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domingo, 6 de maio de 2018

A Sagrada Família. Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). «Na realidade há, nas fábricas inglesas, todas as gradações de salário, de um e meio xelim a 40 xelins e inclusive mais; na Crítica paga-se apenas um salário»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Crítica crítica sob a feição do mestre encadernador ou a Crítica crítica conforme o senhor Reichardt. Friedrich Engels
«(…) E a intrepidez estilística do senhor Reichardt anda lado a lado com a intrepidez do raciocínio em si. Ele é capaz de entabular transições como as que seguem: o senhor Brüggemann..., ano de 1843..., teoria do Estado..., todo o probo..., a grande modéstia de nossos socialistas..., milagres naturais..., exigências a serem expostas à Alemanha..., milagres sobrenaturais..., Abraão..., Filadélfia..., maná..., mestre-padeiro..., mas porque nós estamos a falar de milagres, Napoleão logrou etc.
Depois dessas amostras, não é de estranhar, nem um pouco, aliás, que a Crítica crítica sempre ofereça uma explicação à frase que ela mesma considera um modo popular de se exprimir. Pois ela apetrecha os seus olhos com a força orgânica de penetrar o caos. E, sendo assim, resta dizer que nem mesmo o modo popular de se exprimir da Crítica crítica pode restar incompreensível no final. Ela se dá conta de que o caminho dos literatos permanece torto, caso o sujeito que o percorrer não se mostrar forte o suficiente a ponto de conseguir endireitá-lo e, por isso, atribui com naturalidade operações matemáticas ao escritor. Per si se compreende, e a história, que prova tudo o que per si se compreende, prova também isso: que a Crítica não se torna massa a fim de permanecer massa, mas para libertar a massa de sua massificação massiva, ou seja, para elevar o modo popular de se exprimir na linguagem crítica da Crítica crítica. Este é o estágio mais estagiário da humilhação, quando a Crítica aprende a linguagem popular das massas e transcende esse jargão tosco para o cálculo superabundante da dialéctica criticamente crítica.

 A Crítica crítica na condição de moinhotenente. Friedrich Engels
Depois de a Crítica se ter rebaixado até ao absurdo em línguas estrangeiras, de ter prestado à autoconsciência os serviços mais essenciais, e ao mesmo tempo ter libertado o mundo do pauperismo através disso, ela se rebaixa também ao absurdo na práxis e na história. Ela se apossa das questões inglesas do dia e nos oferece um esboço da história da indústria inglesa, que é genuinamente crítico. A Crítica, que se basta a si mesma, que se completa e encerra em si mesma, naturalmente não pode reconhecer a história tal como ela de facto aconteceu, pois isso significaria reconhecer a massa ruim em toda a sua massificação massiva, quando se trata justamente de libertar a massa da massificação. Com isso, a história é libertada de sua massificação, e a Crítica, que adopta uma atitude livre em relação ao seu objecto, grita para a história: tu deves ter ocorrido de tal ou qual modo! As leis da Crítica têm, todas elas, efeito retroactivo; antes dos seus decretos, a história ocorria de modo bem diferente do que passou a ocorrer depois deles. Eis aqui por que a história massiva, a chamada história real, desvia-se da maneira significativa da crítica, que passa a acontecer a partir da página 4 do Caderno VI do Jornal Literário Geral.
Na história massiva não houve nenhuma cidade fabril antes de haver fábricas; mas na história crítica, na qual o filho gera o próprio pai, coisa que já acontecia em Hegel, aliás, Manchester, Bolton e Preston são florescentes cidades fabris, antes mesmo de se ter pensado em fábricas. Na história real, a indústria de algodão foi criada sobretudo graças à Jenny de Hargreaves e à throstle (máquina hidráulica de fiar) de Arkwright, ao passo que a mule de Crompton não foi mais que um aperfeiçoamento da Jenny através do princípio descoberto por Arkwright; mas a história crítica sabe distinguir, despreza a unilateralidade da Jenny e da throstle e dá a coroa à mule, fazendo dela a identidade especulativa do extremo. Na realidade, a invenção da throstle e da mule trouxe consigo de imediato a utilização da força hidráulica para esse tipo de máquinas, mas a Crítica crítica diferencia os princípios amontoados e confusos da história bruta e faz com que a utilização apareça apenas bem mais tarde, como se fosse algo bastante particular. Na realidade a descoberta da máquina a vapor precedeu todas as descobertas acima citadas, mas na Crítica vemos que ela ocorre no final, na condição de coroa para o todo.
Na realidade, a aliança de negócios entre Liverpool e Manchester foi, no seu significado actual, a consequência da exportação de mercadorias inglesas; na Crítica essa aliança de negócios é a causa desse fenómeno e ambas, aliança e exportação, a consequência do facto de aquelas duas cidades serem vizinhas. Na realidade, quase todas as mercadorias saem de Manchester, passam por Hull ao continente; na Crítica elas passam por Liverpool. Na realidade há, nas fábricas inglesas, todas as gradações de salário, de um e meio xelim a 40 xelins e inclusive mais; na Crítica paga-se apenas um salário ao trabalhador: 11 xelins. Na realidade a máquina substitui o trabalho manual; na crítica ela substitui o acto de pensar. Na realidade uma união dos trabalhadores com o objectivo de aumentar o salário é permitida na Inglaterra; mas na Crítica ela é proibida, uma vez que a massa tem, ela mesma, de perguntar à Crítica, se quiser se permitir tomar uma atitude. Na realidade o trabalho na fábrica fatiga de maneira significativa o trabalhador e origina enfermidades típicas, há, inclusive, várias obras medicinais que tratam exclusivamente dessas enfermidades; na crítica o esforço excessivo não impede nem estorva o trabalho, pois a força é empreendida toda ela pela máquina. Na realidade a máquina é uma máquina; na Crítica ela é dotada de vontade, pois, uma vez que ela não descansa, o trabalhador também não pode descansar e torna-se súdito de uma vontade estranha». In Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), A Sagrada Família, A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes, 1844, 1965, Boitempo Editorial, 2003, ISBN 978-857-559-032-4.

Cortesia de BoitempoEditorial/JDACT

A Sagrada Família. Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). «A natureza de nosso objecto justifica, portanto, o facto de aqui não avaliarmos esse mesmo desenvolvimento»

Cortesia de wikipedia e jdact

A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes
«O humanismo real não tem, na Alemanha, inimigo mais perigoso do que o espiritualismo, ou idealismo especulativo, que, no lugar do ser humano individual e verdadeiro, coloca a autoconsciência ou o espírito e ensina, conforme o evangelista: o espírito é quem vivifica, a carne não presta. Resta dizer que esse espírito desencarnado só tem espírito em sua própria imaginação. O que nós combatemos na Crítica baueriana é justamente a especulação que se reproduz à maneira de caricatura. Ela representa, para nós, a expressão mais acabada do princípio cristão-germânico, que faz sua derradeira tentativa ao transformar a crítica em si numa força transcendental. Nossa exposição se atém principalmente ao Jornal Literário Geral de Bruno Bauer, e seus oito primeiros cadernos estavam a nosso dispor, porque é ali que a Crítica baueriana, e com ela o despropósito da especulação alemã como um todo, alcançam o ápice. A Crítica crítica (ou seja, a crítica do Jornal Literário) torna-se tanto mais instrutiva quanto mais converte a inversão da realidade, empreendida através da filosofia, na mais plástica das comédias. Veja-se, por exemplo, Faucher e Szeliga. O Jornal Literário oferece um material à luz do qual também o grande público poderá ser informado a respeito das ilusões da filosofia especulativa. E é essa a finalidade de nosso trabalho. A nossa exposição naturalmente é condicionada por seu objecto. Em regra, a Crítica crítica se encontra abaixo das alturas alcançadas pelo desenvolvimento teórico alemão. A natureza de nosso objecto justifica, portanto, o facto de aqui não avaliarmos esse mesmo desenvolvimento. Crítica crítica obriga, muito antes, a mostrar a validade dos resultados já disponíveis como tais, opondo-os aos resultados que ela alcançou. É por isso que antepomos essa polémica aos escritos propriamente ditos, nos quais nós, cada um por si, entenda-se, haveremos de expor nossa visão positiva, e com ela nossa atitude positiva ante as novas doutrinas filosóficas e sociais». In Engels – Marx. Paris, Setembro de 1844.

A Crítica crítica sob a feição do mestre encadernador ou a Crítica crítica conforme o senhor Reichardt. Friedrich Engels
A Crítica crítica, por mais que se considere acima da massa, sente uma compaixão infinita pela mesma massa. Foi tão grande o amor da Crítica pela massa que ela enviou o seu próprio filho unigénito a fim de que todos os que crerem nele se salvem e gozem as venturas da vida crítica. E eis que a Crítica se torna massa e habita entre nós, e nós vemos na sua magnificência a magnificência do filho unigénito do pai. Quer dizer, a Crítica torna-se socialista e fala de escritos sobre o pauperismo. Ela não vê um assalto no facto de querer ser igual a Deus, mas apenas renuncia a si mesma e assume a feição de mestre encadernador, rebaixando-se ao nível mais absurdo, sim, ao absurdo crítico em línguas estrangeiras. Ela, que em sua pureza virginal e celeste, retrocedia assustada diante do contato com a massa pecadora e leprosa, dominou-se a ponto de dar importância a Bodz (pseudónimo que Reichardt inventou para Charles Dickens, Boz, na verdade) e todos os escritores-fonte do pauperismo, marchando há anos passo a passo com o mal de nossa época; ela desdenha escrever aos eruditos especializados e escreve para o grande público, afasta todas as expressões de carácter estranho, todo o cálculo latino, todo o jargão corporativo, tudo isso ela afasta dos escritos de outros, pois seria querer pedir demais desejar que a Crítica se submetesse, ela mesma, a este regulamento da administração. Todavia até mesmo isso ela chega a fazer, em parte, pelo menos, desembaraçando-se com admirável facilidade, se não das palavras em si, pelo menos do seu conteúdo; e quem haverá de acusá-la de fazer uso da grande pilha de palavras estrangeiras ininteligíveis, se ela mesma nos obriga a chegar a essa conclusão através de manifestações sistemáticas que dão conta de que essas palavras permaneceram ininteligíveis também para ela? Algumas provas dessa manifestação sistemática:

Por isso lhes são abomináveis as instituições do pauperismo.
Uma lição de responsabilidade, na qual toda emoção do pensamento humano se converte na imagem da mulher de Ló.
Sobre a pedra que coroa este edifício artístico, de facto rico em convicções.
Este é o conteúdo fundamental do testamento político de Stein, que o grande estadista entregou antes mesmo de se despedir do serviço activo do governo e de todos seus escritos.
Este povo não possuía ainda nenhumas dimensões para uma liberdade tão ampla.
Porquanto ele, no fim de seu escrito publicista, parlamentou com relativa certeza, assegurando que falta apenas confiança.
Ao juízo varonil que levanta o Estado, que sabe elevar-se acima da rotina e do temor pusilânime, que se forjou na história e se nutriu com viva intuição nas instituições públicas estrangeiras.
[…]
Ao povo, ao qual também o senhor Brüggemann distribui a certidão de baptismo da sua emancipação.
Uma contradição bastante vivaz contra as demais determinações, proclamadas na obra com respeito aos dotes vocacionais do povo.
O egoísmo enfadonho dissolve todas as quimeras da vontade nacional com rapidez.
A paixão de adquirir muito etc., esse era o espírito que permeou toda a época da Restauração e que se integrou aos novos tempos com uma quantidade bastante significativa de indiferença (as construções bizarras do senhor Reichardt são um dos pontos criticados com dureza por Engels).
O obscuro conceito de significação política, passível de ser encontrado na nacionalidade prussiana de carácter rural, descansa sobre a lembrança de uma grande história.
[…]
In Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), A Sagrada Família, A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes, 1844, 1965, Boitempo Editorial, 2003, ISBN 978-857-559-032-4.

Cortesia de BoitempoEditorial/JDACT

terça-feira, 25 de novembro de 2014

1895. Friedrich Engels. Vladimir Ilitch Lénine. «… igualmente o desenvolvimento da sociedade humana é condicionado pelo desenvolvimento de forças materiais, as forças produtivas. Do desenvolvimento das forças produtivas dependem as relações que se estabelecem entre os homens no processo de produção…»

Cortesia de wikipedia

Que chama do espírito se apagou. Que coração deixou de bater!
«(…) Retomando a ideia hegeliana de um processo perpétuo de desenvolvimento, Marx e Engels rejeitaram a sua preconcebida concepção idealista; analisando a vida real, viam que não é o desenvolvimento do espírito que explica o da natureza, mas que, pelo contrário, é necessário explicar o espírito a partir da natureza, da matéria... Contrariamente a Hegel e outros hegelianos, Marx e Engels eram materialistas. Partindo de uma concepção materialista do mundo e da humanidade, verificaram que, tal como todos os fenómenos da natureza têm causas materiais, igualmente o desenvolvimento da sociedade humana é condicionado pelo desenvolvimento de forças materiais, as forças produtivas. Do desenvolvimento das forças produtivas dependem as relações que se estabelecem entre os homens no processo de produção dos objectos necessários à satisfação das necessidades humanas. E são estas relações que explicam todos os fenómenos da vida social, as aspirações do homem, as suas ideias e as suas leis. O desenvolvimento das forças produtivas cria relações sociais que se baseiam na propriedade privada; mas vemos hoje esse mesmo desenvolvimento das forças produtivas privar a maioria dos homens de toda a propriedade e concentrar esta nas mãos de uma ínfima minoria; ele destrói a propriedade, base da ordem social contemporânea, e tende ele próprio para o objectivo que se fixaram os socialistas. Estes últimos devem apenas compreender qual é a força social que, pela sua situação na sociedade actual, está interessada na realização do socialismo, e incutir nesta força a consciência dos seus interesses e da sua missão histórica.

Nota: Marx e Engels declararam várias vezes que, em grande medida, o seu desenvolvimento intelectual era devido aos grandes filósofos alemães, e designadamente a Hegel. Sem a filosofia alemã, declara Engels, o socialismo científico nem sequer existiria. In Engels, Prefácio de A Guerra Camponesa na Alemanha.

Esta força é o proletariado. Engels conheceu-o na Inglaterra, em Manchester, centro da indústria inglesa, onde se fixou em 1842 como empregado de uma firma comercial de que seu pai era um dos accionistas. Aí Engels não se limitou a permanecer no escritório da fábrica: percorreu os bairros sórdidos em que viviam os operários e viu com os seus próprios olhos a miséria e os males que os afligiam. Não se limitando à sua observação pessoal, Engels leu tudo o que antes dele se tinha escrito sobre a situação da classe operária inglesa e estudou minuciosamente todos os documentos oficiais que pôde consultar. O resultado dos seus  estudos e observações foi um livro que saiu em 1845: A Situação das Classes Trabalhadoras na Inglaterra. Já atrás assinalámos o principal mérito de Engels como autor dessa obra. É certo que antes dele muitos tinham descrito os sofrimentos do proletariado e indicado a necessidade de lhe prestar ajuda. Engels foi o primeiro a declarar que o proletariado não é só uma classe que sofre mas que a miserável situação económica em que se encontra empurra-o irresistivelmente para a frente e obriga-o a lutar pela sua emancipação definitiva. E o proletariado em luta ajudar-se-á a si mesmo. O movimento político da classe operária levará inevitavelmente os operários à consciência de que não há para eles outra saída senão o socialismo. Por seu lado, o socialismo só será uma força quando se tornar o objectivo da luta política da classe operária. Tais são as ideias fundamentais do livro de Engels sobre a situação da classe operária em Inglaterra, ideias hoje aceites por todo o proletariado que pensa e luta, mas que eram então absolutamente novas. Estas ideias foram expostas numa obra escrita num estilo cativante, onde abundam os quadros mais verídicos e impressionantes da miséria do proletariado inglês. Este livro era uma terrível acusação contra o capitalismo e a burguesia. Produziu uma impressão muito grande. Em breve, por toda a parte começaram a referir-se a ele como o quadro mais fiel da situação do proletariado contemporâneo. E, com efeito, nem antes nem depois de 1845 apareceu uma descrição tão brilhante e tão verdadeira dos males sofridos pela classe operária». In Obras Escolhidas de Vladimir Ilitch Lénine, Friedrich Engels, tradução das Obras Completas de V. I. Lénine, 5ª Edição em russo, Edição da Editorial Avante, 1977.

A amizade de Luís Sá e José Casanova

Cortesia de Wikipédia/JDACT

Friedrich Engels. 1895. Vladimir Ilitch Lénine. «Foi desde o liceu que ele ganhou ódio ao absolutismo e à arbitrariedade da burocracia. Os seus estudos de filosofia levaram-no ainda mais longe. Predominava então na filosofia alemã a doutrina de Hegel, e Engels tornou-se seu discípulo»

Cortesia de wikipedia

Que chama do espírito se apagou. Que coração deixou de bater!
«Friedrich Engels faleceu em Londres a 5 de Agosto (24 de Julho?) de 1895. A seguir ao seu amigo Karl Marx (que morreu em 1883), Engels foi o mais notável sábio e mestre do proletariado contemporâneo em todo o mundo civilizado. Desde o dia em que o destino juntou Karl Marx e Friedrich Engels, a obra a que os dois amigos consagraram toda a sua vida converteu-se numa obra comum. Assim, para compreender o que Friedrich Engels fez pelo proletariado, é necessário ter-se uma ideia precisa do papel desempenhado pela doutrina e actividade de Marx no desenvolvimento do movimento operário contemporâneo. Marx e Engels foram os primeiros a demonstrar que a classe operária e as suas reivindicações são um produto necessário do regime económico actual, que, juntamente com a burguesia, cria e organiza inevitavelmente o proletariado; demonstraram que não são as tentativas bem intencionadas dos homens de coração generoso que libertarão a humanidade dos males que hoje a esmagam, mas a luta de classe do proletariado organizado. Marx e Engels foram os primeiros a explicar, nas suas obras científicas, que o socialismo não é uma invenção de sonhadores mas o objectivo final e o resultado necessário do desenvolvimento das forças produtivas da sociedade actual. Toda a história escrita até aos nossos dias é a história da luta de classes, a sucessão no domínio e nas vitórias de umas classes sociais sobre outras. E este estado de coisas continuará enquanto não tiverem desaparecido as bases da luta de classes e do domínio de classe: a propriedade privada e a produção social anárquica. Os interesses do proletariado exigem a destruição destas bases, contra as quais deve, pois, ser orientada a luta de classe consciente dos operários organizados. E toda a luta de classe é uma luta política. Todo o proletariado que luta pela sua emancipação tornou hoje suas estas concepções de Marx e Engels; mas nos anos 40, quando os dois amigos começaram a colaborar em publicações socialistas e a participar nos movimentos sociais da sua época, eram inteiramente novas. Então, eram numerosos os homens de talento e outros sem talento, honestos ou desonestos, que, no ardor da luta pela liberdade política, contra a arbitrariedade dos reis, da polícia e do clero, não viam a oposição dos interesses da burguesia e do proletariado. Não admitiam sequer a ideia de os operários poderem agir como força social independente. Por outro lado, um bom número de sonhadores, algumas vezes geniais, pensava que seria suficiente convencer os governantes e as classes dominantes da iniquidade da ordem social existente para que se tornasse fácil fazer reinar sobre a terra a paz e a prosperidade universais. Sonhavam com um socialismo sem luta. Finalmente, a maior parte dos socialistas de então e, de um modo geral, os amigos da classe operária, não viam no proletariado senão uma chaga a cujo crescimento assistiam com horror à medida que a indústria se desenvolvia. Por isso todos procuravam o modo de parar o desenvolvimento da indústria e do proletariado, parar a roda da história. Contrariamente ao temor geral ante o desenvolvimento do proletariado, Marx e Engels punham todas as suas esperanças no contínuo crescimento numérico deste. Quanto mais proletários houvesse, e maior fosse a sua força como classe revolucionária, mais próximo e possível estaria o socialismo. Podem exprimir-se em poucas palavras os serviços prestados por Marx e Engels à classe operária dizendo que eles a ensinaram a conhecer-se e a tomar consciência de si mesma, e que substituíram os sonhos pela ciência.
É por isso que o nome e a vida de Engels devem ser conhecidos por todos os operários; é por isso que, na nossa compilação, cujo fim, como o de todas as nossas publicações, é acordar a consciência de classe dos operários, devemos dar um apanhado da vida e da actividade de Friedrich Engels, um dos dois grandes mestres do proletariado contemporâneo. Engels nasceu em 1820 em Barmen, na Província renana do reino da Prússia. O pai era um fabricante. Em 1838, Engels teve de abandonar por motivos familiares os estudos no liceu e de entrar como empregado numa casa de comércio de Bremen. Este trabalho no negócio não o impediu de completar a sua instrução científica e política. Foi desde o liceu que ele ganhou ódio ao absolutismo e à arbitrariedade da burocracia. Os seus estudos de filosofia levaram-no ainda mais longe. Predominava então na filosofia alemã a doutrina de Hegel, e Engels tornou-se seu discípulo. Embora Hegel fosse, por seu lado, um admirador do Estado prussiano absolutista, ao serviço do qual se encontrava na qualidade de professor na Universidade de Berlim, a sua doutrina era revolucionária. A fé de Hegel na razão humana e nos seus direitos e o princípio fundamental da filosofia hegeliana, segundo o qual o mundo é teatro de um processo permanente de mudança e desenvolvimento, conduziram os discípulos do filósofo berlinense, que não queriam acomodar-se à realidade, à ideia de que a luta contra a realidade, a luta contra a iniquidade existente e o mal reinante, também procede da lei universal do desenvolvimento perpétuo. Se tudo se desenvolve, se certas instituições são substituídas por outras, por que é que o absolutismo do rei da Prússia ou do tsar da Rússia, o enriquecimento de uma ínfima minoria à custa da imensa maioria, o domínio da burguesia sobre o povo, hão-de perdurar eternamente? A filosofia de Hegel tratava do desenvolvimento do espírito e das ideias; era idealista. Do desenvolvimento do espírito a filosofia de Hegel deduzia o desenvolvimento da natureza, do homem e das relações entre os homens no seio da sociedade». In Obras Escolhidas de Vladimir Ilitch Lénine, Friedrich Engels, tradução das Obras Completas de V. I. Lénine, 5ª Edição em russo, Edição da Editorial Avante, 1977.

A amizade de Luís Sá e José Casanova

Cortesia de Wikipédia/JDACT

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. F. Engels. «É à alimentação rica em carne e leite dos árias e semitas, e particularmente ao seu efeito favorável sobre o desenvolvimento das crianças, que se deve talvez atribuir o desenvolvimento superior das duas raças. De facto, os índios dos ‘pueblos’ do Novo México, que estavam quase reduzidos à mera alimentação vegetal…»



jdact

A propósito das investigações de L. Morgan
«A formação de rebanhos levou, nos lugares adequados, à pastorícia: entre os semitas nas pradarias do Eufrates e do Tigre, entre os árias nas da Índia, do Oxo e do Iaxartes (hoje, Amudária e Sirdária), do Don e do Dniepre. Deve, ter sido nas fronteiras dessas terras de pastagens que pela primeira vez se realizou a domesticação do gado. Assim, os povos de pastores aparecem às gerações posteriores como provindo de regiões que, muito afastadas para serem o berço do género humano, eram pelo contrário quase inabitáveis para os seus antepassados selvagens e mesmo para os homens do estádio inferior da barbárie. Inversamente, logo que estes bárbaros do estádio médio se habituaram à pastorícia, nunca lhes teria ocorrido à ideia de saírem voluntariamente das grandes pradarias com cursos de água e regressarem às florestas em que tinham vivido os seus antepassados. E, mesmo quando foram empurrados mais para norte e oeste, era impossível aos semitas e árias irem para as zonas florestais da Ásia Ocidental e da Europa antes de, graças ao cultivo dos cereais, estarem em condições de alimentar o seu gado nesse terreno menos favorável e particularmente de resistir ao Inverno.
É mais do que provável que o cultivo dos cereais aqui surgiu, em primeiro lugar, da necessidade de alimentar o gado e só mais tarde se tornou importante pra a alimentação humana.
É à alimentação rica em carne e leite dos árias e semitas, e particularmente ao seu efeito favorável sobre o desenvolvimento das crianças, que se deve talvez atribuir o desenvolvimento superior das duas raças. De facto, os índios dos ‘pueblos’ do Novo México, que estavam quase reduzidos à mera alimentação vegetal, têm um cérebro menor que o dos índios do estádio inferior da barbárie, que comiam mais carne e peixe. De qualquer modo, neste estádio desaparece gradualmente o canibalismo, que se mantém apenas como acto religioso ou, o que aqui é quase idêntico como sortilégio.
‘Estádio superior’. Começa com a fundição do minério de ferro e passa para a civilização por meio da invenção da escrita e da sua utilização em registos literários. Este estádio que, conforme foi dito, só no hemisfério oriental se realizou de forma autónoma, é, mais rico em progressos da produção do que todos os anteriores tomados em conjunto. Pertencem-lhe os gregos do tempo dos heróis, as tribos itálicas de pouco antes da fundação de Roma, os alemães de Tácito, os normandos do tempo dos vikings. Antes de mais, encontramos aqui pela primeira vez o arado de ferro puxado por gado, que tornou possível a agricultura em grandes extensões, ‘o cultivo dos campos’, e com isso um aumento dos meios de vida praticamente ilimitado para as condições da época e, assim, também o arroteamento das florestas e a sua transformação em terrenos aráveis e prados, o que, por sua vez, sem a pá e o machado de ferro continuava impossível numa grande escala. Com isso, no entanto, houve também um rápido aumento da população e um denso povoamento em pequenas áreas. Antes do cultivo dos campos só muito excepcionalmente devem ter ocorrido situações em que meio milhão de homens se tenham unido sob uma única direcção central; provavelmente, isso nunca terá acontecido.
O ponto de máximo florescimento do estádio superior da barbárie aparece-nos nos poemas homéricos, principalmente na “Ilíada”. Instrumentos de ferro desenvolvidos; o fole; o moinho manual; a roda de oleiro; a preparação do azeite e do vinho; um desenvolvido trabalho dos metais, em transição para o artesanato; a carroça e o carro de guerra; a construção de barcos com traves e pranchas; os começos da arquitectura como arte; cidades rodeadas de muralhas com torres e ameias; a epopeia homérica e o conjunto da mitologia, são estas as principais heranças que os gregos levaram da barbárie para a civilização.
Se compararmos com isto a descrição que César e mesmo Tácito fazem dos germanos, que se encontravam no início do mesmo estádio de civilização a partir do qual os gregos homéricos se preparavam para passar a um estádio superior, vemos qual a riqueza de desenvolvimento da produção que o estádio superior da barbárie contém em si». In F. Engels, A origem da Propriedade Privada e do Estado, Editorial Presença, Colecção Síntese, 1976.

Cortesia de Presença/JDACT

terça-feira, 22 de maio de 2012

A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. F. Engels. «Porém, com o início da barbárie atingimos um estádio no qual se impõe a diferença de condições naturais entre os dois grandes continentes. O momento característico do período da barbárie é a domesticação e criação de animais e o cultivo de plantas»



jdact

A propósito das investigações de L. Morgan.
Estádios pré-histróricos da civilização. Barbárie
«Estádio inferior. Data da introdução da cerâmica. Esta surgiu, conforme se pode demonstrar em muitos casos e é provável que tenha sido em toda a parte, a partir da cobertura de vasos, entrançados ou de madeira com barro, para os tornar resistentes ao fogo, com o que a breve trecho se descobriu que o barro moldado também cumpria a função sem o vaso interior.
Até aqui pudemos observar o curso do desenvolvimento de uma forma totalmente geral, válida para um determinado período de todos os povos, independentemente do lugar. Porém, com o início da barbárie atingimos um estádio no qual se impõe a diferença de condições naturais entre os dois grandes continentes. O momento característico do período da barbárie é a domesticação e criação de animais e o cultivo de plantas. Ora o continente oriental, o chamado Velho Mundo, possuía quase todos os animais passíveis de domesticação e todos os tipos de cereais cultiváveis, excepto, um; o ocidental, a América, dos mamíferos domesticáveis só tinha o lama, e mesmo este só numa parte do Sul, e de todos os cereais de cultivo só tinha um; mas o melhor: o milho. A diferença destas condições naturais levou a que, a partir de então, a população de cada hemisfério seguisse o seu caminho particular e a que os marcos distintos nas fronteiras entre cada estádio fossem diferentes em cada um dos dois casos.

Estádio médio. Começa, no Leste, com a domesticação de animais e, no Oeste, com o cultivo de plantas alimentícias por meio da rega e com o uso de adobe (tijolos secados ao sol) e pedra nos edifícios.
Começamos com o Oeste, pois aí este estádio em lugar nenhum foi ultrapassado até à conquista pelos europeus.
Entre os índios do estádio inferior da barbárie (ao qual pertenciam todos os que foram encontrados a leste do Mississípi) já existia, ao tempo da sua descoberta, um certo cultivo hortícola de milho e talvez também de abóbora, melão e outros produtos hortícolas, que constituíam uma parte muito essencial da sua alimentação; viviam em casas de madeira, em aldeias com paliçadas. Às tribos do Noroeste, particularmente as da região do rio Colúmbia, encontravam-se ainda no estádio superior da selvajaria e não conheciam nem a cerâmica nem o cultivo de plantas de espécie nenhuma. Os índios dos chamados “pueblos” no Novo México, pelo contrário, os mexicanos, centro-americanos e peruanos do tempo da conquista encontravam-se no estádio médio da barbárie; viviam em casas-fortalezas de adobe ou pedra, cultivavam em hortas irrigadas artificialmente o milho e outras plantas alimentícias, conforme a localização e o clima, que constituíam a principal fonte de alimentação, e tinham mesmo domesticado alguns animais: os mexicanos o peru e outras aves, os peruanos o lama. Além disso, conheciam o trabalho dos metais, com excepção do ferro, razão pela qual não conseguiam ainda dispensar as armas de pedra e instrumentos de pedra. A conquista espanhola cortou então todo o desenvolvimento autónomo ulterior.
No Leste, o estádio médio da barbárie começou coma domesticação dos animais que davam leite e carne, enquanto o cultivo de plantas parece ter aí continuado desconhecido até muito adentro deste período. A domesticação e criação de gado e a formação de grandes rebanhos parecem ter dado azo à separação dos árias e semitas em relação à restante massa dos bárbaros. Os nomes dos animais são ainda comuns aos árias europeus e asiáticos mas o mesmo quase não acontece em relação aos nomes das plantas cultivadas». In F. Engels, A origem da Propriedade Privada e do Estado, Editorial Presença, Colecção Síntese, 1976.

Cortesia de Presença/JDACT

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. F. Engels. «Na maioria dos casos, o fogo e o machado de pedra permitiram já também o barco feito de um só tronco de árvore e, em alguns lugares, traves e tábuas para a construção de casas. Encontramos todos estes progressos, por exemplo, entre os índios do Noroeste da América, que conhecem o arco e a flecha mas não conhecem a cerâmica»


Cortesia de wikipedia

A propósito das investigações de L. Morgan.
Estádios pré-histróricos da civilização
«Morgan foi o primeiro que, com conhecimento de causa tentou introduzir uma determinada ordem na pré-história humana; a sua classificação continuará certamente em vigor até que um material significativamente mais amplo obrigue a modificações.
Das três épocas principais, selvajaria, barbárie, civilização, obviamente que só as duas primeiras e a transição para a terceira é que o ocupam. Ele divide cada uma delas num estádio inferior, médio e superior, conforme os progressos na produção dos meios de vida, pois, diz ele:
  • ‘Da habilidade deles nessa direcção depende toda a questão da supremacia humana na Terra. Os homens são os únicos seres de que se pode dizer que obtiveram um controlo absoluto sobre a produção de comida. As grandes épocas do progresso humano foram identificadas mais ou menos directamente com o alargamento das fontes de subsistência’.
O desenvolvimento da família é paralelo, mas não apresenta características tão concludentes para a separação dos períodos.

Selvajaria
“Estádio inferior”. Infância do género humano, que, vivendo, pelo menos parcialmente, nas árvores, única forma de explicar a sua sobrevivência perante as grandes feras, permanecia ainda nos seus locais de origem, nas florestas tropicais e subtropicais. Serviam de alimento os frutos, nozes e raízes; a formação da linguagem articulada é o resultado principal deste tempo. De todos os povos de que se tomou conhecimento dentro do período histórico, nem um só estava já neste estado primitivo. Por mais milénios que ele tenha durado, não podemos comprová-lo a partir de testemunhos directos; no entanto, uma vez admitida a descendência do homem do reino animal, torna-se inevitável a aceitação dessa transição.

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“Estádio médio”. Começa com o aproveitamento de peixes, nos quais incluímos também os crustáceos, moluscos e outros animais aquáticos, para a alimentação e com o uso do fogo. As duas coisas vão a par, porque a alimentação de peixe só é perfeitamente utilizável por meio do fogo. Porém, com este novo alimento, os homens tornaram-se independentes do clima e do lugar; seguindo as correntes e as costas, puderam espalhar-se, mesmo no estado selvagem, pela maior parte da Terra. Os instrumentos de pedra toscamente trabalhados e não polidos da primeira Idade da Pedra, chamados paleolíticos, que pertencem todos ou na sua maioria a este período, são, pelo facto de estarem espalhados por todos os continentes, provas dessas migrações. As zonas recém-ocupadas, assim como o ininterrupto e activo impulso de descoberta, ligados à posse do fogo por fricção, proporcionaram novos meios de alimentação, tais como raízes e tubérculos fortemente amiláceos que eram cozidos na cinza quente ou em fossos de cozedura, fornos de terra, e como a caça, que, com a descoberta das primeiras armas, a clava e a lança, se tornou um suplemento ocasional à alimentação. Nunca houve povos exclusivamente caçadores como aparecem nos livros, isto é, que vivessem “apenas” da caça; o rendimento da caça era demasiado incerto para isso. O canibalismo parece ter surgido neste estádio em consequência de permanente incerteza quanto às fontes de alimentação, tendo-se mantido a partir de então por muito tempo. Os australianos e muitos polinésios estão ainda hoje neste estádio médio de selvajaria.
“Estádio superior”. Começa com a invenção do arco e flecha, através dos quais os animais caçados passaram a ser um alimento regular e a caça um dos ramos de trabalho normais. O arco, a corda e a flecha constituem já um instrumento muito composto cuja invenção pressupõe a acumulação de uma longa experiência e faculdades mentais apuradas, e, portanto, também a simultânea familiaridade com uma-quantidade de outras invenções. Se compararmos os povos que já conhecem o arco e a flecha mas desconhecem ainda ã cerâmica, a partir da qual Morgan data a transição para a barbárie, encontramos já, de facto, alguns começos da fixação em aldeias, um certo domínio da produção do sustento:
  • Vasos e utensílios de madeira, tecelagem à mão (sem tear) com fibras de líber, cestos entrançados de líber ou junco, instrumentos de pedra polidos (neolíticos).
 Na maioria dos casos, o fogo e o machado de pedra permitiram já também o barco feito de um só tronco de árvore e, em alguns lugares, traves e tábuas para a construção de casas. Encontramos todos estes progressos, por exemplo, entre os índios do Noroeste da América, que conhecem o arco e a flecha mas não conhecem a cerâmica. O arco e a flecha foram para a selvajaria o que a espada de ferro foi para a barbárie e a arma de fogo para a civilização: a arma decisiva». In F. Engels, A origem da Propriedade Privada e do Estado, Editorial Presença, Colecção Síntese, 1976.

Cortesia de Presença/JDACT