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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Luís Manuel Bernardo: O Essencial sobre Vieira de Almeida. «Leccionou uma quantidade surpreendente de diciplinas, das quatro Histórias da Filosofia à Filosofia em Portugal, da Teoria do Conhecimento à Psicologia Geral, da Moral à Pedagogia e Didáctica, sem que, como defendeu Francisco da Gama Caeiro, fosse legítimo considerá-lo um burocrata do ensino, que ele nunca foi, nem quis ser»


Cortesia de memoriarecenteeantiga 

Paradoxos Biográficos
Referências introdutórias
«Francisco Lopes Vieira de Almeida nasceu a 9 de Agosto de 1888, em Castelo Branco, vindo a falecer em Cascais a 20 de Janeiro de 1962. Realizou os seus estudos superiores na Faculdade de Letras de Lisboa, onde se licenciou, em 1910, com uma tese intitulada História (Significado e Função). Após adquirir alguma experiência como professor liceal, ingressou, em 1915, na categoria de assistente do grupo de História da instituição onde se formara, transitando para a Secção de Filosofia, em 1922, na sequência de concurso, para o qual apresentou uma dissertação com o sugestivo título de A Impensabilidade da Negativa, trabalho cuja complexidade, sobrepondo-se, claramente, à diminuta extensão, segundo o cânone académico vigente, reflectia a pujança de um pensamento peculiar no panorama iniversitária nacional.
Não seria, ainda, a sua obra-prima, lugar que caberia a Pontos de Referência, publicada, na versão definitiva, em 1961, mas estabelecia, já, um roteiro filosófico e modo próprio de percorrê-lo, que a tornam indispensável para a compreensão do percurso do filósofo português. Talvez que, aliás, para quem pretendesse apenas uma breve, mas representativa, aproximação ao pensamento de Vieira da Silva, bastasse a consideração, a par destas duas obras, daquela que intitulou, em 1943, Introdução à Filosofia. Desde 1988 que a sua Obra Filosófica está reunida em 3 volumes, numa edição crítica de Joel Serrão e Rogério Fernandes. Esta compilação é precedida de 2 amplas leituras propostas pelos editores que oferecem importante contributo para a análise de um conjunto constituído por 52 textos de teor variado, sobre Gnosiologia e Epistemologia, Lógica e Filosofia da Linguagem, Conhecimento Histórico e Sociológico, Psicologia, Filosofia da Arte, ao qual ninguém negou a extrema dificuldade.

Cortesia de wikipedia  

Em 1930, obtinha a cátedra, tendo exercido, igualmente, as funções de director da Secção de Filosofia, de 1936 a 1940. Leccionou uma quantidade surpreendente de diciplinas, das quatro Histórias da Filosofia à Filosofia em Portugal, da Teoria do Conhecimento à Psicologia Geral, da Moral à Pedagogia e Didáctica, sem que, como defendeu Francisco da Gama Caeiro, fosse legítimo «considerá-lo um burocrata do ensino, que ele nunca foi, nem quis ser». Uma visão panorâmica da obra filosófica ressaltará, outrossim, uma nítida implicação dos caminhos aparentemente erráticos do magistério, porquanto nela se encontram registos de reflexões sobre as diferentes áreas disciplinares. 
Esta amplidão teve, decerto, o seu papel na reputação intelectual que alcançou, ao lado da mestria de conferencista. Todavia, cabe ponderar se a marca cultural mais duradoura não terá sido a de, enquanto catedrático de Lógica, ter introduzido os estudos de lógica formal em Portugal. 
Ora, com um historial de uma tal envergadura, apostado, como assumidamente esteve, em afinar a filosofia em Portugal por um vector de modernidade, o pensamento de Vieira de Almeida mereceria, decerto, constituir objecto de uma série de estudos aprofundados. Todavia, toda a bibliografia secundária se reduz a uma entrada de enciclopédia, a um volume da Revista da Faculdade de Letras, que recolhe as intervenções do colóquio comemorativo do centenário do seu nascimento, de que apenas 9 textos, dos 18, tratam do autor, se bem que todos eles se revelem indispensáveis, e uma dissertação de mestrado sobre o pensamento estético, para lá das menções circunstanciais.

Cortesia de wikipedia 

Terá «o persistente equívoco», nas palavras de Sottomayor Cardia, de que houvesse cultivado um positivismo lógico, dificultado a recepção da sua filosofia, ou dever-se-á ao prodomínio das perspectivas ontológicas que criticara o esquecimento em que caiu, ou será a radicalidade metodológica da polémica por si cultivada, sem a promessa de uma solução sistemática, que acaba por motivar o aparente desinteresse?
Este ensaio está, assim, animado pela expectativa de poder contribuir para a divulgação de um pensamento filosófico peculiar que, por entre a variedade de temas e de problemas, se vai determinando segundo uma fórmula unificadora que a própria prática do filosofar permite progressivamente identificar 7». In Luís Manuel Bernardo, O Essencial sobre Vieira de Almeida, Imprensa Nacional Casa da Moeda 2008, ISBN 978-972-27-1688-8.

Cortesia de Imprensa Nacional Casa da Moeda/BN de Portugal/JDACT

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Vieira de Almeida: «Figura cativante e polémica, capaz de simultaneamente comandar o respeito intelectual. Foi decisivo na evolução da sociedade portuguesa ao longo do século XX

(1888-1962)
Castelo Branco
Cortesia de memoriarecenteeantiga

Com a devida vénia a Carlos Leone e ao Instituto Camões.

«Francisco Lopes Vieira de Almeida foi uma figura filosófica e cultural de grande relevo na sociedade portuguesa durante a primeira metade do século XXVieira de Almeida foi, enquanto professor, autor e personalidade, um caso invulgar de rigor filosófico e atenção cívica que, embora hoje pouco lembrado, não pode ser esquecido quando se trabalha a história e a cultura portuguesas contemporâneas.
Doutorado pela Faculdade de Letras de Lisboa em Filosofia, ingressou como docente na Universidade pelo grupo de História em 1915. Em 1921 voltou à área de Filosofia onde ascende a catedrático em 1930, mantendo-se em actividade permanente até 1958.

Apesar de entre a sua extensa bibliografia encontrarmos poesia, romance a e teatro, bem como traduções, é a sua actividade como professor e ensaísta na área de Filosofia e também de História que o distingue. Ora, Vieira de Almeida foi um percursor dessa especialização disciplinar, sendo um dos raros autores portugueses com trabalhos de relevo em Lógica (e na sua divulgação), mas nunca abdicando de um compromisso político explícito apesar dos dissabores que o regime lhe causou mesmo em idade avançada.

Cortesia de arqnet
Monárquico, e próximo de autores como Pequito Rebelo e Hipólito Raposo nos alvores da I República, não demorou muito a cativar simpatia noutros quadrantes e não espanta, por isso, ver o seu nome entre os fundadores da breve (apenas dois números) Revista dos Homens Livres «livres das Finanças e livres dos Partidos», projecto frentista contra a degeneração da República na década de 1920. Fracassada essa «frente», e implantada a ditadura que estará na base do Estado Novo, Vieira de Almeida encontra-se já próximo do grupo Seara Nova, com o qual mantêm contactos, através de Câmara Reys, mesmo depois de António Sérgio se afastar da revista.

Uma figura intelectual de referência, o seu primeiro trabalho filosoficamente relevante data de 1922, A Impensabilidade da Negativa, sempre se manteve disponível para apoiar a oposição nos períodos de maior repressão, entre as décadas de 1930 e 1950. Mesmo Humberto Delgado, que na sua campanha de 1958 não escondia o seu desgosto com a «guerra dos papéis» daqueles já idosos vultos da I República, os «barbas», não deixou de o apreciar em particular, pela sua independência, vivacidade e, provavelmente, percurso político pouco comum (no qual o próprio Delgado talvez se revisse, com outras matizes). Na ressaca dessa campanha e do seu desfecho, encontramos Vieira de Almeida entre os «quatro grandes», Vieira de Almeida, Jaime Cortesão, António Sérgio e Azevedo Gomes, expressão de Mário Soares no volume de homenagem a Vieira de Almeida no centenário do seu nascimento.
Cortesia de historia7alfandega
Figura cativante e polémica, capaz de simultaneamente comandar o respeito intelectual de especialistas e chegar a públicos mais amplos, os estudos dedicados ao seu pensamento não são muitos. Um esquecimento tanto mais lamentável quanto a sua combinação de actividade cívica, pública, e diversidade intelectual, em particular científica, é rara e particularmente valiosa para apreciar um processo de mudanças institucionais que foi decisivo na evolução da sociedade portuguesa ao longo do século XX». In Carlos Leone, Instituto Camões.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT