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domingo, 24 de abril de 2022

Ambas as Mãos sobre o Corpo. Maria Teresa Horta. «Recuo até ao aparador baixo, castanho, com embutidos, onde me encosto a sentir através da saia o frio quase tépido e áspero da madeira, e ela pausa o prato vazio na borda da mesa oval…»

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«(…)

A Irmã

Ligeiramente loura (às vezes só nos olhos se nota esse louro ténuo, diluído), tem a pele daquele tom preciso que exige o verde, o negro; um fato negro exageradamente e os cabelos um pouco erguidos, tombados sobre a nuca. Olho-a: com um prato esquecido nas mãos magras e os cortinados por detrás a acentuarem-lhe o início dos ombros nus. Recuo até ao aparador baixo, castanho, com embutidos, onde me encosto a sentir através da saia o frio quase tépido e áspero da madeira, e ela pausa o prato vazio na borda da mesa oval, sobre a toalha branca bordada a branco e torna a ouvir o que lhe dizem, as mãos magras ao de leve nos cabelos, a roçarem os brincos enormes (duas argolas douradas a dançarem perto da cara), para logo pegarem num copo de vidro como que ligeiramente suado, embaciado, que leva à boca sem nada beber, distraída, talvez já sem nada ouvir, mas atenta, exteriormente atenta, o olhar vago agora mais preciso quando ao mover a cabeça me olha de raspão e sorri, não para mim, mas sorri exageradamente como quando era criança: toda ela posta nesse sorriso, entregue a esse sorriso, e eu tão diferente a olhá-la através de toda uma distância construída por nós próprias, mais por ela, quem sabe, uma mulher a empregar todos os seus esforços para encontrar qualquer coisa em que acreditar, à custa de tudo, sequiosa de si própria, e eu tão diferente, sequiosa, de outra maneira tão terrivelmente sequiosa, a olhar-lhe o sorriso nesse momento tão louro, muito mais louro do que os cabelos, um sorriso a condizer com os brincos, com o fato, a condizer com os outros a quem momentaneamente aderia toda ela já solta noutra direcção, naquela constante procura instável, teimosa, indecisa, sem sentido, praticamente sem sentido definido, obstinada mesmo. E move-se passando de umas pessoas para as outras, distribuindo aquela simpatia superficial de aparência calorosa, espontânea, o fato negro escorrido nas ancas estreitas, os braços colados ao corpo: com um copo esquecido nas mãos magras. Olho-a: as mãos longas a roçarem os cabelos erguidos tombados sobre a nuca. Corro os dedos pela blusa vermelha, de seda vermelha, intensa, e encosto a pele fria do copo aos cabelos lisos sobre os ombros. Tão naturalmente diferentes desde crianças.

A Infância

Olho-a enquanto se arranja para ir jantar fora. Vejo-a através do espelho a abotoar a blusa verde de seda natural às ramagens posta com a saia cor de pérola e não consigo penetrar na aridez fechada dos seus olhos. Uma maquilhagem esquiva acentua-lhe o olhar, dissipa-lhe a boca. Sentada na sua cama, balouço as pernas sem meias, umas pernas de Verão. Os brincos, dois pequenos cachos de pérolas, aguardam na mesa baixa defronte do espelho, sobre o napperon verde-musgo, ao lado do pente de cabo comprido e estreito. Puxo os cabelos para trás das orelhas e no espelho vejo-me quase a seu lado: as madeixas lisas sobre a testa, o resto do cabelo preso atrás das orelhas, liso e comprido, ainda mais escuro em contraste com o seu, a certas horas do dia tão louro como quando era pequena e eu a penteava arrepelando-a e ela gritava. E todo este silêncio é um peso que tento evitar dizendo ou cantando baixo qualquer coisa às vezes mesmo sem nexo; um peso difícil de suportar, um silêncio visceral que sai de nós próprias e nos envolve. Que temos para dizer uma à outra?

Olho-a atenta, a cara perto do espelho, as mãos ambas perto dos olhos que acentua e que poderiam ser os meus olhos (somente um pouco mais claros), se eu os pintasse. Alguma vez saberei se a invejo ou se me faço deliberadamente assim, exactamente como sou? Puxo os cabelos para trás das orelhas..., tudo o que nela é natural seria em mim fictício e o que ainda é fictício nela em breve será natural e fresco, exactamente como o enviar a alguém um malmequer tem para si a construção exacta, natural, de uma incerteza sedenta, sendo porém um gesto tão sincero como o é também premeditado. Sei que me fita sempre que desvio os olhos, aquilo que lhe desagrada em mim é o que nela ainda não conseguiu encontrar e que provavelmente logo destruiria. Em todo o caso foge e o silêncio tem o peso insuportável do vazio. Balouço as pernas. Umas pernas de Verão que não me importo de mostrar talvez pela certeza que adquiri de serem bonitas. Acabo por rir e isso é tão despropositado que tenho de arranjar um motivo a todo o custo perante mim própria e para ela que pergunta sem vontade: porque se está a rir?, exactamente como eu. Não sei. Mas invento qualquer coisa tendo consciência no entanto de que soa a falso e de que ela igualmente o sente no contorno incerto da minha voz, o que ainda a afasta mais; por isso mesmo e também pela maneira natural como balanço as pernas. Há sempre em mim uma oferta tão espontânea, uma maneira tão natural de fazer as coisas naturais, que elas logo se tornam diferentes, logo estranhas e ofensivas; praticamente ofensivas e ostensivas». In Maria Teresa Horta, Ambas as Mãos sobre o Corpo, Publicações Europa-América, Colecção Século XX, 1984, ISBN 978-972-100-090-2.

Cortesia de PEuropaAmérica/JDACT

 JDACT, Maria Teresa Horta, Literatura, O Saber,

sábado, 23 de abril de 2022

Ambas as Mãos sobre o Corpo. Maria Teresa Horta. «Corri as mãos pela blusa vermelha e apoiei-me ao seu ombro. À nossa volta as pessoas conversavam ou sorriam apenas. As mulheres afloravam com as pontas dos dedos os braços nus…»

 

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«(…)

A Fuga

Olhou para o cabelo e reparou que o espelho ia reflectindo os andares à medida que eles deslizavam compassadamente por detrás de si, num ruído metálico, surdo, de máquina já cansada. Olhou para os cabelos e não para os olhos, para a boca; olhou para os cabelos, irritada, e puxou-os mais do que os alisou. O elevador percorreu o último andar que ela viu reflectido fugazmente por detrás dos cabelos e pensou agora enquanto fechava a porta cromada estreita, e tocava à campainha: agora, como poderia ter encolhido os ombros enquanto esperava que lhe abrissem a porta, retraindo-se ante o barulho que lhe garantia terem já chegado as pessoas, a avaliar pela quantidade opaca de ruído que se debatia contra a madeira envernizada da porta onde não se encostava. Afastou-se, tropeçou na passadeira áspera do patamar e ficou com a respiração suspensa perante a onda quente que a envolveu, a abraçou, a empurrou para o hall onde a mesa comprida, dourada, com um tampo de mármore cinzento, se encostava, sóbria, a uma das paredes; e logo o olhar irónico e manso da empregada fardada de negro a fez sentir mal penteada. Avançou depressa sem encontrar ninguém, vendo apenas de raspão uma rapariga de branco com um colar azul turquesa que lhe sorriu vagamente. Correu o resto que lhe faltava do corredor comprido e atirou-se para dentro do quarto às escuras, onde ficou um momento sem acender a luz, os olhos fechados, os dedos crispados no tecido do casaco que acabou por tirar, ou melhor, por arrancar de si, e então acendeu a luz fraca do candeeiro da mesa de cabeceira, que logo espalhou todas as sombras habituais, conhecidas, como que resignadas e móveis conforme se mexia, erguia as mãos à altura da cabeça a puxar mais do que a alisar os cabelos lisos sobre os ombros. Os cabelos de um castanho-escuro com reflexos avermelhados, quase do tom da blusa que tirou pela cabeça num só gesto: e ignorando as vozes das pessoas já na casa de jantar e sem reparar que tremia de frio, quase nua, acendeu um cigarro.

Party

Corri as mãos pela blusa vermelha e apoiei-me ao seu ombro. À nossa volta as pessoas conversavam ou sorriam apenas. As mulheres afloravam com as pontas dos dedos os braços nus, acendiam os cigarros na chama curta e azul dos isqueiros de gás que os homens lhes estendiam ou que elas tiravam das malas pequenas. Apoiei-me mais ao teu ombro, tirei um copo da bandeja negra pousada sobre o móvel onde nos encostávamos e fiquei a olhar o líquido amarelo sem qualquer vontade de o beber, tornei a apoiar-me ao seu ombro, com o copo gelado numa das mãos, a outra esquecida perto da sua enquanto se moviam à nossa volta e nos falavam, enquanto eu pensava apenas no porquê do teu maior silêncio hoje e tentava adivinhar no tom da tua voz a explicação ou o motivo atenta à tua mais pequena mudança de humor. Cansada, demorava o copo perto da boca, e as sensações demorava-as também, suspendia-as até à vertigem ou à loucura extrema de não pensar. Cansada e todavia atenta aos seus menores gestos, cansada e tensa, a blusa macia junto à pele, o copo gelado pelo sumo que deixo correr pela garganta, o copo levemente apoiado nos lábios, o copo esverdeado que aperto entre os dedos de unhas mal tratadas e olho as outras tão diferentes, os cabelos soltos ou apanhados sobre a nuca, o rosto marcado pelo cuidado atento; ou melhor, o rosto atenuado e o corpo artificiosamente dissimulado. Corro as mãos pela blusa vermelha. Olho-as vejo-as na medida do meu cansaço saturado apenas atenta a ti e sinto enorme esta diferença que construo consciente. Encosto-me ao teu ombro e fecho os olhos durante uns segundos os meus ombros debaixo dos teus dedos. A sala por momentos existe apenas devido ao ruído das vozes, mas é o teu silêncio que se destaca saliente austero». In Maria Teresa Horta, Ambas as Mãos sobre o Corpo, Publicações Europa-América, Colecção Século XX, 1984, ISBN 978-972-100-090-2.

Cortesia de PEuropaAmérica/JDACT

JDACT, Maria Teresa Horta, Literatura, O Saber,

Meninas. Maria Teresa Horta. «… desviou a cara para a cintura delgada, lábios colados ao cetim do vestido turquesa que, em vez de coar os odores do corpo da mãe, lhe trazia intactas as essências frutadas, encrespadas, da sua carnação de loura»

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Efémere

«(…) Furtiva, eu era hábil na arte de urdir. Mas, a pouco e pouco, fui-me apercebendo da música: uma ária de Puccini, descobriria mais tarde. E encostada à parede do corredor, reparei que debaixo da porta do escritório do meu pai havia uma lista de luz solitária. Em bicos de pés aproximei-me, e sem ruído entreabri os batentes apenas encostados, a descobri-lo, muito magro e moreno, sentado à secretária, rodeado de cadernos e de livros, a preparar a aula que iria dar no dia seguinte. Afastei-me, atordoada.

Lápis-Lazúli

Em contraluz e falando devagar, modelando as palavras, a mãe disse: De ti não quero mais nada! Levo comigo a roupa do corpo e a nossa filha. Pegou nela, fininha e atordoada, bibe de bordado inglês no peitilho a defender o vestido de organdi cor de romã com mangas de balão enfunadas, pô-la debaixo do braço e contornando o maple de veludo grená, começou a andar na direcção da porta do escritório, enquanto em silêncio o pai, sentado à pesada secretária de mogno diante dos cadernos de capa de oleado preto e dos livros sublinhados, ficou imóvel, de uma palidez doentia, sem no entanto dar qualquer sinal do arrepio que sempre provoca o ínvio encontro com a adversidade. A vê-la afastar-se da sua vida: loura e esguia, olhos lápis-lazúli toldados pela morbidade das pestanas, pernas altas à transparência da saia lilás, leve balancear das ancas magras. E quando a mãe se voltou, um pouco antes de se perderem as duas no escuro do corredor da casa, a menina, na sua posição inclinada de lado, por segundos julgou vê-lo encolher-se como se temesse que elas regressassem.

Olhou o livro que o pai tinha nas mãos magras, bonitas, em vez de tentar encontrar-lhe o olhar cinzento esverdeado que sempre se distraía dela. Mal escondida atrás dos cortinados de um tom dormente de pêssego aturdido, da janela do escritório, a menina ouvia-os discutir, palavras que se misturavam no grito, delas entendendo só a ameaça; gume e espelho a mostrar coisas terríveis que não queria ver nem escutar por tanto a assustarem. Mas como de costume acabou por sair sorrateira do seu esconderijo onde passava tardes inteiras, passo tímido a deslizar no chão encerado, sapatos de verniz preto com presilha de abotoar no peito do pé com botãozinho de lustro, para ir de manso encostar a face pálida à saia lisa e travada da mãe.

Foi então que, num arroubo esta a agarrou e a subiu ao peito apertando-a muito, olhar de hortênsia subitamente fixo, para logo a derrubar nos braços a descê-la um pouco inclinada até a pousar de novo no chão, embora aparentemente relutando no seu próprio gesto inacabado, que ela acabou por quebrar num repente, súbito rompante incontrolável, enquanto dizia, sem moderar a exaltação da voz: De ti não quero mais nada! Levo comigo a roupa do corpo e a nossa filha. Depois, curvando-se, tornou a agarrar nela, de braçado, miudinha de ossos e de carnes, aturdida no seu fatinho de cassa de algodão de rosa da Abissínia, pô-la junto da anca fina, e num passo nervoso mas decidido evitou a chaise longue de faia com estofo de damasco, roçou ao de leve com o tornozelo o biombo lacado e, sem se voltar para trás em jeito de saudade, deixou o escritório. Quando iam a caminho da porta da rua na obscuridade do corredor, a menina que então se encontrava de lado, mas virada para a maciez dos seios da mãe, reparou no brilho de lâmina dos seus olhos de anil luzente. E encandeada, encolheu-se na tepidez da pele suada do braço perfumado que a segurava, desviou a cara para a cintura delgada, lábios colados ao cetim do vestido turquesa que, em vez de coar os odores do corpo da mãe, lhe trazia intactas as essências frutadas, encrespadas, da sua carnação de loura». In Maria Teresa Horta, Meninas, Publicações dom Quixote, 2014, ISBN 978-972-205-611-3.

 Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Maria Teresa Horta, Literatura, O Saber,

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Meninas. Maria Teresa Horta. «No primeiro desses dias fugazes chegámos a casa atrasadas, já perto da hora de ser servido o jantar, ambas silenciosas, rápidas e comprometidas, a minha mãe transportando a marca da sua infidelidade imperfeita…»

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Efémere

«(…) Para entretê-la, começava a falar do que me vinha à cabeça, desde mentiras a pedaços de histórias inventadas, numa mistura de risos, versos e perguntas que nunca obtinham resposta, pois nem sequer me ouvia. Apesar de estar ciente disso, eu continuava a fantasiar: de início num murmúrio que ia subindo num crescendo agudo, até ela me cortar a palavra com um olhar ausente e gelado.

Esqueceu-se novamente de que sou sua filha, apercebia-me assombrada, e o arrepio do medo começava a trepar de manso até ao meu coração dilacerado, braços trémulos que juntava ao corpo cuidando aquietá-los. E na tentativa de fazê-la lembrar-se de mim, chamava-a num sussurro de brisa árida:

Mãezinha

Só que ela já voltara a perder-se dentro de si própria, presa de uma espécie de fascínio, de encantamento maligno que a tomava, levando-a consigo, o olhar perdido ao longe ou correndo ansioso por aqueles que passavam. E quando eu já me alegrava, embora ainda desesperada, ele aparecia apressurado e expectante, trazendo um ramo de açucenas ou de ervilhas-de-cheiro, um perfume, um disco com uma ária de ópera, ou somente o seu sorriso perfeito, e ela recompunha-se como por milagre, radiosa, a entreabrir-se, semelhante a uma rosa ou a uma camélia.

A desfolhar-se.

Cismando eu em apanhar-lhe as pétalas, a fim de, sigilosa, as guardar no meu quarto, escondendo-as debaixo do travesseiro; mas sem conseguir esquecer a presença dele, sentado na cadeira diante da minha mãe, a beber café duma pequena chávena de porcelana com uma lista fina no contorno da borda. Sinuoso, romântico, falando baixo de coisas que eu não entendia mas a levavam a rir alto, num riso solto de prazer que me envergonhava ouvir, embora gostasse de lhe ver os dentes brancos, certos e húmidos.

Para onde estás a olhar?

Ouvi-a a repreender-me desprendida, num tom agreste, a fazer-me sentir indesejada, inoportuna. Não me contendo, fitei com acinte aquele homem moreno, risca perfeita no cabelo acamado e luzidio de brilhantina, cara longa e olhos cor de avelã ensombrados pelas pestanas negras; olhar incerto a afastar-se do meu demasiado depressa. Lembro-me, como as palmas das suas mãos fortes e morenas cobriam (apenas por alguns segundos) as mãos da minha mãe, simultaneamente possessivo e indolente, e de como ela, relutante, as retirava, a tropeçarem no corpo ou na chávena, no cinzeiro, na taça do meu gelado derretido. No primeiro desses dias fugazes chegámos a casa atrasadas, já perto da hora de ser servido o jantar, ambas silenciosas, rápidas e comprometidas, a minha mãe transportando a marca da sua infidelidade imperfeita, e eu a de sua cúmplice. Sem saber bem de quê, nem porquê, mas do seu lado. Depois de passarmos o portão de ferro forjado e percorrermos o caminho das pedras, quando tirou a chave da mala para abrir a porta da rua cambaleei a tiritar de frio como quando se tem febre, ansiando por amparar-me nela, mas a sentir a sua anca afastar-se, em desabrigo. Assim entrámos como duas estranhas, estrangeiras, naquela casa silenciosa e aparentemente deserta, que me pareceu inóspita e ameaçadora. Sem uma palavra e nem sequer acendendo a luz, aliviada, a minha mãe largou-me no escuro, desconhecendo que até de olhos fechados eu era capaz de seguir a pista do odor almiscarado do seu corpo. Deslizei, pois, invisível, e estaquei do lado de fora do quarto de dormir onde ela se fechara, a adivinhá-la no atirar da écharpe para cima da colcha de cetim cor-de-rosa e no pousar da malinha sobre o tampo lavrado da cómoda, junto da escova de cabelo com cabo de prata e dos frascos de cristal onde os aromas conturbados se entorpeciam». In Maria Teresa Horta, Meninas, Publicações dom Quixote, 2014, ISBN 978-972-205-611-3.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Maria Teresa Horta, Literatura, O Saber, 

domingo, 20 de junho de 2021

As Luzes de Leonor. A Arte de Maria Teresa Horta. «… os nervos quebradiços da marquesa de Alorna, com a sua fragilidade doentia, tal como o estouvamento mimado da filha mais nova. Vamos ter, por certo, uma convivência difícil»


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1758-1768

«(…) Entraram noite alta, a contragosto, contritas, lívidas. As três amparando-se umas às outras, o bistre das olheiras a macerar-lhes as faces ainda molhadas pelas lágrimas, o rapazinho, que nem devia ter vindo, agarrado com susto ao vestido da mãe. Só a menina mais velha me procurou os olhos, a querer prendê-los nos seus numa teima assombrada, jeito de quem é brava de coração e carácter. A interrogar, a querer entender e a duvidar ainda. Oito anos obstinados, ásperos e esquivos, almiscarado odor a bergamota toldado pelo perfume de água de rosas lívidas, nela havia já uma certa altivez orgulhosa e aristocrática; mais firme e determinada do que a mãe e a irmã, a avaliar-me a mim, prioresa do convento de São Félix em Chelas, onde não se sabe por quanto tempo irão ficar reclusas. Como se ela pudesse entender ou adivinhar que só as recebo porque a isso me obriga a obediência devida ao vigário geral do Patriarcado, o arcebispo de Lacedemónia, a cumprir por sua vez ordens do ministro de Estado de El-Rei José I. Não me cabe reparar no mundo fora da casa do Senhor, e menos ainda ter opinião sobre os assuntos do Reino, mas a partir de hoje temo bastante pela instabilidade do nosso convento, devido à revolta que elas possam arrastar para dentro destas paredes sagradas, com os seus destinos desordenados. Temo sobretudo a rebeldia de Leonor e a maturidade invulgar que apercebi no seu impenetrável olhar de veludo incerto, embora também me preocupe a presença do menino, que terá rapidamente de abandonar o convento, e os nervos quebradiços da marquesa de Alorna, com a sua fragilidade doentia, tal como o estouvamento mimado da filha mais nova. Vamos ter, por certo, uma convivência difícil.

O arcebispo de Lacedemónia comparece no dia seguinte no convento de Chelas, a fim de comunicar à madre superiora as directrizes do conde de Oeiras no que diz respeito à estada no mosteiro da marquesa de Alorna, dona Leonor Lorena, e à das suas filhas. O menino terá de sair em breve, mas não o comunica à prelada. Preocupada com a visita, de que não estava à espera, esta consegue suster no peito a indignação nela desencadeada pela presença das três estranhas chegadas noite alta, na véspera, a fim de cumprirem castigo de reclusão, e embora duas das intrusas sejam crianças isso não lhe importa, pois em todas corre nas veias o sangue condenado dos Távora. Continuando o arcebispo num silêncio pesado, olhos pequenos e astutos tentando captar os dela, esquivos como se temesse revelar o que não deve, a prelada acaba por tomar a palavra, mãos nervosas a subirem-lhe ao rosto longo e a sublinharem as palavras das quais, de início, tenta ainda encobrir o tom desabrido…

Vossa Eminência vai perdoar-me a impertinência, mas vejo-me na necessidade absoluta de Vos comunicar a grave preocupação que de imediato me invadiu, ao constatar que com a marquesa de Alorna vinham não só as filhas mas também um filho! Ora, num convento de religiosas, Vossa Eminência sabe não se poder criar um menino, vê-lo crescer todos os dias a ficar mais homem… Já me basta a pesada tarefa de gerir este convento, a tentar harmonizar freiras e noviças, pensionistas e recolhidas, senhor arcebispo de Lacedemónia, mais a mais vendo-me agora obrigada, no cumprimento da ordem do senhor ministro de Estado, a acolher com generosidade nesta casa do Senhor membros de uma família banida por Sua Majestade, e isso já me basta senhor arcebispo. Estranhando não ter sido ainda interrompida, a madre abadessa, que ao deixar-se embalar pelo discurso se levantara, volta-se para o prelado, que continua a fitá-la num pesado mutismo, com um meio sorriso sarcástico nos lábios finos.

Tempo depois, tal como era esperado pela mãe e pelas irmãs, apesar de não o confessarem umas às outras, o desembargador Eusébio Tavares volta a Chelas acompanhado pela tropa, a fim de levar Pedro de volta à casa da Boa Morte, onde continuam os criados e alguns parentes afastados. Ignorando ter sido Sebastião José quem dera ordem no sentido de o menino não ser fechado num convento de religiosas, Leonor Lorena domina-se, tentando serenar-se, a conformar-se já com a solução encontrada. Pede apenas uns instantes sozinha com o filho, que sente a tremer de susto, mão gelada apertada na sua. E quando voltam a sair do quarto, o menino vem muito branco e calado, mas sem lágrimas no rosto crispado. Filho corajoso!, pensa comovida, já a arder em febre». In Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, Publicações dom Quixote, 2011, Prémio D. Dinis I, ISBN 978-972-204-733-3.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

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sábado, 19 de junho de 2021

As Luzes de Leonor. A Arte de Maria Teresa Horta. «Deste duro arpão que rasga o peito, monstro que a alma devora sem piedade…»


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1754-1758

«(…) Na cela que durante dezoito anos seria o meu quarto, deitada na cama estreita e fria, fiquei de olhos abertos toda a madrugada, possuída pelo medo daquilo que, não podendo ainda entender, não deixava de me aterrorizar pelo seu abismo. No compartimento ao lado ficou minha mãe, abraçada a Pedro, na inútil tentativa de descansar e acalmá-lo um pouco; dias depois, ele seria retirado da nossa companhia, e levado de volta para a casa na Rua da Boa Morte. Só então comecei a perceber a verdadeira dimensão da tragédia que arruinara as nossas vidas, apesar de continuar a escapar-me a essência do que nos acontecia, espécie de cataclismo desencadeado pelo poder fero e tirano do secretário de Estado Sebastião José Carvalho Melo, verdugo da nossa família. Da sua tirania cruel falei em muitos versos… Deste duro arpão que rasga o peito, monstro que a alma devora sem piedade… Dessa primeira noite em Chelas guardo ainda com inacreditável nitidez a fantasia esperançosa de, na manhã seguinte, acordar em casa, ou nos braços da avó Leonor Távora, que na altura eu ainda não sabia presa. E quando mais tarde uma freira maldosa me contou com todos os pormenores a sua morte bárbara, senti despertar o ódio, sentimento até então meu desconhecido; sentimento confuso mas pertinaz a envenenar-me o sangue, a tentar tomar conta do meu coração de menina assustada. No entanto, os livros, as Luzes e a poesia salvaram-me, ao entornarem a doçura do mel do favo onde o fel e a raiva já haviam começado o seu trabalho devastador.

1758-1768

Chegam ao convento de São Félix por entre o ladrar de cães estremunhados, o metálico ruído das ferraduras dos cavalos, das rodas das carruagens, e o choro do menino pequeno a procurar amparo no ombro da mãe, perdida no alheamento em que ficara, lágrimas deslizando-lhe devagar no rosto, desde que deixara para trás o abrigo da casa. O meu filho!, gritara num apelo aflito no momento em que a separavam de Pedro, agarrado às suas saias. O menino fica!, respondera-lhe o desembargador Eusébio Tavares que já lhe levara o marido, quando à sua ordem os soldados tentavam arrancar dela a criança em pranto. Revolveu-se Leonor Lorena na dor que lhe tolheu o passo, alegando que o menino ficaria no desamparo. E vendo o desembargador hesitar, recorreu a todos os argumentos maternos, voz trémula e comedida embora trespassada pela cruel lâmina da desgraça. Conseguindo desse modo comovê-lo, mal o ouviu dar a ordem no sentido de Pedro seguir com ela, baixara a cabeça e deixara-se levar em silêncio. Os múltiplos sentimentos que na altura não expressara, confessá-los-á mais tarde em cartas clandestinas enviadas ao marido, os soluços cosidos no peito, os dedos incertos a fazerem-lhe tremer a letra mal desenhada no papel grosseiro, obtido à custa dos poucos dinheiros que lhe restavam. Moedas encontradas no fundo de uma bolsa trazida por Leonor de cima da cómoda dos aposentos dos pais, e que ela encobrira depois na roda da capa onde a ama a embrulhara, antes de serem levadas para o carro, à espera diante da entrada, de cortinas fechadas. A menina fique calada pois ninguém lhe está a fazer mal!, ralhou um dos soldados a Maria, que gritava enquanto, agarrada pela cintura, era sentada no banco corrido da carruagem. E formada a escolta pela tropa, o cocheiro fez os cavalos tomarem o caminho dos campos, a coberto da tempestade». In Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, Publicações dom Quixote, 2011, Prémio D. Dinis I, ISBN 978-972-204-733-3.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Maria Teresa Horta, Literatura, Saber, Cultura, 

A Arte de Maria Teresa Horta. As Luzes de Leonor. «… tal como me lembro de os ver à claridade esvaída das lanternas e dos archotes levados pelos soldados que naquela noite tempestuosa de Dezembro de 1758 nos escoltaram…»


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1754-1758

«(…) No semblante fechado do Rei, não obstante as suas palavras amáveis, está patente a vontade de os afastar, impaciente por vê-los partir, a ponto de interromper o marquês de Távora quando este relata os últimos tempos passados em Goa. Varre-se então dos lábios de Leonor Távora o hermético sorriso de circunstância e, em vez de se manter afastada dois passos atrás do marido como impõe o protocolo da Corte, avança com a ousadia destemida e destemperada por demais conhecida dos que com ela convivem, temível e soberba na determinação altiva. Mas lindíssima também, tanto na doçura como na agressividade que naquele momento lhe marca as feições. Atento à sua beleza que o deslumbra, Sebastião José entende o perigo no qual Francisco Assis não repara, e avança, cruza-se com ela, fixa-lhe fugazmente o olhar violeta e detém-na, ao inclinar-se à sua frente enquanto lhe diz em voz baixa: creio que a senhora marquesa gostará de saber a extrema satisfação de El-Rei com a argúcia política e as vitórias alcançadas por vosso esposo o marquês, enquanto Vice-Rei da Índia… Voltando-se em seguida para o marquês de Távora, acrescenta: tenho a honra de comunicar ter sido V. Ex.a elevado ao cargo de Inspector General de Cavalaria do Reino.

Como se fosse uma esmola dada por favor, pensa Leonor Távora, sabendo não poder o marido recusar a nova dignidade, mas ansiando por isso. Aliás, daquela audiência, estranha e detesta tudo: a aspereza mal encoberta do Soberano, a falta do fulgor habitual em recepções do género, a mesquinhez da dádiva, a mediocridade do disfarce do ódio recolhido do secretário de Estado. Mas ensombrece mais ainda quando este passa a elogiar os serviços prestados por ela enquanto estiveram em Goa, permanecendo num silêncio contrariado até ao fim do hipócrita discurso laudatório. E torneando com habilidade a obrigatória resposta agradecida, pede a mercê de serem levados à presença da Rainha dona Mariana Vitória e de dona Maria, Princesa do Brasil. Enquanto seguem o camareiro pelos corredores sombrios até à real câmara, sente Leonor Távora o coração desacertado numa espécie de aviso, premonição de negrume. Angústia recolhida a apertar-lhe o peito.

A memória daquela madrugada jamais deixou de perseguir-me, por entre a devastação das trevas geladas, insondáveis. Noite de procela vergastada pelo vento, pela chuva e pelas vozes ásperas dos soldados dando ordens, a quererem fazer-se ouvir apesar do choro desabalado do meu irmão agarrado às saias da mãe, já à porta de casa. Muda de espanto, coração a saltar-me no peito arrepiado de frio, eu ia recuando o que podia até à escadaria que levava aos quartos, onde imaginava conseguir esconder-me do medo que nessa altura sentia. Desnorteada, encurralada, mas apesar de tudo a tentar evitar o pânico. Passada que foi toda uma vida, só agora me apercebo do pavor de que estive tomada, durante um tempo interminável marcado pela cadência dos cascos dos cavalos nas pedras desgarradas, enquanto olhando pela janela acanhada eu mal conseguia distinguir as árvores que pareciam assombrar os caminhos cheios de lama pelos quais éramos levadas sem sabermos para onde, num lento pesadelo só terminado quando nos mandaram sair, atemorizadas e enregeladas, no meio de um imenso deserto de negrume. Estávamos na verdade diante do convento de S. Félix, no vale de Chelas, cujas portas de madeira pesada e escurecida pelos anos, com grandes gonzos firmados nos umbrais de pedra grossa trabalhados em ogiva, demoraram a abrir. Passámo-las tiritando, encharcadas, depois de termos esperado num pequeno pátio ladeado por azulejos azuis e brancos com esbatidos desenhos geométricos, tal como me lembro de os ver à claridade esvaída das lanternas e dos archotes levados pelos soldados que naquela noite tempestuosa de Dezembro de 1758 nos escoltaram; chamas oscilantes a crepitar sob a chuva, que alumiavam mal os degraus a começarem já na terra batida. Aguardavam-nos algumas freiras curiosas mas desconfiadas e a prioresa, de olhos baixos, mas desagradada tanto com os evidentes traços do nosso desgosto, como com o aspecto desleixado que àquela hora tardia apresentávamos. Maria e Pedro, a choramingarem, agarrados à saia amachucada do vestido de seda esmeralda de nossa mãe, muito pálida, relutante eu a retardar o passo a fim de olhar o escuro, na tentativa de distinguir o vale que sempre haveria de me parecer assustador. Escuto só os ventos rugidores, escrevi mais tarde; mas naquela noite era só a chuva grossa que eu ouvia a embater nas lajes do claustro desconhecido». In Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, Publicações dom Quixote, 2011, Prémio D. Dinis I, ISBN 978-972-204-733-3.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

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quinta-feira, 3 de junho de 2021

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Ninguém é nosso irmão ou irmã. De irmandade só o convento. Que o cavaleiro erre tanto como a tua loucura…»


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«(…)

Brinvilliers (Marie Marguerite de)

Jovem e bonita mulher que, de 1666 a 1672, envenenou sem malícia, e muitas vezes com desinteresse, pais, amigos e criados. Chegava a ir aos hospitais e aí administrava veneno aos doentes. Todos os seus crimes devem ser atribuídos a uma horrível loucura ou à mais atroz espécie de depravação, mas não ao demónio, como é frequentemente o caso. É verdade que Brinvilliers começou a sua carreira criminosa aos sete anos e que espíritos supersticiosos suspeitavam de que um medonho diabo a tinha possuído... Vinte e quatro horas depois de ter sido queimada, em 1676, as pessoas procuraram os seus ossos e olhavam-nos como relíquias, dizendo que ela era uma santa..., pois que os envenenamentos continuaram depois da sua morte.

A ti fugida na tua paixão. De solidariedade

Ninguém, casadas e vendidas e nos próprias.

Não houve pão para nós à mesa dos homens.

E o que faremos, Madre Abadessa, que faremos?

Ninguém é nosso irmão ou irmã. De irmandade

Só o convento. Que o cavaleiro erre

Tanto como a tua loucura. Não acoites seu corpo

No teu, refúgio do seu pavor. Que ele caia

Sem casa. Nossa esperança

É a ruína das casas. Aí virás

Da tua paixão.

E o que faremos, o que faremos?

Deshoulières

Madame Deshoulierès decidiu passar alguns meses num domínio a quatro léguas de Paris, e foi convidada a escolher o mais belo quarto do castelo, à excepção de um quarto que era visitado todas as noites por um fantasma. Havia já muito tempo que Madame Deshoulières queria ver um fantasma, e a despeito de todas as objecções levantadas, instalou-se no quarto assombrado. Quando chegou a noite, foi para a cama, pegou num livro, como era seu costume, leu e, tendo-o acabado, apagou a luz e adormeceu. Depressa foi acordada por um barulho na porta, que fechava mal. Alguém abriu a porta, entrou, andando pesadamente... Estendendo as mãos, Madame Deshoulières agarrou duas orelhas lanzudas, e teve a paciência de as segurar até à manhã seguinte..., quando se descobriu que o pressuposto fantasma era um grande cão que achava o quarto mais confortável para dormir do que as estrebarias.

No mundo abandonado onde então erraremos

A paixão será um só objecto e exercício. Não me chames

De irmã, até que outro mundo venha.

Afastar possibilidades de novo convento. Nos escombros

Acharemos irmãos. Os que nada perderam

E por nada foram esmagados, pois que não tinham

Casas. Mas guardemo-nos ainda porque os irmãos

Dirão Fizésteis os cidadãos

Agora a cidade é nossa

Três vezes nos trairão

Nossos irmãos: no pão, no corpo

E na cidade. Não me armes cavaleiro

Das tuas angústias. Retomaríamos nos escombros

Antigos fantasmas. Recuaremos à raiz

Da nossa angústia, sozinhas, até dizermos

Nossos filhos são filhos são gente e não

Falos dos nossos machos. Chamaremos crianças

Às crianças, mulheres às mulheres e homens

Aos homens. Chamaremos um poeta para governo

Da cidade. Que substitua o demiurgo

De ciclópicos trabalhos.

Primeira Carta IV

Como é que o amor é possível?

Como é que não é possível?

que mais importa:

a história de um amor?

ou um amor na História?

na estória?»

30/3/71

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

JDACT, Maria Teresa Horta, Literatura, Saber, Mariana Alcoforado,  

segunda-feira, 31 de maio de 2021

No 31, a Arte de Maria Teresa Horta. As Luzes de Leonor. «Escutam-me estas penhas animadas, que as expressões do brando sentimento, como sonhos de enferma reputadas, insultam, por dobrar o meu tormento»

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1754-1758

«(…) Peço-te calma, meu amor! Peço-te calma!, ouvi-o gritar, afastado de mim à força. E dobrada sobre o corrimão fiquei a vê-lo descer a escada até sair a porta lá em baixo, voltando-se antes a despedir-se, com um demorado olhar triste mas infinitamente frio, onde se recolhia o brilho acerado do gume de uma ardente faca. Enquanto isto, escondida atrás de mim, Leonor observava o Pai a ser levado aos empurrões cobardes; foi ela que me impediu de cair, arrastando-me primeiro para a casa de fora e em seguida amparando-me até ao quarto onde me deitou na cama gelada. Só bastante mais tarde me dei conta de ela ter agido não como uma menina de oito anos, mas como uma mulher. Lembro-me do seu semblante extremamente pálido e de como tremia ao afastar-me os cabelos da testa encharcada pelo suor frio, ao secar-me na face as lágrimas constantes, ao compor-me no peito o decote esgarçado da camisa rasgada.

Na verdade, pouco guardo dos dias e dos meses que se seguiram, estendida na minha cama gelada de mulher solitária a quem abruptamente lhe fora arrancado sem qualquer motivo o homem amado. De seguida, como se não chegasse, num rasto de negrume vieram todas as outras terríveis desgraças a que julguei esquivar-me pelo lado do meu nada, embora continuando viva. E ao despertar das minhas perdições e torpores, estava a cumprir num convento não sei que pena, dentro de uma clausura que não era minha; num tempo do qual pretendi a todo o custo anular os sinais, os anseios, as pegadas, as vertigens.

Escutam-me estas penhas (de Epístola a Tirce)

Escutam-me estas penhas animadas,

Que as expressões do brando sentimento,

Como sonhos de enferma reputadas,

Insultam, por dobrar o meu tormento.


Aqui a seva mão do Fanatismo

Serve as leis execrandas do meu fado;

Aqui geme o legítimo heroísmo,

De uma falsa razão atormentado.

Raízes

Desembarcados que são da armada da Índia no porto de Lisboa, beijada a família, afagados os netos que ainda não conheciam e cumprimentados os fidalgos que os esperam, distrai-se Leonor Távora, demorando o passo, a olhar o céu de Portugal, azul-cobalto naquela manhã de estio, antes de aceitar a mão desenluvada de Francisco Assis para subir os dois degraus da carruagem enviada pela Coroa a fim de os levar ao Paço. Haviam partido a caminho da Índia com as despedidas solenes e a confiança de el-rei dom João V, entretanto morto, e no regresso deparam-se com a ausência da Corte, sinal da hostilidade gélida de dom José I entretanto coroado Rei de Portugal, que encontram na companhia do seu secretário de Estado Sebastião José Carvalho Melo. Homem baixo, ainda novo, lábios de lâmina afiada, olhos pequenos, argutos e escuros que neles se fixam, como se pretendessem ler-lhes a alma; particularmente atento à marquesa de Távora, que estremece ao sentir a sua atenção fascinada, arrepio a subir-lhe no corpo delgado vestido de seda natural cor de amora selvagem, plumas tom da aura dos anjos a temperarem-lhe o toucado com langores imprudentes». In Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, Publicações dom Quixote, 2011, Prémio D. Dinis I, ISBN 978-972-204-733-3.

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domingo, 30 de maio de 2021

As Luzes de Leonor. Maria Teresa Horta. «… para onde vão levar o senhor marquês de Alorna, meu marido? Ao que o desembargador respondeu com uma mentira e de olhos no chão: para o Pátio dos Bichos na Quinta do Meio…»

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1754-1758

«(…) Pavores que pressinto na correnteza de terrores sentidos tão continuamente que me parece delírio, chegando a levantar-me vezes sem conta da cadeira em que estou assentada, na minha casa, para ir ao oratório dar este recado ao Senhor Crucificado, que nele se encontra: Senhor! Salvação do conde de Atouguia, seja como for! E isto me acontece vendo este tão moço e com boa saúde; ao menos não tendo nele cousa em que temesse perigo. A tentar não me lembrar continuamente dos profetas da desgraça que neste ano de 1758 pululam em Lisboa, escanzelados, esfarrapados, sujos, olhar iluminado pela alucinação e o desvario, impelidos pelo gosto da crueldade em falas de perdição e loucura.

Na sua sombra escondem-se as serpentes e agem as nigromantes, as benzedeiras e as bruxas, arrastando estas as bainhas desfeitas das saias pela imundície das ruas. Nos sacos e nos alforges carregam as pedras medradas no veneno, escondem as cartas de adivinhação, as bolas de cristal polidas pelo afago dos dedos no adestrar de espelho e na abordagem dos mundos exauridos do além, no contacto lívido com os espíritos. De onde partem, diz-se, os mais desalmados vaticínios, que logo circulam por ruas e becos e colinas, até mesmo por entre as ruínas deixadas pelo terramoto, onde prosperam o negrume brilhante da beladona e os agrestes frios do Inverno, ventos de gume em riste entristecendo e assustando a cidade atascada de lama e mau olhado, inundada por medos e pavores desde o tremor de terra. Superstições colhidas na ignorância, comenta com austeridade minha mãe dona Leonor Távora, quando lhe relato com pinceladas de obscuridade as imagens cruéis, violentas e desgraçadas. De igual modo se referiu ontem a elas a condessa de Óbidos, gracejando acerca da última predicção escutada, fingindo eu esquivar-me de levar a sério a sua narração, mas a perder-me já na cerração que logo me obscureceu a alma.

Vaticínios anunciados por esquálidos profetas da desgraça, de cima de improvisados púlpitos, pedregulhos mais altos encontrados nos monturos que juncam as ruas cruzadas em torno do pouco que agora resta do Terreiro do Paço: sangue de mártires, de fidalgos e senhoras vão correr em breve para os lados de Belém, num Janeiro de eclipse, de ventanias e tempestades, a encharcarem as madeiras verdes do cadafalso e as terras, as areias junto do rio, mais tarde manchadas pelas lágrimas e o vermelho dos sangues.

Vi sair meu marido escoltado pela tropa quando o vieram buscar ao fim da madrugada, estávamos ainda recolhidos. Eu às voltas na cama sem descansar, peito oprimido por uma aflição para a qual não encontrava motivo, cuidando em não incomodar João que a meu lado dormia mergulhado no sono pesado do sossego, embalado pela tranquilidade que até àquele momento fazia todo o sentido. Mas o grande ruído vindo do pátio, junto ao portão da entrada e debaixo da nossa janela, acordou-o, sobressaltado, e sem nada entendermos tomados por pressentimentos sombrios. E logo ele me empurrou com brusquidão dos seus braços, ordenando num tom de voz ríspido, que até àquele instante não lhe conhecia: vai ver das crianças e não as largues.

Assustada, passei à casa de fora, para de seguida ir correndo a tropeçar na camisa comprida, touca com entremeios de renda e folho estreito a escorregar ao longo dos meus cabelos, que já tombavam soltos e desordenados pelas costas. Afastando-me apesar de preferir ficar, temendo sem saber porquê que viessem buscar João, e à conta desse temor lhe obedeci, enquanto escutava o tropel das botas dos soldados subindo a escadaria de mármore à sua procura, sala após sala, até o acharem a vestir-se, a fim de poder enfrentar de modo decente o que pudesse vir a acontecer-nos.

Sem saber o que fazer, tirava Pedro da pequena cama, bracejando ensonado, quando senti Leonor a puxar-me pela manga convocando-me para a sua lividez de cal, os olhos azulados cheios de perguntas, enquanto Maria, descalça e tremendo de medo, se agarrava à minha cintura. Entreguei Pedro à ama assim como as meninas, e estava de volta ao corredor com intenção de regressar ao quarto de onde nunca devia ter saído quando o desembargador Eusébio Tavares, que nesse dia 13 de Setembro de 1758 iria deter igualmente meus irmãos e o marquês de Atouguia meu cunhado, aparecendo ao meu lado a embargar-me o passo, sem palavras mostrou-me a ordem real que o autorizava a prender meu marido, assinada pela rainha dona Mariana Vitória, que governava enquanto el-rei José I se curava das feridas resultantes do atentado até à data mantido secreto e cometido na noite de três de Setembro contra a sua pessoa. Segundo o desembargador, a rainha ordenava-me, tal como aconteceria com a condessa de Atouguia, minha irmã Mariana Bernarda, a ficar detida na própria casa.

Não tendo coragem na altura para objectar fosse o que fosse, limitei-me a indagar num fio de voz: para onde vão levar o senhor marquês de Alorna, meu marido? Ao que o desembargador respondeu com uma mentira e de olhos no chão: para o Pátio dos Bichos na Quinta do Meio, senhora marquesa, onde já se encontram outros membros da vossa família.

Recuei assustada, mas ao ver João rodeado e manietado pela guarda armada lancei-me num soluço ferido, e afastando os surpreendidos soldados agarrei-me a ele, anelando-me no ninho do seu peito, braços em laço apertado em redor do seu pescoço, sem nenhuma noção do pudor que me devia, outra coisa não sentindo senão aquele desespero inteiro que aos borbotões me transbordava do rasgão aberto no cerne da vida». In Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, Publicações dom Quixote, 2011, Prémio D. Dinis I, ISBN 978-972-204-733-3.

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quinta-feira, 27 de maio de 2021

As Luzes de Leonor. Maria Teresa Horta. «Travo que guardo na boca desde o terramoto, numa premonição de desgraça vil que de mim não se afasta em momento algum, a tornar pesados e sem remédio os lentos dias arrastados das matinas às completas…»

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1754-1758

«(…) Quando se aproxima devagar do fim do álbum, dá-se conta de que a madrugada fizera esmorecer a luz cada vez mais fraca da vela, não sabendo há quanto tempo a distracção a impede de ouvir os ruídos da casa que desperta: os sons abafados vindos do sótão onde fica a ala dos criados, a água que corre do jarro para uma bacia de louça, um objecto caindo no desamparo do chão, o chiar áspero de gonzos a amordaçar o cochicho das vozes à mistura com os frouxos de riso mal contidos pela palma das mãos gretadas, logo seguido de um demorado arrastar de pés descalços, pesados de sono. Escuta depois o estalar dos degraus que levam à cozinha, de onde não tardará a subir o cheiro acre do café amargo, do leite fervido e das natas, das papas de aveia e da aletria, do pão escuro aquecido em cima das brasas tiradas do borralho das cinzas. Apercebendo-se de como começa a ficar tarde, Leonor fecha a contragosto A Revolução Dos Orbes Celestes de Nicolau Copérnico, escorrega da cadeira, agarra o xaile e embrulha-se nele. Apaga em seguida o que resta do coto da vela, agarra no castiçal com a mão miúda e, silenciosa, corre de volta ao quarto onde Maria ainda dorme, enrolada nas mantas, cabeça debaixo da almofada de penas.

Desde sempre as mulheres da família dos Távora foram dadas a pressentimentos, a anjos e a cintilações, a negrumes e visões, a premonições, a adivinhamentos e sonhos; dom maligno que, ao longo dos anos tendo trato com as profecias, vêem sem rebuço entretecer a realidade em que vivem com o lado sombrio do seu mundo interior: o quotidiano que habitam, o futuro que intuem, adivinham, antecipando caladas mais as desgraças e os desgostos do que os aprazimentos e as alegrias. A verdade, aceite por quem as rodeia e de certo modo as teme, é terem conhecimento das raízes de tudo o que nasce e brota das tempestades a montante do nada, daquilo que acontece antes de ter acontecido, evitando todavia passar essa premonição aos outros, neles não desejando acrescentar o receio e a angústia que eternamente cai sobre quem prevê a queda, a morte, a vertigem. Franja de espuma nocturna, obstinada na tentativa de invadir a mente e o coração dos que pressagiam os estigmas da alma, os espinhos do cardo, as silvas da torpeza, o ocaso que a febre levanta nos abismos do peito, as garras do mal gerado por Satanás na sua ronda em torno das mortes e dos partos, no uso de manhas e artes, feitiços e artifícios; insidiosa tentativa de nos convocar, de nos rodear, de nos fascinar, até nos afastar por completo da brancura e da maior pureza, dos caminhos do bem. Eu, Mariana Bernarda Lorena, condessa de Atouguia e filha dos marqueses de Távora, jamais soube separar a visitação dos arcanjos da aparição dos negrumes, nem destrinçar a plenitude onde reside o adormentado gosto do mel, do êxtase onde explode o acre sabor a fel e a salitre, salobre e amaro. Travo que guardo na boca desde o terramoto, numa premonição de desgraça vil que de mim não se afasta em momento algum, a tornar pesados e sem remédio os lentos dias arrastados das matinas às completas, de sol a sol rastejando a demorar-se pelos hortos, pelos vinhedos, pelos cemitérios, de rojo pelas sombrias matas onde vigiam as víboras. Pressentimentos de enredos maléficos que ultimamente não cessam um único segundo, apesar de eu tentar com empenhamento aliviar-me com missas e orações, rezas e terços, leitura de livros místicos, cabeceando de sono madrugada adentro, na vã tentativa de defender os meus e a mim própria naquilo que posso, e nesse sentido usando promessas e velas acesas às santas mais poderosas, exercícios de S. Ignácio, mandrágoras e incenso, água benta e Rosa Divina, esmolas e castigos do corpo, cilícios atados nas carnes macias da cintura. Pobre tentativa de silenciar as vozes que de noite me falam baixo ao ouvido. Mariana Bernarda!, chamam-me. E eu sobressalto-me, enquanto elas continuam: aproximam-se tempos sem misericórdia, desprovidos de compaixão e temperança: patíbulo e morte, grilhões de degredo, ferros de tortura e prisões fétidas, passarão por ti e encontram-se contidos nos destinos dos teus mais chegados! Sem forças vou cosendo o choro escondido de quem me rodeia, e diante da senhora minha mãe não consigo deixar de mil vezes indagar agoniada: encontra-se Vossa Excelência de boa saúde? E ela, desconfiando da mesma interrogação repetida infinito, olha-me no precipício dos olhos e, dando conta da minha aflição, contrapõe a sua igual resposta em forma de pergunta: qual é o desgosto oculto ou o segredo recolhido que a minha filha tanto guarda? E eu tento rir, a contragosto, evitando a resposta sustentada pela mais deslavada mentira, e para não a atormentar, em disfarce de invenção medíocre, digo-lhe, sonsa: ora, Vossa Excelência tem coisas…, apressando-me a discorrer de seguida sobre mesquinharias da Corte ou da justa apreensão dos jesuítas pelo manifesto ódio do ministro de Estado de El-Rei pela Companhia de Jesus, à conta do qual Sebastião José afastou o padre Malagrida, confessor da minha família. Agravando em muito o desassossego da alma, coração apertado pelos malfadados prenúncios que me assediam, ligando a um sonho de há semanas atrás onde vi o trágico fim dos dias de meu marido, pais e irmãos». In Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, Publicações dom Quixote, 2011, Prémio D. Dinis I, ISBN 978-972-204-733-3.

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Meninas. Maria Teresa Horta. «E ao vê-la finalmente dar por falta de mim, aflita, a boca entreaberta num grito mudo mas descontrolado, corria arrependida, esgueirando-me de onde estava…»

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Efémera

«(…) Na verdade, viria mais tarde a preferir imaginá-la enfrentando o todo-poderoso ministro de dom José I do que a escrever poemas; embora conseguisse melhor idealizá-la a usar a pena criativa do que a espada de lâmina crua de gume afiado. E volvia-me de novo para o Tejo, como se por um passe de mágica fosse encontrar nas suas águas turvas os bergantins reais, as naus, as corvetas, as galeotas, que na época dela aportavam ao Cais das Colunas. Essa nossa avó dos poemas também vinha aqui só para tentar alcançar o horizonte, tornava minha mãe divagando, os olhos azul-pavão repletos da incandescência da tarde irisada pelo sol a espelhar-se nas vidraças das janelas, nas fachadas do largo com os seus passeios perdidos por dentro da obscuridade das arcadas, espécie de corredores largos onde se anteviam vultos de mulheres a caminharem numa pressa recolhida, de quem se sente ameaçado, assustado.

Inseguras.

Imprudente, debruçava-me mais, na esperança de ver despontar ao longe as flâmulas das fragatas, as corvetas, as barcaças na sua madeira batida, trabalhada e gasta pela ondulação e pelo sal do mar, que perto da Torre de Belém se vem misturar com a doce água fluvial, mas apenas encontrando, desconsolada, o rasto dos cacilheiros na sua travessia laboriosa e lenta. Imitações pobres daqueles outros barcos, que me entretinha a recriar enquanto não adormecia, tal como a praça fervilhante de comércio, atravessada pelos cães vadios, as anões e os mendigos, as carruagens e as cadeirinhas de cortinas em veludo misteriosamente corridas, a ocultarem fidalgas e padres, quem sabe se em incursões clandestinas. Terreiro do Paço onde embarcavam e desembarcavam as damas da Corte e as fadas, com o pesado cabelo entrançado de pérolas descaindo sobre a nuca humedecida por um suor febril e inquieto.

E desse modo, julgava terem sido a rainha dona Maria e a sua nora, a infanta espanhola Carlota Joaquina, que à socapa da Corte ia à praia de Belém molhar os pés de rapariguinha agreste e desavinda com o destino que a tirara de Espanha, a contragosto chegada a Portugal que até ao fim dos seus dias iria odiar.

Hostil.

Acocorada no banco de pedra escorregadia, esquecia-me das horas, ao contrário da minha mãe, que com frequência subia a manga do vestido leve, a ver o relógio que lhe deslizava no pulso magro. E se eu a agarrava pretendendo retê-la, demorá-la, sacudia-me nervosa, a boca crispada de sede e de calor.

De impaciência.

Anda!, dizia, a puxar-me. E eu acabava por pular para o chão que ali era de terra batida, a segui-la tentando acertar o meu passo miúdo pelo passo alado dela, espaço oscilante delineado pelas suas esguias pernas bronzeadas, longas e nuas.

Vulnerável e débil.

Vem!,  quase gritava, numa súbita urgência, a exigir que a seguisse mesmo se a contragosto, consciente de quanto me custava partir daquele vão de sonho, para mim tão mágico, trespassado pelo grito das gaivotas, povoado pelo equívoco odor ácido a águas escusas, musgo e limo, salpicados de cheiros salgados, amarescentes, numa mistura de verdete e zinco, que eu tentava aflorar com a ponta da língua, arrastando o andar. Até que ela se zangava, enfastiada da minha companhia relutante, a atrasá-la para onde, numa repentina ansiedade, se dirigia praticamente correndo.

Anda!,  tornava a minha mãe em tom cortante e breve, mas já parando diante de cada montra nas quais nos reflectíamos, e eu me perdia na sua imagem alvacenta de loura. E deste modo avançávamos, demorando a nossa chegada ao Rossio, que eu detestava, tentando iludir o choro mal contido, obstinada, a sentir já a falta dos minutos de intimidade passados uma com a outra diante do rio. Lugar a ser substituído pelo parco fascínio iridescente dos repuxos das fontes das mulheres, como então lhes chamava, despidas sob a água que lhes corria pelo corpo e pelas faces de bronze.

Gotas, como se fossem lágrimas.

Mesmo assim eu persistia na demora, teimando em atrasar os pés calçados com as sandálias novas de tiras cruzadas; soltando os dedos do entrançamento dos dela, como se quisesse perder-me lá atrás, por entre as pessoas que iam e vinham apressadas, e ela não dando pela minha ausência seguia, enquanto eu me ocultava por trás fosse do que fosse, a espiá-la, coração aos saltos no peito liso, amarfanhado pelo pavor de que me tivesse esquecido para sempre.

Em desordem.

E ao vê-la finalmente dar por falta de mim, aflita, a boca entreaberta num grito mudo mas descontrolado, corria arrependida, esgueirando-me de onde estava, voando até aos seus braços que encontrava fechados ao meu alvoroço. E se contrita me agarrava ao seu corpo tépido, de imediato me empurrava, áspera e desprendida, como se sufocasse: deixa-me, deixa-me!

Então eu afastava-me ainda arrebatada e, com o intuito de castigá-la, arreliava-a rogando, sonsa, na lamúria de fala: podemos tornar ao rio, podemos, podemos? Mas em silêncio ela empurrava-me à sua frente, a contornarmos por fim os cestos de verga cheios de rosas das floristas, onde os odores, os perfumes das flores se enleavam em treliças de cores e tons, pouco antes de chegarmos à Pastelaria Suíça onde, sem me dirigir a palavra, se sentava na esplanada comigo ao lado a fazer sentir-me invisível, e encomendava ao criado um refresco de chá, que vinha com gelo e hortelã num copo esguio e alto, enquanto, distraída com a sua beleza, eu deixava derreter o sorvete de chocolate e baunilha na pequena taça de metal redonda e embaciada pelo frio. O que estás a fazer? Pareces parva!,  ralhava desatenta, sem se aperceber das figas que eu fazia por baixo da mesa, repetindo para mim mesma: não vem! Ele não vem hoje, não vem!, dando-me conta ao mesmo tempo da estranha expressão ansiosa da minha mãe, que sem cessar buscava em torno, primeiro ensimesmada, mas logo sobressaltada e obsessiva». In Maria Teresa Horta, Meninas, Publicações dom Quixote, 2014, ISBN 978-972-205-611-3.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

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