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quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Alberto S. Santos. O Segredo de Compostela. «Quando analisava a frio os acontecimentos durante a viagem, e aproveitando uma conversa descontraída com os servos, Lucídio achou que fora a melhor decisão»

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«(…)

Aseconia (Santiago de Compostela) Bracara Augusta (Braga)

Toma o pequeno Prisciliano! É o teu filho! Priscila estendia as mãos para o esposo, sobre as quais repousava uma criança de olhos abertos e rosto sereno. Lucídio segurou-a, desajeitado, mas o mais delicadamente que pode. Afastou ligeiramente os panos coloridos e ficou a contemplar o bebé, como se o tempo tivesse parado. Então, Lucídio?!, acordou-o Priscila, com uma ponta de inquietação. O marido ergueu-o no ar e arvorou um sorriso embevecido. Reconheço-te, Prisciliano, como meu filho, autorizo-te a viver e não permitirei a tua exposição, expressou, afetado, o sublatus, o ritual sagrado de reconhecimento paternal, também proferido pelo seu pai, avô e assim sucessivamente, até à madrugada dos tempos. Orgulhoso, devolveu à mãe o petiz, que o colocou num berço ciosamente fabricado pelos carpinteiros da villa, decorado com motivos florais. Priscila sentou-se na ilharga da cama e Lucídio imitou-a, mesmo ao lado, abraçando a esposa. Um aperto carregado de carinho e afecto. Valéria informou-me que o pequeno está de boa saúde, referiu, pausadamente e em tom baixo. E logo me disse que, ao nono dia, o purificaram no altar da casa e lhe chamaram Prisciliano…

Tínhamos combinado! Se fosse rapaz, ficaria ligado ao meu nome, se fosse rapariga, ao teu. Quem sabe, ainda teremos uma Lucídia!, respondeu, rindo e encostando a cabeça ao ombro do marido. Lucídio acabava de voltar da jornada bracarense, a meio de um dia soalheiro, a tempo de um frugal prandium de pão, queijo e azeitonas. Priscila, preocupada, ainda aguardara pelo esposo até à primeira vigília da noite anterior, pois achava que já devia ter chegado, mas em vão. Dormira intranquila. Porque te atrasaste tanto? Tive umas reuniões imprevistas…, de última hora, respondeu, com o olhar distante. Não quis apoquentar a esposa com os acontecimentos da capital. Percebeu que o que interessava mesmo ao gordo Ithacio era encontrar um bom motivo para convencer o rico proprietário do norte a deixar umas moedas a mais por baixo da mesa. Não tenho recibo para lhe dar… O patrão saiu para as termas!, dissera-lhe o criado de Ithacio, sabedor dos artifícios do seu senhor, quando lhe apresentara a conta do imposto alegadamente em débito e que, tão certo como o destino, não iria parar aos exauridos cofres do imperador Constâncio.

Quando analisava a frio os acontecimentos durante a viagem, e aproveitando uma conversa descontraída com os servos, Lucídio achou que fora a melhor decisão. Muito embora não fosse devoto de Ísis, concluíra, como assegurou com Valéria logo à chegada, que tudo não passara do ancestral rito propiciatório de bonança tão costumeiro na Galécia. No caso, em favor do próprio filho! E que funcionou na plenitude, como lhe asseverou a experiente mulher, quando confidenciou: Ísis continua protectora e maternalmente ligada aos seus mais fervorosos adeptos! Os sacrifícios poderiam ser enquadrados, se uma mente maldosa e astuciosa os acusasse, na categoria de maleficium. Por isso, quando confrontado com a falsa nota fiscal, Lucídio preferiu não correr riscos e pagou o que o soberbo Ithacio lhe receitou. O caso ficaria por ali! O que sobrou daquele episódio e que continuava como um pingo de vinagre a azedar o coração de Lucídio foi não saber ao certo quem fora o apressado delator da visita de Priscila ao santuário de Ísis. O pai de Prisciliano arrumou interiormente a questão, conjecturando uma plausível vinda de um espião de Ithacio aos seus domínios em busca de informação que pudesse usar contra si, na extorsão. Mas estava enganado. Em Bracara Augusta, o cobrador de impostos celebrava com taças de vinho o pecúlio que habilmente surripiara a Lucídio.

Este caiu como um tordo!, dizia, ébrio e deitado sobre a mesa do triclinium, para o escravo de confiança, que o ajudava nos serviços sujos. Sim, não tinha escapatória… O crime de maleficium é o caminho certo para a desgraça. O homem ia morrendo de susto. Quanto não vale manter a rede de informadores! Uma informação, pequena ou incipiente que seja, pode valer uma fortuna! Aprendi em Roma, a grande escola do império. Vá, enche-me a taça e bebe também um trago! Fizeste um excelente serviço. Senhor, estou às suas ordens. Cumpro o que me manda! Na ampla sala de refeições da domus bracarense, embelezada de pinturas e mosaicos finos com desenhos de motivos florais, entrara o filho mais velho de Ithacio, que tinha o nome do pai. Ithacito, vem cá! O redondo rapaz, ainda de tenra idade, mas que era uma fiel imitação paterna na gula como na astúcia, aproximou-se. Sim, meu pai! Em que posso ajudar? Virando-se para o escravo, ordenou o senhor da casa: o meu filho vai contigo à basílica! Leva este donativo ao bispo, pois o que foi tirado a um rico idólatra não é pecado aos olhos de Deus. O bispo precisa de ajuda para as obras do templo e para engrandecer a comunidade cristã. E eu preciso de ficar bem visto». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, A Escrita, Alberto S. Santos, Galiza,

terça-feira, 3 de agosto de 2021

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «A lava ainda lhe queimava os pés. Nunca dera oportunidade alguma para poder ser atacado por quem quer que fosse. Ele e a sua família eram gente séria e honesta e orgulhava-se disso»

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«(…) E, assim sentenciado, saiu da sala, alegando ter de mudar de roupa para ir a banhos, logo a seguir. Enquanto esperava que o escravo de Ithacio levasse a ordem de chamada a Flaviano e a Arménio, Lucídio espreitava a janela do seu mundo interior e o que via não lhe agradava minimamente. O chão continuava perigosamente a estremecer. A lava ainda lhe queimava os pés. Nunca dera oportunidade alguma para poder ser atacado por quem quer que fosse. Ele e a sua família eram gente séria e honesta e orgulhava-se disso. Eram apreciados pela generalidade da clientela de Villa Aseconia, fossem colonos, escravos e toda a espécie de criadagem, apenas Arménio parecia a excepção, que o patrão, não obstante, desconhecia, e por todos os prestigiados proprietários da Galécia, pelos membros do senado bracarense, pelo governador… Só os cristãos poderiam ter razões para desapreciarem Lucídio, pois menosprezavam todos os que se mantinham fiéis às tradições dos antepassados, fossem romanos de cepa, fossem os descendentes das tribos galaicas e lusitanas que habitavam o ocidente peninsular antes de chegar a civilização nascida nas margens do Tiberis. Aqui estão os teus homens!, informou Ithacio, que irrompeu sala adentro, embargando-lhe as cogitações. À tua disposição! Lucídio notou ironia e até uma pontada de desdém, sobretudo na forma como entoava as palavras e mirava o proprietário da villa do conventus lucensis. Logo saiu para os deixar a sós.

Meus caros, Ithacio insinua uma terrível acusação contra a minha família… Parou para escolher as palavras e tomou os rostos de Flaviano e de Arménio com firmeza, explicando o teor da denúncia. Os dois entreolharam-se. Mas logo o chão de mosaico se tornou o destino de todas as atenções. Era visível a perturbação que os apoquentava. O que se passa?! O que quer dizer o vosso silêncio…?! Senhor…, não sei do que falais…, começou Flaviano, intermitente. Do que vos expliquei! O assunto é sério! Tendes conhecimento de algum acto de magia negra, ou de algo semelhante, praticado por Priscila? O silêncio tapou de novo as bocas dos clientes de Lucídio. Os três homens ficaram, durante algum tempo, suspensos entre si, sem que nenhum quebrasse o mutismo. Formavam um triângulo, em cuja ponta do vértice mais agudo se encontrava o senhor, a ferver de desconfiança quanto à interpretação que podia dar a tão ruidoso vazio. Os dois criados posicionados nos vértices da base mais curta do trilátero experimentavam os dramas que a consciência de cada um era capaz de elaborar, como uma aranha que tece a teia, retirando do interior os fios em que haverá de renascer. Contudo, só um deles deu a conhecer os demónios que os atormentavam: senhor, começou, titubeante, a minha consciência cristã, porque nunca lhe escondi a minha crença, não me permite mentir ou omitir perante uma tão clara pergunta, que é do meu directo conhecimento… Arménio!, resmungou Flaviano. Então, o que aconteceu…!?, interrompeu Lucídio, com gotas de suor a escorrerem-lhe das têmporas, apesar da frescura do dia. O que me queres dizer?! Depende da perspectiva, mas talvez seja verdade, senhor, o que esse homem vos informou… Lucídio caiu na cadeira, como se houvesse sido fulminado por uma flecha, pelas costas». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

 Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, A Escrita, Alberto S. Santos, Galiza,

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «O cobrador de impostos sorria, com gosto, gozando antecipadamente o susto da visita. Vai com cuidado, amigo! A tua dilectíssima esposa é a responsável por isso!»

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«(…) Eram deidades universalistas que haviam sofrido e vencido a morte, que recordavam a fecundidade agrária, renovando todos os anos a vegetação, e sugeriam o renascimento, indo assim ao encontro de muitas das inquietações dos espíritos sedentos de uma nova verdade. Enquanto reflectia nestas questões, Lucídio constatava que o diálogo a que involuntariamente assistia terminara crispado, saindo o desconhecido disparado, de rosto apimentado e a respingar fúrias por todos os poros. Depois da sua alvíssima toga de linho ter deixado um torvelinho à saída, surgiu o roliço dono da casa, não menos arreliado do que aquele que acabava de sair.

Já cá estás e ninguém me avisou?!, questionou de supetão, com a saliva a borbulhar nos cantos dos lábios. Lamento não ter sido anunciado, Ithacio, respondeu Lucídio, com a melhor cortesia que conseguiu encontrar. Vamos, entra!, ordenou, com arquejante respiração. Já estou atrasado para as minhas termas, resolveu, apontando para uma cadeira, debaixo de um quadro de peixes pintado na parede. Então, qual é a urgência, Ithacio?! Pensei que tínhamos esclarecido tudo na última reunião… Sim, sim… Mas, como sabes, os impostos não me são destinados, pertencem ao império. Apenas cumpro as funções que o Estado romano me confia, respondeu, ainda rubicundo, sentando-se pesadamente no cadeirão. Não discordo, os impostos fazem falta à manutenção do Estado e bem sei que o esforço de guerra com os bárbaros cresce de dia para dia. Lucídio tossicou, aclarando a voz e respirando fundo para se aquietar. Mas apenas os impostos legais e devidos, Ithacio! Já nos bastam os que temos, e não são assim tão poucos! Sete sólidos de ouro por cada caput é uma magnânima contribuição para o império! Deixa-te de lamúrias e vamos directos ao que interessa! Mandei homens a Aseconia verificar os limites das tuas terras e parece que se confirmam. Então, qual é o problema?!, perguntou o convidado, olhando nos olhos de Ithacio. O anfitrião sorriu, mordaz. Relataram-me que não declaraste a totalidade da produção anual… Lucídio engoliu em seco. Considerava aquela afirmação um ultraje, uma autêntica infâmia. Como poderia aquele homem duvidar da sua palavra?! Procurou manter a calma dos aristocratas de boa cepa, escondendo o mais que pôde o remoinho que lhe virava as tripas do avesso. Não pode ser, Ithacio! As contas foram feitas na presença dos teus caesariani Não é o que me dizem…, contestou o anafado homem, com lentidão, como que procurando estudar o espírito e as reacções do dono da Villa Aseconia. Atestam que viram cereais que não estavam no lote e no local onde foram anteriormente medidos… Foi nesse preciso local que os teus fiscais os viram, colocados após a primeira contagem! Não podiam continuar sujeitos ao tempo… E já vês como está este Inverno! Não vou pagar nem mais um argenteolus, ou mesmo um mísero denarius de bronze que seja!, contestou Lucídio, furioso. O outro, com um estranho ar de caso, puxou o assento para junto de Lucídio, olhou para todos os lados e falou-lhe ao ouvido, num tom estudadamente baixo: ouve cá, isto é o que tinha inicialmente para te dizer. Mas acaba um passarinho de me soprar ao ouvido que os membros da tua querida família andam pelos montes a praticar magia… Magia?! Lucídio esbugalhou os olhos e o coração estremeceu. Sim, mas não uma magia qualquer! Ithacio recostou-se no seu lugar, fitando-o nos olhos. Magia negra!, afirmou, aumentando a voz e alongando as palavras. Sabes bem que esse é o crime que o nosso estimado imperador mais detesta! Mentira! Como és capaz de tão monstruosa insinuação?! Os teus delatores mais uma vez se enganaram!

O cobrador de impostos sorria, com gosto, gozando antecipadamente o susto da visita. Vai com cuidado, amigo! A tua dilectíssima esposa é a responsável por isso! A terra tremeu sob os pés de Lucídio. Como era possível, e com que fim, aquele homem acusar Priscila de tão grave delito?! E logo ela, coitada, tão atarefada com os preparos para o parto! Desviou os olhos para um recanto da sala ricamente pintada, onde se encontravam duas ânforas e peças de louça de cerâmica da mesma oficina africana que as de sua casa. O peito arfava, congestionado como os olhos. Recordou a imagem de Priscila e não duvidou uma fração de tempo que a amava e que não era a paixão que lhe toldava a razão. Aquele homem não podia dizer a verdade! Mirou-o de novo. A gula reluzia nas bochechas de Ithacio, agora lustradas pelo rubor da soberba. Impotente, amaldiçoou-o e à sua malvadez. Até que, no meio do vórtice do vulcão onde se via, pressentiu uma energia interior que o ajudava a fugir da lava que o afogueava. Lembrou-se dos dois homens da sua clientela que se encontravam na domus para o levarem para Aseconia. Talvez o pudessem ajudar a esclarecer a maldita acusação. Posso chamar aqui os meus criados que acabaram de chegar a Bracara? O redondo homem remexeu-se no cadeirão, repuxou-o para o lugar inicial, semicerrou os olhos e anuiu com a cabeça, para logo sublinhar: podes, claro que sim! Espero que sejam úteis às tuas decisões…» In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, A Escrita, Alberto S. Santos, Galiza,

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Alberto S. Santos. O Segredo de Compostela. «Prisciliano, na inocência da infância e do mundo perfeito da villa, procurou compreender os ensinamentos do pedagogo, enquanto o ouvia discorrer sobre a forma como estava organizado o império»

 

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«(…) Esta foi a primeira lição que Prisciliano aprendeu quando o pai trouxe para a Villa Aseconia um pedagogo para providenciar a sua instrução. Até então, o próprio Lucídio se encarregara de o formar com o que julgava mais adequado, embora o petiz apreciasse bem mais as fantásticas histórias que Valéria lhe contava sobre a Galécia. Como vês, se gostas da tua cabeça em cima dos ombros e pretendes viver muito tempo, não queiras ser imperador, brincava o jovem mestre de Prisciliano, para ganhar a sua confiança. O rapaz ria-se e deitava-se a adivinhar que imperador seria o próximo a perder a cabeça. E outra coisa: quando um imperador morre às mãos de outro, o mal não chega só para quem perde a vida! Como assim, magister? É penalizada a família, os amigos e, se o poder for tomado por usurpação, os mais próximos colaboradores do antigo imperador. Eaté mesmo aqueles a quem as suas decisões, por alguma forma, beneficiaram podem perder a cabeça ou, pelo menos, o prestígio.

Prisciliano, na inocência da infância e do mundo perfeito da villa, procurou compreender os ensinamentos do pedagogo, enquanto o ouvia discorrer sobre a forma como estava organizado o império, apontando para um desenho feito num papiro. O Império Romano divide-se em quatro prefeituras, governadas pelos prefeitos do pretório: o Oriente, o Ilírico, a Itália e as Gálias, que é a nossa. Roma e Constantinopla são um caso à parte, cada uma com os seus exclusivos prefeitos. Estas prefeituras dividem-se, por sua vez, em dioceses. A das Gálias é composta pela Britânia, pela Gália e pela Hispânia, governadas por um vigário do prefeito. Por sua vez, cada diocese é dividida em províncias, cada uma com o seu governador. Diz lá então quais são as províncias da Hispânia, Prisciliano? Mas a cabeça do petiz viajava por outras paragens. O pai já lhe havia explicado a geografia e a divisão do império. Por isso, o seu pensamento pousara na procissão mágica em que participara, pela primeira vez, no dia anterior. O progenitor comandou, à frente, de mão dada com Prisciliano. Atrás de ambos, uma grossa coluna de colonos e escravos. Todos percorriam, a pé e completamente descalços, os limites dos campos de cultivo, com archotes na mão, proferindo os ritos propiciatórios da fecundidade da terra. O petiz apertava a mão do pai, impressionado com a experiência. Seguia encantado com a exuberância da procissão, pois sabia, isso era certo desde incontáveis gerações, que aqueles ritos afastariam o granizo, as geadas e as tempestades. Daquela forma, o pequeno Danígico experimentava a emoção de se ver intimamente ligado à sua linhagem. Imaginava-se um pequeno aprendiz de feiticeiro, dos que sabiam dominar os elementos nocivos à vida e à fertilidade das terras da família.

Prisciliano!, gritou o pedagogo, com ar sério e reprovador. Onde está a tua cabeça?! Em cima dos ombros, magister! Onde haveria de estar?! Não sou nenhum imperador… O professor desmanchou-se num riso incontrolável. O pequeno surpreendeu-se com a repentina mudança de humores e perguntou: de que te ris, Pacato? Ó Prisco, eu perguntava-te se sabias quais são as províncias da Hispânia… Prisciliano percebeu então que a cabeça, mesmo em cima dos ombros, também podia viajar através da imaginação, por montes e vales, espaços próximos e longínquos, mundos mágicos e reais, sem que o corpo, ou quem lhe estiver à frente, disso se apercebesse. E, a qualquer momento, poderiam voltar a reunir-se, como o faziam agora, respondendo com um aberto sorriso: Tarraconense, Cartaginense, Bética, Lusitânia e a nossa querida província: a Galécia! Muito bem! E em quantos conventos se divide a Galécia? Essa é muito fácil: o asturicence, o lucense, onde residimos, e o bracarense, onde se encontra Bracara Augusta, a capital do convento e de toda a Galécia.

Naquela noite, o jovem discípulo dormiu mal. As lições do pedagogo e as recentes vivências nos pagi da villa transportaram-no para novas aventuras oníricas, sonhando com intermináveis viagens por cidades, vici, castela e villae do império, e com um imperador que usurpou o poder, mandou cortar cabeças e perdeu a sua depois de causar tanta desgraça ao mundo presente e futuro». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, A Escrita, Alberto S. Santos, Galiza,

sábado, 13 de junho de 2020

Amantes de Buenos Aires. Alberto S. Santos. «E leu em voz alta: A minha filha é Cleide e é tão bela que só a posso comparar às flores douradas. Nelas, como num espelho, encontro a sua imagem repetida!»

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Buenos Aires, 2009
«(…) Nesse momento, Raquel voltou a recordar a avó. Lembrava-se bem de, num dos dias que antecedeu o mergulho no seu sono eterno, ela a ter chamado. O rosto espelhava a serenidade de quem detinha o controlo sobre si próprio e sobre a vida. Abraçou a neta, lamentou a pilha de livros que ainda não lera e apertou-a contra si, com uma estranha boa-disposição. Guarda esses livros, espero ter oportunidade de os ler quando voltar numa próxima viagem da minha alma. Avó! O que estás a dizer? Ora, esquece! Acho que não cumpri todas as missões que tinha para a minha vida, talvez tenha de voltar. E abraçou a neta, com carinho e os olhos húmidos. Coisas de uma velha que já não tem mais em que pensar.
Vá lá, avó! Sempre a brincar. Já sei que me queres pedir alguma coisa. Uma das guloseimas que o médico te proibiu? Algum livro novo que descobriste na Internet?, brincou, reconfortada com o delicado odor da fragrância Jicky, da Guerlain, a preferida da avó. Sim, já me conheces. É um pedido, mas não é o que pensas. Então, o que é?!, questionou, com a curiosidade aguçada.
A anciã puxou um papel do meio de um livro e entregou-o a neta. Era perceptível que fora rasgado a meio, em partes de tinta antiga. Raquel pegou nele e ficou a olhar para as letras redondas, bem definidas e claramente femininas. E leu em voz alta: A minha filha é Cleide e é tão bela que só a posso comparar às flores douradas. Nelas, como num espelho, encontro a sua imagem repetida!
Foi a tua mãe quem escreveu isso, avozinha? Sim, é do punho dela. Adorava escrever. Raquel sorriu. A avó nunca falara de forma totalmente aberta sobre a mãe, mas sabia que fora uma espécie de heroína, que tinha sido ferozmente perseguida em Espanha e se refugiara em Portugal, antes de chegar a Buenos Aires. Raquel não sabia ao certo quais as verdadeiras razões de tais perseguições, associando-as vagamente a ideias politicas ou a algum desaguisado judicial.
Querida, a minha mãe, a tua bisavó, foi uma mulher extraordinária que me deixou uma pesada herança que sempre guardei no coração, na vã esperança de me poder juntar a ela em paz, onde Deus a tem. O que queres dizer, avó?, perguntou a neta, com a voz a dar sinais de trémula inquietação.
Não te preocupes. Coisas do passado, respondeu, apontando para o papel amarrotado. Quero que ponhas no meu epitáfio essa frase que ai tens. Será o meu memorial à minha querida mãe. Raquel deteve-se nas palavras redondas, assim que voltou a ouvir a voz da avó.
Outra coisa, durante a próxima semana, quando tiveres algum tempo livre, passa cá em casa. Não posso partir sem te contar alguns segredos da nossa família. Para a semana, avó? Raquel lembrou-se da viagem a Montevideu que havia combinado com o namorado. Sim, para a semana…» In Alberto S. Santos, Amantes de Buenos Aires, Porto Editora, 2019, ISBN 978-972-003-177-8.

Cortesia de PortoE/JDACT

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Amantes de Buenos Aires. Alberto S. Santos. «… formada por um monumental conjunto de quatro colunas, unidas pela frase que dava as boas-vindas aos féretros que de lá não mais sairiam: Requiescant In Pace»

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Buenos Aires, 2009
«(…) Carmela sorriu, lembrando o dia em que Raquel apareceu a pedir-lhe emprego. Uma rapariga simples, magra, de cabelo escorrido, olhar misto, tão sonhador como incisivo, estudante dos cursos de Literatura e de Gestão, ainda que trabalhasse para poder pagar as propinas do curso de Literatura. Naquela ocasião, Carmela olhou para Raquel, fez algumas perguntas, e rapidamente descobriu que estava perante uma jovem precocemente conhecedora dos autores mais importantes do mundo, especialmente da América Latina.
E maravilhou-se quando percebeu que ela ilustrava sempre um livro com uma citação do mesmo, como se fosse um óbvio resumo, a frase que espoletava e concentrava toda a trama novelesca. Carmela, deslumbrada, não sabia que aquelas frases eram as que Raquel retinha dos livros abertos ao acaso durante os jogos literários da infância.
A jovem tinha essa dívida secreta para com a avó Cleide. E Carmela convenceu-se de que não poderia escolher melhor funcionária para a sua livraria. A El Ateneo abria em 2001, depois de o grupo para o qual trabalhara ter recuperado um glamouroso edifício situado no Barrio Norte da cidade, projectado pelos arquitetos Peró e Torres Armengol, construído no início do século anterior e que, ao longo de décadas, funcionara alternadamente como teatro e cinema, e se encontrava condenado à demolição. A diretora estranhou a hesitação de Raquel.
Não me vais deixar ficar mal, querida!? Não..., claro que não. É mesmo o meu sonho... Estou-te muito grata por me concederes esta oportunidade. Só falta acertar umas coisas com o Marcílio.
A diretora conhecia o noivo de Raquel, e não se poderia dizer que nutrisse grande afecto por ele. Constava-se que fora um brilhante estudante de Programação Informática, dos melhores que qualquer universidade argentina conhecera. Mas não lhe perdoava o facto de não ter lido um livro de Jorge Luis Borges, de desdenhar, sem ter lido, Neruda, Hemingway ou Galeano, autores que, entendia Marcílio, efabulavam sobre mundos irreais e sem qualquer interesse para se sobreviver ou enriquecer.
Amanhã dá-me a resposta, por favor! Quero deixar tudo resolvido, rapidamente. Antes de bater a porta da sala do terceiro andar, Carmela encarou uma última vez a adjunta. Raquel entreviu uma espécie de súplica. Como desejaria responder logo que sim, dar-lhe um abraço e agradecer-lhe a oportunidade com que sempre sonhara. Respirou fundo, espreitou os ponteiros do relógio de parede e decidiu dar um passeio pela cidade, visitando a avó, ali bem perto. Era a hora de almoço e tinha tempo para si.
Saiu do edifício situado no número 1860 da Avenida Santa Fé, virou à direita e não demorou a chegar à movimentada Callao, uma das principais artérias da cidade. Escolheu o passeio da esquerda até alcançar a frondosa Vicente López e, mais adiante, virou à direita, para Junín. Na esquina do muro formado por uma miríade de peças de tijolo maciço, prendia-se um velho candeeiro urbano, preto e dobrado sobre si próprio, sem pé no chão, como que a lembrar aos vivos que se devem vergar perante a sua efémera condição. Raquel não deixou de sorrir, recordando que a avó lhe dizia que a vida e a saúde eram sempre uma condição transitória para La Recoleta ou La Chacarita, os dois cemitérios da cidade, onde habitavam apenas memórias de glórias e misérias de alguns e o esquecimento dos que pouco lastro deixaram no mundo.
Sobre a muralha, algumas cruzes anunciavam a cidade dos mortos que a habitavam como se de uma urbe medieval se tratasse. Raquel suspirou e seguiu até à entrada do cemitério, formada por um monumental conjunto de quatro colunas, unidas pela frase que dava as boas-vindas aos féretros que de lá não mais sairiam: Requiescant In Pace.

Uma horda de turistas asiáticos capitaneados por uma guia entrava no cemitério. Por isso, decidiu passar previamente pela Basílica de Nossa Senhora do Pilar, situada na esquina da necrópole que, em tempos, integrara o convento dos Franciscanos Recoletos, de quem toda a família de Raquel sempre fora devota, tal como ela, que aspirava, um dia, ali casar. Depois das orações, saiu do templo e dobrou o umbral do cemitério que se transformara, mais do que num lugar de descanso, num frenético entra e sai de toda a espécie de gente». In Alberto S. Santos, Amantes de Buenos Aires, Porto Editora, 2019, ISBN 978-972-003-177-8.

Cortesia de PortoE/JDACT

terça-feira, 17 de março de 2020

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «O silêncio tapou de novo as bocas dos clientes de Lucídio. Os três homens ficaram, durante algum tempo, suspensos entre si, sem que nenhum quebrasse o mutismo»

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«(…) O redondo homem remexeu-se no cadeirão, repuxou-o para o lugar inicial, semicerrou os olhos e anuiu com a cabeça, para logo sublinhar: podes, claro que sim! Espero que sejam úteis às tuas decisões… E, assim sentenciado, saiu da sala, alegando ter de mudar de roupa para ir a banhos, logo a seguir. Enquanto esperava que o escravo de Ithacio levasse a ordem de chamada a Flaviano e a Arménio, Lucídio espreitava a janela do seu mundo interior e o que via não lhe agradava minimamente. O chão continuava perigosamente a estremecer. A lava ainda lhe queimava os pés. Nunca dera oportunidade alguma para poder ser atacado por quem quer que fosse. Ele e a sua família eram gente séria e honesta e orgulhava-se disso. Eram apreciados pela generalidade da clientela de Villa Aseconia, fossem colonos, escravos e toda a espécie de criadagem, apenas Arménio parecia a excepção, que o patrão, não obstante, desconhecia, e por todos os prestigiados proprietários da Galécia, pelos membros do senado bracarense, pelo governador… Só os cristãos poderiam ter razões para desapreciarem Lucídio, pois menosprezavam todos os que se mantinham fiéis às tradições dos antepassados, fossem romanos de cepa, fossem os descendentes das tribos galaicas e lusitanas que habitavam o ocidente peninsular antes de chegar a civilização nascida nas margens do Tiberis.

Aqui estão os teus homens!, informou Ithacio, que irrompeu sala adentro, embargando-lhe as cogitações. À tua disposição! Lucídio notou ironia e até uma pontada de desdém, sobretudo na forma como entoava as palavras e mirava o proprietário da villa do conventus lucensis. Logo saiu para os deixar a sós. Meus caros, Ithacio insinua uma terrível acusação contra a minha família… Parou para escolher as palavras e tomou os rostos de Flaviano e de Arménio com firmeza, explicando o teor da denúncia. Os dois entreolharam-se. Mas logo o chão de mosaico se tornou o destino de todas as atenções. Era visível a perturbação que os apoquentava. O que se passa?! O que quer dizer o vosso silêncio…?! Senhor…, não sei do que falais…, começou Flaviano, intermitente. Do que vos expliquei! O assunto é sério! Tendes conhecimento de algum acto de magia negra, ou de algo semelhante, praticado por Priscila?
O silêncio tapou de novo as bocas dos clientes de Lucídio. Os três homens ficaram, durante algum tempo, suspensos entre si, sem que nenhum quebrasse o mutismo. Formavam um triângulo, em cuja ponta do vértice mais agudo se encontrava o senhor, a ferver de desconfiança quanto à interpretação que podia dar a tão ruidoso vazio. Os dois criados posicionados nos vértices da base mais curta do trilátero experimentavam os dramas que a consciência de cada um era capaz de elaborar, como uma aranha que tece a teia, retirando do interior os fios em que haverá de renascer. Contudo, só um deles deu a conhecer os demónios que os atormentavam: senhor, começou, titubeante, a minha consciência cristã, porque nunca lhe escondi a minha crença, não me permite mentir ou omitir perante uma tão clara pergunta, que é do meu directo conhecimento…
Arménio!, resmungou Flaviano. Então, o que aconteceu…!?, interrompeu Lucídio, com gotas de suor a escorrerem-lhe das têmporas, apesar da frescura do dia. O que me queres dizer?! Depende da perspectiva, mas talvez seja verdade, senhor, o que esse homem vos informou… Lucídio caiu na cadeira, como se houvesse sido fulminado por uma flecha, pelas costas

Aseconia (Santiago de Compostela)
Bracara Augusta (Braga)
Toma o pequeno Prisciliano! É o teu filho!
Priscila estendia as mãos para o esposo, sobre as quais repousava uma criança de olhos abertos e rosto sereno. Lucídio segurou-a, desajeitado, mas o mais delicadamente que pode. Afastou ligeiramente os panos coloridos e ficou a contemplar o bebé, como se o tempo tivesse parado. Então, Lucídio?!, acordou-o Priscila, com uma ponta de inquietação». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.
                                                   
Cortesia de PEditora/JDACT

sábado, 21 de dezembro de 2019

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Vamos, entra!, ordenou, com arquejante respiração. Já estou atrasado para as minhas termas, resolveu, apontando para uma cadeira, debaixo de um quadro de peixes pintado na parede»

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«(…) Eram deidades universalistas que haviam sofrido e vencido a morte, que recordavam a fecundidade agrária, renovando todos os anos a vegetação, e sugeriam o renascimento, indo assim ao encontro de muitas das inquietações dos espíritos sedentos de uma nova verdade. Enquanto reflectia nestas questões, Lucídio constatava que o diálogo a que involuntariamente assistia terminara crispado, saindo o desconhecido disparado, de rosto apimentado e a respingar fúrias por todos os poros. Depois da sua alvíssima toga de linho ter deixado um torvelinho à saída, surgiu o roliço dono da casa, não menos arreliado do que aquele que acabava de sair. Já cá estás e ninguém me avisou?!, questionou de supetão, com a saliva a borbulhar nos cantos dos lábios. Lamento não ter sido anunciado, Ithacio, respondeu Lucídio, com a melhor cortesia que conseguiu encontrar.
Vamos, entra!, ordenou, com arquejante respiração. Já estou atrasado para as minhas termas, resolveu, apontando para uma cadeira, debaixo de um quadro de peixes pintado na parede. Então, qual é a urgência, Ithacio?! Pensei que tínhamos esclarecido tudo na última reunião… Sim, sim… Mas, como sabes, os impostos não me são destinados, pertencem ao império. Apenas cumpro as funções que o Estado romano me confia, respondeu, ainda rubicundo, sentando-se pesadamente no cadeirão. Não discordo, os impostos fazem falta à manutenção do Estado e bem sei que o esforço de guerra com os bárbaros cresce de dia para dia. Lucídio tossicou, aclarando a voz e respirando fundo para se aquietar. Mas apenas os impostos legais e devidos, Ithacio! Já nos bastam os que temos, e não são assim tão poucos! Sete sólidos de ouro por cada caput é uma magnânima contribuição para o império! Deixa-te de lamúrias e vamos directos ao que interessa! Mandei homens a Aseconia verificar os limites das tuas terras e parece que se confirmam. Então, qual é o problema?!, perguntou o convidado, olhando nos olhos de Ithacio. O anfitrião sorriu, mordaz. Relataram-me que não declaraste a totalidade da produção anual… Lucídio engoliu em seco. Considerava aquela afirmação um ultraje, uma autêntica infâmia. Como poderia aquele homem duvidar da sua palavra?! Procurou manter a calma dos aristocratas de boa cepa, escondendo o mais que pôde o remoinho que lhe virava as tripas do avesso.
Não pode ser, Ithacio! As contas foram feitas na presença dos teus caesariani Não é o que me dizem…, contestou o anafado homem, com lentidão, como que procurando estudar o espírito e as reacções do dono da Villa Aseconia. Atestam que viram cereais que não estavam no lote e no local onde foram anteriormente medidos… Foi nesse preciso local que os teus fiscais os viram, colocados após a primeira contagem! Não podiam continuar sujeitos ao tempo… E já vês como está este Inverno! Não vou pagar nem mais um argenteolus, ou mesmo um mísero denarius de bronze que seja!, contestou Lucídio, furioso.
O outro, com um estranho ar de caso, puxou o assento para junto de Lucídio, olhou para todos os lados e falou-lhe ao ouvido, num tom estudadamente baixo: ouve cá, isto é o que tinha inicialmente para te dizer. Mas acaba um passarinho de me soprar ao ouvido que os membros da tua querida família andam pelos montes a praticar magia… Magia?! Lucídio esbugalhou os olhos e o coração estremeceu. Sim, mas não uma magia qualquer! Ithacio recostou-se no seu lugar, fitando-o nos olhos. Magia negra!, afirmou, aumentando a voz e alongando as palavras. Sabes bem que esse é o crime que o nosso estimado imperador mais detesta! Mentira! Como és capaz de tão monstruosa insinuação?! Os teus delatores mais uma vez se enganaram!
O cobrador de impostos sorria, com gosto, gozando antecipadamente o susto da visita. Vai com cuidado, amigo! A tua diletíssima esposa é a responsável por isso! A terra tremeu sob os pés de Lucídio. Como era possível, e com que fim, aquele homem acusar Priscila de tão grave delito?! E logo ela, coitada, tão atarefada com os preparos para o parto! Desviou os olhos para um recanto da sala ricamente pintada, onde se encontravam duas ânforas e peças de louça de cerâmica da mesma oficina africana que as de sua casa. O peito arfava, congestionado como os olhos. Recordou a imagem de Priscila e não duvidou uma fracção de tempo que a amava e que não era a paixão que lhe toldava a razão. Aquele homem não podia dizer a verdade! Mirou-o de novo. A gula reluzia nas bochechas de Ithacio, agora lustradas pelo rubor da soberba. Impotente, amaldiçoou-o e à sua malvadez. Até que, no meio do vórtice do vulcão onde se via, pressentiu uma energia interior que o ajudava a fugir da lava que o afogueava. Lembrou-se dos dois homens da sua clientela que se encontravam na domus para o levarem para Aseconia. Talvez o pudessem ajudar a esclarecer a maldita acusação. Posso chamar aqui os meus criados que acabaram de chegar a Bracara?» In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.
                                                   
Cortesia de PEditora/JDACT

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Amantes de Buenos Aires. Alberto S. Santos. «Já... Quer dizer, ainda não. Não consegui falar com o Marcílio. Só chega amanhã de Rosário. Sabes que não devo tomar a decisão sem falar com ele»

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Buenos Aires, 2009
«(…) Não posso acreditar é a mesma página! Será o cigano Melquíades a fazer das suas?, murmurava para si, antes de ler o mesmo parágrafo final que lhe saíra na sorte, anos antes, com a avó. Sentou-se junto à janela. Lá fora, os condutores da Avenida Santa Fé buzinavam, ansiosos para que a fila avançasse, urgentes de chegar a algum lugar. A telefonia em cima da mesa informava que estavam impedidos por um acidente de moto, que demorava a resolver-se e que vitimara um dos apressados motociclistas, alguns quarteirões adiante, no cruzamento com a movimentada Pueyrredón. Desligou o aparelho e leu, sem pressa:

Entretanto, antes de chegar ao verso final já tinha compreendido que não sairia nunca daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilónia acabasse de decifrar os pergaminhos e que tudo o que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra.

Aquele personagem tanto a amedrontara como a fascinara. Melquíades carregava uma terrível previsão sobre as gerações dos Buendía, que só seria decifrada um século depois, no momento em que um membro da família conseguisse interpretar os seus famigerados pergaminhos. E assim aconteceu, quando Aureliano Babilónia, da sexta geração, descobriu a maldição: a de que duas outras pessoas dessa mesma família não poderiam ter filhos juntas, pois nasceriam com alguma deformidade. Ora, os fundadores da família eram primos e a consanguinidade não mais se poderia repetir. Raquel recordava, tão triste como maravilhada, a imaginação do criador do personagem Aureliano Babilónia, que teve um filho com Meme sem saber que era sua tia legítima. Tendo-se repetido a consanguinidade, cumpriu-se a previsão do cigano: o filho da sétima geração nasceu com um rabo de porco e morreu devorado por formigas, acabando para sempre com a árvore genealógica da família.
Pouco tempo depois daquela conversa, a avó morreu, a transbordar de uma saúde tardia, a escassos dias de cumprir cem anos, uma mistura de bênção e maldição. Raquel só se lembrou do presente da avó Cleide depois de a anciã partir. O título e a dedicatória atormentavam-lhe o sono e, por isso, apressou-se, voraz, a ler a história dos Buendía nos dias que se seguiram ao funeral. Ninguém mais lhe tirava da cabeça que a avó não quis viver mais de cem anos, evitando uma qualquer desconhecida danação. E que a oferta daquele livro, com as palavras dedicadas à avó escritas pelo autor, com aquela precisão, não fora absolutamente inocente.
Com uma lágrima arredia de saudade a salgar-lhe as memórias, encostou Cem Anos de Solidão ao peito e sentiu o coração acelerado esmurrar-lhe a capa, a ponto de o confundir com as pancadas que, percebeu subitamente, vinham da porta do gabinete. Raquel, podemos falar? A rapariga suspirou, retirou lentamente o volume do peito e colocou-o delicadamente no centro da mesa. Olhou para a chefe, ainda perturbada pelas memórias. A directora da livraria entrou sem esperar e só parou ao seu lado. Era uma mulher magra, de rosto fino e delicado, cabelo cingido formando um puxo, olhos castanhos enormes e tristes. Deteve-se momentaneamente a olhar, em silêncio, para o livro acabado de desembrulhar pela adjunta. Fora ela quem encomendara cem exemplares, assim que soubera da reimpressão da primeira edição. Desculpa, Carmela. Estava distraída. Não faz mal. Já pensaste no assunto?, insistiu, com olhar vago e semblante desconsolado.
Já... Quer dizer, ainda não. Não consegui falar com o Marcílio. Só chega amanhã de Rosário. Sabes que não devo tomar a decisão sem falar com ele. Carmela respirou fundo. Raquel olhou-a de relance e viu-se cúmplice da sua tristeza. Com pouco mais de sessenta anos, era uma mulher respeitada nos círculos culturais bonaerenses, mas que se via obrigada a abandonar a carreira de directora da livraria El Ateneo para cuidar da mãe, de quem era a única família, acamada com uma doença neurológica, numa distante aldeia da Patagónia.
O mal da mãe de Carmela e a obrigação familiar de lhe acudir confabularam a oportunidade de Raquel. Todos a viam com aquele futuro e, na verdade, ela nunca escondera que gostaria, um dia, de ser a directora da fantástica livraria que o insuspeito The Guardian elegera, no ano anterior, a segunda mais bela do mundo. Para tirar as teimas, ainda haveria de visitar a livraria holandesa que o jornal escolhera como a mais recomendável. E, quem sabe, a portuguesa que ficara logo atrás. Mas nunca imaginara tornar-se directora da El Ateneo tão cedo, com vinte e nove anos mal acabados de celebrar. Saio no final do mês, como sabes, continuou Carmela, pegando no exemplar pousado sobre a mesa e folheando-o ao acaso. Os proprietários deram-me carta-branca para escolher quem me vai substituir. Para além da indemnização pelos anos de trabalho, foi a única coisa que lhes pedi. A pensar em ti, claro». In Alberto S. Santos, Amantes de Buenos Aires, Porto Editora, 2019, ISBN 978-972-003-177-8.

Cortesia de PortoE/JDACT

sábado, 14 de setembro de 2019

Amantes de Buenos Aires. Alberto S. Santos. «Cleide tinha um volume no regaço e chamou a neta para junto de si. Raquel reparou que as mãos o afagavam como se fosse algo precioso, uma parte da avó»

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Buenos Aires, 2009
«Sempre que podia, Raquel Contreras recolhia-se no gabinete de trabalho a observar as novidades. Era um ritual que repetia desde o primeiro dia em que fora admitida na livraria El Ateneo Grand Splendid para se tornar numa simples vendedora de livros. Comovia-se cada vez que chegava um título novo dos seus autores preferidos. Afagava a capa, passava os olhos pela sinopse e abria uma página ao acaso. Lia-a e ficava a pensar no modo como o texto se relacionava com a sua própria vida e nos ensinamentos que poderia recolher para aquele dia ou para o futuro. Era algo que a avó Cleide lhe havia ensinado desde criança. Naquela manhã de Março de2009, quando desembrulhou as novidades, sentiu um aperto no estômago. Estremeceu, enfeitiçada pela capa da reimpressão da primeira edição de Cem Anos de Solidão, do autor que mais amava. A memória logo voou para aquela tarde primaveril, na casa de veraneio da avó, sobranceira ao imenso rio da Prata. Quando não lia, a avó Cleide, já muito entrada na idade, passava horas a fio a olhar para o imenso lago salgado, o rio que, afinal, era estuário, como se esperasse que ele lhe trouxesse respostas a algo que a vida não revelara. Pensou na avó e naquele momento que gravara para sempre na memória. Fechou os olhos e recordou-o, com saudade
Cleide tinha um volume no regaço e chamou a neta para junto de si. Raquel reparou que as mãos o afagavam como se fosse algo precioso, uma parte da avó. Acabei de ler este livro. Gostaria de oferecer-to, minha querida. A neta pressentiu que os olhos da avó lutavam para reprimir que a emoção transbordasse em lágrimas. De que fala esse livro, avó? Da solidão, como revela o título. A solidão é uma doença que, quando ataca, nos impede de ser completos e felizes. Imagina uma família inteira, geração atrás de geração, condenada a sofrer deste mal, explicou a anciã, com a voz trémula Raquel pegou no livro com delicadeza. Tratava-se da mítica primeira edição. Virou a capa e deteve-se na dedicatória escrita em letra elegante e firme: Para Cleide, com afecto, para que nunca sintas as dores da solidão nem ouses viver mais de cem anos. Naquele momento, apetecera-lhe interrogar a avó com a pergunta que lhe queimava a garganta: se ela também sofria ou sofrera de solidão, apesar de nunca a ter visto isolada de gente. Família e amigos balanceavam habitualmente, e muitos, à sua volta. Gostaria ainda de saber porque Gabriel García Marquez lhe escrevera tão estranha dedicatória. Mas não o fez, e arrependeu-se para sempre de não lhe ter perguntado. Desde os primórdios da infância, Raquel achava que a avó escondia um grande segredo, um mistério insondável, como o dos Buendía, a gente que povoava o livro que a anciã ternamente lhe oferecera naquele momento e cuja memória não mais se lhe apagara. Abre ao acaso, minha filha! Vamos lá ver o que dá...

O sobressalto de Raquel na sala da livraria El Ateneo não podia ser maior. Cheirou o papel e acariciou a capa dura, fascinada com o galeão azul a navegar contra um bosque espectral e os lírios amarelos. Antes de o abrir numa página à sorte, fechou os olhos e lembrou-se da curta conversa, anos antes, com o seu autor, na Feira do Livro de Buenos Aires. Não mais esquecera as palavras eternas que gravara no coração durante a palestra, quando ele afirmou que a vida não era como uma pessoa a vivera, mas como ela a recordava, ou como a recordava para a poder contar. Desde esse dia, jurou que jamais aderiria aos livros electrónicos, pois não concebia uma mostra onde os volumes não se pegassem com as mãos, não entendia livros que não pudessem ser acariciados, folheados e cheirados, ou que não fossem guardados na mesinha de cabeceira, ou empilhados por vários recantos da casa. Livros que se podiam perder no metropolitano e ficar com a esperança de que tocassem o coração de quem os encontrasse. Receava ainda que o fim dos livros de papel provocasse a extinção das feiras do livro, e os autógrafos dos autores que guardava como as relíquias mais preciosas». In Alberto S. Santos, Amantes de Buenos Aires, Porto Editora, 2019, ISBN 978-972-003-177-8.

Cortesia de PortoE/JDACT

sábado, 17 de agosto de 2019

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Vá, Arménio… Cuidado com a língua! Não viste que até os elementos lhe obedecem… Do que estás a falar é de outra coisa, meu caro…»

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«(…) Enquanto Flaviano e Arménio esperavam à entrada do templo, maldizendo as condições climatéricas e garantindo a segurança das mulheres que trouxeram até Iria Flavia, Priscila dobrou o umbral da porta, com muito custo, devido ao cansaço da viagem e à indisfarçável debilidade. Mas isso não a impedia de prosseguir de cabeça erguida e pose seráfica, a par do sacerdote, que a protegia da chuva, e já inteirado da razão da imprevista visita. Valéria seguia atrás, transportando o que precisava para o culto. O resto seria ali comprado, pois que também era necessário contribuir para o sustento do sacerdote e do próprio santuário, que os tempos iam difíceis. Chegada ao altar, depois de um prolongado momento de reflexão, Priscila ergueu os braços aos céus e, de pé, murmurou a ladainha que lhe saiu do coração:

Ó Senhora, tu que vês e atendes a quem te invoca com toda a boa-fé,
A fé dos nossos antepassados e dos vindouros,
Dos que no teu colo encontraram a cura para todos os males,
Consolo para todas as tristezas,
E que assim será para todo o sempre!
Acode-me e protege-me nesta hora!

Ó deusa da simplicidade, ó protectora dos mortos,
Ó deusa das crianças de quem todos os começos surgiram,
Ó Senhora dos eventos mágicos e da natureza!
Tu que deste origem ao Céu e à Terra,
Que conheces o órfão e a viúva,
Que providencias justiça aos pobres
E que dás abrigo aos frágeis!
Rainha dos Céus,
Acode-me e protege-me nesta hora!

Mãe dos deuses,
Que resplandeces em mil caras,
Em quem habitam todos os nomes,
Esposa que choras a morte do teu próprio esposo,
Senhora das culturas verdejantes,
Senhora da Casa que dá a Vida,
Doadora da Luz do Céu,
Em ti confio a vida e a saúde daquele que gerei!

Em pungente silêncio, acendeu uma lâmpada de azeite e colocou-a delicadamente sobre o altar, derramando uma pitada de incenso junto a uma vela que se consumia em chamas de eternidade. Deitou uma moeda no poço que se abria sobre o lado esquerdo e voltou ao silêncio das orações. O sacerdote, retirado para um compartimento do santuário, atrás do altar, aproximou-se de Priscila e murmurou-lhe ao ouvido: está tudo pronto! As duas mulheres seguiram o homem de túnica verde, muito coçada pelo uso, para a dependência de onde saíra. Nos quatro recantos, ardiam velas e queimavam-se as essências orientais apropriadas ao culto. Ali se consumaria a oblação final, a que ninguém mais poderia assistir.
Valéria tirou do saco um robusto galo negro nascido e engordado na villa, com o bico bem amarrado por fios de fiteira. O sacerdote cortou-os, com delicadeza. O bicho cacarejou, aliviado. Mas foi por tempo curto, pois, num único golpe, uma lâmina sacrificial atravessou-lhe o pescoço, dando apenas tempo a alguns rápidos espasmos do corpo sem cabeça que o comandasse. O sangue encheu de vermelho o bacio preparado para a imolação. Talvez o súbito desaparecimento das mulheres tivesse inquietado os homens que as protegiam, pois Valéria entreviu os olhos dos acompanhantes a surgirem e logo desaparecerem na porta da entrada do compartimento. E quando os dois homens regressaram à luz do dia certamente ter-se-ão espantado com o milagre que acabara de suceder: a chuva parara, depois de dias a fio de tormenta. O vento que soprava do tenebroso mar, fronteira da terra que ali acabava, desvaneceu-se como que por encanto divino. Parece que a velha deusa continua poderosa! Cala-te, Flaviano! São superstições, idolatria, que tanto mal fazem a Deus…
Vá, Arménio… Cuidado com a língua! Não viste que até os elementos lhe obedecem… Do que estás a falar é de outra coisa, meu caro… De outra coisa?! Arménio virou a face para o sul, para onde as nuvens negras corriam para tão cedo não voltarem. Apenas faziam verter dentro de si bátegas de raiva. Foi magia… A poderosa magia negra fez o que acabaste de assistir! Flaviano olhou para todos os lados e encostou o indicador em riste ao nariz, antes de pronunciar as últimas palavras, pois os três vultos saíam, aliviados e sorridentes, do templo de pedra. Cala-te com essa conversa! Senão, serei eu a tomar as medidas…» In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

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segunda-feira, 18 de março de 2019

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Senhora, a esta hora e neste dia…?! O velho sacerdote não escondia a surpresa por ver Priscila, muito embora a soubesse muito devota e adivinhasse…»


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«(…) Ele não voltará a cometer outra imprudência! Aquela serviu-lhe de lição! Ai estes cristãos! Tão ciosos da sua ética e não são capazes de perdoar! Perdeu o pai…, justificou Flaviano. É compreensível… Mas, no caso, nem de perdão se poderá falar! O meu esposo não cometeu qualquer crime, ninguém imaginaria que um homem tão experimentado pudesse ser tão imprevidente… É verdade…, consentiu, enfadado com o tema. E o bebé, como está hoje?, perguntou, alçando o olho em busca do rosto da criança dormida na alcofa. Quando um novo dia foi fecundado por Hélio, ainda que escondido atrás das intermináveis nuvens grávidas, as rodas de um imponente carro puxado por quatro cavalos estralejaram no piso da Via XIX. Protegida pela cobertura, Priscila entreviu os fios de luz de alguns archotes que se abrigavam por detrás das janelas da mansio de Aseconia, a estalagem à face da estrada que, nas imediações da sua villa, dava guarida aos viajantes. O Império Romano dera ao ocidente uma grande bênção: a rede de vias como nunca houvera conhecido. Fora desenvolvida por necessidades militares e de provimento da posta, e que logo veio a ser aproveitada para o tráfego comercial e social.
Mas não eram as bênçãos do império que motivavam as reflexões de Priscila, Valéria e Flaviano. Dentro do casulo saltitante, os três preocupavam-se em evitar que a chuva entrasse nos precários, embora luxuosos, aposentos e em chegar, rapidamente, a bom porto. A meio de uma manhã pluviosa, como tantas que a precederam, o santuário de Ísis era um lugar praticamente deserto, no cimo de um monte. À medida que se aproximava, ganhava forma um imponente edifício granítico suspenso numa colunata. Priscila conhecia-o de cor. Apreciava o lintel com a figura da deusa e o espaço evocativo da natividade do divino Hórus, com as paredes decoradas com desenhos alusivos às fases desse nascimento junto a várias deidades. Mas, olhando-o de longe, suspenso sobre a vegetação luxuriante e banhada de chuva, pressentiu a magia do lugar, como se houvesse sido ali colocado para lhe tocar a alma. E essa energia irradiava, intensa, daquele espaço sagrado, de intermediação com o divino, despertando o ser espiritual que a habitava.
Quando chegou às portas do templo, apenas se entrevia, sentado, um velho sacerdote calvo, que vivia nas imediações e lhe provia os ofícios e a manutenção. Protegido das fúrias dos céus, soergueu os olhos, em jeito inquisitivo, à chegada dos peregrinos. Fora acordado de um sono profundo pelo tropel dos cavalos governados por Arménio. Recostava-se na cadeira, dentro do edifício principal. Por cima da padieira da porta bailava, ao sabor do vento, uma placa que anunciava: Vendem-se lamparinas, filtros para as libações, filactérios, ex-votos e estatuetas de Ísis. Porém, quando se apercebeu que chegava um carro bem aparelhado, onde reluziam as faleras, os peitorais dos animais, os passa-rédeas de fino recorte, argolas de bronze por onde passavam as oito rédeas do carro, levantou-se como que impelido por uma mola. O sacerdote nunca vira aquela carruagem, uma verdadeira obra-prima, com um elevado nível de perfeição, em que o artista conseguira combinar uma decoração complexa com um vibrante Mercúrio, deus protector dos viajantes. E tinha razão para não a ter visto: fora a prenda que Lucídio Danígico Tácito adquirira para a esposa quando soube da gravidez do primeiro herdeiro. Ela e a criança precisariam de cómodos para viajarem, à altura do prestígio social do dono.
Senhora, a esta hora e neste dia…?! O velho sacerdote não escondia a surpresa por ver Priscila, muito embora a soubesse muito devota e adivinhasse, assim que o enxergou, que aquele carro só aos Danígicos poderia pertencer. É verdade, Feliciano! Os tempos não andam tão favoráveis como esperava… Preciso da ajuda da Senhora dos Céus! Este é o lugar certo! Muito embora o século não esteja lá muito propício aos nossos cultos… Feliciano aproveitou para desfiar o coro das lamentações pelo facto de a seita dos cristãos estar a ganhar cada vez mais adeptos, sobretudo depois da conversão e favores dos imperadores. E de estes se tornarem agressivos opositores dos ancestrais cultos que se velavam naquela terra, desde o tempo em que a velha deusa Nábia fora senhora dos antepassados. E igualmente desde que Ísis ali chegara, vinda do oriente, prometendo aos iniciados a felicidade durante a vida e a salvação na que se lhe seguiria. Essa novidade transformara a deusa que nascera no Egipto numa incansável viajante pelo mundo helénico e romano, adaptando-se permanentemente aos novos tempos, fundindo-se com Demeter de Eleusis, ambas vinculadas ao cíclico renascer da natureza. Aquela que fora a primeira companheira de Osíris, agora de Serápis, mas também infatigável peregrina pelos inúmeros portos do Mare Internum, tocando o coração dos atenienses, gauleses, romanos e, finalmente, dos hispânicos da Península Ibérica, tinha agora concorrência de peso, no que tocava às promessas de salvação para além da morte: a de um outro deus oriental anunciado por um judeu crucificado em Aelia Capitolina, a antiga Jerusalém». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Arménio, a senhora manda aparelhar o carro! Amanhã sairemos bem cedo!, ordenou o ruivo Flaviano, vigoroso, com a mão sobreposta num altar votivo ao deus Júpiter»

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«(…) Achas mesmo, Valéria? Não tem nada a perder, senhora! Era já minha intenção visitar o santuário de Iria Flavia… Mas tens razão! Apressemos a viagem. Não durmo com receio de perder o meu filho e de desiludir o meu marido. Por aqueles dias, a intempérie estava para durar. A Galécia era pródiga em chuvas, ventos e nevoeiros invernais, mas parecia que Prisciliano convocara para o seu nascimento todas as forças e energias da natureza no estado mais radical. Junto ao mar, Iria Flavia apenas distava doze milhas de Villa Aseconia. Era lá que se erguia o poderoso bastião galaico da deusa egípcia, apesar de ter conhecido melhores tempos, antes da chegada das primeiras baforadas de cristãos à Galécia. Arménio, a senhora manda aparelhar o carro! Amanhã sairemos bem cedo!, ordenou o ruivo Flaviano, vigoroso, com a mão sobreposta num altar votivo ao deus Júpiter. É preciso protegê-la desta maldita chuva. Ainda que jovem, da mesma idade da matrona, Flaviano era o curador da Villa Aseconia.
Nascera na casa de Priscila e o pai fizera questão de que a acompanhasse para a nova residência, juntamente com alguns escravos. Flaviano sempre fora muito chegado à patroa, com quem brincara em criança e que conhecia desde que nascera. Rapidamente conseguiu a confiança de Lucídio, que anuiu à esposa quando esta lhe pediu para o tornar responsável pela administração da villa na sua ausência, após a morte do velho capataz da família. O curador tinha-se levantado do triclínio, após um bem nutrido jentaculum, e atravessara o peristilo, em passos firmes, rumo ao exterior. Sacudindo pedaços de pão agarrados à túnica branca, apressou-se a transmitir as instruções exactas de Priscila a Arménio, o condutor de carros e liteiras.
Está bem!, respondeu, sem entusiasmo. Arménio…!, interpelou Flaviano, com os lábios retorcidos e o cenho franzido. Sim, Flaviano… Esta é a oportunidade de te redimires das tuas imprudências! Não fui imprudente, como sabes! Já discutimos o assunto e terei mais cuidado! Não voltará a acontecer! Arménio era filho de um escravo que morrera tempos antes, depois de atender a uma ordem de Lucídio. O pai subira a uma árvore para retirar um gato que passara dois dias sem comer e beber, num dos galhos mais altos. Quando o tentou apanhar, o ramo quebrou e homem e animal morreram estatelados no chão de pedra. Arménio não mais perdoara ao senhor, remoendo pelos cantos da villa a sua culpa pela morte do pai. Foste, sim! Onde se viu fugir da villa durante tanto tempo?! Sabes que isso é crime e só a boa vontade dos senhores te salvou a pele.
Flaviano decidira manter Arménio debaixo de olho, até porque havia assegurado aos patrões que aquela leviandade não voltaria a acontecer. E a minha palavra?! Não me deixes ficar mal! Não deixarei, descansa! E, como sabes, não viajaste com o senhor para Bracara Augusta, como de costume… Esta é mesmo a tua última oportunidade! Flaviano voltou à sala de estar, onde recebera as ordens de Priscila. A jovem mulher, apesar do parto recente e da debilidade patente no corpo frágil e nos olhos tristes, soergueu a voz, para perguntar em modos suaves, como era o seu timbre: está tudo preparado?! Tudo haverá de ficar preparado, Priscila…, desculpe, senhora! Acabo de garantir que o carro estará pronto à hora certa e que teremos condutor, respondeu o dedicado curador, cobrindo a mulher com um olhar protector. Sim, porque Arménio é o único que temos, de momento… O rapaz está recomposto? Flaviano tossicou para aclarar a voz, mas aproveitou para ajeitar o pensamento à resposta a dar a Priscila». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT