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domingo, 8 de outubro de 2023

Amante de Amores Fortuitos. João IV. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «António Caetano de Sousa refere que dona Maria nasceu a 31 de Abril; no entanto, considerando que Abril só tem 30 dias, assumimos o último dia do mês para o seu nascimento»

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Restauração

«(…) Do nascimento de dona Maria só se conhece a data: 30 de Abril de 1.644. Criada em casa do secretário de Estado António Cavide, ingressa a 25 de Março de 1650 no Convento de Santa Teresa de Carnide, com o objectivo de receber as instruções da madre Micaela Margarida de Santa Ana, também ela filha ilegítima (e nunca legitimada) do imperador Matias da Alemanha. A paternidade é claramente escondida, sendo conhecida apenas numa esfera muito restrita. É reconhecida por João IV no seu testamento, de 2 de Novembro de 1656, sendo que o pai nunca antes a vira ou lhe escrevera, como atesta na carta que já moribundo envia à filha, datada de 4 de Novembro de 1656. No seu testamento, João IV faz-lhe várias doações, que são imediatamente confirmadas por Afonso VI, por decreto de 18 de Novembro de 1656, em que usa já a fórmula E pela boa vontade, que tenho a dona Maria minha muito amada, e prezada irmã. Assim, podemos datar de 1656 o nascimento» de uma nova tnfanta de Portugal, com 12 anos de idade, reconhecida como filha e irmã de rei, estatuto que lhe valerá várias honras régias e eclesiásticas, que saberá sempre utilízar ao longo da sua vida.

A relação de dona Maria com os irmãos é bastante próxima, sobretudo com a irmã rainha de Inglaterra, dona Catarina, que chega a enviar-lhe uma menina para criar junto de si no convento, sendo inúmeras as missivas trocadas que revelam grande estima e carinho.

Mas da mãe, de dona Maria de São João Baptista, sabe-se apenas que ficou o resto da vida no convento, recebendo uma mesada do rei para as suas despesas.

António Caetano de Sousa refere que dona Maria nasceu a 31 de Abril; no entanto, considerando que Abril só tem 30 dias, assumimos o último dia do mês para o seu nascimento». In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia ELivros/JDACT

 JDACT, História, Cultura e Conhecimento, Escrita, Aspectos de Vida Quotidiana,

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Amante de Amores Fortuitos. João IV. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «Para o reconhecimento diplomático internacional da legitimidade dos Bragança, era preciso conseguir alianças matrimoniais»

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Restauração
«(…) Na corte lisboeta, o descontentamento face à governação filipina começava gradualmente a fazer-se sentir. A pressão fiscal, a ameaça aos privilégios tradicionais da Igreja, a distância da corte régia e as inerentes repercussões negativas em matéria de administração de graça abriram caminho ao movimento conhecido por Restauração da Independência. A 1 de Dezembro de 1640, um grupo de conjurados que escolhera João para seu líder, quase todos, como repara Mafalda Soares Cunha, jovens e da média fidalguia, levou a cabo uma revolta preparada sigilosa e cuidadosamente durante meses.
A execução do golpe foi rápida e bem sucedida, apanhando os representantes políticos de Filipe IV de surpresa. E a 6 de Dezembro de 1640, o duque João entrava em Lisboa. Portugal tinha um novo rei. Os primeiros tempos de governação de João IV não foram fáceis. O agora monarca teve que lidar com questões díspares como a legitimidade do acto restauracionista, a gestão das sensibilidades da aristocracia laica e eclesiástica, as possessões ultramarinas, a guerra da Restauração, canalização de dinheiro para as campanhas militares, apenas para salientar alguns exemplos. Para o reconhecimento diplomático internacional da legitimidade dos Bragança, era preciso conseguir alianças matrimoniais. Neste contexto, os filhos do casal régio seriam fundamentais, mas apenas a filha, dona Catarina, concretizaria tais planos.

Os filhos legítimos e ilegítimos
João IV e dona Luísa de Gusmão tiveram uma significativa prole. Teodósio foi o primeiro filho do casal. Nasceu em Vila Viçosa, a 8 de Fevereiro de 1634, e morrerá a 13 de Maio de 1653. Era o herdeiro da coroa. Seguiu-se-lhe uma menina, dona Ana, que nasceu em Vila Viçosa a 21, de Janeiro de 1635, vindo a morrer poucas horas depois. Dona Joana nasceu em Vila Viçosa a 18 de Setembro de 1636 e morreu no mesmo ano em que o filho primogénito dos Bragança desaparecia.
Dona Catarina nasceu a 25 de Novembro de 1638 e será peça diplomática fundamental para a consolidação da dinastia de Bragança. Em 1662 casa com Carlos II de Inglaterra, reino onde viveu durante quase 30 anos, regressando após a morte de seu marido a Portugal. Será regente do reino em substituição de seu irmão, Pedro II, em 1704 e 1705. Manuel nasceu a 6 de Setembro de 1640 e, à semelhança da pequena dona Ana, morreu no mesmo dia. Já enquanto reis, nasceram na corte lisboeta Afonso, a 21 de Agosto de 1643, e o último filho do casal, Pedro, a 26 de Abril de 1648.
Como todas as outras, as mais importantes relações são aquelas que se denunciam quando nasce o fruto desses amores ilegítimos. Que se conheça, João IV tem uma filha bastarda, Maria, cuja mãe era criada de varrer no paço. Após o parto, a criança é retirada à mãe, e esta entrará no Convento de Chelas, onde tomará o nome religioso de dona Maria de São João Baptista». In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia ELivros/JDACT

domingo, 4 de setembro de 2016

Mulheres. Charles Bukowski. «Acabei a segunda parte da leitura e esqueci Lydia exactamente como me esquecia das mulheres com que me cruzava na rua. Recolhi o meu dinheiro, escrevi em alguns guardanapos, alguns bocados de papel e depois fui de carro para casa»

jdact e wikipedia

«Eu tinha cinquenta anos e há quatro que não ia para a cama com uma mulher. Não tinha amigas. Quando passava por elas, na rua ou onde quer que as via, olhava, mas olhava sem desejo e com desinteresse. Mastur… regularmente, e a ideia de ter uma relação com uma mulher, mesmo em termos não sexuais, estava muito longe da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima, com seis anos de idade. Ela vivia com a mãe e eu pagava uma pensão. Casara-me aos 35 anos, há alguns anos atrás. Este casamento durou dois anos e meio. A minha mulher divorciou-se de mim. Só estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo crónico. Morreu aos 48, quando eu tinha 38. A minha mulher era doze anos mais nova do que eu. Acredito também que ela esteja morta, embora não tenha a certeza. Durante seis anos, depois do divórcio, ela escrevia-me pelo Natal uma longa carta. Nunca respondi... Não sei quando vi Lydia Vance pela primeira vez. Foi há cerca de seis anos, tinha eu acabado de abandonar um emprego de doze anos como funcionário dos correios, e tentava tornar-me escritor. Estava mais aterrorizado e bêbedo do que nunca. Debatia-me com o meu primeiro romance. Todas as noites, enquanto escrevia, esvaziava meia garrafa de whisky e duas embalagens de seis cervejas. Fumava cigarros baratos e escrevia à máquina, bebia e ouvia música clássica pela rádio até amanhecer. Impus-me um objectivo de dez páginas por noite, mas nunca sabia até ao dia seguinte quantas tinha escrito. De manhã levantava-me, vomitava, dirigia-me para a sala da frente e olhava para o sofá para ver quantas lá estavam. Excedia sempre as minhas dez. Por vezes eram 17,18, 23, 25 páginas. Claro, o trabalho de cada noite teria de ser limpo ou deitado fora. Para escrever o meu primeiro romance levei vinte e uma noites.
Os donos da casa onde então vivia, e que moravam nas traseiras, pensavam que eu era maluco. Quando acordava de manhã, estava um grande saco de papel castanho à porta. O conteúdo variava algumas vezes, mas habitualmente era tomates, rabanetes, laranjas, cebolas verdes, latas de sopa, cebolas vermelhas. De vez em quando eu bebia cerveja com eles até às 4 ou 5 da manhã. Habitualmente o velho desaparecia, e eu e a velha aproveitávamos para nos darmos as mãos, e às vezes até a beijava. À porta, dava-lhe sempre um grande beijo. Ela era terrivelmente enrugada, mas nada podia contra isso. Era católica e ficava muito gira quando punha o seu chapéu cor-de-rosa para ir à igreja ao domingo de manhã. Penso que encontrei Lydia Vance na minha primeira leitura de poesia. Foi numa livraria da Kenmore Avenue, The Drawbridge. Estava, mais uma vez, aterrorizado. Vaidoso, mas aterrorizado. Quando entrei só havia lugares em pé. Peter, que se ocupava da livraria e vivia com uma preta, tinha uma pilha de notas à sua frente. Mer…, pensei, se eu conseguisse juntar sempre assim tantas, teria dinheiro suficiente para fazer outra viagem à Índia! Entrei e eles começaram a aplaudir. No que diz respeito à leitura de poesia, ia de facto ser de arromba. Eu li durante meia hora e fiz um intervalo. Ainda estava sóbrio e podia sentir no escuro os olhos presos em mim. Vieram algumas pessoas falar comigo. Depois, no momento em que eu estava mais livre, Lydia Vance aproximou-se. Eu bebia cerveja sentado a uma mesa. Ela pousou as duas mãos no rebordo da mesa, inclinou-se e olhou para mim. Tinha longos cabelos castanhos, na verdade muito compridos, um nariz proeminente e era estrábica. Mas desprendia vitalidade, sabia-se que ela estava ali. Eu sentia passarem vibrações entre nós. Algumas eram confusas e não muito boas, mas estavam ali. Ela olhou-me e eu devolvi- lhe o olhar. Lydia Vance usava um casaco de cowgirl em camurça, com uma franja à volta do pescoço. O seu peito era mesmo bom. Eu disse- lhe: gostaria de arrancar essa franja do seu casaco podíamos começar por aí!. Lydia afastou-se. Não tinha pegado. Eu nunca sabia o que dizer às mulheres. Mas ela tinha cá um traseiro. O fundo das suas calças de ganga moldavam-no na perfeição, e eu continuava a fixá-lo enquanto ela se afastava.
Acabei a segunda parte da leitura e esqueci Lydia exactamente como me esquecia das mulheres com que me cruzava na rua. Recolhi o meu dinheiro, escrevi em alguns guardanapos, alguns bocados de papel e depois fui de carro para casa. Nessa altura ainda passava noites a trabalhar no meu romance. Nunca começava a trabalhar antes das 6 e 18 da tarde. Dantes, a essa hora, estava eu a carimbar e a selar no terminal dos Correios. Eram 6 horas da tarde quando Peter e Lydia Vance chegaram. Abri a porta. Peter disse: olha, Henry, olha o que eu te trouxe. Lydia saltou para a mesa de café! As suas calças de ganga moldavam-na mais do que nunca. Ela sacudia para a esquerda e para a direita os seus longos cabelos castanhos. Era louca; era milagrosa. Pela primeira vez pus seriamente a hipótese de fazer amor com ela. Pôs-se a recitar poemas. Era muito mau. Peter tentou pará-la: não! Não! Nada de poesia rimada na casa de Henry Chinaski!. Deixa-a continuar, Peter! Eu queria olhar para as suas nádegas. Ela fazia trepidar a velha mesa de café. Depois dançou. Agitava os braços. A poesia era péssima, mas não o corpo nem a sua loucura. Lydia saltou para o chão. Gostaste, Henry? De quê? Da poesia. Não muito. Lydia ficou imóvel com os poemas na mão. Peter agarrou-a. Vamos f…!, disse-lhe. Anda, vamos f…! Ela repeliu-o. Está bem, disse Peter. Se assim é, vou-me embora! Então vai. Eu tenho o meu carro, disse Lydia. Posso ir para casa sozinha». In Charles Bukowski, Mulheres, 1978, 1985, Publicações dom Quixote, 2001, ISBN 978-972-202-006-0.

Cortesia de EdomQuixote/JDACT

sábado, 3 de setembro de 2016

Em Busca de Prazeres Desordenados. Luís I. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «Os primeiros anos de casamento são marcados por uma forte paixão entre Luís e Maria. A cumplicidade em tudo, incluindo na intimidade»


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«Luís nasceu em Lisboa, no Paço das Necessidades, a 31 de Outubro de 1838. A infância decorreu na família numerosa de sete irmãos, cujos laços eram muito fortes. O infante Luís, Lipipi, como era tratado no seio familiar, mostrou-se, desde cedo, completamente diferente de seu irmão Pedro. Como não seria rei, a sua educação foi sendo um pouco menos severa que a do príncipe herdeiro e os companheiros com quem foi crescendo também não eram a melhor escolha. O próprio Fernando incentivava a procura de prazeres desordenados, nos quais se incluía um grande apetite, que acompanhará Luís Iao longo da sua vida. O contraste entre os irmãos foi-se acentuando cada vez mais e Pedro era extremamente duro nas palavras que usava para referir-se a Lipipi: indolente, com uma educação literária inadequada, arrogante, porque o puseram num barco português em vez de ser subalterno num barco inglês.
O tempo passado na Marinha influenciou o jovem infante. Os oficiais da Marinha eram conhecidos como homens galantes que despertavam paixões em todos os portos onde atracavam e que causavam, por vezes, problemas graves. Tal foi o caso, relatado pelo marquês do Lavradio, passado na Madeira, onde o conde de Óbidos se enamorou de uma noiva, que cancelou o casamento e que anos mais tarde, casada com um outro homem e já depois da morte do conde de Óbidos, confessava ainda ter saudades dele. O infante Luís seguia decerto a regra comportamental dos seus companheiros e a entrada na Marinha correspondeu, ao que tudo indica, às suas primeiras experiências sexuais. A liberdade que se vivia era demasiada, sobretudo para um infante que nos primeiros anos de vida teve de viver na corte e comportar-se adequadamente. Não restam dúvidas de que Luís gostava da vida que levava, em que eram indissociáveis o vinho e as mulheres: mas todo o marinheiro deve saber duas coisas na perfeição: comportar-se com as mulheres (quer dizer f...) e beber sem se embebedar. Não sei porquê, mas está na natureza das coisas. Também na governação a diferença entre os dois irmãos se vai notar. Segundo Vital Fonte, o infante Luís era muito agradável e liberal. Ao contrário do irmão Pedro não remava contra a maré, antes procurava o favor dos ventos, que para isso era um grande marinheiro. E soube conduzir bem o barco da governação. Foi de completa bonança o seu reinado. 
O casamento
Aclamado rei aos 23 anos de idade, depois da tragédia que vitimou o seu irmão, era urgente encontrar noiva e assegurar descendência. Recomeçam as danças matrimoniais: duas princesas da casa de Saxe-Coburgo, uma de Hohenzollern, duas de Orleães e uma de Sabóia. Luís I prefere uma das filhas da rainha Vitória, que já conhecera em viagem a Londres; mas a rainha recusa pela diferença de religiões, e recomenda dona Teresa, filha do arquiduque Alberto da Áustria. O rei português aceita a ideia e pede-a em casamento, mas, mais uma vez, vê a proposta recusada: a pretendida ainda não tem 18 anos, falta concluir a educação e é muito apegada à mãe e à família.
A 18 de Junho de 1862, o marquês de Sousa, amigo íntimo de Luís I, pede a Vítor Manuel a mão da sua filha, dona Maria Pia, e o rei do Piemonte aceita. As críticas internacionais e internas são muitas, sendo o factor mais criticado a idade da noiva, que contava apenas 15 anos. Mas Luís I demonstra-se já verdadeiramente enamorado do retrato, que diz ter sempre à sua frente, e as cartas para a noiva são repletas de ternura e esperanças futuras. Tudo indicava que o objectivo era manter o ideal de família em que fora criado: soube que amas muito a música e alegro-me sinceramente com isso. Também eu amo muito a música e além disso pratico-a mesmo um pouco tocando violoncelo. Estou certo que quando estivermos em Lisboa as nossas noites serão noites em que a verdadeira felicidade em família se mostrará em toda a beleza da intimidade. As cartas para a noiva sucedem-se a um ritmo vertiginoso, acentuando-se em cada missiva as emoções de noivo perdidamente apaixonado, que já não dorme por ficar a pensar na amada. No entanto, as cartas de Maria revelam ainda alguma frieza e distância e não são tão frequentes quanto o amante, que jura amor até à morte, desejaria... O casamento por procuração realizou-se em Turim, a 27 de Setembro de 1862, e a rainha chegou a Lisboa a 5 de Outubro do mesmo ano. As festas multiplicaram-se: teatros, circo, touradas, iluminações, as ruas repletas de gente que tinha vindo um pouco de todo o país. Depois da tempestade das tragédias esperava-se a bonança de um casamento feliz e cheio de crianças. Os primeiros anos de casamento são marcados por uma forte paixão entre Luís e Maria. A cumplicidade em tudo, incluindo na intimidade, não fazia prever as nuvens negras que viriam a ensombrar o futuro...» In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia ELivros/JDACT

Vários casamentos e muitas amantes Filipe I de Portugal. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «… o único caso conhecido na adolescência, mas de difícil comprovação documental, foi uma relação com uma dama de sua mãe, dona Isabel de Ossorio»

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Lisboa, uma amante esquecida
«Falar nos amores dos reis de Portugal sem abarcar a dinastia filipina deixaria decerto um vazio na curiosidade do leitor que devemos preencher. Apesar de muito já ter sido escrito a propósito da governação filipina, impõem-se algumas considerações sobre a vida conjugal e extraconjugal dos Filipes, reis de Portugal que governaram sem jamais residirem em Lisboa. A aproximação entre príncipes portugueses e espanhóis foi, como temos vindo a verificar, uma constante ao longo do período considerado. Citemos, a título de exemplo, o caso de Manuel I, que casou com três princesas de Castela, ou o de seu filho João III, com dona Catarina de Áustria. Por seu turno, recorde-se o casamento de Carlos V com a imperatriz dona Isabel, filha de Manuel I, assim como o de Filipe II, I de Portugal, com dona Maria Manuel.
Neste sentido, após uma complexa crise sucessória Filipe II de Espanha, neto do Venturoso, viria a tornar-se rei de Portugal. A Princesa Lisboa, como vem referida em textos da época, foi acarinhada por Filipe I, que aí residiu durante dois anos, mas que logo depois foi trocada pela corte madrilena. Durante os sessenta anos em que a dinastia filipina reinou em Portugal, nem os Filipes viram Lisboa nem Lisboa viu os Filipes, exceptuando a breve visita de 1619. Esta amante assim abandonada e triste, qual viúva, reclamou em 1619 a sua condição de esposa, jurando fidelidade ao seu marido distante. No entanto, não conseguiu o efeito desejado e, em 1640, dá-se o divórcio entre Portugal e Espanha.

O casamento
Filho da imperatriz dona Isabel e do imperador Carlos V, neto de Manuel I, Filipe nasceu em Valladolid a 21 de Maio de 1527. O príncipe foi crescendo e em adolescente a sua figura era já marcante: apesar de não ser muito alto, os seus grandes olhos esverdeados, o rosto branco, os cabelos louros, conferiam-lhe a aura altiva que desde cedo se revelou. Cresceu Filipe, como todos os outros príncipes, numa corte povoada de mulheres bonitas. No entanto, o único caso conhecido na adolescência, mas de difícil comprovação documental, foi uma relação com uma dama de sua mãe, dona Isabel de Ossorio, que o carregara nos braços desde a mais tenra infância. Até hoje não é claro o tipo de relacionamento que existiu, daí que seja praticamente impossível avaliar o grau de ligação entre esta dama experiente e o jovem príncipe.
Todavia, estes amores, classificados de antinaturais, foram bastante comentados na época. A tradição chega mesmo a afirmar que desta relação teriam nascido dois filhos, Pedro e Bernardino, nunca reconhecidos pelo monarca. Certo é que dona Isabel de Ossorio acabou por se afastar da corte após o casamento de Filipe e Maria Manuela, auferindo, contudo, importantes rendas até à data da sua morte. Pagamento por serviços prestados à Família Real ou marca do primeiro amor de um jovem rei? Foi em 1542 que se negociou o seu casamento com a princesa dona Maria Manuela de Portugal, sua prima direita. A união conjugal concretizou-se em 1543, quando ambos os nubentes contavam 16 anos. A vida sexual do novo casal era tema de preocupação constante, tanto por parte de Carlos V pai do jovem, como de dona Catarina de Áustria, mãe da noiva. O convívio íntimo dos jovens esposos foi seguido de perto e sofreu muitas influências cortesãs. Catarina de Áustria temia que por razões políticas acusassem a sua filha de infidelidade, de modo a inviabilizar a candidatura de um possível herdeiro à coroa de Espanha. Deste modo, aconselhava sistematicamente a sua filha para que estivesse sempre rodeada de mulheres e que nas noites em que o marido não dormisse na sua câmara se fizesse acompanhar de pelo menos quatro ou cinco das suas damas.
Carlos V temia, por seu turno, pela vida do filho, que demonstrava à época alguma debilidade física. A preocupação era fundamentada, pois tratava-se do único herdeiro do grande império habsburgo. Filipe não podia correr nenhum dos perigos que uma vida sexual activa poderia acarretar dado o frágil estado de saúde do príncipe. Para evitar que os dois jovens se entusiasmassem nas descobertas próprias da idade, o aio do príncipe, Juan Zuñiga, era quem marcava os encontros amorosos entre os esposos, decidindo o tempo adequado à relação, chegando mesmo a separar-lhes as camas!» In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia ELivros/JDACT

Vários casamentos e muitas amantes Filipe I de Portugal. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «… o único caso conhecido na adolescência, mas de difícil comprovação documental, foi uma relação com uma dama de sua mãe, dona Isabel de Ossorio»

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Lisboa, uma amante esquecida
«Falar nos amores dos reis de Portugal sem abarcar a dinastia filipina deixaria decerto um vazio na curiosidade do leitor que devemos preencher. Apesar de muito já ter sido escrito a propósito da governação filipina, impõem-se algumas considerações sobre a vida conjugal e extraconjugal dos Filipes, reis de Portugal que governaram sem jamais residirem em Lisboa. A aproximação entre príncipes portugueses e espanhóis foi, como temos vindo a verificar, uma constante ao longo do período considerado. Citemos, a título de exemplo, o caso de Manuel I, que casou com três princesas de Castela, ou o de seu filho João III, com dona Catarina de Áustria. Por seu turno, recorde-se o casamento de Carlos V com a imperatriz dona Isabel, filha de Manuel I, assim como o de Filipe II, I de Portugal, com dona Maria Manuel.
Neste sentido, após uma complexa crise sucessória Filipe II de Espanha, neto do Venturoso, viria a tornar-se rei de Portugal. A Princesa Lisboa, como vem referida em textos da época, foi acarinhada por Filipe I, que aí residiu durante dois anos, mas que logo depois foi trocada pela corte madrilena. Durante os sessenta anos em que a dinastia filipina reinou em Portugal, nem os Filipes viram Lisboa nem Lisboa viu os Filipes, exceptuando a breve visita de 1619. Esta amante assim abandonada e triste, qual viúva, reclamou em 1619 a sua condição de esposa, jurando fidelidade ao seu marido distante. No entanto, não conseguiu o efeito desejado e, em 1640, dá-se o divórcio entre Portugal e Espanha.

O casamento
Filho da imperatriz dona Isabel e do imperador Carlos V, neto de Manuel I, Filipe nasceu em Valladolid a 21 de Maio de 1527. O príncipe foi crescendo e em adolescente a sua figura era já marcante: apesar de não ser muito alto, os seus grandes olhos esverdeados, o rosto branco, os cabelos louros, conferiam-lhe a aura altiva que desde cedo se revelou. Cresceu Filipe, como todos os outros príncipes, numa corte povoada de mulheres bonitas. No entanto, o único caso conhecido na adolescência, mas de difícil comprovação documental, foi uma relação com uma dama de sua mãe, dona Isabel de Ossorio, que o carregara nos braços desde a mais tenra infância. Até hoje não é claro o tipo de relacionamento que existiu, daí que seja praticamente impossível avaliar o grau de ligação entre esta dama experiente e o jovem príncipe.
Todavia, estes amores, classificados de antinaturais, foram bastante comentados na época. A tradição chega mesmo a afirmar que desta relação teriam nascido dois filhos, Pedro e Bernardino, nunca reconhecidos pelo monarca. Certo é que dona Isabel de Ossorio acabou por se afastar da corte após o casamento de Filipe e Maria Manuela, auferindo, contudo, importantes rendas até à data da sua morte. Pagamento por serviços prestados à Família Real ou marca do primeiro amor de um jovem rei? Foi em 1542 que se negociou o seu casamento com a princesa dona Maria Manuela de Portugal, sua prima direita. A união conjugal concretizou-se em 1543, quando ambos os nubentes contavam 16 anos. A vida sexual do novo casal era tema de preocupação constante, tanto por parte de Carlos V pai do jovem, como de dona Catarina de Áustria, mãe da noiva. O convívio íntimo dos jovens esposos foi seguido de perto e sofreu muitas influências cortesãs. Catarina de Áustria temia que por razões políticas acusassem a sua filha de infidelidade, de modo a inviabilizar a candidatura de um possível herdeiro à coroa de Espanha. Deste modo, aconselhava sistematicamente a sua filha para que estivesse sempre rodeada de mulheres e que nas noites em que o marido não dormisse na sua câmara se fizesse acompanhar de pelo menos quatro ou cinco das suas damas.
Carlos V temia, por seu turno, pela vida do filho, que demonstrava à época alguma debilidade física. A preocupação era fundamentada, pois tratava-se do único herdeiro do grande império habsburgo. Filipe não podia correr nenhum dos perigos que uma vida sexual activa poderia acarretar dado o frágil estado de saúde do príncipe. Para evitar que os dois jovens se entusiasmassem nas descobertas próprias da idade, o aio do príncipe, Juan Zuñiga, era quem marcava os encontros amorosos entre os esposos, decidindo o tempo adequado à relação, chegando mesmo a separar-lhes as camas!» In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia ELivros/JDACT

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Amantes do Rei João I. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «Quais as circunstâncias que conduziram este filho ilegítimo de Pedro I ao poder? Lembremos, antes de mais, o afastamento do seu meio-irmão João, filho de Pedro e de dona Inês»

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De Ilegítimo a Rei de Portugal. João I
«Nasceu a 11 de Abril de 1357 o filho ilegítimo de Pedro I, o penúltimo rei da dinastia afonsina, que não estava destinado a governar um reino, mas foi um rei singular na História de Portugal. Não só porque, pela primeira e única vez, um bastardo subiu ao trono do reino, mas também pela prole que gerou e pelo legado de boa memória que deixou. Era o rei João I de mediana estatura, bem proporcionado, com o rosto largo, testa pequena, cabelo negro pouco comprido e bem composto, olhos negros e grandes, com notável viveza, o semblante agradável, o corpo robusto, e de forças grandes. Gostava de caça e de exercícios do corpo, mas também de música, dança, jogos e xadrez.
Homem de forte personalidade, de carácter teimoso, repentino e violento que se revelou desde a sua mocidade, João não nasceu para ser rei. Filho natural do rei Pedro I, sua mãe nem sequer foi a eterna amada dona Inês de Castro. De facto, João foi o fruto de uma relação do monarca com dona Teresa Lourenço, uma dama natural da Galiza, já depois da morte de dona Inês. Este filho, que nascia no ano em que Pedro foi alçado rei, foi primeiro educado em casa de Lourenço Martins, ficando depois ao cuidado de Nuno Freire Andrade, mestre da Ordem de Cristo. Era ainda novo, tinha somente 7 anos, quando, tal como escreveu Rui Pina na Crónica de dom Afonso IV, foi investido como mestre de Avis em 1364. À partida, João, tal como outros filhos ilegítimos dos reis seus antecessores, seguiria, assim, uma carreira religiosa. Nada faria esperar que viesse a assumir os destinos do reino. Mas, como foi salientado pela historiadora Maria Helena C. Coelho, foram várias as circunstâncias, internas e externas, que fizeram com que João fosse projectado para a ribalta política e se tornasse a hipótese mais viável e desejável para governar. Por tal motivo, a tradição cronística confere a João I uma aura de predestinação, tal como com outros monarcas da História Portuguesa, entre eles Afonso Henriques ou Pedro II.

O caminho até ao trono
Quais as circunstâncias que conduziram este filho ilegítimo de Pedro I ao poder? Lembremos, antes de mais, o afastamento do seu meio-irmão João, filho de Pedro e de dona Inês, por obra de dona Leonor Teles. João Castro apaixonou-se por dona Maria Teles, irmã da rainha, que era formosa e muito graciosa. Uma vez casados, a rainha viu no amor que os vassalos tinham a João e a dona Maria uma ameaça. Caso Fernando I morresse sem deixar mais sucessão do que a filha de ambos, dona Beatriz, João poderia suceder no trono. Assim, dona Leonor conseguiu, através da intriga, que João Castro acreditasse que a sua amada lhe era infiel e, acreditando, acabou por matá-la brutalmente nos Paços de Coimbra, em 1379. Na sequência destes acontecimentos, João afastou-se, por algum tempo, da corte, indo depois definitivamente para Castela. A rainha urdiu, de igual modo, algumas tramas de modo a comprometer o mestre de Avis em supostas conspirações contra o rei, seu irmão, Fernando I. Na realidade, o ilegítimo filho de Pedro I constituía, tal como o seu homónimo meio-irmão João, um perigo às pretensões e ambições de dona Leonor Teles. Foi, pois, neste contexto que a rainha, qual Penélope, teceu a sua teia de intrigas, de tal modo que levou o mestre até à prisão, em 1382.
Na sua crónica, Fernão Lopes refere que logo na noite em que o mestre foi preso, a rainha mandara fazer um alvará falso, supostamente assinado pelo rei, e no qual ordenava degolar João. No entanto, terá sido a desconfiança do executor da ordem que, ao procurar, junto do rei, a confirmação do que lhe fora ordenado, acabou por salvar o mestre da morte, sendo posto em liberdade». In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia ELivros/JDACT

Amantes dos Reis de Portugal. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «Foi também durante o seu reinado que as questões entre Braga e Compostela e os intermináveis conflitos entre a Sé de Coimbra e o Mosteiro de Santa Cruz tiveram lugar»

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Um rei com um temperamento inconstante
«(...) Depois de ver reconhecida a sua dignidade régia por bula papal, Sancho I teve que lidar com complicadas situações ao longo do seu reinado, desde maus anos agrícolas às sucessivas crises de fome, peste e, claro, as guerras. De um lado estava a questão da divisão das Hispânias pelos herdeiros de Afonso VII e, do outro, a ameaça do império almóada, sempre presente. Foi um rei empenhado em todos os assuntos do seu reino. Conhecia bem os problemas, as necessidades e a realidade do seu país. De facto, estivera, durante tantos anos, à frente dos seus destinos e convivera de perto, pelo menos desde 1169, com os altos oficiais do reino. Povoou as terras de fronteira para as manter e mostrar a soberania portuguesa e entregou a sua defesa e conquista dos territórios em seu redor às ordens militares.
Foi também durante o seu reinado que as questões entre Braga e Compostela e os intermináveis conflitos entre a Sé de Coimbra e o Mosteiro de Santa Cruz tiveram lugar. Várias vezes, na sequência destes problemas, o monarca foi excomungado e o seu reino interditado. Sancho I tinha um temperamento inconstante, que se foi revelando com maior intensidade à medida que ia envelhecendo. Acessos de raiva eram frequentes, indo ao ponto de perpetrar grandes vinganças, como se viu em Silves. Conquistou Silves após um cerco que durou dois meses, com a ajuda dos cruzados que tinham arribado ao reino. Não foi um processo pacífico, pois os cruzados, ocupando a cidade, fecharam as portas para que nenhum muçulmano a pudesse abandonar e dedicarem-se ao saque e espoliação de bens e pessoas. Recusaram-se a dar a Sancho I a sua parte em Silves, o domínio da própria cidade e a posse dos aprovisionamentos em víveres. O monarca, enfurecendo-se, entrou na cidade e expulsou à força os cruzados. A amargura chegaria mais tarde, com a perda de Silves, o que teve um impacto grande. Não podia perder mais território do que aquele que lhe fora legado por seu pai. A partir daqui, era importante investir em pactos de aliança e políticas matrimoniais para minorar as hipóteses do reacender da guerra entre os reis cristãos peninsulares.

As amantes
Algumas descrições, não coevas, referem que Sancho I era de estatura média e que tinha o rosto grande, a boca grossa e grande, os olhos pretos grandes, cabelo de cor castanho-escura quase preta e tinha barba. Afinal, em nada parecido com seu progenitor, que era alto, de rosto perfeito com olhos e cabelo castanho-claros. Era um homem que gostava da caça, de correr touros e do convívio com os cortesãos. Nos serões passados na corte não faltava o vinho, os poemas e os jograis. E, claro, as mulheres. Sancho I foi pai de 19 filhos. A sua fertilidade enquanto progenitor foi excepcional, da relação com a sua mulher, dona Dulce, teve 11 filhos. Para além de dona Dulce, a mulher legítima, são-lhe conhecidas duas amantes: dona Maria Pais Ribeira, a conhecida Ribeirinha, e dona Maria Aires Fornelos, senhora da nobreza média. Delas teve também uma significativa prole. A primeira foi mãe de seis filhos, ao passo que a segunda gerou dois. Ao que parece, estas ligações amorosas tiveram lugar após a morte da rainha, ou seja, entre 1198 e 1211., mas foram, provavelmente, também concomitantes. Estas amigas do rei tinham o seu lugar na corte e acompanhavam-no para onde se deslocava». In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia ELivros/JDACT

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Amantes dos Reis de Portugal. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «Quando Afonso Henriques morreu em 1185, Sancho tinha já três filhas e experiência governativa. Foi aclamado rei a 9 de Dezembro, com 31 anos de idade. Chegara ao fim a longa espera pelo trono»

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Os amores do bem-amado Sancho I
«(…) E Sancho, que relação teria com o pai? Se é verdade que desde que tinha 16 anos passou a desempenhar funções régias ao lado de seu pai, certo é que Afonso Henriques continuava a estar presente e a dominar. O nome de Sancho era quase sempre omitido na documentação régia, não obstante as responsabilidades que tinha de vingar no campo governativo, mas também no importante domínio bélico e militar, tão vital para o reino. Os fracassos eram a Sancho imputados, como a qualquer outro monarca..., só que Sancho não o era. Pelo menos, de pleno direito. Não é difícil imaginar que foi o que sucedeu com a infrutífera segunda tentativa da tomada de Badajoz. Por outro lado, a presença do filho bastardo do fundador junto do rei era fonte de rivalidade e de desafio. Sancho I teria que esperar para assumir o protagonismo sozinho.
Em 1173, parece ter sido reconhecido como regente do reino, o que passou por um maior controlo da governação. Será neste ano que aparece publicamente e de forma inegável associado a seu pai na trasladação das relíquias de S. Vicente de Lisboa para a Sé. Por esta altura, o seu meio-irmão Fernando Afonso passou a estar ausente da documentação. Terá sido reacção à aproximação entre Afonso Henriques e Sancho? Como terá Sancho encarado o afastamento daquele que durante tanto tempo exercera um dos cargos mais importantes do reino e sempre estivera tão perto do rei, seu pai, talvez tanto como ele sempre quisera? Sentir-se-ia mais seguro e mais confiante?

O casamento de Sancho I
No ano imediato teve lugar uma das mais importantes etapas da sua vida: o casamento. Como herdeiro do trono, tornava-se vital garantir a descendência sucessória da jovem e recente monarquia, e a escolha recaiu sobre dona Dulce de Aragão, filha de Petronilha de Aragão e de Raimundo Berenguer IV de Barcelona e irmã de Afonso II de Aragão. A infanta aragonesa tinha 14 anos quando casou com Sancho, seis anos mais velho, em 1174. Foi acompanhada pelo seu séquito até Coimbra, mas não são conhecidos pormenores deste matrimónio, nem sequer o dote e arras. Sabe-se, contudo, que tinha rendimentos em Alenquer, em terras de Vouga, Feira e Porto e geria uma herdade em Seia. Foi um casamento fértil em filhos. Dona Teresa nasceu em 1176, dona Sancha por volta de 1180, e dona Constança em Maio de 1182. Poucas informações existem quanto ao relacionamento entre o casal régio. Alguns autores sugerem ter existido uma dúvida fugaz de que a rainha teria sido adúltera. Sancho I alvoroçava-se ao saber, pelo vozear correntio, que a rainha dona Dulce o enganara com um cavaleiro [...] Mas dona Dulce estava inocente e ele, o acreditou para consolo da sua alma e para que se poupasse a desventurada senhora a um castigo pérfido e imerecido.
Quando Afonso Henriques morreu em 1185, Sancho tinha já três filhas e experiência governativa. Foi aclamado rei a 9 de Dezembro, com 31 anos de idade. Chegara ao fim a longa espera pelo trono. O reinado de Sancho I foi inaugurado no dia de Santa Leocádia, importante mártir hispânica que morrera recusando-se a renegar a sua fé em Cristo. Simbolizava, como sublinha a historiadora Maria João Branco, aquilo por que um rei peninsular deveria querer lutar, ou seja, a reconquista do território aos infiéis. Agora que conseguira libertar-se da sombra de seu pai, outra questão devia preocupá-lo: ao fim de quase 12 anos de casamento, Sancho I e dona Dulce ainda não tinham tido um filho varão. Mas a rainha encontrava-se grávida de cinco meses quando seu marido foi elevado a rei e foi desta gravidez que nasceu o primeiro filho masculino, aquele que garantia a sucessão: Afonso, a 23 de Abril de 1186.
A partir desta altura, nascem-lhe sete filhos mais. Pedro, em 23 de Março de 1187, e Fernando Sanches, possivelmente a 24 de Março de 1188. A proximidade das datas de nascimento destes dois infantes e o registo que ficou a um filho de nome Henrique, em 1187, pelos escribas de Santa Cruz não permitem clarificar ao certo a questão destes filhos. Se, por um lado, se coloca a questão de poderem ter sido gémeos, por outro é mais provável, na opinião de alguns historiadores, que os escribas tenham chamado, por erro, Henrique a Pedro. Ainda Raimundo, que nasceu em 1195, e Mafalda, em 1195 ou 1196, juntaram-se à família. Por fim, em 1196 ou 1198 nasceram Branca e Berengária que, segundo José Mattoso, teriam sido gémeas. Dona Dulce morreu em Setembro de 1198 na sequência do parto ou vítima de peste. Em todo o caso, cumprira o seu papel. Dera ao reino uma numerosa prole de filhos». In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia ELivros/JDACT

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Amantes dos Reis de Portugal. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «Alguns autores referem que é provável que Afonso Henriques tenha ponderado casar ou mesmo chegado a casar, com dona Châmoa Gomes, mas não há documentos que sustentem esta hipótese»

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«(…)
O primeiro casamento régio
Afonso Henriques casou com a rainha dona Mafalda, filha de Amadeu III de Maurienne e de Sabóia, em 1146. Era neta de Humberto I de Maurienne e de Gisela, uma das irmãs do conde Raimundo da Borgonha, e bisneta de Berta, imperatriz da Alemanha, casada com o imperador Henrique IV. Sua tia, Adelaide, era rainha de França por casamento com Luís VII. Assim, podemos constatar, sublinhando as palavras do historiador José Mattoso, que Afonso Henriques casou com a sobrinha de um dos reis mais poderosos da Cristandade e filha de um vassalo do imperador romano-germânico. De facto, a legitimação aos olhos da Santa Sé poderia tornar-se mais fácil graças a estes laços familiares que se constituíam. Por outro lado, este casamento significava também uma reaproximação às redes familiares da família do conde Henrique da Borgonha. O casamento realizou-se quando Afonso Henriques já contava 37 anos, ao passo que a sua noiva tinha cerca de 20 anos. Do tálamo real nasceu Henrique, a 5 de Março de 1147, o presumível herdeiro que morreu aos 8 anos. Seguiram-se três meninas: Urraca em 1148, Teresa em 1151, e Mafalda em 1153. Ao que parece, dona Teresa terá sido a filha predilecta de Afonso Henriques, pois era-lhe muito próxima. Mulher independente que fazia a gestão dos seus próprios bens e Casa, casou em 1184 com Filipe de Alsácia, conde da Flandres.
A 11 de Novembro de 1154 nascia Martinho, o quinto filho do casal e que, porque não estava destinado a governar, recebeu o nome do santo do dia em que nasceu. Seria, mais tarde, por força das circunstâncias, baptizado de Sancho e futuro varão da família a ser nomeado rei de Portugal. Nasceram ainda João, em 1156, e Sancha a 24 de Novembro de 1157, que morreu com 10 anos. Da relação dos reis pouco ou nada se sabe. Alguns textos sugerem que não seria muito pacífica e que a presença da rainha no reino não estivera isenta de conflitos. Certo dia, pretendeu por todos os modos ver o claustro interior do Mosteiro de Santa Cruz. Ao ver a sua intenção ser veementemente recusada, por não ser costume introduzir uma mulher num local em que habitavam os que haviam fugido do mundo, a rainha manifestou o seu absoluto desagrado. O prior de Santa Cruz não recuou, contudo, na sua decisão, preferindo sucumbir ao ódio da fúria dela. Acrescenta Fonseca Benevides, que muitas foram as desavenças entre a rainha e o prior, a quem perseguiu com o seu ódio e muitas vexações.
Dona Mafalda faleceu no ano de 1158, provavelmente de complicações surgidas no último parto. Consolidara a descendência da Casa Real.

Châmoa Gomes: a primeira amante real
O rei teve uma amante conhecida chamada Châmoa Gomes. No entanto, não podemos supor que outras mulheres não tivessem antes existido na vida do monarca. De facto, há um episódio relatado em que o rei surge a tentar seduzir, sem qualquer recato, a mulher de Gonçalo Sousa, seu mordomo-mor. Châmoa Gomes, filha de Gomes Nunes Pombeiro, antigo conde de Toroño, casou com Paio Soares Maia, com quem teve três filhos. O mais velho, Pedro Pais, foi alferes-mor de Afonso Henriques, entre 1147 e 1169. Dona Châmoa Gomes descendia de familiares que desde cedo se encontraram ligados à família régia. Pelo lado da sua mãe, era sobrinha de Fernão Peres Trava e neta de Pedro Froilaz, tutor de Afonso Raimundes, o herdeiro castelhano. Após enviuvar de Paio Soares Maia, dizem as fontes que Châmoa Gomes entrou para o Mosteiro de Vairão, iniciando depois uma relação ilegítima com Mem Rodrigues de Tougues, de quem teve Soeiro Mendes Facha. Dona Châmoa foi mais tarde barregã do rei Afonso Henriques, com quem teve Fernando Afonso, provavelmente nascido em 1140. Desempenhou, tal como o seu meio-irmão Pedro Pais, o cargo de alferes-mor do monarca. Fernando Afonso parece ter alcançado particular destaque na corte, ocupando um lugar de relevo nos documentos oficiais do reino. Alguns autores referem que é provável que Afonso Henriques tenha ponderado casar ou mesmo chegado a casar, com dona Châmoa Gomes, mas não há documentos que sustentem esta hipótese, o que, aliás, colocaria o futuro da monarquia portuguesa numa situação extremamente delicada. Depois do desastre de Badajoz em 1169, que incapacitou o monarca durante algum tempo, Pedro Pais, alferes-mor do rei, abandonou a corte e foi servir Fernando II de Leão. Três anos mais tarde, também Fernando Afonso, filho bastardo de Afonso Henriques, seguiria o exemplo do seu meio-irmão. Junto da corte leonesa, professou na Ordem Militar do Templo, passando depois para a de S. João do Hospital, da qual foi mestre e grão-mestre». In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

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sábado, 19 de março de 2016

Amantes dos Reis de Portugal. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «Uma das questões que mais tem apaixonado historiadores e leigos é a Batalha de S. Mamede em Junho de 1128 e a revolta de Afonso Henriques contra sua mãe»

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«(…) Esta situação de convivência e intimidade sexual com Bermudo Peres antes de casar com o irmão dele era, à luz do direito canónico, um grave crime de incesto, agravado mais tarde quando Bermudo Peres Trava casou, cerca de 1121, com a infanta dona Urraca Henriques, filha de dona Teresa e irmã de Afonso Henriques. Tanto o temperamento como a acção política da filha de Afonso VI tornam-se difíceis de avaliar na medida em que a sua figura foi detractada nas fontes e na historiografia. Certo é que almejava algum protagonismo de poder, intitulando-se rainha desde 1117 e reclamando a sua herança paternal. Ambição que, tudo leva a crer terá moldado o carácter do próprio filho.

Afonso Henriques, um rei entre a guerra e o amor
Afonso de nome, tal como seu avô, o Imperador, o primogénito, que cedo ficou sem pai, foi educado com a bem conhecida família de Egas Moniz. O caminho que dona Teresa trilhava acompanhada, sobretudo, por Fernão Peres Trava conduziu, a partir de 1121-1122, ao afastamento de alguns nobres que, desde o tempo do conde Henrique, eram índice de autoridade e de respeito não só na corte, como também em todo o condado. Com efeito, eram homens de carisma militar, governadores de terra e dignitários da corte, e será esta hostilização da nobreza portuguesa a causa da oposição e revolta contra dona Teresa. O episódio do cerco de Guimarães, em 1127, marcou o início do protagonismo do infante, que fora armado cavaleiro em Zamora dois anos antes, na cena política do condado, alicerçando o acordo entre Afonso Henriques e os nobres da corte de seu pai, do Norte de Portugal. Afonso Henriques assumia a autoridade do comando político-militar a norte do Douro e sua mãe, dona Teresa, as terras de Entre Douro e Minho. Uma das questões que mais tem apaixonado historiadores e leigos é a Batalha de S. Mamede em Junho de 1128 e a revolta de Afonso Henriques contra sua mãe. Por muitos considerado como o início da história do futuro reino de Portugal, este episódio ditou o afastamento de dona Teresa e do conde Fernão Peres Trava, que se viram obrigados a abandonar o condado. Diz a tradição que Afonso Henriques prendeu sua mãe, colocando-a em ferros, mas sabe-se que partiram para a Galiza acompanhados das suas duas filhas, Sancha e Teresa Fernandes, acabando dona Teresa por vir a falecer pouco tempo depois, a 1 de Novembro de 1130.
A partir da Batalha de S. Mamede e até ao momento em que foi aclamado rei, Afonso Henriques governou o condado portucalense na dignidade de príncipe. Por ser uma personagem tão carregada de sentido e envolta em narrativas míticas, recorrendo aqui às palavras da mais recente obra sobre este monarca, o nosso primeiro rei encontra-se envolto em lendas e histórias que o relacionam com a fundação da monarquia e do reino. De facto, a tradição cronística e histórica, de Rui de Pina e Duarte Galvão, entre outros, atribui a estes acontecimentos uma forte carga sagrada, com relatos frequentes de aparições de Jesus Cristo e de Maria a alguns dos principais protagonistas destes anos. Desde a cura milagrosa de uma deformação física com que o infante nascera ao milagre de Ourique, vários são os exemplos que poderíamos elencar. Um dos aspectos mais marcantes do reinado de Afonso Henriques, como o será ainda para alguns dos seus sucessores, foi a guerra contra os mouros. Tratou-se de uma importante época para a definição territorial do reino, e de que a Batalha de Ourique será o ex-líbris. A este episódio, cujos pormenores ainda estão por precisar, tal como o local onde se deu a batalha, está associada a aclamação de Afonso Henriques como rei de Portugal.
Uma vez aclamado rei, impunha-se garantir a sucessão. Neste contexto, João Peculiar, arcebispo eleito de Braga e principal conselheiro de Afonso Henriques, desempenhou um papel relevante. Não só participou em negociações e acordos fundamentais para o governo, dos quais se destaca a viagem até Roma, em 1144, para persuadir o papa a reconhecer o título de rei, como parece ter sido o responsável pelo pedido da mão de dona Mafalda, ou dona Matilde, ao conde de Maurienne para casar com o monarca português. Tomou parte, de igual modo, nos acordos com o rei Fernando II de Leão para o matrimónio com a infanta dona Urraca em 1165». In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

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Amantes dos Reis de Portugal. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «Segundo parece, viveu com Bermudo Peres Trava, mas em 1120 iniciou uma relação com o irmão deste, Fernão Peres Trava»

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«(…) Por isso, falar destas mulheres implica que mesmos os sectores sociais marginais não deixem de pertencer, com muitas nuances a um sector major de marginalidade, a história das mulheres. E não estamos sequer a falar da história do género porque Homem e Mulher caminham, lado a lado, nesta aventura secular, em conflito declarado ou em harmonia aparente.

O conde Henrique e a rainha dona Teresa. Uma relação conturbada?
Foi no ano 1096 que teve lugar um dos marcos mais importantes para o futuro reino de Portugal e para a monarquia portuguesa: a celebração do casamento do conde Henrique da Borgonha com dona Teresa, filha de Afonso VI de Leão e Castela, de cognome o Imperador. Para recompensar os sucessos militares e os vários anos em que lutara a seu lado contra os mouros, Afonso VI concedeu a Henrique o título de conde e, como dote matrimonial, as terras a sul do rio Minho, o denominado Condado Portucalense e de Coimbra. Podemos considerar este consórcio como o início da Casa Real Portuguesa, na bem conhecida expressão de António Caetano Sousa, nascendo deste matrimónio o 1.º rei de Portugal, Afonso Henriques. O conde Henrique, de gentil presença, estatura bem proporcionada, olhos azuis e cabelos louros, era filho de Henrique da Borgonha e de Sibila, e bisneto de Roberto II, rei de França. As origens de dona Teresa são mais difíceis de precisar. Na realidade, não há dúvidas quanto ao facto de ser filha de Afonso VI e de dona Ximena Nunes Gusmão, mas incertezas pairam quanto ao seu nascimento.
Muito se tem escrito sobre a legitimidade deste casamento, o que tem suscitado questões quanto à bastardia de dona Teresa. Diferentes pontos de vista têm vindo a abordar esta matéria. Se há diversos autores que referem que era filha legítima porque o consórcio efectivamente se verificara, os estudos mais recentes parecem ser unânimes em considerar que dona Teresa era filha ilegítima de Afonso VI. Atendendo à dificuldade de provar documentalmente qualquer uma das afirmações, o certo é que, do muito que se escreveu sobre o casamento, permanece pouco clara a legitimidade da união matrimonial dos seus progenitores. O nascimento do reino de Portugal teve, deste modo, por base a doação patrimonial do imperador Afonso VI de Leão e Castela à sua filha dona Teresa. Uma ilegítima que reclamará para si a dignidade régia, intitulando-se rainha em vários documentos oficiais. Em conclusão, a legitimação de filhos bastardos, como veio a suceder com dona Teresa, consagrava juridicamente a perpetuação da linhagem, sobretudo para um reino que se estava a consolidar. O conde Henrique e dona Teresa, de quem se diz que tinha grande formosura, foram pais da infanta dona Sancha Henriques, de dona Urraca Henriques, e de dona Teresa Henriques. O infante Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, nasceu em 1109, em Guimarães ou em Viseu.
Afonso Henriques tinha apenas dois anos quando o conde Henrique morreu em Astorga, em Maio de 1112. Segundo algumas fontes, o conde teria tido um filho ilegítimo, Pedro Afonso, de uma dona de nobre geração, acabando ele próprio por tomar o hábito de S. Bernardo no Real Mosteiro de Alcobaça, onde jaz sepultado, mas as informações mais detalhadas para tempos tão remotos permanecem obscurass. Em primeiro lugar, porque o patronímico devia ser Henriques e não Afonso, isto é, se fosse bastardo do conde Henrique provavelmente chamar-se-ia Pedro Henriques. Mas o silêncio e a pouca clareza dos documentos relativamente a este Pedro Afonso, a par da forte improbabilidade de certos factos que se lhe atribuem, principalmente durante o reinado de Afonso Henriques, levam a que estudos recentes considerem pouco crível que Pedro Afonso fosse bastardo do conde Henrique.

A vida escandalosa de dona Teresa
Porém, se da vida afectiva do conde Henrique pouco se conhece, sobre dona Teresa o leque de informações é mais vasto. Alguns anos após a morte do conde, nota-se uma aproximação significativa de dona Teresa a Bermudo Peres Trava, com quem terá tido uma relação afectiva. Por esta altura, com o apoio dos Trava, Bermudo, Pedro Froilaz e Fernão Peres, começou a reivindicar o senhorio da Galiza, a herança de seu pai. A vida amorosa de dona Teresa após a morte de seu marido foi, para a época, de acordo com os dados de que se dispõe, algo escandalosa. Segundo parece, viveu com Bermudo Peres Trava, mas em 1120 iniciou uma relação com o irmão deste, Fernão Peres Trava. Não se sabe ao certo se casaram ou se apenas viviam juntos maritalmente, mas uma crónica antiga diz que mantinham um casamento sem Deus e sem direito». In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

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segunda-feira, 13 de julho de 2015

Amantes dos Reis de Portugal. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «Reis, príncipes e infantes nunca deixaram de procurar o relacionamento fácil. Para as mulheres que por seu turno pretendiam alguma distinção social para si ou a sua prole, o leito era o passo obrigatório para a conquista do poder»

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«(…) Na história de Portugal e da monarquia portuguesa, as amantes foram paulatinamente alcançando uma-posição social e um estatuto de contornos nem sempre bem definidos, quer no campo jurídico, quer no domínio social, traduzido numa legislação dispersa pelas ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas. Em todo o caso, o poder político esteve atento a este fenómeno que proliferou por toda a arquitectura social portuguesa e europeia, produzindo um vasto elenco de regras e de proibições dirigidas a prostitutas, escravas e barregãs. Contudo, como tantas vezes sucedia, era grande a distância e a eficácia de um corpus normativo e as práticas quotidianas. Isto é, a legislação impunha e o que o Homem dispunha. Daí que abundem os relatos de amancebamentos entre os grupos sociais terciários ou em ascensão social. Mas quando se passa para o plano dos reis e rainhas, a matéria apresenta contingências e especificidades tradicionais e seculares. O casamento régio é um assunto de Estado, já que cria alianças, assegura o funcionamento da dinastia e constitui, com o seu necessário corolário que é a família, a célula de base de toda a autoridade.
Aliança, troca, paz, o casamento régio, inserem-se, de igual modo, numa perspectiva antropológica, religiosa e jurídica que integra a rainha e exclui a amante. O papel da consorte régia sai claramente reforçado a partir do momento que a sua prole aumenta e, muito em concreto, se se tratar de um primogénito. Mas a disputa pelo afecto régio não cessa. De facto, as amantes, suas rivais, pretendiam conquistar a atenção do rei, aspirando a uma ascensão social digna para si e para a sua família, o que muitas conseguiram pela amizade, pelos laços de sangue ou de consanguinidade. Porém, nem todas o alcançaram. Na verdade, procurando o favor régio, tudo faziam para se tornarem mães dos filhos ilegítimos dos monarcas. E, na verdade, algumas vieram a ser mães de futuros monarcas. Tal é o caso de João I, bastardo de Pedro I. Esta é a história de um reino em que os filhos bastardos dos reis com as suas amantes desempenharam um papel significativo, por vezes mesmo crucial. Note-se o caso de Afonso (o Barcelos, jdact), filho natural do mestre de Avis e futuro João I, que dará início à família dos Bragança, dinastia que, em 1640, chega ao poder em substituição dos Filipes. Mas muitos outros bastardos alcançarão um peso relevante na História de Portugal.
E é, pois, neste contexto que interessa trazer à luz as amantes dos reis portugueses. Damas do séquito da rainha, senhoras da corte ou mulheres do povo. Certo é que terão existido muitas mais do que aquelas que aqui falamos. Amantes, favoritas, barregãs, amigas, são alguns dos termos que serviram para chamar a mulher cuja companhia o rei escolhia, normalmente, por uma questão afectiva, amorosa ou apenas por prazer. De facto, se a rainha encarnava a ordem e a legitimidade, a amante era o símbolo de prazer, dos sentimentos e dos afectos. Falamos de histórias de reis que amaram e que sofreram por amor. Paixões que, por vezes, mudaram o curso do reino e que, como tal, deixaram marcas na História de Portugal. Justa razão para trazer à luz do registo histórico estas mulheres que pela alcova real passaram. Umas com maior importância social, outras com menor, mas cumprindo, todas, a sua missão na arquitectura social monárquica: complementar a função da rainha, papel de Estado, símbolo do reino, da linhagem e da Casa Real, com a só na aparência fácil, mas deveras ardilosa , tarefa de proporcionar ao rei momentos de deleite mais ou menos fugazes ou de duração mais prolongada. O perigo e o risco estavam-lhes associados, pois a descoberta de um caso de amor, em especial entre membros da alta aristocracia, podia questionar a esfera de poderes e de influência social dessa casa aristocrática. Note-se o exemplo, bem conhecido, da Casa dos Távora no reinado de José I.
Reis, príncipes e infantes nunca deixaram de procurar o relacionamento fácil. Para as mulheres que por seu turno pretendiam alguma distinção social para si ou a sua prole, o leito era o passo obrigatório para a conquista do poder. O que não excluiu membros das principais casas senhoriais que, sobretudo, após a chegada dos Bragança ao poder tendem a estabilizar a elite política setecentista. Entre a tutela soberana da rainha e um lugar ainda que fugaz na vida amorosa de cada um dos reis de Portugal, para as amantes restou-lhes o poder possível de um leito e de um poder obscuro, quase tão obscuro como o registo documental que delas ficou. E que a breve trecho este livro, num primeiro ensaio temático sobre a matéria, constata plenamente. Muitas foram as amantes régias, mas muito menos foram os documentos que sobreviveram a estes amores. Tal como no confessionário, os deleites do amor não tinham escrita diária ou ocasional. Ficaram apenas relatos históricos, mais ou menos desenvolvidos, de encontros amorosos que se encurtaram ou prolongaram no tempo. Mas nem por isso deixaram de permitir a elaboração deste primeiro texto, que cumpre ao leitor ajuizar e deleitar num domínio científico até hoje subalternizado entre nós. Subalternização mais vasta e que se alarga ao estudo das mulheres, campo também ele em larga renovação historiográfica por toda a Europa e pelos Estados Unidos». In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

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sábado, 11 de abril de 2015

Amantes dos Reis de Portugal. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «Por detrás da história oficial dos reis portugueses e dos seus casamentos de Estado com princesas de toda a Europa, esconde-se uma história de paixões arrebatadoras, filhos ilegítimos e amores ilícitos»

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O estatuto das amantes dos reis de Portugal: entre o proibido e o legitimado
«Junte-se, que nada existe de escandaloso, pois que a rainha plural casada com o monarca era a soberana do Estado, a única legitimada de direito para dar um herdeiro varão ao rei, mas que para sobreviver ao seu casamento, fruto de alianças matrimoniais entre Estados, reinos e países, impunha uma regulamentação normativa e um enquadramento jurídico que salvaguardasse a integridade moral e material da consorte em caso de viuvez, de incapacidade de conceber filhos, de assumir a regência do reino sozinha ou em colaboração com os seus filhos. De facto, como vários autores têm vindo a sublinhar, tratando-se os casamentos dinásticos de matrimónios de Estado, os afectos secundarizavam-se face às estratégias políticas régias. Isso não significa que entre alguns consortes régios, no período em estudo, não se tenham criado laços de amizade, mútuo respeito e alguma empatia quase amorosa. Todavia, para a maior parte, e sobretudo para as rainhas, o casamento constituiu um pesado fardo, em especial se o filho varão não nascia ou se após várias gravidezes mal sucedidas a função primordial da rainha, procriar, continuava por cumprir. É precisamente neste campo que o estatuto da rainha e o das amantes régias assumem funções diferentes, mas complementares. Se uma é a imagem modelar de comportamento, associada muitas das vezes à Virgem Maria, símbolo da paz e da concórdia, possuindo direito às mesmas cerimónias públicas do rei, não tendo sido nenhuma rainha viúva, repudiada do reino, já a amante, e ainda que o seu filho seja, em regra, legitimado, vive no limbo entre o ideal de esposa, porque é (quando é) amada, e a esposa do desejo. Ora, nas cortes da época moderna, em que verdadeiros esquadrões de belas damas, muitas delas pertencendo à própria Casa das rainhas, se insinuavam em câmaras e antecâmaras e, acima de tudo, nos momentos de festividade que reuniam homens e mulheres, era natural que o rei, cristão mas polígamo, tivesse oportunidade para galantear as mais esbeltas dessas senhoras. À rainha, com escassas excepções, estava reservado um lugar perpétuo, excepto em caso de morte, de traição ou de incapacidade de procriar. Por sua vez, prostitutas, barregãs e favoritas viviam num sobressalto constante, sabendo, sobretudo estas últimas, que poderiam coabitar com a rainha no palácio régio, como é exemplo paradigmático o Palácio de Versalhes, o que nunca sucedeu em Portugal, mas que caindo em desgraça nos gostos do monarca eram afastadas dos mimos, das mercês e dos favores do rei. Exemplar, a todos os níveis, a história da monarquia francesa está repleta de amantes que, não raras vezes, alcançaram mais protagonismo na corte do que a própria rainha. Se o Rei-Sol ficou conhecido pelos seus célebres amores com Louise de La Vallière, com Athénaïs de Montespan ou com madame de Maintenon, o seu sucessor, Luís XV, terá um a relação com aquela que é considerada a mais famosa das amantes da História, a marquesa de Pompadour. De seu nome Jeanne-Antoinette e oriunda de uma família burguesa, a influência que exerceu junto do monarca foi elevada. Pompadour conhecia bem os segredos das intrigas cortesãs e fez parte ela própria das estratégias das facções de poder de Versalhes. Confidente e companheira de Luís XIV, só a morte da Favorita a separou do rei. Daí que esta expressão aparentemente agressiva de mulheres do rei, engloba, afinal, todos os estratos socais com os quais os monarcas portugueses tiveram relacionamentos amorosos, desde escravas, negras, barregãs, prostitutas, senhoras de baixa condição social até membros da alta aristocracia. De destacar que, a partir da Restauração, as amantes de estrato nobilitado passam a ter um maior protagonismo social. Sem que as de rua, continuem a ter muito sucesso. Mas a ópera, os bailes e as cantoras líricas alargaram a oferta num quotidiano em que a sociabilidade de corte esmorecia e os grandes espaços cénicos permitiam o flirt, o óculo discreto em direcção ao bem-amado. A etiqueta e a civilização de corte são deveras tributárias do requinte e da disciplina imposta pela presença feminina. Rodeado de mulheres desde a nascença, a aia, a mãe, a esposa, as irmãs, as servidoras, as damas, as anfitriãs, era difícil o monarca não ser seduzido pelos encantos femininos que domesticaram pela etiqueta e pelo bom gosto um espaço dominado, na maioria das vezes, pelo rude trato masculino». In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia ELivros/JDACT

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Amor e Sexualidade no Ocidente. Pequena História. Georges Duby. «Representados à imagem dos homens, os deuses tinham, igualmente, uma esposa, e até as suas concubinas; constituíam família, tinham filhos. Neste plano, tudo se passava sem história, não se conhecendo nem mitos nem lendas que, como entre os Gregos…»

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Tudo começa na Babilónia
O amor-sentimento
«(…) Quantos outros poemas e canções de amor análogos bem que todos eles com o mesmo sentido foram escritos e dados a conhecer! Mesmo que a sorte não nos tenha ajudado a conservá-los até aos nossos dias ou que os arqueólogos não os tenham ainda exumado, temos provas da sua existência através de um catálogo do fim do II milénio antes da nossa era, que reúne pelo seu título (ou melhor, pelas suas primeiras palavras) cerca de quatrocentos, dos quais nos restam quase um quarto. Como estas referências são por si só tão eloquentes, eis algumas que ajudam a compor um belíssimo quadro dos sentimentos amorosos:

Vai-te, sono! Quero apertar nos braços o meu querido!
Quando me falas, alivias-me imenso o coração!
Ah, como te piscaria o olho direito...
Eis-me apaixonada pelos teus encantos!
À noite, não cerrei os olhos: / Sim, estive desperta toda a
noite, meu querido!
Oh, felicidade! O dia só me trouxe boas notícias!
Uma, inferior a mim, pensou que podia suplantar-me!...
Por esta noite! Por este entardecer!
Como é encantadora! Como é bela!
Ela procura o belo Jardim do Prazer, que tu lhe vais dar!
Pois és tu, meu amado, quem prefere os meus encantos!
Ó, minha pomba! Minha rola! Gemes como quem se
lamenta!
É ele o jardineiro do Jardim do Amor!
O coração desta donzela incita-a ao divertimento!
Desde que dormi agarrada ao meu bem-amado!...

A estes cantos e canções de ternura, de alegria e de paixão, caracteristicos dos jovens e das donzelas na fase dos namoricos e dos amores puros, o catálogo acrescenta outros que introduzem na poesia amorosa uma pincelada de devoção:

Regozija-te, Nossa Senhora! Grita de alegria!
És a mais Sábia de entre as sábias: tu que velas pelos
homens!
A mais temível de entre os deuses, sou eu!
Quero cantar bem alto ao Rei Divino, ao Rei
Omnipotente!
Quem poderia ser a minha Rainha, senão tu, Ishtar?...

A verdade é que a maior parte dos poemas e canções de amor que chegaram até nós giram à volta da deusa, tida ao mesmo tempo como Protectora e como Modelo sobrenatural do amor livre: Inanna / Ishtar.

Deixa-me! Tenho de voltar para casa!

Representados à imagem dos homens, os deuses tinham, igualmente, uma esposa, e até as suas concubinas; constituíam família, tinham filhos. Neste plano, tudo se passava sem história, não se conhecendo nem mitos nem lendas que, como entre os Gregos, reflictam as discussões e os dissabores conjugais entre divindades. Certas solenidades, as mais invocadas no decurso do I milénio antes da nossa era, celebravam as suas bodas em redor das suas próprias estátuas de culto: depois de banhados, perfumados e esplendidamente vestidos, eram transportados com grande pompa para uma das capelas do templo, a que se chamava quarto nupcial. Passavam aí alguns dias, lado a lado, assim se considerando que era consumada a união, comemorada com banquetes e festejos e com todo o povo à sua volta.
Mas os deuses praticavam também o amor livre. Foi sobretudo a personalidade excepcional de Inanna / Ishtar, totalmente independente, sem o menor vínculo conjugal ou maternal, entregue às suas fantasias e paixões, quem inspirou grande número de narrativas e canções. A ela eram atribuídas muitas aventuras, mas aquela que deixou a mais viva recordação e da qual nos resta ainda uma documentação mitológica e lírica impressionante, foi a primeira, a do seu amor da juventude por Dumuzi (em sumério) / Tamuz (em acádico), sem dúvida um soberano muito antigo, tornado herói no princípio dos tempos e depois elevado à condição de deus. Ele era pastor e Inanna, segundo se contava, tinha hesitado, a princípio, entre ele e Enkimdu, o deus agricultor, eco provável de uma determinada situação económica e social que, de facto, nos escapa, tão recuada está no tempo, neste país em que terão persistido por muito tempo as rivalidades entre agricultores e criadores de gado, agentes principais da produção dos recursos locais. Pois bem, ela escolheu o pastor, como nos indica uma espécie de dueto com o coro, escrito em sumério:

Inanna; - E quanto a mim: minha vulva, minha colina carnuda, / Quem, então, me abre sulcos? / Minha vulva, a Rainha, minha terra tão húmida, / Quem te passará com a charrua?
Coro: - Ó Senhora Soberana, o rei é que te sulcará! / Será Dumuzi, o Rei, que te sulcará!
Inanna: - Pois bem! Sulca-me a vulva, sim tu, quem eu escolhi!...

In Georges Duby, Jean Bottéro, Amour et Sexualité on Occident, Société d’Éditions Scientifiques, Paris, 1991, Amor e Sexualidade no Ocidente, Terramar, Lisboa, 1998, ISBN 972-710-053-8.

Cortesia de Terramar/JDACT