedro Dufour, História da Prostituição em todos os Povos do Mundo, Typ da Empreza Litteraria Luso-Brazileira, Pateo do Aljube 5, 1885, Library University of Toronto, May 23 1968, Lisboa.

Com a amizade de PC.
Cortesia de Library University of Toronto/JDACT

sábado, 9 de abril de 2011

Pedro Dufour: História da Prostituição em todos os Povos do Mundo. Parte IV. «Ptolomeu Philadelpho teve a seu serviço um grande número destas cortesãs. Uma delas, Cleiné, exercia as funções de copeira, e o seu real amante mandou erigir-lhe estátuas, em que a cortesã era representada vestida com uma túnica flutuante, e tendo na mão um rithon, ou taça»

Cortesia de libraryuniversityoftoronto

«Depois de Rodopisa, outra cortesã chamada Archidice adquiriu também pelos mesmos meios uma celebridade ruidosa, posto que, na opinião de Heródoto, essa celebridade estivesse longe de igualar a da sua predecessora. No entanto, sabe-se que ela punha um preço tão elevado aos seus favores, que ainda os homens mais ricos tinham de arruinar-se para comprá-los. E, contudo, foram muitos os que se arruinaram. Um moço egípcio, doidamente enamorado dela, quis depôr-lhe aos pés a sua fortuna: como ela não atingisse, porém, o preço estipulado, Archidice repeliu-o, recusando-lhe desdenhosamente as riquezas.

O apaixonado da cortesã nem mesmo assim se deu por vencido, e invocando Vénus, a deusa complacente concedeu-lhe em sonhos gratuitamente o que só poderia possuir em realidade por um preço exorbitante. A cortesã veio a saber o que se tinha passado sem o seu concurso, e chamou à presença dos magistrados aquele devedor insolvente, exigindo-lhe o preço do seu deleite. Os magistrados julgaram esta estranha causa com a maior sabedoria, autorizando solenemente Archidice a sonhar que havia sido paga. 


Cortesia de libraryuniversityoftoronto

A grande época das cortesãs egíãs egíãs egíãs egíãs egípcias parece haver sido a dos Ptolomeus, três séculos antes de Cristo, mas já então entre aquellas muheres célebres umas eram gregas, outras asiáticas, e quase todas elas haviam começado a sua carreira por tocar flauta nos banquetes dos magnates.
Ptolomeu Philadelpho teve a seu serviço um grande número destas cortesãs. Uma delas, Cleiné, exercia as funções de copeira, e o seu real amante mandou erigir-lhe estátuas, em que a cortesã era representada vestida com uma túnica flutuante, e tendo na mão um rithon, ou taça.
Outra cortesã famosa, Mnesyde, deleitava os ócios do monarca com os sons da sua lira; Pothyne entretinha-o com a graça e vivacidade da sua alegre conversação; Myrteon, que ele havia arrancado um dia de um lugar de prostituição frequentada pelos barqueiros do Nilo, embriagava-o com as delícias do seu amor. Este Ptolomeu pagava generosamente todos os serviços que se lhe prestavam, e honrou com um soberbo mausoléu a memoria de Stratonice, que lhe bavia deixado dulcíssimas recordações, apesar de ser grega e não egípcia.


Cortesia de libraryuniversityoftoronto

Aquele rei voluptuoso não manifestava repugnância alguma pelas filhas da Grécia, e por isso mandou vir de Argos a formosa Bibitica, que descendia da raça dos Atrides, apesar de procurar esquecer a sua origem o mais alegremente que podia. Ptolomeu Evergetes, filho do Philadelpho, não prodigalizou tanto os seus amores, como o seu real progenitor, contentando-se com Ireve, que levou para Epheso, capital do seu governo, e onde viveu exclusivamente com ela até ao seu último momento.
Ptolomeu Philopator deixou-se dominar por uma astuta cortesã chamada Agathoclea, que reinou sob o seu nome no Egipto com a mesma autoridade que exercia no interior do seu palácio, e tudo isto muito a contento do débil Philopator. Outro Ptolomeu não podia passar sem uma hetaria subalterna, a quem chamava Hippea, ou Égua, porque esta cortesã dividia as suas carícias entre o rei o o seu palafreneiro-mór. O monarca gostava muito de beber com ela. Um dia em que a cortesã bebeu excessivamente, Ptolomeu disse-lhe rindo-se, e passando-lhe a mão pelas costas:
  • A minha Égua comeu hoje muito feno...
Daqui a alcunha de Hippea, ou Égua, porque daí avante foi sempre designada.


Cortesia de libraryuniversityoftoronto
  
Os Hebreus, oriundos da Caldea, haviam dali trazido os costumes da vida pastoril. Podemos, portanto, dizer com segurança que a prostituição hospitalar existiu desde as épocas mais remotas tanto na raça judia como entre os pastores chaldeus. Nos livros santos encontram-se vestígios desta asserção. No entanto, a prostituição sagrada era fundamentalmente antipática à religião de Moisés, e este grande legislador, queestava firmemente resolvido a pôr um freio a um povo preverso e corrompido, esforçou-se em reprimir em nome de Deus os espantosos excessos da prostituição legal. Daqui essa dura e terrível penalidade que traçou com caracteres de sangue nas tábuas da lei, e que mal bastava para conter as monstruosas desordens do povo escolhido.
O mais antigo exemplo que talvez exista da prostituição hospitalar temos de procurá-lo no Genesis. No tempo de Noé os filhos de Deus ou os anjos desceram à terra para conhecerem as filhas dos homens, e tiveram delas filhos, que foram os gigantes. Estes anjos vinham pela noite adiante à tenda de um patriarca pedir-lhe hospitalidade, e deixavam-lhe, ao retirarem-se mais ou menos satisfeitos do que tinham encontrado, vivas recordações da sua visita.
O Génesis não nos diz por que sinal autêntico podia distinguir-se um anjo de um homem; o caso apenas se revelava ao cabo de nove mess pelo nascimento de um gigante. Estes gigantes não herdavam as virtudes de seus pais no meio da profunda iniquidade sempre crescente em que jaziam os homens dessa época; de modo que o Senhor, indignado de ver a espécie humana tão degenerada e corrompida, arrependeu-se de a ter criado e resolveu aniquilá-la, com excepção de Noé e de sua familia». Pedro Dufour, Library University of Toronto, May 23 1968, Lisboa, Typ da Empreza Litteraria Luso-Brazileira, Pateo do Aljube 5, 1885.
 
Com a amizade de PC.
Cortesia de Library University of Toronto/JDACT

quarta-feira, 23 de março de 2011

Pedro Dufour: História da Prostituição em todos os Povos do Mundo. Parte III

Cortesia de wikipedia 

«As horriveis desordens, a que dava ocasião o culto de Ísis, praticavam-se nos subterrâneos, onde o iniciado não penetrava senão depois de um certo tempo de prova e purificação. Heródoto, contidente e testemunha desta prostituição, que os sacerdotes egípcios lhe haviam revelado, diz a tal respeito o suficiente para que as suas próprias reticências nos permitam adivinhar o o que não diz.

«Foram os egípcios os primeiros que por principio de religião proibiram ter-se comércio com as mulheres nos lugares sagrados e ainda mesmo entrar nesses lugares depois de relações carnais com o outro sexo, sem previamente se ter procedido a abluções. Quase todos os povos, exceptuando o Egipto e a Grécia, têm comércio carnal nos lugares sagrados, ou entram nesses lugares sem se lavarem depois de o haverem tido em lugar profano. Julgam que nisto os homens devem proceder exactamente como os animais. E, se não, dizem eles, veja-se como os animais e as diferentes espécíes das aves se cobrem os templos e nos outros lugares consagrados aos deuses: se esta acção fora desagradável à divindade, não a praticariam os próprios irracionais».

Cortesia de wikipedia
A história dos reis do Egipto apresenta-nos todavia na obra do citado historiador dois estranhos exemplos de prostituição legal. Ramsés, que reinou pelo ano de 2244 antes de Jesus Cristo, querendo descobrir um hábil ladrão que lhe havia roubado o seu tesouro, imaginou uma astúcia, que parece inacreditável, diz Heródoto, cuja credulidade havia sido posta à prova com muita frequência: «prostituiu sua própria filha, ordenando-lhe que fosse a um lugar de libertinagem e que ali aceitasse sem escolha nem preferência todos os homens que se lhe apresentassem, com a condição de cada um delles lhe dizer previamente tudo quanto na sua vida tivesse feito em questões de malvadez ou de astúcia». O ladrão amputou um braço a um cadáver, escondeu-o debaixo do manto e foi visitar a filha do rei, gabando-se-lhe da astúcia e subtileza com que havia roubado o tesouro. A princesa ao ouvir semelhante revelação procurou retê-lo, visto que para isso estava naquela degradação, mas como ambos se achavam às escuras não apanhou senão o braço do morto, em quanto o vivo se punha a salvo. Esta nova subtileza de tal modo o recomendou à estima do rei, que este lhe perdoou o roubo e o casou com a filha, que ele já havia conhecido naquele lugar impúdico.

Cortesia de wikipedia 
«Colocado om grande apuro em consequência do enorme dispêndio da construção, diz Heródoto, o rei chegou á extrema infâmia de desonrar sua própria filha, enviando-a para um lugar de prostituição, com ordem de extorquir aos seus amantes uma certa soma de dinheiro. Ignoro a cifra que atingiu esse dinheiro, porque os sacerdotes não me revelaram esse pormenor; o que sei é que a princesa não só executou à risca as ordens de el-rei seu pai, mas até quis fazer à sua custa outro monumento. E, para isso, ordenava a todos os que iam ter com ela que lhe levassem uma pedra para certa obra que desejava fazer. Essa obra, segundo os sacerdotes me asseveraram, foi a pirâmide do meio».
A ciência moderna não calculou por enquanto o número de pedras que entraram na construção desse monumento. A construção de uma pirâmide, por mais dispendiosa que fosse, não parecia superior aos recursos de uma cortesã. Por isso, apesar da cronologia e da história, atribuia-se geralmente no Egipto a construção da pirâmide de Micerino à cortesã Rodopisa. Esta cortesã não era egípcia de nascimento, mas havia feito no Egipto a sua fortuna muito tempo depois do reinado de Micerino.
Rodopisa, viveu em tempo de Amasis, era oriunda da Thracia, e fora companheira de escravidão do célebre fabulista Esopo em casa de Yadmon em Samos.

Foi conduzida ao Egypto por Xanto, de Samos, que fazia com ela uma especulação infame, ainda que muito lucrativa por certo, tendo-a comprado expressamente para este fim. A fama da sua beleza e encantos atraíra-lhe uma grande multidão de amantes, e entre eles Caraxo, de Mytelene, irmão da célebre poetisa Sapho. Este mancebo de tal modo se apaixonou da formosa cortesã que chegou a dar uma soma considerável pelo seu resgate.

Cortesia de wikipedia
Apenas se viu liberta da escravidão infame em que vivera, Rodopisa permaneceu no Egipto, onde a sua formosura e talento lhe grangearam uma fortuna fabulosa, de que fez um uso bem singular, empregando a décima parte na construção de uns colmilhos de ferro, que ofereceu, não se sabe bem em virtude de que voto, ao templo de Delphos, onde existiam ainda no tempo de Heródoto.

Este grave historiador fala desses dentes simbólicos, como de uma coisa insignificante, sem procurar investigar a significação daquela estranha oferenda. No tempo de Plutarcho apenas se mostrava já o sítio em que haviam estado. A tradição popular de tal modo chegou a confundir os colmilhos do templo de Apolo em Delphos e a pirâmide de Micerino, construída muitos séculos antes deles, que todos no Egipto se obstinavam em atribuir a Rodopisa a construção desta pirâmide. Segundo uns, fora ela que havia custeado a obra: segundo outros, (Strabão e Diodoro da Sicília seguem ao que parece esta errónea opinião) foram os seus amantes que mandaram erigir a pirâmide à sua custa para comprazerem com os desejos que a tal respeito lhes manifestara a cortesã. Donde temos de coligir que esta mulher ambiciosa era muito afeiçoada às pirâmides.
Rodopisa, a quem os gregos chamam Dórica, célebre em toda a Grécia, abriu a lista dos seus amantes por Esopo, que, feio e corcunda como era, deu uma das suas fábulas para obter todos os favores da bela Rodopisa. O beijo lascivo do poeta designou-a aos olhares da posteridade. O belo Caraxo, a quem a cortesã devia a liberdade e a base da sua opulência, permitiu-lhe que se estabelecesse em Neueralis, onde ia vê-la todas as vezes que se dirigia ao Egipto para negociar com os seus vinhos. Rodopisa amava este galhardo mancebo o suficiente para lhe ser fiel enquanto ele permanecia em Neucratis, onde ia, como os leitores supõem, levado mais pelo amor do que pela ideia do comércio.

Cortesia de wikipedia
Numa das ausências do apaixonado Caraxo, Rodopisa, sentada no terraço do seu palácio, contemplava a corrente do Nilo, procurando descobrir no horisonte a vela do navio que havia de trazer o seu amado. Uma das sandálias tinha-lhe escorregado do pé e cintilava com os seus ricos bordados de ouro e pedraria em cima de um tapete; uma águia viu a primorosa sandália, desceu rápida sobre ela, e levou-a no bico para as alturas.
Nessa ocasião o rei Amasis achava-se em Neucratis com a sua corte. A águia que havia roubado a sandália da formosa cortesã, sem que ela tivesse dado por tal coisa, foi deixá-la cair sobre os joelhos do faraó.

Nunca o rei vira em sua vida uma sandália tão pequena e graciosa, e teve a curiosidade de saber quem seria a dona daquela jóia delicada. Quando conseguiu descobri-la, depois de ter calçado aquela preciosidade nos pés de todas as mulheres do seus estados, fez de Rodopisa a sua favorita. Apesar disto a favorita de Amasis não renunciou ao amor de Caraxo, e a Grécia celebrou nos cantos dos seus poetas os amores de Dórica, a quem Sapho, irmã de Caraxo, perseguiu com as suas amargas censuras.  
«Um laço de fitas vistosas adornava as tuas compridas tranças, perfumes voluptuosos exalavam-se da tua flutuante túnica. E, tão exaltada como o vinho que ferve em cristalinas taças, apertas em teus braços o belo Caraxo... Os versos de Sapho asseguram-te a imortalidade, e Neucratis conservará a memória dos teus amores, enquanto as curvas quilhas fenderem as águas do majestoso Nilo».

Neucratis era a cidade das cortesãs. Parece que todas ali haviam aproveitado as lições de Rodopisa. Os seus encantos e seduções fizeram por muito tempo as delícias da Grécia, que enviava com frequência a Neucratis os seus libertinos, e todos eles volviam à pátria, contando maravilhas da divina prostituição do Egipto.

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Cortesia de Library University of Toronto/JDACT