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domingo, 3 de agosto de 2014

Siglo de Oro. Relações Hispano-Portuguesas no século XVII. Isabel Almeida. «Estes eram os Portugueses, que pelejavam pela defensão de sua Pátria, a qual os Castelhanos muito desejavam, não sendo sua, nem tendo direito nela. Marcos não terá chegado a comentar o Canto IV do poema…»

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Leituras de Camões no Tempo dos Filipes
«(…) Observe-se ainda como este leitor omnívoro, que preza Alciato, se esmera na aplicação de In temerario (aplicação amargurada, porque, alongando-se dos versos latinos do emblema, onde sobressai a pena sofrida pelos maus reis, o que Marcos de S. Lourenço deplora é a desgraça do povo, como temos em nós muito bom exemplo:
  • Propriamente, segundo doutrina moral, Faetonte significa um príncepe moço descabeçado que se não governa pelos conselhos dos velhos, que querendo governar-se por sua cabeça deita o reino a perder, como temos em nós muito bom exemplo e no nosso pouco venturoso rei Sebastião. Ele foi o Faeton, o carro mal governado foi este miserável reino, nós os Etíopes queimados que padecemos os danos que nos ele causou.
Observe-se, enfim, como frisa a clivagem entre o tempo em vida dos reis de Portugal e este nosso tempo:
  • Já no nosso Pornrgal em vida do seu Homero, em tempo deJoão de Barros, e em vida dos reis de Portugal, havia esta tinha de procurarem antes riquezas que bom nome, contra o conselho do sábio. E se já então havia esta doença, que será neste nosso tempo quando não há honra nem desejo de fama, nem quem dê por ela cousa alguä.
Marcos começa a sua obra apoucando Os Lusíadas [...] Commentados de Manuel Correia. Deles não diverge, no entanto, no criterioso apartamento do que é português e do que é castelhano, e esse mesmo afã se verifica no texto de Pires Almeida. A noção do corpo do reino e do império persiste, na diferença entre nós e eles, na distinção do que a um pertence e do que do outro é, como ressalta na conclusão desta anedota:
  • Pôs El Rei D. Manuel aos de seu conselho, o como se haveria com Fernão de Magalhães, que andava em Castela tratando cousas contra seu serviço. Respondeu o duque de Bargança, não faça V. A. caso de escudeiros, que pode esse agora fazer? Acudiu a isto o arcebispo de Lisboa, dizendo: Senhor, inimigo, ou grande ou pequeno, sempre se há-de temer. El Rei não fez caso de Fernão de Magalhães, ele foi por diante com sua desleal tenção, e deu muito que fazer a este Reino, e estarem hoje Castelhanos no Moluco a este descudo se deve.
Quando se trata de explorar relações tensas entre Pornrgal e seus vizinhos, os comentadores amplificam a narração construída por Camões. E se já de si é relevante a preservação do texto sem os cortes introduzidos em 1584, 1591 e 1597,ou sem os eufemismos infìltrados nas traduções castelhanas de 1580 e 1591, mais o é o discurso que defende, como um valor máximo, a conservação da soberania. O verso uns leva a defensáo da própria terra, no prelúdio da batalha de Aljubarrota (Os Lusíadas, IV), inspirou a Manuel Correia-Pedro de Mariz uma glosa cortante como uma sentença inabalável: Estes eram os Portugueses, que pelejavam pela defensão de sua Pátria, a qual os Castelhanos muito desejavam, não sendo sua, nem tendo direito nela. Marcos não terá chegado a comentar o Canto IV do poema, mas a obra que deixou permite supor que havia de abraçar o rumo de Correia-Mariz:o caso de Fernão de Magalhães fá-lo citar Também dos portugueses alguns tredores houve algüas vezes, sem reprimir um desabafo, e inda mal, porque foram e são tantas. Pires Almeida, o menos político dos quatro, não se absteve de opinar, sobre a exortação guerreira de Nuno Álvares, que ressumava ousadia, confiança, justiça, razão, exemplo». In Isabel Almeida, Siglo de Oro, Relações Hispano-Portuguesas no século XVII, Fundação Calouste Gulbenkian, Colóquio Letras, 2011.

Cortesia da FCGulbenkian/JDACT

domingo, 22 de junho de 2014

Siglo de Oro. Relações Hispano-Portuguesas no século XVII. Isabel Almeida. «As escolhas de Camões, diferentes das de um Jerónimo Corte-Real, facilitaram esse encontro apaixonado com o poema. Porque n’Os Lusíadas é de Portugal e da sua história que se trata»

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Leituras de Camões no Tempo dos Filipes
«(…) Aí regressam versos densos de erotismo, como a descrição de Vénus no Canto II; aí regressam os passos obliterados ou velados por melindre político, no Canto IV, como o exalçamento heróico de Nuno Álvares Pereira, açoute de soberbos castelhanos, ou o anátema sobre seus irmãos arrenegados. Ora, regressam, não clandestinamente, mas em pleno dia: essas edições são dedicadas a membros do Santo Ofício (ao Doutor Rodrigo d’Acunha, Deputado do S. Ofício [maldito], em 1609 e 1612, e Inquisidor Apostólico do Santo Ofício [maldito] de Lisboa, em 1613; Ao llustríssimo, e Reverendíssimo senhor João da Silva, Capelão Mor de sua Majestade, Ordinário da Capela, Casa Real, e toda a Corte,em1633) ou a personagens gradas da hierarquia social em 1626, A João d’Almeida, do Conselho del Rei nosso Senhor; em 1631, a Duarte, filho II do Senhor Teodósio de Bargança II deste nome). Perguntar-se-á: que leitura se fez então d’Os Lusíadas? Que espírito se captou na sua letra rediviva? Fértil campo de busca acha-se nos comentários, que visavam ser a declaração verdadeira do texto, topologicamente, passo a passo, ou, com audácia hermenêutica, edificando uma compreensão global do poema. O número de comentários a Os Lusíadas, no tempo dos Filipes, não é despiciendo, como não é irrelevante o estatuto de seus autores. O pe. Pedro Mariz não consentiu que pela morte do pe. Manuel Correia tudo naufragasse, e, met[endo] a mão em sua sementeira, publicou em 1613 Os Lusíadas [...] Commentados; sorte madrasta tiveram os escólios do Chantre Manuel Severim Faria ou do pe. Luís da Silva Brito, dos quais resta táo-só vaga notícia. O crúzio Marcos de Sáo Lourenço empreendeu também o comentário d’Os Lusíadas, até.pelo menos ao Canto III, e tê-lo-á redigido ou burilado pela década de 30, altura a que remontará igualmente o extenso labor do pe. Manuel Pires Almeida.
Eclesiásticos, todos eles, enfrentaram, cada um a seu modo, a epopeia de Camões. Cada urn a seu modo e até competindo entre si: Manuel Correia-Pedro de Mariz (os dois nomes são inseparáveis, pois nunca as suas vozes exactamente se definem n’Os Lusíados [...] Commentados) desdenharam das frágeis notas inclusas nas edições de 1584 e l591; Marcos menosprezou o trabalho de Manuel Correia-Pedro de Mariz. Qranto a Manuel Pires Almeida, como se não trilhasse estrada batida, ignorando os demais, quis muito inserir a épica camoniana no contexto poético. E no entanto, acima das diferenças, mais flagrantes ou mais discretas, e acima de alguma rivalidade, detectam-se linhas de comunhão: a leitura da épica atrai uma consciência identitária, e os comentadores atiçam um sentido de fronteira e de autonomia relativamente a Espanha (a que preferem chamar, não sem ásperas conotações, Castela), alimentando a memória de conflitos e disputas.
Escusado será dizer: Os Lusíadas prestavam-se a esta leitura. As escolhas de Camões (diferentes das de um Jerónimo Corte-Real) facilitaram esse encontro apaixonado com o poema. Porque n’Os Lusíadas é de Portugal e da sua história que se trata. E porque neles o poeta não cala nem fúria nem mágoa nem decepção, entregando-se a uma exuberante euforia ou mergulhando em desânimo, como se julgava típico do homem de génio melancólico (um modelo cultural em voga) e como se julgava típico de experiências de crise, que aos olhos dos comentadores se iam revelando endémicas e os estimulavam a cotejar o passado e o presente. Assim, o elogio da qualidade estética do poema entrelaça-se com o elogio de Camões como poeta português, parte de um património de que Manuel Correia, Pedro de Mariz, Marcos de S. Lourenço, Manuel Pires de Almeida não abdicam. Com Os Lusíadas, revisitam a História e contemplam o país, sendo Marcos de S. Lourenço aquele que prima pelo desassombro. Observe-se como das estrofes preambulares faz pretexto para um lamento:

Pronostica Camões muitas prosperidades a El Rei Sebastião [...]. Mas por seus pecados e nossos saiu Camões tão bom profeta comoJoáo Mena nos bens que pronosticou a Ávaro Luna, pois a este lhe cortaram a cabeça daí a breve tempo, e a el Rei Sebastião sempre Portugal chorará sem remédio, porque com sua destruição perdeu a lusitana antiga liberdade que Camões dava por segura com sua vida. Aqui havia muito que dizer e muito mais que chorar, mas deixaremos de o fazer porque como diz Tito Lívio Lachrimae nec tunc gratae cum forte sint necessariae, as lágrimas nem então agradam quando não se escusam.

In Isabel Almeida, Siglo de Oro, Relações Hispano-Portuguesas no século XVII, Fundação Calouste Gulbenkian, Colóquio Letras, 2011.

Cortesia da FCGulbenkian/JDACT

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Siglo de Oro. Relações Hispano-Portuguesas no século XVII. Isabel Almeida. «E certo é que um processo de recuperação d’Os Lusíadas se iniciou em 1597 e se cumpriu na edição de 1609, que resgatou, excepto pontuais variantes, a forma da ‘princeps’»

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Leituras de Camões no Tempo dos Filipes
«(…) Precisamos de coligir alguns dados: recapitulados ou dispostos em cadeia, iluminam-se mutuamente e ajudam a pensar. Desde logo, fala por si o dinamismo de impressores e livreiros: a abundância da oferta patenteia a intensidade da procura. Em Portugal, depois da editio princeps d’Os Lusíadas (1572), vieram as de 1584, 1591, 1597, 1609, 1612, 1613, 1626, 1631, 1633. A estas somou-se a publicaçáo da lírica (1595, 1598, 1607, 1614, 1616, 1621, 1629, 1632),a de textos de teatro (1587, 1615, 1616) e a da epistolografia, com as duas cartas em prosa divulgadas a partir das Rimas de 1598 e o dramático fragmento transcrito na dedicatória d’Os Lusíadas saídos dos prelos em 1626 (verão todos que fui tão afeiçoado a minha pátria, que não só me contentei de morrer nela, mas de morrer com ela). O que impressiona não é apenas o número e o ritmo da actividade tipográfica, que abranda cerca de 1630, verosimilmente por saturação do mercado. Além da quantidade e da frequência das edições, significativo, não menos, é o que nelas se integra e o que delas se exclui. À margem da frenética caça de novidades cultivada em torno de Camões, o corpus das cartas foi o único a permanecer magro e estável, numa contenção que só um cuidado de decoro pode explicar. Missivas desbragadas, com relatos da estúrdia lisboeta, vieram a lume no século XX, não antes. E nem estariam perdidas. Tê-las-á votado ao ostracismo um consensual e duradouro propósito de não ferir a dignidade do ícone que um título cedo consagrara: o príncipe dos poetas heroicos Portugueses.
Eloquente é também a materialidade dos livros, marcados, alguns, pela pressa ou pela ânsia de tudo rentabilizar na sua execução. Foi com Os Lusíadas de Camões que em 1626 a oficina Craesbeeck inaugurou, em Portugal, a publicaçáo de obras num formato diminuto, em letra pequena que – vincava Franco Barreto, com razão se deve chamar sua, pois só para ele se mandou vir de fora a este Reino. Decerto, embora sem semelhante requinte técnico e estético, não era a primeira vez que se estampavam volumes de dimensões reduzidas. No âmbito religioso, as escalas pequenas constituíam uma solução comum, justificada em pragmáticos cálculos como os que Baltasar Estaço formulou (porque valha menos e se comunique mais) ou na captatio benevolentiae de prólogos como o do Manual de diversas oraciones y spirituales ejercicios, sacado por la mayor parte del libro llamado Guía dc pecadores, que compuso el R. P Fray Luís de Granada (1557): Recibe pues, cristiano lector, com benignos ojos este pequeño presente, que cuanto es más pequeño, tanto te será más ligero de traer y más fácil de comprar por pobre que seas. Na dedicatória d’Os Lusíadas, porém, tão prosaico argumento não foi repetido.
Dirigindo-se a João de Almeida, o que Lourenço Craesbeeck salientou foi o prodígio cuja fruição proporcionava: Reduzido a tão pequeno corpo, ofereço a v.m. o mor gigante do Parnaso, e assi como em um pequeno mapa se compreende toda a máquina do mundo, assi neste breviado volume se inclú toda a perfeição da poesia [...]. Diamante é, encarecia: o qual por meio desta impressáo resumi a tão pequeno espaço, porque não é justo que os cnriosos se contentem só de o lerem, mas de o trazerem sempre consigo. Um livro precioso e de todas as horas, em suma. Craesbeeck não se enganava, porque a curto intervalo (1631, 1633) retomou esta receita, e a reedição é habitual consequência do êxito. Em síntese: houve muitas edições camonianas, promovendo o autor e sua obra; houve até o rasgo e a ambiçáo de difundir os enormes Lusíadas em dilectos e portáteis livrinhos de bolso; houve o cuidado de proteger a imagem gloriosa do Poeta. E houve mais: entre 1584 e 1597 a epopeia vergou ao peso da censura; a partir daí, houve meios e licença para que circulasse de novo numa versão fiel àquela que, sob os auspícios do proprio Luís Vaz, brilhara impressa em 1572.
Se as edições de 1584 e de 1591, com seus múltiplos cortes, seus desajeitados ajustes e suas notas por vezes medíocres, foram adaptações ad usum delphini, concebidas para uma utilização pedagógica norteada pela Companhia de Jesus, convirá não as rotular de meros espelhos de escrúpulos, pois de acordo com esta hipótese valeriam como instrumentos de aproximação entre um público jovem e a épica camoniana. Fosse como fosse, não se apagara a consciência de que aquele não era o texto do autor. E certo é que um processo de recuperação d’Os Lusíadas se iniciou em 1597 e se cumpriu na edição de 1609, que resgatou, excepto pontuais variantes, a forma da princeps». In Isabel Almeida, Siglo de Oro, Relações Hispano-Portuguesas no século XVII, Fundação Calouste Gulbenkian, Colóquio Letras, 2011.

Cortesia da FCGulbenkian/JDACT

sábado, 19 de janeiro de 2013

Siglo de Oro. Relações Hispano-Portuguesas no século XVII. Isabel Almeida. «Nada mais seria preciso para indicar a voz da tentação, mas o escúpulo do autor leva-o a acrescentar ainda, severas e peremptórias, óbvias advertências, e entre elas uma que, além de servir de remate moral à peripécia…»

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Leituras de Camões no Tempo dos Filipes
«Por volta de 1589, um grupo de estudantes de Teologia da Universidade de Évora preencheu tempos de ócio convertendo espirituosamente ao de-vinho o Canto I d’Os Lusíadas. Também nessa época, Tristão Gomes Castro compôs na sua Argonáutica da Cavalaria uma aventura paródica em que o herói, de promissor nome Leomundo, percebe com susto e náusea que é üa fegura de mulher, a mais horrible feia que em toda a vida tinha visto, aquela cujo encantamento deve quebrar com um beijo. Não custa descobrir o modelo de tamanha fealdade e da reacção que suscita. O episódio do Adamastor pairava na imaginaçáo de Gomes Castro quando este madeirense, decidido a engendrar admiráveis surpresas, retomou e amplificou, na efígie da princesa adormecida, traços do monstro horrendo descrito por Camões, e na aflição do paladino o medo do Gama em face desse estranhíssimo colosso, começaram logo as carnes [de Leomundo] de se lhe arrepiar, e os cabelos da cabeça a se lhe rebatarem ao ver tão:
  • grandíssima estatura, a cor do rosto terrena e pálida, coberto de uas pintas muito negras e vermelhas que lhe faziam o rosto medonhosíssimo; os olhos mui piquenos e encovados, a boca negra, os dentes amarelos e lançados dela mais de quatro dedos, a barba escálida, os cabelos negros e muito retrocidos.
Por seu turno, sempre em idêntico período, Fernão Álvares do Oriente, pronto a apregoar, na Lusitânia Transformada, genuína devoção por Camões, elaborou aí como que um epílogo edificante do episódio da Ilha de Vénus. Sinal da mudança e do seu sentido morigerador, a ilha, cristianizada, volve-se da Rainha santa Helena, e as ninfas que nela deambulam já não praticam as artes que Citereia pagã ensina: penitentes e lacrimosas, carregam remorso pela pureza […] mal perdida e pelos desconcertos de amor passados com os primeiros argonautas do largo oceano. Nessa esteira seguiria Vasco Mousinho, que no Affonso Africano (1611) recriou criticamente o mesmo episódio d’Os Lusíadas, condenando com ênfase, através de hábeis efeitos dialógicos, a extraordinária liberdade pintada na ilha angélica.
Vasco Mousinho de Quevedo, permeável à influência da Gerusalemme Liberata, de Torquato Tasso, imita e refuta, emula e repreende: inverte ou altera a caracterização de personagens e situações; torna prazer sinónimo de pecado; e se evoca, com nitidez, palavras d’Os Lusíadas, recrimina a sua lição. Que no lema hedonista propalado por uma sereia caiba um verso do estupendo Canto IX

Gozemos o melhor da fermosura
que deu para se dar a Natureza,

Nada mais seria preciso para indicar a voz da tentação, mas o escúpulo do autor leva-o a acrescentar ainda, severas e peremptórias, óbvias advertências, e entre elas uma que, além de servir de remate moral à peripécia, compendia doutrina poética afìnada pelos ditames de Trento:

Nem de exemplos useis vituperados
em Lei de qualquer livre entendimento,
só para doce fábula inventados,
que a sensuais enleve o pensamento.

E se aqueles por fortes são julgados,
não teveram porém conhecimento,
que era de um forte a mais famosa empresa,
executar consigo a fortaleza.

Contrastantes, apropriaçóes iconoclastas ou reinvenções animadas de intuitos correctores, estes exemplos sugerem uma vária presença de Camões e evidenciam quão díspares seriam os caminhos da recepção da sua obra (maxime d’Os Lusíadas) no quadro da Monarquia Dual. Por outra via, empenhado em garantir a memória das cousas da pátria (Tão alheios vivemos nós de nós mesmos...) e em impugnar uma opção historiográfica que reputou escandalosa, Gaspar Estaço não hesitou em recorrer ao poema como testemunha salvítìca: acusando Duarte Nunes de Leão de elidir, na sua Crónica de D. Afonso Henriques, a façanha de Egas Moniz, Estaço bradava contra um eclipse capaz de vingar:
  • se não fora o poeta Luís de Camões, que com seu bom júzo e curiosa eleição recolheu de nossas histórias as pedras preciosas de mais estima, pera com elas honrar a obra dos seus Lusíadas.
O que se pretende aqui não é ilustrar todo esse vasto fenómeno, nem sequer dar conta do amplo espectro de questões que despertou ou implicou. Procurar-se-á, sim, restringir o escopo do trabalho, fazendo sobressair processos de valorização simbólica da epopeia como o que Gaspar Estaço adoptou; processos que, indissociáveis de uma atitude política, ora de resistência ou reserva à ordem instaurada, ora de sintonia com o regime filipino, envolvem, para lá de imediatas iniciativas individuais, malhas de interesses não raro apoiados em fortes tradições». In Isabel Almeida, Siglo de Oro, Relações Hispano-Portuguesas no século XVII, Fundação Calouste Gulbenkian, Colóquio Letras, 2011.

Cortesia da FCGulbenkian/JDACT