Mostrar mensagens com a etiqueta Julia Gregson. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Julia Gregson. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Noites de Jasmim. Julia Gregson. «Como foram as coisas em Rockfield?, dissera ela. Tudo o que ela sabia a seu respeito era que esse era o sítio para onde os rapazes queimados eram enviados»

jdact

St. Briavels. Gloucestershire
«(…) Um táxi fora ao seu. encontro na estação. Quando atravessaram um rio Wye a cintilar ao brilho do sol primaveril, uma fila de cisnes, altivos e orgulhosos, avançava majestosamente sobre a água, e, no outro extremo do rio, um grupo de póneis galeses pastava, um deles com um pardal pousado na garupa. Ele pediu ao condutor do táxi para parar um momento. Disse que queria olhar para a vista, mas, na verdade, estava a sentir dificuldades em respirar. A sensação de asfixia, agora familiar, surgiu repentinamente como um animal a saltar do meio da escuridão, e fez-lhe o coração disparar e as palmas das mãos ficarem húmidas e frias. Ia passar. Apagou a beata do cigarro e deixou-se ficar sentado a respirar da forma mais pausada que conseguiu, tentando concentrar-se apenas em coisas boas.
Que maravilha, disse ele por fim, quando a sensação passou. É uma vista linda. É uma manhã perfeita para regressar a casa, senhor, disse o condutor, com os olhos firmemente virados para a frente. Está pronto para continuarmos? Sim. Estou pronto. À medida que o carro subia a colina íngreme, ele concentrou-se furiosamente no campo de gado negro galês à direita, e na dispersão de casinhas de campo rodeadas por primaveras e crocos de cores vivas. Estava a regressar a casa. Um longo caminho sulcado conduzia até à quinta; dali, ele via o estuário do Severn, a reluzir como a concha de um molusco à distância, e quando a quinta Woodlees ficou visível, os olhos dele encheram-se de lágrimas impotentes. Esta era a encantadora casa caiada para onde os pais se tinham mudado há vinte e cinco anos, quando o pai se tinha tornado cirurgião. Com tectos baixos, sem qualquer característica especial, para além das grandes janelas viradas a sul, erguia-se sozinha no meio de campos varridos pelo vento.
A pequena mata atrás dela fora onde ele brincara aos cowboys e índios com a irmã Freya em criança. Faziam igualmente corridas com os póneis ali, precipitando-se ao longo de trilhos enlameados e por cima de obstáculos improvisados. Ele nascera atrás da terceira janeia à direita no primeiro andar. O carro subiu, com um ruído seco, o caminho de entrada por entre a avenida de tílias que a mãe, uma entusiasta pela jardinagem, tinha plantado nos dias em que era uma rapariga com saudades da sua família na Provença. A cintilar com a chuva, gloriosas e verdes, limpas da poeira de Verão, surgiam como uma visão. Ele começara a odiar as sebes de alfena severamente aparadas que rodeavam os relvados do hospital. Para lá das árvores, relva nova, novos cordeiros no campo, toda uma terra na sua adolescência.
A mãe dele desceu o caminho de entrada a correr quando ouviu o táxi. Esperou-o sob as tílias e tomou o rosto dele entre as suas mãos. Meu querido Dom, disse ela. Estás novinho em folha. Enquanto caminhavam de volta para a casa de braço dado, cães andavam à roda das pernas deles e um velho pónei no campo esticou-se de forma inquisitiva por cima do portão. Como foram as coisas em Rockfield?, dissera ela. Tudo o que ela sabia a seu respeito era que esse era o sítio para onde os rapazes queimados eram enviados, para os adaptar de novo à vida real.
Surpreendentemente animado, disse ele. Ele falara-lhe da bonita casa perto de Cheltenham, emprestada por alguma senhora com posses, dos barris de cerveja, das enfermeiras bonitas, das festas incessantes, das queixas dos vizinhos, que diziam que estavam à espera de convalescentes, não de rufias. Ao ouvir o riso educado e ansioso da mãe, ele resistiu à tentação de deixar cair a cabeça como um rapaz culpado; naquela manhã, bem cedo, tinha estado três mil metros acima do Canal de Bristol, a subir a grande velocidade sobre ovelhas a pastar, pequenos campos em retalhos, as escolas, os campanários das igrejas, o mundo inteiro adormecido, e tinha sido estupidamente maravilhoso. Tiny Danielson, um dos últimos amigos que lhe restava da esquadrilha, conseguira deitar as mãos a um biplano Tiger Moth guardado num hangar perto de Gloucester. As mãos de Dom tinham tremido ao apertar o capacete de voo de pele pela primeira vez em meses, com o coração a bater violentamente enquanto deslizava cuidadosamente sobre a pista de descolagem com abrigos Nissen espalhados em ambos os lados, e depois, quando descolou rumo ao azul límpido lá em cima, ouviu-se a soltar um grito de alegria». In Júlia Gregson, Noites de Jasmim, Edições ASA, tradução de Ana Pereira, 2012, ISBN 978-989-231-964-3.

Cortesia ASA/JDACT

Noites de Jasmim. Julia Gregson. «Cara Saba, gostava de lhe dizer que achei que cantou de forma esplêndida quando a ouvi no Queen Victoria»

jdact

St. Briavels. Gloucestershire
«(…) Minha cara Saba Tarcan: a primeira tentativa dele de uma carta de fã, escrita a partir da Casa de Convalescença Rockfieid no Wiltshire fora atirada para o cesto dos papéis. Era demasiado formal e paternalista para aquele pequeno rosto trocista. Conseguira a morada dela junto de uma das enfermeiras que organizava os entretenimentos e que prometera, assim que a carta estivesse escrita, fazê-la seguir para a parte interessada.
Cara Saba, gostava de lhe dizer que achei que cantou de forma esplêndida quando a ouvi no Queen Victoria. Oh, ainda pior! Isto soava àqueles velhadas tocados que fazem esperas à porta dos artistas. Oh, mer…! Maldição! Ele atirou-a com violência para dentro do cesto. Esperara seis semanas para lhe escrever, para se certificar de que estava em condições de ser visto e pensando que, assim que estivesse de novo em casa, e já não fosse um paciente, a antiga confiança regressaria e a carta fluiria de forma melíflua da sua caneta, mas quando muito, sentia-se ainda mais desorientado por aquilo que estava a tentar dizer, o que o deixava zangado, nenhuma rapariga o fizera sentir-se assim antes. Um poema surgiu-lhe na cabeça, um poema em que ele pensara ao lembrar-se dela.
Obrigado, aconteça o que acontecer. E depois, ela virou costas
e, tal como o raio de sol nas flores pendentes
esmorece quando o vento as ergue de lado,
partiu apressadamente. Não, aconteça o que acontecer
uma hora foi iluminada pelo sol e nem os sumos deuses
se podem vangloriar de algo melhor
do que ter observado aquela hora enquanto passava.
Ele copiara-o para o seu diário no hospital, seguro de que também não o iria enviar. A poesia tornava as pessoas desconfiadas quando não nos conheciam e, sinceramente, estava-se a marimbar para toda aquela ideia de uma-hora-que-foi-maravilhosa; ele queria ouvi-la cantar de novo, mais nada. Dom, queres café, querido? A voz da mãe deslizou suavemente desde a cozinha; ela parecia mais francesa quando estava nervosa.  Estou na sala de estar. Ele olhou discretamente o relógio. Raios! Tivera esperanças de terminar a carta primeiro. Vem cá e toma-o comigo, disse ele, tentando com todas as fibras do seu ser não parecer furioso de frustração.
A mãe dele tinha-se mantido sempre por perto. Ele sentira-a toda a manhã, a tentar passar despercebida. Magra como uma avezinha, elegante no seu velho fato de tweed, eis que entrava agora com um tabuleiro, se sentara na ponta do banco de piano e servia o café. Obrigada, Misou, disse ele, usando o nome que lhe chamava em criança. Ele pegou-lhe na mão. Está tudo bem. Ele gostava que ela deixasse de parecer tão preocupada. Já não me dói nada agora. Vê, agarra-a como deve ser. A pressão hesitante que sentiu da parte dela fez surgir uma vaga de ira. Ela balanceou a cabeça timidamente, sem saber o que dizer. Em tempos, tivera muito orgulho nele. Agora, os seus ferimentos pareciam ter trazido consigo uma sensação de vergonha comum: havia demasiado a dizer e a ocultar.
Durante os meses que passara no hospital, ele fantasiara estar exactamente onde estava hoje, neste sofá, nesta casa em St. Briavels, uma aldeia minúscula na fronteira entre Gales e o Gloucestershire. No comboio que o levara de Chepstow a Brockweir, ele estava decidido a dar à mãe pelo menos alguns dias de felicidade para compensar os meses de tormento e angústia que ela suportara. Não falaria de voar novamente; não falaria dos amigos, e talvez, dali a alguns dias, com um copo de vinho na mão, surgisse um relato bem-disposto da partida de Annabel». In Júlia Gregson, Noites de Jasmim, Edições ASA, tradução de Ana Pereira, 2012, ISBN 978-989-231-964-3.

Cortesia ASA/JDACT

terça-feira, 12 de maio de 2015

Noites de Jasmim. Júlia Gregson. «Há dias em que vivemos como se a morte não estivesse à espreita; de alegria em alegria; de asa em asa, de for em flor a impossível flor, a doce impossível flor»

jdact

Hospital Queen Victoria, East Grinstead, 1942
«Fora apenas uma canção. Foi isso que ele pensou quando ela colocara de novo o chapéu e partira, deixando um odor leve a maçãs frescas atrás de si. Apenas uma canção; e uma rapariga bonita. Mas o mínimo que podia dizer a respeito da melhor coisa que lhe acontecera há muito tempo era o facto de ela ter feito com que ele deixasse de ter os sonhos. No primeiro, ele estava suspenso por um paraquedas com cerca de cinco quilómetros e meio entre as solas dos pés e a região rural do condado de Suffolk. Estava a gritar porque não conseguia aterrar. Atravessava impetuosamente o ar, uma coisa leve, insubstancial, como a lanugem de um cardo ou uma traça morta. A relva verde cintilante, tão familiar e tão amada, abatia-se sob ele, para depois se afastar de novo com um sacão. Por vezes, surgia uma mulher que o fitava boquiaberta, e acenava-lhe enquanto ele descia a flutuar, mas, no momento a seguir, desaparecia numa raiada de vento. No segundo sonho, ele estava outra vez no seu Spitfire. A aeronave de Jacko estava ao lado da sua. No início, soube-lhe bem estar lá em cima, à luz do sol clara e fria, mas depois, num momento de pânico nauseante, ele sentiu que as pálpebras tinham sido cosidas uma à outra, e não conseguia ver. Não contou a ninguém. Era um dos sortudos, estava prestes a ir para casa após quatro meses ali. Havia bastantes em estados bem piores do que o dele neste lugar de corredores escuros e gritos abafados. Todos os dias, ele ouvia o ressoar de ambulâncias com novas vítimas de queimaduras, recolhidas de aeronaves despedaçadas ao longo de toda a costa oriental britânica.
A enfermaria, uma extensão do hospital, estava alojada num abrigo longo e estreito com vinte camas em ambos os lados, e no meio, estava uma salamandra bojuda, uma mesa e um piano com dois castiçais de latão dispostos de forma festiva por cima. A enfermaria cheirava a curativos manchados, a arrastadeiras, a carne viva e moribunda: cheiros de velhos, embora a maioria dos pilotos de caça ali presentes não contassem mais do que vinte e poucos anos. Stourton, no final da enfermaria, que pilotava Hurricanes a partir do aeródromo de North Weald, era um homem cego há já, duas semanas. A sua namorada visitava-o todos os dias para lhe ensinar Braille. Squeak Townsend, o rapaz vermelhusco da cama ao lado com uma risada ruidosa e pouco convincente, era um piloto de caça que fraturara a coluna quando o seu paraquedas não abrira, e que confessara a Dom há alguns dias que tinha demasiada miúfa para voltar a pilotar de novo. Dom sabia que tivera sorte. Estava a pilotar um Spitfire vinte mil pés acima de uma sucessão de campos quando o cockpit fora transformado numa tocha ardente pela explosão do tanque de gasolina localizado à frente do painel de instrumentos. As suas mãos e rosto tinham sofrido queimaduras, as lesões típicas de pilotos de caça, dissera o cirurgião e, nos momentos atrozes entre as chamas e o chão, ele abrira a capota do avião, procurara desajeitadamente a tira verde-viva que abria o seu paraquedas, tombara no espaço durante aquilo que lhe pareceu uma eternidade e aterrara finalmente, a balbuciar e a gritar no cimo de uma meda de feno de um agricultor na costa do Suffolk.
Na semana passada, o médico Kilverton, o descontraído novo cirurgião plástico que agora se deslocava de hospital em hospital, viera até ao Queen Victoria e examinara a queimadura do lado direito do rosto dele. Lindo. O olho injectado de sangue de Kilverton espreitara por um microscópio para o ponto onde o enxerto de pele nova retirada da nádega de Dom havia sido cosido aos retalhos por cima das queimaduras dele. Isto vai demorar seis a sete semanas a curar. Depois, deverá ficar totalmente operacional. Boa pele, acrescentou ele. Mediterrânica? A minha mãe, explicou Dom, através de dentes cerrados. Kilverton estava a arrancar cuidadosamente pele velha ao mesmo tempo, analisando o enxerto. É francesa. E o seu pai? Dom queria que ele se calasse. Era mais fácil refugiar-se na dor e não alinhar na típica conversa de cocktail». In Júlia Gregson, Noites de Jasmim, Edições ASA, tradução de Ana Pereira, 2012, ISBN 978-989-231-964-3.

Cortesia ASA/JDACT