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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Budismo na obra de Dalila Pereira Costa. Rui Lopo. « atingido uma acuidade ou uma perfeição derradeira, mas infinitamente aberta, futurante. Assim, depois do Budismo do Extremo Oriente, lentamente através do Continente, se afirmaria um ser intacto»

Cortesia de wikipedia

«(…) O Budismo continua assim a ser apresentado como um meio de libertação que implica a negação da vida, como o acto da extinção duma chama soprando, como uma filosofia de aniquilamento proposta para seres além de todo o humano. A filosofia da saudade, junto do Atlântico, contrapolarmente realizaria e proporia a total aceitação da realidade do humano, mas ultrapassado na exigência cristã: por sua assunpção: e que ainda nela, por ela, levará consigo a Natureza toda. Refira-se que a abordagem da tradição budista é, na obra de Dalila, elemento de um périplo porventura inspirado pela reflexão de Leonardo Coimbra. Dalila percorre assim Hinduísmo, orfismo, pitagorismo, platonismo e outras correntes salvíficas, destacando o que nelas haja de afim ou contrapolar da proposta de libertação que a Saudade encerra. Este Périplo move-se de leste para oeste, ou do Extremo-Oriente pelo Mediterrâneo até à Ocidental Praia Lusitana.
Pretendendo resolver a tensão que o seu pensamento denota, Dalila acaba por sintetizar, de forma ambígua, que entre o Budismo e a saudade haveria um processo realizado por oposição e semelhança, um processo de ultrapassamento e maturação do homem e, com ele, da natureza. Dalila encontra assim um mesmo veio, ou fio vindo do Oriente, detectável e possível de seguir, que aqui no solo extremo galaico-português teria atingido uma acuidade ou uma perfeição derradeira, mas infinitamente aberta, futurante. Assim, depois do Budismo do Extremo Oriente, lentamente através do Continente, se afirmaria um ser intacto, que perdura e subsiste através de várias formas assumidas na manifestação, e que se lembra de si: na memória, reatando momento a momento, existência a existência, a cadeia indivisa de sua imortalidade, na vida de na morte. Desde lá atrás, dos gregos, na reminiscência, até ao povo galaico-português, na saudade».
Dalila começa por reconhecer um processo de oposição-semelhança mas termina por apontar no extremo do ocaso ocidental uma resolução da oposição do problema posto no outro extremo do nascente. O Mediterrâneo, o franciscanismo e a teoria portuguesa da saudade são apresentados como os lugares onde o vazio, como niilismo e aniquilamento, será por fim abandonado e desfeito. Seria então agora o momento de reatar, depois de quatro séculos de suspensão e ocultamento, um processo de união entre os dois extremos da Eurásia. Seria assim o momento de reintegração de Oriente e Ocidente, o que, para os cristãos herméticos ou místicos poderia ter sido visto como uma realização da Grande Obra. Apontaríamos a Dalila Pereira Costa, contudo, uma lacuna no cumprimento do seu próprio projecto, lacuna aliás facilmente compreensível por contingências histórico-culturais e pela grandeza do desafio a que se propôs. Imputámos a Dalila uma certa incompreensão da tradição budista, ao identificá-la com o niilismo e ao propor a sua superação mediante a adopção de um eternalismo ou substancialismo que lhe é correlativo e contrapolar. Por outro lado, reconhecemos nela um ecumenismo genuíno e o valor de ter compreendido que aquilo a que se tem chamado o pensamento oriental e budista constituem chaves, por confrontação e analogia, de autoconhecimento do Ocidente e, peculiarmente, da cultura portuguesa, chaves de cotejo com alguns temas a que nos habituámos a considerar ocidentais. Assim, seria o momento de retomar os estudos orientais tendo presente o enorme acervo ainda intratado de documentação portuguesa respeitante ao tema. Dalila cita as tradições orientais a partir de contemporâneos trabalhos de divulgação ocidental. Na impossibilidade de consultar as fontes directas e distante do contacto tradicional com mestres que lhe poderiam esclarecer o alcance e o sentido, Dalila poderia ter procurado o que os pioneiros viajantes portugueses do Século XV, XVI e XVII do Budismo disseram. É-nos dado crer que do aturado estudo de tais fontes, hoje praticamente, esquecidas, provirá um muito proveitoso conhecimento do que foi realmente o encontro histórico de culturas e o contexto original do que foi e tem sido a (in-)compreensão ocidental das tradições do Oriente». In Rui Lopo, A leitura do Budismo na obra de Dalila Pereira da Costa, Estudos, Universidade de Lisboa, Associação Agostinho da Silva, Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Ano VI, 2007.
FIM

Cortesia da ULisboa/JDACT

Budismo na obra de Dalila Pereira Costa. Rui Lopo. «Colocando-se a necessidade de reconhecimento ou identificação do eu, Dalila Pereira interroga onde iremos colher o elo que une o eu diurno e o eu nocturno, o ser vígil e o ser onírico»

Cortesia de wikipedia

«(…) O estado a que se chama nirvana, em vez de ser definido como uma experiência de aniquilação deve ser entendido como uma visão da vacuidade de todos os fenómenos, o que não equivale à sua mera inexistência e, assim, à total ausência de sofrimento. Todavia, nas escolas do chamado Grande Veículo, é ensinado que para além do samsara e do nirvana é que reside o Despertar último, a Budeidade perfeita. Só aí se poderá aceder à percepção simultânea da vacuidade e da experiência relativa dos seres condicionados. A identificação do Budismo com uma forma de niilismo constitui assim uma construção filosófica ocidental de oitocentos, ainda mantida por alguns intérpretes que não se deixam persuadir pela contemporânea literatura budológica, de crescente qualidade e consistência teórica.
Em outra obra, mais recentemente publicada, Os Sonhos - Porta de Conhecimento, a mesma questão volta a surgir. Colocando-se a necessidade de reconhecimento ou identificação do eu, Dalila Pereira interroga onde iremos colher o elo que une o eu diurno e o eu nocturno, o ser vígil e o ser onírico. A sua postura metafísica leva-a a experimentar a necessidade de remontar a um substrato sobrenatural que denomina como surexistência. As perdas, as mudanças, deverão ser vistas como aparentes, exteriores e provisórias. A evidência da transformação, e do sofrimento que lhe é inerente, não deverá contudo conduzir a nenhuma espécie de Nada: a certeza da descontinuidade não deverá implicar um caminho de aniquilação mas, pelo contrário, a segura apreensão e possessão da sua continuidade, da sua imortalidade; o conhecimento do Sol transcendente. A autora explicita então o diálogo filosófico que estava travando: Os sonhos serão assim um outro caminho oposto ao niilismo do Budismo. E um outro caminho de ascese. Uma outra prática e aprendizagem de despojamento do nosso eu aparente, visto como o único e verdadeiro, através duma primeira e falsa identificação. Despojamento que é incessante aproximação duma essência transcendente; caminho para a possessão da certeza da nossa imortalidade.
Os sonhos são assim apresentados como uma possibilidade de defrontar face a face o real transcendente, constituindo uma das maiores aberturas sobre a surnatureza, o outro mundo, (...) um momentâneo rasgo da parede de opacidade que nos tapa o outro lado, afim do conhecimento poético e da iluminação. A recusa budista da vida, marcada pela angústia e o desespero, seria assim superada pela via saudosa, definida como humilde e amante aceitação da vida. O Nirvana, como estado de alegria extrema pelo desespero extremo, atingido quando se renuncia a apreender a vida e com ela a si próprio, como eu, terá como pólo oposto a apaziguada sabedoria da iluminação expressa por Camões. A mesma ideia irá ser repetida em uma outra obra sua, afastando-se do anteriormente assumido encontro de tradições e propondo agora, de forma um tanto esquemática, uma clara preferência e uma exclusiva opção: conhecer o que só o Cristianismo trouxe, e nele o franciscanismo, altamente proclamou, como saber e poder de viver na terra, na alegria da união com ela, pelo seu amor, onde tudo é ultrapassado. Onde ela é possuída, mas de forma tão desligada, independente. Então, Buda será vencido pela saudade». In Rui Lopo, A leitura do Budismo na obra de Dalila Pereira da Costa, Estudos, Universidade de Lisboa, Associação Agostinho da Silva, Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Ano VI, 2007.

Cortesia da ULisboa/JDACT

Budismo na obra de Dalila Pereira Costa. Rui Lopo. «A saudade e o espinosismo (apresentado como importação ocidental de uma forma de conhecimento salvífico, próprio da cultura oriental) inscreveriam assim, no Ocidente moderno, sem nenhum ponto comum…»

Cortesia de wikipedia

«(…) Dalila Pereira aponta para a necessidade de superação da actual confrontação entre Ocidente e Oriente, situação que seria marcada pela oposição e incompreensão mútuas. A saudade, seria assim, no Extremo-Ocidente, uma forma de conhecimento, como conhecimento-vivência, que fará parte daqueles a que, como o Taoísmo, Budismo zen, vedanta, ou yoga, se podem chamar propriamente meios de libertação. Dalila reitera o que já antes afirmara: que o complexo cultural da saudade se aparenta mais às formas cognitivas orientais do que às ocidentais. Na cultura ocidental moderna surgiria assim um conhecimento, porventura único, que é simultaneamente uma vivência, diverso pois do pensamento ocidental, habitualmente distanciado e desinteressado. Esse conhecimento, da saudade, constituiria uma proposta mais que uma imposição, de um meio de libertação. A saudade e o espinosismo (apresentado como importação ocidental de uma forma de conhecimento salvífico, próprio da cultura oriental) inscreveriam assim, no Ocidente moderno, sem nenhum ponto comum com o contexto cultural donde brotaram, sabedorias salvíficas.
A aproximação ao Oriente pode então ser vista como um modo de regresso, recuperação e renovação de fontes aqui esquecidas ou refutadas: subjacente à saudade, como ao Taoísmo, zen, yoga, tantrismo, como meios de libertação, residiria uma força de vida, que poderia ser contactada, possuída directamente, e que rebentará os limites e capacidade do puro intelecto, como única e parcial forma cognitiva usada pelo homem ocidental. A saudade, tal como essas tradições orientais, situa o centro do conhecimento não no pensamento consciente mas no coração. O Budismo corresponderia, contudo, a uma desvalorização da vida. A isto no Oriente se consideraria como uma forma de libertação. Ao longo do continente eurásico, contudo, dar-se-ia um aceitar e assumir progressivo do corpo e vida terrestre, de Leste a Oeste, pelo amor. Camões, assim, teria pela saudade transmitido um ensinamento contrapolar ao do Buda, mas nascendo todavia da mesma experiência, como choque dramático do ser e estar no mundo. A experiência da saudade propiciaria, por um mesmo Despertar, um outro atingir da libertação em face do sofrimento, do devir, do ciclo morte-vida-morte, e uma outra apreensão do eu absoluto. A inapreensibilidade do eu individual será vencida pela memória, a que conserva indelével através do devir, o traço da sua realidade, transitando incólume, entre vida e morte, Sião e Babilónia.
Este passo surge-nos como dos mais importantes de toda a reflexão teórica de Dalila acerca do Budismo. Parecendo aceitar uma teorização da metempsicose de tipo pitagórico, Dalila, em sua teoria da saudade não só mantem o eu, como ainda mais, opera a revelação de um eu absoluto, perfeitamente experienciável, afirmado em toda a sua positividade, como entidade permanente e substracto de nossas experiências sucessivas. A proposta budista de libertação seria, assim, ultrapassada pela experiência saudosa. Em contexto budista, a proposta de Dalila Pereira Costa configura aquilo que se designa como uma visão extrema, o substancialismo ou eternalismo, posição que afirma uma entidade permanente e substancial que fundaria os fenómenos ou o eu.
Esta atitude é tradicionalmente refutada argumentando com o reconhecimento de que tudo o que é composto é impermanente e de que tudo o que aparece é interdependente, não podendo nada existir separadamente e nenhuma aparência possuindo existência absoluta, mas sempre relativa à percepção condicionada que a apreende. Assim, sempre o tempo e a matéria poderão ser divididos e sempre o eu deverá ser visto como um conjunto de agregados karmicamente condicionados e marcados por uma experiência de apego e aversão mais ou menos intensa. O contrário absoluto da posição eternalista constituirá, na posição sustentada pelas escolas filosóficas budistas, uma outra visão extrema: a da negação de toda a realidade e verdade aos fenómenos e ao eu, configurando uma posição niilista, que deve ser refutada pelos adeptos do Caminho do Meio, lembrando que a lei do karma é real para quem a experiencia, embora haja um estado, absolutamente real, onde tal lei deixa de ser actuante. Esta argumentação, conhecida como teoria da dupla verdade, não constitui um posicionamento dualista na medida em que a verdade relativa (a verdade da dor que perpassa toda a existência condicionada) se subsume na verdade absoluta, a verdade última percepcionada pela sabedoria, desprovida de fabricações mentais e caracterizada por se encontrar para além da mente, por ser impensável e inexprimível». In Rui Lopo, A leitura do Budismo na obra de Dalila Pereira da Costa, Estudos, Universidade de Lisboa, Associação Agostinho da Silva, Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Ano VI, 2007.

Cortesia da ULisboa/JDACT

Dalila Pereira Costa. A Leitura do Budismo. Rui Lopo. «Dalila afirma que ao abrir para um plano superior do ser, para uma supra-consciência, a saudade só tem par nas formas mais altas da sabedoria oriental e nas dos raros povos actuais de mentalidade…»

Cortesia de wikipedia

«(…) O que na obra de Dalila se propõe é, em primeiro lugar, o reconhecimento do inconsciente colectivo como um mestre espiritual (esse inconsciente, ou mestre espiritual, falará aqui pela voz de dois de seus poetas, absolutos, Camões e Gil Vicente. e pela voz dos seus dois amantes absolutos) e em segundo lugar, a identificação do eu individual ao eu pátrio, como eu supremo. Na cultura portuguesa, assim, cada um destes mantras, corresponderá sintética, arquetípica e simbolicamente às experiências do amor, do conhecimento, da história e do céu. Essas fórmulas serão modos de comunicação de uma via de realização individual e colectiva que culmina numa identificação final. Estes quatro mantras sintetizam aqui a alma portuguesa, isto é, aquilo que na alma portuguesa a move e conduz para o ultrapassamento e superação de si própria, patente em estados-limite de ruptura, de levar o possível ao impossível. A memória até a saudade, a vida até a morte, o desconhecido até ao conhecido. conduzir, desenvolver uma essência ou existência, ou melhor, uma essência numa existência, ao máximo da sua potencialidade, mesmo que humanamente, por essa inserção nele do ilimitado divino, o sacrifício seja total, como dom de vida na morte.
Uma outra temática oriental, hindu e budista, que originalmente surge na teorização de Dalila é a de Maya, definido como o modo de ocultamento do uno no múltiplo e modo de apresentação lúdica desse mesmo uno sob a forma de múltiplo, isto é de aparência e metamorfose daquilo que por natureza é essencialmente imutável. Pela saudade seria possível o acesso à coincidência dos contrários na terra, isto é, num modo de existência espacio-temporalmente condicionado se acederia à visão do Ser dos seres, o impassível e intocável. A utilização do conceito de maya por Dalila é algo dualista, ao procurar ver subjacente à ilusão da multiplicidade uma unidade real e verdadeira. Essa visão seria possibilitada por um exercício de despojamento e ascese. Ao utilizarmos o conceito de dualismo para certos aspectos da teorização de Dalila ou para determinados pontos da sua interpretação do Budismo (ou construção de um neo-budismo), teremos sempre de ter em atenção o quanto Dalila preza o monismo espinosista, a tradição da mística unitiva e o próprio paganismo de raiz celta, que vê sobrevivente e actuante na peculiar tradição cristã portuguesa: a acção da saudade será ainda de dimensão funda e vastíssima na humanidade: como acção ou poder de inserção do paganismo dentro do Cristianismo (...) A saudade manifesta-se (...) num contexto de espiritualidade nacional de formulação cristã: mas para ela trazendo já de trás, do fundo dos tempos, do seu passado imemorial, um outro húmus, como espiritualidade pagã, a que nega o tempo como corrente irreversível e linear.
Dalila anuncia que por fim se vencerá a morte, amando e assumindo a vida, mediante a compaixão da saudade, contraposta à do Budismo. Não logrando desenvolver um tema tão importante como o da compaixão, Dalila denuncia aqui o que já antes havia sugerido, que na saudade estaria presente um amor do mundo que no Budismo se reveste do carácter de uma fuga desse mesmo mundo. Noutro passo, Dalila afirma que a compaixão budista é de todo falta de sentimento e feita na sua ausência, enquanto que a saudade seria um amor humano, repleto de sentimento e feito através dele. Desvalorizando assim a compaixão budista, Dalila irá, todavia elogiar a noção de karma. Deste modo, a autora detecta na visão saudosa do rei Duarte I, a superação do nível moral-teológico cristão e uma aproximação à visão oriental do karma, que considera como de tipo antropo-cosmológico. Assim, em vez de procurar estabelecer normas de conduta de forma coactiva e impositiva, a teoria da saudade procuraria antes reconhecer a causalidade mais profunda a que o homem estaria na sua existência sujeito, enquanto inscrito numa ordem cósmica. Por tudo o que já foi dito, Dalila afirma que ao abrir para um plano superior do ser, para uma supra-consciência, a saudade só tem par nas formas mais altas da sabedoria oriental e nas dos raros povos actuais de mentalidade dita primitiva, ainda subsistentes à face da terra; ainda usados e conhecidos à face da terra; ainda usados e conhecidos também outrora na sabedoria ocidental, nas suas culturas tradicionais. Estas formas contudo, hoje perdidas, só seriam fragmentariamente acessíveis pela poesia, religião ou magia. A cultura ocidental, marcada por dicotomias irredutíveis, poderia ser renovada num sentido libertador mediante a recuperação desses fragmentos, de que é expressão maior a poesia saudosa de Camões, dotada de uma fecundidade infinita nos tempos, (...) a par dos Hinos Vedas especulativos, da filosofia dos pré-socráticos, dos Tantras e Sutras do Budismo, dos escritos do hassidismo...» In Rui Lopo, A leitura do Budismo na obra de Dalila Pereira da Costa, Estudos, Universidade de Lisboa, Associação Agostinho da Silva, Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Ano VI, 2007.

Cortesia da ULisboa/JDACT

A Leitura do Budismo na obra de Dalila Pereira Costa. Rui Lopo. «Em contexto budista, a importante noção de ‘mantra’ é tradicionalmente definida como um som protector (‘tra’) da mente (‘man’) na medida em que se trata de um som puro, um som que ecoa a realidade absoluta, é dito que só os budas plenamente…»

Cortesia de wikipedia

«(…) Como que ecoando antigas pretensões, em registo mito-poético formuladas, de constituição de uma religião nacional (detectáveis de forma explícita em Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa), Dalila estatui a saudade como experiência culminante da proposta de sabedoria portuguesa, força libertadora de reintegração, contributo para uma nova Descoberta perene e universal, a descoberta do Mar Absoluto, o mar do espírito. Dalila vê ainda nas próprias formas anímicas e históricas regressivas o elemento a utilizar por um ser integrado, o elemento que permitirá levar para fora de si próprio, dando-lhe a sua vera natureza, fazendo-o revelar-se, ao transcender-se a si próprio e ao mundo. Dalila continuará a explorar esta original e paradoxal conciliação da busca de um eu perene com uma pulsão de transcensão de si e de saída para fora de si. Daí que também previna que a saudade possa ser possibilidade dupla, de salvação e perdição para o povo que a elegeu e pratica. E neste ponto parece detectar-se uma hesitação no pensamento de Dalila Pereira Costa. Pois a saudade, enquanto experiência culminante e máxima da espiritualidade nacional, depende afinal de uma finalidade que lhe seja dada, uma direcção que lhe seja impressa, uma justificação teleológica para o movimento que desencadeia. Daí que seja necessário proceder à comparação com o trabalho alquímico, bem metódico e descrito em suas operações graduais: O nigredo, obra ao negro, será comparado à estação do Rei na Ilha Encoberta, provação colectiva que define uma primeira operação de auto-gnose, uma descida ao fundo da alma. Sebastianismo, Saudade, profetismo apresentam-se assim como elementos de uma espiritualidade em oposição à espiritualidade europeia moderna, como um núcleo a perseverar, um tesouro desconhecido que haveria que desenterrar, ar a ver, partilhar e usar. Estabelecida esta oposição com a Europa e o Ocidente modernos, a autora procede então à confrontação da experiência da saudade com a espiritualidade do Oriente e concretamente com o Budismo.
Em contexto budista, a importante noção de mantra é tradicionalmente definida como um som protector (tra) da mente (man) na medida em que se trata de um som puro, um som que ecoa a realidade absoluta, é dito que só os budas plenamente despertos poderão enunciar tais mantras, que dependem do conhecimento preciso de todos os fenómenos do samsara e do nirvana, do conhecimento da causalidade originária, do conhecimento da acção benéfica dos sons e da comunicação pela língua e do conhecimento do karma e dos laços existentes entre as causas e os efeitos. Dalila Pereira utiliza este conceito tradicional e redefine-o de modo a encontrar na espiritualidade portuguesa quatro mantras, quatro fórmulas eminentes de consciência do eu pátrio. Esta entidade espiritual colectiva, ao modo de um mestre espiritual, transmitirá tais enunciados aos seus discípulos, filhos espirituais ou herdeiros místicos que são cada um dos portugueses. É dito que tais fórmulas permitirão a cada um o despertar, a subida da energia própria para tomada de consciência de si. Como manifestação do conhecimento supremo. Como revelação do Eu, que reside no seu eu. Vale a pena aqui referir que, em contexto budista, mais especificamente no mantrayana, o veículo dos mantras, designação também dada ao vajrayana ou tantrayana, o veículo adamantino, o veículo que concilia a visão da vacuidade e a utilização dos meios hábeis, as práticas mais avançadas, e que supõem uma longa prática e o acompanhamento de um Mestre qualificado, propõem a visualização de cada um sob a forma de um Buda, de cada um como já sendo aquilo que afinal nunca deixou de ser, a natureza primordial para além de toda a ilusão». In Rui Lopo, A leitura do Budismo na obra de Dalila Pereira da Costa, Estudos, Universidade de Lisboa, Associação Agostinho da Silva, Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Ano VI, 2007.

Cortesia da ULisboa/JDACT

domingo, 14 de junho de 2015

A Leitura do Budismo na obra de Dalila Pereira Costa. Rui Lopo. «A saudade pode assim ser teologicamente considerada como uma via medial, via de salvação pelo conhecimento e ascese, (...) impregnação da terra pelo céu e do tempo pela eternidade…»

Cortesia de wikipedia

«(…) O presente estudo circunscreve-se à função que a referência budista desempenha na obra de Dalila que tem como tema e objectivo a apresentação de um pensamento original e próprio, de tipo especulativo e traços místicos sobre a Saudade. Como veremos, tal referência encontra-se marcada por ambiguidades e configura a construção de um neobudismo, isto é, o estabelecimento de uma atitude mental denominada como budismo, que é utilizada como contraponto daquilo que se quer afirmar. Esta atitude filosófica tem sido já denunciada por diversos intérpretes que alertam para o curioso facto de, no preciso momento histórico em que no Ocidente se começavam a conhecer, em círculos especializados de sábios e tradutores os primeiros textos budistas, alguns filósofos terem começado a delimitar e definir um neobudismo, de tipo niilista, que pouca relação tinha com esses textos ou com a própria realidade da prática budista oriental. Para Dalila Pereira da Costa, a saudade necessariamente subentende um núcleo perene, um eu incólume como Eu, que através de todas as suas metamorfoses atravessando tempo e espaço, as liga e ligando-as, mostra ou demonstra, e ainda justifica, como causa e efeito, a identidade desse eu vivente. Em trânsito sobre a terra. A autora confere assim ao Eu profundo um estatuto de essência, superando as contingências de um ser em trânsito. Radicalizando desde logo o seu discurso, a primeira atitude filosófica exterior à sua própria que a autora convoca é, como já vimos, justamente o budismo: A saudade será a mais potente força de oposição no Ocidente à descontinuidade budista do eu no Oriente. É só pela saudade que se poderá aceder a um eu perene e essencial, irredutível a todas as transformações por que passa o eu aparente que atravessa múltiplas condições e estados de ser e de consciência, a saudade seria assim uma força de vitória sobre o tempo, imagem humana da transformação derradeira na sua realidade vera: a eternidade. A saudade pode assim ser teologicamente considerada como uma via medial, via de salvação pelo conhecimento e ascese, (...) impregnação da terra pelo céu e do tempo pela eternidade, como união recíproca, na final identidade.
A autora denuncia que o existencialismo ocidental e o Budismo oriental convergiriam no niilismo, caracterizado pela angústia e desespero e por propor uma fuga perante a vida. A esta fuga opor-se-ia a acção saudosa que venceria tempo e espaço, o devir e o sofrimento que lhe é inerente, operando a superação e libertação do humano mediante uma assunpção mais completa da vida, do mundo e de si próprio: Só aqui na Terra, nesta orla atlântica da Península, a alma do homem teria assumido integralmente, e amoravelmente, o tempo, para o ultrapassar. A libertação seria possibilitada, propiciada e suscitada pela própria fidelidade à terra e sua paixão, pretensamente oposta à fuga mundi própria do niilismo budista. E Portugal, a cultura portuguesa e a proposta e experiência da Saudade seria talvez o ponto dialéctico de oposição e resolução, em união de complementaridade, de primeiro e último, do Oriente e do Ocidente, aqui achado e elevado na terra dos homens.
Dalila procura assim refutar o Budismo nos seus traços mais essenciais, isto é, reduzindo-o a características tão esquemáticas que o desfiguram até se tornar irreconhecível. Contudo, movida por um genuíno ecumenismo e ao valorizar a sabedoria portuguesa como um meio de libertação, estatui a saudade como um meio de libertação, a par das experiências espirituais orientais, valorizando-as assim indirectamente. Prosseguindo este desígnio, a autora utiliza até um vocabulário retirado dessas tradições com o objectivo expresso de destacar a original especificidade da Saudade, como que implicitamente pressupondo e declarando que o recurso às tradições orientais seja indispensável ao conhecimento aprofundado do que mais importaria na cultura portuguesa.
Este paradoxo ou ambiguidade é reforçado pelo reconhecimento de que há características na cultura portuguesa que se encontram em frontal oposição à tradição europeia. Ao discorrer sobre a saudade, Dalila define-a como uma das mais altas experiências espirituais dadas à humanidade, só que, diferentemente da mítica e da poética, acessível, enquanto via de salvamento a todo um povo, continuadamente ao longo de sua longa história. Todos os tipos de conhecimento espiritual seriam assim formas de prospecção e união com o divino, o transcendente e o mistério. A saudade seria assim um conhecimento que faz participar na realidade suprema. Essa participação é vivenciada como uma forma de alegria em toda a sua força de libertação, revelando que a verdadeira realidade do mundo é isenta de devir, mudança e sua dor, mas que persiste e subsiste dela incólume. A saudade é assim definida como um poder de revelação da eternidade. Dalila vê os textos portugueses impregnados de saudade como elementos não menosprezáveis do mais precioso património espiritual da humanidade, a par de outros documentos que dão conta de outras experiências espirituais libertadoras, em outras tradições, tempos históricos e localizações geográficas, testemunhos da vida imortal». In Rui Lopo, A leitura do Budismo na obra de Dalila Pereira da Costa, Estudos, Universidade de Lisboa, Associação Agostinho da Silva, Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Ano VI, 2007.

Cortesia da ULisboa/JDACT

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A leitura do Budismo na obra de Dalila Pereira Costa. Rui Lopo. «… a filosofia, tal qual foi, tal qual é, seria incompreensível sem a contribuição de judeus, árabes e cristãos, sejam teólogos ou filósofos da Natureza. Assim também o pensamento dos gregos seria incompreensível sem o Oriente...»

Cortesia de wikipedia

«(…) Pois que o que sucedeu foi apenas o abrir de uma possibilidade, a exposição de uma virtualidade por realizar. Segundo Quadros, ao possibilitar a interpenetração fica aberta à filosofia a sua mais ampla compreensão: ofertámos à especulação filosófica a máxima latitude dos pensamentos ocidentais e orientais. Assim, mais que celebrar as navegações haveria que proceder à efectiva descoberta do que o Oriente realmente seja. No mesmo sentido, recordemos um muito digno de menção e reflexão heterónimo castelhano de Agostinho da Silva, José Maria Carriedo, apresentado ao leitor como um amigo que intervém no curioso diálogo entre heterónimos presente em Folhas Soltas de São Bento: homem que mora há quarenta anos no Japão, que come à japonesa, mora à japonesa, veste à japonesa, não me falou de outra coisa senão da Espanha e dos problemas da Espanha, aonde nunca voltou (...) como bom espanhol, Carriedo não teoriza sobre sua existência; limita-se, ou dilata-se, a vivê-la plenamente; as teorias ficam para os cartesianos; como cartesiano, proporia eu que se visse em Carriedo uma explosão daquele orientalismo que os observadores têm denunciado na evolução da cultura peninsular e uma afirmação de que o motivo religioso ainda é o mais forte na Ibéria. Pelos mesmos anos, também José Marinho irá reflectir sobre a pretensa oposição entre Ocidente e Oriente. Assim, dirá que a filosofia, tal qual foi, tal qual é, seria incompreensível sem a contribuição de judeus, árabes e cristãos, sejam teólogos ou filósofos da Natureza. Assim também o pensamento dos gregos seria incompreensível sem o Oriente mais próximo ou remoto. (...) Quanto à restrição heideggeriana do conceito de filosofia a cousa europeia, helénica, ou posterior à Hélade, não parece de aceitar em povos periféricos da Europa em relação com o amplo mundo. Aqui também se valoriza a interpenetração como característica funda da filosofia e seu programa de futuro.
A distância do chamado centro europeu é também aqui valorizada por implicar uma proximidade com o amplo mundo. Em atitude convergente, Dalila identifica na tradição cultural portuguesa uma predestinação teleológica ecuménica que seria visível principalmente na acção e obra dos poetas e pensadores da Renascença Portuguesa. Reflectindo, sobretudo, a partir do Cristianismo, estes autores teriam previsto, antecipado e proposto uma transformação histórica no sentido de um universalismo real por vir. Esta mutação futura consistiria num esforço comparável à aventura da Descoberta. Desta feita, porém, a questão já não se prenderia com uma expansão ou dilatação (de Fé e Império) do que se é, ou mesmo com uma simples apropriação do que se encontre (e que nos manteria numa horizontalidade dada) mas fundamentalmente com uma vertical outração: isto é, tratar-se-ia de acolher entre todas as tradições espirituais da humanidade aqueles elementos de plenificante sentido, isto é, os mais matriciais de futuro em fecundidade sempre nova e diferente; seria agora então o momento de actualizar aquilo que mais nos possa superar, operando uma mutação, que consiste na sobre-humanização ou divinização do homem, no ultrapassamento da condição mental ainda dominante. A isto a autora denomina como uma missão antropológica transcendente, uma destinação antropocósmica.
Assim, as tradições espirituais da humanidade serviriam de anúncio e programa de transformação emocional e mental, de metamorfose anímica e espiritual. A reflexão de Dalila marca um momento alto de toda a filosofia da Saudade do século XX pelo seu grande fôlego especulativo, densidade metafísica e consistência do esforço de síntese operado sobre as teorizações anteriores. Tal como vimos suceder com Leonardo em seu instigante contributo, também Dalila experimentou a necessidade de confrontar a teoria da saudade com aquilo a que chama Budismo, vendo-os contudo como contrapolares e considerando a Saudade como uma força de oposição à descontinuidade budista do eu. Provando a fecundidade do cotejo dos temas de cultura portuguesa com temas orientais e, nomeadamente, do Budismo com a Saudade (caminho esboçadamente aberto por Leonardo e retomado por Dalila), Paulo Borges, em nossos dias, leva a cabo uma nova e original teorização da saudade marcada justamente pela presença de temas e noções próprios da tradição budista». In Rui Lopo, A leitura do Budismo na obra de Dalila Pereira da Costa, Estudos, Universidade de Lisboa, Associação Agostinho da Silva, Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Ano VI, 2007.

Cortesia da ULisboa/JDACT

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A leitura do Budismo na obra de Dalila Pereira Costa. Rui Lopo. «… doutrina que ainda hoje se levanta cheia de vida no pensamento dum Schopenhauer e até entre nós obsidiou Antero de Quental e forneceu alimento às atitudes metafísicas de Oliveira Martins»


Cortesia de wikipedia e jdact

«Dalila Pereira Costa identifica na tradição cultural portuguesa uma predestinação teleológica ecuménica que seria visível principalmente na acção e obra dos poetas e pensadores da Renascença Portuguesa. Reflectindo, sobretudo, a partir do Cristianismo, estes autores teriam previsto, antecipado e proposto uma transformação histórica no sentido de um universalismo real por vir. Leonardo Coimbra, em importante artigo sobre a Saudade publicado na revista Águia procura encontrar, em diversas tradições culturais, filosóficas e religiosas, características antecedentes ou pontos similares aos da portuguesa proposta e experiência da saudade. Leonardo percorre assim as civilizações do Egipto, Babilónia e Pérsia, evoca os Celtas, discorre sobre a Índia e o Budismo do qual afirma ser doutrina que ainda hoje se levanta cheia de vida no pensamento dum Schopenhauer e até entre nós obsidiou Antero de Quental e forneceu alimento às atitudes metafísicas de Oliveira Martins. A curiosidade universal de Leonardo leva-o ainda a referir a hipnose, a teosofia, a filosofia de Bergson e o materialismo para concluir com uma adversativa a todos os exemplos mencionados: Mas há uma Religião, que é a mais alta e nobre expressão da Saudade, porque apresenta o homem como um viajante desta vida em procura da verdadeira Pátria do Infinito. É o Cristianismo. O Éden era a Pátria donde o homem foi escorraçado (...). Por vários motivos se reveste para nós de especial relevância esta reflexão de Leonardo Coimbra. Em primeiro lugar, Leonardo procede neste texto a propósito da Saudade a um conciso e circunscrito périplo por tradições espirituais, mundividências religiosas e correntes de pensamento que dá conta de uma abertura cultural e filosófica que enformará a atitude filosófica dos seus assumidos seguidores e continuadores, que sentirão também a necessidade de estudar e reflectir sobre o Oriente e o Extremo Oriente para compreender a própria história de Portugal ou para aprofundar algumas das mais originais características da sua cultura. Em segundo lugar, aponta o Budismo como uma influência obsidiante em Antero de Quental e um alimento metafísico de Oliveira Martins. Em terceiro lugar, aponta o Cristianismo como lugar da mais alta e nobre expressão da Saudade, antecipando características de algum pensamento filosófico português contemporâneo marcado pelo Oriente, aqui e ali sujeito até a ser considerado heterodoxo pela sua abertura ao mistério, pela atracção por posicionamentos que a história dos vencidos da filosofia não consagrou, por uma pulsão mística, mas acabando por culminar no Cristianismo. Este artigo deve assim ser considerado como um dos alicerces da atitude reflexiva e especulativa de Dalila Pereira Costa em seu texto: Saudade, unidade perdida, unidade reencontrada. A atracção desta autora pelo Oriente deve ser equacionada no contexto do grupo de pensadores que habitualmente se consideram como próximos do movimento da filosofia portuguesa, que lhe são imediatamente anteriores e de que Dalila se apresenta como original continuadora. Lembremos, por exemplo, que António Quadros, discípulo dos discípulos de Leonardo, Álvaro Ribeiro e José Marinho, considera o Oriente como um dos doze arquétipos da cultura portuguesa. Assim, a viagem para Oriente assinalará mais que o ponto extremo ou culminante do ciclo mar-nau-viagem-descobrimento-demanda; mais do que um ponto de chegada, um momento de transporte ou deslocação de Portugal para o Oriente. Crucial será o trazer do Oriente para o Ocidente. A ligação dos dois pólos implicará a sua indistinção futura, na medida em que cada um deles deverá encontrar em si características que permitam o diálogo com o outro. Segundo Quadros, o critério de aferição da boa orientação de uma filosofia será a sua disponibilidade de se configurar como pensamento armilar, integrando a fraternidade de raças, povos, religiões e ideias tanto ocidentais como orientais. O regresso à terra onde nasce o sol significa isso mesmo: a superação das filosofias e das tradições terrestre e localmente delimitadas. Um dos sentidos maiores das navegações residirá na sua virtualidade: a descoberta futura do mundo como um todo. As navegações teriam assim apenas preparado Descobertas que ainda agora se estão iniciando: a descoberta de todos por todos, condição preliminar do encontro da totalidade dentro de cada um. As palavras de António Quadros ecoam claramente o programa pessoano de portuguesa fusão de todas as crenças e filosofias e terá continuação na última fase da obra de Agostinho da Silva que nos assume como tarefa cultural e espiritual o encontro inter-religioso e ecuménico, relativizando cada uma das perspectivas e expondo o seu cariz restritivo porventura servindo-se, de forma não explícita, da budista teoria da dupla verdade, que talvez no Ocidente também já tenha tido algo de análogo no neo-platonismo, o que libertadoramente nos inibirá de apormos ao pensamento o designativo de oriental ou de ocidental, pois que em cada um dos pólos se manifesta aquilo que no outro vem também a surgir. As navegações e o encontro de culturas que lhe está associado deve ser assim visto como uma tarefa por cumprir e não como um feito a celebrar». In Rui Lopo, A leitura do Budismo na obra de Dalila Pereira da Costa, Estudos, Universidade de Lisboa, Associação Agostinho da Silva, Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Ano VI, 2007.

Cortesia da ULisboa/JDACT

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Mito e Tradição em Dalila Pereira Costa. Manuel Gama. «… que sempre conduzem uma pátria, são como que as suas sementes que geram, estruturam e dão coesão à sua cultura. E, numa visão arquetípica, tradição e mito são a mesma realidade sob a mesma cor esbatida em tons diferentes: “a tradição requer o mito e o mito exige a tradição”»

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Resumo:
«Tradição e mito são simultaneamente dois temas fundamentais do horizonte antropológico e dois pilares de suporte da estrutura do pensamento de Dalila Pereira Costa. O mito é uma forma de ler a realidade. Se em Dalila Pereira Costa encontramos esta visão hermenêutica, é também evidente que o mito aparece como o motor da acção dos povos e da regeneração das culturas. O esbatimento dos mitos leva à perca da alma das culturas. O povo que não tem os seus mitos tende para a inanidade. Por seu lado, a tradição de uma pátria ganha inteligibilidade quando vertida nos seus símbolos, nos seus símbolos tradicionais. Estes não são coisa morta, elementos de um conhecimento erudito ou arqueológico, passado, mas bem pelo contrário, como afirma Dalila Pereira Costa».

«Mito é um conceito complexo e difícil, pois tanto pode velar como desvendar a realidade. Neste sentido, dados os seus tão diversos níveis de significação, se pode entender a expressão de Fernando Pessoa: O mito é o nada que é tudo. Se na sua primeira acepção, o mito é um relato fabuloso de conteúdo religioso, que depois apareceu a significar a representação, de estrutura imaginativa, com a apreensão de valores, a noção de mito passou além do domínio religioso, sendo então o relato imaginário que tem o valor de símbolo. Neste aspecto, afastado já do seu sentido primitivo, o mito ganhou o significado de projecção no futuro da realização de um ideal, aproximando-se, aqui, do conceito de utopia. A tradição, descoberta pela hermenêutica para o campo filosófico, é o elemento constitutivo da historicidade e da compreensão do homem. O homem não pode sair da História para a poder pensar, estando, pois, condicionado por ela. Ou seja, o homem não tem conhecimento de si, da natureza e da História, sem mergulhar na tradição. No entanto, se a tradição é condição de conhecimento que lhe abre novas perspectivas, se for encarada como via absoluta pode paralisar o pensamento. Assim, a tradição, só quando portadora de passado e de futuro, é capaz de abrir horizontes novos de compreensão e de possibilidade.
Quanto a nós, tradição e mito são simultaneamente dois temas fundamentais do horizonte antropológico e dois pilares de suporte da estrutura do pensamento de Dalila Pereira da Costa. Neste findar de século (XX), de ligação tão íntima com a última metade do anterior-, em que a mentalidade positivo-cientificista parece querer alimentar o devir apenas no aqui e agora, é importante que se mantenha viva a chama do saber não positivista que, apesar de obnubilado por saberes ostentatórios, ainda permanece, afinal, como a estrela que indica o norte. Grande limitação a da cultura presente, que faz tábua-rasa dos mistérios e que quer fazer crer que fora dos trilhos do logismo racionalista e do experimentalismo não há caminhos de verdade. Já António Quadros deixara anotado que o conjunto da obra de Dalila Pereira Costa inclui por um lado, o domínio ou a vertente de uma literatura puramente visionária e mística, por outro, o de uma hermenêutica especialmente empenhada na sondagem e decifração de símbolos, de mitos, de textos sagrados, de uma poesia e de uma novelística onde haja predomínio do elemento transcendental sobre os elementos positivos e sociológicos. É também assim que nós vemos o pensamento da nossa escritora: todo ele repassado pelo brilho dos mitos, em que a tradição é sondada como caminho de verdade e as dimensões de imortalidade e eternidade sempre aparecem no horizonte.
O mito é uma forma de ler a realidade. Se em Dalila Pereira Costa encontramos esta visão hermenêutica, é também evidente que o mito aparece como o motor da acção dos povos e da regeneração das culturas. O esbatimento dos mitos leva à perca da alma das culturas. O povo que não tem os seus mitos tende para a inanidade. Tal seria o efeito do positivismo do século XIX, que intentou desmoronar as visões míticas e destruir todos os heróis. É numa linha contrária a esta tendência alastrante que vemos irradiar o pensamento de Dalila Pereira Costa. Veja-se especialmente a sua obra Da Serpente Imaculada (1984), impregnada pela força de figuras míticas como Anas, Tagus, Atégina, Endovélico, Minius. Neste seu estudo faz-se também a análise dos dois mitos propulsores da expansão portuguesa: a missão e a saudade, ligados respectivamente às acções da cruzada e da emigração. Perante os desmandos imediatos à implantação da República, passados meia dúzia de dias, escrevia sensatamente Sampaio Bruno que era necessário e indispensável o respeito pela grande lei da continuidade histórica: A lei da continuidade histórica, dizia, reside em que as transformações racionalistas contem com o factor da realidade da tradição, de modo que se não suponha possível um princípio na efectividade social só porque ele seja exacto e justo na esfera da especulação pura. No mesmo sentido vai o pensamento de Dalila Pereira Costa. As transformações requerem filiação, que só na tradição encontram a força de futuro, ao mesmo tempo que aquela é fonte de sobrevivência e progresso de uma nação.
A tradição de uma pátria ganha inteligibilidade quando vertida nos seus símbolos, nos seus símbolos tradicionais. Estes não são coisa morta, elementos de um conhecimento erudito ou arqueológico, passado, mas, bem pelo contrário, diz Dalila, elementos vivos e eternos, capazes de eternamente serem conhecidos e usados por uma comunidade na sua vida completa: no pensamento e na acção, como elementos de integração. Os símbolos são a expressão visível, com força de acção, da tradição como espelho de um passado útil e utilizável. A tradição é a grande fonte onde a pátria deve beber a sua força fecundante de desenvolvimento, e nela criará novos ciclos ou formas de vida, de futuro. Enfim, na tradição reside a única força possível de futuro. Como refere Dalila, os arquétipos fundamentais, que sempre conduzem uma pátria, são como que as suas sementes que geram, estruturam e dão coesão à sua cultura. E, numa visão arquetípica, tradição e mito são a mesma realidade sob a mesma cor esbatida em tons diferentes: a tradição requer o mito e o mito exige a tradição. Daí que, para concluir, tomemos o apelo intemporal, e ao mesmo tempo tão oportuno neste findar de milénio (XX), de Dalila Pereira Costa: Agora e aqui, na pátria portuguesa, urgiria realizar o gesto repetido do alquimista, o que nada descobre de novo, mas tão-somente vê de novo um segredo transmitido numa tradição, através dos símbolos». In Manuel Gama, Mito e Tradição em Dalila Pereira Costa, Colóquio Dalila Pereira Costa e as Raízes Matriciais da Pátria, Porto, Maio, Departamento de Filosofia, Instituto de Letras e Ciências Humanas, Universidade do Minho,1996.

Cortesia da UMinho/JDACT

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A História Mítica da Cultura Portuguesa. Leituras. Dalila Pereira Costa. «Sucedeu então a época portuguesa dos anti-Descobrimentos. Com o advento da Renascença Portuguesa, no Porto, e a obra de Pessoa, em Lisboa, criam-se condições espirituais em Portugal, um messianismo do império do Espírito»

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«(…) Ressurreição da antiga sabedoria mítica em forma de acção, os Descobrimentos exprimem a existência de uma autêntica modernidade portuguesa que, breve, desprezada a fé e o ideal, será envolvida e dominada pela modernidade racional da revolução científica do século XVII e da revolução democrática do século XVIII. Nascera uma outra Europa, a Europa central acolhedora da herança utilitária e técnica romana. E o ciclo repete-se, de novo Portugal possuirá uma função messiânica e providencialista: e agora, um meio milénio passado, num amar agora ultrapassado, transfigurado, o do espírito, ou pelo espírito, ou mar interior, noivo feito de novos argonautas, se avizinhará, urgirá avizinhar-se: como penetração e desvendamento e desenho nesse outro mar de suas costas e limites e baías as mais profundas e vaus e linhas de orientação: como repetição do primeiro passo de toda a iniciação, e retomar o apelo de Sócrates, ou de mais atrás, do deus da luz, o que estava escrito no alto do seu templo de Delfos: … conhece-te a ti mesmo. De novo trazendo para as costas atlânticas o princípio gerador do humanismo mediterrâneo. Será este o feito futuro, renovado, da nova descoberta. Para novo ciclo histórico da pátria lusíada e do Ocidente. É a lição de Pessoa a repercutir na obra, as novas Índias serão as Índias do espírito. O rei Sebastião tentara recuperar historicamente o ideal mítico da pátria imperial, mas nele, em finais do século XVI, dominando já a segunda Expansão europeia, figurava-se já um São Sebastião?!?! expiador da vã deleitação do usufruto perdulário das riquezas do Oriente. Então, quando a expiação é deleitação, e se fecha em si na imanência, sem se ofertar na transcendência, como sacrifício teleológico, a perdição entra e perdura no indivíduo e na pátria. E pode durar, prolongar-se em anos e séculos, como auto-comiseração, forma estéril e demoníaca de egolatria, e não como vera expiação, sacrifício no sofrimento ofertado.
Sucedeu então a época portuguesa dos anti-Descobrimentos. Com o advento da Renascença Portuguesa, no Porto, e a obra de Pessoa, em Lisboa, criam-se gradualmente as condições espirituais para de novo emergir, em Portugal, um messianismo do império do Espírito, que de novo estabelecerá a refundação de uns outros Descobrimentos, fundados na interioridade espiritual do conhece-te a ti mesmo socrático. Em 1978, A Nau e o Graal, une as suas teses sobre os arquétipos fundamentais da história mítica portuguesa aos mitos celtas arturianos da Matéria da Bretanha, sobretudo à Demanda do Graal, apresentando a cultura, a acção e o pensamento portugueses dos Descobrimentos como revivescência, não narrada, mas vivida da mitologia medieval do ciclo carolíngio, o ideal e a fé míticos teriam nascido da mimêsis cultural do espírito de missão que animava os cavaleiros da Távola Redonda, unida ao ideal cristão e templário de cruzada. Assim os Descobrimentos e o Sebastianismo, serão a revitalização, revivescência desses mitos; de novo a sua vinda, subida à realidade em forma praticada e conhecida, como sua nova revivescência em todo um povo. Liturgia de união entre imanência e transcendência através da transfiguração da totalidade da Terra em Graal, alvinitência e refluxo emergido da cultura subterrânea mítica megalítica do desejo saudoso da unidade da Deusa-Mãe, revivida agora em forma de Nossa Senhora, Mãe de Deus, os Descobrimentos e, posteriormente, o rei Sebastião, repercutem, no dealbar da Idade Moderna, através de contínuas navegações até ao fim do mundo, tanto a figuração da busca do Graal quanto a ressurreição mítica do Rei Artur, este vestido agora em forma de corpo do rei Sebastião. E assim como os Cavaleiros da Távola Redonda foram exterminados na batalha de Camlan, assim também o foram os cavaleiros da nobreza do reino lusíada na batalha de Alcácer Quibir: mas também depois da sua morte, seu longo período de pausa e ocultamento, o rei salvador voltará ressuscitado, purificado e iniciado, para redimir e ressuscitar o seu povo. E entretanto, como Artur ficou permanecendo na Ilha de Avalon, centro do mundo, assim também Sebastião ficou permanecendo na sua Ilha Encoberta, como outro centro do mundo. O rei Sebastião é o rei eterno, fora do tempo e do espaço. Ele encarnará nesta pátria, a mais alta forma de realeza, a que vence os condicionalismo do mundo presente; o seu reino é eterno, porque ele encarna a realeza divina. Coexistente ao seu reino temporal e espacial, que abandonou no dia da sua expedição quimérica, atravessando o mar, ele constitui um outro, no Outro Mundo, no meio do mar. E será dele, com ele, que um dia, por transferência e coincidência sobre este, virá a salvação, a redenção nacional e universal. Como a descida e união do mundo (ou reino) sagrado, o que retém a vera força e realidade, sobre o mundo (ou reino) profano. E neste rei, se encarnará e exaltará, como nunca nesta nação e como raramente no Ocidente moderno, o personagem tradicional do rei salvador. E é nesse, ou por esse, seu destino e serviço, transcendente, divino, de príncipe humano e terrestre, aquele a quem ao nascer o seu povo logo chamou de Príncipe de Lágrimas». In Dalila Pereira da Costa, A História Mítica da Cultura Portuguesa, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

quarta-feira, 19 de março de 2014

A História Mítica da Cultura Portuguesa. Leituras. Dalila Pereira Costa. «… após a independência de Portugal, motivado pelo Amor que tudo une (“a saudade”), irradiando este para Ocidente, primeiro na busca das Ilhas Afortunadas, realizando ‘Machim’ (Machico) o Amor na ilha da Madeira, atravessando depois o “Mar Tenebroso”»

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«(…) História mítica não significa, então, desprezo face à história convencional, mas, apoiando-se nesta e ultrapassando-a, intenta atingir numa única verdade englobar o sentido feito destino da História; dito de outro modo, pelo despojamento da materialidade e da corporalidade circunstanciais de que a História necessariamente são feitas, e através de um processo de ascese espiritual, caminhando de símbolo para símbolo, intenta-se fundir o sentido essencial das forças telúricas, celestiais e anímicas que impulsionam o homem no tempo (caminhando do conhecido para o desconhecido) com o sentido essencial da História universal. Em ambos os sentidos, a Península Ibérica, e sobretudo o território da sua costa atlântica (Galiza e Portugal), sempre ponto de passagem entre Oriente e Ocidente, tem desempenhado um estatuto de intermediação, tanto acolhendo a sabedoria primordial e megalítica do culto da Deusa-Mãe em plena terra das serpentes (actual território de Portugal), quando conservando um fillum iniciático proveniente do Oriente e, após a independência de Portugal, motivado pelo Amor que tudo une (a saudade), irradiando este para Ocidente, primeiro na busca das Ilhas Afortunadas, realizando Machim (Machico) o Amor na ilha da Madeira, atravessando depois o Mar Tenebroso, descobrindo o Brasil, simultaneamente levando para o Oriente o que do Oriente viera, unindo as duas partes do mundo numa nova (e consumada) e tripla unidade geográfica, amorosa e gnóstica. Então, num ano exacto, os povos peninsulares dividem a terra inteira em duas metades, como um fruto. E agora contemplemos o Tratado de Tordesilhas como o gesto humano sagrado, de partir ao meio a Terra. E contemplemos nesse dia os Reis Católicos e o enviado de D. João II, como três oficiantes diante dum altar, tomando-a nas mãos, à Terra, e erguendo-a ao alto, como corpo consagrado, partindo-a e dando-a em comunhão ao mundo. Porque só aqui na Península, o sentido sagrado da Terra, se teria reencontrado e encarnado na Idade Moderna. Esse o significado oculto nos Descobrimentos e no Tratado de Tordesilhas: como o seu conhecimento e a sua dádiva ao mundo. Nela só, os povos peninsulares veriam a encarnação da verdade, só nela passível de ser procurada e encontrada. Porque só nela estava o segredo. E o seu nome era Mar Tenebroso. Como o vau de terror que esconde a face da verdade; como divindade. A cultura e o pensamento portugueses recolhem a herança de Creta, destruída pelo racionalismo dórico (a Grécia clássica), Apolo, o deus do razão solar, destruiu a telúrica Gaia (expressão da Deusa-Mãe primitiva), a Grécia heleniza o Mediterrâneo, espalhando a cultura alfabética e o panteão de deuses transcendentes, substituindo pela filosofia, mãe das futuras ciência e técnica romanas, o mito e a vivência imanente da religião. Porém, a divina sabedoria antiga do Mediterrâneo permaneceu no território peninsular, hoje Portugal.
E, paralelamente às costas da Jónia sobre o Mediterrâneo, ao milagre grego como filosofia da razão, livre do mito, como início do pensamento ocidental na ponta da Ásia, tendo para trás a cosmogonia, aqui nas costas peninsulares do Atlântico, estará o milagre ibérico, como pensamento, de novo nascendo do mito e ultrapassando o mito, pela acção racional. Permanecendo vivo no território actual de Portugal, teria sido o fundo sábio da tradição mítica mediterrânea, que privilegia o crer (a pistis grega) ao cálculo (sinónimo de raciocinar em latim), a vivência da comunhão do sagrado ao culto litúrgico formal, a busca do ideal (de cavalaria, de cruzada, de missionação, de evangelização...) errante de Ulisses ultrapassando os limites do quotidiano, que, feito técnica náutica (mito que engloba em si o poder operativo da razão), impulsionou em Quinhentos o Infante Henrique, respaldado no erário da Ordem de Cristo (sucessora portuguesa da Ordem do Templo) a enfrentar e vencer o Mar tenebroso. Saber a verdade aqui [em Portugal] realizou-se como procura sua na terra, unindo-se à sua descoberta. Aqui a filosofia será os Descobrimentos. Agora se vê. E então agora se ligará a descoberta da Terra com a dita ausência aqui de filosofia, como saber desinteressado. Porque aqui nada se fez em abstracto, mas ligado à acção e à Terra. Esse seria o sentido do feito do escoldrinhado da verdade e novo passador de passos. O infante Henrique e Ulisses e os filósofos pré-socráticos, nele teriam o seu continuador. Portugal, com a acção dos Descobrimentos, torna-se a pátria do mito e repõe no saber Ocidental do mundo uma nova configuração paralela à da filosofia (Grécia clássica) e à da fé (o cristianismo), a sabedoria do mito como experiência metafísica da e na acção, reunindo Terra e Céu, humanidade e sagrado, como assim fora antes do milagre grego, autora do império da razão. E tal como a cultura grega pré-helénica morreu cantada pela épica de Homero, na Ilíada e Odisseia, assim a nova configuração mítica moderna nasce cantada por uma nova épica, usando poeticamente o mesmo panteão divino, Os Lusíadas, de Luís de Camões. Não se anula o império do logos grego; pelo contrário, contra o esquema dominante nos manuais de História, que vinculam lógica e cronologicamente mythos e logos em ordem de sucessividade, considerando este não só um progresso da humanidade como uma vitória humanista do conhecimento, não constitui uma inversão desta ordem, mas o enaltecimento da configuração mítica do saber enquanto fundamento do conhecimento histórico, com idêntico estatuto gnosiológico do da razão, e, em última análise, enquanto ideal ético de acção, como motor, individual e colectivo, da passagem do conhecido para o desconhecido». In Dalila Pereira da Costa, A História Mítica da Cultura Portuguesa, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

sábado, 2 de março de 2013

A História Mítica da Cultura Portuguesa. Leituras. Dalila Pereira Costa. «… a poesia lírica e a ciência náutica da cultura tradicional portuguesa, como expressão do seu dinamismo, do poder do seu ser se ultrapassar a si próprio nas suas forças e limites humanos, a “saudade” apontará como elas…»

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«Mais do que mero sentimento, Dalila Pereira da Costa, à imagem de Teixeira de Pascoaes, transforma a saudade num operador conceptual sintetizador e orientador do todo da história de Portugal, elevando-a igualmente a conceito regenerador e realizador da história da civilização ocidental, anunciando, através dela, a saudade, a fusão, ou refusão entre Oriente e Ocidente numa sabedoria intuitiva única de carácter espiritual. Transcurso no tempo, pela saudade, em certos momentos-limite, o homem eleva-se à eternidade, regressando, concentrado o tempo, a momentos paradisíacos onde constata que tudo obedece à manifestação universal da saudade:
  • A saudade é força de conversão, como movimento oposto ou complementar ao da progressão, saída do incriado, do não-manifestado, ao criado e manifestado. Por isso ela será sempre como reapossessão do ser e conhecer na sua forma paradisíaca, a força da intuição e da razão.
Nessa forma primitiva e adâmica, a que então poderemos chamar de ultra-razão. Como possessão e uso pelo homem dum plano do seu ser que o punha em contacto, o identificava, como um plano superior, supra-humano, a que agora só poderemos, ou saberemos chamar, de supramental. Concedendo-lhe a sua ligação com o Uno. Assim como a poesia lírica e a ciência náutica da cultura tradicional portuguesa, como expressão do seu dinamismo, do poder do seu ser se ultrapassar a si próprio nas suas forças e limites humanos, a saudade apontará como elas, para uma possibilidade de cosmissização do homem. A aventura sendo sempre o modo como esse seu dinamismo se revelará. Porque, quer a aventura seja de carácter interior, como na poesia e na saudade, ou de carácter exterior, como nos Descobrimentos, ela será sempre esse mesmo movimento revelado, de ultrapassamento incessante dum ser na sua natureza própria.
Em Da Serpente à Imaculada, Dalila Pereira da Costa postula que, por via da saudade, a missão portuguesa de construir uma sabedoria total, regeneradora de diversas sabedorias parcelares da humanidade, assentaria numa sabedoria secreta tendo a mais remota origem na sabedoria do Atlântico em torno do culto da Mãe primordial, da Grande Deusa ou da Deusa-Mãe. Com este acrescento teórico relativo às origens mais remotas da saudade, pode confiar-se que toda a filosofia da história mítica portuguesa de Dalila Pereira da Costa se encontra já condensada no seu artigo referido sobre a saudade da antologia de 1976. Numa continuidade de coerência, os seus restantes livros sobre este tema e sobre os místicos portugueses constituem-se como desdobramentos deste seu primeiro artigo sobre a saudade, do mesmo modo que toda a filosofia, toda a política social e toda a poesia de Teixeira de Pascoaes podem ser lidas como um desdobramento da sua teoria da saudade.
Logo no ano seguinte à publicação do texto sobre a saudade, Dalila Pereira da Costa estende a sua reflexão sobre os primórdios do pensamento português ao círculo do Atlântico, juntando-o à tradição mediterrânica que ensaiara naquele artigo:
  • Então também se desvendará o sentido do enlace dos homens e do mar, para a descoberta da verdade, realizada, primeiro no Mediterrâneo pelos cretenses e pelos venezianos, e depois no Atlântico pelos povos ibéricos. E com outros olhos agora veremos, evocaremos, o dia consagrado no ano em que Minos se unia, em hierogamia, com a Deusa do mar, ou sua sacerdotisa, e depois, em que o doge saía do mar e nele lançava o anel de núpcias, da cidade com o Mediterrâneo;
  • e a outra luz, de festa sagrada, nos surgirão todas essas suas naves com flâmulas e grinaldas ao alto avançando em cortejo sobre essas águas dum mar unido aos homens. Seguinte enlace se realizaria séculos depois no Atlântico, com as caravelas saindo do Tejo e levando os navegantes portugueses: para outras núpcias com outro mar.
A Nova Atlântida estatui-se assim como o primeiro livro em que Dalila Pereira da Costa configura os momentos-limite principais da totalidade da sua interpretação sobre a história mítica de Portugal, e mítica não no sentido semântico habitual de fantástica ou maravilhosa, mas mítica no sentido de mais verdadeira ou de verdadeiramente verdadeira. Mais do que a razão, é a ultra-razão, síntese superior fundida de sensibilidade e razão, ambas transfiguradas numa intuição espiritual por via de um processo mental alquímico, com o evidencia a interpretação de António Quadros, que se eleva vivencialmente, experimentalmente, comungando da essência dos seres, combinando numa unidade mente e verdade, conhecimento e ser». In Dalila Pereira da Costa, A História Mítica da Cultura Portuguesa, Wikipedia.

continua
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A História Mítica da Cultura Portuguesa. Dalila Pereira Costa. «A saudade é igualmente conhecimento, conhecimento contemplativo, transcendente, remissor da diferencialidade dos seres no espaço. Amor e conhecimento, a saudade salva a vida, seja individual, seja colectiva, salvando o nada da existência»

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«Se as experiências mítica e poética, e igualmente a do sonho, permanecem numa específica esfera da individualidade, a experiência saudosa, comunicada e partilhada, transfigurada simbolicamente em momentos civilizacionais ou obras do espírito, torna-se fundamento duma sabedoria nacional, sabedoria dúplice, que ora perde Portugal num adormecimento passivo, melancólico, um desinteresse ou sono, numa espécie de queda imanente na História, ora salva Portugal, reintegrando o seu ser temporal no ser da saudade, projectando a sua força anímica e concentrando os seus arquétipos numa nova eclosão originadora da busca de mundos novos, como, por exemplo, nos Descobrimentos:
  • A saudade nessa alma e pátria, foi e será ainda e sempre uma força de movimento premente vital dum ser, que permite o desbloqueamento do seu estado, para essa integração futura, como expressão máxima dum poder de incessante ultrapassagem, de a si se transcender, na possessão e utilização global de todas as suas faculdades, ou planos a que chamamos supramentais, aí transcendendo o humano no divino. Assim a via saudosa surge na vida espiritual portuguesa como uma arte de realização total do ser humano, pelo ultrapassar da sua condição ou natureza, e sua união com a Realidade, o Ser.
Terminado historicamente o ciclo do Império por via da Descolonização em 1975 e fundamentando-se na obra de Fernando Pessoa, Dalila Pereira da Costa anuncia em 1976 uma nova eclosão das forças anímicas portuguesas centradas na saudade, agora na descoberta do Mar Absoluto, o do Espírito, que será também um segundo mar da saudade Individualmente, vivendo pela saudade um estado superior de consciência, o português atingiria igualmente um estado de ultra-razão, num ser não mais dividido, mas integrado na essência una e tripla do corpo, alma e espírito. Como superação do tempo, a saudade transmuta-se em Amor, que tudo liga e vincula, tudo unifica em laços ontológicos ou metafísicos, possibilitando que os seres escapem à desintegração no e do tempo, conservados vivos pela memória reminiscente colectiva. Como Amor, e sobretudo porque Amor, a saudade é igualmente conhecimento, conhecimento contemplativo, transcendente, remissor da diferencialidade dos seres no espaço. Amor e conhecimento, a saudade salva a vida, seja individual, seja colectiva, salvando o nada da existência a que os ciclos históricos inexoravelmente conduzem os seres. Espiritualizando a história, a saudade transfigura-a numa figura única, a figura da eternidade, ou, dito de outro modo, a saudade anula o tempo, realizando e anulando a morte e atingindo intuitivamente a verdade do Ser.


Semelhantemente nela [a saudade], o homem será unidamente pagão e cristão na sua mais concreta e irredutível essência:
  • na saudade, a sua pessoa, como entidade única não repetitiva, vivida numa única vida terrestre, limitada por um nascimento e por uma morte, e nessa única vida terrestre e limitada preparando-se para outra, eterna, na abolição do tempo, ou saída para fora do tempo, irrevogável, na usufruição da eternidade, sofrerá no mundo da saudade, uma multiplicação infinita para lá desses limites duma vida única vivida por uma única pessoa. Mas então como a de um ser que uma e duas vezes, múltiplas vezes, vem e volta da eternidade ao tempo, da morte à vida, da vida à morte, do céu à terra, ou da terra ao céu. Em retornos incessantes, o mesmo ser e outro, duma identidade na dissemelhança.
Para além de um fortíssimo carácter místico, a originalidade da teoria saudosa de Dalila Pereira da Costa encontra aqui o seu âmago mais específico, pela saudade, em Portugal, paganismo e cristianismo serão superados, a clássica divisão racional entre céu e terra, imanente e transcendente, humano e divino, matéria e espírito, tradição e revolução, Ocidente e Oriente, será superada por via da realização da saudade consumada no messianismo português retomado, no princípio do século XX, por Sampaio Bruno e Fernando Pessoa após quatro séculos de suspensão ou ocultamento, desde o tempo da Contra-Reforma».

In Dalila Pereira da Costa, A História Mítica da Cultura Portuguesa, Wikipedia.

continua
Cortesia de Wikipedia/JDACT