Mostrar mensagens com a etiqueta Movimento Contestatário. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Movimento Contestatário. Mostrar todas as mensagens

domingo, 30 de setembro de 2018

Um Intelectual na Política. Mário Pinto Andrade. «… diria o quanto sinto a sua falta e quanto o amo acima de todas as coisas e como tento diariamente não me tornar prisioneira do meu passado embora isso se reflicta profundamente na essência do meu ser»

jdact

Literatura e Nacionalismo em Angola
«(…) A osmose estabelece-se entre os escritores que ficaram em Angola e os que, estando a estudar em Portugal, como Agostinho Neto, se voltam para a miséria e as inquietações dos seus povos.
O Centro de Estudos Africanos, crisol de discussões e de confrontações culturais, tinha sido criado em Lisboa em 1952, por iniciativa do Agostinho Neto, do Amílcar Cabral, secretário-geral do PAIGC. (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde), de Francisco José Tenreiro e do autor deste texto.

A Voz dos Afectos. Carta sobre Mário de Andrade
(Henda Ducados Pinto Andrade)
Durante a maior parte da minha infância e adolescência Mário esteve ausente. O interessante da questão é que me fui acostumando desde muito cedo às suas constantes ausências. Ele ia e vinha o tempo todo, coisa que era normal para nós. Contudo, sempre que Sarah viajava, lembro-me de ter muitas saudades dela que ia ao quarto dela cheirar as suas roupas e chorava e chorava.
Ter saudades do Mário por outro lado era diferente e não tão doloroso porque sabíamos que as suas ausências tinham um propósito. Muito cedo tive que aprender a escrever de maneira a poder comunicar-me com ele onde quer que ele estivesse. O escrever e receber cartas dele até aos seus últimos dias, foi o que de mais bonito me poderia ter acontecido. O papel era belo e requintado assim como as palavras nele escritas. As suas cartas eram cheias de recomendações relativas à obtenção de um bom método de trabalho bem como a metodologias de investigação. Ele estava sempre preocupado acerca do meu pobre desempenho como estudante bem como ao meu fraco engajamento relativamente aos meus estudos assim como as minhas leituras. Esta preocupação sua serviu-me para mais tarde ultrapassar as minhas limitações. Interessante nisto é que o conteúdo complexo das cartas era o mesmo quer quando eu tinha 10 anos quer quando tinha 20 anos.
O que mais me surpreendia, e ainda continua a surpreender-me acerca dele, é que o Mário era extremamente organizado com tudo. Ele tinha regras que gostava de seguir em qualquer lado do mundo em que estivesse e ouvir noticiários era uma delas, que penso que ele teria adquirido quando muito jovem. O noticiário das 8 era qualquer coisa de obrigatório, e toda a casa deveria manter-se em silêncio vendo o noticiário da televisão. Ele dizia sempre que nos devíamos manter informados e paralelamente sabermos as origens das palavras pelo que tive que dedicar mais tempo (aos meus pobres conhecimentos de latim) para alcançar o sentido verdadeiro das palavras. Prendre un bol d’air por volta das seis era crucial para ele, deveríamos dar um passeio a essa hora para reflectir e respirar. Durante o passeio ele falava e eu ouvia sem no entanto prestar muita atenção. Durante muitos anos, eu ressenti-me do facto do Mário não fazer o que os outros pais faziam tal como levar-me à escola ou à piscina. De facto, Mário nunca esteve presente nos acontecimentos mais marcantes da minha vida, tal como cerimónia de fim dos estudos liceais.
Se o Mrário pudesse ouvir-me hoje, eu dir-lhe-ia que não restaram ressentimentos por não ter estado presente nos acontecimentos, aparentemente mais importantes dessa altura da minha vida porque eu ainda continuo a ver o noticiário das oito. Continuo a apreciar palavras bonitas escritas em papel requintado e, agora que ele partiu, gostaria muito que tivéssemos tido uma conversa em que lhe diria o quanto sinto a sua falta e quanto o amo acima de todas as coisas e como tento diariamente não me tornar prisioneira do meu passado embora isso se reflicta profundamente na essência do meu ser». In Mário Pinto Andrade, Um Intelectual na Política, coordenação de Inocêncio Mata, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-188-5.

Cortesia de Colibri/JDACT

Um Intelectual na Política. Mário Pinto Andrade. «Mas os jovens intelectuais organizam-se e inscrevem-se alvoroçadamente nas associações regionalistas que levavam, e levam ainda, uma actividade de carácter reformista»

jdact

Literatura e Nacionalismo em Angola
«(…) Face ao combate conduzido pelas autoridades portuguesas que, pelo primeiro quarto deste século, acabava a pacificação militar da colónia, jornalistas e homens de letras angolanos opunham uma resistência ao obscurantismo e à violência, por uma verdadeira campanha de imprensa. Os jornalistas que se ergueram contra as arbitrariedades da administração colonial, a qual procedia à expropriação sistemática das terras e dos bens das massas ditas indígenas, são os precursores da literatura nacionalista em Angola. A polémica e o ensaio eram os únicos géneros praticados pelas gerações do começo do século. Entre as figuras mais notórias devem evocar-se os nomes de Tadeu Bastos, Silvério Ferreira, Paixão Franco ou o cónego Pereira Nascimento. As novas gerações do pós-guerra vão, pois, alimentar-se destes exemplos. No decurso da sua procura de afirmação de um nacionalismo cultural, elas procedem à revalorização das obras destes precursores e reclamam-se da sua mensagem.
Aqui, a maturação da consciência nacional depende, Por um lado, da identificação com as figuras históricas da resistência e, por outro, da captação do real africano. Na busca de uma via autêntica para a criação literária, os jovens intelectuais lançam-se a estudar o desenvolvimento da cultura africana no Novo Mundo e em particular no Brasil. Vejo três razões para isso:

Em primeiro lugar, o laço histórico que une Angola ao Brasil através do importante tráfico de escravos capturados nas costas angolanas; depois, e como consequência deste laço histórico, a existência de um cultural pattern, devedor da contribuição desta parte de África; finalmente, esta larga abertura ao mundo que o Brasil permitia devido à livre expressão das ideias neste país.

Trata-se aí de um verdadeiro movimento de retorno da cultura brasileira a uma destas origens africanas. Um estudo aprofundado sobre o aspecto formal do conto e da poesia da jovem geração angolana revelaria o lugar importante ocupado pelo Brasil. Portanto, entre 1925 e o pós-guerra poucas obras são de lançar ao crédito da literatura angolana, salvo um romance de costumes Segredo da Morta, de António Assis Jr., publicado em Luanda em 1935. É apenas em 1948 que os jovens intelectuais, repensando, à medida das novas circunstâncias, o exemplo das gerações precedentes, fundam em Luanda um movimento cultural que adopta como palavra de ordem um apelo nacionalista Vamos descobrir Angola. Deste esforço de pensamento vão nascer o conto e a poesia angolanos. À volta de Viriato Cruz, que empreende um verdadeiro inquérito à vida das populações indígenas e sabe reproduzir de forma feliz a linguagem popular na sua poesia, outras vocações literárias manifestam-se. A poesia de Viriato Cruz inaugura a corrente nacionalista moderna, moldada por vezes, numa forma regional.
No momento em que ele aparece na cena literária, dois poetas de transição, Bessa Victor e Maurício Gomes, encontravam-se prisioneiros das velhas formas da poesia portuguesa e distanciados das aspirações populares, enquanto Óscar Ribas prosseguia o seu trabalho de fixação dos aspectos nitidamente folclóricos da vida angolana pelo romance e pelo conto e Castro Soromenho desmistificava já, nas suas obras, o comportamento pseudo-humanista do colonizador português em Angola.
Mas os jovens intelectuais organizam-se e inscrevem-se alvoroçadamente nas associações regionalistas que levavam, e levam ainda, uma actividade de carácter reformista. Logo de entrada, escolhem as tarefas mais directamente ligadas à elevação do nível das massas populares, como a campanha contra o analfabetismo. Pelo ardor nacionalista que põem nas suas actividades constituem um perigo para a administração colonial. Vários deles vêem-se expulsos dessas associações, não sem terem criado antes revistas culturais, como Mensagem, que data de 1951, assim como o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola. Depois foi a febre dos clubes literários. Poetas negros e brancos nascidos na colónia exaltam o nascimento de uma nova consciência ligada à terra, procuram um equilíbrio da linguagem, enriquecem a língua de dominação, dão à expressão do canto popular uma feição nova e introduzem, enfim, na sua mensagem um conteúdo social. Desenvolve-se uma literatura de emancipação nacional e social». In Mário Pinto Andrade, Um Intelectual na Política, coordenação de Inocêncio Mata, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-188-5.

Cortesia de Colibri/JDACT

sábado, 29 de setembro de 2018

Um Intelectual na Política. Mário Pinto Andrade. «Todas as formas de criação literária procedentes desta região ficaram no estado oral e mantidas numa espécie de clandestinidade tribal»

jdact

Literatura e Nacionalismo em Angola
«(…) É evidente que as condições gerais da existência que foi imposta ao escritor nos países africanos sob dominação portuguesa explicam o estado actual de desenvolvimento da literatura nesses países e a ignorância do público internacional acerca do seu lugar no património cultural da África Negra. Isto tem a ver, em primeiro lugar, com as consequências de um sistema colonial particularmente opressor. Com efeito, uma estrutura social do tipo colonial não poderia de maneira nenhuma suscitar o desenvolvimento da cultura. Não é apenas uma classe que na situação colonial dispõe à vontade dos meios de produção espiritual, mas toda a sociedade dominante. Já se notou o suficiente como o colonizador manobra para reduzir os colonizados a simples consumidores da cultura dele, colonizador.
A política de assimilação espiritual praticada pelos portugueses é baseada num critério de superioridade cultural, porque se integra no quadro de uma ideologia colonial. Alguns, como o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, afirmam que os países tropicais colocados outrora ou actualmente sob a dominação de Portugal e sob a direcção do cristianismo (Brasil, África, Índia, Madeira, Açores) constituem ainda hoje uma unidade de sentimento e de cultura. A operação desta unidade seria, em sua opinião, um resultado lógico dos métodos e das condições da colonização portuguesa, da cordialidade e da simpatia características do povo português, o mais cristão dos colonizadores modernos nas suas relações com as pessoas ditas inferiores. O Português, pelos seus contactos com os árabes, possuiria uma aptidão hereditária para viver sob o sol dos trópicos e uma predisposição para as aventuras sexuais com as mulheres de cor, sob o signo da Vénus morena...
Freyre admite desde aí uma originalidade, uma forma de aptidão biológica e social do português, civilizador dos trópicos. Se por esta doutrina do luso-tropicalismo se devesse entender, como quer o sociólogo brasileiro, uma civilização e uma cultura próprias a todos os países tropicais de língua portuguesa teria sido preciso verificar em todas essas áreas formas de produção espiritual comuns a umas e outras. Ora não é nada assim. Não há tradições comuns vividas de uma maneira autêntica entre tal camponês de Angola e tal outro da província do Alentejo, entre o moçambicano e o brasileiro. Aliás, a percentagem de analfabetismo entre as populações negras da Guiné, de Angola e de Moçambique (99%) invalida a existência de uma civilização luso-tropical veiculada pela língua portuguesa.
No caso português, a assimilação é sempre traduzida praticamente por uma desestruturação dos quadros negro-africanos e a criação de uma elite quantitativamente reduzida. Ela apresenta-se como a receita mágica que conduziria o indígena das trevas da ignorância até à luz do saber. Uma forma de passagem do não-ser ao ser cultural, para empregar a linguagem hegeliana. Também os intelectuais dos países sob a dominação portuguesa se esforçaram por enfrentar e resolver correctamente o problema gerado pela assimilação: rejeição definitiva do substratum negro-africano? Diluição na cultura dominante? Aceitação da pseudo-condição de mestiço cultural?
Paralelamente a estas interrogações, e por vezes confundidos com elas, delineiam-se os gestos e as atitudes fundamentais que vão conduzir os intelectuais angolanos ao aprofundamento da sua própria consciência nacional. Os escritores que decidem rejeitar o estilo literário aprendido na escola portuguesa vão ajudar, através das suas obras, a cristalizar nos países o sentimento de independência nacional. Este esforço exercer-se-á primeiro sobre um meio restrito, o meio urbano, mas o povo entenderá os seus ecos. Em Angola como em Moçambique exerce-se uma das pressões coloniais mais fortes sobre todas as tentativas de afirmação cultural e particularmente literária dos criadores africanos. Assim, as culturas africanas, em geral bantas, nunca puderam encontrar um quadro para a fixação completa e o desenvolvimento de uma literatura escrita moderna. Todas as formas de criação literária procedentes desta região ficaram no estado oral e mantidas numa espécie de clandestinidade tribal.
À medida que os cidadãos saídos da comunidades africanas se elevavam até à tomada de consciência cultural, pelo jogo de uma administração que deixava alguns lugares vagos aos negros nos estabelecimentos escolares da colónia, eles exprimiam-se em português. Isso não impediu que em Angola espíritos clarividentes como Cordeiro Matta avaliassem a contribuição das culturas bantas e empreendessem a fixação da sua língua materna. Foi Cordeiro Matta quem, no fim do século XIX, estabeleceu o primeiro dicionário quimbundo-português e quem, além dos seus ensaios de análise histórica de conto e de poesia, realizou uma obra consequente no domínio do folclore angolano». In Mário Pinto Andrade, Um Intelectual na Política, coordenação de Inocêncio Mata, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-188-5.

Cortesia de Colibri/JDACT

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931). Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil. Ana Caiado Boavida. «Quando, entre Abril e Maio de 1931, se agitam bandeiras vermelhas nas faculdades, sobretudo a partir de 1929, começa a fazer-se notar no meio universitário a influência da Juventude Comunista…»

Cortesia de wikipedia

«(…) Uma das facetas mais significativas dos primeiros anos post-28 de Maio reside não só no relevo de novo concedido, pela oposição republicana, ao papel que a propaganda politica e ideológica deve desempenhar no seu combate pelo derrube da Ditadura e dos grupos sociais que sustentam, mas, e sobretudo, no conteúdo da mensagem veiculada por essa propaganda. Digamos que, genericamente, a estratégia dos diversos sectores oposicionistas exige a movimentação de três importantes peças: a manobra politica tendente a desagregar a mal cimentada facção da classe dominante que se encontra instalada no poder; a revolta armada, englobando militares democráticos e civis; e o apostolado, através da imprensa e dos centros e ligas republicanos, dos princípios do liberalismo e da democracia representativa, herdados das gerações mais progressivas do século anterior. Apostolado que é, essencialmente, antimonárquico e anticlerical.
O jornal Liberdade (publica-se pela primeira vez em 27 de Maio de 1928, tendo como director e editor Virgílio Marinha Campos e como redactor João Carlos Nordeste. António José Almeida foi convidado para redigir o primeiro editorial, no qual diz, a dada altura: encontramo-nos envolvidos num lance calamitoso, e que o é sobretudo pela confusão das ideias e pela conturbação dos sentimentos. [...] Como sair dele? Só há um processo: disciplinar o pensamento político português), entre outras virtudes, tem a de ser um paradigma. Por sintetizar, de 1928 a 1932 (o Liberdade reflecte uma interessante evolução ideológica dos seus colaboradores. Numa fase inicial, de 1928 a 1930, a tónica é colocada na apologia da obra realizada pela República, contrapondo a esta obra benéfica a acção perniciosa dos monárquicos e dos jesuítas; numa segunda fase, de 1930 até finais de 1932, começa a ser dada uma particular atenção às relações entre o operariado e a República. Por fim, de 1933 a 1935, o Liberdade adquire uma feição progressivamente marxista, predominando a aspiração de levar a toda a parte onde se sofre, onde se vive inconscientemente, a nossa palavra entusiasta, propagandeando o credo nobilíssimo da emancipação humana, como declara Virgílio Marinha Campos no n.° 189, de 12 de Janeiro de 1933, o primeiro que ostenta a designação de Semanário Republicano de Esquerda), uma maneira de ser e de se conceber (quando a Liberdade apareceu, foi acusada de avançada e de revolucionária. [...] Pois agora há quem a acuse de conservadora e reacionária; é certo que ainda não defendeu a supressão do capital, nem a divisão das terras pelos seus leitores; mas, enfim, tem defendido a República, a Liberdade, a Democracia, o Livre-Pensamento, o Estado laico, o aproveitamento obrigatório da propriedade rústica ou a sua alienação, uma mais equitativa remuneração do trabalho e os seguros sociais e tem combatido a reacção política, o clericalismo, a superstição, a guerra, a iniquidade de certas desigualdades económicas, o retrocesso no pensamento ou na acção; chamem-lhe nomes, a Liberdade prosseguirá).
Por congregar, lado a lado e em ideal camaradagem, velhos e novos republicanos, irmanados na convicção de que, enquanto a academia e a República se derem as mãos, a Pátria não morrerá. Por, finalmente, assumindo-se embora como jornal académico republicano, ter privilegiado a luta pela República, secundarizando a existência da academia, excepto quando esta se torna elemento indispensável do jogo político. Quando, no início do ano lectivo de 1930-31, as eleições nas três associações académicas do País são ganhas por estudantes republicanos, pensa-se que uma irresistível onda de espírito democrático está em formação nas profundezas do descontentamento popular. Quando, entre Abril e Maio de 1931, se agitam bandeiras vermelhas nas faculdades (sobretudo a partir de 1929, começa a fazer-se notar no meio universitário a influência da Juventude Comunista; sobre este fenómeno, J. Arsénio Nunes, sobre alguns aspectos da evolução do Partido Comunista Português após a reorganização de 1929 (1931-33), in Análise Social), olhos postos no exemplo oriundo da Madeira (a propósito dos acontecimentos de 1931 escutemos o testemunho de um protagonista, Vasco Gama Fernandes, então estudante da Faculdade de Direito de Lisboa: Era aliciante e em cheio a minha actividade: estudava como podia, tomava parte em reuniões públicas, uma delas no Centro Republicano António José Almeida, sob a presidência de Norton Matos [...] conspirava com estranhos e com companheiros da Faculdade [...] empenhados na organização dum Batalhão Académico [...] foi precisamente nessa ocasião que se deu a revolta da Madeira e nos Açores, com implicações frustes em Angola e na Guiné; oficiais republicanos, deportados nas ilhas, sob o comando do impoluto general Sousa Dias, ocuparam as posições estratégicas e aliciaram o entusiasmo das populações. Dado que a revolução não era secundada, como era de esperar, na metrópole, os rapazes do batalhão e outros poucos romperam no assalto à Faculdade de Direito, invadiram as suas salas, despejaram as carteiras pela janela, fizeram frente a dois ou três reaccionários mais decididos e, perseguidos pela polícia, entrincheiraram-se na Faculdade de Medicina [...], in Gama Fernandes, Depoimento Inacabado, Lisboa), corações alvoraçados pelas notícias trazidas de Espanha (sobre o papel desempenhado pelos estudantes no processo que conduziu à implantação da República em Espanha, em 1931), acredita-se que um retorno rápido à República liberal e parlamentar pertence ao universo dos possíveis. Quando, por fim, a derrota das ilusões se abate sobre a academia, é um pouco como se um tempo que teimava em não passar acabasse por morrer. Quanto ao futuro..., ele irá estar nas mãos de outras vanguardas, portadoras de outras concepções do mundo, de outras formas de actuar, quer na academia, quer na sociedade». In Ana M. Caiado Boavida, Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931), Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil, Análise Social, vol. XIX, 1983.

Cortesia de Análise Social/JDACT

Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931). Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil. Ana Caiado Boavida. «… um futuro social que nos honre e do qual sejamos dignos, como declara Emídio Guerreiro, em nome do Centro Académico Republicano do Porto, a Vitorino Nemésio…»

Cortesia de wikipedia

«(…) Os tempos, contudo, não corriam de feição para pretensos apoliticismos. Agudiza-se o combate ideológico entre os jovens integralistas de Coimbra, que se expressam através do periódico A Ideia Nova, e os jovens republicanos do Centro Académico, que não se abstêm de lançar contra os seus colegas monárquicos graves acusações de vandalismo. Nos primórdios de 1928 (o ano de 1928 foi assinalado por um conjunto de medidas governamentais extremamente impopulares junto da camada estudantil, facto que, por si só, terá contribuído para uma maior consciencialização do carácter prepotente da Ditadura Militar; a intenção, consagrada em decreto datado de 12 de Abril de 1928, de extinguir as Faculdades de Direito de Lisboa, de Letras do Porto e de Farmácia de Coimbra, bem como a Escola Normal Superior da Universidade de Coimbra e as Escolas Normais Primárias de Coimbra, Braga e Ponta Delgada e ainda o liceu da Horta, provocou um surto grevista nas três academias.), e enquanto uma assembleia geral reunida em 22 de Janeiro aprova o novo Estatuto Político do Centro Republicano Académico de Coimbra, reactiva-se o Centro Académico Republicano do Porto, que publica o primeiro número do seu jornal, O Democracia, no dia do aniversário do 31 de Janeiro de 1891, data que os republicanos passam a comemorar com redobrada emoção. Subtis diferenças de pressupostos teóricos e de objectivos políticos podem ser detectados nesta fase da vida dos dois Centros.
Enquanto o Centro Republicano Académico de Coimbra se define, prioritariamente, como um grémio de acção e cultura política, orientado para a defesa dos princípios da República democrática, e preconiza o mais rasgado espírito de reforma no regime da propriedade e do trabalho, no sentido de tornar aquela acessível ao maior número e este produtivo e liberto da tendência da mão-de-obra para o menor esforço, elementos do Centro Académico Republicano do Porto organizam o Comité Académico Operário do Porto, cujo escopo consiste em desenvolver uma forte propaganda contra o analfabetismo, alcoolismo, integralismo, fascismo, clericalismo, e em defesa da organização operária (na primeira reunião deste Comité foram nomeados os seus corpos gerentes, compostos por três estudantes e três operários; Horácio Cunha, chefe de redacção do Democracia, foi eleito presidente; Alexandre Pinto, secretário do mesmo jornal, foi escolhido para secretário administrativo do Comité Académico Operário do Porto).
Entretanto, e a fim de tornar mais eficiente e proveitosa a acção dos centros académicos, trabalha-se no sentido de conjugar esforços, coordenando iniciativas que contribuam para viabilizar um futuro social que nos honre e do qual sejamos dignos, como declara Emídio Guerreiro, em nome do Centro Académico Republicano do Porto, a Vitorino Nemésio, presidente do Centro Republicano Académico de Coimbra; futuro que, reconhece-se, passa pela preparação de uma verdadeira revolução. Os estudantes republicanos da academia de Lisboa não podiam, obviamente, marginalizar-se deste renascimento de velhas práticas e estratégias. Em Dezembro de 1927, e com grande regozijo da imprensa afecta ao Partido Democrático, à Esquerda Democrática e ao Partido Socialista, a Liga dos Estudantes Republicanos de Lisboa participa nas manifestações do dia da Restauração, que se pretendem grandiosas e politicamente significativas. O relativo insucesso que rodeia este acontecimento não faz desmobilizar a jovem vanguarda da oposição republicana à Ditadura Militar. Assim, em Maio de 1928 é posto à venda aquele que virá a ser o mais importante e expressivo jornal da academia republicana, o Liberdade». In Ana M. Caiado Boavida, Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931), Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil, Análise Social, vol. XIX, 1983.

Cortesia de Análise Social/JDACT

domingo, 26 de abril de 2015

Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931). Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil. Ana Caiado Boavida. «… um grupo de rapazes republicanos de Coimbra, mais ou menos dispersos e confundidos no seio dum grémio de estudantes de fama reaccionária, resolveram desfazer esse equívoco e definir, que coisa é o seu republicanismo»

Cortesia de wikipedia

«(…) Quanto às condicionantes e limites do movimento estudantil, julgamos não errar ao considerar que eles estão intimamente ligados à ambiência política envolvente do meio académico. Mas não só. Factores de índole específica são poderosos agentes no processo evolutivo de uma dada estrutura (dois exemplos: a luta levada a efeito, em 1919, pela Federação Académica de Lisboa contra o propósito de o Governo e o Parlamento intervirem na vida e na orgânica universitária, através da fiscalização da execução das suas leis e da escolha e nomeação do professorado e reitores; em 1926, e durante largos meses, as três academias estão em greve, entre outros motivos, por discordarem de um decreto que torna a contratação de professores dependente de factores de ordem política). O desenvolvimento do associativismo, sobretudo do associativismo federativo, depende de circunstâncias várias, que vão desde o distanciamento espacial entre as diversas escolas, institutos e faculdades, passando pelo desnivelamento social, que conduziu, não raras vezes, a uma hostilidade latente entre, por exemplo, alunos do Instituto Superior Técnico e alunos dos Institutos Industriais (outra das causas da greve de 1926 residiu na contestação movida pelos estudantes do Instituto Superior Técnico de Lisboa e da Faculdade Técnica do Porto contra a atribuição do título de engenheiro-auxiliar aos formados pelos institutos industrias, alegando que estes se pretendiam confundir com os licenciados pelos institutos superiores...), até à inexistência de uma mentalidade propiciadora dos gestos colectivos.
O impulso que, em 1913, produziu a Federação Académica de Lisboa foi esmorecendo lentamente, apesar dos periódicos sobressaltos suscitados por alegadas violações dos direitos estudantis. Os dois números da Revista da Federação Académica de Lisboa atestam bem a pouca consistência da estrutura federativa, sobrevivendo à custa do entusiasmo de meia dúzia de boas vontades. Como todas as regras têm as suas excepções, a Associação Académica do Porto oferece, talvez por razões de ordem sociológica, um panorama relativamente menos sombrio, em especial durante a década de 20, tendo conseguido manter de 1922 a 1929 a publicação regular do jornal Porto Académico. Jornal que, no entanto, não deixa de nos transmitir, em Janeiro de 1929, uma toada de profundo desencanto: a falta de pensamento e de acção, já não digo da academia do Porto, mas da actual geração académica portuguesa, tem sido um facto tão real, tão patente, que se impõe, com força de evidência, à nossa sensibilidade. [...] A quase totalidade da massa académica encontra-se ainda hoje dominada por um preconceito deplorável. Entende ela que a vida de estudante, para além do tempo ordinário que o seu curso lhe exige, deve ser completamente esgotada pela blague, pela facécia, alheada por completo dos problemas graves que afectam a Nacionalidade. Escassos meses após terem sido escritas estas palavras, a força de novos acontecimentos provocará o agitar das vontades adormecidas.
Uma das primeiras manifestações de inconformidade oriunda da juventude republicana, perante o evoluir do processo político desencadeado na Primavera de 1926, surgiu paradoxalmente adentro do tradicional bastião do conservantismo nacional. Pouco mais de um mês volvido sobre a fracassada tentativa de restituir ao País a legalidade institucional, precisamente em 9 de Abril de 1927, um grupo de rapazes republicanos de Coimbra, mais ou menos dispersos e confundidos no seio dum grémio de estudantes de fama reaccionária, resolveram desfazer esse equívoco e definir, num momento notoriamente difícil da vida nacional, que coisa é o seu republicanismo e em que princípios basilares se sustenta uma consciência cívica de que se ufanam. Liderando a iniciativa, quatro nomes sonantes do Centro Republicano Académico de Coimbra: Carlos Cal Brandão, Paulo Quintela, Sílvio Lima e um jovem a quem muitos auguram uma brilhante carreira literária, Vitorino Nemésio. Entre a lista de eventuais colaboradores destacam-se Rodrigues Miguéis e António Sérgio, este último já exilado em Paris, de onde envia alguns artigos para o jornal Gente Nova. Paralelamente ao relançamento das actividades do Centro Republicano Académico de Coimbra, procura-se dinamizar a Associação Académica, partindo esta diligência de um grupo de estudantes que se pretende acima de querelas partidárias ou religiosas. Desde modo, o jornal Mocidade, editado pela Associação Académica, apresenta-se aos seus potenciais leitores como um exemplo de imparcialidade, isenção de paixões, ideias claras e desempoeiradas, crítica acerada dos que com culpa prevaricam, perdão pleno para os pobres de espirito, vigor no ataque e lealdade na defesa». In Ana M. Caiado Boavida, Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931), Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil, Análise Social, vol. XIX, 1983.

Cortesia de Análise Social/JDACT

terça-feira, 15 de julho de 2014

Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931). Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil. Ana Caiado Boavida. «… a coisa não está para brincadeiras... E os rapazes sentem que, se não defenderem com cuidado a lancha, arriscam-se a ter de nadar. Uma agonia de classe que ingenuamente se amarra a princípios de reacção»

Cortesia de wikipedia

«(…) É tempo, talvez, de nos questionarmos sobre a real dimensão e projecção de todos estes grupos saídos dessa vaga e abstracta mocidade das escolas para quem um dia Guerra Junqueiro apelou. É tempo de tentarmos averiguar até que ponto o movimento estudantil, durante o tempo que medeia entre o apogeu e a queda de uma certa ideia de realizar a República, não sofreu as consequências do forte partidarismo da juventude radicalizada em integralismos mais ou menos ortodoxos, em conservadorismos neo-sidonistas ou cruzadistas, em republicanismos de feição jacobina ou socializante e, na transição da década de 20 para a década de 30, no marxismo-leninismo do reorganizado Partido Comunista Português. A resposta à nossa primeira interrogação não é fácil, se nos quisermos estribar em dados estatísticos, dada a escassez de elementos desta natureza de que dispomos. Desconhecemos as listas de adesões e só muito esporadicamente as detectamos com um ou outro número veiculado pela imprensa afecta às organizações. Um dos principais objectivos, desde sempre, dos centros e ligas académicos consistiu na promoção de conferências, por vezes na realização de comícios; também aqui nos surgem hesitações, quando procuramos medir o alcance da palavra dos oradores através duma impossível contabilização dos participantes. E já nem sequer falamos da ignorância que temos da tiragem dos poucos jornais republicanos académicos que conseguem sobreviver ao heroísmo do primeiro exemplar...
Certo é que a capacidade de expansão de uma ideia se não pode aquilatar unicamente pelo número inicial dos seus apóstolos e seguidores, mas antes pela sua maior ou menor adequação às necessidades dos grupos sociais a quem se dirige e ainda quando demonstra saber enfrentar os grandes campeões das tendências opostas, quando resolve com os próprios meios as questões vitais que eles puseram, ou demonstra peremptoriamente que tais questões são falsos problemas. Parece-nos que de 1880-90 até 1910, com todos os fluxos e refluxos inerentes a qualquer processo histórico, a difusão do corpo doutrinário e ideológico republicano contou com a participação de um substancial contingente de jovens estudantes, sobretudo dos cursos superiores. A sua inclusão na estratégia dos dirigentes do Partido Republicano Português decorre não só de uma mítica e mística imagem da mocidade das escolas, mas talvez essencialmente da verificação da existência de uma dinâmica sui generis no meio académico, consequência, em parte, dos condicionalismos específicos a esse meio. Após 1910, a correlação de forças no meio académico sofre uma considerável alteração. Os testemunhos que nos chegaram dão conta de um inquietante acréscimo de desinteresse e apatia pela res publica; se esses testemunhos provêm do sector republicano, predomina o espanto ocasionado pela eficácia revelada pelos monárquicos integralistas em captar para a sua mundividência grande parte da juventude. Quando, em 1918 e nos primeiros meses de 1919, quando até em 1926 e, com particular incidência, nos anos imediatamente posteriores a esta data, se glorifica de novo o espírito generoso e idealista da mocidade das escolas republicana, julgamos assistir a um acto de exorcismo, que só provisória e superficialmente actua sobre as sombras que se pretende esconjurar. No entreacto tentam-se explicações, apontam-se soluções. De um modo geral, existe a convicção de que a principal causa do desinteresse da juventude pelos princípios democráticos advém do carácter conservador ou mesmo reaccionário do corpo docente das várias escolas secundárias e superiores do País. No sentido de eliminar o efeito, tomam-se medidas contra a suposta causa, decretando-se a fiscalização do grau de republicanismo dos professores contratados pelo Estado, facto que sempre suscitou o desagrado da instituição universitária, ciosa das suas prerrogativas autonómicas, concedidas precisamente pela República.
Há quem, no entanto, não concorde com a pertinência dos argumentos que atribuem à educação a fonte do insucesso republicano, recordando que nos tempos da Monarquia se formou uma juventude revolucionária dentro dum sistema caduco de ensino. Há mesmo quem considere que a dilucidação do problema passa pelo uso de outros pressupostos teóricos:
  • [...] a geração que anda agora nas escolas não representa o Povo português. Com poucas excepções, apenas confirmantes da regra, os rapazes da academia pertencem às classes dominadoras da sociedade portuguesa. Os pobres, os filhos do Povo, não passam da instrução primária, bloqueados pelo preço das propinas e dos livros. Já era assim no meu tempo. Mas, no meu tempo, a classe a que eu e os meus condiscípulos pertencíamos estava solidamente instalada no Poder. Podíamos nós, os moços, permitir-nos idealismos avançados, que a vida e o interesse pessoal mais tarde quase sempre esbatiam, sem que mal de maior viesse ao mundo. [...] Mas agora... Agora que a tormenta anda no céu, o plácido lago antigo tem onda, cria torvelinhos e sacode por si próprio o batel dos nossos privilégios. Como ao outro que diz: a coisa não está para brincadeiras... E os rapazes sentem que, se não defenderem com cuidado a lancha, arriscam-se a ter de nadar. [...] É este o aspecto espiritual da nossa mocidade. Uma agonia de classe que ingenuamente se amarra a princípios de reacção. In Amâncio de Alpoim.
In Ana M. Caiado Boavida, Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931), Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil, Análise Social, vol. XIX, 1983.

Cortesia de Análise Social/JDACT

Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931). Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil. Ana Caiado Boavida. «É perante este problema fundamental, criação das ‘élites’ políticas e pensantes, que a mocidade portuguesa tem de agir e reagir»

Cortesia de wikipedia

«(…) Em Abril de 1918, uma comissão de alunos da Universidade de Lisboa convida a mocidade republicana das escolas e toda a mocidade republicana, seja qual for o ramo de actividade a que se dedique, a comparecer numa reunião que terá por finalidade a fundação de uma Liga Republicana onde se possam congraçar todos os republicanos da nova geração, com ou sem filiação partidária. A propósito da reorganização dos jovens republicanos, podemos ler no jornal O Mundo de 29 de Abril de 1918, na sua primeira página, as seguintes informações: há muito que a ideia generosa e alta do centro republicano académico, onde, sem distinção de partidos, se juntassem todos os republicanos das escolas, andava na alma da academia. Já depois da implantação da República têm sido fundados, com um maior ou menor êxito, na Universidade de Coimbra centros republicanos académicos, alguns de natureza partidária, outros simplesmente republicanos. Em Lisboa, depois da revolução de 14 de Maio, tentou-se na academia a fundação dum centro republicano. A intenção de ilibar esta iniciativa de possíveis acusações de sectarismo partidário transparece no cuidado com que se estabelecem os contactos. Grupos de estudantes dialogam com Brito Camacho, com um elemento do Directório do Partido Democrático e com um membro da Junta Central do Partido Evolucionista.
Enquanto na capital se procede às operações de lançamento da Liga Nacional da Mocidade Republicana, em Coimbra, os jovens republicanos agitam-se em torno da construção do seu Bloco Académico Republicano; por seu turno, no Porto avança-se com a organização do respectivo Grémio Académico Republicano. Mais uma vez a República se socorre do aval da juventude para demonstrar aos incrédulos a justeza das suas razões. A conjuntura politica de 1918 não é, contudo, propicia a uma reedição das jornadas gloriosas de 1890. Não é só contra a policia de Sidónio Pais e a crescente arrogância dos monárquicos de todos os matizes que se tem de lutar. Divergências profundas, e de longa data, fraccionam a família republicana, provocando inevitáveis divórcios. Um escasso mês após a primeira convocatória para os trabalhos preparatórios da organização da Liga já Nóbrega Quintal, chefe de gabinete de António José de Almeida e um dos principais impulsionadores deste projecto, declarava:
  • A princípio pretendeu-se-lhe dar um carácter abstractamente republicano, isto é, onde se olhasse ao facto de o ser, e não à maneira de o ser. Assim entrariam nela estudantes afectos à actual situação. Desde a primeira hora que me opus a tal programa. Uma Liga da Mocidade Republicana não poderia, já não digo pactuar, mas transigir sequer com a República que para ai está, uma República vazia de sentido republicano.
De depuração em depuração, o processo construtivo da Liga caracteriza-se por uma acentuada morosidade; entretanto, as camadas intransigentemente conservadoras e nacionalistas do republicanismo agitam o pendão de Nuno Álvares Pereira, aliciando grande parte dos estudantes afectos à actual situação», de que falava Nóbrega Quintal. Superado o interlúdio sidonista, a actividade das ligas, blocos e grémios académicos republicanos logo se esbate num remoer narcisista da mais recente proeza das suas hostes, o combate do Batalhão Académico nas faldas de Monsanto. Mas o evoluir dos acontecimentos históricos não se compadece com as pequenas distracções humanas. Cônscios desta verdade estão os jovens que, no dealbar de 1924, se propõem ressuscitar, em novos moldes, a União da Mocidade Republicana. Rodrigues Miguéis, presidente do movimento, lança um alerta, traça um programa, aponta uma outra rota:
  • Responsabilidades bem graves, bem duras, pesam sobre os novos de hoje. As gerações passadas agitaram à luz do ideal ardente a bandeira vermelha da revolta; abriram para os ventos desordenados que então sopravam sobre as fórmulas políticas em decadência e ruína as suas palavras como fogo e lava. Mas passadas as horas da luta, horas de perigo incerto, horas de febre, eles, que não haviam cultivado mais do que o sentimento republicano, sem cuidarem talvez, que acima desse é mister que vibre a inteligência construtora das democracias, viram-se a braços com as maiores dificuldades e não puderam, ainda que o desejassem, conjurar os perigos e destruir os erros. [...] Lançadas, em Portugal, as bases do regime republicano [...] falta-nos, como escreve um grande espírito da nossa terra, criar uma élite política e científica com força bastante para enquadrar a massa e torná-la digna, finalmente, da gloriosa história dos seus avós. Eis, nessas palavras, realmente desenhada a face política da questão portuguesa. É perante este problema fundamental, criação das élites políticas e pensantes, que a mocidade portuguesa tem de agir e reagir».
In Ana M. Caiado Boavida, Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931), Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil, Análise Social, vol. XIX, 1983.

Cortesia de Análise Social/JDACT

Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931). Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil. Ana Caiado Boavida. «Todos os partidos políticos dos últimos 85 anos, além de outros factores de secundária importância, fizeram dela o que quer que seja de triste e de confrangedor»

Cortesia de wikipedia

«(…) Implantado o regime republicano, que perspectivas se abriram para essa mocidade das escolas tão lisonjeada durante os tempos da propaganda oposicionista? O desencanto manifesto nas páginas dos jornais republicanos académicos, poucos meses após a euforia que rodeou a revolução, traduz a existência de um crescente desencontro entre os que aspiram a uma radical transformação das estruturas universitárias e aqueles que, tornados sóbrios e sisudos pelas novas responsabilidades governativas, fazem a apologia da moderação. Enquanto, nas escolas, se reivindica a equidade nas relações docente/discente, a par de uma nova metodologia de ensino, enquanto, em Coimbra, a chamada falange demagógica investe contra os símbolos da tradição (com um programa semelhante ao dos intransigentes da greve de 1907 formou-se em Coimbra, no alvorecer da República, um grupo académico, de renovação democrática, que, a si próprio se denominando de falange demagógica, investiu, em 17 de Outubro, a tiro de cacete, as doutrinas e a decoração da Sala dos Capelos, chegando até a perfurar, à bala, algumas das efígies que ali formam, ainda hoje, a galeria histórica dos monarcas portugueses), António José de Almeida, na sua função de ministro do Interior, declara em plena Assembleia Constituinte que Quem praticou actos dignos de castigo há-de ser castigado, porque é preciso que a ordem se implante, de uma vez para sempre, em Portugal.
Frustrado o radicalismo juvenil perante o evoluir dos acontecimentos e dos actores históricos, iludidas as expectativas numa República afeiçoada aos mais nobres ideais de incorruptível intransigência política, de generosa justiça social, de coerente cumprimento das suas promessas, adiada, enfim, a concretização da Utopia, são encetados outros caminhos, alinhadas outras tendências. Um pouco por todo o lado trabalha-se, de novo, na reorganização do movimento associativo, planejando-se o relançamento da Federação Académica de Lisboa. Em 1913, após um movimento iniciado em Março pela Associação Académica do Instituto Superior do Comércio, logo secundado pelas associações Académicas das Faculdades de Letras e Ciências, da Escola de Medicina Veterinária e dos Institutos Superiores Técnico e de Agronomia, é fundada a tão almejada Federação Académica de Lisboa. Dois anos mais tarde, em Março de 1915, publica-se o primeiro número da Revista da Federação Académica de Lisboa, precioso documento para o estudo do clima ideológico no meio estudantil, cinco anos volvidos sobre o 5 de Outubro e em plena ditadura de Pimenta de Castro.
Os propósitos da Revista, que pretendem ser idênticos aos propósitos da Federação de que é porta-voz, são enunciados no artigo de apresentação. Depois de se declarar que em torno da bandeira da Federação Académica, símbolo da obra de confraternização e progresso que se propõe efectivar, se enfileiram, como soldados do Bem e do Dever, todos os estudantes, prontos a defenderem os seus interesses, que são os interesses da Pátria, é abordado o plano de realizações que a Revista pensa levar a cabo:
  • Propondo-se realizar uma obra verdadeira e acentuadamente patriótica, esforçar-se-á por inserir artigos em que se abordem e discutam principalmente assuntos de interesse nacional, desde a mais simples comemoração histórica que recorde passadas glórias até aos mais complexos e autorizados projectos de comércio, de indústria, de agricultura, de finanças, de colónias, de instrução e educação que possam directamente concorrer para o renascimento português, fazendo ingressar a Nação no movimento moderno, de que anda, infelizmente, tão afastada.
A vocação da academia para os altos voos da história surge-nos, agora, alicerçada nos valores Progresso, Dever, Renascimento e Pátria. Poder-se-á objectar que foi em nome do Progresso e para o Renascimento da Pátria que se difundiu o ideal da República. Nada mais exacto. Simplesmente, antes de 1910 foi o valor máximo República que a academia, com toda a carga de religiosidade e utopismo que caracteriza os grandes impulsos colectivos, orientou a sua acção. Ulteriormente, tanto em 1915 como em 1918 e, mais tarde, em 1926, um vasto sector da juventude, que ainda se reclama do republicanismo, tende a apostar numa revisão das formas que configuram o regime republicano. Neste sentido, muitos apoiam o professor Lino Neto quando este escreve, na Revista da Federação Académica de Lisboa, que a unidade da Pátria está enfraquecida. Todos os partidos políticos dos últimos 85 anos, além de outros factores de secundária importância, fizeram dela o que quer que seja de triste e de confrangedor. Uns poucos, noutro quadrante ideológico, escutam o pedagogo António Sérgio, lêem as suas palavras: Cumpre à mocidade estudar e discutir as questões vitais do seu país, mas de maneira alguma imiscuir-se nas brigas partidárias; o seu dever é exprimir, acima dos partidos (de todos eles) o verdadeiro protesto da Nação [...] Outros há, porém, que, teimosamente fiéis ao ideário que lhes foi legado pelos seus antecessores, acorrem sempre que vêem perigar o sistema republicano liberal e parlamentar». In Ana M. Caiado Boavida, Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931), Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil, Análise Social, vol. XIX, 1983.

Cortesia de Análise Social/JDACT

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Um Intelectual na Política. Mário Pinto Andrade. «… o essencial do debate aberto no decurso da primeira fase desta luta pelo reconhecimento universal dos valores negros foi considerado como ultrapassado. A independência dos países africanos, fazendo recuar as fronteiras do colonialismo»

jdact

Literatura e Nacionalismo em Angola
«(…) O combate pelo reconhecimento dos valores ditos negros, a reabilitação da cultura negro-africana aos olhos do mundo, a reivindicação do contributo do humanismo africano para o humanismo universal, foi travado com um ardor particular pelos intelectuais dos países antigamente colonizados pela França. Através da fundação de revistas, entre as quais ainda se mantém com mais prestígio a Présence Africaine, da organização de congressos internacionais de cultura, de debates sobre as condições da existência das literaturas nacionais em África, de ensaios de interpretação de uma filosofia africana ou da fundação de companhias teatrais, toda uma época se encheu de ruidosas manifestações de negritude. O primeiro congresso dos escritores e artistas negros reunido em Paris em 1956, ao qual tive o privilégio de estar intimamente associado, marcou uma mudança decisiva nas actividades de Présence Africaine. Este congresso, proclamando a necessidade de reabilitar e desenvolver as diversas culturas negras a fim de favorecer a sua integração no conjunto da cultura humana, pôs a tónica sobretudo na crise que as atinge, tendo em conta o sistema colonial. Convidando os intelectuais a trabalharem para a criação das condições concretas do renascimento e da expansão das culturas negras, os congressistas queriam sublinhar a pré-eminência da luta pela independência nacional.
Desde então, o compromisso do homem de cultura colonizado encontrava-se nitidamente politizado. Esse compromisso estava já assumido particularmente pelos jovens escritores de expressão europeia que tomavam como seu papel essencial despertar a consciência nacional nos seus respectivos países. Se bem que conscientes do facto de que os seus escritos não podiam atingir o grande público africano, iletrado na esmagadora maioria, estes criadores apresentaram-se a si mesmos como os perturbadores da ordem colonial. O lugar desta literatura no contexto da luta nacionalista é muito mais importante do que se julga. Mas é à luz do exemplo argelino que melhor se vai definir o compromisso do homem de cultura colonizado. Por ocasião do congresso dos escritores e artistas negros em 1959, Franz Fanon, no seu relatório Fondements réciproques de la cultura nationale et de la lutte de libération (Fundamentos recíprocos da cultura nacional e da luta de libertação), desvendou pela primeira vez ao público africano e internacional o sentido da mutação revolucionária das manifestações culturais no decurso da luta armada pela libertação nacional. Eis a ideia essencial que ilumina todo o seu relatório:
  • Nós pensamos que a luta organizada e consciente empreendida por um povo colonizado para restabelecer a soberania da Nação constitui a manifestação mais plenamente cultural que se pode imaginar.
De facto, faltava ao problema cultural levantado anteriormente pelos intelectuais africanos esta dimensão fornecida pela experiência de um povo colonizado em armas. Progressivamente, o essencial do debate aberto no decurso da primeira fase desta luta pelo reconhecimento universal dos valores negros foi considerado como ultrapassado. A independência dos países africanos, fazendo recuar as fronteiras do colonialismo europeu numa área muito importante do continente, veio levantar outras questões aos homens de cultura africanos enquanto senhores dos destinos dos seus países e responsáveis pela vida cultural. É assim que na hora actual, por pouco que se sigam as revistas culturais africanas, o centro do debate se ordena em torno de temas novos: como assegurar o renascimento cultural nos países antigamente colonizados, que lugar reservar à tradição, em suma: como elaborar uma cultura africana original que tenha em conta ao mesmo tempo a tradição e a aquisição da civilização moderna? Não nos aventuremos por estas discussões.
Evoquei estes problemas não para encontrar um esquema mas para tentar situar o tema que me proponho desenvolver num contexto geral bem conhecido. Não me vou demorar a demonstrar o mecanismo que conduziu ao aniquilamento das culturas tradicionais em Angola, mas tentarei antes mostrar como uma política de assimilação afeiçoada à maneira lusitana agravada por um regime fascista suscitou as reacções nacionalistas entre os escritores angolanos». In Mário Pinto Andrade, Um Intelectual na Política, coordenação de Inocêncio Mata, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-188-5.

Cortesia de Colibri/JDACT

Um Intelectual na Política. Mário Pinto Andrade. «A todos quantos entenderam, ou venham a entender, a mensagem de Paz, Tolerância e Humildade que quis passar aos homens e mulheres de Cultura, ‘ele’ que um dia definiu o intelectual como “aquele que mantém com o saber uma constante relação de cumplicidade...”»

jdact

A Voz ainda Presente
No Passatempo da tia Andreza
«Quis o destino que me encontrasse, nesta hora, entre os familiares e os numerosos amigos que vieram render-te uma última homenagem, Tia Andreza. Em tão dolorosa circunstância conforta-nos saber como és recordada aqui e noutras terras do vasto mundo por todos que tiveram a ventura de contigo privar ou de conhecer a espontaneidade da tua ternura e a generosidade do teu coração, irradiadas na rua Actor Vale. Rua que no código de fraternidade dos africanos estanciados em Lisboa ficou designada simplesmente e, por antonomásia, o 37.
Percurso singular o teu que se confundiu com um lar onde, a par da recriação da tradicional família alargada, asseguraste a continuidade do espírito de resistência e combate em que se distinguiram santomenses da estirpe de Ayres de Menezes e de Salustino Graça Espírito Santo. Ali, no 37, acolheste o Centro de Estudos Africanos. E, sob o teu olhar vigilante, ao longo dos anos, particularmente nas décadas de 40 a 60, cruzaram-se as gerações que iriam impulsionar as ideias amadurecidas do nacionalismo.
Cabe-me a responsabilidade e o dever, a que não me furto, de associar neste acto aqueles que te precederam na fatídica viagem: Francisco José Tenreiro, (…) Amílcar Cabral, (…) Agostinho Neto, nossos companheiros do Centro que, de certo, estariam entre nós, para junto chorarmos a tua partida. Mas esta breve evocação do passado só alcança o seu pleno sentido se a projectarmos no futuro. Neste mês de Fevereiro, recheado de trágicos acontecimentos na história do povo de São Tomé, fica também o registo do teu nome, no grande livro das nossas lutas de libertação nacional. Não permitiremos que o exemplo da tua vida se perca na desmemória do tempo. Que o chão húmido e quente da tua ilha te proteja na sua imensa generosidade, Tia Andreza! In Mário Pinto Andrade, Lisboa, Fevereiro de 1989.

Canção para a Julieta
Louvemos, louvemos a nossa filha
a filha do nosso amor
é ela mesmo, filha do mato
é ela, louvemos.

Já veio, esteve muito longe
veio para nos encontrar
é ela mesmo, filha do mato
é ela, louvemos.

Está crescida, sabe outras coisas
vinde ouvir essas coisas
é ela mesmo, filha do mato
é ela, louvemos.

Todos nós, cantamos,
com os rios, com os pássaros
é ela mesmo, filha do mato
é ela, louvemos.

Entoemos a nossa canção
entoemos a nossa canção
é ela mesmo, filha do mato
é ela, louvemos.

In Mário Pinto Andrade, Abril de 1953.

Literatura e Nacionalismo em Angola
Desde o último pós-guerra que o problema das condições para uma expansão da cultura nacional se encontra no centro das preocupações tanto dos intelectuais como dos políticos africanos. Com efeito, no decurso das lutas de libertação travadas nas diversas partes do continente, sempre a questão cultural se articulou com as fases do desenvolvimento do nacionalismo. De resto, não é raro verificar-se o papel de vanguarda desempenhado em África por intelectuais desdobrados em homens políticos». In Mário Pinto Andrade, Um Intelectual na Política, coordenação de Inocêncio Mata, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-188-5.

Cortesia de Colibri/JDACT

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931). Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil. Ana Caiado Boavida. «Quanto ao problema da educação, o Centro procurará interessar a sociedade portuguesa, especialmente a “élite” intelectual, por todos os problemas pedagógicos…»

Cortesia de wikipedia

«A um outro nível, e paralelamente à estruturação de ligas e centros republicanos académicos, assiste-se ao fervilhar de associações cujo carácter secreto as nimba de sedução cativante. Situa-se nesta categoria a Maçonaria Académica, matriz da Carbonária Portuguesa. Composta exclusivamente por estudantes das escolas superiores de Lisboa, foi presidida, desde finais de 1895, pelo então também estudante Luz de Almeida. Aos filiados, que se encontravam repartidos por quatro lojas, Futuro, Justiça, Independência e Pátria, era administrada instrução militar, a fim de, logo que surgisse a ocasião propícia, tornar possível a organização de um batalhão académico verdadeiramente operacional.
Resumindo: quer através de organismos legalmente constituídos, quer mediante a sua inserção em sociedades iniciáticas, parte da juventude académica foi efectuando a sua aprendizagem política, adquirindo um maior grau de consciência possível das formas mais adequadas ao desenvolvimento da classe a que maioritariamente pertencia. Não nos iludamos, porém, quanto à natureza do percurso trilhado por este grupo específico até à revolução de 1910. Se a torrente verbal dos mais inflamados tribunos faz acreditar na existência de um entusiasmo em constante ascensão, a leitura atenta dos jornais oriundos do meio académico atenua esta imagem de triunfalismo. Em 1901, ano em que dá os seus primeiros passos, em Coimbra, o Centro Académico de Democracia Cristã, que se propõe o papel de trincheira antijacobina, o jornal A Liberdade convida a academia de Lisboa a levantar-se da apatia degradante em que tem estado imersa, dando como exemplo o reinício da movimentação dos estudantes republicanos de Coimbra, unidos num processo de luta contra o decreto do ministério Hintze Ribeiro que praticamente autorizava a existência de ordens religiosas em Portugal.

NOTA: O jornal A Liberdade foi publicado pela primeira vez no dia 31 de Janeiro de 1901. Intitulando-se, inicialmente, Jornal dos Estudantes Livres, passou a denominar-se, em subtítulo, Diário Republicano Académico a partir de 1 de Maio de 1901. Em 28 de Janeiro de 1906 realizou-se a sessão inaugural do Centro Republicano Académico de Coimbra. Usaram da palavra Bernardino Machado e Afonso Costa. Entre os convidados destacavam-se António José de Almeida, Manuel de Arriaga e França Borges. Em 1896, o carbonarismo em Portugal surgiu de novo, mas sem a menor relação com o de 1864, que desapareceu para sempre. A organização, o ritual e os próprios processos de conspiração e de combate eram totalmente diferentes. Começam a movimentar-se as academias. Coube desta vez à mocidade de Coimbra a iniciativa do movimento de protesto contra as ordens religiosas, infamemente toleradas, ilegalmente constituídas, porque dispõem da mais alta influência, à sombra da qual vão minando pouco a pouco, lançando os tentáculos a tudo o que podem alcançar [...]

Nos anos subsequentes à promulgação do decreto, e perante o bom acolhimento proporcionado às escolas e colégios orientados por membros do clero, agudiza-se o contencioso existente entre os estudantes republicanos e as velhas estruturas universitárias, identificadas com o clericalismo e o jesuitismo. Abaixo a Universidade Fradesca, a Universidade Inquisição, foi o grito vibrante que deu impulso à greve académica de 1907. Greve que visou mais longe, no alvo das suas críticas, do que quiseram deixar pensar os dirigentes académicos e os chefes políticos do republicanismo, cuja principal preocupação consistiu, por razões de ordem táctica, em circunscrevê-la num âmbito meramente escolar. Contudo, como impedir a íntima conexão entre a crítica de uma dada forma de organização do todo social e o combate ao sistema educativo segregado pelas instituições da classe que detém o poder político numa sociedade?
Na primeira semana de Fevereiro de 1909 constitui-se, em Lisboa, mais um centro aglutinador de estudantes republicanos, o Centro Democrático Académico, que se arvora a missão de ser uma espécie de consciência crítica do Partido Republicano Português. Quanto ao problema da educação, o Centro interessar-se-á e procurará interessar a sociedade portuguesa, especialmente a sua élite intelectual, por todos os problemas pedagógicos de indispensável solução entre nós, como sejam a refundição do ensino politécnico e médico, a criação duma Faculdade de Letras e de uma Escola Normal de Ensino Superior, a instituição em Lisboa de uma Escola de Direito, baseada na orientação moderna dos estudos sociais e jurídicos e absolutamente independente da Escola de Coimbra. O facto de o Centro Democrático Académico de Lisboa ter decidido pela sua não filiação no Partido Republicano Português, alegando critérios de honestidade política, na medida em que se pretende reservar o direito de livre apreciação e crítica é sintomático de uma atmosfera onde a unanimidade ideológica se vai rarefazendo, acaso alguma vez tenha verdadeiramente existido. Isto é, se a ideia de república como negação da ideia de monarquia não está em causa, já se vai tornando mais problemático reunir um perfeito consenso quando se colocam na mesa questões que exigem uma definição rigorosa dos conceitos e uma corajosa assunção dos compromissos históricos». In Ana M. Caiado Boavida, Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931), Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil, Análise Social, vol. XIX, 1983.

Cortesia de Análise Social/JDACT

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931). Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil. Ana Caiado Boavida. «… ordem proferida por Guerra Junqueiro no comício promovido pelo Grupo Republicano de Estudos Sociais em 27 de Julho de 1897. Grupo que marca o início de uma nova fase na organização das forças juvenis do republicanismo»


Cortesia de wikipedia

Por terra, a túnica em pedaços,
agonizando a Pátria está.
Ó Mocidade, oiço os teus passos!...
Beija-a na fronte, ergue-a nos braços,
não morrerá!
(Guerra Junqueiro, in Finis Patríae, 1891)

«Num relance pelas movimentações estudantis que se desenham nas derradeiras três décadas de Oitocentos torna-se difícil dissociar as condicionantes políticas dos interesses especificamente académicos. À constituição, em 1871, da primeira e efémera Federação Académica de Lisboa não deve ter sido estranho o ideal federativo ‘proudhoniano’, expresso anteriormente numa proposta de Pacto Federal das Escolas do Reino de Portugal e Suas Dependências, proveniente de uma comissão a que pertenceu Jaime Batalha Reis.
Em 1880, aquando do tricentenário de Camões, alunos do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa fundam a Associação Camoniana José Vitorino Damásio, local onde os intuitos beneficentes se mesclam com a apologética republicana. Quanto aos princípios que nortearam, a partir também de 1880, a organização da Associação Académica de Lisboa, cujos Estatutos datam de 1882, filiam-se numa intenção, relativamente lograda, de desenvolver a consciência corporativa entre estudantes de diversas escolas e graus de ensino, bem como de reivindicar os seus direitos. Um pouco mais tarde, em 1887, congregam-se os alunos da Academia de Coimbra numa Associação de existência duradoura, fenómeno justificável pelo particularismo caracterizador do pequeno universo escolar desta cidade.
Não percamos, contudo, o fio da meada. Falávamos da simbiose juventude/republicanismo, enquanto catalisadora de um processo de expansionismo ideológico. Entre os estratos mais dinâmicos e lúcidos da jovem burguesia frequentadora do meio académico é nítida a percepção, sobremaneira após o despoletar da crise de 1890, de que a questão ingente da necessidade de uma total remodelação do sistema educativo passa por um novo equacionamento dos dados políticos e institucionais, quiçá pela revolução armada. A derrota do 31 de Janeiro e o consequente agravamento de certas tensões latentes entre os principais obreiros do projecto republicano contribuíram, decisivamente, para ampliar a crença numa academia em que se julga ver consubstanciada a verdadeira alma e vitalidade nacionais.
Invocam-se actos de romântica bravura praticados desde logo em plena Restauração, continuados nas lutas peninsulares de 1808, confirmados nos combates em prol do liberalismo nos conturbados anos da guerra civil. Mas, para a sensibilidade epocal, em 1891, e mais do que nunca:
  • É doloríssima a crise que atravessamos. Depois da perda da honra e dos territórios, jaz o País adormecido, deixando tripudiar impunemente os parasitas. O povo, a eterna vítima dos impostos, dos monopólios e dos sindicatos, já não sabe para quem apelar. Na monarquia tudo corrupto, cínico, incapaz de um sacrifício que salve a Nação. No campo republicano, as facções a distanciarem os homens que deviam ter a compreensão do momento histórico e salvar o País, que tudo espera deles.
Que resta então? Resta acreditar na academia como outrora se acreditou em Nun'Álvares.
  • Ressuscitemos Nun'Álvares. Ergamos o seu vulto, quer nas escolas quer nos templos, foi a palavra de ordem proferida por Guerra Junqueiro no comício promovido pelo Grupo Republicano de Estudos Sociais em 27 de Julho de 1897. Grupo este que marca o início de uma nova fase na organização das forças juvenis do republicanismo.
Fundado em 1895 por um grupo de estudantes, o Grupo Republicano de Estudos Sociais desempenhou um papel relevante na propaganda anticlerical e antimonárquica, actuando quer através de conferências e comícios, quer no seio das instituições de ensino. Contou com a colaboração de figuras prestigiadas, como João Chagas, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga. Anos mais tarde, mais precisamente em 1900, dá lugar à Liga Académica Republicana, a qual funcionou durante dois anos, reunindo-se os seus sócios nas instalações do periódico A Vanguarda, cuja direcção competia a Sebastião Magalhães Lima, incansável adepto da juventude, considerada, numa perspectiva organicista, como mítica força revitalizadora do tecido social. Magalhães Lima, aliás, foi um dos mais constantes colaboradores do jornal A Liberdade, porta-voz da Liga; este jornal orgulhava-se de uma plêiada de participantes verdadeiramente notável e que, por si só, expressa, com vigor, a importância atribuída à mocidade das escolas na estratégia política e no imaginário republicano; assim, e para além do já citado Magalhães Lima, faziam parte da lista de colaboradores d`A Liberdade: Agostinho Fortes, Brito Camacho, França Borges, Heliodoro Salgado, João Chagas, Sampaio Bruno, Manuel Coelho, Mayer Garção, Alexandre Braga, Guerra Junqueiro, Celestino de Almeida, Jacinto Nunes, entre outros». In Ana M. Caiado Boavida, Tópicos sobre a Prática Política dos Estudantes Republicanos (1890-1931), Limites e Condicionantes do Movimento Estudantil, Análise Social, vol. XIX, 1983.

Cortesia de Análise Social/JDACT