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domingo, 15 de novembro de 2015

O Declínio da Idade Média. Johan Huizinga. «Um historiador da Idade Média que confiasse nos documentos oficiais, que raramente se referem às paixões, excepto à violência e à cupidez, arriscava-se a perder de vista a diferença de tonalidade que existe entre a vida daquela época…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Teor Violento da Vida
«(…) O povo sentiu-se particularmente comovido ao ver os seis pajens do rei montados em cavalos completamente cobertos de veludo verde. Um dos pajens, segundo constava, deixou de comer e beber durante quatro dias. E Deus sabe quão magoados e piedosos lamentos eles fizeram pranteando a morte de seu amo. Solenidades de carácter político davam também lugar a lágrimas abundantes. Um embaixador do rei de França várias vezes rompeu em choro enquanto se dirigia, num discurso cortês, a Filipe, o Bom. No encontro dos reis de França e de Inglaterra na recepção ao delfim, em Bruxelas; na partida de João Coimbra da corte da Borgonha, todos os espectadores derramaram sentidas lágrimas. Chastellain descreve o delfim, o futuro Luís XI, durante o seu exílio voluntário em Brabante, como sendo sujeito a frequentes ataques de choro. Há por certo algum exagero nestas narrações dos cronistas. Ao descrever a emoção causada pela mensagem dos embaixadores ao Congresso da Paz, em Arras, em 1435, Jean Germain, bispo de Châlons, diz que os ouvintes se atiraram ao chão soluçando e gemendo. As coisas não terão acontecido assim, por certo, mas assim julgou o bispo conveniente escrevê-las, e esse exagero palpável deixa ver um fundo de verdade. Tal como para os sentimentais do século XVIII, as lágrimas eram então consideradas elegantes e honrosas. Mesmo hoje em dia o espectador indiferente de uma procissão pública se sente às vezes, inexplicavelmente, comovido até às lágrimas. Numa época cheia de reverência religiosa em face de toda a pompa ou solenidade, esta propensão aceita-se como perfeitamente natural.
Um simples exemplo bastará para mostrar o grau de excitação que distingue a Idade Média do nosso tempo. Dificilmente conceberemos jogo mais pacífico do que o xadrez. No entanto, tal como a propósito das canções de gesta, alguns séculos antes, Olivier de la Marche menciona frequentes querelas em consequência desse jogo; o mais sensato perde a paciência a jogá-lo. Um historiador da Idade Média que confiasse demasiadamente nos documentos oficiais, que raramente se referem às paixões, excepto à violência e à cupidez, arriscava-se, por vezes, a perder de vista a diferença de tonalidade que existe entre a vida daquela época e a dos nossos dias. Tais documentos far-nos-iam às vezes esquecer a veemência patética da vida medieval para a qual os cronistas, não obstante as deficiências no registo dos factos, nos chamam sempre a atenção.
A vida mantinha ainda, de diversos aspectos, as cores dos contos de fadas; quer dizer, para os contemporâneos aparecia com esse colorido. Os cronistas da corte eram homens cultos e observavam de perto os príncipes cujos feitos registavam, mas esses mesmos dão a essas reportagens um ar de certo modo arcaico e hierático. A seguinte história, contada por Chastellain, serve para o provar. O jovem conde de Charolais, mais tarde Carlos, o Temerário, ao chegar a Gorcum, na Holanda, em viagem para Sluys, toma conhecimento de que seu pai, o duque, se apropriou de todas as pensões e rendimentos que lhe pertencem. Chamou imediatamente toda a sua corte, mesmo os moços de cozinha, e num comovido discurso comunicou-lhes aquela desventura, insistindo no respeito pelo seu mal-aconselhado pai e na sua inquietação pelo bem-estar de toda a comitiva. Que todos os que têm meios de fortuna para viver fiquem junto dele à espera de melhores tempos; que os pobres se vão embora livremente e que só voltem quando souberem que a fortuna do conde se restabeleceu; todos retomarão os seus antigos lugares e o conde os recompensará pela sua paciência. Ouviram-se então gritos e soluços e em uníssono proclamaram: Todos nós, todos nós, meu senhor, viveremos e morreremos contigo. Profundamente comovido, Carlos aceita a devoção deles: Pois bem, ficai e sofrei, e eu me sacrificarei por vós de preferência a que passeis necessidades. Os nobres vieram então oferecer-lhe o que possuíam. Dizia um: eu tenho mil, e outro, dez mil; eu tenho isto, eu tenho aquilo e tudo fica ao teu serviço, e estou pronto a compartilhar tudo o que te aconteça. E deste modo continuou tudo como antes e nem uma galinha a menos houve alguma vez na cozinha. É manifesto que esta história foi mais ou menos retocada. O que nos interessa é o facto de Chastellain ver o príncipe e a sua corte à maneira épica das baladas populares. Se isto é a concepção literária de um homem, quão brilhante não deveria parecer a vida dos reis, entrevista num quase mágico esplendor à imaginação ingénua dos incultos!» In Johan Huizinga, O Declínio da Idade Média, tradução de Augusto Abelaira,1960, Editorial Ulisseia, 1985, 1996, ISBN: 978-972-568-017-9.

Cortesia de EUlisseia/JDACT

sábado, 14 de novembro de 2015

O Declínio da Idade Média. Johan Huizinga. «… vestidos com o mais rigoroso luto que era doloroso observar; e por causa da grande tristeza e aflição que eles mostravam pela morte do seu senhor, muitas lágrimas se vertiam e lamentações se ouviam por toda a cidade»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Teor Violento da Vida
«(…) Durante o terror borgonhês em Paris, em 1411, uma das vítimas, o senhor Mansart du Bois, tendo-lhe o carrasco pedido perdão, segundo o costume, não só lho concede de todo o coração, mas ainda lhe diz que o abrace. Havia sempre grande multidão de povo e quase todos derramavam comovidas lágrimas. Quando os criminosos eram grandes senhores os homens do povo tinham a satisfação de ver aplicado o rigor da justiça e ao mesmo tempo verificar a inconstância da fortuna exemplificada por forma mais impressionante do que num sermão ou numa pintura. O magistrado punha todo o cuidado em que nada faltasse para efeito do espectáculo: o condenado era conduzido ao cadafalso vestido com o garbo devido à sua elevada condição. Jean Montaigu, grão-mestre do palácio do rei, vítima de João Sem Medo, é colocado numa carreta precedida por dois trombeteiros. Leva as suas vestes de gala, gorro, capa, as meias metade vermelhas metade brancas e as esporas de ouro. Estas são deixadas nos pés do corpo degolado, suspenso da trave. Por ordem especial de Luís XI a cabeça de Mestre Oudart de Bussy, que recusara um lugar no Parlamento, foi desenterrada e exposta na praça de Hesdin, coberta com um gorro escarlate forrado de peles selon la mode des conseillers du Parlament e com versos explicativos.
Mais raros do que as procissões e as execuções eram os sermões dos pregadores itinerantes que vinham despertar o povo com a sua eloquência. O moderno leitor de jornais não é capaz de imaginar a violência da impressão causada pela palavra sobre espíritos ignorantes e desprovidos de qualquer ideal. O franciscano frei Ricardo pregou em Paris, em 1429, durante dez dias consecutivos. Começava às cinco horas da manhã e falava sem interrupção até às dez ou onze, quase sempre no Cemitério dos Inocentes. Quando, ao terminar o seu décimo sermão, anunciou que era o último porque não tinha permissão de pregar mais, grandes e pequenos choraram tão comovida e amargamente como se estivessem a ver enterrar os melhores amigos; e ele também. Pensando que ele ia pregar mais um sermão no domingo, em S. Dinis, para lá se dirigiram no sábado os fiéis, passando a noite ao ar livre para conseguir bons lugares.
Outro frade menor, António Fradin, proibido de pregar pelo magistrado de Paris por ter feito críticas ao governo, foi guardado dia e noite no convento da ordem por mulheres, postadas em volta do edifício, armadas de machados e pedras. Em todas as cidades onde o famoso dominicano Vicente Ferrer é esperado, o povo, os magistrados, o baixo clero e mesmo os prelados e os bispos vão ao seu encontro saudá-lo com cânticos. Ele viaja com numeroso e sempre crescente cortejo de adeptos que, todas as tardes, depois do pôr do Sol, dão volta à cidade em procissão, cantando e flagelando-se. Têm de nomear-se encarregados especiais para tratar do alojamento e da alimentação destas multidões. Grande número de frades de várias ordens religiosas acompanham-no a toda a parte para lhe assistir na celebração da missa e na confissão dos fiéis. Vão também alguns notários para lavrar no local as actas de reconciliação resultantes das pregações deste santo. O seu púlpito tem de ser protegido por vedações contra a pressão da massa de povo que quer beijar-lhe a mão ou as vestes.
Sempre que ele prega um sermão o trabalho pára. Raramente deixa de comover os seus ouvintes até às lagrimas. Quando fala do Dia do Juízo, do Inferno, da Paixão, tanto ele como o auditório choram tão copiosamente que tem de suspender a prédica até que cessem os soluços. Os próprios malfeitores se rojam aos seus pés, primeiro que quaisquer outros, confessando os seus enormes pecados. Um dia, enquanto pregava, viu conduzir dois condenados à morte, um homem e uma mulher, para o local da execução. Pediu que adiassem o acto, mandou colocar os condenados junto do púlpito e continuou o seu sermão falando acerca dos pecados deles. Depois do sermão apenas se encontraram alguns ossos no lugar que os condenados ocupavam e o povo ficou convencido de que as palavras do santo tinham, ao mesmo tempo, conseguido a consumpção e a salvação dos dois.
Depois de Olivier Maillard ter pregado os sermões da Quaresma em Orleães, os telhados das casas que rodeavam a praça donde ele se dirigia ao povo ficaram tão danificados pelos espectadores que para lá subiram que o pedreiro que os consertou apresentou uma conta de mais de sessenta dias de trabalho. As diatribes dos pregadores contra a dissolução e a luxúria produziam estados de excitação que se transformavam em actos. Muito antes de Savonarola iniciar as queimas dos objectos de luxo e de prazer em Florença, com irreparável perda para a arte, a prática de holocaustos desta natureza era já corrente tanto em França como na Itália. Às intimações de um pregador famoso, homens e mulheres apressaram-se a trazer cartas, dados e ornamentos para serem queimados com grande pompa. A renúncia ao pecado da vaidade, por este modo efectuada, tinha tomado uma forma definitiva e solene de manifestação pública, de acordo com a tendência da época para inventar um estilo para todas as coisas. Toda esta receptividade para as emoções, as lágrimas, os arrebatamentos do espírito, deve ser lembrada se se quiser compreender inteiramente como era tensa e violenta a vida daquele período. Um luto de carácter público tinha também o aspecto de uma calamidade geral. No enterro de Carlos VII o povo está completamente perturbado por ver o cortejo, constituído por todos os dignitários da corte vestidos com o mais rigoroso luto que era doloroso observar; e por causa da grande tristeza e aflição que eles mostravam pela morte do seu senhor, muitas lágrimas se vertiam e lamentações se ouviam por toda a cidade». In Johan Huizinga, O Declínio da Idade Média, tradução de Augusto Abelaira,1960, Editorial Ulisseia, 1985, 1996, ISBN: 978-972-568-017-9.
                   
Cortesia de EUlisseia/JDACT

O Declínio da Idade Média. Johan Huizinga. «A cidade moderna mal conhece o silêncio ou a escuridão na sua pureza; Tudo o que se apresentava ao espírito em contrastes violentos e em formas impressionantes emprestava à vida quotidiana um tom de excitação»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Teor Violento da Vida
«Para o mundo, quando era quinhentos anos mais novo, os contornos de todas as coisas pareciam mais nitidamente traçados do que nos nossos dias. O contraste entre o sofrimento e a alegria, entre a adversidade e a felicidade, aparecia mais forte. Todas as experiências tinham ainda para os homens o carácter directo e absoluto do prazer e da dor na vida infantil. Qualquer conhecimento, qualquer acção, estavam ainda integrados em formas expressivas e solenes, que os elevavam à dignidade de um ritual. Porque não eram somente os grandes momentos do nascimento, casamento e morte que, pela santidade do sacramento, eram elevados ao nível dos mistérios; incidentes de importância menor, como uma viagem, um empreendimento, uma visita, eram igualmente rodeados por mil formalidades: bênçãos, cerimónias, fórmulas. As calamidades e a indigência eram mais aflitivas que presentemente; era mais difícil proteger-se contra elas e encontrar-lhes o alívio. A doença e a saúde apresentavam um contraste mais chocante; o frio e a escuridão do Inverno eram males mais reais. Honrarias e riquezas eram desejadas com mais avidez e contrastavam mais vividamente com a miséria que as rodeava. Nós, hoje em dia, dificilmente compreendemos a que ponto eram então apreciados um casaco de peles, uma boa lareira aberta, um leito macio ou um copo de vinho.
Então também todas as coisas na vida tinham uma orgulhosa ou cruel publicidade. Os leprosos faziam soar os seus guizos e passavam em procissões, os mendigos exibiam pelas igrejas as suas deformidades e misérias. Cada ordem ou dignidade, cada grau ou profissão, distinguia-se pelo trajo. Os grandes senhores nunca se deslocavam sem vistosa exibição de armas e escolta, excitando o temor e a inveja. Execuções e outros actos públicos de justiça, de falcoaria, casamentos ou enterros, eram anunciados por pregoeiros e procissões, cantigas e música. O amante usava as cores da sua dama; os companheiros, o emblema da sua fraternidade; os domésticos e servos, os emblemas ou brasões dos seus senhores. Entre a cidade e o campo o contraste era igualmente profundo. Uma cidade medieval não se perdia em extensos subúrbios, fábricas e casas de campo; cercada de muralhas, erguia-se como um todo compacto, eriçada de torres sem conta.
Por mais altas e ameaçadoras que fossem as casas dos nobres ou dos mercadores a massa imponente das igrejas sobressaía sempre no conjunto da cidade. O contraste entre o silêncio e o ruído, entre a luz e as trevas, do mesmo modo que entre o Verão e o Inverno, acentuava-se mais fortemente do que nos nossos dias. A cidade moderna mal conhece o silêncio ou a escuridão na sua pureza e o efeito de uma luz solitária ou de um grito isolado e distante. Tudo o que se apresentava ao espírito em contrastes violentos e em formas impressionantes emprestava à vida quotidiana um tom de excitação e tendia a produzir essa perpétua oscilação entre o desespero e a alegria descuidosa, entre a crueldade e a ternura, que caracterizaram a vida da Idade Média. Um som se erguia constantemente acima dos ruídos da vida activa e elevava todas as coisas a uma esfera de ordem e serenidade: o ressoar dos sinos.
Eles eram para a vida quotidiana os bons espíritos que, nas suas vozes familiares, ora anunciavam o luto, ora chamavam para a alegria; ora avisavam do perigo, ora convidavam à oração. Eram conhecidos pelos seus nomes: a grande Jacqueline, o sino de Rolando. Toda a gente sabia o significado dos diversos toques que, apesar de serem incessantes, não perdiam o seu efeito no espírito dos ouvintes. Durante o famoso duelo judicial entre dois burgueses de Valenciennes, em 1455, o grande sino que é horrível de ouvir, no dizer de Chastellain, nunca deixou de tocar. Que atordoamento não devia produzir o badalar dos sinos de todas as igrejas em todos os mosteiros de Paris ressoando desde manhã até ao anoitecer, e mesmo durante a noite, quando se concluía um tratado de paz ou era eleito um papa! As frequentes procissões eram também um contínuo motivo de piedosa agitação. Quando os tempos eram difíceis, como frequentemente sucedia, viam-se serpentear as procissões, dias seguidos, durante semanas. Em 1412 foi dada ordem em Paris para se organizarem procissões implorando a vitória do rei, que havia partido contra os Armanhaques. Duraram desde Maio até Julho e eram formadas por ordens e corporações sempre diferentes, sempre seguindo por diversas ruas e levando de cada vez novas relíquias. O Journal d'un Bourgeois, de Paris, chama-lhes as mais comoventes procissões de que há memória.
O povo contemplava ou acompanhava chorando piedosamente, vertendo muitas lágrimas, com grande devoção. Todos iam descalços e em jejum, tanto os conselheiros do Parlamento como os burgueses pobres. Os que podiam levavam uma tocha ou um círio. Iam sempre muitas crianças. Os camponeses pobres dos arredores de Paris vinham também, descalços, juntar-se à procissão. No entanto em quase todos os dias a chuva caiu torrencialmente. Havia também a chegada dos príncipes, ataviados com todos os recursos da arte e do luxo próprios da época. Por fim, ainda mais frequentemente, quase pode dizer-se ininterruptamente, havia as execuções. A cruel excitação e a rude compaixão suscitadas por uma execução constituíam uma importante base do alimento espiritual do povo. Eram espectáculos nos quais se continha uma moral. Para os crimes horríveis a lei inventava punições atrozes. Em Bruxelas, um jovem incendiário e assassino foi colocado dentro de um círculo de feixes de lenha a arder e atado a uma corrente que girava em torno de um eixo. Ele dirigia aos espectadores apelos comoventes e de tal modo enterneceu os corações que todos desataram a chorar e a sua morte foi considerada como a mais bela que jamais se viu». In Johan Huizinga, O Declínio da Idade Média, tradução de Augusto Abelaira,1960, Editorial Ulisseia, 1985, 1996, ISBN: 978-972-568-017-9.
                   
Cortesia de EUlisseia/JDACT