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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Algumas notas sobre Marx e a História. António Borges Coelho. «… a pretexto de perigo ideológico, recuse, afinal, por preconceitos ideológicos, ferramentas conceptuais e expulse do território da teoria contributos de autores considerados malditos…»

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Para as Excelências… (pardas)
«(…) Todos os objectos marcados pela mão e a mente do homem constituem a matéria-prima do discurso histórico. Os textos escritos, os monumentos, as ferramentas no afeiçoar dos campos, na produção industrial e comunicacional, os livros, a música, os quadros, o trem da oficina e da cozinha, os rituais da vida, do lazer, da festa, da guerra e da morte. Parte fundamental dessa matéria-prima guarda-se nos arquivos, nos museus, nas bibliotecas, nas casas, nas aldeias, nas cidades, nas organizações dos homens vivos. O artesão do tempo marca o produto com a sua mente e a sua mão mas é extremamente dependente; dependente das informações, dependente do trabalho dos homens e mulheres que organizam a informação conservada nos arquivos, bibliotecas e museus; dependente das ideias e da carpintaria dos autores que o antecederam; dependente de toda a sociedade no pensar, no comer, no vestir, no milagre diário de existir e amar. A informação nunca é bastante, mas na época contemporânea corremos o grave risco de sufocar pelo excesso. É dessa informação que construímos os factos num trabalho de organizar, estruturar e relacionar. E sempre a fita métrica e o compasso da Cronologia. Ela mede e ordena o que parece sem ordem e permite ver sentidos no que parece não ter sentido. No entender de Marx, para organizar a matéria-prima e lhe dar vida, os autores dos textos têm de viver com intensidade a época que lhes caiu em sorte. Quanto mais se enredarem nos seus dramas e combates, quanto mais se submergirem nos acontecimentos contraditórios, mais fértil a experiência, mais fina a sensibilidade para compreender a linguagem, o esconde-esconde das acções dos homens.
No campo historiográfico não se pode confundir o real e o lógico nem coisificar os modelos anulando a indeterminação do real, indeterminação acrescida nas sociedades humanas pelo factor a que os teólogos e os filósofos chamaram livre arbítrio, sem esquecer o acidente e o que se esconde sob a palavra acaso. O oficial da história também não pode refugiar-se na procura necessária e sempre incompleta de informações novas, esquecendo que conhecer é relacionar. Há ainda quem minimize e desconfie da compreensão e, a pretexto de perigo ideológico, recuse, afinal, por preconceitos ideológicos, ferramentas conceptuais e expulse do território da teoria contributos de autores considerados malditos. Nas últimas décadas a História foi colonizada pela Sociologia. O ponto de partida é o concreto mental e sócio-económico, mas a História é a descrição e compreensão dos movimentos que, no infinito dos possíveis, se materializaram na prática. História acontecimento? Descrição e compreensão dos acontecimentos e da sua relação com as estruturas sociais e mentais ou mentais e sociais que a visão dos homens sobre o universo também determina a sua existência.
Só através dos universais o processo histórico, a história real em movimento pode ser captada e compreendida, tanto quanto é possível compreendê-la. Mas se o discurso paira nos universais, se se move num universo fechado de conceitos, corre o risco de se despenhar contra a montanha oculta pela nuvem de palavras vazias. Não vê o relevo, os rios, as montanhas, os oceanos, as cidades, os particulares, os singulares. Pela própria natureza do conhecimento, o manipulador da Memória tenta alcançar a visão total mas a sua consciência não consegue captar de uma só vez mais que os sinais dos pequenos instantes. Quer alcançar o todo mas só o pode tentar pela parte. Por outro lado, a parte só é possível de ler numa perspectiva do todo. Ao constante movimento e transformação do mundo, a razão responde imobilizando na ideia o que se move. Daí a necessidade de rectificação constante, daí a urgência de encontrar novas relações e mecanismos lógicos que envolvam a prova e a direcção do movimento.
Vivemos um tempo em que o sistema social não só não satisfaz como agrava em estremo todos os problemas e contradições. Políticos e gestores do grande capital actuam como se a riqueza produzida pela sociedade lhes pertencesse e pudessem usá-la a seu bel-prazer. Não respeitam os compromissos, entram no bolso roto dos pobres a quem reservam as sobras. Empurram massas humanas para o desemprego ou subemprego, excluem-nas do sistema, como se não fizessem parte da mesma humanidade. A hora é demudança, a hora pede a união dos excluídos e de todos os homens de boa vontade. Um mundo melhor é possívelIn António Borges Coelho, Algumas notas sobre Marx e a História, Wordpress, Marx em Maio, 2012.

Cortesia de Wordpress/JDACT

Algumas notas sobre Marx e a História. António Borges Coelho. «… como matéria-prima de nova produção, forma-se uma conexão na história dos homens, forma-se uma história da humanidade, que é tanto mais a história da humanidade quanto as forças produtivas dos homens…»

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Para as Excelências… (pardas)
«(…) Hoje, como no dia da sua aparição no mundo, o homem é obrigado a consumir antes de produzir e enquanto produz. Para nós esta tese é uma evidência, mas ela alterou todo o ponto de partida da investigação sobre a essência do homem. Ele não caiu do céu a cavalo num meteorito, levantou-se da terra. Na produção social da sua existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. Assim, os homens fazem a sua própria história mas não a fazem segundo a sua livre vontade, em circunstâncias escolhidas pelos próprios, mas nas circunstâncias imediatamente encontradas, dadas e transmitidas. A tradição de todas as gerações mortas pesa sobre o cérebro dos vivos como um pesadelo.
Na sua análise, Marx lembra-nos que a natureza não produz, de um lado, possessores de dinheiro e de mercadorias e, do outro, possessores tão-só da sua própria força de trabalho. Uma tal relação não tem fundamento natural nem tão pouco constitui uma relação social comum a todos os períodos da história. É o resultado de um desenvolvimento histórico preliminar, o produto de um grande número de revoluções económicas, produto saído da destruição de toda uma série de velhas formas de produção social. Essas revoluções económicas marcaram a história. Pelo simples facto de que toda a geração posterior encontra forças produzidas pela geração anterior que lhe servem como matéria-prima de nova produção, forma-se uma conexão na história dos homens, forma-se uma história da humanidade, que é tanto mais a história da humanidade quanto as forças produtivas dos homens e, por consequência, as suas relações sociais tiverem crescido.
Mas se as mulheres e os homens são produto das circunstâncias e da educação, como é que fazem a história? Como é possível conciliar vontades contraditórias, individuais e colectivas? Em Ludwig Fuerbach e o Fim da Filosofia Alemã, Marx e Engels escrevem: Os homens fazem a sua história, ocorra ela como ocorrer, perseguindo cada um os seus próprios objectivos, queridos conscientes, e o resultado destas várias vontades, que agem em diversas direcções, e da sua influência múltipla sobre o mundo exterior é que é a história. Mais tarde, em 1890, Engels esclarece melhor este ponto numa Carta a Joseph Bloch:

Há inúmeras forças que se entrecruzam, um número infinito de paralelogramas de forças de que provem uma resultante, o resultado histórico, que, por sua vez, pode ele próprio ser encarado como o produto de um poder que, como todo, actua sem consciência e sem vontade. Pois aquilo que cada indivíduo quer é impedido por outro e o que daí sai é algo que  ninguém quis. Assim a história até aqui decorreu à maneira de um processo natural e está também essencialmente submetida às mesmas leis do movimento.

Os homens dependem das circunstâncias estabelecidas pelas gerações que os precederam, mas os educadores natureza e sociedade também têm de ser educados. Esta tese de Marx evoca Demócrito, o filósofo que escolheu para a sua tese de licenciatura: A natureza e a educação, disse Demócrito, estão próximas uma da outra, porque a educação transforma o homem mas, através desta transformação, cria-lhe uma segunda natureza. Há mais de sessenta anos que me dedico à investigação em História. Na minha formação teórica intervieram a vida e as leituras mais contraditórias. Marx? Sem dúvida. Ensinou-me que é necessário partir do concreto, ensinou-me que a história é um espaço e tempo total e contraditório onde cabem todos os homens, incluídos, os excluídos, as minorias, os levantados do chão. Ensinou-me que é possível e necessário inventar um modelo que capte, sempre provisoriamente, o processo da evolução das sociedades humanas. O discurso histórico que intenta prender nas letras o devir das sociedades e das civilizações não pode ficar na enumeração ou exibição de princípios.
A escrita da História mobiliza o trabalho de gerações e gerações de trabalhadores especializados: arqueólogos, linguistas, paleógrafos, geógrafos, antropólogos, economistas, juristas, críticos de arte, de literatura. Serve-se da Filosofia, da Geografia, da Biologia, da Economia, do Direito, da Sociologia, da Antropologia, da Literatura, da Arte, da Linguística. Usa uma vasta panóplia de conceitos: trabalho social, classes, grupos sociais, modo de produção, níveis das forças produtivas, relações de produção, complexo histórico-geográfico, ideologia, tempo curto, longa duração, anacronismo etc». In António Borges Coelho, Algumas notas sobre Marx e a História, Wordpress, Marx em Maio, 2012.

Cortesia de Wordpress/JDACT

Algumas notas sobre Marx e a História. António Borges Coelho. «Li-o em voz alta aos meus amigos, quase como quem lê um poema. E envolvi-me durante anos intensamente na luta pela liberdade e pela construção da nova sociedade que Marx preconizava»

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Para as Excelências... (pardas)
«Toda a vida social é essencialmente prática. É na prática que o homem tem de fazer prova da verdade, isto é da realidade e do poder do seu pensamento, a prova de que ele é deste mundo, mundo material / mental que importa transformar. Marx não está só quando intervém com a teoria na prática social. Desde sempre, mesmo quando o negam, filósofos e teólogos, como Santo Agostinho ou os teólogos da Contra Reforma, teorizaram e intervieram procurando garantir a obediência da sociedade terrestre. Só que para eles a prática social não intervinha na prova da verdade, muito menos da verdade absoluta. Esta fora revelada e estava primeiro. A ela tinham que se inclinar todas as outras verdades. No início da Época Moderna, a s navegações ligaram duradoiramente os continentes e as civilizações. Nessa aventura planetária os pilotos e os cartógrafos tiveram um papel determinante. Provaram pela sua prática que a Terra não era plana mas redonda e que Jerusalém, afinal, não ocupava o centro da Terra. O centro ficava numa linha imaginária da esfera do mundo, a linha equinocial. A Astronomia, a Física, a Química, a Economia Política, a Biologia romperam o primado do crer para entender e, na prova das suas teorias, construíram o método científico que submetia a observação e a hipótese à prova experimental.
Filho da Revolução Francesa e das Revoluções Europeias dos meados do século XIX, Marx marcou profundamente a teoria e a prática no campo das Ciências Sociais e Humanas, particularmente no da Economia Política, no da Filosofia da História, na Filosofia, na Sociologia, na Política. O devir, a mudança alteram, transformam continuamente as teorias e as estruturas mentais, sociais e políticas. Pela própria natureza das coisas, as ciências são afectadas pela História e deixam o rasto da sua própria caminhada. Só há uma ciência, a da História. As ideias de Marx não surgiram em bloco nem ficaram escritas para sempre no mármore. Isso está reservado somente à palavra divina. Ou noutras palavras, o para sempre significaria que o pensamento humano atingira o seu limite e também que as sociedades poderiam estar prestes a chegar à sua última definição. Na infância recebi como prémio escolar as Confissões de Santo Agostinho, e ao longo da vida, li e reli como pude filósofos, discuti com alunos os Pré-Socráticos e Platão, estudei apaixonadamente Leibniz e Espinosa. Mas a Marx devo o trazer-me do céu para a terra, trazer-me para o meio dos homens na sua actividade real e envolver-me no ideal de construir na terra um pouco mais de céu. Expulso, ainda infante, do paraíso, caiu-me, nas mãos de adolescente, o Manifesto do Partido Comunista em tradução espanhola. Li-o em voz alta aos meus amigos, quase como quem lê um poema, lá nas altas fragas do meu pobre Trás-os-Montes. E envolvi-me durante anos intensamente na luta pela liberdade e pela construção da nova sociedade que Marx preconizava. Durante esse tempo as suas ideias chegavam-nos em textos de segunda mão. Não havia edições. Em primeira mão, que eu saiba, só o texto copiografado Trabalho Assalariado e Capital. Na segunda metade da década de sessenta é que apareceram impressas, em edições francesas, a Crítica da Economia Política, A Ideologia Alemã, O Capital, As Lutas de Classes em França, A Guerra Civil em França, a Correspondência. Nos últimos anos, em Portugal, destaco as traduções do Manifesto do Partido Comunista por Magalhães Vilhena e de O Capital por José Barata Moura e Francisco Melo.
As ideias de Marx criaram um novo patamar na abordagem das ciências do homem e estão hoje na consciência colectiva, mesmo na daqueles que se persignam quando ouvem o nome do filósofo. E trouxe a teoria para a praça pública, escreveu para todos dirigindo-se especialmente à gente de baixo anunciando-lhes a alegria de subir à montanha da sabedoria. Muita água correu depois nos rios da História. Em O Capital traçou um fresco impressionante das transformações económicas e sociais operadas ao longo dos dois últimos milénios e deteve-se com particular profundidade na análise das estruturas, das leis e movimentos da sociedade capitalista do século XIX. A sua teoria do valor está hoje na ordem do dia. Políticos e gestores prolongam a jornada de trabalho, criam bancos de horas, aumentam assustadoramente o exército dos desempregados e sub-empregados, baixam os salários para níveis de miséria. Afinal reconhecem que é o trabalho social que cria o valor e intentam reter para si o máximo da mais-valia. Esta guerra conduzida pelo capital, exacerbada pelo capital financeiro ou, na linguagem mediática, pelos mercados, evidencia, por outro lado, a validade operatória do conceito de luta de classes». In António Borges Coelho, Algumas Notas sobre Marx e a História, Wordpress, Marx em Maio, 2012.

Cortesia de Wordpress/JDACT

sábado, 19 de junho de 2010

Peter Drucker: Um filósofo e economista. «O que me interessa é o comportamento das pessoas», não do capital ou das mercadorias

(1909-2005)
Viena
http://www.austrianinformation.org/storage/images-april-06/drucker1.jpg
Peter Ferdinand Drucker, foi um filósofo e economista de origem austríaca, considerado como o pai da administração moderna, sendo o mais reconhecido dos pensadores do fenómeno dos efeitos da Globalização na economia em geral e em particular nas organizações, sub-entendendo-se a administração moderna como a ciência que trata sobre pessoas nas organizações, como dizia ele próprio.
Peter Drucker afirmava que a empresa que conseguir vender o produto/serviço certo, para o cliente certo, com a distribuição adequada, por um preço adequado e no momento oportuno, verá os esforços de venda reduzirem-se a quase zero, ou seja, a venda tornar-se-a automática em função da demanda ter sido correctamente equacionada e trabalhada. Presidente honorário da Drucker Foundation e professor de ciências sociais da Claremont Graduate University, Califórnia, EUA, escreveu muitos artigos e mais de 30 livros. O pensador produziu ao longo de sua carreira uma mistura única de rigor intelectual, popularização, practicidade e profundo conhecimento das tendências cruciais, como definiu Robert Heller, fundador e editor de uma das maiores revistas de negócios inglesas, a Management Today.
Pode afirmar-se que não há management theory (teoria da administração) que não parta da obra de Drucker. Entre os livros mais recentes figuram Desafios Gerenciais para o Século XXI, Administrando em Tempos de Grandes Mudanças e Sociedade Pós-Capitalista, todos publicados pela editora Pioneira, actualmente Thomson. Quinze anos depois de publicar Administrando para o Futuro, e doze depois de Administração em Tempos de Grandes Mudanças, no seu livro, Managing in the Next Society, Peter Drucker explorou as tarefas imprescindíveis da alta gerência nas primeiras décadas do século XXI.
Cortesia de oficinadegerencia
Ele partiu de uma minuciosa descrição do cenário de negócios mais provável, determinado pela análise das tendências actuais mais marcantes e de suas consequências mais lógicas, à luz de circunstâncias históricas esclarecedoras por suas semelhanças com as actuais.
«Já acreditei numa nova economia», dizia o mais reconhecido dos teóricos da administração. Drucker explicou que isso ocorreu em 1929, quando era estagiário nos escritórios europeus de uma grande empresa de Wall Street. Um economista europeu, estava convencido de que o boom de Wall Street duraria para sempre, e havia demonstrado de forma «conclusiva» num livro. Dois dias depois da publicação, ocorreu o crash da bolsa. Setenta anos mais tarde, em meados dos anos 90, Drucker voltaria a ouvir falar de um boom perpétuo do mercado accionista, dessa vez impulsionado pela nova economia. «Senti que já havia estado ali», escreveu em Management in the Next Society, elaborado quase na sua totalidade antes dos atentados de 11 de Setembro de 2001 (exceto dois capítulos).
Cortesia de qualitydigest
De suas principais ideias, uma das mais surpreendentes, é a previsão de que aumentará a mobilidade social, a partir do acesso à educação formal. Outra característica importante será a existência de duas forças de trabalho distintas à disposição dos empregadores: a das pessoas de menos e a de mais de 50 anos de idade. As empresas deverão remunerá-las também de modos diferentes: as primeiras necessitarão de renda constante e emprego estável; as segundas poderão cuidar dos trabalhos temporários.
Enfim, os pilares de uma empresa serão modificados:
  • O significado da produção é o conhecimento, que é propriedade dos trabalhadores do conhecimento e é facilmente transportável;
  • Há cada vez mais trabalhadores externos, temporários ou com dedicação parcial;
  • A concentração do negócio inteiro dentro da empresa não funciona mais, pois o conhecimento necessário para uma atividade é altamente especializado e sai muito caro contratar todos os funcionários que têm um dos conhecimentos necessários;
  • Agora o cliente possui a informação;
  • Restam poucas tecnologias únicas; as indústrias precisam dominar muitas tecnologias diferentes, com as quais nem sempre estão familiarizadas.
«Pode parecer paradoxal. Mas o homem a quem o capitalismo deste século mais deve em termos de eficácia do seu coração - a empresa -, sempre manifestou sérias reservas sobre ele, apesar de ser a favor do mercado. A sua procura, primeiro, de uma sociedade industrial em que o trabalho fosse encarado como um recurso de ouro (e não um custo a cortar sistematicamente) e o capital assumisse uma "responsabilidade pelo bem público", e mais tarde da sociedade do saber, são a prova disso mesmo. Foi este "moralismo social" permanente ao longo da obra de sessenta anos de Peter Drucker, que um jornalista sénior americano, Jack Beatty, 52 anos, editor da revista The Atlantic Monthly, agarrou e vai publicar em livro no princípio do próximo ano. Por oposição à mão invísivel do mercado, Drucker teve sempre subjacente uma "consciência invísivel" que o leva "a não se rever no sistema", disse-nos Beatty no seu escritório na sede da revista, nos antigos quarteirões portuários de Boston. "Ele é uma pessoa íntegra - ele próprio não vive segundo os valores do Senhor Dinheiro. Vendeu seis milhões de livros, mas habita numa vivenda tipicamente americana de subúrbio, confortável, mas simples, e dedica imenso tempo, gratuitamente, ao universo das organizações sem fins lucrativos", frisou-nos, salientando que este traço pessoal de Drucker o impressionou imenso.
Cortesia de janelanaweb
Porque Drucker não gostou de Dr. Management? Talvez tenha sido por isso que o título da obra de Beatty levou uma volta. Tinha sido pensado como Dr. Management, mas o próprio Drucker sugeriu que fosse mudado. Ele não quer ficar prisioneiro da gestão dos negócios - o que ele deu à luz, nos anos 40 e 50, foi um continente muito maior (ver entrevista a Drucker). Também nunca foi um académico. Por exemplo, nunca aceitou dar aulas na Harvard Business School. E, acima de tudo, ele é um "pintor de conceitos" sobre a sociedade, o que o leva mais longe do que a gestão. Assim, o título da obra de Beatty acabou em O Mundo segundo Peter Drucker (The World According to Peter Drucker), editado pela Free Press em Janeiro de 98 e que vai ser traduzido também em português pela Editora Civilização. Um resumo da obra pode ser consultado na Executive Digest de Fevereiro de 1998. Pela mesma altura, Drucker editará na John Wiley & Sons a continuação da sua saga autobiográfica Adventures of a Bystander (o primeiro volume) [traduzido em português pela Difusão Cultural], que neste segundo volume terá o pós-título Trailblazers, Rediscovering the Pioneers of Business (o segundo volume). Mas como não havia nenhum guia sobre a sua obra, Beatty devorou dezenas de livros e artigos de Drucker, desde os anos de juventude até à velhice. Ele tinha este projecto na ideia há anos - "Editei alguns dos ensaios dele aqui na Atlantic e ficou-me este bichinho. Queria colocar a sua obra no contexto. Não é bem uma biografia. é como se fosse uma pintura intelectual do homem", referiu-nos. E as pinceladas que sairam merecem ser lidas. Menos de 200 páginas que nos levam a visitar o percurso de Drucker, da infância na Áustria que o moldou como "incurável estudante para toda a vida e viciado na escrita", aos primeiros anos de "reformista" confesso do sistema até à maturidade de "um pragmático crítico", diz Beatty que o critica aqui e acolá de um ponto de vista mais à esquerda. Mas quem é o personagem? "Começemos por ver aquilo que ele não é", responde Beatty. Não é um economista. Percebeu isso, logo, aos vinte anos na Wall Street em Londres: "O que me interessa é o comportamento das pessoas", não do capital ou das mercadorias, disse ele numa ocasião. Mas não é um especialista em ciência política. Ele é "instintivamente hostil a visões a priori, sistemas filosóficos, ideologias políticas, salvações ou utopias", escreve Beatty, que lhe chama "um pós-político". Um profissional de tendências. Então, talvez se possa chamar-lhe um profissional de tendências. "O pensamento dele é um modelo de procura de padrões - ele identifica as constelações com significado, no fluxo caótico da informação. Ajuda-nos a navegar, como agora se diz. Faz-nos ver o que já lá está, mas permanecia invísivel para nós", explica o autor de O Mundo segundo Peter Drucker». In Jack Beatty, A Primeira Biografia de Peter Drucker, Jorge Nascimento Rodrigues.
Cortesia wikipédia/Jorge Nascimento Rodrigues/JDACT