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sábado, 16 de setembro de 2017

O Papa e o Filho Bastardo. Paul Strathern. «Alexandre VI manteve-se obstinado na sua posição, mas Della Rovere e os cardeais que o apoiavam pressionavam constantemente o rei para que afastasse da Santa Sé um papa tão cheio de vícios»

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«(…) Antes da chegada dos franceses, as batalhas tinham coreografado em grande medida os assuntos em Itália, dirigidas por condottieri rivais sem o mais pequeno desejo de infligir ferimentos nos mercenários seus adversários, que bem poderiam ser os aliados na época seguinte. Quando uma das partes era empurrada para uma posição indefensável (quer dizer, uma posição da qual não pudesse fugir rapidamente), admitia a derrota, e os dois comandantes rivais chegavam a um acordo mútuo satisfatório. O pesado exército medieval francês não conhecia essas subtilezas. As batalhas eram travadas com um vigor sedento de sangue e terminavam com frequência com o massacre de todos os que não conseguiam fugir. Era assim que a guerra era travada na Europa do Norte, e o exército francês estava bem treinado neste tipo de actividade, pois a Guerra dos Cem Anos, contra os ingleses, tinha acabado apenas umas décadas antes. Ao mesmo tempo, o exército francês levava para Itália uma arma nova: o grande canhão móvel. Os italianos dispunham de canhões mais pequenos, puxados por bois pesadões, e cujas munições consistiam em pequenas balas feitas de pedra, que geralmente se despedaçavam contra os muros sólidos das fortalezas. Os enormes canhões franceses estavam montados de modo a serem puxados rapidamente por parelhas de cavalos através do país, e disparavam enormes balas de ferro capazes de abrir buracos nos mais impressionantes muros das fortalezas. A medida que Carlos VIII marchava em direcção ao sul, as fortalezas situadas no seu caminho capitulavam uma após outra, muitas vezes sem ser preciso disparar um único tiro, tal era o terror que o exército francês infundia mesmo antes da sua chegada.
Ao papa Alexandre VI, em Roma, chegava a notícia de que o cardeal Ascanio Sforza tinha persuadido os seus aliados Colonna a fugir e a tomar os portos costeiros de Óstia e Civitavecchia em nome dos franceses. Roma ficava assim isolada das suas fontes de abastecimento. Quando Carlos VIII se virou para Roma, as forças dos Orsini desertaram também para o lado dos franceses. Alexandre VI compreendeu que a resistência armada seria inútil e enviou as poucas tropas que ainda lhe restavam para Nápoles, no Sul. No dia 14 de Dezembro de 1494, Carlos VIII e o seu exército entraram em Roma sem encontrar resistência. As suas tropas eram tão numerosas que as colunas de soldados de infantaria franceses, mercenários suíços e esquadrões de cavalaria levaram desde as 15 até às 21 horas a passar pelas ruas. À procissão aparentemente interminável seguiu-se o troar dos 36 canhões montados rolando por cima das pedras da calçada, arrastados por cavalos. As multidões pasmavam aterrorizadas ao velem os canhões de quase 2,5 metros, cada um pesando 2700 quilos, os seus canos de bronze a luzir à luz das tochas, as bocas negras suficientemente grandes para lá entrar a cabeça de um homem.
Ainda assim, Alexandre VI recusou-se a uma rendição pública. Junto com o cardeal César Bórgia, seu filho, fugiu através do túnel secreto do Vaticano para a velha e maciça fortaleza de Castel Sant'Angelo. Naquele momento, as ruas estavam em tumulto. Carlos VIII mandou montar cadafalsos públicos, para dissuadir os seus homens de actos de pilhagem, mas os soldados franceses e suíços tentaram trepar os muros barricados dos palazzi, em busca de bens para saquear. Nem a residência da mãe de César, Vannozza, escapou: os mercenários suíços conseguiram entrar e saqueá-la, levando 800 ducados. Por aquela altura, já o inimigo jurado de Alexandre VI, o cardeal Giovanni della Rovere, se juntara a Carlos VIII e encorajava-o a pedir que o papa se submetesse a um concílio que procedesse à reforma do papado. Nas palavras do historiador contemporâneo Guicciardini, para Alexandre VI, a ideia de fazer reformas era um pensamento tão terrível que não havia palavras que o descrevessem.
Alexandre VI manteve-se obstinado na sua posição, mas Della Rovere e os cardeais que o apoiavam pressionavam constantemente o rei para que afastasse da Santa Sé um papa tão cheio de vícios e abominações e elegesse outro. Por fim, Carlos VIII perdeu a paciência e mandou alinhar os canhões frente aos muros do Castel Sant'Angelo; mas, antes que fosse disparado um único tiro, uma grande secção de quase dez metros das muralhas antigas desabou sozinha, arrastando os soldados que guardavam as ameias e sepultando-os num monte de escombros. Mal a nuvem de poeira tinha assentado, já Alexandre VI concordava em reunir-se com Carlos VIII». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O Papa e o Filho Bastardo. Paul Strathern. «Alexandre VI recebeu mais reforços, mas estes dificilmente foram suficientes para resistir à forte máquina de guerra francesa, com 60 000 homens, que em breve iniciaria o seu avanço para sul»

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«(…) Ao iniciar o seu pontificado, o novo papa prometera uma reforma completa das finanças papais, um assunto caro ao seu coração, e, para espanto de muitos, estas reformas foram de imediato levadas a cabo. Depois, em 1494, Alexandre VI emitiu uma bula papal que teve possivelmente mais efeito em todo o mundo do que nenhuma outra, antes ou depois. Com a descoberta do Novo Mundo pela Espanha e as navegações portuguesas a passar além dos Açores, à volta de África e chegando ao oceano Índico, a perspectiva de um conflito entre estas duas poderosas nações cristãs tornou-se maior do que nunca. O problema foi resolvido pela bula de Alexandre VI, que traçou uma linha de norte para sul através do Atlântico, 100 léguas a ocidente das ilhas de Cabo Verde. Todas as terras que fossem descobertas a ocidente dessa linha pertenceriam a Espanha, as que fossem descobertas a leste pertenceriam a Portugal (esta linha seria mais tarde desviada para 370 léguas a ocidente dos Açores; embora a intenção fosse que o Novo Mundo pertencesse a Espanha, esta nova demarcação significou que, quando o Brasil foi descoberto, situava-se a leste da nova linha e, como tal, caberia aos portugueses; uma herança duradoura desta alteração é o facto de no Brasil se falar português, enquanto no resto da América do Sul o espanhol continua a ser a língua oficial).
A intervenção de Alexandre VI nesta disputa potencialmente desastrosa foi muito apreciada por ambas as partes, embora talvez mais pela Espanha, país ao qual a adjudicação do papa independente atribuía à partida a parte de leão. Como reconhecimento deste favor, o rei Fernando de Espanha estava na disposição de ignorar o seu desprezo pelo filho do papa, Juan Bórgia, o arrivista duque de Gândia. Fernando anunciou que estava preparado para receber Gândia na corte e até permitiu os esponsais de Gândia com a sua prima de sangue real María Enríquez. Mais ou menos por esta altura, Alexandre VI também conseguiu arranjar uma noiva real de prestígio para o seu filho Jofre, que ficou noivo de Sancia, filha ilegítima de Alfonso, filho do rei de Nápoles. O poder imediato dos Bórgia terminaria assim que Alexandre VI deixasse de ser papa, mas tendo os seus filhos casados com mulheres pertencentes a duas famílias reais, era evidente que Alexandre VI alimentava ambições maiores e mais duradouras para a família Bórgia. Com este objectivo, a crescente teia de influência do novo papa estendia-se por toda a Itália e além dela, desde os Sforza em Milão até aos Medici em Florença, do rei de Nápoles ao rei de Espanha.
No entanto, em 1494, os planos de Alexandre VI desmoronaram-se, quando Ludovico Sforza convidou Carlos VIII a entrar em Itália para reclamar o trono de Nápoles. O tosco rei francês era encarado com horror pelos sofisticados italianos; de acordo com Guicciardini: os seus membros tinham umas tais proporções que ele parecia mais um monstro do que um homem. Quando o seu exército varreu tudo no seu avanço para sul, começou a perturbar o equilíbrio precário da política italiana. Quando Pisa foi tomada, libertou-se de Florença. No meio das convulsões, Piero de Medici fugiu de Florença, a qual sofreu a humilhação de ser ocupada pelo exército francês. Antes de retirar o seu exército, Carlos VIII insistiu em que a Signoria assinasse um tratado de amizade, obrigando Florença a apoiar a causa francesa.
No entanto, tudo isto era uma humilhação de pouca monta quando comparado com o que haveria de se seguir. Para chegar a Nápoles, Carlos VIII e o seu exército precisavam de atravessar território papal. Alexandre VI convocou as poucas forças que tinha à sua disposição, muitas delas recrutadas nos exércitos das principais famílias de Roma, como os Orsini e os Colonna. Após um apelo desesperado aos seus aliados napolitanos, Alexandre VI recebeu mais reforços, mas estes dificilmente foram suficientes para resistir à forte máquina de guerra francesa, com 60 000 homens, que em breve iniciaria o seu avanço para sul». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

domingo, 24 de julho de 2016

O Papa e o Filho Bastardo. Paul Strathern. «No verão de 1493, Alexandre VI decidiu conferir a César, de 18 anos, a categoria de cardeal, apesar de o filho nunca ter sido formalmente ordenado sacerdote…»

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«(…) César foi entretanto nomeado arcebispo de Valência, com uma remuneração de 16 000 ducados ,o cargo que o pai fora obrigado a deixar vago quando foi eleito papa. Durante o seu primeiro ano de papado, Alexandre VI nomeou nada menos do que 11 novos cardeais, incluindo Alessandro Farnese, irmão da sua nova amante, Giulia, que por aquela altura se tornara conhecida em tom de chacota como a noiva de Cristo, depois de dar à luz a filha de Alexandre VI, no ano em que ele ascendeu a papa. Todas as novas nomeações feitas por Alexandre VI para o cardinalato foram familiares dos Bórgia ou amigos muito próximos e fiáveis, anulando assim o poder do cardeal Della Rovere e da sua facção no consistório. Entretanto, o generoso cardeal Sforza tinha sido recompensado com o cargo vago de vice-chanceler. Antes do papado de Alexandre VI, a simonia era quase desconhecida, mas agora ascendia a novas alturas. O poeta napolitano contemporâneo Jacopo Sanazzaro escreveria satiricamente a respeito do novo papa: Alexandre vende as chaves, os altares, o próprio Cristo, e tem direito a vender todas essas coisas porque também ele as comprou.
Alexandre VI em breve demonstraria que nem sequer hesitaria em usar a sua jovem filha Lucrécia para alargar a sua influência política, embora nesse aspecto o seu coração estivesse em conflito com as suas ambições. Adorava Lucrécia de todo o coração e mostrou relutância em deixá-la partir de junto de si. Após começar por prometer Lucrécia, ainda criança, em casamento a um nobre espanhol, e depois de mudar de ideias e promete--la em casamento ao espanhol Gaspare Aversa, conde de Procida e mais bem relacionado, acabaria por decidir casá-la, aos 13 anos, com Giovanni Sforza, primo de Ludovico, Il Moro, consolidando assim a sua aliança com Milão.
No verão de 1493, Alexandre VI decidiu conferir a César, de 18 anos, a categoria de cardeal, apesar de o filho nunca ter sido formalmente ordenado sacerdote. Quando o cardeal Della Rovere soube desta nomeação, soltou uma estrondosa exclamação e caiu numa tal fúria apoplética que foi obrigado a recolher à cama. A notícia chegou ao novo cardeal César Bórgia quando se encontrava de férias com a mãe, Vannozza, no campo, ao norte de Roma. Nessa altura, estava no meio de uma disputa irritada com os governadores de Siena, onde o seu cavalo acabava de ser desclassificado e impedido de ganhar o famoso Palio (depois de o jockey ter recebido instruções de César para se atirar do cavalo no último troço, aliviando assim a carga do animal no seu galope por cima das escorregadias pedras cobertas de areia da praça à volta da qual se disputava a corrida). A corrida foi assim ganha por Francesco Gonzaga, marquês de Mântua, o notável soldado que assumiria mais tarde o comando das forças da Santa Liga contra Carlos VIII. As cartas irritadas de César para Gonzaga ameaçavam ter graves consequências políticas, coisa totalmente contrária à estratégia diplomática de Alexandre VI. César começava a dar sinais de que não se sentia obrigado a satisfazer todos os desejos do pai. No entanto, os primeiros anos de Alexandre VI como papa não foram inteiramente dedicados à simonia e à busca do poder político. Era também um homem de considerável intelecto e capacidades. Uma das suas primeiras medidas foi restabelecer uma aparência de ordem cívica nas ruas de Roma, que começava então a rivalizar com Florença para ser a principal cidade do Renascimento. Apesar disso, Roma continuava em muitos aspectos uma cidade medieval: no meio do esplendor das ruínas abandonadas da Roma antiga e dos magníficos palazzi fortificados dos cardeais e das principais famílias da nobreza romana, as ruas mantinham-se imundas e perigosas. O enorme afluxo anual de peregrinos de toda a cristandade dera origem a uma próspera indústria turística, com todos os atavios habituais que isso implicava. As tabernas e os bordéis floresciam, as ruas laterais estavam infestadas de ladrões, assassinos e raptores, enquanto as autoridades encarregadas do policiamento tinham sido reduzidas a um estado de ineficácia total graças aos subornos. Assim que foi eleito papa, Alexandre VI reforçou a guarda pontifícia, bem como a eficácia das várias autoridades policiais. Foi lançada uma caça minuciosa e generalizada a uma longa lista de conhecidos chefes de bandos e assassinos. Quando eram encontrados, eram enforcados sumariamente e os corpos deixados a apodrecer nos patíbulos que existiam ao longo da ponte sobre o Tibre que conduzia à fortaleza papal de Castel Sant'Angelo, de cujas masmorras se elevavam os lamentos dos inúmeros pequenos criminosos que aí estavam encarcerados». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

sábado, 25 de julho de 2015

O Papa e o Filho Bastardo. Paul Strathern. «Durante os dias tensos do conclave, César manteve-se em Siena, a supervisionar o treino do cavalo com que ia concorrer ao Palio, a mais festejada das corridas de cavalos em Itália. Após a eleição do pai, recebeu ordens…»

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«(…) Ao completar 17 anos, César Bórgia foi mandado pelo pai para a Universidade de Pisa, criada havia pouco tempo por Lourenço, o Magnífico. O cardeal soubera que o segundo filho de Lourenço, Giovanni, que tinha a mesma idade que César e que estava também a ser educado para os mais altos escalões dentro da Igreja, ia estudar em Pisa (Lourenço tinha usado a sua influência para convencer o papa Inocêncio VIII a nomear Giovanni cardeal com 14 anos, uma nomeação sem precedentes...). Escreveu a Lourenço informando-o de que mandava para Pisa o seu próprio filho, como testemunho do grande amor que sentia pelos Medici, Para que ele pudesse estar sob a asa e a protecção, de Lourenço. É possível que Maquiavel fosse um estudante sem dinheiro em Pisa durante este período; há indícios de que se encontrou pela primeira vez com Giovanni Medici por esta altura, embora não haja provas de que tenha conhecido César Bórgia nesta fase. César tinha-se tornado uma figura atraente. Uma fonte contemporânea chegou a descrevê-lo como o homem mais belo de ltália, e não havia nenhum vestígio do seu estatuto de padre, nem no seu comportamento nem na sua aparência. Vestia-se com uma exuberância de pavão, seguindo a última moda, usava o cabelo escuro pela altura dos ombros e exibia uma barba arruivada, que atraía os olhares da multidão por onde quer que andasse. Em Pisa, estudou direito civil e canónico, tornando-se rapidamente notado pela sua aplicação e pelo brilhantismo; mesmo o historiador seu contemporâneo Paolo Giovio, que desprezava os Bórgia, admitiu que, na discussão pública a que César teve de se submeter para a sua licenciatura, os examinadores ficaram deslumbrados pelo seu espírito fogoso e pela maneira como ele discutia eruditamente as questões que lhe eram colocadas, tanto no direito civil como no canónico.
Mas, um ano depois, em 1492, verificaram-se umas mudanças drásticas que transformariam a Itália e modificariam a vida de César para sempre. Em Abril, Lourenço, o Magnífico, morreu em Florença e, com isso, a difícil estabilidade política dos estados italianos perdeu o seu mais hábil protector. A seguir, em Julho, o papa Inocêncio VIII faleceu e, a 5 de Agosto, os cardeais reuniram-se num conclave secreto para eleger o seu sucessor. O cardeal Bórgia era um manipulador supremo no tipo de negociações que rodeavam uma eleição papal, em que as facções rivais regateavam o apoio aos respectivos candidatos. Na eleição anterior, em 1484, Bórgia tinha sido boicotado pela poderosa facção liderada pelo cardeal Giuliano della Rovere, que o obrigara a aceitar Inocêncio VIII como uma escolha de compromisso. Agora, o cardeal Bórgia tinha 61 anos e compreendia que esta seria provavelmente a sua última oportunidade para ascender ao trono papal. Uma vez mais, viu-se boicotado pelo seu determinado inimigo cardeal Della Rovere, e as intensas discussões arrastaram-se durante cinco dias, sem sinais de saída do impasse. Por fim, este foi desfeito pelo cardeal Ascanio Sforza, irmão de Ludovico Sforza, Il Moro, o governante de Milão. De acordo com a lenda registada pelo cronista contemporâneo Stefano Infessura, na noite do dia 10 de Agosto, quatro mulas carregadas com um tesouro foram vistas a sair do palácio do cardeal Bórgia com destino ao do cardeal Sforza. Fontes mais fidedignas referem o facto de, durante aqueles dias, terem sido feitos levantamentos de tal forma elevados do Banco Spannocchi, em Roma, onde o cardeal Bórgia depositava o seu dinheiro, que o próprio banco quase foi à falência. Na manhã do dia 11 de Agosto, quando os relâmpagos de verão rompiam as nuvens negras que se elevavam acima das colinas de Roma, aconteceu que, para espanto geral, o cardeal Ascanio Sforza decidiu votar (com toda a sua facção) a favor do cardeal Bórgia, que consequentemente foi eleito papa e escolheu o nome de Alexandre VI. Antes da eleição, o novo papa tinha-se vangloriado, com algum exagero, que durante os seus anos de vice-chanceler acumulara sacos de moedas de ouro, pérolas, joias e baixela de ouro suficientes para encher a Capela Sistina. Uma parte considerável da sua fortuna pessoal fora utilizada para garantir a sua eleição, mas o prémio valia-o bem: o rendimento anual do papa durante este período era de cerca de 300 000 ducados e a venda de caros benefícios eclesiásticos podia ascender a um montante ainda superior. Sabia-se que os conclaves anteriores tinham sido corruptos, com recurso ao dinheiro para influenciar a votação, mas este é em geral considerado como a primeira vez na história em que o papado foi pura e simplesmente comprado.
Durante os dias tensos do conclave, César manteve-se em Siena, a supervisionar o treino do cavalo com que ia concorrer ao Palio, a mais festejada das corridas de cavalos em Itália. Após a eleição do pai, recebeu ordens para não assistir à entronização papal, mas sim para se retirar para a fortaleza familiar, situada cerca de 97 quilómetros ao norte de Roma, no meio das colinas arborizadas de Spoleto. Alexandre VI considerava que não seria de boa política exibir a família numa tal ocasião. No entanto, meses depois, para grande indignação de toda a Roma, chamou César, e mais tarde a irmã mais nova de César, Lucrécia, para viver com ele no novo bairro do Vaticano de Trastevere, que fora crescendo na outra margem do Tibre, frente à cidade principal. Sabe-se que papas anteriores tiveram filhos, mas nunca antes tinham coabitado publicamente com eles. Também controversa era a ostensiva vida secular de César, tal como é narrada por um seu amigo, o embaixador de Ferrara: … anteontem fui encontrar-me com César na sua casa em Trastevere. Estava prestes a sair para a caça; vestia uma roupa secular de seda e tinha a espada à cintura.(...) Possui um génio assinalável e uma personalidade encantadora. Tem os modos do filho de um grande príncipe; sobretudo, é espirituoso e alegre e gosta de conviver. Nunca teve qualquer inclinação para o sacerdócio». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O Papa e o Filho Bastardo. Paul Strathern. «Carismático e belo na juventude, bastante inteligente e versado nos clássicos, constituía uma figura soberba nas cortes de Itália e de França quando se empenhava nisso. Era um homem que podia ser tão magnetizante no charme como aterrorizador na maldade»

Esboços de da Vinci, que se supõe serem César Bórgia
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«A avaliação que Maquiavel fez da situação aproximava-se mais da verdade do que ele imaginava. Bórgia fazia sem dúvida bluff, mas o que Maquiavel e Soderini não sabiam era até onde ia o bluff. O que Bórgia sabia, mas Maquiavel e Soderini não, era que Luís XII iá tinha enviado tropas para defender Florença. Bórgia estava consciente de que só se ele conseguisse pressionar os florentinos a formar uma aliança consigo antes da chegada das tropas francesas é que os seus problemas ficariam resolvidos. Os franceses continuariam seus aliados, o número das forças ao seu dispor aumentaria consideravelmente e o seu projecto secreto de governar um território que abrangia toda a Itália central de costa a costa estaria mais perto da concretização. Bórgia era um homem de considerável perfídia, ousadia e perspicácia. No entanto, a sua reputação como temível comandante militar devia-se mais à sua capacidade de se mover com rapidez e apanhar o inimigo de surpresa, muitas vezes por meios traiçoeiros, do que pela valentia em combate. Por outro lado, a sua reputação noutros campos era amplamente merecida e devia pouco ao exagero. O seu comportamento era com frequência o de um monstro desumano, tanto nas depravações como na busca das suas enormes ambições: nada o detinha. No entanto, era também, tal como Leonardo e Maquiavel nos seus estilos próprios e diferentes, um magnífico exemplo do homem do Renascimento. Carismático e belo na juventude, bastante inteligente e versado nos clássicos, constituía uma figura soberba nas cortes de Itália e de França quando se empenhava nisso. Era um homem que podia ser tão magnetizante no charme como aterrorizador na maldade. Os Bórgia eram espanhóis, o que fazia deles forasteiros entre os italianos chauvinistas. Os seus inimigos referiam-se-lhes desdenhosamente como marranos, nome dado aos judeus espanhóis que se tinham convertido publicamente ao cristianismo, mas que continuavam a praticar em privado os seus cultos religiosos judeus. Por seu lado, os Bórgia comportavam-se como se nunca tivessem saído de Espanha, conservando a sua cultura e a proximidade familiar, falando secretamente entre eles catalão ou valenciano. César Bórgia, que assinaria sempre como Cesar (a grafia espanhola do seu nome), nasceu perto de Roma, em Setembro de 1475. Era o primeiro filho ilegítimo do cardeal Rodrigo Bórgia e da sua amante de chamativo cabelo ruivo Vannozza de Cattanei. O cardeal Bórgia tivera outras amantes, assim como um filho e umas quantas filhas, mas a voluntariosa Vannozza tratou de assegurar que os seus filhos seriam os mais profundamente amados pelo pai e que se contariam entre os principais beneficiários. Como segundo filho do cardeal Bórgia, César foi educado desde o início para a vida eclesiástica. Ainda bastante jovem, começou a estudar latim com o professor da casa dos Bórgia, Lorenz Beheim, um erudito na cultura clássica e um astrólogo talentoso, que satisfazia a inclinação de Bórgia para a superstição. Na altura em que César tinha seis anos, o pai levara a melhor sobre o papa Sisto IV para conceder a César uma dispensa da sua condição de filho ilegítimo, permitindo-lhe assim ocupar funções eclesiásticas. Depois disso, o cardeal Bórgia começou a obter uma série de benefícios eclesiásticos para o filho, que ainda nem sequer tomara as ordens sacras. Apesar disso, quando chegou aos 15 anos, César tinha ascendido a bispo-eleito de Pamplona, capital do reino espanhol de Navarra. (O próprio papa viu-se obrigado a intervir para evitar uma grave sublevação dos cidadãos indignados de Pamplona, que consideravam esta nomeação um insulto a si próprios e ao reino).
Ao mesmo tempo, o cardeal Rodrigo Bórgia continuou a fazer a sua carreira prosperar e, por então, tinha já ascendido à posição de vice-chanceler, o que fazia dele uma das figuras mais poderosas de Roma. Este cargo permitiu-lhe acumular uma fortuna, e em breve começou a viver como um príncipe do Renascimento, mais do que como um  homem do clero, decorando o seu palácio com mobílias sumptuosas e obras de arte, tudo muito ao estilo espanhol. Mais tarde, o cardeal, já com 60 anos, arranjaria até uma amante adolescente, a famosa e bela aristocrata Giulia Farnese, que se casara com um membro da poderosa família Orsini. Embora o cardeal Bórgia possa ter levado uma vida dissoluta, fazia questão de estar sempre presente no consistório quando os cardeais discutiam as questões da Igreja. Homem de inteligência e astúcia, rapidamente ganhou um conhecimento de perito sobre os negócios financeiros da Igreja e os jogos de poder envolvidos nas suas operações. Além disso, observava de perto as tentativas de Sisto IV para alargar o seu poder político em Itália, vendo como o papa apoiava as tentativas fracassadas dos Pazzi para assassinar Lourenço, o Magnífico, e expulsar os Medici de Florença. O cardeal Bórgia, por seu lado, procurava aumentar a sua influência em Espanha, adquirindo o arcebispado de Valência e criando, mais tarde, o ducado de Gândia para o seu filho mais velho, Pedro Luís Bórgia. Quando Pedro Luís morreu, em 1488, o cardeal Bórgia fez transferir o título para o irmão mais novo de César, Juan Bórgia, então com 12 anos e que era o seu segundo filho com Vannozza». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT