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domingo, 23 de abril de 2017

Terra Inquieta. Manuel Faria. «Subo a Avenida da Liberdade, devagarinho, cogitando na inconsciência e injustiça dos homens, e nesta verdade, biologicamente insofismável»

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De profundis…
«(…) Agora é o amplo terreiro da Senhora da Abadia que se me apresenta, imerso na densa bruma de um longínquo passado de piqueniques, sob o copado dossel das tílias perfumadas. Pantagruélicas merendas, com meia dúzia de comparsas, de que dois, saudosamente, já se encontram do outro lado da vida... Talvez os seus espíritos andem pairando por entre os ramos contorcidos destas árvores seculares, à espera de se evolarem para sempre, quando a serra mecânica de uma autarquia assassina as venha a abater. Espicaçado pela natural curiosidade, fui ver. O dia estava bonito. Algumas nuvens vogavam no ar, como lenços brancos, a anunciarem tréguas de bom tempo, após a caudalosa pluviosidade de ontem, teimando encher albufeiras vazias. Pisei charcos de água, saltariquei pequenos regatos, mas cheguei, finalmente, à desolação do Parque da Ponte, onde jazem, em desalinho de funeral selvagem, os melhores exemplares de tílias da cidade, toda vestida de crepes naquele órgão vital do seu corpo, já de si degradado pela incúria dos seus filhos espúrios.
Cada árvore derrubada, um monumental escombro; cada tronco, um epitáfio votivo encimado por uma cruz. E são oito esses epitáfios, oito gritos ecológicos no adro de morte da capelinha do Profeta, que anunciou a vinda do Redentor do Mundo d’Aquele que nos trouxe a Ressurreição e a Vida... Os epitáfios rezam: para que serve o dia da Árvore? De pé dou saúde, no chão dou dinheiro. É isto justiça? Que mal fiz eu? Venham ver a Natureza destruída! Vejam a maldade dos homens! Quem foi o autor do crime?
Depois de eu ter autopsiado, com minúcia cirúrgica, as características estradiváricas do seu líber, e a compacidade, firmeza e brandura do seu lenho, que torna a madeira das tílias óptima para o fabrico de instrumentos de música, vencilhos, esteiras, celhas, formas e obras de torno, depeço-me das tílias tombadas, com a alma torturada e os olhos rasos de água.
Fico-me a pensar no meu velho, professor de Botânica, Gonçalo Sampaio, cujo busto de bronze existia ali, ao lado, e no íntimo desgosto que lhe vai na alma. Subo a Avenida da Liberdade, devagarinho, cogitando na inconsciência e injustiça dos homens, e nesta verdade, biologicamente insofismável: O cemitério da árvore é a antecâmara da morte do Homem. Braga, 13 de Fevereiro de 1992.

Naquele meu saudoso tempo de Tolentino, em que ensinava do alto da minha cadeira de pinho bravo aos alunos irreverentes as provas da redondeza da Terra, contei-lhes muitas vezes a memorável viagem de Fernão de Magalhães. Ao serviço do rei de Espanha, partiu o sábio marinheiro de Sanlúcar de Barrameda em direcção ao Ocidente, encontrando, exactamente, as mesmas ilhas das especiarias que os portugueses haviam descoberto rumando em sentido contrário, ou seja, pelo Oriente. Viagem penosa foi essa, sulcando tempestuosos mares, padecendo sede e forne, sofrendo avitaminoses pestilentas comendo ratos e larvas, e até o próprio couro dos mastros... Desânimo, homicídio fratricida, nostalgia da pátria distante, choques de etnias diferentes, emboscadas, candentes distúrbios do sexo e outros tantos males que a oceanalidade arrasta consigo, quantas e quantas vítimas ocasionaram nessa longa e árdua viagem que Fernão de Magalhães levou a cabo até às Índias, embora aí ficasse, trespassado pelas setas envenenadas dos indígenas. Gloriosa peregrinação oceânica, sem regresso!» In Manuel O. Faria, Terra Inquieta, APPACDM, Braga, 1994, ISBN 972-8195-10-9.

Cortesia de APPACDM/JDACT

sábado, 27 de setembro de 2014

Terra Inquieta. Manuel Faria. «Aberto o cesto, lá estava o caldo verde com torinha escarlate, a fumegar, o arroz de bacalhau inglês com azeitonas, as doiradas alheiras com batatas fritas, a caneca e as malgas para encher de vinho novo... E aquela moçoila morena de olhos garços, sobrinha do velho rendeiro, que se debruça na relva…»

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De Profundis...
«(…) Ponho-me a ler, vagarosamente, como quem mergulha num sonho, alquebrado e brando, uma crónica dos meus Obeliscos, redigida em 83 da nossa era, a era promissora do 25 de Abril, que nos veio trazer um arzinho fresco da Europa. A referida crónica conduz-me ao Parque da Ponte, ex-libris da cidade, ao meu parque de menino e moço, povoado de tílias e grisetas, em festivas noites de S. João, com doces brancos de romaria engalanando as tendas do arraial, a aguçar o apetite momentâneo dos forasteiros; o vinho verde do verde Minho a jorrar dos pipos e a pentear o vidrado argênteo das malgas; as rusgas serpenteando à roda da capelinha votiva; a música metálica, num chocalhar de acordes, a emergir do coreto sinfónico..., tudo sob as copas verde-negras das tílias acolhedoras. Lentamente, deixo-me embalar por estas melodias saudosas, que me trazem dos longes da distância, num sopro de sobrevivência, a bíblia inteira, a desdobrar-se em cânticos de amor e eternidade... As águas do Rio Este, transmudado em Rio Jordão, a borbulharem nos pés descalços de Jesus e do Santo Precursor. O primeiro baptismo da história sob os braços pendentes dos chorões. As danças voluptuosas na faustosa corte palaciana de Herodes, com Salomé glorificada; a cabeça do profeta, a servir de prémio à gloriosa rainha do festim, em bandeja de oiro... E tudo isto, em aguarela de sonho, sob a suavíssima rescendência das tílias do Parque da Ponte! Despenha-se no meu ângulo visual a primeira página da gazeta bracarense. Leio, de relance, esta notícia desoladora: Abate de Tílias no Parque da Ponte.
Arboricídio execrável de almas centenárias, de cernes portentosos a desafiar a imortalidade, no limiar deste segundo milénio da era de Cristo! Oito caducifólias gigantescas, de longos e rijos braços, que seguraram ninhos de amor e corações de folhas, fotolisando vidas e espalhando nos espaços bracarenses maviosíssimos perfumes! Conluio nefando de autarcas e madeireiros, neste crime ecológico de lesa Natureza! Parafraseando Augusto Gil, inefável Autor da Balada da Neve, interiorizo, lugubremente, este versículo lírico: caem tílias no Parque da Ponte e caem tílias em meu coração!
O arboricídio camarário do Parque da Ponte, encaminhando a minha veneração botânica para o caso específico das tílias, faz-me rememorar certas vivendas palacianas, cujo portão de acesso, sob telheiro musgoso, é decorado, de cada lado, por tílias gigantescas. É o caso da Quinta de S. José, na Grandra de Cima, junto às terras que o velho Bernardo, nosso caseiro, trabalhava. Quando no tempo de meu pai para aí nos dirigíamos, a fim de assistirmos às tiradas do vinho, muitas vezes nos deliciávamos com o odor acre dos mostos, misturado com a fragância rescendente das tílias do vizinho. Com que fundas saudades eu recordo aquele varandim de telheiro, ao cimo, de toscos degraus de pedra, onde ao meio dia tomávamos as nossas refeições, que a Júlia, a velha empregada da casa nos trazia, no clássico cesto de vime, que esbaforida da jornada, assentava no último degrau da escada rústica!
Aberto o cesto, lá estava o caldo verde com torinha escarlate, a fumegar, o arroz de bacalhau inglês com azeitonas, as doiradas alheiras com batatas fritas, a caneca e as malgas para encher de vinho novo... Sentados a uma mesa elevatória, e bem aconchegadinhos à mesma braseira humana, risonhos de alegria esfuziante e de apetite, devorávamos, sob o olhar feliz do meu pai, as mais saborosas refeições que me foi dado comer em toda a minha vida! E aquela moçoila morena de olhos garços, sobrinha do velho rendeiro, que se debruça na relva, sob as ramadas, para colher os bagos caídos e, de braço em asa de ânfora, os transportava, religiosamente, para os balseiros, qual sacerdotisa de Dionísio, envolta em bacanal ostensório de cachos e parras?!... E a senhora Inácia, encarquilhada velhinha, a secar o linho na eira de pedra, para depois o fiar como a Parca, a Cloto da fábula, na incerta roca da vida! A que siderais espaços pagãos me conduzem a Tília argentea e a Tília europeia, tão maltratadinhas pelas autarquias da sacrossanta urbe dos arcebispos!» In Manuel O. Faria, Terra Inquieta, APPACDM, Braga, 1994, ISBN 972-8195-10-9.

Cortesia de APPACDM/JDACT

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Terra Inquieta. Manuel Faria. «A pequenina ilha do Corvo, última do arquipélago açoriano, a sonhar, no seu isolamento atlântico, com a dádiva hagiológica de algum barco que lhe mostrasse o caminho migratório da libertação e em cujo largo principal, o seu ‘jornal falado’»

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«(…) Nas suas relações da geologia com a Antropologia Cultural, podemos dizer que estes mitos foram, afinal, gerecidos pela abrasão marinha, em terras do litoral minhoto. É-me já habitual visitar este local encantador, onde o eucaliptal e a resina impregnam a brisa de balsâmicos odores, e o cosmorama das águas atlânticas beijando as areias e rondando a planície, de ubérrimas pradarias e auspiciosos casais, que já foi fundo de mar, contemplando, ao longe, a arriba fóssil em geológica nostalgia. É este o vasto e surpreendente horizonte que se nos depara desde Marinhas até Vila do Conde, visto do alto da capelinha, a qual nos faz lembrar um trecho dos Simples, de Guerra Junqueiro: uma alva ermidinha sob o azul magoado, como ninho branco de ideal poisado, na cumeeira ocidental da montanha. Quando a visitei a última vez, andava em execução o traçado da estrada de acesso, em socalcos de paralelos, desde o largo dos coretos até ao piso final do miradouro, e as escadas, em granito de grão fino, que conduzem à capelinha do Santo.
Recordo que me impressionou sobremaneira o disparate de fazer seguir aquela via pela zona da habitação castreja, cortando a direito as casas circulares e arruamentos daquele trecho do castro de S. Lourenço, deixando de onde em onde alguns pedaços daqueles habitáculos multimilenários. Sempre que para aí me dirijo, como no dia de hoje (6 de Julho de 1993), procuro seguir o curso das escavações, na encosta Norte, agora de melhor sucesso, por caminho empedrado e vedação.

Tempo Livre, é uma simpática revista de viagens, informação geral, cultura e recreio que, semanalmente, cai no ângulo visual da minha liberdade a tempo inteiro. Leio-a sempre com fogoso interesse de velho viajeiro, hoje de asas quebradas, no meu presídio de octogenário, já incapaz de planar e sorver em fundos haustos o vasto horizonte da vida. O número de hoje traz-me, nas Marinhas de Sal da Fonte da Bica de Rio Maior, a lembrança enternecedora de uma pedagogia remota, a do sal-gema e dos vales tifónicos, em que eu pontificava, qual Coménius, do alto da cátedra, ou então, feito travesti de Maria Montessori, discorrendo sobre as salinas aveirenses, a reunir nos seus talhos e regueiras, como marnoto de modernidade didáctica, todo o programa científico do primeiro ciclo liceal. A pequenina ilha do Corvo, última do arquipélago açoriano, a sonhar, no seu isolamento atlântico, com a dádiva hagiológica de algum barco que lhe mostrasse o caminho migratório da libertação e em cujo largo principal, o seu jornal falado, em que às tardes se reuniam os velhos corvinos, faz-me recordar a insularidade profissional de que consegui escapar, graças aos bons ofícios do Fulano Tal, então Ministro da …, que me abriu as portas acolhedoras do Liceu de D. João III. Desta revista, O Tempo e as Palavras, de Crespo Fabião, tem sido para mim a secção mais aliciante e erudita, pois toca de perto esse mundo misterioso das línguas, onde a minha ansiedade de impenitente sonhador gostaria de penetrar, como último reduto de uma vivência cerebral, em busca da derradeira luz, nos caminhos sinuosos da verdade. Sondar, na fonte primeva do Génesis o verbo que fez deflagrar o Big Bang do nosso universo das Línguas, tem sido, neste meu débil e exausto caminhar para o Desconhecido, a minha premente e fatal ambição de peregrino da vida. Que língua(s) falava Jesus, é o texto que hoje traz a revista. Ora consultando os dados evangélicos contidos no Velho Testamento bíblico, nas suas versões Septuaginta e Vulgata, sete foram as palavras que Jesus proferiu do alto da Cruz. Estas sacrossantas palavras que Haydn transpôs para a música e S. Jerónimo verteu para latim foram:
  • Eloí, EIoí, lamma sabacthani, quod est, Deus, Deus quare me dereliquisti?
na tradução portuguesa:
  • Isto é, Deus, Deus, porque me abandonaste?
Estas misteriosas palavras foram ditas em língua aramaica ou arameu, a língua que Jesus falava, aquela em que Ele contava as suas parábolas, dialogava com os discípulos e discorda nos seus divinos sermões, como o da montanha». In Manuel O. Faria, Terra Inquieta, APPACDM, Braga, 1994, ISBN 972-8195-10-9.

Cortesia de APPACDM/JDACT

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Terra Inquieta. Manuel Faria. «… um casalinho de mestrandos, em preparação de tese profunda e suculenta de modernas interpretações e comentários acerca do pensador alemão, escarafunchando-lhe com a verruma da Razão Pura os arcanos insondáveis das suas antinomias de dialéctica…»

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«(…) Neste dia tal de Agosto, de calor ardente, apenas uma leve brisa agita as abas do chapéu-de-sol, sob o qual a Lenita dorme em sua cadeira de lona, tendo ao regaço, definitivamente fechado, um livro de aventuras dos Cinco. Sua irmã, não gémea no sono, devora o seu aventuroso livrinho, também ao ar livre, no ângulo sombrio da sala do fogão e do convívio. A meu lado, a nossa Loti, liberta da ideia glacial do Ártico, compõe memórias turísticas acerca da Irlanda, ,cujos maciços de verdura e castelos medievos debruçados sobre planuras de água, lembram dramas de Shakespeare. E, sobre o meu canhenho de notas, discorre a esferográfica, meditativa e filosófica. Recorda a data de ontem, à distância de quase meio século, em que veio à luz dúbia do candelabro de uma maternidade distante, a mãe das gémeas, circunvagando os olhitos negros pelo gesso lavrado do tecto, enquanto eu, tendo esgotado já, pelos corredores de espera, os maços de tabaco francês do quiosque da esquina, contemplava, triunfante de orgulho e alegria, o escrínio fetal dos meus genes. A manhã de hoje decorreu serena e calma, no alto da duna, mirando o formiguedo humano, que o Domingo despeja na praia, a palmilhar a areia húmida cheia de lampejos, da maré baixa, e a cabriolar de mil e uma maneiras, nas cristas argênteas das ondas. Descubro, nesta mole de corpos desnudos, o casal holandês e sua prole, junto ao guarda-sol aberto, largo, imóvel e inútil. Alguém viu entre a bagagem um livro de Kant, pelo que suspeitei tratar-se de um par de turistas estranho, preocupado com problemas filosóficos, possivelmente um casalinho de mestrandos, em preparação de tese profunda e suculenta de modernas interpretações e comentários acerca do pensador alemão, escarafunchando-lhe com a verruma da Razão Pura os arcanos insondáveis das suas antinomias de dialéctica transcendental. Afinal, veio a verificar-se, pelo contacto dialogal com estas inocentes criaturas, que ela é uma modesta enfermeira, ele um simples funcionário bancário e que o tal suposto ,livro de conteúdo metafísico, é uma trivial novela holandesa que eles desmontaram da sua biblioteca particular para colmatarem, na época balnear, as descontraídas horas de lazer. Abertas, de par em par, as portas da sua privacidade intelectual, chegou-se à conclusão comesinha de que a verdadeira filosofia deste casal holandês é a filosofia da vida, ou seja, a filosofia pragmática dos parâmetros tecnológicos da produção e do consumo, em que se movimenta a CEE…» In Manuel O. Faria, Terra Inquieta, APPACDM, Braga, 1994, ISBN 972-8195-10-9.

Cortesia de APPACDM/JDACT

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Terra Inquieta. Manuel Faria. «Mas o cifrão não conta para quem sente nos hemisférios cerebrais o delírio planetário. Após uma subconsciencialização profunda, em que os prós e os contras se digladiavam na obscuridade subterrânea do “eu”»

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«(…) Andava no ar uma ideia surda, geográfica, de voos transoceânicos e roteiros de gelo nas planuras do Ártico, com o Sol da meia-noite a piscar o olho cósmico, lá para as bandas do Cabo Norte... Ao mesmo tempo, umas cautelas infantis, ingénuas, de consciência insegura em ordem a tão aerodinâmica viagem e uns segredinhos dúbios, cochichados na sombra, não fosse o pavilhão auditivo paterno captar o disparate turístico. Os dias foram rodando..., as semanas sucediam-se, saboreando o volátil passeio, na perspectiva de realizar um sonho! Os oito voos, os itinerários ao longo dos meridianos e paralelos, de harmonia com o plano das agências que superentendem nesses paranóicos devaneios, bem como nas achegas necessárias de alimentação e dormida nessas paragens frigoríficas, se foram programando aos poucos, por via telefónica, quer entre os participantes motivados, quer entre estes e as respectivas agências turísticas. Trezentos contos altos, incluindo passaportes do Porto a Lisboa e vice-versa, custa o passeio. Mas o cifrão não conta para quem sente nos hemisférios cerebrais o delírio planetário. Após uma subconsciencialização profunda, em que os prós e os contras se degladiavam na obscuridade subterrânea do eu, Helsínquia, Finlândia, Lapónia, Fiordes Escandinavos, Cabo Norte, Sol da meia-noite, ruíram, em pedaços, tal como sucede aos castelos de oiro feitos no ar pelas loucas mãos da fantasia! Fico contente com esta derrocada...» In Manuel O. Faria, Terra Inquieta, APPACDM, Braga, 1994, ISBN 972-8195-10-9.

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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Terra Inquieta. Manuel Faria. «Na última página da Gazeta, atrasada de três dias, enlevo-me com esta notícia promissora de longeva vivência humana: ‘Em Jerusalém, israelita de 120 anos deixou quinhentos descendentes, entre eles um filho menor de 17 anos’»

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«(…) Como a habitual sopa de legumes, vitaminada e suculenta; ingiro, por fim, a salada de frutas, aromatizada e fresca. Puxo para o sovaco a cadeira de praia e arrasto-me com ela até à sombra do pinheirinho manso e aqui me sento, de gazeta aberta e olhos sequiosos de notícias, nesta tarde de Agosto escaldante. As copas imóveis dos pinhos bravos envolventes ostentam os seus candelabros lenhosos ,que o calor faz estalar e libertar os peniscos, num brando rodopiar de sementeira alada.
Sob a carícia de outras sombras, dispersas pela relva, outras leituras se mostram, neste espaço cultural da Casa da Cerca, agora toda ela vestida de noiva, gritante de pérolas, esmeraldas e coral: a dos Escombros paternos e a do Memorial do Convento, de José Saramago. Na minha repousante leitura, descubro a seguinte notícia desoladora: Em S. Vítor, queda de granizo causa estragos. Na rua de D. Pedro V, a queda de muro provocou inundação, de lama em algumas moradias. Entretanto, automóveis estacionados um pouco por toda a cidade, foram também atingidos pelo granizo, que esfarrapou a flora e quebrou alguns vidros.
Poiso o jornal nos joelhos, e medito deste jeito: Em Braga, o ribombar dos trovões faz cair granizo sobre os veículos e as árvores, danificando-os. No pinhal de Ofir é o calor que estala as pinhas e dispersa peniscos por todo lado! Como é preferível viver aqui, sob o volitar das sementes aladas, do que em Braga, encandecidos pelos relâmpagos e varridos por fortes granizadas! Em boa verdade este cantinho do pinhal é, na sua quietude viridente de austrálias e relva, um edénico oásis, sem cotejo com as malévolas meteorologias da cidade dos Primazes!
Na última página da Gazeta, atrasada de três dias, enlevo-me com esta notícia promissora de longeva vivência humana: Em Jerusalém, israelita de 120 anos deixou quinhentos descendentes, entre eles um filho menor de 17 anos. Nasceu no Egipto e aos 80 anos emigrou para a cidade de Tiberíades, junto ao Mar da Galileia. Segundo informa um dos seus filhos, o segredo da longevidade de seu pai é este: não fumava, não bebia, não tomava medicamentos, apenas muito azeite.
Em meu entender de biótopo aposentado, o segredo de tão longa macro vivência está no suco da oleaginosa que ele tomava, o qual lhe alimentou a lamparina da vida. Transcrevo da Monografia de Esposende, de Manuel Ayres Machado, 1951, o seguinte trecho de Vila Chã: A freguesia tem apenas uma capela, no cimo do monte de S. Lourenço, sob a invocação deste santo, e onde, no dia 10 de Agosto de cada ano, se realiza a concorrida romaria. A capelinha sobressai, na sua alvura no alto daquele monte, que se levanta a poente. Neste monte existe um pequeno penedo com uma cavidade, onde se deposita água que o povo diz ser do influxo das marés. O povo atribui a esta água, entre outras, a qualidade de sarar as feridas crónicas, como a inflamação dos olhos e a de curar as cólicas a quem a beba. Tal depósito é conhecido pelo nome de Fonte da Virtude.
O autor da monografia refere-se a vestígios de um castro romano, antas e antelas, moinhos de mão, moedas romanas de oiro e cobre, aí encontradas, bem como fragmentos de ânforas, telha de rebordo, tijolos, etc. Fala-nos também de uma gruta, a meio do monte, sob um penedo, onde, segundo a crença popular, vive a feiticeira que torna assustada para sempre a pessoa que tenha a desdita de lhe pôr os olhos em cima. Além desta lenda do Penedo da Feiticeira, outras a crendice popular tem forjado expectativas e traços lendários». In Manuel O. Faria, Terra Inquieta, APPACDM, Braga, 1994, ISBN 972-8195-10-9.

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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Terra Inquieta. Manuel Faria. «Graças ó Terra que me acolheste no teu manto e me deixaste neste canto desenrolar-me no fio da minha condição numa concordância secreta com o destino do universo de mim só…»

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«Trago hoje pata Ofir um livrinho maravilhoso, de poesia modernista. Leio-o, embevecido, ao cantinho da lareira, longe do bulício tresloucado da cidade dos homens, com a calma interior de um monge beneditino, no limiar escatológico da cidade de Deus. Embrenho-me nesta floresta de lirismo puro, quase paradisíaco, anterior aos cânones da poesia clássica e das formas estereotipadas, obsoletas, da racionalização rígida, rectilínea, das estruturas lexicais. Pressente-se, a cada passo, no fluir divagante da corrente lírica, o arfar de uma alma cristalina, conduzida, sem peias nem escolhos, pelos meandros da Emoção, tal como o primitivismo borbulhar da arte poética. É como se a modernidade da arte fosse o livre regresso dos anseios abissais da alma, sem pontuação, sem métrica, sem rima, ou melhor, com as pausas, os ritmos e os ecos da alma, aos espaços edénicos das origens. Pequenos retalhos do ser, mesclados de miragens de Heraclito e Ésquilo, de Henri Heine e Mao-Tsé-Tung, a gotejarem da clepsidra da história, no microcosmo telúrico da Humanidade. Este livrinho, de pureza helénica, não poluído pela lógica sintáctica, ressumando frescura e beleza em cada suspiro de alma, em cada estrofe livremente concebida, faz-me esquecer, por instantes, as assimetrias escabrosas e insalubres desvios da normal reflexão e sensatez dos homens. Deste florilégio sui géneris, de raro encanto, Pó de Argila Pé de Rosa, da autoria de Maria Adelina Vieira, ao qual já me referi em Crepusculares, apraz-me transcrever esta amostragem, de fervoroso sabor panteísta:

Graças ó Terra que me acolheste no teu manto
e me deixaste neste canto
desenrolar-me no fio da minha condição
numa concordância secreta com o destino
do universo de mim só
numa lenta e insensível adesão
a um espírito
a que o corpo anuirá com a idade
e por ti encontrará a forma superior
de liberdade!

In Manuel O. Faria, Terra Inquieta, APPACDM, Braga, 1994, ISBN 972-8195-10-9.

Cortesia de APPACDM/JDACT