Mostrar mensagens com a etiqueta Melo Antunes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Melo Antunes. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Melo Antunes. Maria Manuela Cruzeiro. «Marx e todos os malditos, digamos assim, para o regime, por meio de livros que eram emprestados, ou então através de livreiros que tinham sempre por baixo do balcão..., uma encomenda...»


jdact

O Sonhador Pragmático
«(…)
Quais eram os autores que, nessa fase dos quinze-dezasseis anos, mais o terão marcado a esses vários níveis?

Bem, repare, eu não os poderei citar todos, mas penso que, no plano literário, foi sobretudo a literatura portuguesa que me começou a entusiasmar. Depois, e penso que mais ou menos nessa época, comecei a ler muitos autores franceses, desde, por exemplo, Voltaire e Rousseau (que já os lia aos dezasseis-dezassete anos), passando depois para uma grande parte dos filósofos do século XIX, etc. Poderia dizer, portanto. que as minhas primeiras influências vêm dos iluministas, incluindo, portanto, uma série de outros pensadores e filósofos. Nessa fase ainda não tinha lido Marx nem Engels, só o fiz um pouco mais tarde. Mas eu misturei um pouco a literatura e a filosofia…, enfim, é um pouco isso quer dizer, são leituras algo anárquicas. Contudo, eu tinha uma ideia muito clara, tinha um fio condutor muito claro na minha cabeça, e, portanto, foi possível não me dispersar excessivamente. O que interessa referir é que quando chego aos dezoito anos há aí um impasse, porque eu queria seguir um curso de letras, de história, de filosofia (naquela altura havia um curso de histórico-filosóficas), mas o meu pai não confiou que isso pudesse corresponder à salvação da minha alma...

E muito menos às expectativas e aos projectos que ele teria para si...

Claro. De modo que achou que a única coisa que me deveria disciplinar seria seguir a carreira militar, e eu acabei por ceder, até porque isso era uma forma de me autonomizar mais rapidamente. E foi assim.

Foi uma negociação?

Sim, houve uma certa negociação, sem dramas excessivos, mas fiquei sempre com essa mágoa dentro de mim e por isso também fiz o meu curso, na Escola do Exército, sem grande empenhamento. É verdade, sem me empenhar excessivamente...

Continuando paralelamente as suas leituras...

...Sim, empenhando-me fortemente nas minhas leituras. Já estava nessa altura em Lisboa e, portanto, tinha um contacto paralelo com a universidade, com muita gente que a frequentava...

Lembra-se de alguém com quem tenha estabelecido um contacto mais íntimo, através de conversas, discussões, debates, que eram muito mais frequentes na altura do que agora?

Dessa altura, dos meus vinte anos, não me recordo de ninguém em especial...

...que o tenha marcado particularmente.

... Estou a lembrar-me agora, de repente, de um, acho que é o Fernando Pernes, que é hoje, suponho eu, presidente da Fundação de Serralves ou pelo menos está nessa fundação, com quem tive contacto estreito. Mas havia muitos outros cujos nomes já foram ficando diluídos, digamos assim.

Sei que também chegou a frequentar algumas aulas na Faculdade de Letras...

Fui a algumas e depois, mais tarde, também em Direito, mas essa proximidade com a universidade, para mim, só tinha uma função: estar a par da bibliografia, de algumas orientações pedagógicas que me interessavam, ter acesso a algumas sebentas. Lembro-me de uma que me encantou na altura e que estudei profundamente (mas isso também tem a ver com os meus vícios intelectuais no que respeita à literatura clássica), a sebenta do padre Manuel Antunes. E tudo isso influiu, há um conjunto muito vasto de coisas que me foram influenciando decisivamente. Também na altura, já começava, aqui em Lisboa, a ser mais fácil absorver outro tipo de literatura. Portanto, já por volta dos meus vinte anos tinha acesso a toda a chamada literatura proibida, Marx e todos os malditos, digamos assim, para o regime, por meio de livros que eram emprestados, ou então através de livreiros que tinham sempre por baixo do balcão..., uma encomenda...» In Maria Manuela Cruzeiro, Melo Antunes, O Sonhador Pragmático, Editorial Notícias, 2004, 2005, ISBN 972-461-563-4.

Cortesia de ENotícias/JDACT

Melo Antunes. Maria Manuela Cruzeiro. «Sim, foi definitiva. E contemporaneamente começou a minha atracção pelos estudos que não eram exactamente aqueles que constituíam o currículo científico ou paracientífico…»

jdact

O Sonhador Pragmático
«(…) Bern, mas, voltando à infância, conservo na memória muitíssimos episódios e lembro-me perfeitamente do que foi a minha vida no interior de Angola, as idas no Verão para a praia, no Lobito ou em Luanda, onde tive perfeita noção do que eram as relações, se quiser, de colonizador/colonizado, naquela época, e até as marcas de racismo que havia nessas relações. E. portanto, acho que isso teve uma importância fundamental na formação da minha consciência.

O ambiente em casa, uma vez que é filho de um oficial do Exército, era de aceitação total dessas regras?

Não..., embora os meus pais fossem conservadores. O meu pai era particularmente adepto do regime vigente, mas tinha uma formação humanista, que o fazia distinguir entre as opções políticas, digamos assim, de apoio ao salazarismo e as relações humanas. Por isso penso que também terei sido influenciado por essa visão humanista dos meus pais, que muito me ajudou. Posso contar um episódio passado em Quibala. terra do interior de Angola, onde o meu pai estava colocado. Uma vez, lembro-me perfeitamente de ter ido buscar-me à escola, como de costume, um dos criados lá de casa, um dos impedidos, um cuanhama altíssimo, fortíssimo, como são os homens do Sul de Angola, e eu entendi que estava suficientemente cansado para ir às costas dele cerca de um quilómetro e tal, fazendo ele de cavalo e eu de cavaleiro. Quando cheguei a casa, o meu pai zangou-se fortemente comigo. Eu fiz aquilo, de facto, mas era criança, não me dava conta de que era uma violência o que estava a cometer. O que significa que, na realidade, como em muitas outras ocasiões, ele defendia uma relação que não era normal entre colonizador e colonizado, quer dizer, tinha uma visão que, repito, chamo de humanista e que, penso, teve influência na minha formação.

Lembra-se de mais algum episódio que recorde particularmente?

Eu poderia falar de tantas coisas..., assisti muitas vezes a actos de violência cometidos sobre negros… Tenho na memória muitas dessas cenas de violência. Sei lá, eram sobretudo comerciantes e camionistas, ou gente mais ou menos ligada ao sector comercial, como os transportes, etc., é essa pelo menos a ideia que tenho mais viva. Cenas de violência, de discriminação... São muitíssimas as coisas de que guardo memória.

Essa experiência de infância, entre os seis e os nove anos, que o marcou profundamente, terá sido posteriormente enquadrada, como diz, política e ideologicamente. Mas não parece que tenha sido decisiva para a escolha da sua profissão futura.

Não, aí não, quer dizer... eu, de certa maneira, fui forçado a seguir a carreira militar. Eu, a partir dos meus catorze, quinze anos, comecei a ter crises graves no interior da família porque...

Desculpe interromper, senhor coronel, quantos irmãos tem?

Mais um, mais novo. Nasceu já depois de eu vir de Angola, faz uma diferença de nove anos de mim.

E seguiu também a carreira militar?

Não, é engenheiro.

Falava então dessas crises no seio familiar.

Sim, crises que começaram na adolescência, como é normal, entre os catorze e os quinze anos. Foi a crise religiosa antes de mais nada. Os meus pais, em especial o meu pai, era um homem profundamente religioso, profundamente devotado à Igreja Católica, e aceitou bastante mal, ou por outra, não aceitou, a minha crise religiosa. De forma que começaram os conflitos, que são frequentes nessa fase da vida, mas que talvez no meu caso fossem bastante críticos em determinado momento, visto que a seguir à crise religiosa vem a perda da fé se assim se pode dizer...

E foi definitiva essa perda?

Sim, foi definitiva. E contemporaneamente começou a minha atracção pelos estudos que não eram exactamente aqueles que constituíam o currículo científico ou paracientífico, se assim se pode chamar, que era o sétimo ano dos liceus de ciências (a alínea f). Eu gastava o meu tempo com as literaturas, com a história, com a filosofia, com a sociologia e, obviamente, também com a política, naquilo que era possível, visto que, como se sabe, naquela altura era muito difícil o acesso a bibliografia que nos pudesse informar de forma completa». In Maria Manuela Cruzeiro, Melo Antunes, O Sonhador Pragmático, Editorial Notícias, 2004, 2005, ISBN 972-461-563-4.

Cortesia de ENotícias/JDACT

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O Sonhador Pragmático. Melo Antunes. Maria Manuela Cruzeiro. «Não... embora os meus pais fossem conservadores. O meu pai era particularmente adepto do regime vigente, mas tinha uma formação humanista, que o fazia distinguir entre as opções políticas, digamos assim…»

jdact

Infância, adolescência, formação
Desculpem lá, mas sou capitão!
«Bem, ter de recorrer à memória para desenterrar a infância não é um exercício muito fácil, mas, como creio que se trata de balizar no essencial o que foi a minha história passada, talvez valha a pena referir que ainda muito jovem, isto é, ainda criança, estive em Angola com o meu pai, que era militar, e, por isso, acompanhei a família até lá e acho que esse facto teve importância para mim, porque foram os primeiros anos da escola primária e, portanto, a primeira experiência concreta vivida no contacto com a realidade angolana. Claro que, nessa altura, não tinha consciência do que era a questão colonial, mas tive a vivência do relacionamento com as populações locais, até com os meus colegas de escola. E sempre, ao longo de toda a minha vida, evoquei esses três anos passados em Angola como uma memória muito nítida, que ficou gravada na minha mente. Porque ainda hoje recordo, com nitidez, certos episódios que, embora, como já disse, não soubesse articular teoricamente, foram elementos sensíveis, talvez determinantes , para a formação da minha consciência crítica relativamente à sociedade que me envolvia e às realidades que tinha pela frente. Por exemplo, lembro-me muito bem de uma cena que me impressionou vivamente: assistir ao castigo corporal de um soldado em frente da companhia formada e que, vim a saber mais tarde, era uma punição tradicional, ou seja, a das palmatoadas. Havia umas palmatórias, as chamadas meninas-de-cinco-olhos.

Como na escola primária...
Sim, exactamente. Bem, eu, na escola primária, não assisti a castigos desses, mas vi ser aplicado um na unidade militar a que o meu pai pertencia, e achei-os de uma violência perfeitamente inacreditável, porque eram dezenas de palmatoadas até as mãos ficarem em sangue. Mais tarde, quando fui já pela segunda vez em comissão de serviço para Angola, como capitão, deram-me o comando de uma bataria no Norte de Angola, e quando o capitão que foi rendido por mim me passou os documentos e fez a transição, um dos objectos que me entregou foi também uma menina-de-cinco-olhos...

Ainda nessa altura, ou seja, em 1966, na sua segunda comissão...
Exacto. E isso fez-me muita impressão, porque saltou-me à memória exactamente aquilo que se passara quando eu tinha sete anos. E o meu primeiro contacto com essa bataria foi formar os militares e mandar partir, à frente de todo o pessoal, a tal palmatória, a tal menina-de-cinco-olhos. E ficaram a saber que o estilo de comando seria diferente. Bem, mas, voltando à infância, conservo na memória muitíssimos episódios e lembro-me perfeitamente do que foi a minha vida no interior de Angola, as idas no Verão para a praia, no Lobito ou em Luanda, onde tive perfeita noção do que eram as relações, se quiser, de colonizador e colonizado, naquela época, e até as marcas de racismo que havia nessas relações. E, portanto, acho que isso teve uma importância fundamental na formação da minha consciência.

O ambiente em casa - uma vez que é filho de um oficial do exército, era de aceitação total dessas regras?
Não... embora os meus pais fossem conservadores. O meu pai era particularmente adepto do regime vigente, mas tinha uma formação humanista, que o fazia distinguir entre as opções políticas, digamos assim, de apoio ao salazarismo e as relações humanas. Por isso penso que também terei sido influenciado por essa visão humanista dos meus pais, que muito me ajudou. Posso contar um episódio passado em Quibala, terra do interior de Angola, onde o meu pai estava colocado. Uma vez, lembro-me perfeitamente de ter ido buscar-me à escola, como de costume, um dos criados lá de casa, um dos impedidos, um cuanhama altíssimo, fortíssimo, como são os homens do Sul de Angola, e eu entendi que estava suficientemente cansado para ir às costas dele cerca de um quilómetro e tal, fazendo ele de cavalo e eu de cavaleiro. Quando cheguei a casa, o meu pai zangou-se fortemente comigo. Eu fiz aquilo, de facto, mas era criança, não me dava conta de que era uma violência o que estava a cometer. O que significa que, na realidade, como em muitas outras ocasiões, ele defendia uma relação que não era normal entre colonizador e colonizado, quer dizer, tinha uma visão que o repito, chamo de humanista e que, penso, teve influência na minha formação». In Melo Antunes, O Sonhador Pragmático, Maria Manuela Cruzeiro e Boaventura de Sousa Santos, Histórias da História, Editorial Notícias, 2005, ISBN 972-46-1563-4.

Cortesia de E. Notícias/JDACT

quinta-feira, 25 de abril de 2013

O Sonhador Pragmático. Melo Antunes. Maria Manuela Cruzeiro. «Um gesto de soberana liberdade. Um derradeiro e inesperado presente. Uma seta apontada ao coração e à inteligência dos que o mereciam e que o souberam acolher não como confissão ou testamento, mas como legenda de uma vida»

jdact

«A tentação totalitária dos militares foi o pretexto para uma classe política impaciente disfarçar a sede de poder de que os acusavam. Sem elegância, apressaram-se a dispensar aqueles que muito pouco tempo antes adulavam. Melo Antunes, que acumulara o cargo de conselheiro com o de presidente da Comissão Constitucional, ignorou, contudo, ressentimentos, rancores e desilusões pessoais, que remeteu sempre para os atalhos da História, e traçou a M. João Avillez o diagnóstico implacável:
  • Não saio desiludido. O que julgo é que esta experiência poderia ter sido muito mais rica se não tivesse havido tantos erros, desvios, incapacidades para compreender que o 25 de Abril era a grande oportunidade histórica. Não houve a capacidade global de determinar uma estratégia de transformação estrutural da sociedade portuguesa.
Não contassem com ele para o discurso da vitimização tão nosso, tão português. E muito menos para se pôr em bicos de pés. Contassem, isso sim, que desse a cara pelas grandes causas de uma vida, num combate leal e responsável tanto nas vitórias como nas derrotas. Não contaram. Talvez pela falta de adversários à altura, os seus combates foram-se tornando mais solitários. O seu pesado silêncio tem a exacta medida do habitual descaso nacional, quando não da mesquinhez revanchista e interesseira. Com as excepções dos presidentes Eanes e Sampaio, ninguém lhe achou grande préstimo nem dentro nem fora. A vasta experiência internacional dos governos que integrou e das funções de conselheiro e de subdirector da UNESCO que desempenhou entre 84 e 88 não lhe deram o perfil ideal para, ser o nosso candidato a director-geral dessa organização, em 92.
Vítima de alguma injustiça? A pergunta de José Carlos de Vasconcelos, a resposta é previsível, mas nem por isso menos perturbante:
  • Não vejo o caso dessa maneira: tive a intervenção que tive, o meu papel histórico esgotou-se. Sou um cidadão como outro qualquer. Se existe injustiça, não é contra mim, mas generalizada em relação a quase todos os que se bateram contra a ditadura.
A sua inscrição no PS de Jorge Sampaio, em 1991, e o seu apoio à moção Falar É Preciso, de Manuel Alegre, ao Congresso do PS, em 1999, não são já actos políticos. Têm a imensa carga simbólica dos gestos gratuitos ou anacrónicos. Um gesto de soberana liberdade. Um derradeiro e inesperado presente. Imerecido para uns, imprestável para tantos outros, mas seta apontada ao coração e à inteligência dos que o mereciam e que o souberam acolher não como confissão ou testamento, mas como legenda de uma vida. A amizade vigilante de Lobo Antunes fez-lhe o mais belo epitáfio:
  • Quando Ernesto Melo Antunes morreu, vivi no funeral uma das situações mais comoventes e emocionantes da minha vida. Estavam ali os rapazes que fizeram a Revolução, aqueles bravos capitães, companheiros de Ernesto, rapazes que já tinham sessenta anos, choravam como crianças. Homens duros, que tinham provado a sua enorme coragem, mas choravam desconsolados, porque não só perdiam um amigo e um grande homem. Perdiam sobretudo um camarada. Era muito emocionante vê-los tão desolados. Chorava-se a morte de Ernesto, e também se choravam muitas outras coisas que não tinham podido acontecer.
Este livro é para nós muito mais do que um imprescindível e precioso documento com que enriquecemos o nosso espólio de História Oral e que entendemos ser o momento de oferecer quer a quem viveu a Revolução, quer a quem a estuda, quer finalmente a quem se sinta minimamente comprometido com a História deste país. É também a homenagem a Ernesto Melo Antunes e aos companheiros que no seu exemplo se revêem e se encontram. Homenagem ao que a História regista e é passado. Mas também às sementes de futuro que nela lançaram. Mas sabemos que os ventos são caprichosos e que há terras sedentas de sementes». In Melo Antunes, O Sonhador Pragmático, Maria Manuela Cruzeiro e Boaventura de Sousa Santos, Histórias da História, Editorial Notícias, 2005, ISBN 972-46-1563-4.

Cortesia de E. Notícias/JDACT

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O Sonhador Pragmático. Melo Antunes. Maria Manuela Cruzeiro. «… obrigado a confrontar os seus ideais com a realidade concreta, foi incansável na procura de uma via política original, no nosso país, para o socialismo que não fosse a transposição mecânica dos modelos político-sociais conhecidos»

jdact

«E esclarecer tantos dos equívocos, meias verdades ou falsidades que sobre ele ainda persistem. Cumprir, enfim, um dever para consigo e para com a história. A palavra flui, serena e lúcida, sempre que se lhe pede uma reflexão sobre o fenómeno político e social. Aí o intelectual solta-se e chega a entusiasmar-se, nas margens de um pensamento que ora se desdobra em raciocínios de grande coerência interna, ora se condensa em sínteses de assinalável precisão e rigor. Mas logo se retrai quando lhe é pedido o dado, o facto concreto, o nome, a data. Não tenho memória para essas minudências, explica com uma nota de visível enfado na voz e no gesto.
Homem de esquerda, antes e acima de tudo pela convicção inabalável de que as ideias podem mudar o mundo, coube-lhe o papel ingrato de controlador do sonho:
  • ‘Obrigado a confrontar os seus ideais com a realidade concreta, foi incansável na procura de uma via política original, no nosso país, para o socialismo que não fosse a transposição mecânica dos modelos político-sociais conhecidos’.
Ao mesmo tempo que defendeu intransigentemente um projecto autónomo para o MFA. Talvez por isso alguém afirmou que era um homem que tinha muitas das qualidades dos comunistas italianos e muitos dos defeitos dos militares portugueses.
O seu papel central na descolonização, bem como os importantes textos que redigiu, O Movimento, as FA e a Nação, O Programa do MFA, O Plano de Transição e o Documento dos Nove, não por acaso os únicos que influenciaram decisivamente o rumo dos acontecimentos, produzidos em momentos diferentes mas igualmente críticos da Revolução, não são, ao contrário do que possa pensar-se, a tradução fiel do seu pensamento, mas antes aquilo que em seu entender era possível dadas as circunstâncias. Quem foi que disse que ser revolucionário era pretender o máximo de revolução possível?
Não foi nunca um conformado e muito menos um desistente, embora estivesse longe de ser um optimista. No notável documento que produziu quando abandona o Ministério dos Negócios Estrangeiros, em 1976, combinava a inquietação e a revolta pelos rápidos sinais de degenerescência de um Abril tão próximo e afinal tão distante com a invejável serenidade pessoal de ter feito o que devia:
  • ‘Por grandes que tenham sido os acidentes de percurso, nós não tergiversámos, não traímos nem renegámos nas peripécias da luta, nos atalhos da História, os princípios que animaram o nosso propósito inicial e deram a sua razão de ser a toda a nossa prática’.
Esses receios subiriam de tom com o andar do tempo e com eles também uma contida amargura pessoal pela forma indigna como o poder político empurrou pela escada a baixo o Conselho da Revolução, com isto insinuando a recusa dos conselheiros em cumprir a estrita legalidade que sempre respeitaram escrupulosamente». In Melo Antunes, O Sonhador Pragmático, Maria Manuela Cruzeiro e Boaventura de Sousa Santos, Histórias da História, Editorial Notícias, 2005, ISBN 972-46-1563-4.

Cortesia de E. Notícias/JDACT

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O Sonhador Pragmático. Melo Antunes. Maria Manuela Cruzeiro. «Ninguém diria tratar-se da casa de um dos principais homens da Revolução. Nenhuma pintura, cartaz ou qualquer outro símbolo daqueles anos de brasa. Fotografias... Só as dos filhos...»

jdact

[…]
«O tempo corria a seu favor, a favor da tese pouco consensual de que era por dentro das FA que tudo iria mudar. No dia 5 de Fevereiro de 74, participa na sua primeira reunião do movimento. Céptico, receoso da natureza corporativa das reivindicações, mas decisivo na impressão que deixa nos companheiros: ‘Temos homem!’, exclama Vasco Lourenço, quando, curioso, pergunta para o lado a Otelo de quem se tratava. Sim, iam ter homem, não andasse ele há quinze anos à espera desse momento!, para as tarefas que o movimento lhe destinou: a produção teórica dos principais documentos programáticos dos capitães.
  • “A sua tête politique, como lhe vem a chamar Eduardo Lourenço”.
Desde há meses a esta parte, como é do conhecimento geral, tem vindo a desenvolver-se no seio das FA um movimento de oficiais cujas origens foram há muito ultrapassadas, e assume hoje características, intenções e finalidades que se entendeu oportuno clarificar e definir’. Fez-se silêncio para ouvir a voz pausada e grave daquele que Wilfred Burchett retratou assim:
  • É um homem calmo, mas não gordo, com a expressão pensativa de um intelectual e um olhar brilhante que os óculos não conseguem esconder e que seria mais fácil imaginar na cátedra de uma universidade do que no uniforme de um oficial do exército.
Soara a hora de iniciar, ou aprofundar, um caminho em que ao militar e ao intelectual se junta agora o político finalmente liberto dos pesados constrangimentos anteriores. No dizer de Natália Correia, ‘o militar foi-lhe ensejo para a acção conjugada do intelectual e do político’. Uma invulgar conciliação entre as suas maiores vocações projectou-o para primeiro plano da cena política de há trinta anos. Apesar do seu obstinado desapego ao poder, e até da sua ‘agorafobia’, apesar de ‘esperar mais que as situações venham ter com ele, e que os outros o chamem’, como lhe apontava, com alguma mágoa, o amigo César Oliveira, a força das convicções, dos ideais e dos compromissos não lhe deixava outra saída. Não foi um sacrifício. Não foi um prémio. Foi um imperativo.
Desse protagonismo discreto só no estilo, mas arrojado na intenção, muito ficaria por contar, pelo próprio e não por substitutos de ocasião, sem esta entrevista, que a marcha do tempo e os seus inexoráveis sinais converterão, estamos certos, em registo de incalculável valor histórico e humano. Preparámo-la com a exigência e rigor que nos impunha a notável figura pública, ainda insuficientemente conhecida, mas também com os receios e incertezas de enfrentar o homem com fama de temperamento difícil. Na ausência das habituais cortesias que, mesmo de circunstância, ajudam a vencer barreiras, lançámos um olhar inquiridor à sala da casa de Sintra, em busca de sinais, pretexto de conversa...
A primeira impressão foi a de um ambiente acolhedor, de discreto bom gosto, ao contrário dos fatos de corte duvidoso que lhe não perdoava o amigo Assis Pacheco, mas pouco pessoal. Ninguém diria tratar-se da casa de um dos principais homens da Revolução. Nenhuma pintura, cartaz ou qualquer outro símbolo daqueles anos de brasa. Fotografias... Só as dos filhos... Percebia-se que não fechara o 25 de Abril no álbum das recordações. Recusava as litanias da memória e ainda mais a contemplação narcísica de um tempo sem regresso. Adivinhava-se o convívio íntimo e intenso com a música e com os livros, seus companheiros de sempre, espalhados pelas mesas: desde Norberto Bobbio ou Jacques Juillar, às obras completas de Rousseau ou ao Anti-Édipo de Gilles Deleuze.
Era a casa de um intelectual solitário? Não exactamente. Tem razão o amigo Vítor Alves, quando afirma:
  • ‘Só quem o não conhece pode dizer que ele era um solitário. Amar os tempos de reflexão não é amar a solidão. O Ernesto era selectivo, não solitário’.
Razão acrescida para o orgulho de sentirmos que fora conquistado para o desafio que lhe era proposto: falar livremente sem tutelas nem restrições, de tempo ou de assuntos, do seu percurso público, o privado foi sempre ciosamente preservado, da sua acção profundamente empenhada no tempo que lhe foi dado viver. E esclarecer tantos dos equívocos, meias verdades ou falsidades que sobre ele ainda persistem. Cumprir, enfim, um dever para consigo e para com a história». In Melo Antunes, O Sonhador Pragmático, Maria Manuela Cruzeiro e Boaventura de Sousa Santos, Histórias da História, Editorial Notícias, 2005, ISBN 972-46-1563-4.


Cortesia de E. Notícias/JDACT

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Melo Antunes: Liberdade e Coerência Cívica. Uma Figura Fundamental

Cortesia axoniosgastos
(1933-1999)
Ernesto Augusto de Melo Antunes foi um militar português, pensador, estadista e uma figura determinante da transição democrática portuguesa. Principal estratega do 25 de Abril de 1974.
Militar de carreira, participou no Movimento dos Capitães e, nessa qualidade, foi o principal redactor, em Março de 1974 do documento O Movimento das Forças Armadas e a Nação, o primeiro documento de conteúdo claramente político. Co-autor e principal redactor do Programa do MFA, o programa dos três «Dês» Descolonizar, Democratizar e Desenvolver, pertenceu à sua comissão coordenadora depois de 25 de Abril de 1974.
Foi várias vezes ministro nos Governos Provisórios. Negociou a independência da Guiné-Bissau e fez parte do Conselho dos Vinte, órgão do MFA antes do período constitucional, do Conselho da Revolução, e do Conselho de Estado. Notabilizou-se ainda por ter participado activamente na elaboração do Programa de Acção Política e Económica, Dezembro de 1974, e do Documento dos Nove,Agosto de 1975, conhecido como documento Melo Antunes por dele ter sido o primeiro subscritor.
Cortesia revistaantigaportuguesa
Em plena crise do 25 de Novembro, numa ousada intervenção televisiva e perante as vozes que queriam ilegalizar o Partido Comunista, Melo Antunes apresenta este partido como indispensável à consolidação da democracia em Portugal. Uma posição que lhe custará inimizades e incompreensões que o acompanharão até ao fim da sua vida. Numa posição mais discreta, desenvolveu notável intervenção no período da «consolidação democrática». Entre 1977 e 1983, foi presidente da Comissão Constitucional, sendo nomeado Conselheiro de Estado, nos mandatos de Ramalho Eanes e de Jorge Sampaio. Foi consultor e subdirector geral da UNESCO.
Morre aos 65 anos de idade. Em 2004 foi promovido a coronel, a título póstumo.
JDACT