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domingo, 3 de janeiro de 2016

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «Este sentimento, aliás naturalíssimo mas pouco generoso, determinou a reacção da parte dos brâmanes em 1787 pela ‘Conjuração dos Pintos’. Os ‘charadós’ mais generosos e guerreiros do que os brâmanes, receberam-nos com menos relutância»

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Goa
«(…) Esta classe indígena cristã perdeu tudo, porque enquanto uma porção dela se esforça por civilizar-se, e o tem conseguido em parte, a outra, a mais numerosa, conserva-se no nível em que a foram encontrar os portugueses, ou por falta de aptidões, ou porque camadas superiores a esmagaram na luta. Os charadós e os sudras formam a maior parte da população de Goa. Apartados, como estão no seu conjunto, dos aryas ocidentais e insuperavelmente desligados dos aryas orientais, os brâmanes, ocupam assim um lugar pouco azado para o seu desenvolvimento. Antes deles, estão ali o elemento branco a influir nas sociedades, e o elemento bramânico a neutralizar-lhes as aspirações pela autoridade quase religiosa de casta, e pela incontestável superioridade de raça. Como existe um antagonismo mais pronunciado entre os brâmanes e os charadós do que entre estes e os portugueses, todo o empenho dos segundos é suplantar os seus adversários de casa, os brâmanes, ficando, por este modo, a civilização europeia um degrau acima das suas primeiras e naturais aspirações. É claro que a influência numérica alcançou uma preponderância positiva na política do país. Os brâmanes são batidos na urna e esta vitória efémera consideram-na os charadós como a última solução do problema político-castista.
Mas a questão social, a evolução dessas sociedades, que é feito delas? Por outro lado, os brâmanes, por isso que são nossos irmãos, sentem-se com orgulho bastante para desprezar a civilização que nós lhes levamos. Mas há a notar que os brâmanes cristãos de Goa, porventura por terem abraçado a nossa religião, não são ciosos das suas tradições, e todo o seu empenho é exceder o europeu, no que ele tem de externo, sem contudo perder aquela relutância instintiva por tudo quanto é ocidental e o espírito de casta, o que necessariamente lhes impede uma transformação radical e duradoura. Ao passo que os indígenas pagãos se conservam firmes no lugar em que os fomos achar, religiosamente conservadores e fazendo parte da grande sociedade industânica de além dos Gattes, os cristãos de Salcete, Bardez,e Ilhas ficaram ocupando um lugar muito inferior na acepção histórica da palavra. Prevê-se o resultado destes elementos postos em contacto.
A acção partiu primeiro da colónia portuguesa, como dominante. Para isso ela criou um meio que fosse adequado à sua índole e ao seu temperamento, o militarismo. Nascidos nessa época de heroísmo e abnegação, educados guerreiros, os portugueses não fizeram mais do que mudar de terreno; continuam no Oriente o que foram no Ocidente, raça de aventureiros. Mas pelo seu limitado número e com um único meio de influir, o exército, não puderam conseguir o que outras colónias mais previdentes têm alcançado. Arrastados pela vocação militar, dispunham apenas de um meio para influírem em sociedades pusilânimes e por índole adversas ao regime espartano. Se à variedade de acção se unisse a multiplicidade de meios, que tendem a relacionar mais os factores sociais e a estreitar os seus laços, quer pela comunidade de interesses, quer pela dependência de serviços, outro teria sido o estado desses povos, outra a situação da colónia portuguesa. Como o militarismo era o seu único modo de ser, e habituados como estavam os portugueses ao trato com os árabes, tanto no reino como em outros pontos da Ásia, sofreram uma completa desilusão ao se acharem frente-a-frente com um povo imberbe e servil. O que daí resultou foi o constante desprezo com que eles sempre trataram os indianos, um desprezo tão profundo e tão natural, que não havia português que não se julgasse com coragem bastante para levar de investida uma povoação inteira.
Este sentimento, aliás naturalíssimo mas pouco generoso, determinou a reacção da parte dos brâmanes em 1787 pela Conjuração dos Pintos. Este movimento continuou e nós veremos de que modo. Os charadós mais generosos e guerreiros do que os brâmanes, receberam-nos com menos relutância e, por isso, em vez de um antagonismo formal, pelo menos histórico, entre eles e nós, voltaram-se contra os seus antigos émulos, a quem não podiam admitir a ascendência que iam ganhando num país em que eles se sentiam com mais direito pela sua força numérica. Esta luta tem uma data histórica: a da fundação do Índia Portuguesa (1861), jornal que servia de órgão aos charadós». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!

Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. « Depois da sua conquista pelos portugueses tem ela um lugar à parte, representa na História um papel seu, talvez devido ao deslocamento inesperado do grande ciclo da história do Oriente»

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Goa
«(…) De longe, destacam-se os beirais cingidos por um cinto de luz, as grandes cruzes das torres e dos adros como se fossem iluminadas a bicos de gás. Como as trevas são densas e a iluminação quase nenhuma, vêem-se os pirilampos elevando-se em espirais, que se deslocam lentamente, luzindo ora aqui, ora ali, como a coluna de fogo dos israelitas: aquelas noites são tagicamente belas! Seguem-se depois as de copiosa chuva, o coração de Inverno. Não há rajada de vento que açoite as árvores, nem trovoadas, nem relâmpagos, nada. A chuva desce em bátegas de água grossa e compacta. Sobre o Mandovi faz bulha de estalar de chicotes, sobre os tectos e reparos de ola, que resguardam todas as portas e janelas, faz ruído de vento quando açoita uma densa floresta. Noé abrindo o postigo da Arca não teria um espectáculo diferente. Todo o espaço como que se ilumina do brilho das águas; que parecem paredes de aço erguidas da tema ao céu. Tem este quadro alguma coisa de sinistro porque não tardam a carregar esse fim do mundo o ruído das paredes que se esboroam, os muros que se desmoronam, as fontes de água que rebentam pelos cantos da casa, as rãs que coaxam debaixo das nossas camas. Ninguém se ouve em meio deste ruído, e a gente que anda e fala pelos nossos aposentos parece fantasmas.
Estas noites, porém, não têm o frio das de cá. Na Europa o Inverno, ainda que moralizador, é triste e aflitivo. Traz-nos a ideia da fome e do desalento, das mães que apertam contra o seio os filhinhos enregelados, do operário entrevado que espera a caridade do mundo que odeia. O Inverno aqui é agressivo e obriga-nos a pensar tristemente no corpo que treme de frio e de fome. As noites da Europa são cruéis como o desalento; parecem zombar das vítimas e riem-se do infortúnio nas frias e secas nortadas do Inverno, supremo sarcasmo desta natureza rude e implacável. Nada tem do majestoso, do sublime horrível, dessa sensualidade geradora que, na Índia, parece convidar tudo à maternidade, ao amor: é frio e impassível como o cínico, sarcástico como a morte. Se canta, se ruge, se açoita a terra é como um espectro e não tem a pujança nem a beleza hórrida dos trópicos:

porque o Inverno aqui é um Inverno reles,
não tem o frio russo, que faz vestir peles,
nem das noites do Oriente a música bravia;
por isso sinto em mim a imensa nostalgia
das chuvas, dos trovões; dos gritos das torrentes
e do ulular feroz, longo do vendaval.
In G. M. Bareto

O quadro que tentámos apresentar daquela natureza pródiga e exuberante é, de todo o ponto, necessário para uma melhor compreensão da índole desse povo. Ao estudarmos a história social de Goa achamo-nos em frente de um assunto novo nos nossos fastos coloniais. Depois da sua conquista pelos portugueses tem ela um lugar à parte, representa na História um papel seu, talvez devido ao deslocamento inesperado do grande ciclo da história do Oriente. A Índia Portuguesa não é o Brasil por ser pobre, e por não ter nascido outro rei que tivesse o generoso amor de João VI pelos seus colonos; não é a Austrália, porque o elemento português não foi dominante, como o inglês; não é a América, livre e independente, por isso que o elemento branco, na maior parte militar, considerou sempre esse torrão vinculado aos seus mais gloriosos feitos e às mais soberbas páginas da história da máe-pátria. Como militares, eram os portugueses, por dever e por índole, fiéis ao rei e à pátria; como aristocratas, eram naturalmente conservadores e orgulhosos do seu passado. Tinham ido para a Índia a fim de se armarem cavaleiros, como seus pais o fizeram em Ceuta e Azamor. Não pode ser independente, íamos nós dizendo, porque o elemento indígena em Goa é heterogéneo, esfacelado em classes mais ou menos rivais, sem unidade histórica ou afinidade de carácter, raça ou religião. De um lado estão os hindus, quase metade da população, conservando a pureza da língua, vendo os cristãos como apóstatas e não querendo, de modo algum, transigir com a nova ordem de coisas; do outro, estão os cristãos, entre os quais a distinção de casas impera com maior furor. Possuem um dialecto adulterado, conservam muitos dos hábitos gentílicos e não possuem as aptidões industriais e comerciais desses seus irmãos». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «… a majestosa palmeira o céu severo como a lápide de um sepulcro, as trevas da noite a acentuarem no horizonte não sei que imagens sinistras do cadafalso. Ao clarão dos relâmpagos só se vê o Mandovi…»

jdact e wikipedia

Goa
«(…) Abrem-se depois as bocas do céu, e a água cai em jorros como do alto de uma cascata, fria e compassada, como as torrentes diluvianas: eu amava no Oriente as noites tempestuosas, as noites hibernais de pragas cavernosas em que parece ser uma taberna o céu, as noites em que o mar beijado do escarcéu treme, como num leito uma mulher esquecida; em que a chuva que cai, doida, descabelada, com um tinir de grilhões, bate na vidraça e faz crer que pelo ar ovento forçado passa; em que a lua não rompe a atmosfera sombria e jaz como o afogado imerso na água fria; em que o firmamento é triste e temeroso; porque o vento apagou com um sopro as estrelas, aquelas noites tão tragicamente belas.
A natureza oriental tem alguma coisa do carácter humano: tão depressa lhe coram as faces e esbofeteia a terra, como logo cai em torpor. Apaixonada, por assim dizer, nervosa, revolta-se em ímpetos de cólera para logo cair numa modorra, tanto mais feminina, quanto varonil foi a agitação. As primeiras manhãs de Inverno são de uma harmonia e de uma tinta tão suaves como a face de uma virgem. A chuva, fez brotar de um salto arbustos aromáticos que juncam os palmares; os pardais volitam pelos beirais das casas a construírem o seu ninho; as ruas e os tectos ostentem os seus verdes tapetes de relva; o sol tem a luz mansa e opaca da lua de Inverno, e o céu desbotado conserva a homogeneidade das águas de um lago, frias e esverdeadas. Aparece a nave de um templo coada pela luz mística das vidraças góticas. A terra é uma mãe cheia de amor, de risos e de encantos. O Inverno é a Primavera da Índia: ... aonde o duro inverno os campos reverdece alegremente.
A estes indícios da estação chuvosa começam os primeiros trabalhos da lavoura, porque não tarda o rigoroso Inverno, não tardam os dias diluvianos de Junho e Julho. A Ponte de Linhares, ladeada pelo Mandovi e pelos vastos arrozais de Santa Cruz e Mercês, oferece-nos um panorama deslumbrante nessas noites de Inverno. Se não existe Deus, Deus é tudo aquilo: a majestosa palmeira o céu severo como a lápide de um sepulcro, as trevas da noite a acentuarem no horizonte não sei que imagens sinistras do cadafalso. Ao clarão dos relâmpagos só se vê o Mandovi que, qual réstia de luz, se torce rápido e turvo entre Pangim e a outra banda; miríades de insectos açoitam-nos o rosto e vão, coitados, atraídos pela claridade, morrer nos candeeiros que ardem dentro das casas; as rãs coaxam nos charcos, nos poços, fazendo um coro de agreste música. Sobre as paredes, na relva das estradas e dos tectos cintilam os pirilampos, como se a terra fosse um manto cravejado de pedrarias». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!

Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 7 de abril de 2015

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «Cobertas de água, impelidas por um vento doido, redemoinham pelo ar em espirais tortuosas; rompem por entre os palmares, como um esquadrão de fogosos corcéis, e batem nas vidraças, como o duro granizo»

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Goa
«(…) Já pelos montes vêm ecoando longínquas e surdas trovoadas. Uma aragem húmida e saturada de um aroma peculiar àqueles climas, um cheiro de barro novo, prenuncia-nos que a chuva começa a cair sobre os montes mais próximos. De súbito estala uma trovoada. Um vento rijo e possante espalha grossos, fios de água e a terra exala um cheiro acre como o de água lançada em ferro rubro. O calor exalado da terra pelas gotas de água atinge a temperatura de ebulição e a poeira levantada pelo vento voltija pelo espaço como as faíscas de um incêndio; por sobre as nossas cabeças, bandos de gralhas, espavoridas e desordenadas, passam grasnando, e o céu parece descer como um capacete de ferro em brasa: estamos asfixiados. Começa, no entanto, a noite a subir bruscamente; a chuva não se fará tardar, porque à proporção que a noite caminha, uma aragem fresca e húmida nos indica que ela cai já em abundância pelos Gates. É noite cerrada. Nem uma estrela brilha no céu; em vez da trovoada a barra da Aguada brama com furor, como o despenhar de uma cascata; o horizonte, de quando em quando, estremece ao clarão dos relâmpagos que deixam ver as águas encapeladas e da cor de terra que dos montes corre pelo Mandovi à boca do mar:

Espalham cheiros nos campos
As florestas tropicais,
volitam os pirilampos
por sobre os verdes juncais.

Já se não ouvem os trilos
que ao sol modulam as aves,
ouve-se a bulha dos grilos
e uns sussurros mais suaves.

Sopra ama tépida aragem;
grupos de esbeltas palmeiras
acentuam na paisagem
as estaturas ligeiras.
F. Leal, in ‘Serenata Indígena

E a noite triste e espessa, como manto de viúva, cobre silenciosa o espaço de há pouco cheio de luz e tintas, ululando raivas e gargalhadas satânicas: segue a majestade sombria e muda do silêncio. O mundo afigura-se-nos então um templo onde se adora o Deus solitário das lendas hebraicas ou a cripta funerária dos egípcios, onde reina a Morte. Esta mudez, porém, vêm, em breve, romper as fortes bátegas de água e as colunas de ar açoitando o arvoredo com ímpeto insano. Cobertas de água, impelidas por um vento doido, redemoinham pelo ar em espirais tortuosas; rompem por entre os palmares, como um esquadrão de fogosos corcéis, e batem nas vidraças, como o duro granizo. Reboa outra vez, o trovão; o mar braveja com mais furor; cortam o espaço, em todas as direcções, em doidos ziguezagues, os coriscos; como as faíscas de uma metralha estalam com mais frémitos, umas após outras, as trovoadas sobre as nossas cabeças, como se num festim os espíritos celestes arrojassem ao mármore duro uma baixela de louça e o Deus da vingança ou Satã presidisse àquele bacanal celeste». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «… à proporção que o sol caminha para o ocaso. De súbito, as tintas chocam-se, esbatem-se, e à variação da luz e da perspectiva, segue-se um véu denso da cor de ouro fosco: “é sol-posto”»

jdact e fundacaooriente

Goa
«(…) Muitas vezes depara a gente com esses filhos do sol, durante os grandes calores, encostados a um objecto qualquer, os braços pendidos, a cabeça caída e os olhos cerrados, esfregando o corpo contra o que se apoiam. Assim dormitam, cabeceiam e suam nessa embriaguez voluptuosa, própria do indiano. Nada há que o arrede dali. O calor na Índia é esmagador e deprime sensivelmente o sistema nervoso; mas tem o quer que seja de grandioso e solene. Não só escalda e abate, mas assombra. Numa tarde de Maio, principalmente, o espectáculo da Natureza toca as raias do sublime horrível: são tardes ameaçadoras, rubras de fogo como a antecâmara do Inferno. O sol desce para o ocaso em verdadeiro triunfo. As águas do mar atingem uma fosforescência única naqueles climas, semelhando uma massa de cristais em que incidem os raios do sol poente. O horizonte é a boca de um vulcão. Largas faixas de luz de um vivo bronzeado, entremeadas de listrões brancos e azul-escuros tremem no horizonte como as franjas de um docel. Nuvens de fantásticas formas, debruadas de luz, túmidas como rolos de fumo que transformam a lisura do véu que nos cobre em fantástico turbilhão de blocos que se movem. Umas correm, outras montam aumentando de corpo e mudando de forma; estes chocam-se, aquelas irrompem do vácuo; desdobram-se umas, desaparecem outras; estas geram as que vão rolando pela fímbria do horizonte, aquelas desfazem-se pelo vento em canudos de fumo; rasga-se o bojo de umas abrindo na abóbada celeste frestas de fogo; outras, quais negros penedos desencadeados do alto, precipitam-se sobre o foco de luz. Ao súbito escurecer por um tropel de sombras, a luz por tal forma reprimida estende-se no alto das nuvens como as lavas de um incêndio por cima de um monte. Nesta contínua e rápida metamorfose de formas, luz e sombras, o espectador parece assistir à génese de novos mundos. Um cataclismo ígneo confunde os céus e o mar numa orgia de luz, variando em intensidade à proporção que o sol caminha para o ocaso. De súbito, as tintas chocam-se, esbatem-se, e à variação da luz e da perspectiva, segue-se um véu denso da cor de ouro fosco: é sol-posto.
Do lado do nascente, o horizonte carrega-se a pouco e pouco. Ameaça a chuva. A luz crepuscular incidindo sobre este fundo negro espalha uma claridade etérea por sobre as cumeadas das serras das Novas Conquistas que se nos afiguram mais próximas. Enquanto deste lado o fundo cada vez mais se alarga e escurece, pelas bandas do mar o amarelo carregado acentue-se cada vez mais até descambar num rubro firme e baço. Como o crepúsculo dura pouco, a intensidade da luz e do calor é rápida, mas vulcânica. As nuvens, que espreitam por detrás dos montes, galgam rapidamente o horizonte visual. Zonas de luz e sombras aparecem e desaparecem, segundo a direcção que as nuvens seguem, para, dentro em pouco, se estender uma escura cortina, que põe a coberto os lados do nascente. Este véu denso e negro como o fumo do carvão bate o reflexo vespertino para o seu foco. O espectáculo é arrebatador. Da Aguada a Ribandar o espaço aparece envolto num clarão que ninguém sabe donde parte. Dir-nos-íamos arrebatados ao Thabor para assistir à transfiguração de um deus. Como na Europa, em dia de névoa, a terra e o céu se confundem, na Índia, numa tarde de Maio, a multidão que passa parece vespertina. A este quadro de tintas bíblicas nada há que se compare na arre ou na imaginação. Sentimo-nos transplantados ao Sinai, onde Moisés se cria arrancado da terra por uma tromba de luz. Numa exuberância tão caprichosa de cores, de audazes crispações, chega a perder-se a consciência da realidade. A imaginação banha-se em um mar de volúpia, a sensibilidade quase se insensibiliza num delírio de êxtases e de doce esquecimento. Só num clima desses poderiam nascer o impassível Buda e o meigo Jesus». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «Em doida fúria são arremessados para o espaço os cocos e as “ollas”, que juncam o chão de destroços. A água da chuva corre em borbotões pelo tronco abaixo e as palmas, acalmada a tempestade, erguem-se sujas e esfarrapadas»

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Goa
«(…) Se os habitantes das Novas Conquistas tentassem em tempo algum emancipar-se, por certo que ninguém taxaria esse acto de atentado contra a nossa soberania, porque não temos o direito de exigir vassalagem àqueles que nada nos devem; e, contudo, essa gente rude conserva um religioso respeito e até amor pelo nome português. Guerreiros e aventureiros como nós, quase se nos ligam pela afinidade de génio e de carácter. O exército da Índia era na maior parte formado dessa gente, e eles nunca desmentiram a tradicional coragem e lealdade, quer nas companhias de Satary, quer nos sertões da Zambézia. Quem há na Índia, se exceptuarmos os portugueses e uma grande parte dos charadós, que se avantaje em firmeza de carácter, em lealdade e bizarra hombridade aos nossos Sar-Dessays e Ranes? Encastelados nos seus palácios, cercados dos seus galhardos sypaes, os Dessays das Novas Conquistas são ainda os restos desses tempos em que os altivos rajás representavam os nossos poderosos barões.

Nas Novas Conquistas, ao lado dos habitantes generosos e aguerridos, a Natureza também se reveste do quer que é de audaz e febril, como notámos. A arequeira parece preencher o ideal ténue e vaporoso do apático filho do Ganges. Direita, esguia, de uma cor pardacenta, quase nua como a castidade, ergue a cabeça melancólica e copada: é um brâmane nu e pensativo. Um regato de límpida água corre-lhe aos pés; os ramos caem em preguiçosas curvas, como os braços da amante, e os cachos de frutas, de cor alaranjada, pendentes do alto, quais brincos ornando a face da mulher, dão-nos a imagem da lânguida baiadeira. O arecal é o bosque sagrado da Índia. A arequeira é a pompa, o luxo, a alvorada oriental, assim como a palmeira representa os tempos heróicos, a antiguidade quase fabulosa desse povo-mito. Irmã daquela, levanta-se esta, esbelta e triunfante. Saltam-lhe aos ventos douradas pelo sol as palmas, como a cabeleira fulva de um herói germano; o tronco range qual mastro de um navio açoitado pela tempestade e balouça, como os antigos atletas do circo, em curvas audaciosas. As palmas varridas pelo terral espalham um cício igual ao da flâmula agitada pelo vento. Se um vendaval acoita o palmar, como é então belo ver a luta de equilíbrio em que se empenham esses gigantes. A palmeira, ao princípio, oscila lentamente, recurvando-se rápido, nervosa, à proporção que o vento cresce. Cabeceiam as comas entrelaçando-se umas com as outras, e as palmas batidas, resvalam num choque de armas. Em doida fúria são arremessados para o espaço os cocos e as ollas, que juncam o chão de destroços. A água da chuva corre em borbotões pelo tronco abaixo e as palmas, acalmada a tempestade, erguem-se sujas e esfarrapadas.
Num dia de Maio quente e pesado, o sol a dardejar implacável sobre as cabeças alagadas em suor, a palmeira é uma tenda de Deus para o pobre indiano. A água de coco é o gelo naqueles climas. O boiá fatigado e a escorrer em suor apanha do chão uma palma, arranca dela uma folha e enxuga o corpo ou antes raspa-o como com fio de uma faca; depois, ajudado dos dedos dos pés; tece uma espécie de esteira, estende-a à sombra e dorme, apenas descansa o corpo sobre o frio leito. O boiá dorme com tanta facilidade como bebe urraca por todas as tavernas que depara no seu trânsito. Quem andou pela Índia deve ter visto como em dia de calmaria os boiás e os marinheiros, deitados sobre as lajes do passeio e nos degraus do Cais das Colunas, de braços estendidos, o rosto coberto por um lenço de chita, dormem debaixo daquele céu ardente, com uma placidez e um bem-estar inexprimíveis. Quando se levantam, vê-se desenhada no chão a figura humana». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!
Cortesia de Ésquilo/JDACT

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Goa. Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «’Custobá’, de grilheta aos pés, gemeu longos anos no arsenal de Goa, condenado a trabalhos forçados por um crime imaginário. Um dia quebra os ferros e desaparece. Depois, chega à capital a notícia de que ‘Custobá’ se colocara à frente de uma poderosa quadrilha»

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Goa
«(…) Têm eles alguma coisa de quixotesco, desse espírito fanfarrão de outras eras, que revele um fundo não de todo pervertido. Não assaltam uma propriedade, as mais das vezes, sem primeiro mandar avisar o dia e mesmo a hora em que hão-de ir à mão armada exigir o dinheiro de que precisam. Se o proprietário se não resigna a deixar em tal ou tal sítio a quantia exigida está no risco de se ver atacado. Pela calada da noite, à luz de archotes, caminham os salteadores para o local aprazado. Vão mascarados, ou com barbas postiças e a cara pintada de carvão. Dispõem os vigias de modo que não sejam surpreendidos, e um grupo dirige-se à porta principal de machados e alavancas. Cada porta e janela do bairro tem um vigia, que ao menor sinal de socorro, grita logo: cabardar! e não há outro remédio senão a gente ir deitar-se resignado. Cá por fora, através do fumo e do sinistro clarão dos archotes, vêm-se grupos de salteadores armados, bebendo, conversando. Já a porta vacila meio carbonizada; da janela os inquilinos fazem fogo; atiram-se para dentro garrafas cheias de pólvora e betume, e os gritos de zoi-deu! zoi-deu! ao som de batuques, da singa e da fuzilaria, entra para a casa um limitado número de salteadores e prende o dono. Se a resistência continua há lutas e mortes. Seguro o homem, correm a casa toda, arrombando as caixas e recolhendo o espólio. Tudo lhes serve, até o arroz. Raras vezes espoliam ou violam as mulheres, aliás belas e adornadas de jóias, todas trémulas e sentadas de cócoras a um canto da casa. Não falta, de entre os salteadores, um braço que as defenda generosamente quando se ouse espoliá-las ou manchá-las.
A índole guerreira dos habitantes das Novas Conquistas, o seu cavalheirismo, a sua bravura, a sua simpatia pelos portugueses, teriam sido qualidades que outro governo mais sensato que o nosso teria aproveitado em prol dos nossos interesses nessas partes da monarquia. Em vez de salteadores, educando-os, regularizando o seu sistema económico e civil, teríamos nessa gente aguerrida e generosa a melhor garantia da autonomia de Goa e um elemento de prosperidade colonial. Para nossa vergonha, porém, tem havido quem, ignóbil e covardemente, se tem prestado, com o único empenho de agradar à autoridade do distrito, a manchar o nome português pela brutalidade e vilania com que tem trucidado mais de uma cabeça dessas quadrilhas, faltando-se às promessas mais peremptórias da parre do governo. O poético e heróico Custobá foi uma dessas vítimas. Um bôtto manchara a honra de sua família. Custobá jurou vingar-se, e procurou ensejo de castigar o impúdico brâmane. O bôtto para se ver livre do braço que o ameaçava, subornou testemunhas para imputar aleivosamente um crime qualquer ao seu rival. Não faltou quem, movido de indignação contra o sacrílego que assim ameaçava violar a pessoa do sacerdote, se prestasse ao miserando trama do brâmane impudente. Custobá, de grilheta aos pés, gemeu longos anos no arsenal de Goa, condenado a trabalhos forçados por um crime imaginário. Um dia quebra os ferros e desaparece. Depois de poucos dias chega à capital a notícia de que Custobá se colocara à frente de uma poderosa quadrilha, devastando e arrasando tudo.
Fez-se o terror das Novas Conquistas, e o seu terrível nome foi cantado pelo povo como de um malfeitor lendário. Com efeito, foi um hábil guerrilheiro; um bravo montanhês. Saíra do cárcere como o tigre da jaula, espumante de raiva e respirando vingança. Os anos de prisão levara-os a premeditar um justo crime. Quando menos esperava, o bôtto cai-lhe aos pés, roto o coração e os membros despedaçados. Depois, reúne um troço e embrenha-se nos matos, de onde de tempos a tempos guiava o seu bando à pilhagem, ao assassínio e à devastação. A fatalidade das coisas fizera-o de herói em salteador. Saciada, porém, a sede da vingança, a onda de sangue que lhe inebria o cérebro esbate-se na pálida visão do remorso. Queria regenerar-se, queria voltar ao saudoso lar pelo qual se fizera assassino e ladrão, mas não pôde porque caiu num logro dos agentes da autoridade, que o assassinaram cobardemente». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!
Cortesia de Ésquilo/JDACT

domingo, 1 de dezembro de 2013

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «Não gasta o sabão importado da Europa, porque conhece o uso das folhas de ‘saboeira’, condimenta o caril com as folhas da ‘árvore do caril’, conhece a célebre ‘raiz de João Lopes’ como o melhor tónico; anda quase sempre munido de um pedaço de ‘pau-de-cobra’…»

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Goa
«(…) Não sucede já o mesmo em Salcete, se excluirmos os brâmanes, classe abastada e inteligente, e a cujos principais membros cabe um lugar singular nesta história. Com o poder de uma inteligência mais casuística que sólida, guiados por uma constante ideia, têm eles podido, apesar da sua inferioridade numérica, impor-se aos seus conterrâneos e ainda à metrópole, onde eles disputam lugares aos europeus nos variados ramos da actividade social. A singular apatia e desmoralização dos habitantes de Salcete têm a sua explicação no facto de estarem expostos às incursões do ramo dravídico e nas constantes perseguições religiosas, que acabaram por os tornar tímidos e desconfiados. Onde, porém, a raça se conserva mais pura é exactamente onde o catolicismo e a civilização europeia pouco imperaram. Ainda que semi-selvagens, possuem um fundo moral e religioso superior aos conversos. As Novas Conquistas, virgens em natureza e civilização, são mais domínios independentes, feudatários, que nossos. Vivendo em uma região acidentada, em campos encastelados por altas serranias, cortada de profundos vales, encristada de imponentes despenhadeiros, sombreada por densas metas, regada de esteiros de água que inundam seus formosos arecais, acordada pelo fragoso despenhar das cascatas, pelo rugir do tigre e dos uivos do chacal, os seus habitantes conservam com ciúme os seus hábitos tradicionais. Em rudes govoles, o gouly, pastoril e nómada, como que embalado pelo mugir do seu rebanho, a sua única riqueza, sem ambições, mas feliz à sombra do sumptuoso docel da árvore gralha.
Quase sempre em frente do pobre casebre, mesmo no centro do anganam, mão religiosa cultiva o pimpol entre cujos ramos nasceu Vishnu. O habitante do território das Novas Conquistas é um exímio conhecedor de plantas úteis e medicinais. Muitas vezes desce ele às vilas como curandeiro ou garopeiro e então vende mezinhas ou diverte as turbas. Não gasta o sabão importado da Europa, porque conhece o uso das folhas de saboeira, condimenta o caril com as folhas da árvore do caril, conhece a célebre raiz de João Lopes como o melhor tónico; anda quase sempre munido de um pedaço de pau-de-cobra, enfim, é um digno precursor se não mestre de Garcia da Orta. Com efeito, a Natureza aí é de prodigiosa exuberância, e o hindu nutre não sei que amor santo pelas plantas. Ao lado das medicinais brotam aí a champaca, dedicada a Vishnu, e cujas flores são muito apreciadas pelas gentias, como ornato de cabeça; o jasmineiro, o mogarim, e a linda trepadeira clitorea ternatea. A prodigalidade do reino vegetal corresponde à do reino animal. Ao romper da alva lindos pássaros saúdam o astro benfazejo, espalhando pela ramaria a música alegre dos seus trinos. Mal douram o horizonte os primeiros raios do sol, e o orvalho cai, gota a gota, no solo alastrado de odoríferas flores, saltitam de ramo em ramo o pássaro-do-sol, o bulbul sultana, o papagaio-de-cabeça-azul, o engole-vento, o gaivão-dos-palmares, o pássaro-alfaiate, o mainato-religioso e uma infinidade de aves, qual delas a mais rica na plumagem e mais festeira no gorjeio vibrátil, modulado, ligeiro como o acordar do dia oriental.

Debaixo de um céu rubro; o gouly descalço e a cabeça descoberta, como um herói, pastoreia por vastas campinas o seu rebanho. Fatigado pelo calor, deita-se sobre a fresca relva, e erguendo as pernas em posição vertical brinca com os pés ao som da flauta pastoril. Vem descendo pela encosta uma manada de búfalos. Sobre o dorso, de rosto para trás, sentam-se os pastores com as pernas cruzadas, como ídolos levados em charolas; outros deitam-se de barriga para o ar e soltam gritos estrídulos em sinal de recolher aos seus companheiros. Nas aldeolas esperam-nos as goulinas, raparigas fortes e esbeltas, com os seus grandes brincos pendentes da orelha e o colo cheio de contas e missangas, como os seus ídolos. Enquanto os pastores tiram do langotim e repartem entre si os carandams e churnams que colheram no mato, a família prende o gado às estacadas e junta a bosta com que se asseia o chão da casa e o canteiro do sagrado pimpol. Muitas vezes estes hebreus indianos formados em tribo desarmam a choça, fazem em feixe os bambus, as mulheres atam os filhinhos por detrás das costas, e lá vão carregando a casa toda por esses íngremes trilhos escolher outro sítio mais cómodo. Mas não é só o gouly, pacífico e pensativo, vindo às vilas vender o lounim, que habita essas regiões, sobre as quais a nossa influência tem sido nula. Novas Conquistas, para os imaginosos, é um ninho de salteadores. De tempos a tempos, fortes quadrilhas de salteadores têm trazido em constante sobressalto os povos de Goa. Os salteadores das Novas Conquistas, porém, não são, como se se supõe, uns celerados por índole ou profissão. A maior parte das vezes não é só a fome ou o espírito de aventura, que lhes arma os braços. Há no fundo dessa vida semibárbara profundos dramas humanos». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!
Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «Raça de mais fibra, energia trabalhadora, e devido parte às condições geológicas do terreno montanhoso, cortado de poucos rios, por vezes árido, e ao contacto de povos guerreiros como os maharatas, o povo de Bardez…»

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Estão pelos telhados e janelas velhos e moços, donas e donzelas. In Camões

Goa
«(…) A cidade da Velha Goa é o que aí se vê: desertos, ruínas e caveiras. Compassadamente o sino de ouro da Sé chama os cónegos a coro. Do vasto templo reboa, pelo espaço o angustioso grito do profeta, ad te, Domine, clamavi, como o único recurso de uma geração descrente e prostrada; uma aragem húmida e fria silva por entre a ramagem, e uma chuva de folhas secas junca o trânsito tapetado pela relva; o viajante evita cuidadosamente a cobra que rasteja por entre a folhagem; os gritos enchem o espaço de um zumbido triste e agonizante; um ou outro rendeiro de sura, sentado sobre o ramo da palmeira, solta estrídulos gritos (uh-uh!) como o piar do mocho agourento; algumas tonas quebram o silêncio das águas ao fanhoso e puxado cantar do marinheiro que desce o Mandovi... Para o coração português a sensação causada por aquela hecatombe é esmagadora. Os poucos templos que aí existem perecem antes umas lápides funéreas; a Natureza é uma elegia; o viajante sente-se vaguear em meio de sombras. Aquele sítio despovoado, plangente na voz desse sino, que tanto encantou o poeta, e que é como um grito do passado; as cúpulas e as torres desbotadas pelo tempo, que se alteiam quais ciprestes em meio daquele cemitério; o respeitoso silêncio do ermo, a pompa rude e homérica de ruínas seculares, tudo, enfim, fala e se agita com a placidez, dos séculos e a poesia dos destroços: um mundo parece acordar de entre aquele sepulcro imponente das nossas glórias:

A flor do Mandovi cai murcha e desfolhada!
Afilha de um jardim tapiza um cemitério!...

Do Tissuady, teatro dos nossos primeiros feitos nestas partes da Índia, convida-nos a montanhosa Bardez, terra de mulheres varonis e homens fortes. Transpomos o outeiro de Betim e logo descemos para o imenso vazio, que em alguma época geológica parece ter sido uma bacia para onde entrava o mar, que hoje banha as praias de Calangute. Do cimo desse outeiro o panorama é delicioso. Os montes correm caprichosamente dos Ghattes levantados aqui, deprimidos aí; descem para os vales, arredondam a superfície, levantam-se rudemente mais além, cobrindo a vista de um ponto, alargando os horizontes de outro, correndo em rolos entumecidos até se confundirem com as nuvens. Orlando o vale, espreitam as ermidas rurais, e os campanários erguem-se majestosos por sobre as palmeiras, espalhando por aquele âmbito a música alegre dos seus sinos. O vasto arrozal estende-se como uma alfombra matizada a capricho pela mão da Natureza. Quase ao meio está o Monte de Guirim, ilha de verdura, encristada pelo colégio do seu nome. Foi ali que, na doce contemplação do místico, uma alma pura e simples sonhou um dia criar um centro de luz e amor.
Mal pensava eu, educado nesse colégio, que teria de misturar com lágrimas o saudoso nome do meu santo mestre e amigo, padre Francisco Luís Gonzaga Ataíde, ao recordar-me hoje desse bando de crianças, para ele tinha todos os carinhos e desvelos de uma mãe. Meu bom mestre, fostes vós que, ao lado da minha viúva mãe, me infiltrastes na alma os bons sentimentos, que porventura possuo. Aqui vos agradeço, consagrando à vossa saudosa memória estas singelas palavras de um culto filial... De um lado do monte, vêem-se os canaviais de Saligão, jangadas de verdura balouçadas pelo vento; pequenos morros semeados de palmeiras, de bananeiras, e humildes casebres pululam pelo vale como recifes de coral; pelas encostas lobrigam os povoados, de que dá sinal o gomatte em festas domésticas, ou o estourar das recamaras ao som do bombo e caixa, nas festas religiosas da freguesia.
Raça de mais fibra, energia trabalhadora, e devido parte às condições geológicas do terreno montanhoso, cortado de poucos rios, por vezes árido, e ao contacto de povos guerreiros como os maharatas, o povo de Bardez tem desempenhado na história o papel característico da sua superioridade de raça e de génio. A emigração em grande escala para Bombaim, pondo-os em relação com um mundo mais activo, com classes trabalhadoras e enérgicas, tem-lhes modificado os hábitos, mais ou menos sedentários em outros dos seus conterrâneos. Aberta, pela sua posição geográfica, à incursão dos maharatas, pouca ou nenhuma influência tiveram em Bardez as imigrações do Canará, que, em tempos anteriores à nossa conquista, vieram invadindo as regiões meridionais das Ilhas e Salcete. Tudo faz crer na pureza, de raça dos seus habitantes: o seu génio altivo e empreendedor, o sentimento de família mais vivo e as suas aspirações pela liberdade. Foi Bardez a comarca revolucionária por excelência». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!
Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 18 de junho de 2013

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. « Onde se erguiam palácios, alteia a palmeira, símbolo da solidão; onde percorria uma turba ávida, buliçosa, vagueiam solitárias borboletas sobre os arbustos; ao brilho dos xailes de Kachemira…»

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Estão pelos telhados e janelas velhos e moços, donas e donzelas. In Camões

Goa
«(…) Uma ponte, ou antes uma estrada-ponte, dá entrada para Ribandar. Altaneiras fachadas de antigos solares descobrem-se sucessivamente por entre o arvoredo que cobre o outeiro. Do sopé sobem as casas em anfiteatro, todas com a fachada para o rio; em baixo fica a única estrada cortada em rocha viva e, alguns metros inferior ao seu nível, a linha de casas com balcões e jardins sobre o rio, e escadas para subir à estrada. Tal é a antiga Rajah-Bandar ou cais dos rajás.

O rio estreita-se depois de Ribandar, e as sombras das palmeiras e salgueiros dão-lhe a cor esverdeada e mansa de um lago. De um lado as choupanas dos pescadores, de outro os plainos cobertos de vastos arrozais. Defrontando Ribandar e a Velha Goa, as ilhas de Chorão, Divar, Santo Estêvão, encimadas de igrejas e conventos desmantelados; irrompem daquele vasto paul, cortado de regueiros, alagoas, arrozais e salinas, em perspectiva risonha e caprichosa. Quase ao nível do rio e a perder de vista, alastram-se os arrozais, verdes, ondeantes e listrados de faixas de água, que o sol doura a primor. Perdidas por aquela pequena Holanda serpenteiam à noite as canoas de pesca com fogueiras acesas à proa, enchendo o espaço de um clarão rubro e sombras fantásticas.
Por terra tudo é agreste, a temperatura húmida, a luz mortiça, que o sol vai esparzindo sobre arcos meio sustidos no ar, cruzes partidas, palácios derrocados, morros aqui, fachadas ali. Regueiros de água doce serpenteiam por entre os muros amparados por uma rede de raízes esbranquiçadas, que parecem cobras, e pelos palmares, como a única melodia daquela paisagem umbrosa e rude na sua beleza sem arte. Vêem-se frontispícios de palácios sumptuosos fantasmaticamente erguidos com o vão das janelas e portas, deixando entrever, do outro lado, o céu e as ruínas de outros palácios. Destas frestas, meio escondidas de trepadeiras, saem troncos de árvores palmeiras curvadas que à noite parecem monstros espreitando a rua por onde raras vezes passa alguém. Tais são os subúrbios da antiga metrópole, S. Pedro, Panelim, ninhos despedaçados naquele matagal imenso.
Despontam já as moles imensas dos conventos, a torre da Sé, a cúpula de São Caetano, seis templos, enfim, alujando ente um palmar enorme. Nenhum galeão surto da Ribeira das Galés, flâmula alguma ondula ao sabor da brisa por sobre o baluarte de outrora, nem jaos malaios, negros ou mouros se agitam pela margem do rio; e os sinos não repicam, os fidalgos não atravessam pela cidade em fogosos corcéis, nem as damas velam os seus formosos rostos com dourados véus... Só o Arco dos Vice-Reis se levanta aí, como paródia reles das grandezas que já lá foram:

Vim assistir ao desabar da glória!
Ter de mostrar às tribos estrangeiras
por todos os brasões da nossa história
só desertos, ruínas e caveiras.

Depois de Lenschotten, Pyrard, Buchanan, Cottineau e Dellon era preciso que uma alma portuguesa chorasse sobre esses ruínas. Ao suave e apaixonado cantor de D. Jayme coube esta glória. Para tanta poesia, só um poeta, para tanta amargura, só a alma triste de um português. Aquela Goa, tão afamada na História e tão admirada pelos viajantes dos séculos XVI e XVII, nem, pelo menos, indica o que outrora foi. Só a tradição pode fazer crer que aquele cemitério fora jardim, que aquele sombrio e húmido palmar fora empório de luxo e fausto oriental ainda não excedidos. Onde se erguiam palácios, alteia a palmeira, símbolo da solidão; onde percorria uma turba ávida, buliçosa, vagueiam solitárias borboletas sobre os arbustos; ao brilho dos xailes de Kachemira, dos tapetes da Pérsia, das pérolas de Ceilão e do ouro de Golconda, o pálido reflexo do pirilampo vem esmaltar aquele esfarrapado manto da nossa miséria:

Rajás de Bisnagar, A vossa Goa é nada!
Filhos de Siva-Rai, é sombra o vosso império!
A flor do Mandovi cai murcha e desfolhada!
Afilha de um jardim tapiza um cemitério!...

...Mas, se o formoso sol que a minha mente sonha
não rompe a cerração, nem calma adversos ventos;
roubando-nos à luz, poupai-nos a vergonha!
Caíde sobre nós, heróicos monumentos.

O poeta, apesar dos seus bons desejos, pressentiu o que quer que é de triste, de vergonhoso, no futuro da nossa Índia, e dá lugar a todo o seu orgulho de português.

Caíde sobre nós heróicos monumentos!

In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

A saudade do Álvaro José (onde quer que estejas!)
Cortesia de Ésquilo/JDACT

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «Pela margem esquerda a cordilheira do Cabo corre na mesma direcção até ao extremo oriental de Pangim, desviando-se para o sul e cingindo as várzeas de Santa Cruz e Mercês, para seguir de novo pela vila de Ribandar até ao extremo oriental da antiga cidade»

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Estão pelos telhados e janelas velhos e moços, donas e donzelas. In Camões

Goa
«(…) Se passa comandando uma força, as damas o vão admirar à janela, recebendo graciosamente o cumprimento, que ele, com donaire e marcial ufania lhe faz, levando os copos da espada ao rosto. O mesmo rompante, o mesmo ar de triunfo junto das damas, Parecendo esmagar meio mundo com o seu olhar cioso e trémulo de íntimos júbilos. Não fala sem bater nos copos da espada, saracoteando-se ruidosamente de um lado Pare outro, tudo para se mostrar formoso aos olhos da dama dos seus amores. Algumas vezes, principalmente desde que se não armam cavaleiros no exército, não prima pelo bom gosto e chega a ser ridículo, ridiculíssimo.
As damas, pelo contrário, são em tudo portuguesas: tristes e meigas. Quase que não falam, e ao passar-se em atelliers divisam-se pelas portinholas rostos pálidos, de olhares tímidos e mornos. Ainda assim, denota-se-lhes o espírito altivo de antigas fidalgas quando pelas salas rastejam a longa cauda de seus vestidos. Em família, a alegria quase mística da portuguesa, a serenidade do gesto e meiguice no olhar, reveste-as de um encanto irresistível, fascinador.

Tínhamos deixado o Convento do Cabo, hoje palácio de recreio dos governadores; o Campal, o melhor passeio de Pangim; Reis Magos e Aguada, dobrados sobre o rio; Caranzalem, com as suas larguíssimas e brancas praias, para onde a elite da capital vai passar a estação calmosa. Do outro lado, para o sul da ilha, entre a península de Mormugão e Dona Paula, tudo está mudado. É uma cidade nova, cheia de fumo , a baía coalhada de vapores, constantes apitos, guinchos dos guindastes, uma babel de línguas e o eterno, oh! inglês, parvo de tanta glória, à nossa custa. Deixemo-lo em paz, o nosso fiel aliado. Espraiemos a nossa vista pelas margens do Mandovi, serenas e belas.

A actual capital da Índia Portuguesa, Pangim, transformaram-na, de um paul, que era, o conde d'Ega, Manuel de Portugal, conde de Torres Novas e o contra-almirante Caetano Albuquerque. Desembarca-se em Pangim, escreve o viajante francês Victor Fontanier num belo trapiche recentemente construído. Numerosas embarcações estão ocupadas em carregar e descarregar mercadorias; de todos os lados se vêm levantar novas construções. Púnhamos pé em terra: as ruas são largas e simetricamente alinhadas; uma considerável população percorre-as num movimento estranho e não usual naqueles climas; tudo, enfim, se alia para dar à cidade um aspecto mais europeu que asiático.
Os prédios caiados de branco e amarelo, independentes, deitando sobre o Mandovi rasgadas janelas de feitio das dos nossos conventos antigos, umas de ostras, outras de vidros com sacadas de madeira, cobertas no Inverno com reparos de ola, dão à cidade o aspecto de uma pitoresca vila. As ruas como os tectos, nos meses de Junho e Julho, cobrem-se de relva e matizam-se de pirilampos que, no escuro da noite, parecem bocados arrancados ao céu. À beira-mar o palácio da primeira autoridade, hoje quase abandonado pelo do Cabo, é o tipo mais simbólico de como as nossas coisas andam: sempre a renovar-se e sempre velho. Supre tudo, porém, a galeria dos vice-reis, quadros baços e gigantescos, que mais parecem uns trogloditas do que as épicas figuras dos nossos heróis. Ao extremo ocidental um mercado, visconde de Ribandar, de uma beleza e de uma arquitectura que faria parar de saudade, se por ali tivesse a ventura de passar, um descendente dos faraós; no largo das Sete Janelas, sobre um pedestal pesado e informe, ergue-se a estátua de Albuquerque terribil: um colosso de pedra preta, e sem nariz. Uma cúpula rotunda, sustentada por uns pilares dóricos, resguarda a cabeça do conquistador de Goa das chuvas torrenciais dos trópicos, à maneira dos ídolos pagãos que se encontram na Índia à entrada dos pagodes. Na inauguração desta estátua, um veterano da liberdade, que então governava a Índia, exclama assim nuns versos inflamados:

Grita-lhe, e verás seu ardimento...
Arranca a espada que inda tens em punho.

Por toda a parte, este patriotismo banal de exclamações e reticências! Deixemos os estudantes do liceu garatujar pelas paredes do monumento deste que, de há muito, deveria ter arrancado da espada, e subamos o Mandovi, que muita vez escutara os saudosos queixumes do épico português. O cristalino das águas retratam as esguias palmeiras e o sombreado bambual, que ornam a fralda e as vertentes dos outeiros de Verém e Betim. A cordilheira, que corre da Aguada paralela ao rio pela margem direita, desvia-se num ponto em direcção nordeste, exactamente no sítio onde se levanta a igreja da Penha de França, e onde o rio entra por um braço pelas terras de Bardez. A fachada dessa igreja, correcta, nívea, sobressaindo num fundo verde e plumoso da encosta, com as escadarias que os salgueiros mal deixam ver, perece de longe um navio que desemboca para o rio a pano cheio. Pela margem esquerda a cordilheira do Cabo corre na mesma direcção até ao extremo oriental de Pangim, desviando-se para o sul e cingindo as várzeas de Santa Cruz e Mercês, para seguir de novo pela vila de Ribandar até ao extremo oriental da antiga cidade».

In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

A saudade do Álvaro José (onde quer que estejas!)
Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «De uma das dobras do pano, habilmente fisgada à cintura e que deixa ver a coxa, tiram de quando em quando grão assado e caroços de tamarindo… Lestas e tagarelas andam apressadas, jogando descompostamente os quadris e rastejando umas sandálias feitas de ola, que mal lhes cobre a planta do pé»

Velha Goa
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Estão pelos telhados e janelas velhos e moços, donas e donzelas. In Camões

Goa
«Nas tardes de Maio, a brisa da tarde rumoreja por entre os lestos ramos da palmeira um ciciar muito parecido com o bater das asas de uma ave; o vento do mar alto sacode os troncos das mangueiras e jaqueiras num ruído flácido e sussurrante, próprio do bosque; a areia volteia em espirais pelo Campal, e o mar ronca, imitando o despenhar de uma cascata, por entre os bancos de Gaspar-Dias. A fortaleza de Reis Magos, na margem direita, parece irromper das águas, deixando ver, ao passo que subimos o rio, as trincheiras que gradualmente sobem, e a bela fachada da igreja, olhando para o interior. Aproamos à cidade da igreja, olhando para o interior. Aproamos à cidade de Nova Goa.
Vêem-se no outeiro de Pangim as escadarias e a igreja da Conceição, e de outro lado as umbrosas e verdejantes margens de Verém e Betim ostentam toda a opulência tropical. Nas pequenas enseadas aglomeram-se as canoas carregadas de frutas e flores, que vão depois fornecer o mercado da capital. Pangim no sopé do outeiro, em alguns pontos coberto de arvoredo e subindo a encosta, deixa ver os seus prédios meio escondidos, como uns brancos lençóis suspensos ao vento. Pelo nascente, destacam-se os casarios de Ribandar, a igreja da Piedade, Chorão, e mais além, num fundo dourado pelo sol e cortado pelo rio, as torres da Velha Goa, quais flocos de neve confundidos no horizonte com as altas serranias das Novas Conquistas.
Entre Pangim e Betim atravessam o rio as tonas carregadas de gente. Marinheiros de corpo nu, cabelo atado no alto da cabeça e luzidio de azeite, descem o rio cantando uns, fumando outros. Como a cidade é quase morta, ouvem-se perfeitamente o bater do hélice dos barões a vapor e as ordens do patrão, à inglesa, stopper! De um e outro lado, os passageiros entram e saem as lanchas, que fazem carreira entre Pangim e Verém. Uns de trajos pagãos, turbante branco ou barrete bordado a galão, pálidos, amarelentos e desconfiados, desaparecem pressurosos, sacudindo a trança ao vento e batendo os pés no chão para sacudir a poeira das sandálias; outros, meneando muito a cabeça, contando pelos dedos, bocejam com incrível tédio. Conversam num tom áspero e cantante; vão apressados, sempre em grupos falando nos seus negócios, oferecendo uns aos outros a areca e o bebel ou passando de mão a mão o canudo, que sorvem a largos tragos. Os interessados das comunidades e os demandistas que vêm à capital tratar de seus negócios, calção curto até ao joelho, chinelos sem peúgas e um chapéu alto de dimensões colossais, sobraçam rolos de papel e seguem o seu caminho em agitada conversa. O sério burguês, proprietário ou advogado, caminha sempre seguido de uma turba de clientes. Mais polido, de porte amaneirado e cheio de si, o indígena educado à portuguesa dá-se ares entre os seus amigos, tendo sempre o cuidado de se referir amiudadamente ao seu trato com pessoas gradas da província, juiz, delegado, o que não deixa de causar sensação e provocar comentários entre os seus admiradores. Raparigas de belos olhos pretos, cabelo basto e negro, seguem a passo curto para o bazar, e vão pelas ruas de Pangim vender os seus géneros. De uma das dobras do pano, habilmente fisgada à cintura e que deixa ver a coxa, tiram de quando em quando grão assado e caroços de tamarindo, com que entretêm o apetite. Lestas e tagarelas como são, andam apressadas, jogando descompostamente os quadris e rastejando umas sandálias feitas de ola, que mal lhes cobre a planta do pé.
De vários pontos da capital, logo pela manhã cedo, grupos de criados dirigem-se para o novo mercado pela rua do aterro, dando-se ao derriço, beliscando e jogando ditos obscenos. Daqui e ali se ouvem garridas risotas e o lânguido mandó ao som da picareta, com que o pedreiro vai aperfeiçoando o material para uma casa nova ou para as obras do aterro. As moças que os ajudam em conduzir a cal e as pedras, sobem os andaimes espicaçadas por uns ditos amorosos e outras vezes rogando pregas contra os mais atrevidos. Este passatempo é, característico da sensualidade indiana, e a não serem estas raparigas, os pedreiros e carpinteiros, risonhos e dengosos, tanto a mulher como o homem na Índia, ainda que extremamente sensuais, são no geral tristes, principalmente a mulher que chega a ser lúgubre no seu trajo de preceito, o ôll.
O farangui, como lá se chama, julgando-se ainda o fidalgo de outras eras, entra em cena mais tarde, segundo a pragmática. Levanta-se sempre tarde, lê assiduamente de manhã e à noite os romances de Camilo, Dumas, Paul Kock, e se não é precisamente um Pico de Mirandola ou um fervoroso adepto de Voltaire, não deixa de saborear Hugo e Guerra Junqueiro com certa predilecção.
Não é revolucionário, por índole, mas amantético, gostando de Soares de Passos e João de Lemos, e, sobretudo, da história de Carlos Magno e os Doze Pares de França. Um espadachim em miniatura e fanfarrão como o espanhol; não namora com os dandys de cá, mas julga-se com direito de ser amado, e por força tem uma noiva, a mais bonita e elevada na sociedade! Se é militar, não se espreguiça tento à espera que e criada lhe vai levar o café à cama, e, como o tempo urge, não tarda a fazer-se sentir pelas ruas o rastejar estrepitoso da espada do garboso alferes. Todo ele é um primor. O calçado tem o brilho dos seus olhos, os botões fazem-lhe como estrelas, e a banda, bem se vê, cingiu-lha a mão mimosa da esposa ou irmã». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Murgão

A saudade do Álvaro José (onde quer que estejas!) 
Cortesia de Ésquilo/JDACT

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «O morro da Aguada encimado por um bojudo reduto, como guarda avançada na foz do Mandovi, espalha em noites procelosas a luz que encaminha o nauta para as terras de Goa. Por baixo, à flor da água, correm as casas volteando a curva do promontório de Bardez…»

(1859?-1922?)
Goa
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Quem reviveu numa hora ardente
de sonho altivo e de paixão
a vida antiga e resplendente
do país tomado ao Idalcão.

Viveu decerto a vida heróica
dos seus avós que já la vão
num sonho augusto de alma estoica
numa ideal transfiguração.

Vida de sonho, breve embora,
ninguém a vive rúbida hora
se a lama o prende pelos pés.

Vivê-la é ter um peito forte
diante do mal e a dor e a morte
um coração bem português.
Soneto de Nascimento Mendonça, dedicado a Frederico D’Ayalla

Goa
Mal assoma a barra da Aguada, transpondo a última sinusidade da costa brava, ao sul despontam os casarios e os baluartes, caiados de branco, que mansamente vão subindo e encosta do promontório de Mormugão. Dobramos as praias de Galvão, mais propriamente rochedos batidos por grossas vagas, que de longe se ouvem quebrar com a monotonia e placidez próprias do oceano. No Inverno, por entre aqueles cachopos, espuma o mar as suas mal contidas iras. A onda monta, e desdobrando-se com fúria vai de arremesso contra os negros penedos, que a água tem cavado em configurações estranhas. Chocando-se, fundindo-se, as vagas rolam marulhando uns ruídos cavos, que a resistência da costa transforma em grito medonho. As águas espirradas pelo embate sobem como um véu de gaze prateado pelo sol. E em breve o que era coberto de um lençol branco e crepitante, desnuda-se e deixa ver as coroas de musgo e algas alastrando-se sobre o dorso dos rochedos, reluzentes, movediças, como as serpentes.
O morro da Aguada encimado por um bojudo reduto, como guarda avançada na foz do Mandovi, espalha em noites procelosas a luz que encaminha o nauta para as terras de Goa. Por baixo, à flor da água, correm as casas volteando a curva do promontório de Bardez, e defendidas do mar pelas cortinas quase simétricas, brancas e uniformes, como a dentadura de um leão. Estamos à boca do Mandovi sereno e brando.

Lusíadas
E correram para a glória lançados de uma pedra alta.
Brotaram como ventos debruados de cruzes e crescentes
ébrios de fome e loucos sem mar que lhes bastasse.
Amaram os horizontes rápidos de sal e de corais,
precipitaram-se no prazer e no sofrimento
como quem ama o clamor de um deserto açoitado pela aragem.
E, pouco a pouco, se espalharam num reino de ausências
crónica de uma alegria que tinha gosto a crueldade:
arrastaram sabres sobre carne jovem
temperaram muralhas com clarões de pólvora,
oh gente flagelada pelos signos do fogo
não coubestes dentro de vós
procurastes a companhia das estrelas.
Que encanto a vossa migração ensandecida!
Que sandálias no faro da distância!
Que chiqueiro na tenda de pimentas e rubis!
Era um divino rumor entre as palmeiras
e frondes
os perdestes como jardins à noite.
Adalberto Alves, in ‘Oriente em Mim

Na margem esquerda, rompendo por entre copados cajueiros, encara o mar o Convento do Cabo. Quantas vezes não ouvi eu os sinos da Aguada e do Cabo, no calado de um dia sereno e límpido, espalhando mansamente seus sons pelo níveo seio do imenso mar! Como essas notas aflitivas me traziam à mente os ecos gloriosos de um passado ruidoso e homérico! Como é triste espraiar a nossa saudosa vista pelo litoral eriçado de fortalezas e ir, após um aleluia fictício, assistir ao miserere entoado por entre as ruínas de uma cidade deserta! Uma legião de espectros nos espera para entoarmos uma elegia sobre o túmulo da nossa grandeza!

Ó cisne!
Deixa-me voar até aquela terra
onde reina o meu Amor.
Sem corda e sem balde
do poço tiram água as donzelas.
Lá há chuva, sem que haja nuvens
e banha a minha forma incorporal.
E em cada noite brilha a lua cheia
e em cada dia há luz que resplende
na miríade faiscante do sol.
Kabir (1398-1518), in ‘Canções de Amor

largo de S. Pedro em Murgão
ilustracao de armandopedro

Entre Gaspar-Dias e Reis-Magos, redemoínham as vagas nos bancos de areia. As ondas fervem, quebram-se, rodopiam, e as gaivotas, sacudindo as asas, dão caça aos peixes. O barco entretanto singra lentamente, evitando o baixio. Por entre as palmeiras espreitam as casas de campo e os casebres angulosos cobertos de ola, sobre os quais as gralhas, espicaçando a presa, grasnam de contentes. Sobre a areia quente de Caranzalem os pescadores compõem as redes, cantando. Vai-se descobrindo a parte ocidental de Pangim. O coreto de música, o hospital-barraca, as pontes de Minerva e Marta, as meias-laranjas e os bancos de pedra saltam aqui e ali no Campal, como alvas tendas em meio de um oásis. Largas ruas enfiam a vista para o interior da cidade, meio coberta de densos palmares. Nas tardes de Maio, a brisa da tarde rumoreja por entre os lestos ramos da palmeira um ciciar muito parecido com o bater das asas de uma ave; o vento do mar alto sacode os troncos das mangueiras e jaqueiras num ruído flácido e sussurrante, próprio do bosque; a areia volteia em espirais pelo Campal, e o mar ronca, imitando o despenhar de uma cascata, por entre os bancos de Gaspar-Dias». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.
A saudade do Álvaro José (onde quer que estejas!)
Cortesia de Ésquilo/JDACT