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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Na Água do Tempo. Luísa Dacosta. «Chove. Chove. Chove. Acabou-se para sempre a esperança do sol. Tudo tem um ar de desesperançado, de braços caídos ao longo do corpo. Apesar disso saí quando a chuva parou. Não havia árvores, nem caminhos…»

Pastel de MariaMendes
jdact

1948
Agosto, Campeã
«Ele e eu fomos dar um passeio de mãos dadas. Por toda a parte havia cancelas, sem ar de cão de guarda. Caídas. Abertas. Gaiatas. No monte apanhou-nos uma chuva de verão e tivemos de nos acolher debaixo das abas, pretas, de um telhado. No regresso, havia um cheiro gostoso a terra molhada e o vale tinha um ar renovado: todas as árvores se sacudiam ao vento, como cachorros depois de um banho.

Agosto
Detesto visitas. Apetecia-me terrivelmente ser um coelho, com uma tocazinha sem porta, por onde se entrasse por meio de uma palavra mágica! Toda eu canto com o poeta: Et là je bâtirai une Petite cabane faite de glaise et d'osier; Neuf rangs de fèvres j'aurai, une ruche de miel. Et je vivrai seul dans la clarière où bourdonnent les abeilles. Há só uma rectificação a fazer: detesto favas (eu aprecio…). Mas estou decidida a plantar outra coisa. Plantarei ervilhas.

Agosto
Apaixono-me lenta e profundamente por V. Woolf. Acabei de ler Dame au Miroir e uma beleza inapreensível dança em mim, com uma oscilação fantasiosa de luar movido pelo vento. Sinto-me exausta, pisada por milhares de coisas secretas que imprimem passos de fogo no meu coração. Agitada por um frémito de sombras que se afadigassem, de ramo em ramo, tornando-se impalpáveis, como pétalas há muito fechadas num cofre, que uma indiscrição abriu.

Setembro
Apesar da chuvazinha, incessante, cor de ouro velho, o que dói é o vaivém da serra, a sensação de um implacável destino. Tudo tem estado dourado. Mas hoje o céu está pesado de angústia e chove. Não posso sair do quarto, desta horrível casa, pintada de um verde sujo, de paredes rachadas, cheias de pregos que sustentavam toda uma corte celestial e agora que ela foi alugada me olham, estupidamente, cegos, absurdos e sem sentido. Em relação às outras casas da aldeia, todas de chapéu de abas largas de lousa preta, é de fazer chorar. Medonha, rígida, de granito lavado. O telhado sem beiral dá-lhe um ar aparvalhado de criança a quem, por maldade, tivessem cortado a franja.

Setembro
Chove. Chove. Chove. Acabou-se para sempre a esperança do sol. Tudo tem um ar de desesperançado, de braços caídos ao longo do corpo. Apesar disso saí quando a chuva parou. Não havia árvores, nem caminhos. Só uma névoa cinzenta, perfurada pelas buzinas dos pastores.

Setembro
As cartas que recebo dela são as minhas, enfeitadas de caracóis, metidas em molduras com querubins e borboletas, pintadas de rutilante amarelo, a fingir ouro.

Outubro
Acordei a tempo de ver o espreguiçar estremunhado da terra. A relva, entre os castanheiros, tinha incríveis reflexos vermelhos e os montes estavam tintos de violeta. O chiar dos carros de bois soava longe como um choro rabugento de crianças, a quem tivessem tirado da cama demasiado cedo». In Luísa Dacosta, Na Água do Tempo, Quimera Editores, Lisboa, 1992, ISBN 972-589-030-2.

Cortesia de QuimeraE./JDACT

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A Bela Poesia. Natália Correia. A Arte. «Se tu viesses cavaleiro branco orvalhado pela manhã do meu instinto. E ficasses a chamar-me como um canto no porvir do nosso último recinto! Se ficássemos espuma de Maio cor-de-rosa das praias donde Maio se retira, enrolados nos panos duma paisagem silenciosa que fosse a pura sonoridade da ausência duma lira!»

jdact

Elegia dos Amantes
Lúcidos Na girândola das árvores (e não há quem as detenha)
deixa de fora a tarde o vermelho que a tinge.
Se ao menos tu ficasses na pausa que desenha
o contorno lunar da noite que te finge!

Se ao menos eu gelasse uma corda do vento
para encontrar a forma exacta dum violino
que fosse a sensibilidade deste pensamento
com que a minha sombra vai pensando o meu destino.

E não houvesse o sono dum telhado
entre ter de haver eu e haver o tecto;
e a eternidade não estivesse ao lado
a colocar-nos nas costas as asas dum insecto.

Meu amor, meu amor, teu gesto nasce
para partir de ti e ser ao longe
a cor duma cidade que nos pasce
como a ausência de deus pastando um monge.

Ah, se uma súbita mão na hora a pique
tangendo harpas geladas por segredos
desprendesse uma aragem de repiques
destes sinos parados pelo medo!

Mas só porque vieste fez-se tarde,
ou é a vida que nasce já tardia
como uma estrela que se acende e arde
porque não cabe na rapidez do dia?

Nem homem nem mulher. Só a moeda antiga:
uma inflação de deuses que não pode parar
como um pássaro cego à nora da intriga
que é a morte no centro connosco a circular.

Será o mesmo tempo que nos cabe?
Talvez sejas a raça prematura
duma gota de orvalho que se há-de
negar à minha sede desértica e futura.

Como o brilho dum sol partido ao meio
damos luz pela nostalgia da metade.
Partes para ser gaivota no meu seio.
Mas não trazes no bico uma cidade.

Aqui pousou um pássaro de lume
que deixou um voo subterrâneo
na repetida vibração do gume
que cada hora traz à lâmina do crânio.

Teus dedos num relógio como a picada duma abelha
a fabricar o mel da estação perdida!
Que quanto a primavera um rouxinol na telha
é toda a melodia que traz na unha a vida.

O navio tem dois extremos ermos:
os cabelos para Vénus e os pés para Marte.
Mas a viagem é o mar com a terra a ver-nos.
E com lenços à vista ninguém parte.

Ah, se ao menos eu pudesse agora erguer-me
como uma pedra pelas minhas mãos futuras
e ficasse para sempre a aquecer-me
ao sol que cega efémeras criaturas!

Se soltasses as aves da rotina
e de um jorro de deuses abrisses a comporta
e reclinada em tua espádua genuína
eu entrasse num céu sem ter que achar a porta!

Se tu viesses cavaleiro branco
orvalhado pela manhã do meu instinto.
E ficasses a chamar-me como um canto
no porvir do nosso último recinto!

Se ficássemos espuma de Maio cor-de-rosa
das praias donde Maio se retira,
enrolados nos panos duma paisagem silenciosa
que fosse a pura sonoridade da ausência duma lira!

Ah, as sementes que te exigem em declive
entre abismos onde nunca te despenhas
e esfumados voos em que te embebes e revives
o que de ti já pousou no cume das montanhas!

Inútil decifrarmos este oráculo de ave absorta
na incontinência do voo que a abrasa.
Se houver um palácio sem porta, talvez seja a porta.
Se houver uma casa sem tecto, talvez seja a casa.
Poema de Natália Correia, in ‘Passaporte’

JDACT

sexta-feira, 29 de março de 2013

Música. A Voz. «Fiz mal? Mas a quem? Que venham contar-me as mágoas geradas por meu vil desdém e as feridas mostrar-me na carne rasgadas. Fiz mal? Mas a quem? Fui pedra lançada no vosso caminho? Barrei-vos a estrada com traves de pinho?»

Cortesia de wikipedia

«Depois do Inverno, morte figurada,
a Primavera,
uma assunção de flores.
A vida Renascida
e celebrada
num festival de pétalas e cores». 

 Poema de Miguel Torga, in "Glória", 1985






JDACT

sábado, 26 de janeiro de 2013

Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. Breve nota sobre ‘as Cartas’. «Parece ter sido moda no século XVII deixar no anonimato, ou por preconceito ou pudor, esconder a personalidade dos verdadeiros autores de obras literárias em que, sem máscara, se apresentam as grandes paixões amorosas»


jdact e ilustração de joseruy

Problema que ultrapassa, de longe, a questão comum da identidade de autor, para levantar o problema mais vasto de a considerar como expressão literária de um ou de outro povo. Isto para não falarmos de um outro problema, deste dependente e igualmente apaixonante, que será o de saber se as célebres Cartas são o produto duma rebuscada elaboração artística ou o resultado de um golpe de génio, o que automaticamente se traduz na questão mais geral da superioridade da arte ou da superioridade do génio espontâneo. São, como se vê, outros tantos problemas que fazem do caso presente um tema apaixonante de controvérsia e de investigação. Sem outra pretensão que não seja a de ajudar o leitor, em apontamento sucinto, os dados do problema e os argumentos que militam a favor de cada uma das hipóteses de solução.
Embora não se saiba ainda hoje, se as Cartas foram escritas em português ou em francês, foi em francês que elas chegaram até nós numa edição datada de 1669, em que eram apresentadas pelo editor ao leitor nestes termos:
  • Consegui, à custa de muitos trabalhos e dificuldades, recuperar uma cópia correcta da tradução de cinco cartas portuguesas que foram escritas a um nobre gentil-homem que servia em Portugal. Todos os que conhecem os sentimentos do coração humano são unânimes ou em louvá-las, ou em procurá-las com tanto empenho que julguei prestar-lhes um bom serviço imprimindo-as. Desconheço em absoluto o nome daquele a quem foram escritas, bem como daquele que as traduziu; mas pareceu-me que não cairia no seu desagrado publicando-as. É difícil que não acabassem por aparecer com erros de impressão que as teriam desfigurado.
Como se vê, de acordo com esta nota, as Cartas teriam tido origem em Portugal, e em português teriam sido escritas por uma mulher apaixonada a um fidalgo francês daqueles que por estes reinos peregrinaram aquando das lutas pela consolidação da recém-restaurada independência de Portugal. Pudicamente se esconde o nome do destinatário, bem como o do tradutor. Não se esconde, porém, o nome de quem as escreveu: embora não mencionado como autor, o nome de Mariana figura no texto escrito na primeira pessoa e do texto resulta também tratar-se de uma freira residente num convento de Beja.
É claro, e alguns críticos franceses não deixam de insistir neste aspecto, que pode tratar-se apenas de artifício literário. Parece ter sido moda no século XVII deixar no anonimato, ou, de qualquer modo, por preconceito ou pudor, esconder a personalidade dos verdadeiros autores de obras literárias em que, sem máscara, se apresentam as grandes paixões amorosas. Sem afastar a priori essa hipótese, verificamos, no entanto, que pouco a pouco, as coisas se foram esclarecendo e a situação de anonimato do destinatário e do tradutor foi destruída noutras edições: logo a edição alemã, aparecida em Colónia no mesmo ano, e, depois, a edição de F. Roger, aparecida em Amesterdão trinta anos mais tarde, davam indicações mais precisas. O título deixou de ser Cartas Portugaesas Traduzidas em Francês para passar a Cartas de Amor de Uma Religiosa Portuguesa Escritas ao Cavaleiro de C… E identificam: O nome daquele a quem estas Cartas foram escritas é o Cavaleiro de Chamilly; e o nome daquele que as traduziu é Cuilleraque». In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

Cortesia de P. E-A/José Ruy/ JDACT

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. Breve nota sobre ‘as Cartas’.«… para as “Cartas Portuguesas”, o problema da mente como da autoria de Soror Mariana Alcoforado, poderíamos perguntar se foram escritas por ela, poderíamos perguntar quem se encontra por detrás do nome desta freira. Nada de nova até aqui…»




Ilustrações de José Ruy
jdact

«Não são raros, no panorama da literatura universal, os casos de obras-primas em relação às quais se põe o problema da autenticidade do autor. Para não ir mais longe, lembremos o caso da Bíblia. O livro quiçá mais lido e conhecido do mundo, verdadeira obra-prima da literatura de sempre, continua, em muitos dos livros que a constituem, sem paternidade definida. A Odisseia e a Ilíada, os dois monumentais poemas em que se vazou o génio grego, são atribuídos a Homero, mas a crítica é unânime em não identificar Homero com um indivíduo determinado e em não reconhecer ao homem que teria sido Homero a glória de ter composta as gestas épicas que com o seu nome têm corrido as idades. Mais perto de nós, a individualidade de Gil Vicente, o criador do teatro português, continua muito problemática, e, se neste caso não se põe a hipótese duma sombra de anonimato a cobrir o autor dos famosos Autos, continuamos indecisos quanto à sua identificação com este ou aquele personagem. Problema semelhante se põe relativamente a Shakespeare, em cujo nome alguns críticos pretendem que se acoberta um outro misterioso personagem, havendo até quem queira identificá-lo com a rainha Isabel de Inglaterra.

Não seria pois para admirar que também para, as Cartas Portuguesas o problema da mente como da autoria de Soror Mariana Alcoforado, poderíamos perguntar se foram  escritas por ela, poderíamos perguntar quem se encontra por detrás do nome desta freira. Nada de nova até aqui. O pouco que deixamos dito é mais que suficiente para nos deixar perceber que problemas semelhantes se topam a cada passo no panorama das letras.
Há, no entanto, algo que distingue o caso presente de todos os outros até aqui apontados. De facto, nestes, se o problema se põe para a determinação da pessoa que escreveu; é pacífíco entre os críticos o campo literário em que cada uma daquelas obras teve origem. Discuta-se quanto se quiser sobre quem foi o autor do Cântico dos Cânticos; ninguém duvida de que esse, como todos os outros livros da Bíblia, pertence à literatura judaica. Aventem-se todas as hipóteses sobre a identidade de Homero; é facto assente que os poemas chegados até nós com o seu nome são um produto do génio grego. Fosse ou não fosse o Gil Vicente dos Autos o mesmo Mestre Gil que assinou a feitura da custódia de Belém, ninguém discute que a sua obra pertence ao património da literatura portuguesa.
No caso das Cartas, para além da incerteza e das dúvidas que pairam quanto à pessoa do autor, a querela transporta-se mais longe, e são nada menos do que duas literaturas, a
francesa e a portuguesa, a disputar entre si a paternidade das Cartas, e ainda hoje não se sabe se o original desta obra viu a luz do dia vazado em francês ou em português. Problema que ultrapassa, de longe, a questão comum da identidade de autor, para levantar o problema mais vasto de a considerar como expressão literária de um ou de outro povo». In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

Cortesia de P. E-A/José Ruy/JDACT

domingo, 7 de outubro de 2012

Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. Breve nota sobre ‘as Cartas’.«Num tema de larga predominância em todos os géneros de expressão literária, as famosas “Cartas” encontraram acentos ímpares em que a veemência e a intensidade da paixão sobrelevam…»



Ilustração de José Ruy
jdact

‘… só conheci bem o excesso do meu amor quando quis fazer todos os esforços para me curar dele’

«As ‘Cartas Portuguesas’ não são apenas uma obra-prima. São também, e não será exagero afirmá-lo, um casso único na literatura universal. Não queremos referir-nos ao seu valor intrínseco, embora este seio também de sublinhar. Num tema de larga predominância em todos os géneros de expressão literária, as famosas “Cartas” encontraram acentos ímpares em que a veemência e a intensidade da paixão sobrelevam, pensamos, quanto em todas as latitudes já foi escrito.
Mas a esta característica de intensidade haverá que juntar algo de maís importante:
a ‘navidade’ do amor que ali se exprime. De facto, não é apenas um amor maior aquilo que ressalta das páginas ardentes em que a pobre freira abandonada vaza os segredos do seu coração. E um amor diferente, uma forma diferente de amar, em que muitos julgam entrever a caracterização da alma do povo que lhe deu origem. Se (…) pôde ver ali uma paixão como nunca houve mais nobre, mais grave nem mais ardente, nós lembramos a expressão de Júlio Dantas pela boca de um dos seus personagens: ‘Como é diferente o amor em Portugal!’
Trata-se, com efeito, de um Amor com ‘marcas’ novas, o amor da dedicação total, o amor em que a totalidade do ser se encontra empenhada, o amor extremo em que o pensamento do ‘outro’ é o valor a que se reportam e se subordinam todas as opções, o amor em que o eu praticamente se aniquila, encontrando a sua subsistência apenas no dar-se, no estar para… ‘Amo-te perdidamente’, escreve a certa altura a autora das “Cartas”, e respeito-te o bastante para não ousar talvez desejar que sejas atingido pelos mesmos arrebatamentos [...] Se eu já, não posso remediar os meus males, como poderia suportar a dor que me dariam os teus e que me seriam mil vezes maís dolorosos?’ E mais adiante: ‘Sou tão ciumenta da minha paixão, que até me parece que todas as minhas acções e que todos os meus deveres a ti se referem’.
Mas para quê acumular citações? Todas e cada uma das páginas das “Cartas” poderiam constituir uma única e longa citação onde se pode ler a maneira portuguesa de amar, um dos traços característicos da maneira portuguesa de estar no mundo e de encarar a vida.

Ora., é justamente aqui, se tentarmos definir o poema de amor que são as “Cartas Portuguesas” como testemunho do carácter e da mentalidade portuguesa, que surge o problema da autenticidade das “Cartas”. E também aqui o problema, apresenta características especialíssimas e julgamos serem únicas». In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

Cortesia de P. Europa-América/José Ruy/ JDACT

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. «Sou uma louca em voltar a dizer as mesmas coisas tantas vezes! É preciso que o deixe e que não volte a pensai em si. Julgo mesmo que não voltarei a escrever-lhe. Tenho alguma obrigação de lhe dar contas dos meus actos?»


Ilustração de José Ruy
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‘A minha religião e a minha honra, faço-as consistir unicamente em te amar, já que a amar-te comecei’

«Não fez nada para se fixar em Portugal, onde era estimado: bastou uma carta do seu irmão para o fazer partir daqui sem hesitar um momento. E não vim mesmo a saber que, durante toda a viagem, mostrou sempre uma extraordinária boa disposição? É forçoso reconhecer que sou obrigada a odiá-lo mortalmente!
Ah! Fui eu a culpada de todas as minhas desgraças: primeiro habituei-o a uma grande paixão, onde havia demasiada simplicidade - e é preciso artifícios para se fazer amar; é preciso procurar, com uma certa habilidade, os meios de inflamar, pois o amor, só por si, não gera o amor.
Desejava que eu o amasse; e, como concebera esse desígnio, nada omitiu para o conseguir; ter-se-ia mesmo resolvido a amar-me, se tal fosse necessário. Mas viu que podia triunfar na sua empresa sem paixão e que não tinha qualquer necessidade dela. Que perfídia! Julga que pôde enganar- me impunemente? Se algum acaso o trouxer  a esta terra, juro-lhe que o entregarei à vingança dos meus parentes.
Por muito tempo vivi num abandono e numa idolatria que me horroriza, e o meu remorso persegue-me com uma violência insuportável. Sinto vivamente toda a baixeza dos crimes que me obrigou a cometer e não tenho já, ai de mim!, a paixão que me impedia de lhes conhecer a enormidade. Quando é que o meu coração deixará de ser despedaçado? Quando é que me verei livre desta cruel inquietação?
Penso, contudo, que não lhe desejo nenhum mal e que me resolveria a consentir na sua felicidade: mas, se tem um coração bem formado, como poderá ser feliz?
Desejo escrever-lhe outra carta para lhe mostrar que estarei mais tranquila dentro de algum tempo. Que prazer terei em poder censurar-lhe o seu injusto procedimento, quando já não estiver tão vivamente ferida por ele e quando lhe fizer saber que o desprezo, que falo com grande indiferença da sua traição, que esqueci todos os meus prazeres e todas as minhas dores, que não me lembro de si senão quando me quero lembrar!
Concordo em que tem sobre mim grandes vantagens e que me inspirou uma paixão que me fez perder a razão. Mas pouco pode envaidecer-se com isso: eu era jovem, era crédula, tinham-me encerrado neste convento desde a minha infância, só tinha visto pessoas desagradáveis, nunca ouvira as lisonjas que sem cessar me dirigia. Parecia-me que era a si que eu devia os encantos e a beleza que dizia encontrar em mim e de que me fazia dar conta. Ouvia falar bem de si, toda a gente me falava em seu favor e, pela sua parte, fazia quanto era preciso para despertar o meu amor.
M as, finalmente, regressei deste encantamento. Deu-me, para tanto, uma grande ajuda e confesso que dela tinha extrema necessidade.


Embora lhe devolva as suas cartas, guardarei cuidadosamente as duas ultimas que me escreveu, e hei-de lê-las ainda mais vezes do que li as primeiras, a fim de não voltar a cair nas minhas fraquezas. Ah! Quanto elas me custam, e como eu teria sido feliz se tivesse querido consentir em que o amasse para sempre!
Bem vejo que estou ainda mais ocupada do que devia estar com as minhas censuras e com a sua indiferença. Mas lembre-se de que prometi a mim própria um estado mais sereno e que lá hei-de chegar! Ou, então, tomarei contra mim alguma resolução extrema, de que tomará conhecimento sem grande desgosto. Mas nada mais quero de si.
Sou uma louca em voltar a dizer as mesmas coisas tantas vezes! É preciso que o deixe e que não volte a pensai em si. Julgo mesmo que não voltarei a escrever-lhe. Tenho alguma obrigação de lhe dar contas dos meus actos?»
In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

Fim
Cortesia de P. Europa-América/José Ruy/ JDACT

sábado, 18 de agosto de 2012

Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. «Deixei-me seduzir por qualidades bem medíocres! Que fez, afinal, que me pudesse agradar? Que é que me sacrificou? Não procurou antes mil outros prazeres? Acaso renunciou ao jogo e à caça? Não foi o primeiro a partir para a guerra?»


Ilustração de José Ruy
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Pela boca de soror Mariana falam todas as puras amantes de Portugal

«Até neste momento procuro desculpá-lo, e compreendo bem que uma religiosa não pode, em geral, despertar grande paixão. No entanto, parece-me que, se nas escolhas que se fazem fosse possível entrar com a razão, haveria motivos de as preferir às outras mulheres: nada as impede de pensar incessantemente na sua paixão, nem são desviadas pelas mil coisas que no mundo dissipam e ocupam. Parece-me que não será muito agradável ver aquelas que se ama sempre distraídas por mil bagatelas, e é preciso ter muito pouca delicadeza para suportar sem desespero que não falem senão de reuniões, de encontros e de passeios.
Está-se sempre exposto a novos ciúmes. Elas são obrigadas a atender, a comprazer, a conversar: quem pode garantir que não têm um certo prazer em todas estas ocasiões e que não suportam sempre os seus maridos com um extremo desgosto e de má mente? Ah! Como elas devem desconfiar dum amante que não lhes faz notar tudo isso, que acredita facilmente e sem inquietação no que elas lhe dizem e que as vê, com toda a confiança e tranquilidade, sujeitas a todos estes deveres!
M as não pretendo provar-lhe com boas razões que deveria amar-me. Não são meios que valham: outros bem melhores empreguei e nada consegui. Conheço bem de mais o meu destino para procurar opor-me a ele. Serei uma desgraçada toda a vida: não o era já quando o via todos os dias? Eu morria com o receio de que não me fosse fiel; desejava vê-lo a cada momento, e isso não era possível; atormentava-me o perigo que corria entrando neste convento; não era vida o que eu vivia quando estava na guerra, e desesperava por não ser mais bela e mais digna de si; maldizia a mediocridade da minha condição e pensava muitas vezes quo o afecto que parecia ter por mim lhe poderia trazer dissabores; tinha a impressão de que não o amava o bastante; temia a cólera dos meus parentes contra si. Enfim! Encontrava-me num estado tão deplorável como aquele em que me encontro presentemente.
Se me tivesse dado algumas provas da sua paixão depois que partiu de Portugal, teria feito todos os esforços para sair daqui; ter-me-ia disfarçado para ir ter consigo. Ai de mim! O que teria sido de mim se, depois de estar em França, não se importasse comigo? Que desatino! Que loucura! Que cúmulo de vergonha para a minha família, que me é tão querida desde que deixei de o amar!
Já vê como conheço, a sangue-frio, que era possível ser ainda mais de lamentar do que na realidade sou: ao menos uma vez na vida, estou-lhe a falar sensatamente! Como a minha moderação lhe vai agradar! E como ficará contente comigo! Mas não o quero saber. Já lhe pedi que nunca mais volte a escrever-me e a isso o conjuro mais uma vez.
Nunca reflectiu um pouco sobre o modo como me tratou? Nunca pensou que tem para comigo mais obrigações do que para com qualquer outra pessoa no mundo? Amei-o como louca! O desprezo que eu tive por todas as coisas!

O seu procedimento não é de um homem honesto. É preciso que experimentasse por mim uma autêntica aversão natural para não me ter amado perdidamente.
Deixei-me seduzir por qualidades bem medíocres! Que fez, afinal, que me pudesse agradar? Que é que me sacrificou? Não procurou antes mil outros prazeres? Acaso renunciou ao jogo e à caça? Não foi o primeiro a partir para a guerra? Não foi o último a voltar de lá? Nela se expôs loucamente, apesar de lhe ter pedido que se poupasse por amor de mim». In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

continua
Cortesia de P. Europa-América/José Ruy/ JDACT

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. «Estou convencida de que talvez venha a encontrar nesta terra um amante mais fiel e melhor. Mas, ai de mim! Quem poderá despertar em mim o amor? Bastará a paixão de um outro homem para me encher? Teve a minha sobre si algum poder?»


Ilustração de José Ruy
jdact

«Os seus impertinentes protestos de amizade e as delicadezas ridículas da sua última carta mostraram-me que recebera todas as que lhe escrevi e que elas não provocaram no seu coração nenhuma emoção, apesar de as ter lido. Ingrato! E ainda sou tão louca que me sinto desesperada por não poder pensar que elas lhe não tinham chegado e que não lhas tinham entregado!
Detesto a sua sinceridade! Acaso lhe tinha pedido que me dissesse sinceramente a verdade? Porque não me deixou a minha paixão? Tudo o que tinha a fazer era não me escrever: eu não procurava ser esclarecida.
Não será para mim o cúmulo da desgraça saber que nem sequer fui capaz de o obrigar a ter o cuidado de me enganar e a sentir-se, ao menos, na obrigação de se desculpar? Pois saiba que me apercebo perfeitamente de que é indigno de todos os meus sentimentos e que conheço toda a sua malvadez.
No entanto, se tudo o que fiz por si pode merecer que tenha algum respeito pelos, favores que lhe peço, conjuro-o a que nunca mais me escreva e me ajude a esquecê-lo inteiramente. Se me desse alguma prova, pequena que fosse, de que a leitura desta carta lhe deu algum pesar, talvez ainda acreditasse; e talvez que até a sua confissão e o seu consentimento provocassem em mim despeito e cólera, e tudo isso poderia inflamar-me de novo. Por isso, não se meta mais na minha vida, pois, qualquer que fosse o modo por que nela quisesse entrar, sem dúvida deitaria por terra todos os meus projectos.
Nada quero saber do resultado desta carta; não perturbe o estado que para mim estou a preparar. Parece-me que pode dar-se por satisfeito com o mal que me faz, seja qual for o desígnio que tenha concebido de me tornar infeliz.
Não me tire desta minha incerteza. Com o tempo, espero transformá-la numa certa tranquilidade. Prometo-lhe não o odiar; por de mais desconfio dos sentimentos violentos para me atrever a fazê-lo.
Estou convencida de que talvez venha a encontrar nesta terra um amante mais fiel e melhor. Mas, ai de mim! Quem poderá despertar em mim o amor? Bastará a paixão de um outro homem para me encher? Teve a minha sobre si algum poder? Não experimentei eu que um coração enternecido jamais esquece aquilo que o fez conhecer transportes que não conhecia e de que era capaz?; que todas as suas emoções estão ligadas àquele que idolatrou?; que os seus primeiros sonhos e as suas primeiras feridas não podem ser nem curadas nem apagadas?; que todas as paixões que possam vir em seu auxílio e que se esforçam por o encher e contentar lhe prometem em vão um sentimento que nunca mais encontra?; que todos os prazeres que procura, sem qualquer vontade de os encontrar, só servem para bem lhe fazer conhecer que nada lhe e tão caro como a lembrança das suas dores?
Porque me fez conhecer a imperfeição e o desencanto dum afecto que não deve durar eternamente e as dores que acompanham um amor violento, quando ele não é recíproco? E porque hão-de, quase sempre, uma inclinação cega e um destino cruel conjugar-se para nos fazer prender àqueles em que só outro amor poderia encontrar eco? Mesmo que pudesse esperar alguma distracção num novo amor e encontrasse alguém de boa-fé, sinto por mim tamanha compaixão, que terei o maior escrúpulo em pôr, nem que seja o mais ínfimo dos homens do mundo, no estado em que por culpa sua me encontro. E, embora não seja obrigada a ter contemplações para consigo, nunca poderia resolver-me a exercer sobre si uma vingança tão cruel, mesmo que, por qualquer imprevisível mudança, ela dependesse de mim». In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

continua
Cortesia de P. Europa-América/José Ruy/ JDACT

terça-feira, 3 de julho de 2012

Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. «Não receie que eu lhe escreva; nem sequer porei o seu nome na encomenda. Encarreguei de tudo Dona Brites, a quem eu tinha acostumado a confidências bem diferentes desta. Os cuidados dela ser-me-ão menos suspeitos do que os meus»


Ilustração de José Ruy
jdact

… só conheci bem o excesso do meu amor quando quis fazer todos os esforços para me curar dele.

Quinta carta
«Escrevo-lhe pela última vez, e espero fazer-lhe saber, pela diferença dos termos e do tom desta carta, que, finalmente, me persuadiu de que já não me amava e que, portanto, também eu devo deixar de o amar. Vou, pois, enviar-lhe, pelo primeiro portador, tudo o que ainda me resta de si.
Não receie que eu lhe escreva; nem sequer porei o seu nome na encomenda. Encarreguei de tudo Dona Brites, a quem eu tinha acostumado a confidências bem diferentes desta. Os cuidados dela ser-me-ão menos suspeitos do que os meus; ela tomará todas as precauções necessárias, a fim de que eu possa ficar certa de que recebeu o retrato e as pulseiras que me deu.
Quero, no entanto, que saiba que, de há alguns dias a esta parte, sinto vontade de queimar e de destruir estes testemunhos do seu amor que me eram tão caros; mas mostrei-me tão fraca para consigo que nunca acreditaria que eu pudesse ser capaz de tais extremos. Desejo, pois, gozar de toda a dor que tive ao separar-me deles e causar-lhe também a si algum despeito.
Confesso, para vergonha minha, e sua, que me achei muito mais presa a estas bagatelas do que quero confessar. E senti que me eram de novo necessárias todas as minhas reflexões para me desfazer de cada uma delas em particular, quando já me gabava de não estar presa a si. Mas a gente acaba sempre por conseguir o que deseja, sobretudo quando, para tal, há tantas razões como neste caso.
Pus tudo entre as mãos de Dona Brites.
As lágrimas que esta decisão me custou! Depois de mil indecisões e de mil incertezas que, decerto, nem imagina e que não lhe vou dar a conhecer, conjurei-a a nunca mais me falar dessas coisas, a nunca mais mas dar, mesmo que eu lhas pedisse para mais uma vez voltar a vê-las, e pedi-lhe que lhas enviasse sem nada me dizer.
Só conheci bem o excesso do meu amor quando quis fazer todos os esforços para me curar dele, e receio que não tivesse ousado aventurar-me a essa empresa se tivesse podido prever-lhe todas as dificuldades e violências. Estou convencida de que teria experimentado sensações menos desagradáveis amando-o, ingrato, embora, como é, do que deixando-o para sempre. Tive então a prova de que lhe quero menos do que à minha paixão, e suportei dores indescritíveis em a combater, depois que a infâmia da sua maneira de proceder o tornaram odioso aos meus olhos.
O orgulho típico do meu sexo não serviu de nada quando se tratou de tomar partido contra si. Ai de mim! Sofri os seus desprezos, e teria suportado o seu ódio e todo o ciúme que poderia nascer em mim de uma ligação sua com outra mulher qualquer, mas, pelo menos, teria urna paixão para combater. É a sua indiferença que não posso suportar». In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

continua
Cortesia de P. Europa-América/José Ruy/ JDACT

domingo, 20 de maio de 2012

Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. «Que fiz eu para ser tão desgraçada? Porque envenenaste a minha vida? Porque não nasci eu noutro País? Adeus! Perdoa-me! Já não ouso pedir-te que me ames: vê a que estado me reduziu o meu destino! Adeus!»


Ilustração de José Ruy
jdact

… uma paixão como nunca houve mais nobre, mais grave, nem mais ardente.

Conclusão da Quarta Carta
«No entanto, talvez eu me iluda, e talvez tu sejas mais tocado pelo rigor e pela severidade de outra qualquer do que o foste pelos meus favores. Será possível que te deixes apaixonar por via dos maus tratos? Mas, antes de te deixares dominar por uma grande paixão, pensa bem no excesso das minhas dores, na incerteza dos meus projectos, na diversidade dos meus arroubos, na extravagância das minhas cartas, nas minhas confianças, nos meus desesperos, nos meus desejos e no meu ciúme! Olha que vais ser um desgraçado! Conjuro-te a que aproveites alguma coisa do estado em que me encontro e que ao menos o que sofro por ti te seja de alguma utilidade!
Há cinco ou seis meses, fizeste-me uma confidência desagradável; e confessaste-me, com toda a simplicidade, que tinhas amado uma dama no teu país. Se é ela que te impede de voltar, dize-mo sem contemplações, a fim de que eu não sofra mais. Um resto de esperança me sustenta ainda. Mas, se ela não há-de ter qualquer sequência, então preferiria perdê-la de todo e perder-me com ela.
Manda-me o seu retrato com algumas das suas cartas e escreve-me tudo o que ela te diz! Talvez encontre aí razões para me consolar, ou para me afligir ainda mais. Não posso continuar por mais tempo no estado em que me encontro, e toda a mudança que houver só poderá ser-me favorável.
Gostaria também de ter o retrato do teu irmão e da tua cunhada. Tudo o que representa para ti alguma coisa me é muito querido e sou inteiramente devotada a tudo o que te diz respeito: nada conservei para mim! Há momentos em que me parece que até seria capaz de me sujeitar a servir aquela que tu amas!
Os maus tratos que me infliges e o desprezo que me votas abateram-me de tal maneira, que, às vezes, nem sequer ouso pensar que poderia ter ciúmes de ti sem cair no teu desagrado, e julgo fazer o pior mal do mundo quando te censuro. Muitas vezes, até me convenço de que não devo manifestar-te com tanta intensidade, como o faço, sentimentos que tu condenas.

Ilustração de José Ruy
jdact

Há muito tempo que um oficial espera por esta tua carta. Tinha resolvido escrevê-la de maneira a não te desgostar quando a recebesses. Mas acabou por ser demasiado extravagante, e é preciso acabá-la. Ai de mim! Não está nas minhas mãos resolver-me a tal! Parece-me que te estou a falar quando te escrevo e que tu me estás um pouco mais presente. A próxima não será tão longa nem tão importuna: poderás abri-la e lê-la com essa certeza. Na verdade, não te devo falar duma paixão que te desagrada, e prometo não te falar mais dela. Dentro de poucos dias, vai fazer um ano que me abandonei totalmente a ti, sem quaisquer reservas. A tua paixão parecia-me bem ardente e sincera, e nunca pensei que os meus favores te tivessem desagradado ao ponto de te levar a fazer quinhentas léguas e a expor-te a naufrágios para deles te afastares. De ninguém poderias esperar um tratamento assim!
Bem podes lembrar-te do meu pudor, da minha confusão e do meu enleio, mas não te lembres do que poderia obrigar-te a amar-me contra a tua vontade.
O oficial que te há-de levar esta carta manda-me dizer, pela quarta vez, que quer partir. Que apressado está! Decerto vai abandonar nesta terra alguma desgraçada!
Adeus! Tenho eu mais dificuldade em terminar a carta do que tu tiveste em me deixar, talvez para sempre.
Adeus! 1Vão ouso dar te mil nomes ternos, nem abandonar-me livremente a todos os meus arrebatamentos. Amo-te mil vezes mais do que à minha vida, e mil vezes mais do que eu penso! Como me és querido!... e como és cruel para mim! Tu não me escreves! Não consegui impedir-me de te dizer ainda isto! Vou recomeçar, e o oficial partirá. Que importa que ele parta? Eu escrevo mais para mim do que para ti, e aquilo que procuro é consolar-me. Por isso vais-te assustar com a extensão da minha carta e nem a chegarás a ler…
Que fiz eu para ser tão desgraçada? Porque envenenaste a minha vida? Porque não nasci eu noutro País? Adeus! Perdoa-me! Já não ouso pedir-te que me ames: vê a que estado me reduziu o meu destino! Adeus!». In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

Ilustração de José Ruy
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Cortesia de P. Europa-América/José Ruy/ JDACT