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domingo, 26 de setembro de 2021

José Manuel Saraiva. Aos Olhos de Deus. «Era lá também que se situavam o chafariz d’el-rei, o Cais da Pedra e o Pelourinho, onde por vezes se realizavam e quase sempre se cumpriam os autos-de-fé»

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«(…) De velas com a cruz de Cristo já desfraldadas, as naus começaram a afastar-se dos pontões, lentamente, uma de cada vez, alinhadas em direcção à foz do estuário, coberta no horizonte por uma espessa neblina de veludo. E só mesmo quando o último navio se perdeu na linha do oceano a população dispersou do cais. A festa tinha acabado. Lisboa regressava à triste normalidade do seu quotidiano. Inversamente, para a maioria dos marinheiros, sobretudo para os membros da comitiva real, principiava uma aventura emocionante. Em certo sentido, a mais emocionante aventura das suas vidas. Mas antes ainda de as naus mergulharem as quilhas no mar alto, foram todos aos castelos de proa para ver a cidade distante, sobretudo o Cais da Ribeira, transformado já então num ponto ínfimo e obscuro. Era lá o centro cosmopolítico da urbe. Era nele e ao redor dele que se encontravam as casas do poder secular, da riqueza e da justiça: a Casa da Índia, a velha e a nova; a Casa da Suplicação; os Paços da Mina, de Xabregas e de Santos; os armazéns e a alfândega; as casas de mercadores de sobrado; a igreja da Misericórdia; os campos de carreira de fidalgos e dos jogos de péla. Era lá também que se situavam o chafariz d’el-rei, o Cais da Pedra e o Pelourinho, onde por vezes se realizavam e quase sempre se cumpriam os autos-de-fé. Nesse dia, o primeiro de muitas semanas, mareantes e membros da comitiva passaram quase todo o tempo em oração e recolhimento, salvo os mestres-pilotos e os marinheiros cuja tarefa consistia em assegurar o serviço à navegação. E também os grumetes, na maioria adolescentes, destinados à execução dos trabalhos mais pesados. Eram estes, de resto, que limpavam os excrementos dos homens e animais e, nas longas viagens, serviam de objecto de prazer aos tripulantes. Mas dado o carácter sacratíssimo de tão importante empresa marítima, ainda por cima de curta duração, foi desde logo determinado, por exigência do chefe da embaixada, que os pobres grumetes não seriam dessa vez utilizados para outros fins que não os do exclusivo serviço de asseio dos navios. E mais ficou estabelecido: todo o marinheiro que cometesse ou tentasse cometer o pecado da carne contra a natureza seria punido no regresso a Portugal.

Porque no entendimento do chefe da comitiva não era justo nem cristãmente aconselhável que as naus fossem carregadas de animais estranhos e de outros presentes benzidos pelo arcebispo de Lisboa, para oferta a Sua Santidade, e os homens se entregassem no mesmo espaço físico ao consolo do vício. Acima de tudo, Tristão Cunha tinha medo que, naquelas circunstâncias específicas, Deus se arreliasse com algum desvirtuoso marinheiro e, por vingança, fizesse pagar a todos uma pesada pena pela maldade de um só. Sobre o assunto, o comandante da esquadra ainda tentou dissuadir o embaixador da decisão, alegando, antes ainda do embarque, numa conversa em terra a que assistiu Diogo Pacheco, que os grumetes não costumavam reagir mal à vontade rude e arbitrária dos marinheiros. E acrescentou, para reforço da sua argumentação, que os rapazes, salvo os mais novos, os mais frágeis, sobretudo os impúberes, aceitavam o desígnio com bondade. Mas isso é pecado; isso atenta contra a origem do homem feito à imagem de Cristo. Mas é também um hábito que vem de longe, garantiu o oficial.

Com paciência, o embaixador explicou que aquela viagem seria diferente das demais. Eles não iam à descoberta de novas terras, nem sequer pregar na lonjura do mundo a fé de Cristo ressuscitado; iam sim na graça de Deus, protegidos por Deus, levar ao sapientíssimo Papa ricos presentes do venturoso rei português. E se os rapazes se derem aos marinheiros, às escondidas?, insistiu o capitão. Às escondidas!?, admirou-se Tristão Cunha, de cenho carregado. Os pecados não se escondem, atalhou Diogo Pacheco, que até aí havia assistido em silêncio ao diálogo. Deus vê tudo. Mesmo se os pecados forem cometidos pela calada da noite?, perguntou o capitão. Mesmo pela calada da noite e às ocultas, respondeu o chefe da comitiva, agastado com a perserverança do homem. E depois com veemência: Ele está em toda a parte». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.

Cortesia de OdoLivroE/JDACT

JDACT, José Manuel Saraiva, Literatura, Cultura e Conhecimento,

sábado, 15 de maio de 2021

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Deslocada do sereno ambiente onde nasceu, cresceu e foi educada, Maria Teles, irmã da senhora do morgado de Pombeiro, começava a sentir cada vez mais e maiores dificuldades de adaptação a Lisboa e ao movimento da corte»

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«(…) Apesar do pouco tempo que dom Fernando levava de reinado, começavam portanto a ser já muitas as críticas da nobreza e do clero, sobretudo do alto clero, ao comportamento irresponsável, mandrião e mulherengo do monarca; mas mais e pior do que essas eram as que, embora por motivos diferentes, provinham da arraia-miúda, de cujo universo faziam parte a peonagem, os rendeiros, os colonos, os servos, os assalariados rurais, os mesteirais, os mercadores-ambulantes e os pobretões. Na realidade, era o povo a principal vítima dos medonhos abusos de poder e jurisdição dos grandes senhores; era ele que por não ter ninguém que o protegesse chegava a clamar pela sua própria venda aos mouros para não continuar na sujeição a que se via obrigado. Alarmado com a perspectiva do desastre para o país no caso de as notícias sobre a hipotética aliança do monarca com a infanta se confirmarem, João Lourenço Cunha soltou a certa altura em voz alta, de si para si, um sofrido desabafo: isto vai mal! Claro que não era o eventual casamento de dom Fernando que o inquietava, pela absoluta certeza de que a cada homem cabia a liberdade da escolha ou o desígnio da imposição, sobretudo se fosse rei, mas sim as consequências decorrentes do consórcio dos dois irmãos. Quanto ao resto, mais propriamente sobre as queixas do povo que se ouviam por toda a parte, não se ralava. Pelo contrário. Considerava até que dom Fernando estava a ser demasiado brando com a plebe, improcedendo assim as políticas de rigor e autoridade dos antecessores Afonso IV, seu avô, e dom Pedro, seu pai. Para o morgado, ambos tinham dado um excelente exemplo de governação ao associarem novas disposições legais aos regulamentos já subscritos pelos monarcas anteriores, permitindo a sacerdotes e a magistrados que, a coberto do poder das suas vestes talares, negras e medonhas, aplicassem severas medidas sentenciais como a decapitação pela espada, a amputação dos pés, das mãos, do nariz e das orelhas, o britamento dos dentes, a extracção da língua ou mesmo a combustão. No seu desvairado entendimento, tornava-se indispensável frenar o povo, moderar-lhe os impulsos, mantê-lo no lugar onde por alguma razão Deus o pusera, e dar-se continuidade à escola de dom Pedro, esse bem-aventurado Justiceiro que nunca abriu brechas na sociedade ao não consentir quaisquer fidúcias à arraia-miúda nem deixar o alto e baixo cleros arrogarem-se uma autoridade para além da que lhes era admitida.

Foi, pois, a pensar em tudo isto, sobre o que lhe disseram em Coimbra acerca do rei dom Fernando e sobre o que sabia do modo como o rei dom Pedro exercera anteriormente o seu poder, severo e nivelador, punindo com as próprias mãos os desmandos de ricos e pobres, plebeus e poderosos, nobres e clérigos, judeus e vagabundos, almirantes e bispos, que João Lourenço Cunha adormeceu, por fim, no banco defronte à lareira já quase em extinção, ausente da mulher e cansado da viagem. E nem o lúgubre piar dos mochos e das corujas, que naquela noite de vento lhe rondavam a casa como anúncio de morte ou de tragédia, o despertou do sono profundo em que caíra.

Deslocada do sereno ambiente onde nasceu, cresceu e foi educada, Maria Teles, irmã da senhora do morgado de Pombeiro, começava a sentir cada vez mais e maiores dificuldades de adaptação a Lisboa e ao movimento da corte. Tinham passado cinco meses apenas sobre o dia em que deixou Barcelos, mas ainda assim um longo período para uma mulher habituada a ser servida, e nunca a servir os outros. É certo que se afeiçoara a dona Beatriz, de quem era camareira e se tornara entretanto moderada confidente, mas as saudades da Beira e a nostalgia do passado excediam em tudo o que a surpreendia e se lhe revelava. No Paço ou nas residências reais da alcáçova e de Santo Elói já ela havia visto muita gente venerável, lentes, magistrados, arcebispos, donzelas de linhagem e fidalgos de valia, e conhecido pessoalmente até o execrável Diogo Lopes Pacheco, um dos assassinos de Inês de Castro, frequentador assíduo da corte, senhor de Trancoso e um dos mais notáveis políticos do reino, Álvaro Pais, vedor-mor da chancelaria, dom Martinho, bispo de Lisboa, o enfezado Nun'Álvares Pereira, e três dos quatro irmãos do monarca: dom Afonso, dom Dinis e o bastardo dom João, mestre de Aviz. Faltava-lhe conhecer apenas dom João Castro». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, José Manuel Saraiva, Literatura, Cultura e Conhecimento,

José Manuel Saraiva. Aos Olhos de Deus. «… quando regressardes, não vos esqueçais de trazer essa Raquel, a judia vossa amiga, à minha corte. Gostava de a conhecer»

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«(…) Das margens do Tejo troava já nessa altura uma gritaria infrene. E ela foi crescendo à medida que o cortejo, entretanto formado, se deslocava lentamente do local da celebração eucarística para o cais de embarque, num percurso aproximado de quinhentos passos. À frente seguiam o arcebispo com a cruz de ferro e um jovem fidalgo com o estandarte branco e carmesim dos Cavaleiros da Ordem de Cristo, benzido na oblação pelo arcebispo Martinho; logo atrás, enquadrado por dezenas de pajens vestidos de veludo e seda púrpura, caminhava el-rei Manuel I de espada à cinta e na cabeça desgrenhada a coroa de ouro embutida a diamantes e outras pedras preciosas; na esteira do soberano, por ordem de importância, marchavam o embaixador Tristão Cunha, o orador Diogo Pacheco, o magistrado João Faria, o moço de escrivaninha Garcia Resende, o guarda do elefante, Nicolau Faria, e os capitães e capitães-mor das cinco naus. Os filhos de Tristão Cunha, Nuno, Simão e Pero Vaz, os consignatários do alto clero convidados pelo imperante, os amados nobres de Sua Alteza e os restantes membros da comitiva à cúria romana, num total de duzentos, completavam o desfile cuja chegada ao cais foi saudada pela multidão em delírio, soltando berros à desgraça e à alegria, vivas ao rei e ao papa e, como de costume, morras aos judeus e aos hereges. Uma salva de artilharia, mandada disparar pelo almirante-mor do reino, marcou a chegada do cortejo ao molhe onde Sua Alteza, arrebatado por um sentimento de felicidade jamais sentida, procedeu à entrega do estandarte ao comandante da esquadra.

Que o vento vos leve e o vento vos traga na santa paz de Deus!, disse o rei no momento em que depositava o pavilhão nas mãos do oficial. E, comovido, acrescentou: tenho a certeza de que esta não será a viagem mais audaciosa das que já haveis realizado até hoje; mas é seguramente uma das mais notáveis, senão mesmo a mais notável das que empreendestes como marinheiro. Carregado de orgulho e de vaidade, o capitão ajoelhou-se aos pés do soberano, beijou-lhe as botas enlameadas, voltou a aprestar-se e respondeu num tom forte, definitivo: obrigado, meu senhor, pela honra de me haverdes escolhido para comandar a flotilha. E juro por Deus, aqui mesmo, em nome do vosso interesse e dos interesses de Portugal, fazer chegar sem mácula à cúria de Roma todos os bens que decidistes enviar a Sua Santidade. Deus vos ouça, bem-aventurado capitão!, acrescentou o rei, enquanto olhava para o interior da nau que transportava o elefante.

Ele está a ouvir-nos, garantiu o arcebispo, à parte, em voz baixa. Sob o clamor torrencial da caterva cada vez mais histérica, exuberante, Manuel I despediu-se de todos, um por um, com solenidade e distanciamento, deixando para último o seu amigo dom Diogo Pacheco a quem, como de costume, estreitou o corpo num abraço intenso e breve. Tão breve quanto o tempo que levou a segredar-lhe: quando regressardes, não vos esqueçais de trazer essa Raquel, a judia vossa amiga, à minha corte. Gostava de a conhecer. Diogo Pacheco não sorriu, nem respondeu. Apenas curvou a cabeça e disse com ar sério, num tom quase sumido: que Deus vele pela vossa saúde, meu rei e meu senhor! Meia hora mais tarde, já o monarca tinha aliviado a cabeça da pesada coroa e a comitiva se acomodado no ventre infecto das naus, foi dada a ordem de partida pelo capitão da esquadra, no tombadilho da proa do primeiro navio: afastar pranchas das escotilhas, gritou. As pranchas foram afastadas. Soltar amarras, largar velas, voltou a berrar com mais vigor, ainda. As amarras foram soltas. Uma nova salva de artilharia, a que sucedeu o toque dos sinos de todos as igrejas da cidade, marcou o fim da cerimónia em terra. Do sudoeste levantara-se, entretanto, um vento forte e frio como punhais. Eram onze horas da manhã». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.

Cortesia de OdoLivroE/JDACT

JDACT, José Manuel Saraiva, Literatura, Cultura e Conhecimento, 

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Recuperado do susto, tranquilizado posteriormente pelo seu médico particular e bom amigo, o soberano quis dar a todos um sinal de confiança e vigor físico…»

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«(…) Nesse dia não houve jogos de péla, nem lançamento de foguetes, nem cortejo real entre a Sé e o cais, sequer manifestações iguais ou idênticas às que marcaram, dias antes, a chegada a Lisboa das naus da Índia. A festa concentrou-se essencialmente nas margens do rio, numa extensão que uniu a zona dos paços reais à praia de Nossa Senhora de Belém. E foi em Nossa Senhora de Belém, ao ar livre, num espaço lamacento e irregular, quase defronte ao local onde decorriam as obras de construção do mosteiro dos Jerónimos, que o arcebispo de Lisboa presidiu a uma missa em glória a Deus e à Virgem, em honra do papa e do rei, e, por questões de economia, de homenagem aos ilustres enviados do monarca português à cúria romana. A oblação durou duas horas e só não demorou mais tempo porque Sua Alteza teve, a dado momento, um ligeiro achaque, com certeza por causa do frio e de uma noite mal dormida, ou pelo choque da emoção, ou, hipótese também provável, por todas as circunstâncias associadas.

Recuperado do susto, tranquilizado posteriormente pelo seu médico particular e bom amigo, o soberano quis dar a todos um sinal de confiança e vigor físico: desajeitou dos ombros o manto de carmesim rendilhado a peloticas de ouro, ergueu a espada ao céu para disfarçar o sobressalto e bradou com a voz firme, poderosa: Deus está com o rei dos portugueses! Todos responderam em coro: e os portugueses estão com o rei! Amén, agradeceu. Amén, rejubilaram os fiéis. Junto ao altar-mor improvisado, assente em troncos aplainados de madeira coberta por uma espessa camada de gravilha e areia grossa, o arcebispo Martinho Costa assistia comovido àquela súbita manifestação de culto ao rei e de fé em Cristo. De abraços abertos, ligeiramente arqueados, como se quisesse com esse gesto de exagerado amaneiramento envolver os crentes no mesmo espasmo de amor e redenção, o clérigo semicerrou os olhos e, com lágrimas deslizando sobre o rosto, exultou: Deus seja louvado! Louvado seja o Senhor!, responderam outra vez os fiéis, emocionados.

O espaço para a celebração da missa havia sido reservado exclusivamente a Sua Alteza Real, a um restrito grupo de fidalgos da sua imensa corte, talvez os mais próximos, os mais queridos, aos membros do alto clero da simpatia do soberano, aos ilustres representantes do rei na comitiva ao Papa e aos capitães e capitães-mor dos navios com destino a Roma. Os restantes, pilotos e sota-pilotos, mestres e contramestres, pajens e despenseiros, barbeiros e cirurgiões, artífices e carpinteiros, marinheiros e grumetes – foram colocados à parte e mantidos a considerável distância da selecta assistência, pelos guardas do imperante. Acabámos de assistir a um milagre, continuou o prelado do cimo do púlpito, afirmando-se na ideia de que Deus estava ali, observador, vigilante, sempre atento a qualquer investida demoníaca contra o sucesso da empresa do piíssimo Manuel I, se não mesmo contra a saúde e o bem-estar do soberano. Ao ouvirem as palavras do clérigo, carregadas de certeza, emoção e fé, os homens ajoelharam-se de imediato na terra lamacenta para rezar o Pater noster, todos de mãos postas, numa comovente união de afecto e testemunho. E até o monarca, depois de o alferes-mor da corte lhe ter estendido aos pés um manto emprestado na mesma hora por um monge hieronimita que assistia o arcebispo, se prosternou como os outros e, como os outros, orou pela salvação própria e agradecimento ao Altíssimo. Finda a oração, já com os fiéis de novo aprestados, o arcebispo Martinho Costa ainda tentou prosseguir a litania, mas o barulho era tanto e tamanho o desalinho da multidão que apenas se limitou a proferir um simples voto: ide em paz e segurança! Que o Senhor vos acompanhe à Cidade Santa e lá possais encontrar de boa saúde o sapientíssimo e Santíssimo Padre, clementíssimo Leão, magnânimo príncipe da cristandade. Amén, acrescentaram alguns devotos, os que ainda conseguiram ouvir as últimas palavras do arcebispo. Ad perpetuam rei memoriam concluiu o eclesiástico, desenhando no espaço o sinal da cruz com a mão direita. E a missa acabou». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.

Cortesia de OdoLivroE/JDACT

JDACT, José Manuel Saraiva, Literatura, Cultura e Conhecimento,

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Passado um curto período de silêncio, a mulher levantou-se, sacudiu a cinza acumulada sobre a roupa e recolheu aos aposentos, deixando o marido na mesma posição, silente e apreensivo…»

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«(…) O homem comoveu-se: obrigado, senhora. Nessa tarde, Vicente Esteves partia para Coimbra tranquilo, saudoso e aliviado. Tranquilo por levar como companhia para defesa pessoal um grupo de cinco homens que a senhora do morgado de Pombeiro lhe arranjara; saudoso da mais bela mulher que alguma vez frequentou e que horas antes o havia levado aos céus no único momento afortunado da sua precária existência; aliviado, enfim, não só por se não ter cruzado com o execrável João Lourenço Cunha, mas também pela certeza conferida pela magia das alfaias domésticas de que a comida do excelente e farto jantar não estava envenenada. Se estivesse, ele sabia-o, os chifres de unicórnio e as pedras raras que Leonor lançou na sua presença para a bacia dos cozinhados teriam mudado de cor.

Ao contrário porém do que era esperado, João Lourenço Cunha não haveria de chegar nesse dia a casa. Chegou, sim, uma semana mais tarde, exausto e com novidades de Lisboa. Soubera em Coimbra, por onde passara de regresso a Pombeiro, que el-rei Fernando I pretendia desposar a meia-irmã, dona Beatriz, e que o caso estava já a ser discutido e alvo de fortes censuras por parte de muitos nobres e clérigos, com maiores ou menores ligações à corte. Sentado à lareira, de cotovelos apoiados na dobra dos joelhos, com os braços estendidos e as mãos abertas para colherem o calor do lume, João Lourenço confidenciou à mulher: sabes, disseram-me que sua alteza real é muito dado aos afectos da infanta, e que é seu desesperado anseio desposá-la. E, ao que parece, o casamento nem será difícil de levar por diante se a Igreja lhes conceder entretanto uma dispensa canónica. Se isso vier a acontecer, se for verdade o que todos juram, a situação em Portugal terá tendência a complicar-se, porque não pode haver duas cabeças tão próximas uma da outra, do mesmo tronco e do mesmo sangue numa só corte.

Leonor Teles, também ela abancada à lareira mas a uma considerável distância do marido, de olhos pregados nas chamas, discreta e silenciosa, ia ouvindo com pouco entusiasmo a narração de João Lourenço, não sabendo porém se verdadeira ou fantasiosa. Se eles casarem, prosseguiu, meneando a cabeça em sinal de receio, o país pode vir a sofrer com o caso. E porquê, estimado esposo? Olha porquê!, exclamou ele, encolhendo os ombros, num tom alterado. Porque o trono ficaria de rastos, e se ficasse de rastos o reino de Castela via-se logo tentado a disputar a nossa coroa. E se disputasse, com o país então enfraquecido, o povo viraria na mesma hora costas ao rei para se ligar a Castela. E todos perderíamos. Como vês, é muito simples. Se assim for, se tudo acontecer como o meu estimado esposo diz, é realmente perigoso, comentou, sarcástica.

Passado um curto período de silêncio, a mulher levantou-se, sacudiu a cinza acumulada sobre a roupa e recolheu aos aposentos, deixando o marido na mesma posição, silente e apreensivo, não tanto por uma qualquer análise pessoal aos factos descritos, dado que não tinha talento ou imaginação para isso, mas pelo que terá ouvido em Coimbra a pessoas com outros dados e conhecimentos. Lá se dizia e se comentava que o jovem rei dava mais espaço à preguiça do que ao trabalho, que atribuía mais reparo aos segredos de alcova do que aos assuntos da governação, que gostava mais de soltar dois tiros numa caçada do que fazer ou assinar uma lei. E, também, que por causa da sua feição galanteadora, afável, namorisqueira, se perdia com facilidade nos encantos das donzelas que enxameavam a corte, retirando ao tempo que estava em Lisboa a disponibilidade para outros afazeres deveras importantes. Havia até quem afiançasse, embora com a prudência exigida à falta de provas, que sua alteza mantinha um caso de amor e de incesto com a irmã, passando horas aos abraços e beijos nela, pelo que no entendimento do morgado e de quem lhe terá passado a notícia não era desajustada a secreta intenção de o rei a desposar». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, José Manuel Saraiva, Literatura, Cultura e Conhecimento, 

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Em apenas sete dias, Lisboa regressava ao que sempre fora: uma incomensurável estrumeira. Mas mesmo com a cidade imunda, talvez pouco digna para valer de sede…»

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«(…) A partida da embaixada para Roma, ao fim da manhã de quinze de Dezembro, voltou a ser rodeada de um esplendor quase idêntico ao da chegada das naus a Lisboa, uma semana antes. De novo, milhares de pessoas, incessantemente possuídas por um estado de profunda exultação, acorreram às praias do Tejo para assistir à largada dos navios e aos rituais que a antecederam, vitoriarem o rei e a rainha, loarem o papa e louvarem a Deus. Desde a hora do amanhecer que o céu se encobrira de nuvens cor de chumbo, densas e medonhas como as ondas do mar que, à saída do estuário, rebentavam sem piedade contra as rochas da costa oceânica. Mas nem assim, com o tempo a ameaçar chuva ou tempestade, a população deixou de corresponder aos apelos do município e da Igreja para se associar aos festejos áulicos e se despedir da numerosa comitiva no Cais da Ribeira. O próprio Manuel I, através de cuja corte se fez ouvir como na época dos pregões, pediu ao povo que acudisse às margens do Tejo e lá celebrasse o acontecimento sem pranto nem dor, como sucedia sempre que uma esquadra viajava para longínquas paragens à descoberta de novas terras, de outras gentes, de estranhas culturas, principalmente de cobiçadas riquezas.
Já todos haviam assistido às partidas temerárias de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu Dias, Afonso Albuquerque e de muitos outros capitães e marinheiros cujo regresso à pátria era sempre mais incerto do que seguro. Já todos haviam chorado pais e filhos; as mulheres, com certeza, maridos e amantes; porventura até aqueles a quem não restava outra coisa na vida que não fosse a desgraça da própria vida. Só que daquela vez, a primeira entre muitas, a viagem para Roma não comportava o risco de tragédia, quase nem sequer o risco do imprevisto. Se o mar em muitos casos era uma ameaça, também noutros era amigo. Além disso, os portugueses sabiam que o Criador nunca se esquecia de proteger o venturoso rei, e por muitas zangas que Ele já tivesse tido com Manuel I pela prática continuada de pecados cometidos na intimidade dos seus aposentos, na Casa da Mina, ora com jovens donzelas de precária conduta, ora com jovens fidalgos de duvidosa decência, jamais o abandonaria. Deus fora sempre generoso e tolerante com o improbo soberano português e não seria agora, decerto, no momento em que o homem se propunha levar a Sua Santidade presentes de inestimável valor para o reforço patrimonial da Igreja, que deixaria de o ser. Por isso todos acreditavam no sucesso da viagem. Por isso todos confiavam na ajuda divina. E como Manuel I entendia que a cada gesto de amor do Altíssimo os homens deviam corresponder com amor idêntico, pediu à população de Lisboa o regresso ao cais, para uma festa de despedida cujo eco pudesse chegar a Roma, e impressionar o Sumo Pontífice.
E a festa começou de madrugada ainda. A cidade, que na semana anterior fora limpa e enfeitada com gigantescos ramos de acácias e oliveiras, de abetos e flores de tonalidades diversas, voltava a recuperar da tradicional desorganização e do putrefacto ambiente: as praças tinham-se enchido outra vez de imundície; as ruas passaram de novo a servir de depósito ao excremento dos animais, dos miseráveis e vagabundos; as tabernas e tavolagens haviam perdido o asseio transitório; as latrinas a céu aberto, dada a extinção de múltiplas fogueiras e a murchidão das pétalas perfumadas, voltou a cobrir a cidade com um véu de odor infecto, pútrido, sinistro. Em apenas sete dias, Lisboa regressava ao que sempre fora: uma incomensurável estrumeira. Mas mesmo com a cidade imunda, talvez pouco digna para valer de sede a um acontecimento tão relevante quanto o que se pretendia celebrar, Manuel I não deixou de exigir aos súbditos por interpostas entidades, profanas e religiosas, uma participação marcadamente efusiva no espectáculo do adeus à embaixada. E os súbditos, sempre dispostos a obedecerem ao rei e a cumprirem as orientações da corte, do município ou da Igreja, compareceram aos milhares junto ao rio, integrando muitos deles fanfarras de trombetas, pífaros, tambores, sacabuxas, flautas, gaitas-defoles, além de vários instrumentos rudimentares, quase todos destinados a produzir ruído e confusão». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
Cortesia de OdoLivroE/JDACT

sábado, 25 de abril de 2020

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «O próprio comportamento de Leonor, cerimonioso e frio, começava a despertar nele um estranho sentimento de desconforto, chegando a levá-lo à dúvida…»

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«(…) Por isso, entendeu que o melhor remédio seria o de voltar para Coimbra tão depressa quanto possível, evitando até, se ainda fosse a tempo, encontrar-se com o morgado de Pombeiro, cujo regresso a casa estava previsto para esse mesmo dia. Acrescia a tamanha inquietação o episódio do sonho em que, horas antes, se viu envenenado por Briolanja Mendes. E disso tinha medo. E por isso se assustou também quando, ao chegar à cozinha, viu a velha Briolanja, acompanhada pela sua dama, a preparar o jantar. Bom dia, senhora, cumprimentou, perturbado, com o queixo a tremer e a voz gaguejante. Bom dia, correspondeu ela, serena, descontraída, quase perfeita na atitude e no aspecto. Visivelmente atrapalhado, Vicente Esteves mal conseguiu olhar para Leonor quando ali mesmo reafirmou a intenção de voltar rapidamente a Coimbra, bastando para tanto que a jovem dama lhe destinasse a companhia de um grupo de homens de sua confiança. Para ele, àquela hora, mais terrível do que o pânico dos assaltos eram a desconfiança do papel de Briolanja, despertado pelo maldito sonho, e o medo a João Lourenço Cunha no caso de este vir a saber da vergonhosa insídia.
Com a autoridade que lhe conferia o estatuto de sobrinha do conde de Barcelos e de senhora do morgado de Pombeiro, Leonor Teles prometeu providenciar para que nessa tarde ainda ou, na pior das hipóteses, no dia seguinte alguém levasse o lente à cidade onde nasceu sua alteza el-rei Fernando I. E depois de lamentar as circunstâncias que determinavam a antecipação do regresso dele a Coimbra, Leonor Teles não perdeu tempo a convidá-lo em seu nome e em nome do marido para usar da casa sempre que se quisesse recolher. Não sei se sou merecedor da sua estimada atenção, senhora. O senhor é merecedor dela, como o é também do bom jantar que os criados e a minha ama estão a preparar para nós. Ao ouvir as últimas palavras, Vicente Esteves não conseguiu evitar, ou sequer disfarçar, um estremeção que por pouco o abalava. O próprio comportamento de Leonor, cerimonioso e frio, começava a despertar nele um estranho sentimento de desconforto, chegando a levá-lo à dúvida sobre se a dama e a sua ama não estariam cumpliciadas para o envenenar.
Agradeço a sua elevada atenção, senhora, mas não me apetece jantar. Subitamente, Leonor Teles lembrou-se de o homem lhe ter contado o sonho em que se via envenenado pela velha, pelo que a sua recusa em comer era decerto mais por ter medo do que por não ter fome. Ao dar-se conta disso e ao ver o lente a tremular, a jovem convidou-o a ir com ela à sala para uma conversa reservada. Senhor lente Vicente!, começou o fraseado, antes de lhe pedir para se sentar num banco a curta distância do seu. Eu sei que está com medo de muitos assuntos, e tal se pode ver pelo seu rosto e pelo seu jeito, mas rogo-lhe que não tenha nenhum receio. Se alguma vez vier a ser envenenado, e Deus Nosso Senhor queira que não, nunca o será na minha casa nem por iniciativa da minha ama, em quem deposito a maior confiança. Quero crer que agora tenha outros temores para além deste, porque eu também os tenho, mas gostaria que de nada receasse, quanto mais não seja em homenagem à noite de glória a que ambos nos entregámos e nos soubemos dar.
De olhos postos nas mãos cruzadas sobre o colo, o professor ia ouvindo atentamente aquelas palavras sem nunca fitar Leonor, excepção feita ao momento em que ela pronunciou a frase de glorificação à noite de luxo que lhes aconteceu. Só nessa altura levantou a cabeça e soube sorrir com amável alegria e discrição. Sabe, o que se passou entre nós só foi possível por eu não ter do meu esposo a atenção que julgo merecer e que o senhor Vicente Esteves me confiou. Tenho pena que se vá embora. Fazendo uma pausa, acrescentou: mas, pensando bem, talvez seja preferível para mim a dor da falta que me vai fazer à tímida alegria da sua continuada presença aqui. Juntos, com o meu esposo nesta casa, dificilmente saberíamos lidar com o caso. Cada vez mais nervoso e inquieto, emocionado já, Vicente Esteves voltou a olhar para a dama, abanando então a cabeça em sinal de concordância.
Quanto ao seu medo à comida, continuou, peço-lhe também que não o tenha, porque eu própria me encarregarei de colocar nas bacias da cozedura umas alfaias bastante eficazes. Tenho ali uns chifres de unicórnio, ágatas e a pedra serpentina que, como sabe, nos mostrarão se a comida tem ou não veneno. E, sorridente, acrescentou: só desejo que depois do jantar vá com Deus, meu estimado amigo, e que Ele o ajude e o proteja». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Vos rogo, senhor, que não atenteis contra a minha honra, suplicou a jovem, logo que se viu a sós com o homem, no exterior daquela casa de Deus, e se apercebeu dos intentos do clérigo»

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«(…) Bendito seja Deus!, exclamou o bispo, baixinho, de braços abertos, erguidos ao céu, à entrada do templo. Havia flores por toda a parte. Mais de uma dezena de mulheres, dois bispos e quatro sacerdotes, cada um a seu modo, executavam com rigor e arte os trabalhos de decoração. E de tal modo era o empenho de todos que nem deram pela entrada de Petrini, ou, se deram, ignoraram-no, das cinco religiosas e da jovem portuguesa. Só mais tarde, quando os padres começaram a acender as velas para verificarem a iluminação do interior do templo é que um dos clérigos notou a presença de Raquel Aboab, encostada a um canto, tremendo de medo e de frio. Quem sois vós?, perguntou o eclesiasta. A mulher nem teve tempo para responder. Nesse instante, Francesco Petrini aproximou-se dela e, a curta distância, pediu-lhe que o acompanhasse ao pátio nas traseiras da capela para ajudá-lo a transportar ramos de flores. Raquel ainda hesitou. Mas sem defesa ou argumentos, ali exposta e observada por todos, acabou por aceder ao pedido do bispo.
Vos rogo, senhor, que não atenteis contra a minha honra, suplicou a jovem, logo que se viu a sós com o homem, no exterior daquela casa de Deus, e se apercebeu dos intentos do clérigo. Calai-vos, mulher do demónio, respondeu ele de imediato, ao mesmo tempo que a segurava pelos ombros com um braço e lhe tapava a boca com uma mão. E prosseguiu na ofensa, já com ela dominada: sois obra do Diabo; sois a tentação do pecado, mulher impúdica. Incapaz de se libertar da força bruta do clérigo, a judia começou aos poucos a perder o fôlego, o ânimo, talvez até a noção da própria vida. E foi então, estava ela quase a desfalecer, que Petrini a arrastou para debaixo de um alpendre no pátio do peristilo, tentando aí, depois de levantar a sebenta sotaina, violá-la e agredi-la com palavras de irreprimível desejo e ódio cego. Ah, mulher demoníaca que tanto me tentais..., continuou ele na sua depravada litania. Mas eis que por sorte ou por milagre surgiram no local, naquele preciso momento, o cardeal Pietro Bembo, secretário de Estado da cúria romana, e três jovens padres. Que estais a fazer, homem herético!, gritou o cardeal Bembo, levando as mãos à cabeça.
Surpreendido, Francesco Petrini largou a mulher à pressa, recompôs-se de imediato e disse atabalhoadamente que fora ela, filha do pecado e do demónio, a tentá-lo. Levai-o daqui já, ordenou, indignado, o cardeal aos sacerdotes que o acompanhavam. Levai o depravado e ide entregá-lo aos guardas do castelo, que eles saberão dar-lhe o merecido destino. Não façais isso, monsenhor, berrou o bispo. O episódio despertou um enorme alvoroço entre os padres e as religiosas que, no interior da capela, procediam aos trabalhos de adorno e embelezamento. Alertados pelos gritos, todos acorreram com velas acesas ao pátio das traseiras, onde se depararam com a jovem desmaiada, o cardeal enfurecido e os sacerdotes a conduzirem o bispo pelos braços, com a sotaina rasgada e suja, à tenda dos guardas do castelo. Faltava apenas saber quem era a vítima.
É portuguesa e reside na casa das Seculares Reparadoras da Virgem das Dores, informou uma das religiosas do grupo que assistiu à reunião da tarde, no anexo de Sant’Angelo. Oh, meu Deus!, exclamou o cardeal Bembo, antes de se benzer e de se dirigir às mulheres à sua volta. Portuguesa, ainda por cima... Despertai-a; tratai-a com enlevo e levai-a depois a sua casa. E a todas pediu segredo.
Na manhã do dia seguinte, por santíssima ordem do Sumo Sacerdote, Francesco Petrini foi despojado do cargo, do título, da sotaina, e entregue ao poder secular para lhe ser aplicado o castigo de sangue que a hierarquia espiritual, por cautelas e preconceito, não gostava de exercer, ou, alternativamente, ser lançado à execração pública». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Senhora, respondeu ele, incrédulo, ao mesmo tempo que se erguia e se apoiava na dobra dos cotovelos. Sente-se bem?, perguntou ela, tentando disfarçar a agitação que se apoderara de si como o sintoma da Peste Negra»

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«(…) Ainda não tinha passado meia hora e já o professor espirrava, tossia e tremia. Sem perda de tempo, Leonor levantou-se do banco e foi imediatamente preparar uma dose de sumo de erva primavera para o lente inalar e se prevenir contra a febre e a doença. Depois pediu a Briolanja que aquecesse um vaso de água com vinagre para ele lavar as feridas antes de recolher aos aposentos, que a própria haveria de lhe indicar. Eu não mereço tanta maçada, senhora dona Leonor Teles. Por quem sois, senhor, exclamou, nervosa. Apenas desejo que não sinta falta de nada. Os livros, esses, é que é pior..., mas também se pode resolver o problema, se assim o entender, e então mandarei a Coimbra um homem de confiança buscar uma cópia à Universidade ou ao sítio que o senhor Vicente mencionar. Isso é impossível, minha estimada senhora!, atalhou ele com ar constrangido. Eu é que tenho de ir a Coimbra falar com o bacharel, senhor cónego Gonçalo Migueis, e com o senhor bispo, Vasco Fernandes de Toledo, para lhes dar conta da situação e para serem eles depois a pedir novos exemplares a Roma ou a Santiago de Compostela. A situação é mais complicada do que parece. Leonor Teles ficou sem palavras, em silêncio, perdida no interior da alma e abalada por horríveis sentimentos de ódio e nojo pelos canalhas da arraia-miúda que molestaram o lente. Podiam-lhe ter batido, levarem-lhe o capeirote, o cavalo e ficarem-se por aí. Mas roubarem-lhe os livros?! Para quê? Tamanho o asco sentido naquele momento de incontrolável desespero que mal pôde evitar um grito de revolta não pelo roubo dos livros, cuja importância era de pouca monta para ela, mas pelo facto de tão desagradável circunstância poder vir a deitar por terra a hospedagem em sua casa do ilustre professor, por quem se sentia vagamente atraída desde a primeira hora em que o viu. Malditos plebeus!, exclamou. São pobres, profundamente miseráveis, condescendeu o lente. Mas incorrigíveis criminosos.
Durante seis dias, a senhora do morgado de Pombeiro tratou o professor com inexcedível zelo e indisfarçável ternura, sendo ela mesmo a levar-lhe à cama a comida e as mezinhas para o tratamento da maleita. Às vezes, durante a noite, chegava a levantar-se para ir encostar o ouvido à porta dos aposentos de Vicente Esteves, de modo a certificar-se de que ele estava vivo ou, talvez, quem sabe, pôr à prova a capacidade de resistir ao apelo do pecado. Na madrugada anterior ao previsível dia de regresso do marido a Pombeiro, já o lente tinha recuperado da tosse e da febre, Leonor Teles não conseguiu aguentar mais a ansiedade e, à coberta da noite e sem ruído, entrou de mansinho na câmara de Vicente Esteves, que acabara de despertar de um medonho pesadelo. Senhor...
Senhora, respondeu ele, incrédulo, ao mesmo tempo que se erguia e se apoiava na dobra dos cotovelos. Sente-se bem?, perguntou ela, tentando disfarçar a agitação que se apoderara de si como o sintoma da Peste Negra. Sinto-me bem, sim; apenas sonhei que fui envenenado pela sua ama, segredou o professor, já a morgada estava junto à cabeceira. Credo! Abrenúncio!, exclamou, assustada. Pela janela dos aposentos entrava a essa hora uma centelha de luz, muito pálida, muito ténue, mas generosamente cedida pela fogueira no pátio da casa para a queima do lixo de várias semanas, permitindo assim a um e a outro distinguirem-se e identificarem os objectos que os rodeavam. Senhora... Não diga nada, interrompeu Leonor, de súbito, enquanto se debruçava sobre Vicente Esteves para um demorado beijo. Depois, levada pela tentação do gosto e do Demónio, levantou devagarinho os cobertais de papa e de penas, enfiou-se na cama e aos poucos enroscou-se nele.
Instantes passados, aproveitando uma pausa do comum delírio, o lente ciciou: estou a viver um sonho. Que não é o do veneno... Não! É o do amor. Num impenitente estado de desassossego, despidos já da roupa, do medo e da vergonha, os dois amantes voltaram a beijar-se. E foi então no movimento ondular dos corpos e de muitos beijos que se cumpriram na urgência do milagre mais perfeito daquela noite de esplendor. Para ambos, talvez mais para Leonor Teles do que para o lente, consumara-se, enfim, no espaço destinado à ofensa e à perfídia, uma longa espera para uma oportunidade tão breve. Gostava de ser o seu morgado, segredou o lente após o feito. Preferia que fosse o meu rei para eu ser a sua rainha, atalhou Leonor, com um sorriso irónico que mal se distinguia na penumbra dos aposentos.
Transbordando de contentamento e sensibilizado com o voto que acabara de ouvir, Vicente Esteves, com ar muito cândido, voltou a segredar: se fosse rainha não me importaria de ser o mais humilde servo da sua corte. Quase à hora do despertar da aurora, em que eram já perceptíveis os sinais de vida no exterior da casa, Leonor Teles foi a custo para os seus aposentos e Vicente Esteves também a custo ficou nos dele, entregando-se ao sonho e à imagética. Se por um lado sentia uma enorme felicidade naquela hora única, quanto mais não fosse pelo facto de se ter achado senhor do mais rico reino do pequeno mundo que conhecia, por outro lado tinha medo de que por qual quer desgraçada circunstância ou denúncia dos demónios João Lourenço Cunha viesse a saber da traição e o mandasse liquidar». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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sexta-feira, 21 de junho de 2019

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Ainda não me esqueci do caso, senhora, atalhou Briolanja ao aperceber-se do que a jovem queria dizer com a história do falso sonho. Eu sei que sim, boa amiga…»

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«(…) Palavras mais desenganadoras do que estas não podia ter ouvido. Talvez Leonor preferisse que Briolanja lhe dissesse que as estrelas tinham confirmado a conquista por parte dela de um rei e de um trono para assim poder sonhar com um mundo fantástico, improvável que fosse, impossível que se revelasse. Pena que a verdade fosse tão dolorosa e que só mesmo a mentira lhe fizesse idealizar o cume de uma alcáçova e lhe consentisse a ideia de que o discreto estatuto de senhora do morgado de Pombeiro era apenas provisório e não definitivo. Depois de alguns momentos de reflexão, com ar sério e num tom de voz indisfarçavelmente cínico, fitou a ama e disse: também tive um sonho esta noite. Vê lá tu que sonhei que o meu desalmado esposo se sentiu mal por causa de uma coisa que bebeu misturada no vinho. Durante alguns instantes fez-se um silêncio quase absoluto, deixando as duas mulheres inertes e frias como as grandes rochas da serrania defronte à casa.
Ainda não me esqueci do caso, senhora, atalhou Briolanja ao aperceber-se do que a jovem queria dizer com a história do falso sonho. Eu sei que sim, boa amiga, sei que tens boa cabeça, mas agora fecha a porta e deixa-me sozinha.
Passaram-se entretanto quatro semanas sobre este episódio sem que o dono da casa sentisse qualquer indisposição súbita ou o professor Vicente Esteves desse sinal de vida. Certa tarde, já Leonor tinha perdido a esperança de ter o lente como hóspede, apareceu ele encharcado da chuva e sem bagagens, com um braço tolhido de dor e um golpe na testa. Que aconteceu?, perguntou a dama, incrédula e assustada, quando viu o homem naquele estado à porta de casa. Entre, senhor, entre e vá à lareira enxugar-se e aquecer-se. Vicente Esteves contou que fora assaltado por quatro homens, armados de punhais, quando estava já a pouco menos de duas léguas de Pombeiro e que os ferimentos no braço e na cabeça tinham sido causados pela violência das pancadas que sofreu antes de lhe levarem o animal em que se transportava, o capeirote que o protegia do frio e até mesmo os livros para o trabalho que pretendia realizar. Impressionadas com o relato do homem, Briolanja Mendes, que assistia à conversa junto ao umbral da porta, persignou-se logo que ele deu por findo o relato, enquanto Leonor Teles se benzia e proclamava in nomine patris et filii et spritus sancti. Amen.
Visivelmente abatido, destroçado, de pé junto à lareira, Vicente Esteves olhou para Leonor e com um ar doce e cândido comentou: isto passa, senhora, o pior de tudo são os livros que me levaram e que dificilmente conseguirei reaver. Sem eles, terei de voltar para Coimbra tão depressa o tempo amaine e tenha para a viagem alguém por companhia. Leonor estremeceu. Ela, que tinha esperado mais de um mês por aquele homem de boas regras e melhores costumes, discreto, sereno, prazenteiro, estava a um pequeno passo de o perder, quem sabe se de uma vez por todas, por causa de um grupo de miseráveis plebeus endemoninhados a quem só a morte violenta, na sua opinião, serviria como castigo para tamanho crime. E o seu estimado esposo, senhor João Lourenço, onde está?, perguntou Vicente Esteves. Esse foi para a caça sem receio de que a chuva o molhe ou os criminosos o assaltem, respondeu com um sorriso, mas num tom de voz desprezível». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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domingo, 26 de maio de 2019

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Mas em vésperas da chegada da comitiva portuguesa a Roma, já as ruas da cidade começavam a ficar limpas e coloridas de flores, aconteceu o imprevisto»

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«(…) Estais na casa de Deus, benzeu-se, de imediato, e, como podeis testemunhar, aqui também trabalhamos por Ele. E depois, aos berros. Por Ele, pela Santa Madre Igreja, pelo Santo Padre, que é o nosso embaixador do Céu, e pelo vosso piíssimo e sacratíssimo rei Manuel I. Mas eu não faço falta nenhuma, senhor, disse ela, baixinho, quase atemorizada. Com a cota de uma mão o clérigo limpou a escuma dos cantos da boca, fixou os olhos da rapariga e, já então em sérias dificuldades para controlar a costumada histeria e o tradicional mau-humor, concluiu peremptório, ruborizado: só eu e Deus sabemos a falta que fazeis. Por isso, amanhã espero por vós. E saiu à pressa, batendo a porta com enorme estrondo.
As palavras assim proferidas pelo bispo, quase tão vigorosas quanto ameaçadoras, associadas ao modo rude como se despediu, deixaram os portugueses num estado de sofrido silêncio e a jovem judia em doloroso pânico. Os próprios romanos, que assistiram atónitos àquele desvario endemoninhado, encolheram-se de medo e só depois acorreram a confortar Raquel, caída entretanto em inconsolável pranto e desespero. Não quero voltar aqui!, exclamou ela, soluçando. Apanhados de surpresa, mal sabendo o que dizer, os homens rodearam a rapariga de afectos, com os seus capotes protegeram-na do frio cada vez mais cortante. Alguém exclamou Já falta pouco para isto acabar, e, juntos, acompanharam-na, temerários, à casa das Seculares Reparadoras. E prometeram que na tarde seguinte lá estariam todos, vigorosos, afoitos, talvez mesmo armados de punhais, para a levarem a Sant’Angelo e a protegerem de qualquer malfeitoria tentada pelo celerado bispo. Porém, nada de extraordinário veio a ocorrer no dia seguinte e nos que o sucederam. Mas em vésperas da chegada da comitiva portuguesa a Roma, já as ruas da cidade começavam a ficar limpas e coloridas de flores, aconteceu o imprevisto. Como de costume, o grupo de trabalho, que integrava a companhia de Raquel Aboab, desnecessária é certo, mas requerida pelo bispo, compareceu à hora marcada no anexo do palácio apostólico onde, para surpresa geral, se encontravam já à conversa Francesco Petrini, Paris de Grassis, o novo mestre-de-cerimónias da cúria romana, uns tantos diáconos e, a um canto da sala, enroladas nos seus beatíficos hábitos, meia dúzia de religiosas. Tratava-se da última reunião de trabalho e isso justificava a presença de Paris de Grassis; quanto às religiosas e aos padres, ninguém percebeu porque estavam ali, silentes, de pé, em aparente estado de abstracção e melancolia. A reunião acabou cedo e Paris de Grassis foi o primeiro a sair. Depois, e por sugestão de Francesco Petrini, abalaram os romanos que desde a primeira hora haviam trabalhado na organização; minutos mais tarde o homem dispensou os diáconos; depois juntou Raquel Aboab ao bando das religiosas e despachou os portugueses sob o argumento de que precisava das mulheres para o acompanharem à Capela Sistina onde, àquela hora, algumas monjas procediam à ornamentação e ao arranjo dos altares. Senhor, interveio o tabelião português, quando Francesco Petrini acabou de dar as ordens, a portuguesa não é monja nem nunca fez parte deste grupo. Por isso é nosso desejo vê-la a abandonar este aposento e voltar para casa. Espantado pela intervenção do estrangeiro, Petrini arregalou os olhos e, de dedo em riste, exclamou que não admitia qualquer interferência nas suas decisões. Que já falara com os secretários do Sumo Pontífice para que o autorizassem a dispor dos vedores enviados, semanas antes, pela coroa de Lisboa. A jovem não veio nessa qualidade, retorquiu o tabelião, usando de esforçada calma. Mas assumiu-a aqui, nesta casa, prosseguiu o bispo, cada vez mais irritado. Uma das religiosas, a mais velha, deu nesse momento um passo em frente e proclamou: junto a nós e a Nosso Senhor essa mulher ficará em segurança. Um silêncio de morte abateu-se na sala.
Pois então que nada lhe aconteça, advertiu o português ao fim de prolongados segundos, enquanto Raquel Aboab se encostava a uma parede chorando e soluçando. A Capela Sistina situava-se a curta distância do anexo de Sant’Angelo. E foi para lá que Petrini, as religiosas e a portuguesa se dirigiram de seguida». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Raquel Aboab não disse nada, nem sequer se moveu até que o cardeal, depois de fazer o sinal da cruz com a mão direita aberta e de lhe conferir a bênção, a mandou sentar»

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«(…) Pois então tentai ir ao encontro dela e dizei-lhe que venha com todos vós à próxima reunião, na santa paz de Deus, pediu o eclesiástico com um sorriso aparentemente benigno. Não quero que por minha culpa ela se sinta mais estrangeira em Roma do que já é. Tentai-a; tentai convencê-la a vir na vossa santificada companhia. E se ela não quiser vir?, perguntou, intrigado, o tabelião. Se Deus quiser, há-de querer, insistiu. Convencei-a vir com doces palavras, porque ela terá aqui o nosso apoio; e eu próprio, humilde servo de Nosso Senhor Jesus Cristo cá na Terra, saberei dar-lhe todo o meu conforto. Com ar de inexcedível bondade mas de alguma desconfiança, o tabelião menenou várias vezes a cabeça em sinal de assentimento, e proclamou em tom definitivo: pois se assim é, que Deus vos ouça. Ele já está a ouvir-nos, garantiu o clérigo, impúdico, cínico, insuportavelmente calmo.

Decorrida uma semana, numa tarde embaciada de intenso nevoeiro, Raquel Aboab deslocou-se finalmente ao castelo de Sant’Angelo na companhia dos amigos portugueses. Ao princípio ainda se recusou a voltar ao grupo de onde fora expulsa pelo clérigo, mas depois de muita insistência por parte do tabelião, na presença da própria madre abadessa das Seculares Reparadoras, a jovem acabaria por ceder à proposta do eclesiasta por interposta pessoa, na convicção plena de que se lhe faltasse o apoio divino haveria seguramente de contar com a ajuda humana. Quer a abadessa, quer os portugueses e os romanos estariam sempre a seu lado e nem a madre nem os outros a deixariam cair como vítima da desgraça ou da insídia. Disso tinha ela a certeza. Ou, pelo menos, julgava tê-la. De modo que foi com um certo alívio e algum sentimento de segurança que Raquel reintegrou o grupo e, acompanhada por todos, se dirigiu naquela tarde ao castelo de Sant’Angelo para assistir, como dantes acontecia, ao trabalho de organização das festas. Bem-vinda sejais de novo a esta pobre mas santificada casa, mulher de Deus!, clamou o bispo, logo que viu a jovem a entrar na sala. Obrigada, senhor, respondeu ela, titubeante, sem olhar de frente para ele.
Francesco Petrini tinha uma figura medonha. Era um homem de estatura média, de gestos quase sempre rudes e a voz agreste, o pescoço grosso como um tronco, o rosto coberto de pústulas, as sobrancelhas arqueadas e muito peludas, e os lábios tão finos que, entreabertos, mal escondiam a falta dos dentes incisivos. Além disso, fedia a igreja. Chamei-vos porque não quero que vos sintais mais estrangeira do que já sois nesta cidade santa, prosseguiu o eclesiasta num registo de voz invulgarmente manso. Julgo que a vossa família está aqui toda. Com o dedo e um gesto de cabeça apontou na direcção dos portugueses. E por isso não quero que a bela jovem que tenho à minha frente se sinta só, desprotegida, desamorada. Aqui, minha jovem, estais na paz do Senhor.
Raquel Aboab não disse nada, nem sequer se moveu até que o cardeal, depois de fazer o sinal da cruz com a mão direita aberta e de lhe conferir a bênção, a mandou sentar, mas em silêncio, a um canto da sala. Durante as duas horas de reunião e conversas circulares, Francesco Petrini raramente desviou os olhos da judia. Fazia-o com disfarçada cautela, aparente indiferença, mas os outros depressa se aperceberam de que o clérigo estava mais atento à beleza inquietante da rapariga do que aos assuntos ali discutidos. No final do encontro, virou-se para ela e, na frente do grupo, pediu que voltasse no dia seguinte por suspeitar que a sua presença ajudava à criação de uma espécie de clima de paz celestial. Vinde, criatura de Deus, vinde amanhã e sempre, exigiu o eclesiástico, à despedida. Porém, desconfiada do súbito interesse do homem e de tão generosas intenções, Raquel Aboab esclareceu, sem jamais olhar para o sinistro clérigo, que era seu desejo manter-se na sede da Ordem, em clausura e orações penitenciais, até à chegada da embaixada portuguesa a Roma. Não façais isso, porque desgosta a todos, gritou Petrini, tomado entretanto por um sentimento de descontrolada insatisfação pessoal». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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sábado, 25 de maio de 2019

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Ide embora na santa paz de Deus Nosso Senhor, e num tom ainda mais alto, e orai pelos vossos pecados e a salvação do homem»

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«(…) E foi decerto pela sua irreprimível entrega à Igreja e às populações mais miseráveis de Roma que o Sumo Pontífice, reconhecendo ao homem razoáveis capacidades de esperteza e um teatral afecto na relação com os desgraçados, o designou para dirigir o grupo organizador da recepção à embaixada portuguesa. Nesse dia, o dia da nomeação papal, Francesco Petrini ficou radiante. E logo tomou a decisão de ir na mesma tarde ao anexo das traseiras do castelo de Sant’Angelo, onde, sabia-se, por costume se reuniam uns tantos profanos e alguns clérigos da cúria para discutir e proceder ao arranjo das festas de acolhimento às comitivas estrangeiras. No entanto, ao chegar ao anexo, não encontrou ninguém. Voltou no dia seguinte, e no outro, e no outro ainda, até que à quarta tentativa sem resultados foi ter com um subdiácono da Santa Sé, ordenando-lhe que mandasse convocar os elementos, já antes escolhidos pelo secretariado da chancelaria, para uma reunião de trabalho. Estava com pressa de mostrar serviço e de zelar pelo sucesso da obra. E para quando quereis que os convoque?, perguntou o padre. Quero-os amanhã lá, às três horas da tarde, respondeu o outro, sem hesitar. Todos: romanos e portugueses.
Raquel Aboab, a judia que em Dezembro partira de Lisboa por decisão e vontade de Diogo Pacheco, não fazia parte do grupo, mas, como se tornara amiga e protegida dos portugueses enviados a Roma pelo rei Manuel, com vista a ajudarem os romanos na preparação dos festejos, criou o hábito de os acompanhar para toda a parte. Por isso, foi sem cuidados nem reservas que a jovem compareceu ao encontro do dia seguinte, solicitado por Francesco Petrini. Quem vos convocou, mulher de Deus?, berrou o homem, estupefacto, quando viu a jovem a entrar na sala. Quem sois vós? Porque estais aqui? Apanhada de surpresa pela infeliz e agreste intervenção do eclesiasta, Raquel Aboab corou ligeiramente, e tentando a custo dominar a raiva e o medo, respondeu que era portuguesa, amiga dos portugueses enviados pela coroa de Lisboa para auxiliarem os romanos nos trabalhos de acolhimento à embaixada que dentro de poucas semanas haveria de chegar à Cidade Santa. E qual é a vossa graça?, perguntou ele, no mesmo tom boçal. Raquel. E que mais? Chamo-me apenas Raquel, mentiu. Tendes nome de judia...
Num completo estado de desassossego, já quase a chorar, a jovem negou a origem e propôs-se imediatamente sair do compartimento e regressar sozinha à casa que lhe dava abrigo desde a chegada a Roma. Esperai, esperai um pouco, ordenou D. Petrini, impositivo. E aproximando-se lentamente da mulher, quis saber onde ela morava e o que fazia. Moro perto daqui, num pobre casebre das Seculares Reparadoras da Virgem das Dores. E aí não fazeis trabalho de oração? Não devíeis estar lá numa atitude de constante penitência, de vigília consagrada a Deus e à Virgem? Estou de passagem por Roma, sou estrangeira, esclareceu a jovem, e só por isso as outras religiosas me concedem o favor de uma liberdade diferente da delas. Mas não deviam..., gritou o clérigo, reprovativo. Ide embora na santa paz de Deus Nosso Senhor, e num tom ainda mais alto, e orai pelos vossos pecados e a salvação do homem.
Uma chuva miudinha começava a cair sobre a cidade, a cidade de todos os vícios, como era conhecida na Europa cristã. Raquel Aboab assomou à porta, cobriu a cabeça com um véu oferecido por Diogo Pacheco e desatou a correr, chorando e soluçando em direcção à casa onde morava. A residência destinada à sua estada e segurança fora escolhida, a pedido de Diogo Pacheco, por João Faria, que, dizia-se em segredo, mantinha há vários meses uma relação íntima e secreta com a madre abadessa daquela Ordem religiosa. E era decerto por causa desta cumplicidade pecaminosa que Raquel, protegida de João Faria, dispunha de uma liberdade de movimentos jamais consentida a qualquer outra residente. A partir desse dia, o da expulsão da estrangeira, nunca mais as reuniões, mesmo as impontuais, decorreram como até aí. Os romanos já se haviam habituado a gostar da jovem e os portugueses adoravam-na. Além disso, pouco ou nada havia já para discutir ou organizar, e, no entanto, às três horas da cada tarde lá estava  Petrini a dar instruções e a tecer ideias mais do que gastas sobre a importância do acontecimento de alto relevo para a Igreja e Sua Santidade. Mas certo dia, tomado por um invulgar estado de boa disposição, ou talvez possuído por um retábulo de intenções poucos claras, o bispo quis saber pelos portugueses o que era feito da jovem das Seculares Reparadoras. E até se manifestou vagamente arrependido pelo tom agreste como a excluíra da assistência deles. Nunca mais a vi e julgo que nenhum de nós voltou a ter contacto com ela, respondeu o mais velho e responsável do grupo, tabelião de ofício e homem de extrema confiança da corte do rei português». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «O que eu quero e aprecio é ter um homem perto de mim, mesmo que esse homem me não pertença, conforme o caso, que me dê atenção e me trate como uma rainha»

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«(…) Não lhe saía da cabeça o olhar elangues cente do professor, o modo como sempre lhe falou e se lhe dirigiu num tom de respeito quase idêntico ao que o próprio manifestara por el-rei Fernando, quando ele e os comensais discutiam as qualidades e os defeitos do monarca. Sentia-se impressionada com o saber e os bons costumes do homem, cuja discrição o tornava diferente dos demais. A tamanho sentimento correspondia a felicidade de vir a tê-lo como hóspede a breve prazo, na suave suspeita de que entre ambos haveria de florescer, se Deus quisesse, uma relação harmoniosa e saudável. O único temor que ainda assim a perturbava naquela hora era a hipótese de o marido, ao despertar na manhã seguinte do estado de bebedeira em que se deixou adormecer, questioná-la acerca do significado que ela atribuíra à história da terra e da estaca na discussão ao jantar. Mas se porventura ele voltasse no assunto, pensou, haveria de lhe dizer então que reflectisse melhor sobre o episódio e que o tomasse como exemplo para a vida inteira, porque depois do acontecido jamais lhe admitiria novas faltas de respeito à honra própria e à da família donde provinha. De nada, porém, terá valido a Leonor tanta preocupação: por medo ou esquecimento, João Lourenço nunca mais se referiu ao caso.
Quem se referiu a ele, isso sim, foi ela mesma em conversa com Briolanja Mendes na manhã do dia seguinte. Contou tudo. Descreveu os convidados um por um, exceptuando naturalmente o tio e o irmão que a ama já conhecia; relatou o teor das conversas que ouviu, excluindo, porém, as de natureza política ou as que envolviam a apreciação de alguns convidados a certas atitudes do rei; confidenciou, enfim, que um professor de Coimbra, que dentro de alguns dias voltaria a Pombeiro para se instalar lá em casa, tinha passado o tempo a olhar para ela num doce e sedutor enlevo.
Não é perigosa a vinda do professor para aqui, senhora?, perguntou Briolanja, desconfiada com o entusiasmo da jovem. Por que é que há-de ser perigoso?, respondeu Leonor com outra interrogação, como se não tivesse compreendido a extensão das palavras da velha ama. Pode haver problemas... Não há problemas nenhuns. E não os há por duas razões: primeira, porque sou casada e porque a fidelidade que devo ao meu esposo vem do voto de princípio que fiz no dia do meu desgraçado matrimónio; segunda, porque estou a caminho de ser mãe e, embora ninguém o saiba nem se dê por isso ainda, não me sentiria em paz comigo mesma se me per desse nos braços de outro homem. Mas eu não disse que a senhora pode vir a correr o perigo de se ocupar do homem que aí vem; o homem é que pode vir a ficar encantado com a senhora, prosseguiu Briolanja, tentando disfarçar o sentido da sua primeira observação.
Leonor ficou pensativa por alguns instantes, passeou a mão pelo rosto, e acrescentou: isso seria problema dele. O que eu quero e aprecio é ter um homem perto de mim, mesmo que esse homem me não pertença, conforme o caso, que me dê atenção e me trate como uma rainha. Briolanja Mendes sorriu com afecto, aproximou-se da dama, acariciou-lhe os cabelos e, a propósito da última expressão, confidenciou: por acaso sonhei esta noite que a senhora ia ser rainha de um rico trono... A jovem, que até aí mantivera o acostumado ar entristecido, abriu-se de repente num largo sorriso e interrompeu. Ai sim? E como era o meu rei? Um belo homem, respondeu a aia, voltando a alisar-lhe as tranças com os dedos. Um rei de bom porte e de melhores costumes, generoso e destemido. Já falaste com as estrelas por causa disso? Não, senhora, apenas tive um sonho e sobre os sonhos as estrelas nada dizem. Elas só nos sabem dar conselhos». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «O próprio achacadiço, depois de ingerir dois vasos de chá quente de carqueja, levantou-se aliviado e, com os outros já prontos a partir, gracejou: ainda não foi desta que me fui!»

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«(…) E ainda que o conde de Barcelos e os amigos considerassem o jovem rei muito voluntarioso, nenhum, porém, deixou de fazer veladas críticas ao facto de ele nunca ouvir conselhos de quem quer que fosse, sendo até regra pessoal proceder ao contrário do que lhe era sugerido. Um exemplo desse péssimo hábito foi dado pelo alcaide de Castelo Branco, com o aval de todos, ao lembrar a simpatia com que o rei Fernando observava a entrada diária em Portugal de numerosos estrangeiros, rebeldes e tresloucados, mercadores e criminosos, sem atender ao protesto dos portugueses em geral, e à advertência dos conselheiros em particular, receando que a desajustada transmigração que se verificava viesse a constituir, mais cedo ou mais tarde, um sério perigo para a segurança de vilas e de cidades, de pessoas e de bens. Outro assunto igualmente discutido respeitou à ideia que todos tinham sobre a tentação mal disfarçada de o monarca se intrometer nos negócios políticos de Castela. Era um capricho antigo, um desejo obsessivo que o rei nunca escondeu desde que subira ao trono. Sobre este complexo problema, debatido com extraordinária paixão, a maioria considerava que, a materializar-se tal desígnio, Portugal e os portugueses poderiam vir um dia a pagar caro o preço da aventura. Opinião contrária foi no entanto defendida com fervor por João Afonso Telo e Gonçalo Teles. Até o lente Vicente Esteves, apesar de se mostrar mais interessado nos movimentos de Leonor do que nas discussões ali travadas, se manifestou de acordo com a tese de que o rei devia intervir nas lutas internas do país vizinho antes que alguém, designadamente o bastardo Henrique de Trastâmara, usurpasse o legítimo trono a Pedro de Castela. Só Leonor Teles, que passou o jantar a insinuar-se, a entrar e a sair da sala, passeando-se pela frente e por trás do professor, não participou na conversa. Nem o tio, de resto, lhe consentiria isso, porque o estatuto de uma mulher entre homens, mesmo que fosse nobre e bela, não chegava a tanto.

Ao queixar-se de que não dispunha em Coimbra de um espaço ideal de concentração para escrever um comentário jurídico aos nove primeiros livros do Corpus Juris Civilis e ao Digesto Velho, que lhe fora pedido pelo cónego Gonçalo Migueis, bacharel da Universidade, Vicente Esteves acabaria por ver realizado na mesma hora o desejo de ser convidado a regressar a Pombeiro e lá permanecer por tempo indeterminado. Foi o próprio João Lourenço Cunha que o desafiou a instalar-se em sua casa, considerando que o sossego e os ares da Beira o ajudariam no trabalho e na inspiração. A conversa sobre o assunto decorreu já ao fim do jantar na presença da mulher, que nada disse, e do conde, que de imediato apoiou a ideia sob o argumento de que melhor local do que aquele não havia para o fim pretendido pelo lente. Sensibilizado com o convite, Vicente Esteves curvou-se respeitosamente e, levando a mão ao peito, disse: se a minha presença não for desonrosa para o senhor João Lourenço e sua dilecta esposa, senhora Leonor Teles Menezes, aceitarei com todo o prazer o convite que me fazeis. Só terei de ir a Coimbra buscar o material de trabalho e regressar depois.
Para mim é que é uma honra a presença de tão ilustre lente de Coimbra em minha casa, respondeu o morgado numa linguagem desacertada, sem conseguir disfarçar o excesso de álcool que havia consumido. Leonor Teles, essa, lúcida e serena, apenas acrescentou: por quem sois, senhor.
Nesse momento, e quando já estavam todos prontos a regressar, João Afonso Telo foi vítima de um súbito achaque que só não o fez cair desamparado no lajedo da cozinha por que o sobrinho e o arcebispo de Viseu conseguiram segurar-lhe a tempo o pesado corpo. Arrastado para a sala e observado no mesmo instante pelo médico, concluiu-se que a indisposição terá sido causada pelos excessos do jantar. Nada de cuidados, portanto. O próprio achacadiço, depois de ingerir dois vasos de chá quente de carqueja, levantou-se aliviado e, com os outros já prontos a partir, gracejou: ainda não foi desta que me fui!
Nessa noite, na sua câmara solitária, Leonor Teles demorou a adormecer». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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