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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Cavaleiro de Oliveira. Aventureiro do Século XVIII. Artur Portela. «A estratégia de Pombal é um iluminismo de Estado, aristocrático. O seu conflito com alguns sectores da aristocracia e a sua afirmação de que o comércio era uma profissão nobre concilia-os…»

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De Voltaire a Pombal
«(…) Já, a Restauração abrira a Portugal as portas da Europa. Di-lo José Sebastião Dias: Uma das consequências da restauração nacional de 1640 foi o reatamento das nossas relações culturais com o mundo exterior à Península. Os portugueses tiveram então uma bela oportunidade para descobrirem o novo pensamento universal, quer viajando por terras estranhas, quer ouvindo na pequena casa lusitana os peregrinos de outra origem. E isto não apenas porque nos libertámos do abraço sufocante, e aprisionante da Espanha, mas porque, politicamente, estrrategicamente, precisávamos de outros apoios, e a França, a França ambiciosamente europeia, continental e rayonnante de Richelieu, foi um deles, e esse apoio trazia uma aproximação cultural. Que será também ,oficial, pelo menos ate à Guerra da Sucessão. Portugal tinha sido, culturalmente, sob a ocupação espanhola, o inquisitorialismo, a escolástica, o insularismo. É contra a sobrevivência deste carácter, a sua transposição subtil para o Portugal restaurado, que se ergue o padre António Vieira. Ao qual se sucedem homens como os Ericeiras, com o seu cenáculo afrancesado do palácio da Anunciada, dos fins do século XVII e princípios do século XVIII, animado por Serrão Pimentel, Manuel Azevedo Fortes e, sobretudo, o padre Rafael Bluteau, crítico da escolástica, simultaneamente cartesiano e experimentalista, apologista dos modernos. Entram em Portugal homens como os padres João Baptista Carbone e Domingos Carpasso, o naturalista suíço Merveilleux, o inglês Luís Baden, que vem ministrar o seu curso de filosofia experimental, o anatomista Santucci, que, no entanto, será proibido de fazer dissecações em cadáveres humanos. Porque, se o século XVII português se acelerava, e se europeizava, e avistava já o século XVIII, o passado tinha o seu lastro, a sua força e os seus aliados.
É o combate entre os jesuítas e os oratorianos que, no seu centro de ensino do Convento das Necessidades, assumem Newton e Locke, combate que tem por pano de fundo outro combate maior, aquele que se trava entre o grupo conservador e o grupo cosmopolita. O médico judeu Jacob Castro Sarmento, que vivia em Londres, começa a traduzir, a, pedido de Lisboa, o Novum Organom, de Bacon. Surge, por ordem expressa do monarca João V, o grande monumento empirista, anti-inatista, anti-escolástico anti-feudal, de Verney, que defende a liberdade e igualdade originárias de todos os homens e aponta para a origem contratualista do poder político. Silva Dias afirma: A polémica do Verdadeiro Método é o colofon cultural do Barroco no nosso país, do mesmo modo que o duelo Pombal-jesuítas é o seu epílogo na ordem política. A expulsão dos filhos de Santo Inácio encerrou definitivamente o período doutrinário iniciado com a sua introdução no Colégio das Artes. Na verdade, o iluminismo não está à espera de Pombal para travar o seu combate contra o barroco e para se ir instalando. O ouro, o rendimento do tabaco, do açúcar, do pau-brasil, do comércio de escravos africanos, se não são investidos na criação de meios de produção, de um aparelho económico que nos permita resistir à dependência (apesar da criação de unidades fabris de papel, de vidro, da fundição de Santa Clara e Lisboa, da fábrica das sedas, etc….), pagam o fausto que a inteligência e a criatividade, em larga medida importadas, vão arquitectar, esculpir, pintar e musicar: será o aparato de Mafra, o estilo dito João V, as companhias de ópera italianas. O rei está já apoiado por estrangeirados: Bartolomeu Gusmão, Alexandre Gusmão, Luíz Cunha, o engenheiro Azevedo Fortes. Mas cuidado porque iluminismo, sim, ma non troppo. Tem o seu significado preciso o facto de o iluminismo ter sido, neste país, consideravelmente transportado, e proposto, por sectores da Igreja. E, sobretudo, ter sido assumido, instrumentalmente, operacionalmente, pelo poder político.
A estratégia de Pombal é um iluminismo de Estado, aristocrático. O seu conflito com alguns sectores da aristocracia e a sua afirmação de que o comércio era uma profissão nobre concilia-os ele com um ensino cuidadosamente ministrado segundo a função social de cada um e com o robustecimento da preparação da aristocracia ao serviço do aparelho de Estado. O facto de Pombal ter como aliados os homens do comércio colonial e os tabaqueiros e o facto de Pombal ter como adversários os Távoras e o Aveiro não significam nem uma opção nem o confronto entre o Estado e a aristocracia. O Estado pombalino é simultaneamente absolutista e aristocrático». In Artur Portela, Cavaleiro de Oliveira, Aventureiro do Século XVIII, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Temas Portugueses, Lisboa, 1982.

Cortesia da INCM/JDACT

sábado, 27 de setembro de 2014

Cavaleiro de Oliveira. Aventureiro do Século XVIII. Artur Portela. «O ‘cliché’ era que o século XVIII português foi o marquês de Pombal que o inaugurou, por decreto, e brutalmente. Portugal estava fechado a ‘sete chaves’. A primeira, a Inquisição (maldita); a segunda, a Companhia de Jesus; a terceira, a Universidade; a quarta, o teocentrismo; a quinta, a Escolástica…»

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De Voltaire a Pombal
«(…) É, desde logo, o Século das Luzes. Luzes claras, princípios nítidos, princípios universais: princípio da identidade, da não contradição, da causalidade, da legalidade. Século da Razão toda poderosa. Século da passagem da teologia da História à filosofia da História. Século do Optimismo. Século do Progresso. Século da consagração do direito à propriedade individual e do direito, digamos mesmo do dever, de a acrescentar. O Progresso não é uma intenção perdida no futuro. É uma prática e é um quotidiano. Um utilitarismo, um newtonianismo moral. O senso comum. Está à mão de semear. E de embolsar. A felicidade era ali, e então. Século eminentemente burguês, este. E, no entanto, é no século XVII que estão as grandes fontes: Galileu, Newton e Locke. O poeta inglês Pope escreve: A natureza e as suas leis estavam escondidas na treva; faça-se Newton, disse Deus, e tudo então brilhou. Herdeiro do século libertador que foi o XVII, o século XVIII é um século de divulgação, de propagação de enciclopédias, de dicionários, o de Voltaire, portátil, das gazetas, dos cafés, dos salões, das sociedades secretas, da franco-maçonaria, do combate polémico, da instrumentalização habilmente burguesa.
É isso, o século XVIII tem, não propriamente um protagonista, mas um homem-tipo. Na sua qualidade, no seu limite, na sua superficialidade: Voltaire. É o filósofo de combate, engagé, europeu, universal, enciclopédico, versátil, dramaturgo, historiador, romancista, dicionarista, jornalista, polemista, folhetinista, epistológrafo. Século do despotismo esclarecido; que os filósofos, um pouco ingenuamente, supuseram ensinar aos déspotas, mas que os déspotas, habilmente, pragmaticamente, beberam nos filósofos. Os déspotas iluminados acotovelam-se na Europa: são Frederico II, na Prússia, Catarina II, na Rússia, José II, na Áustria, Gustavo III, na Suécia, Estanislau Augusto, na Polónia. É a contradança, o minuete de que fala Paul Hazard, esse jogo de mesuras, entre déspotas e filósofos: Voltaire vai a Berlim, Diderot, a Sampetersburgo. E D’Alembert diz esta coisa enorme a Frederico II: Os filósofos e os homens de letras de todas as nações encaram-vos há muito, majestade, como o seu chefe e o seu modelo. Século, também, da contra-revolução aristocrática. Vã, aliás. Porque seria o século da revolução burguesa e da político-institucionalização da nova ordem social.
Século da laicização da inteligência, da mundanização da cultura, do regalismo, do antipapismo, do brado voltairiano Écrasez l’infâme!, já do ateísmo e do materialismo. Da inteligência feita tudo: filosofia, negócio, jogo, galantaria, amor, liberdade e libertinagem. Século da cultura francesa: da língua, do estilo, das réplicas europeias de Versalhes: Hampton Court, Coblença, Potsdam, Wurtzburg, Mannheim, Schönbrunn, Colorno, Caserta, Estocolmo, Peterhof, La Granja, Queluz. Século dinâmico, transformador e em transformação, móvel, viageiro, curioso, cosmopolita, cheio de cidades-palcos, de cidades-sóis, de cidades-luzeiros, à altura das esperanças e das ambições e das rivalidades dos reis-Estados, ele é o século da mobilidade social, da correspondência entre os reis e os filósofos, entre os príncipes e os charlatães, do teatro mundano, da aparência, das fortunas rápidas, das bancarrotas monumentais, à Law. Século, finalmente, das inquietações, das emoções, dos sentimentos, da subjectividade, do pré-romantismo, de Rousseau, do nacional-romantismo de Goethe, do que é, e mais será, o Sturm und Drang.
O cliché era que o século XVIII português foi o marquês de Pombal que o inaugurou, por decreto, e brutalmente. Portugal estava, dizia-se, fechado a sete chaves. A primeira, a Inquisição (maldita); a segunda, a Companhia de Jesus; a terceira, a Universidade; a quarta, o teocentrismo; a quinta, a Escolástica. E por aí adiante. Até que, por indicação testamentária de Luiz da Cunha a Lisboa, o rei José I nomeou Sebastião José Carvalho e fez-se, em Portugal, Europa. É um cliché. Está ve1ho. E está errado. Nem a mudança que Pombal exprime começa sob José I, nem sequer será Pombal a inaugurar, destacado, sob José I, a mudança levada por diante nesse reinado. Ela inicia-se ainda no período joanino. E Pombal começa por ser apenas um dos homens do grupo chamado ao poder. Mais. Esta mudança, definida por Jorge Borges Macedo como apontada ao reforço do Estado como entidade exclusiva, não só no domínio político e administrativo como cultural e até religioso, entronca, no plano cultural, num movimento mais amplo. Como o século XIX começou no seio do XVIII, também o nosso século XVIII começou no seio do XVII. As dinâmicas sociais, económicas e culturais não contam até cem para virar as grandes esquinas da História». In Artur Portela, Cavaleiro de Oliveira, Aventureiro do Século XVIII, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Temas Portugueses, Lisboa, 1982.

Cortesia da INCM/JDACT

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Cavaleiro de Oliveira. Aventureiro do Século XVIII. Artur Portela. «… o protestantismo deste homem é dado por Gonçalves Rodrigues ou como oportunista ou/e como superficial. (…) É, não o mistério da carta roubada, que isso só será no século seguinte, mas o mistério dos documentos sonegados»

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As questões
«O Cavaleiro de Oliveira é dado como escritor estrangeirado que começa libertino e acaba protestante. Mas, por um lado, é dado como estrangeirado menor: não é, de todo, nem um Verney, nem um Alexandre de Gusmão, nem um Luiz da Cunha. Por outro lado, os estrangeirados são, a, convite recente de Jorge Borges Macedo, um conceito a rever, e, de alguma forma, a despromover. Por outro lado, a libertinagem do Cavaleiro parece ser insistentemente contestada pelos seus protestos casamenteiros, moralizadores e machistas. Por outro lado, e ainda, o protestantismo deste homem é dado por Gonçalves Rodrigues ou como oportunista ou/e como superficial. Mais: abatem-se sobre este homem suspeitas graves. É, não o mistério da carta roubada, que isso só será no século seguinte, mas o mistério dos documentos sonegados. E desesperadamente negociados. Não tem sorte, o Cavaleiro de Oliveira. Nem escritor nem estrangeirado, nem libertino nem protestante.
E, no entanto, o Cavaleiro de Oliveira seria, não fundamentalmente o escritor, não essencialmente o candidato a estrangeirado, não predominantemente o libertino, não basicamente o campeão do protestantismo português, mas sobretudo o aventureiro do século XVIII. O que possa ser isso, de aventureiro, e de aventureiro do século XVIII, o significado que isso possa ter, social, cultural, historicamente, tentaremos vê-lo adiante. Para já, fiquemos pela distinção, referida ao Cavaleiro de Oliveira. É que escritores, estrangeirados ou não, tivemo-los mais sistemáticos. Libertinos, decerto os tivemos mais coerentes. Protestantes, decerto os tivemos mais consistentes. Aventureiros galantes, talvez não tenhamos tido, no século XVIII, outro tão rico, tão móvel, tão cambiante, tão travestido, tão capaz de ser lisboeta em Lisboa, vienense em Viena, holandês na, Holanda, protestante na Inglaterra, e tão capaz de dar a cada cidade vários nomes de mulher, de amar muitas e de casar com algumas, tão amputado do meio português, tão cosmopolita, tão lançado à descoberta da Europa, tão portuguesmente achador, embora em terra firme, tão portuguesmente achador, embora de cidades, tão ainda aristocrático e tão já afeito ao exercício do livre-exame, e de tudo isso ir deixando memória, viva, álacre, combativa, como Francisco Xavier Oliveira, o Cavaleiro de Oliveira. Seria aí, nessa complexidade dinâmica, nessa contradição em movimento, nesse jogo, nessa, aventura, que estaria o homem, socialmente, culturalmente. Especificamente». In Artur Portela, Cavaleiro de Oliveira, Aventureiro do Século XVIII, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Temas Portugueses, Lisboa, 1982.

Cortesia da INCM/JDACT

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Francisco Mayer Garção: Era considerado «o príncipe do jornalismo». A República estava na sua fase mais bela, renascia do sacrifício que tingiu de sangue o velho Porto, burguês e capitalista

Mayer Garção
(1872-1930)
 Conferência realizada no Quartel de Marinheiros em 11 de Dezembro de 1915
Cortesia de arepublicano

«Francisco Mayer Garção pertenceu à geração que sucedeu ao 31 de Janeiro. Era considerado «o príncipe do jornalismo». A República estava na sua fase mais bela, renascia do sacrifício que tingiu de sangue o velho Porto, burguês e capitalista.
Francisco Mayer Garção surgiu, por volta de 1899, com Fernando Reis, numa publicação de crítica intitulada «Os Vermelhos». Tinha apenas 19 anos e já se revelava brilhante.
O seu lançamento como jornalista foi quando escreveu «A Queimar Cartuchos», uma polémica com Silva Pinto, o segundo maior sarcasmo das letras. Mayer Garção, ainda estudante, ataca-o audaciosamente e com tanta bravura, que o escritor da «Alma Humana», em vez de o derrubar, abriu-lhe os braços com ternura e apadrinha a sua carreira jornalística.

Em 1896 funda a revista «Inferno» com Antero de Figueiredo, José Sarmento, Domingos de Guimarães, entre outros. Três jornais fixaram a sua personalidade:
  • O «Mundo»;
  • A «Capital»;
  • A «Manhã».
O jornalista está no auge da propaganda republicana. Em 5 de Outubro de 1910 vive a hora da sua vida, «aquela em que viu desfraldar pela primeira vez a bandeira verde-rubra». Estala a primeira guerra europeia. Mayer Garção, na «Capital» torna-se um dos padrinhos da intervenção. Como a «Manhã» atravessa períodos difíceis, é-lhe oferecida a direcção de outro jornal. Porém, prefere continuar independente e rebelde, recusando assim a proposta.
Morre aos 58 anos de idade devido a um acidente de viação». In Artur Portela.

http://arepublicano.blogspot.com/2009_04_01_archive.html

Cortesia de Almanaque Republicano/JDACT