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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média. Manuel Cadafaz Matos. «Aquela data de 1095 em que nos é dada, por documentos precisos, a época aproximada em que o conde Henrique se casou com dona Teresa é, no dizer de Baquero Moreno, a primeira data segura em que Henrique aparece na Península»

Vias do noroeste de Portugal antes de 1147
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«(…) O primeiro templo existente naquela cidade em louvor de Sant’lago, com efeito, ao que nos reportam Otero Pedrayo e Chamoso Lamas, tinha sido arrasado por Almansor que, mesmo assim, havia respeitado a tumba. Foi na sequência desses desmandos que, em 1003, se havia consagrado ao Apóstolo uma nova igreja, reconstruída. E várias dezenas de anos depois, mais precisamente em 1075, começava-se, com Diogo Peláez, a edificação da actual basílica, protótipo das igrejas de peregrinação, que viria a adquirir uma singular exuberância artística no tempo do bispo Gelmires.
Sabe-se muito pouco acerca desse período de vida do conde Henrique em que encetou tal viagem. Humberto Baquero Moreno refere-nos, apenas, que dois anos antes, ou seja em Fevereiro de 1095, o conde, com cerca de 30 anos, aparece casado com dona Teresa, filha de Afonso VI, rei de Leão e Castela. E poucos meses antes de efectivar tal peregrinação a Compostela, ou seja em 24 de Abril de 1096, surge-nos como senhor de Braga. Nessa altura, sabemos que é arcebispo dessa cidade, por documento do Liber Fìdei (n.º 685), datado de 8 de Maio desse ano e recentemente dado à estampa por Avelino Jesus Costa, o bispo Geraldo. Desse fólio consta que um tal Adilbergo, de apelido Boa, doa à Sé de Braga um casal em Aveleda (concelho de Braga).
Aquela data de 1095 em que nos é dada, por documentos precisos, a época aproximada em que o conde Henrique se casou com dona Teresa é, no dizer de Baquero Moreno, a primeira data segura em que Henrique aparece na Península. E utilizando nós aqui, numa perspectiva de investigação iconográfica, o método de reeonstituição (a partir do mais ínfimo pormenor) utilizado pelo arqueólogo, detenhamo-nos sobre a iluminura que António Holanda e Simão Bening vieram a elaborar com vista à Genealogia do Infante Fernando.
Esses autores, quando se detiveram sobre a caracterização genealógica de Afonso Henriques, e debruçando-se em particular sobre a vida do conde Henrique, tiveram ensejo de nos mostrar, entre outros pontos, que essa genealogia (integrando uma dúzia de fólios iluminados) lhes foi mandada executar pelo infante Fernando, que viveu entre 1507 e 1534. Ora, Martim Albuquerque e João Paulo Abreu Lima, quando se empenharam em descodificar a linguagem-visual, por vezes um tanto cerrada, destas iluminuras (que constituem verdadeiras obras-primas), questionaram-se, entre outros casos, com o das personagens e situações que integram o fólio votado ao conde Henrique (fólio 7).
Após um aturado estudo, esses autores concluíram que António Holanda e Simão Bening pretenderam, através daquelas imagens (em particular das duas laterais inferiores), fazer crer o seguinte: ...inclinamo-nos a ver na bordadura inferior dois episódios, atenta a descontinuidade temática... Os episódios conotam-se naturalmente com o conde D. Henrique, por dupla razão, porque este é a figura principal e porque em ambos os lados na bordadura inferior se descortina a sua bandeira (de branco com uma cruz firmada de azul).., A representação dos navios pode figurar a partida do conde D. Henrique para a Terra Santa como o seu regresso, ou até a sua partida originária em direcção a Península.
Este fólio permite-nos admitir, embora não sem alguma margem de erro, que data da primeira metade do século XVI a primeira imagem que conhecemos alusiva (embora hipoteticamente) à primeira fase da vida do conde Henrique na Península por altura do seu casamento, logo após a sua chegada, com cerca de 30 anos. Então os mais antigos testemunhos iconográficos do pai de Afonso Henriques no então Condado Portucalense? Onde se situam? Já se procedeu à sua identificação? Ao que nos foi dado apurar, o mais antigo documento que se possui a tal respeito é uma miniatura existente precisamente no Arquivo da Catedral de Sant’lago de Compostela, que data do século XIII, não tendo sido composta, segundo tudo leva a supor, mais de um século e meio depois da morte do conde Henrique em 1112». In Manuel Cadafaz Matos, O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média, Peregrinações de homenagem e louvor ao túmulo e à cidade do Apóstolo entre o século XI e século XV, Instituto Português do Património Cultural, Lisboa, 1985.

Cortesia de IPPCultural/JDACT

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média. Manuel Cadafaz Matos. «Reportando-nos a Alexandre Herculano, com efeito, o conde Henrique realizou, no Inverno de 1097 a 1098 (supostamente partindo de Guimarães), uma viagem à Galiza para visitar o célebre templo de Sant’Iago»

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«(…) Constatando-se o teor destas trovas, somos levados a concluir que, ou Ayras Nunes era natural da Galiza mas não de Santiago (ali exercendo apenas, durante uma parte relativamente curta da vida o seu mester ao serviço da igreja) e daí não conhecendo totalmente bem, como peregrino, as vias ou os caminhos que conduziam a Santiago ou, então, esta busca, do caminho certo apresenta-se-nos aqui mas só num sentido figurado, mesmo que filosófico, por assim dizer, em termos de procura de uma razão de existência. A par desses dois poetas-trovadores de Santiago da Galiza, representados em significativo estilo no Cancioneiro da Vaticana, dois outros significativos autores desse mesmo período alfonsino, Paay Gomes Charinho e Pedro Amigo Sevilha, aí nos dão o seu precioso testemunho do seu louvor (e homenagem) ao Apóstolo. O primeiro deles, natural da cidade galega de Pontevedra, canta singulares estrofes nestes termos:

Ay, Santiago, padron sabido,
vós m'adugades o meu amigo...
Ay, Santiago, padron provado,
vós me adugades o meu amado.

Quanto ao segundo desses trovadores, Pedro Amigo Sevilha (cidade da sua naturalidade), os seus versos não são menos cativantes:

Quando eu un dia fui a Compostela
en romaria, vi hüa pastor
que, pois fui nado, nunca vi tan bela,
nem vi outra que falasse milhor
e demandei-lhi logo seu amor
e fiz por ela esta pastorela.

Alguns trovadores deste período souberam, por um lado, legar ao Cancioneiro da Vaticana uma nostálgica melancolia onde já se reinventa a palavra saudade. Outros, por sua vez, souberam falar do amor que se sente até doer. Em todos eles (e não sem, nalguns casos, se poder detectar algum exagero), a tristeza melancólica da partida e a ânsia, mesmo que doentia, do conflito da chegada, marcam por assim dizer as duas vertentes dominantes nesta estrutura poética. Nela o Amor fala pelo seu nome e quase sempre em discurso directo.
Hoje, estas trovas medievais têm um sabor muito próprio, um acre ao sabor cerimonioso e distante do passadismo histórico. Elas valem, afinal, pela distância que nos separa do tempo em que foram produzidas, em pleno período em que se ia de romagem a Santiago de Compostela a pé ou de mula, com um simples bordão e cabacinha (trilhando a pé, semanas a fio, caminhos pedregosos e poeirentos). Elas valem, também, num prisma verdadeiramente diferente, por estarem inseridas num outro contexto: o de constituírem o espólio cultural (oral e não só) luxuosas comitivas, organizadas quer por elementos da nobreza quer do clero, acompanhados de soldados e criados, ostensivamente munidos de teres e haveres.

Alguns casos exemplares de peregrinos ilustres que foram em romagem até ao túmulo do apostolo (séculos XI-XV)
Em pesquisas por nós efectuadas ao longo dos dois últimos decénios nos arquivos e bibliotecas portuguesas mais variadas com particular incidência para a Torre do Tombo, Biblioteca Nacional e Biblioteca da Ajuda, pudemos concluir pela existência de uma série de documentos medievais alusivos a peregrinações por parte de altas figuras portuguesas a Santiago de Compostela, alguns dos quais já se encontram publicados (individualizadamente), embora ainda desconhecidos no conjunto de uma formulação teórica de incidências socio-religiosas e psicossociais. Das várias peregrinações de personagens ilustres que, no período situado entre o século XI e meados do século XV foram de Portugal a Santiago na Galiza, contam-se as seguintes, entre outras:
  • conde Henrique, 1097;
  • Sancho II, rei, 1244;
  • rainha Santa Isabel, 1325;
  • conde D. Pedro, 1336;
  • Jan Van Eyck, pintor, 1429.
Reportando-nos a Alexandre Herculano, com efeito, o conde Henrique realizou, no Inverno de 1097 a 1098 (supostamente partindo de Guimarães), uma viagem à Galiza para visitar o célebre templo de Sant’Iago. Acreditando na veracidade deste facto, importa registar, no entanto, que nesse ano existia já, no essencial, a catedral compostelana, tal como hoje os peregrinos a conhecem». In Manuel Cadafaz Matos, O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média, Peregrinações de homenagem e louvor ao túmulo e à cidade do Apóstolo entre o século XI e século XV, Instituto Português do Património Cultural, Lisboa, 1985.

Cortesia de IPPCultural/JDACT

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média. Manuel Cadafaz Matos. «Ayras Nunes, por exemplo, apresenta-nos, no “Cancioneiro da Vaticana”, umas trovas votadas a Sant’Iago de Compostela, patrono da cidade onde exerceu o seu mester eclesiástico…»

Vias romanas do Centro de Portugal, ainda em uso na época da peregrinação da rainha D. Isabel (segundo Mario Saa)
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«(…) Pelo estudo da lírica trovadoresca que se encontra em torno de peregrinações ou santuários como o de Santiago de Compostela, poder-se-á, de igual modo, fazer um questionamento sobre os padecimentos ou males físicos que à altura mais afectavam a população (essencialmente rural), portuguesa ou espanhola. Dos males psíquicos aos físicos, das maleitas e tratamentos da mais variada espécie, encontra-se aliás por estudar detalhadamente tal problema nesta óptica. Afonso X foi a figura dominante da nossa lírica trovadoresca, dando assim o nome a este rico e produtivo período da quase totalidade da segunda metade do século XIII. Do período alfonsino chegaram até nós, no entanto, e ainda graças ao Cancioneiro da Ajuda, outros talentosos trovadores. Alguns deles legaram-nos, de igual modo, variadas estrofes que constituem verdadeiras invocações ao Apóstolo Sant’Iago:

Apostolo Santiago
cavaleiro muito honrado,
antre os mouros
muy esforçado...
Se vais a Santiago
compra-me um santiaguinho,
não mo compres grande,
seja pequenino.

Mas se todos os referidos poetas, representados no Cancioneiro da Ajuda, invocam com tal fervor ou ternura o Apóstolo de Compostela, vários são os autores representados no Cancioneiro da Vaticana que homenageiam, de igual forma, Sant’Iago. Do período alfonsino pertencem a este cancioneiro trovadores como Ayras Nunes Santiago, Joham Ayras Santiago (que cultivam com grande brilhantismo cantigas de amigo), Paay Gomes Charinho, bem como Pedro Amigo Sevilha, deixando-nos todos eles versos alusivos ao culto jacobeu peninsular. Quanto a Ayras Nunes Santiago, este apresenta-se-nos, segundo António José Saraiva e Óscar Lopes, como procurando de porta em porta e sem resultado uma Verdade que não existe em parte alguma, nem nos conventos e mosteiros, nem na cidade santa de Santiago de Compostela. Natural da Galiza, Ayras Nunes, que era um clérigo contemporâneo de Afonso X e de seu filho Sancho IV, apresenta-se-nos ainda hoje como um dos mais fecundos trovadores desse período.
Seu contemporâneo foi, de igual modo, o trovador Joham Ayras Nunes (que, também natural da cidade de Santiago de Compostela, visitou várias cortes e veio a Portugal ou nos fins do reinado de Afonso III ou nos primeiros anos do reinado de D. Dinis, sendo também um dos mais ricos trovadores deste período alfonsino. Conservaram-se dele até hoje cerca de 50 cantigas de amigo, 25 de amor e 10 de escárnio e maldizer. Da sua peregrinação, após a estada em Portugal, legou-nos estes significativos versos: Andey, senhor, Leon e Castela / depois que m’eu d’esta terra quytey. Naturais da cidade que conserva as relíquias do Apóstolo natural seria que tanto Ayras Nunes como Johan Ayras Santiago, desconhecemos se havia qualquer tipo de parentesco entre ambos, mantivessem nas suas trovas algumas alusões (mesmo que não muitas) ao santo padroeiro da cidade que os vira nascer. Ayras Nunes, por exemplo, apresenta-nos, no Cancioneiro da Vaticana, umas trovas votadas a Sant’Iago de Compostela, patrono da cidade onde exerceu o seu mester eclesiástico, significativas na sua qualidade poético-literária:

Em Sant’Iago seend’ albeergado
em mha pousada chegaron romeus,
preguntey-os e disserom: Par Deus,
muyto levadel’ o caminho errado;
cá se verdade quiserdes achar
outro caminho convem a buscar,
ca nom sabem aqui d’ela mandado.

In Manuel Cadafaz Matos, O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média, Peregrinações de homenagem e louvor ao túmulo e à cidade do Apóstolo entre o século XI e século XV, Instituto Português do Património Cultural, Lisboa, 1985.

Cortesia de IPPCultural/JDACT

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média. Manuel Cadafaz Matos. «Na canção 184, que por sua vez viria a ser posta em música por Thomas Binkley, fala-se de ‘como Santa Maria livrou de morte üu menynno que jazia no ventre da madre, a que deran hüa cuitelada pelo costelado’»


jdact

«Quando Afonso X leva a efeito a sua monumental obra “Cantigas de Santa Maria” é a identidade literário-religiosa peninsular que vem ao de cima e não a de autores situados numa componente geográfica exterior ao país recém fundado. Essas ‘cantigas’, no seu fulgor musical e estético-literário, têm assim ainda o carisma de uma realidade intrinsecamente luso-castelhana.
Já na canção 175 esse poeta testemunha-nos, com efeito, “como Santa Maria livrou de morte üu mancebo que enforcaron a mui gran torto, e queimaron un herege que llo fezera fazer”. Trata-se de um relato poético em que se fala das atribulações de um romeiro que veio da Alemanha a Santiago de Compostela.

"E el foi-ss' a Santiago,
u avia prometudo;
e aa tornada
non lle foi escaeçudo
d'ir u seu fillo leixara
morto, que fora traudo,
e foy-o muito catando,
chorando con piadade,

Refrão:
Por dereito ten a Virgen,
a Sennor de lealdade
que sobr'el se torn' o dano
de quen jura falssidade,..".

Na canção 184, que por sua vez viria a ser posta em música por Thomas Binkley, fala-se de ‘como Santa Maria livrou de morte üu menynno que jazia no ventre da madre, a que deran hüa cuitelada pelo costelado’.

“E de tal razon com' esta
un miragre mui fermoso
vos direi que fez a Virgen,
Madre do Rei poderoso,
en terra de Santiago,

en un logar montannoso,
(hu) hüa moller morava
que era prenn' ameude

Refrão:
A Madre de Deus
tant' é en ssi gran vertude,
per que aos seus
acorre e dá saude...”

Reportando-se a este tema específico, Binkley refere que o tema desta ‘cantiga’, decorre certamente na região de Señora de Piscocom, numa zona de montanhas situada entre Leão e Galiza, numa altura máxima de 2214 metros e onde vivia a mulher cuja história é cantada neste tema.
Num outro tema de Afonso X (C. 218), somos conduzidos até à forma ‘como Santa Maria guareceu en Vila-Sirga un ome bõo d’Alemanna que era contreito’.

“...En terra d’Alemanna
un mercador onrrado
ouve, rico sobejo
e muit' enparentado
mas dü' anfermedade
foi atan mal parado...
El en esto estando,
viu que gran romaria,
de gente de sa terra
a Santiago ia...
E a medes fezeron
log' en que o levavan,
e pera Santiago
ssas jornadas fillavam,
e a mui grandes peãs
alá con el chegavan;
mas non quis que guarisse
Deus, polos seus Pecados.

Refrão:
Razon an de seeren
seus miragres contados
da Sennor que ampara
aos desamparados."
[…]

Nas Canções de Santa Maria de Afonso X alusivas a Sant’lago, atrás apontadas, para lá da crença do poeta nesse Apóstolo, algo mais nos será lícito concluir. Esta figura maior do "período alfonsino" na área trovadoresco-medieval da literatura portuguesa permite-nos, com efeito, através das suas estrofes, concluir pela existência de uma ‘mentalidade de negócio’, da população em geral no que respeita à crença. Na realidade, ia-se em romagem a Santiago da Galiza não apenas para ‘honrar’ ou homenagear o Apóstolo mas, antes pelo contrário, para negociar essa presença contra a concessão de uma benesse: o ‘milagre’. Ia-se ali, é um facto, mas em troca ‘exigia-se’ que o santo curasse os cegos e os mudos, os paralíticos e os coxos, os ávidos, de tranquilidade de espírito, ou os famintos. A leitura do fenómeno milagreiro como um processo de troca é algo que não poderá estar indissociado destas verdadeiras romagens em demanda do milagre». In Manuel Cadafaz Matos, O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média, Peregrinações de homenagem e louvor ao túmulo e à cidade do Apóstolo entre o século XI e século XV, Instituto Português do Património Cultural, Lisboa, 1985.

Cortesia de Instituto Português do Património Cultural/JDACT

domingo, 22 de janeiro de 2012

O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média. Manuel Cadafaz Matos. «O mais antigo desses cancioneiros, é o “Cancioneiro da Ajuda”, que terá sido organizado, seguramente, pelos finais do século XIII. A esse se seguiram o “Cancioneiro da Biblioteca Nacional”, igualmente designado por “Colocci-Brancuti”, bem como o “Cancioneiro da Vaticana”»

Cortesia do institutoportuguesdopatrimoniocultural

«Havendo muito a esclarecer sobre esta matéria, neste naturalmente nebuloso período da história medieval portuguesa, o que não se pode ignorar é que, em 1102, cerca de nove anos depois da cessação de funções de Pedro como Bispo de Braga, o papa Pascoal II confirmava «o censo anual ou votos que a igreja da Compostela recebia por cada junta de bois que lavrasse a terra entre o rio Pisuerga e o mar: "a flumine videlicet Pisorgo usque ad litus Oceani annuatim ex singulis boum paribus persolvendum».
José V. Capela retomou as investigações acerca desta mesma matéria anteriormente efectuadas por padre Avelino da Costa (embora reportando-se, na especificidade, a um período muito mais tardio). Este autor sublinhou, com efeito, que, segundo o documento respeitante à promessa feita por parte do rei das Astúrias Ramiro I ao Apóstolo Sant'Iago - documento esse que passou a designar-se por «privilégio dos votos», em agradecimento pelo auxílio recebido na batalha contra os Sarracenos em Clavijo, em meados do século IX, «prometeu por si e pelo povo do seu reino, a oferta perpétua à igreja de Santiago de Compostela e seus cónegos, de uma medida de pão e outra de vinho por cada junta de bois que lavrasse em território liberto ou a libertar do domínio árabe com o auxílio do Apóstolo».

Da história religiosa e das instituições à arqueologia da cultura oral dos peregrinos
Mas, se os nossos arquivos são verdadeiramente ricos quanto à existência dos mais variados códices que nos testemunham a situação e evolução da vida das instituições sociais e religiosas do Norte de Portugal (ou ainda do Condado Portucalense), e importa-nos aqui, em particular, o que se prende com o culto compostelano na Idade Média, não menor riqueza encerram no que respeita à cultura oral dos peregrinos.

jdact

As fontes que, a este respeito, constituem recorrência obrigatória são, como aliás não podia deixar de ser, os nossos cancioneiros. Importou-nos assim analisar em detalhe o conteúdo destes mesmos volumosos códices (de alguns dos quais têm sido feitas as mais variadas, embora nem sempre cuidadas, edições) e rebuscar neles referências que nos permitissem obter novas achegas em relação ao culto compostelano no oeste ou noroeste peninsular.
O mais antigo desses cancioneiros, é o “Cancioneiro da Ajuda”, que terá sido organizado, seguramente, pelos finais do século XIII. A esse se seguiram o “Cancioneiro da Biblioteca Nacional”, igualmente designado por “Colocci-Brancuti”, bem como o “Cancioneiro da Vaticana”. Infelizmente, o que de ambos se conhece são cópias realizadas em Itália já no século XVI, tendo os originais aí contidos sido datados (sem grande margem para erro), pelos vários especialistas que já ao longo deste século e mesmo do anterior se empenharam em investigar tal questão, do século XIV.
Quando Correia de Oliveira e Saavedra Machado procederam a uma divisão temática da produção poética trovadoresco-medieval portuguesa, optaram por uma classificação que incluía os períodos pré-alfonsino, alfonsino, dionisíaco e pós-dionisíaco. Esta sistematização, atendendo aos períodos de datação estabelecidos por Carolina Michaëllis de Vasconcelos, pressupõe:
  • período alfonsino, até 1245;
  • período alfonsino, em que o principal cultor foi, ao que é sabido, o rei Afonso X, o Sábio, até 1280;
  • período dionisíaco, até 1300;
  • período pós-dionisíaco, depois dessa data.


Pormenores da porta da Glória, Compostela
jdact e wikipedia

Embora no período pré-alfonsino não tivéssemos descortinado na produção poética (do “Cancioneiro da Ajuda”) referências explícitas ao culto a Sant'Iago ou a peregrinações ao túmulo do Apóstolo, nomeadamente através dos três principais cultores líricos deste período, Gil Sanches, Martin Soarez e Paay Soarez de Taveiroos, o mesmo já não sucedeu no período alfonsino.
É neste período, com efeito, que para lá de tudo o mais desponta a grande envergadura intelectual de Afonso X, autor das “Cantigas de Santa Maria” de tanta nomeada, e que além do seu culto à Virgem teve uma veneração muito especial pelo Apóstolo, o que aliás é traduzível em algumas das suas «cantigas».
Nesta época da segunda metade do século XIII, quando a autonomia linguística do «proto-português» passou já a ser uma realidade, os «cantares» dos nossos trovadores assumem uma singular identidade com os das vizinhas regiões de Castela. É desta forma que as poesias de Afonso X em louvor ou invocação de Sant'Iago podem ser vistas como algo de imaginário colectivo galego-castelhano, envolvendo, naturalmente, também todo o noroeste português.
Quando Afonso X leva a efeito a sua monumental obra “Cantigas de Santa Maria” é a identidade literário-religiosa peninsular que vem ao de cima e não a de autores situados numa componente geográfica exterior ao país recém fundado.

Túmulo de Afonso X
Conde Henrique
jdact e wikipedia

Essas «cantigas», no seu fulgor musical e estético-literário, têm assim ainda o carisma de uma realidade intrinsecamente luso-castelhana». In Manuel Cadafaz Matos, O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média, Peregrinações de homenagem e louvor ao túmulo e à cidade do Apóstolo entre o século XI e século XV, Instituto Português do Património Cultural, Lisboa, 1985.

Cortesia de Instituto Português do Património Cultural/JDACT

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Para uma História da Imprensa e da Censura em Portugal nos Séculos XIV a XVI. Manuel Cadafaz Matos. «Importaria, quer no que respeita a João Gherlina quer a Ludolphus de Saxónia, pesquisar o que respeita à sua proveniência e importação das suas técnicas e saberes por parte de ‘oficiais’ da arte tipográfica no nosso país»

Cortesia de arquivodaudecoimbra

Da difusão da bibliografia de inspiração judaica (e cristã) neste período
«Surge-nos, assim, a polémica se terá sido (ou não) o «Tratado da Confissõm» - impresso em Chaves em 4 de Agosto de 1484 - o primeiro incunábulo em língua portuguesa. Em artigo publicado no “Diário de Notícias” em 25 de Maio de 1965, José Pina Martins dava conhecimento público do achado desse primeiro livro impresso em língua portuguesa. Aludia aí, designadamente, este prestigiado ‘erasmista’ ao direito que tem o leitor de se interrogar das razões porque um livro desta natureza foi impresso em Chaves e não em outras cidades, de maior importância, do norte do país. A explicação que nos deu, a tal respeito, configura-se-nos eivada de significativa legitimidade:
  • «Bastará (...) o carácter religioso, casuístico-moral do “Tratado” para explicar a preferência dada àquela terra, que estava sem dúvida na rota de peregrinações de Santiago de Compostela».
Em trabalho publicado em Janeiro de 1986, em Lisboa, na revista “Prélo”, a investigadora Rosemarie Erika Horsch, do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de S. Paulo, revelou ter «descoberto», naquele país, uma edição de «O Sacramental», de Clemente Sanchez Vercial, terminada em Chaves em l488. Tal facto faria com que, no dizer da autora, se situasse nesse ano, a primeira obra impressa no nosso país.
Rosemarie Erika Horsch deparou com esta edição na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, e que se afigura hoje como precursora de outras edições desse último quartel do século XV - como o “Breviarium Bracarense”, (impresso por João Gherlina) de 1494 e o livro “De Vita Christi”, de Ludolphus de Saxonia, de 1495, (NOTA: Importaria, quer no que respeita a João Gherlina quer a Ludolphus de Saxónia, pesquisar o que respeita à sua proveniência e importação das suas técnicas e saberes por parte de «oficiais» da arte tipográfica no nosso país) considerada, até há pouco, a primeira obra impressa em língua portuguesa - e as “Constituições do Bispado do Porto”, de 1497 (de Diogo de Sousa, Portugal, 1497), que se admite ter sido a primeira edição produzida em Portugal por um tipógrafo nacional. Nestas cinco obras aqui mencionadas, estava patente, antes de mais, o posicionamento da Arte tipográfica ao serviço da Igreja (manipulada tal técnica, directamente ou não, por aquela instituição). Nem toda a produção editorial estava, porém, fielmente arreigada à Igreja nesses começos do século XVI». Lisboa, Outubro de 1986, Separata do Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra, volume VIII.

Cortesia de arquivodaudecoimbra

Para um posicionamento crono-bíbliográfico das incursões teóricas no campo do exercício censório
«As atitudes lesatórias contra património da propriedade intelectual no nosso país no século XVI encontram-se longe de ser bem conhecidas. Muito já se avançou, porém, ao longo deste século nesse sentido. Os dados que já hoje se encontram sistematizados nesta área foram compilados neste século, sobretudo, graças ao esforço de cerca de uma dezena de autores (quase na totalidade portugueses) que, entre 1919 e 1983, lograram produzir neste campo obra de vulto. Tais investigadores são António Baião, José Silva Bastos, Silva Dias, I. S. Révah, Manuel A. Rodrigues, Graça A. Rodrigues, Artur Anselmo e Artur Moreira Sá, entre outros.

Para traçar um esboço da História da Censura em Portugal neste período importava, assim, que partíssemos da bibliografia daqueles autores editada ao longo desses 64 anos. A primeira das obras publicadas nesse contexto é “A Censura Literária Inquisitorial” de António Baião (Coimbra, 1919). Deste mesmo autor é o título - de igual incidência nesta área – “A Inquisição em Portugal e no Brasil” (Lisboa, 1921). Outro autor sensivelmente preocupado, nesse mesmo período, com tal problemática, é José Silva Bastos. Na sua  “História da Censura Intelectual em Portugal” (Coimbra, 1926) - embora hoje com uma actualidade menos notória – evidencia também, de forma inequívoca as suas apreciações a tal questão.

Cortesia de arquivodaudecoimbra

Já Silva Dias, em duas obras, editadas respectivamente em 1960 e 1969 - subordinadas aos títulos “Portugal e a cultura Europeia” volume I, (Coimbra, 1969) e “Correntes de Sentimento Religioso em Portugal nos Séculos XVI a XVIII (tomo I, 2 volumes, Coimbra, 1960) - patenteia, com efeito, um maior sentido de rigor quando se pronuncia sobre a censura no período que aqui nos interessa.
A sua obra, em que nos parece ir mais longe nessa matéria, particularmente no que diz respeito à acção inquisitorial (em termos de censura), contra a penetração em Portugal das ideias do Humanismo, é “O Primeiro Rol de Livros Proibidos” (separata de ‘Biblos’, vol. XXXIX, Coimbra, 1963).
Um pouco antes da publicação deste último estudo de Silva Dias havia sido editada uma outra obra de significativa craveira neste domínio, “La Censure Inquisitoriale Portugaise au XVI Siécle" (Lisboa, 1960), de I. S. Révah.

Já nos anos setenta e oitenta essa rmesma preocupação, por parte de alguns intelectuais portugueses em se conhecerem verdadeiramente as ‘raízes’ da actuação da Inquisição (maldita) e da censura em Portugal no século XVI, levou a que fossem publicadas mais algumas significativas obras nesse domínio. São elas, de entre outras:
  • “A Inquisição e o Cabido da Sé de Coimbra (1580-1640), de Manuel A. Rodrigues (Coimbra, separata do Arquivo Coimbrão, vol. 27, 1979;
  • “Breve História da Censura Literária em Portugal”, de Graça A. Rodrigues (Lisboa, ICALP, Biblioteca Breve, vol. 54, 1980);
  • “As Origens da Imprensa em Portugal” (Lisboa, 1981) e “Camões e a Censura Literária Inquisitorial” de Artur Anselmo (Paris, Arquivos do Centro Cultural Português, vol. XVI, 1981).
 In Manuel Cadafaz Matos, Para uma História da Imprensa e da Censura em Portugal nos Séculos XIV a XVI, Conclusão, Publicação do Arquivo da Universidade de Coimbra 1986, Separata do Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra, volume IX.

continua
Cortesia do Arquivo da Universidade de Coimbra/JDACT

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Para uma História da Imprensa e da Censura em Portugal nos Séculos XIV a XVI. Manuel Cadafaz Matos. «Um deles, já da época do Renascimento, é o relato dos embaixadores Girolamo Lipomani e Tron, durante a sua viagem por terras de Portugal, em que nos dão conhecimento, nomeadamente, da própria expansão do 'comércio' livreiro neste período»

Cortesia de arquivodaudecoimbra

Da difusão da bibliografia de inspiração judaica (e cristã) neste período
«O terceiro componente a que atrás fazíamos referência é o ‘aristocrata em viagem’. Ele faz chegar ao interior do país, sobretudo junto da aristocracia «reinante», descentralizadamente, nos contextos de ruralidade da época, durante as suas incursões de tipo comercial ou de mero carácter recreativo (designadamente venatório), o prolongamento da sua cultura, muitas vezes obras de imitação dos clássicos, designadamente Marco Túlio Cícero ou Séneca. Tais obras normalizam, por vezes, a conduta social do nobre, disciplinam a sua actividade em termos de vida social, num plano de exercício em comunidade, os jogos, os torneiros, partidas recreativas, ou em privado, designadamente no que respeita à educação dos filhos nobres, à maneira de se comportar à mesa, de negociar um casamento, de falar ao coração de uma donzela, etc.

Desse tipo de actividades da aristocracia em ‘viagem’ nos séculos XV e XVI e chegaram até aos nossos dias vastos e curiosos trabalhos. Um deles, já da época do Renascimento, é o relato dos embaixadores Girolamo Lipomani e Tron, durante a sua viagem por terras de Portugal, em que nos dão conhecimento, nomeadamente, da própria expansão do «comércio» livreiro neste período.
Afirma-se, a dado passo, desse diário, no que respeita à vida cultural lisboeta, por onde tais embaixadores passaram nesse ano de 1581 antes de se dirigirem a Tomar para ai felicitaram Filipe II pela anexação de Portugal, que já então na capital existiam diversas livrarias:
  • «(...) Na (mesma) Rua nova há muitas lojas de livros, com infinito numero d'elles em portuguez, castelhano, latim, e italiano. Todos são mui caros; e por isso os estudantes, por serem pobres, costumam mais alugal-os (como ahi dizem) a tanto por dia, do que compral-os. Não deve esquecer, aqui que na praça chamada do Pelourinho-vélho estão de continuo ussentados muitos homens com mesas ante si, os quaes se podem chamar notarios ou copistas sem caracter de fficiaes publicos, e que n'este exercicio ganham a sua subsistência. Sabida que é a idéa de qualquer freguez que se chega a elles, immediatamente redigem o que se pretende, de modo que ora compoem cartas d'amores, de que se faz grande gasto, ora elogios, orações, versos, sermões, epicedios, reqaerimentos, em outro qualquer papel, em estylo chão ou pomposo...».
A primeira tradução deste excerto do diário ficou a dever-se a Alexandre Herculano, respeitando-se, aqui, a sua própria ortografia.
Mas se o referido diário alude, aqui, a uma produção bibliográfica de rua, dita ‘livresca’, sem requerer, portanto, uma vasta erudição, nesses alvores da imprensa em Portugal a produção bibliográfica, em moldes de erudição, essa verificava-se sobretudo a dois níveis:
  • - ao nível judaico, na respectiva sinagoga, em que o «rabi» era o principal ‘zelador’ da tradição, em documentos escritos, da Lei do “Torah”;
  • - ao nível cristão, nos conventos (e igrejas), em que o atelier de copista era o local privilegiado (sagrado?) de tradução dos clássicos grego-latinos, sobretudo em obras de carácter hagiográfico que tinham por principal motivo de inspiração a exegese bíblica.

Cortesia de rosarodriguesjornalistaeradialista

É conotado com o primeiro desses dois campos que se situa o labor, nesses finais do século XV, das tipografias hebraicas situadas em Faro, Lisboa e Leiria, desde 1487. Essa gama de edições em caracteres hebraicos não se prolongaria, afinal, senão por mais de uma década e meia em virtude de em 1497, com o decreto de expulsão dos judeus por Manuel I, estes se veriam forçados a «escolher» o caminho do exílio. Tal acarretou, indiscutivelmente, a cessação de actividade dos impressores judaicos portugueses, numa altura em que o campo editorial estava sobretudo a cargo de estrangeiros.

Os primeiros incunábulos em Portugal no século XV
Para um estudo sistemático da produção editorial e, consequentemente, do exercício censório neste período não podíamos, assim, deixar de tomar por base o funcionamento das principais tipografias que laboravam, imprimindo primeiro em hebraico, e depois em latim, castelhano e português, no último quartel do século XV entre nós. Só que a história deste tipo de produção continua, apesar de tudo, a constituir uma grande nebulosa na História da Cultura Portuguesa nos alvores do Renascimento, em virtude dos dados que ainda escasseiam a tal respeito.
Raul Proença e António Anselmo referem (em 1920) 24 publicações certas e l0 susceptíveis de dúvida. Na «Bibliografia Geral Portuguesa», por sua vez, são apresentadas (em 1941), para esse período, 38 edições (figurando as duvidosas nas páginas introdutórias).

Já, por sua vez, Jorge Peixoto apresenta-nos (em 1962) 27 incunábulos como estando demonstrada a sua autenticidade, e mostrando 11 como «duvidosos». Artur Anselmo (em 1981) (4) tem como certos 30 incunábulos impressos neste período no nosso país. Elimina, assim, todos aqueles cuja existência não considera suficientemente documentada». In Manuel Cadafaz Matos, Para uma História da Imprensa e da Censura em Portugal nos Séculos XIV a XVI, Publicação do Arquivo da Universidade de Coimbra 1986.

Continua
Cortesia do Arquivo da Universidade de Coimbra/JDACT

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Manuel Cadafaz Matos. O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média. «Havendo, com efeito, antes do rico período literariamente denominado por “dionisíaco”, apenas os períodos alfonsino e pré-alfonsino, estas duas designações dão uma verdadeira mostra do papel inovador que teve esse rei Afonso, ao lado de Ayras de Santiago, em todo o panorama das letras ibéricas deste período»

Cortesia do institutoportuguesdopatrimoniocultural

«Nesses anos dos séculos X e XII, quando do Condado Portucalense se passava à decisiva fase da criação do Reino (autónomo) de Portugal, a unidade cultural espanhola e portuguesa era uma realidade, passem embora os diversificados mosaicos étnicos, e daí as consequentes subculturas, que se verificavam.

A par dos textos em latim que caracterizavam a escrita do maior número de actos sociais e culturais públicos, desde a escrituração de autos de partilhas às simples versificações à amada, as estrofes das cantigas de carácter religioso ou profano tinham (também) lugar a partir dessa língua. E se o “Testamento de Afonso II”, de 1214, marca (com a «Notícia de Torto», mesmo que um pouco anterior) a carta de alforria da língua protoportuguesa, a chegada (até este país recentemente conquistado) de «notícias» de Sant'Iago por intermédio dos maiores poetas desse século XIII, designadamente Afonso X, o rei-poeta e João Ayras de Santiago, dá-nos um enriquecedor testemunho dos traços de união, de um ponto de vista também estético literário, entre os dois reinos já independentes.
Havendo, com efeito, antes do rico período literariamente denominado por «dionisíaco», apenas os períodos alfonsino e pré-alfonsino, estas duas designações dão uma verdadeira mostra do papel inovador que teve esse rei Afonso, ao lado de Ayras de Santiago, em todo o panorama das letras ibéricas deste período.

Mas se então o papel de certo modo unificador, destes dois grandes autores, de um ponto de vista de escola poética, teve uma importância marcante em toda a Península, o carácter das instituições político-religiosas dos dois países não lhes seguia o exemplo.

NOTA: In “Textos Portugueses Medievais”, Coimbra, 1964, que o «Auto de Partilhas», de 1192, e o «Testamento», do ano seguinte, não podem jamais ser considerados os dois mais antigos textos não literários em português, apontam-nos, no entanto, e em alternativa, a “Notícia de Torto”, de um período supostamente anterior a 1211 e o “Testamento de Afonso II” de 1214. É precisamente neste último documento que descortinamos já, numa língua que poderemos identificar como protoportuguês, algumas referências a Santiago da Galiza: «...E, ssi eu for morto, rogo o apostoligo, come padre e senior, e beigio a a terra ante seus pees, que el recebia en sa comëda e so seu difindemëto a raina e meus filhos e o reino. E, ssi eu e a raina formos mortos, rogo-li e prego-li que os meus filios e o reino segiã en sa comëda. E mãdo da dezima dos morauidíís e dos dieiros que mi remaserú de parte de meu padre, que sú en Alcobaza, e do outr'auer mouil que i posermos pora esta dezima, que segia partido pelas manus do arcebispo de Bragaa e do arcebispo de santiago e do bispo do Portu e de Lixbona e de Coïbria e de Uiseu e de Lamego e da Idania e d'Euora e de Tui e do tesoureiro de Bragaa... E do que remaser fazam en tres partes, e as duas partes, e as duas partes agiã meus filhos e mias filias, e departiã se outr'eles igualmente. Da terceira, o arcebispo de Bragaa e o arcebispo de Santiago e o bispo do Portu e o de Lixbona e o de Coïbria e o de Uiseu e o d'Êuora fazã desta guisa: que u quer que eu moira, quer en meu reino, quer fora do meu regno, fazam aduzer meu corpo permias custas a Alcobaza. E mãdo que den a meu senior o papa. iij. mr., a Alcobaza, ij mr. por meu ãniuersario, a Santa Maria de Rocamador, ij mr. por meu âniuersario, a Santiago de Galicia...». Esta terminologia de ‘escolas poéticas medievais portuguesas’ não conquistou o consenso de todos os que, entre nós, se debruçaram sobre a mesma questão.

Cortesia de obrehistoria

Já em meados do século XI, mais precisamente em 1065, à altura da morte de Fernando Magno (rei de Castela, Leão e Astúrias), a divisão desses estados pelos seus três filhos, Sancho, Afonso e Garcia, principiava a tornar-se um facto consumado. Deles, foi Garcia que ficou de posse da Galiza bem como das terras conquistadas ao sul do Douro. Quanto a Garcia, esse, por seu lado, preocupou-se logo com a restauração de Braga. Reuniu, para esse efeito, a cúria régia em Santiago de Compostela, dando aí a conhecer o seu intuito de ordenar a restauração da igreja bracarense, advogando a restituição dos bens que a ela pertenciam, mesmo que para tal se tivessem de preconizar as devidas indemnizações.
Esse monarca, segundo os registos de Augusto Ferreira, decidia, assim, doar logo à Igreja de Sant'Iago, o Real Mosteiro de Cordario, «para que lhe cedesse S. Victor, S. Fructuoso, Correlhã e mais possessões, e começou a edificar a igreja de Santa Maria, que destinava para cathedral; porém Sancho fez-lhe guerra e depô-lo, pelo que os compostelanos, aproveitando-se das perturbações políticas, ficaram com os bens pertencentes a Braga, e não restituíram o mosteiro de Cordario». Sobre Correlhã, actualmente no concelho de Ponte de Lima, existem nos nossos arquivos alguns documentos deste período que importa aqui revelar. Em 27 de Novembro de 1097, com efeito, Henrique de Borgonha, auto-denominando-se de “Conde Portucalense”, designa as suas possessões de «Província Portucalense».

E, ao que sublinha Damião Peres, «pela primeira vez, à diferenciação toponímica corresponde a diferenciação política, criando-se uma unidade, a província portucalense, prefiguração do estado português e gérmen da nação portuguesa».
Nesse período os concelhos rurais (sujeitos ao Rei) continuavam a preservar, com toda a firmeza, os seus vínculos comunitários. Nota José Mattoso que também diversas comunidades continuavam a manter, nalguns casos, mesmo sujeitas a senhorios particulares, os vestígios de uma arcaica organização. Aquela possessão minhota (Correlhã) adianta este medievalista, era pertença do senhorio do arcebispo de Santiago de Compostela e chegou até nós um outro documento, por sinal datado do século seguinte, que no-lo refere.


Cortesia de skyscrapercity e forumbracaraeavgvste

Sobre esta questão, José Mattoso retoma a problemática que já nos anos vinte havia sido abordada, com algum detalhe, por Augusto Ferreira. Sublinhava então este segundo autor, nomeadamente, que «a Galiza nessa ocasião compreendia também a diocese de Braga», sendo o bispo de Iria (Compostela) o senhor temporal de muitas terras nos arredores de Braga e estando encomendado o governo espiritual deste Arcebispado ao Bispo de Lugo.

Entre 1071 e 1093, era Pedro o Bispo de Braga, e dele pode dizer-se o que se regista na “Historia Compostellana” a respeito do bispo Diogo Peláez, Santiago (1071-1088), ou seja, que no seu tempo, «in hoc tempore, apud Hispanos Lex Toletana obliterata est et Lex Romana recepta». Então, com efeito, a liturgia românica substituía já a literatura moçarábica tanto em Braga como na Galiza. Isto registava-se já durante o episcopado de Pedro, portanto num período anterior ao último decénio do século XI.
Sublinha, a propósito, Augusto Ferreira que nos primeiros anos da governação eclesiástica de Pedro seria impossível à Catedral de Braga estar habilitada para, em qualquer das suas dependências, serem celebrados os actos inerentes ao Episcopado. E interroga-se:
  • «Todavia quem assegurou ao Padre Ferreira de Figueiredo que provisoriamente se não faria esse culto noutro edifício, que servisse de pró-Catedral? Pois não existia já na cidade a Igreja paroquial de S. Tiago, que por isso se chamou de Cividade?»
Era por ela, com efeito, que passavam grandes magotes de peregrinos, que aí prestavam culto ao Apóstolo, quando por essa via romana (de interior) demandavam Santiago de Compostela.
Esse templo jacobeu, quando se principiou a reedificar a Sé de Braga, era a única igreja existente na cidade restaurada. Tinha o nome de “Sant'Iago da Cividade”, ou seja, a cidade situava-se no local onde se edificou ou reconstruiu tal igreja. Passava a distinguir-se, desta forma, segundo Augusto Ferreira, da outra paróquia de S. Tiago da Sé. Do mesmo período, e não muito distante dali, é a Igreja de Sant'Iago de Cossourado». In Manuel Cadafaz Matos, O Culto Português a Sant’Iago de Compostela ao longo da Idade Média, Peregrinações de homenagem e louvor ao túmulo e à cidade do Apóstolo entre o século XI e século XV, Instituto Português do Património Cultural, Lisboa, 1985.

Cortesia de Instituto Português do Património Cultural/JDACT

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Manuel Cadafaz Matos. Para uma História da Imprensa e da Censura em Portugal nos Séculos XIV a XVI: «Neste contexto, e admitindo que só nas cidades de Faro, Lisboa e Leiria actuassem, numa primeira fase, […] e consequentemente as edições daí resultantes, passassem a conhecer uma significativa penetração em relação ao interior do país, presumivelmente entre 1488 e 1495»

Cortesia de arquivodaudecoimbra

Da difusão da bibliografia de inspiração judaica (e cristã) neste período
«E se, a edição do Pentateuco de Faro, há mais de meio milénio, constitui a primeira obra editada em caracteres hebraicos no nosso país, a edição do Séfer Aburdaham, ou seja «Novas da Lei ou Comentários sobre o Pentateuco, de Moisés ben Nahamana é, na opinião de Pina Martins, «o primeiro livro impresso na capital portuguesa em caracteres hebraicos».

NOTA: O único exemplar que se conhece do ‘Pentateuco’ é segundo Amzalak o que se encontra depositado no «British Museum», Londres. Sobre esta edição trabalhámos na capital britânica nos anos setenta, altura em que formulámos a edição de a divulgar em edição facsimilada por altura do quinto centenário. Também Leão Fernandes, «O Livro e o Jornal em Goa», in Boletim do Instituto Vasco da Gama, Pangim,1935-1936, capº l, Introdução, p.44, refere, a tal propósito, conhecer que «o único exemplar conhecido guarda o British Museum, de Londres».

Marque (ou não) essa edição o início de uma venturosa época - porém de não muito longa duração, de intensa actividade dos impressores hebraicos em Portugal, sabemos que ela se expandiu entre nós na década de 1487-97 por diversos outros pontos do país.

Cortesia de wikipedia

Assim, e mesmo que em 1489 (pelo testemunho de Pina Martins), ou porventura em 1488 (a confirmar-se a hipótese de Rosemarie Erica Horch em relação ao ‘Sacramental’) já laborassem em Portugal tipografias com caracteres em língua portuguesa como a de Chaves, é facto provado que neste período a tipografia hebraica conhecia já uma significativa fase de implantação entre nós.
Assim, se Faro se orgulha de ter sido o berço da primeira obra, em caracteres hebraicos de que (até agora) há notícia na História da Imprensa no nosso país, Leiria foi testemunho, em 1496, da publicação do ‘Almanack perpetuuz celestius motuus’.
Foi esta obra escrita pelo judeu e astrólogo Abraão Zacuto, destacada figura na corte de D. Manuel.

Neste contexto, e admitindo que só nas cidades de Faro, Lisboa e Leiria actuassem, numa primeira fase, essas mesmas tipografias hebraicas, somos levados a concluir que da região dita do litoral tais técnicas, e consequentemente as edições daí resultantes, passassem a conhecer uma significativa penetração em relação ao interior do país, presumivelmente entre 1488 e 1495. Nesse modelo de penetração ‘técnico-cultural’ desempenharam, em particular, um decisivo papel, a um ‘nível endogômico e a um nível exogâmico’, três intervenientes precisos:
  • -o rico comerciante judaico;
  • - o almocreve (inicialmente ligado, também, ao culto judaico);
  • - e o aristocrata em viagem.
Quanto ao «rico comerciante judaico», esse indivíduo (ou grupo) está associado, em nosso ver, à importação das primeiras «impressoras», rudimentares, já se vê. Ele estava motivado, antes do mais, pela mira do lucro. A introdução do «novo» aliciava-o a agir nesse sentido, com as «portas» verdadeiramente franqueadas.
Um lugar não menos decisivo ocupou, então, sobretudo num contexto de ruralidade, o almocreve. Era ele, e alguns estudos de especialistas como Humberto Baquero Moreno atestam nesse sentido, o grande elo de ligação inter-comunitária, ligando espaços rurais a espaços rurais, ou espaços urbanos a espaços rurais e vice-versa.

Cortesia de wikipedia

O almocreve, para além dos produtos de comércio (utilitário-domésticos) que transportava, designadamente azeite, tecidos, botões ou, ainda, novas técnicas como o fogão de barro, uma forma primitiva de tesoura e agulhas, etc. - é também um elemento intermediário e de propaganda, difusão ou ‘contágio’. Não era ele, apenas, que transportava as «novas», (notícias) como também divulgava o conceito de «novo», ao nível das novas técnicas surgidas.

NOTA: Os judeus (não é apenas uma lenda) tiveram uma particular preponderância em negócios no Reino e, também, na benéfica introdução de novas técnicas, designadamente no que respeita à tipografia e ao primeiro fabrico de papel. Nesta época de transição da Idade Média para o Renascimento, a arte tipográfica, e outras formas de Arte, contribuíram, ao que é sabido, para a introdução do ideal do Renascimento no nosso país. Importaria, a nosso ver, estudar hoje em detalhe o que concerne à introdução no nosso país dessas mesmas técnicas científicas e artísticas.

Somos levados a admitir, desta forma, que o almocreve desempenhou também um papel decisivo no que respeita à chegada à aldeia, à micro-comunidade regional, da espécimes bibliográficos (mesmo que ele fosse analfabeto, como em muitos casos, se não mesmo a sua esmagadora maioria, se verificava). A ‘cultura da escrita’ sobrepunha-se, assim, a essa arcaica ‘cultura oral-empírica’. Esta última muito tardaria a ser suplantada dada a falta de amplas medidas tendentes à alfabetização popular, em termos percentuais, o que só neste século, em certa medida, principiou a atingir índices menos gritantes (embora, naturalmente, ainda não satisfatórios)». In Manuel Cadafaz Matos, Para uma História da Imprensa e da Censura em Portugal nos Séculos XIV a XVI, Publicação do Arquivo da Universidade de Coimbra 1986.

Continua
Cortesia do Arquivo da Universidade de Coimbra/JDACT

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Manuel Cadafaz Matos. Para uma História da Imprensa e da Censura em Portugal nos Séculos XIV a XVI: «Quer para essa quer para outras edições até hoje desconhecidas, se porventura as houve, e produzidas nas principais tipografias hebraicas portuguesas, existentes em Faro, Lisboa e Leiria, o fornecimento de papel ficou a dever-se a fábricas de papel como a do moinho ou engenho de Leiria»

Cortesia de arquivodaudecoimbra

Licença a Gonçalo Lourenço para fazer fabricas no termo de Leiria
«[…]
e cada huü delles que lhe prouver e entender por sua prol e que os aia e logre pera todo sempre el e todos seus herdeiros e descendentes que depos el vierem e que o dito gonçalo lourenço e os que depos el vierem dë a nos e aos reis que depois nos vierem ho oytavo do que elles renderem em salvo os ditos arteficios e engenhos que assy fezer nos ditos asentamentos de moynhos e levadas delles e mais nom, nom embargando que no foro da dita villa diga e faça mençam que de todas moendas que se fizerem na dita villa e termo o rey aia ametade nem outra qualquer cousa que esto possa contradizer ou embargar per qualquer guisa e maneira que seia por quanto nos queremos que nom aiam em esto lugar nem lhe possam empecer por quanto nos entendemos esto por nosso serviço […] ao scripvam do dito almoxarifado que registe esta carta em seus livros e aos nossos contadores que os recebam em conta e em despesa ao dito almoxarife umde huüs e os outros all nom façades e em testº desto lhe mandamos dar esta nossa carta dante em evora xxjx (29) dias dabril elrey o mandou Rodrigo Afomso a fez era de mil iiij R jx (1449).

NOTA: Trata-se de (após a respectiva deducação de datas) de 29 de Abril de 1411, altura em que reinava em Portugal D. João I.

Até prova em contrário somos levados a crer que a primeira obra em caracteres hebraicos em Portugal, é o “Pentateuco” (editado em Faro, como referimos, em Junho de 1487). Quer para essa quer para outras edições até hoje desconhecidas, se porventura as houve, e produzidas nas principais tipografias hebraicas portuguesas, existentes em Faro, Lisboa e Leiria, o fornecimento de papel ficou a dever-se a fábricas de papel como a do moinho ou engenho de Leiria. Isso porque, neste período, não chegou até nós, o testemunho documentado da existência de outras «fábricas» congéneres.

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Da difusão da bibliografia de inspiração judaica (e cristã) neste período
Das razões desse apego judaico à arte tipográfica, designadamente em Portugal, contava-se a preservação, em documentos escritos, da lei do Talmud, de forma a que a palavra dos antigos sábios pudesse, ininterruptamente, ser transmitida de pais para filhos ao longo de sucessivas gerações.
Os nomes que importa reter neste campo, no que respeita às primícias da arte de impressão em caracteres hebraicos executados por judeus portugueses no exílio ou em Portugal, são os dos judeus Moses B. Shem Tob Ibn Habib e de Samuel Gascon. Ambos viveram em Portugal no último quartel do século XV, tomando, as suas vidas, a partir de uma dada altura, rumos diferentes dos da sua família espiritual do Algarve.
Moses Ibn Habìb foi um poeta hebreu, filósofo, tradutor e gramático que nasceu no século XV em Lisboa, em data que não se torna possível precisar. Este autor terá vivido, (Posnanski), durante algum tempo no Levante. Esteve no sul de Itália, designadamente em Nápoles, vindo a morrer nos começos do século XVI.

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Foi precisamente na cidade italiana de Nápoles que circulou em 1484 a sua gramática «Perah shoshan», preparada nesse ano e sobre a qual ainda não há muito trabalhámos no «British Museum» de Londres. Este trabalho, dividido em sete secções, cada uma dividida num número de capítulos, foi iniciada em 23 de Sivan A.M. 5244, no calendário hebraico (16 de Junho de 1484) e terminada em 27 Kislev A.M. 5245 (15 de Dezembro do mesmo ano).
Quanto ao outro judeu português atrás referenciado, Samuel Gascon, este nome já se situa, com mais precisão, nos primórdios da arte tipográfica portuguesa, em território nacional. Samuel Gascon, cuja data de nascimento também não conhecemos, não teve de optar pela via do exílio.

NOTA: No campo de autores judaico-portugueses que se auto-exilaram neste período, conta-se David Bem Solomon que nasceu em Lisboa em 1440. Autor de uma gramática, “Leshon Linundim”.

Sabe-se, apenas, que no ano de 1487 vivia em Faro. Foi precisamente nessa cidade que, em 30 de Junho desse mesmo ano, três anos depois de Ibn Habib ter feito divulgar em Nápoles a sua gramática, concluiu a edição de ”O Pentatenco”, que Pina Martins considera “a primeira obra impressa em Portugal em caracteres hebraicos». In Manuel Cadafaz Matos, Para uma História da Imprensa e da Censura em Portugal nos Séculos XIV a XVI, Publicação do Arquivo da Universidade de Coimbra 1986.

Continua
Cortesia do Arquivo da Universidade de Coimbra/JDACT

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Manuel Cadafaz Matos. Para uma História da Imprensa e da Censura em Portugal nos Séculos XIV a XVI: «A primeira fábrica portuguesa desse tipo, de que chegaram até nós provas documentais - é precisamente o “moinho de Leiria”, existente no rio Liz, e que já estava em funcionamento em 1411. “Dom Joham etç. A quãtos esta carta virem fazemos saber que gonçalo lourenço nosso criado scripvam da puridade nos dise e fez certo…»

Cortesia de rtleiria

«Questionam-se alguns autores portugueses acerca da origem das técnicas de grafismo e de impressão, então, por demais ainda incipientes, utilizadas na feitura dos inçunábulos hebraicos produzidos em Portugal na segunda metade do século XV. Regista a propósito Pina Martins:
  • «O problema dos nossos incunábulos hebraicos e da origem dos motivos decorativos e iconográficos que os valorizam está ainda por solucionar. Já hoje se não aceita a tese de que se trate de impressões xilográficas, a não ser, bem entendido, por parte de estudiosos pouco informados e pouco preparados neste domínio, e por isso só temos que considerá-los como eles de facto são: impressões tipográficas de uma comunidade que, entre nós, tinha raízes profundas e grandes tradições de cultura. Pensámos durante muito tempo que, tratando-se de uma comunidade internacional ou, pelo menos, com laços internacionais muito marcados, o itinerário histórico destes livros pudesse haver tido o seu início na Itália meridional e central e seguimento através da Espanha».
O autor confessa, então, que hoje tem já dúvidas acerca dessa origem, sobretudo após a publicação do trabalho de Gabrielle Sed-Rajna, “Manuscrits Hébreux de Lisbonne”. Isso prova, em seu entender, a existência, nesse mundo lusíada de quinhentos, de um importante centro de calígrafos judaicos. Entre os códices reproduzidos, salienta, «contam-se algumas imagens que são bem uma prova de como, na origem da matriz xilográfica do “Séfer Abudraham” de 1489 e de outras matrizes xilográficas que apareceram noutros incunábulos hebraicos impressos em Portugal, pode ter havido uma escola hebraica de xilogravura ou pelo menos um esboço de escola, ligada ao atelier de copistas e iluminadores hebraicos».

Cortesia de cmleiria

É conveniente conhecer-se, também, a opinião de Gabrielle Sed-Rajna, mesmo que Pina Martins ponha algumas reticências em relação ao facto da posição dessa especialista francesa não se salvaguardar em documentação precisa, a tal respeito. Regista ela:
  • «Os copistas e iluministas de Lisboa, ao contrário do que sucede com os artistas italianos, colaboravam também com os primeiros tipógrafos. Foi já posta em relevo a semelhança entre a grafia das cópias manuscritas e os caracteres tipográficos de Lisboa. O estilo típico dos ornamentos tinha também o seu prolongamento na própria imprensa».
O último vector, inerente ao cabal funcionamento da tipografia de caracteres hebraicos nesse Portugal dos finais do século XV, é a existência de «stocks» de papel com que se possa realizar uma dada edição. Ora pata a utilização desses mesmos «stocks» tornava-se necessário, antes do mais, a existência de «fábricas» em Portugal onde se pudesse fabricar precisamente papel.

A primeira «fábrica portuguesa de papel
A primeira fábrica portuguesa desse tipo, de que chegaram até nós provas documentais - é precisamente o “moinho de Leiria”, existente no rio Liz, e que já estava em funcionamento em 1411.

NOTA: Refere em 1913 Pedro de Azevedo, que a cidade de Fez tinha, já em 1184, «400 moinhos ou fábricas de papel», existindo já em Xativa, junto de Valença um grande centro de indústria daquele produto. Em 1276 fabricava-se papel na Itália, e em 1346 no Hérault, estabelecendo-se dois anos depois um moinho junto de Troyes. Em 1411 funda-se um moinho na Suíça, em 1390 entra esta indústria na Alemanha, em 1405 na Bélgica, antes de 1494 na Inglaterra, em 1586 na Holanda e em 1690 nos Estados Unidos.

Acreditava-se, até agora, que o autor contemporâneo que divulgou, pela primeira vez, em letra de forma, a existência de um documento da Chancelaria de D. João I respeitante a esse moinho-fábrica de papel foi António Baião, em 1915. Já um ano antes, porém, em artigo publicado no «Archeologo Português», Pedro A. de Azevedo dá notícia da existência desse mesmo documento, podendo até, e1e próprio, ser a fonte de onde partiu António Baião para a sua consequente pesquisa neste campo.
Refere Pedro da Azevedo, com efeito, que Sousa Viterbo, em obra por esse tempo publicada, referira a existência, em Fevereiro de 1441, de moinhos de papel em Leiria. Azevedo vai mais longe ao salientar:
  • “Talvez que esta fábrica fosse fundada pelo escrivão da puridade de D. João I, Gonçalo Lourenço, antepassado do grande Afonso de Albuquerque, porque na Chancelaria daquele rei, a fls. 127v. do livro III, encontra-se registada uma licença para estabelecer no rio de Leiria artificio e engenhos de fazer ferro, serrar madeira, pisar burel e fazer papel. Sendo a carta datada de 1411 vê-se que Portugal não ficou atrasado nesta indústria em comparação com outros países”.

Cortesia de urbansketchers

Eis, portanto, o teor (na íntegra) desse documento:
  • “Licença a Gonçalo Lourenço para fazer fabricas no termo de Leiria”. Dom Joham etç. A quãtos esta carta virem fazemos saber que gonçalo lourenço nosso criado scripvam da puridade nos dise e fez certo per scriptura pubrica feta e asignada per maão de pêro afomso nosso tabaliam na cidade de coimbra que elle ouve ora per scambo dabadesa do moesteiro de s.ta clara da cidade de cojmbra dous asentamentos velhos que em outro tempo forom moynhos que som em termo e ribeira da nossa villa de leirea no rio que vay pera fora da dita villa que som anbos de huü asentamento apar do outro que stam aso a ponte dos caniços os quaaes soya de trager do dito moosteiro Afomso anes fanqueiro os quaaes jaziam destroydos ha gram tempo e que ora el quer fazer nos ditos asentamentos onde esteveram os ditos moynhos arteficios e engenhos de fazer ferro e serrar madeira e pisar burel e fazer papel ou outras algüas cousas que se façam com arteficio dagoa quaaes el entender mais por sua prol com tãto que nom seiam moynhos de pam e por quanto no foral da dita villa he contheudo que de todas moendas que forem fetas na dita villa de leirea e seu termo os reis ouvesem ametade da renda que rendesem el nom entendia de fazer os ditos moynhos arteficios e engenhos ou alguús delles salvo dando lhos nos por alguú foro razoado por quanto eram cousas sobre que era forçado fazer grandes despezas e que nom era certo da prol que se lhe delo podia recrecer e que nos pedia por mercee que visemos nos esto e as despesas que era forçado de se fazerem em taes cousas e otemperasemos como nossa mercee fose em tal guisa que elle com sua prol pudese poer mão em fazer os ditos arteficios e nos veendo o que nos dizia e pedia e por quanto avemos certa enformaçam per pessoas dignas de crer e outrossy per scripturas pubricas que os asentamentos dos dytos moynhos huü deles pasava de lxxx anos que era destroido e ho outro era derribado tal de que nom aviamos alguu proveito e porque outrossy entendemos que os arteficios e engenhos que o dito gonçalo lourenço diz que em eles quer fazer seram prol e onrra dos nossos regnos e outrossy da dita villa de leirea e de que se a nos recrecera serviço e outrossy querendo fazer graça e mercee ao dito gonçalo lourenço por muito serviço que del recebemos e entendemos ao diante de receber de nosso proprio movimento e poder absoluto outorgamos e queremos e mãdamos que o dito gonçalo lourenço e os que depos elle vierem façam e possam fazer se lhes prouver nos ditos dous asentamentos de moynhos e açudes delles quaesquer arteficios e engenhos dos sobreditos ou doutros quaaesquer […]
In Manuel Cadafaz Matos, Para uma História da Imprensa e da Censura em Portugal nos Séculos XIV a XVI, Publicação do Arquivo da Universidade de Coimbra 1986.

Continua
Cortesia do Arquivo da Universidade de Coimbra/JDACT