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quarta-feira, 21 de março de 2018

Aos Vindouros, se os Houver… Alexandre O’Neill. «… que do amor sabeis o ponto e a vírgula e vos engalfinhais livres de medo, sem preçários, calendários, pílula…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Aos Vindouros, se os Houver…
«Vós, que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;

que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem preçários, calendários, pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;
computais, computar a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;

que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade».

Poema de Alexandre O’Neill, in “Poemas com Endereço

Cortesia de PortaldaLiteratura/JDACT

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Poesia. Alexandre O’Neill. «Minuciosa formiga não tem que se lhe diga: leva a sua palhinha asinha, asinha. Assim devera eu ser e não esta cigarra que se põe a cantar e me deita a perder»

Cortesia de wikipedia

Adeus Português
«Nos teus olhos altamente perigosos vigora ainda o mais rigoroso amor a luz dos ombros pura e a sombra duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo à roda em que apodreço apodrecemos a esta pata ensanguentada que vacila quase medita e avança mugindo pelo túnel de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira onde passo o dia burocrático o dia-a-dia da miséria que sobe aos olhos vem às mãos aos sorrisos ao amor mal soletrado à estupidez ao desespero sem boca ao medo perfilado à alegria sonâmbula à vírgula maníaca do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo em trânsito mortal até ao dia sórdido canino policial até ao dia que não vem da promessa puríssima da madrugada mas da miséria de uma noite gerada por um dia igual
Não podias ficar presa comigo à pequena dor que cada um de nós traz docemente pela mão a esta pequena dor à portuguesa tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces esta roda de náusea em que giramos até à idiotia esta pequena morte e o seu minucioso e porco ritual esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira da cidade onde o amor encontra as suas ruas e o cemitério ardente da sua morte tu és da cidade onde vives por um fio de puro acaso onde morres ou vives não de asfixia mas às mãos de uma aventura de um comércio puro sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante que vai ser que já é o teu desaparecimento digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti»
Alexandre O'Neill

Minuciosa formiga
«Minuciosa formiga não tem que se lhe diga: leva a sua palhinha asinha, asinha.
Assim devera eu ser e não esta cigarra que se põe a cantar e me deita a perder.
Assim devera eu ser: de patinhas no chão, formiguinha ao trabalho e ao tostão.
Assim devera eu ser se não fora não querer».
Alexandre O'Neill

Gaivota
«Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro, dos sete mares andarilho, fosse quem sabe o primeiro a contar-me o que inventasse, se um olhar de novo brilho no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida as aves todas do céu, me dessem na despedida o teu olhar derradeiro, esse olhar que era só teu, amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração morreria no meu peito morreria, meu amor na tua mão, nessa mão onde perfeito bateu o meu coração».
Alexandre O'Neill


JDACT

Cortesia de Users/Isr/Ist/Utl/JDACT 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Gaivotas e mar no 31. Alexandre O'Neill. «O meu peito contra o teu peito, cortando o mar, cortando o ar. Num leito há todo o espaço para amar!»

jdact

O Beijo
«Congresso de gaivotas neste céu
como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
vai batendo como a própria vida,
um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
de duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...»
Alexandre O'Neill, in “No Reino da Dinamarca”

O Amor é o Amor
O amor é o amor, e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos, somos um? somos dois?
espírito e calor!

O amor é o amor, e depois?
Alexandre O'Neill, in “Abandono Vigiado”

JDACT

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Para Mim… Poesia. 1951-1986. Alexandre O’Neill. «Dantes quão ledo afectava uma atroz melancolia! Poeta triste ser queria e por não chorar chorava. Depois, tive que encontrar a vida rígida e má»

jdact

Periclitam os grilos
«Periclitam os grilos:
a noite é nada.
Quem tem filhos tem cadilhos.
(Que quadra tão bem rimada!)

Não espere, leitor, que eu diga:
debaixo daquela arcada…
Não venho fazer intriga:
versejo só, e mais nada.

Assim o terceiro verso
desta tirada
(reparou que é um provérbio?)
não significa mais nada.

Se a noite é nada e os grilos
não estão de asa parada,
não vou puxar, só por isso,
o fio da meada,

leitor que me pede a história
que já traz engatinhada,
leitor que não se habitua
a que não aconteça nada

em poesia que comece
como esta foi começada
e acabe como esta
vai ser agora acabada…»

Zibaldone
«Povo marinheiro,
povo camponês,
um povo inteiro
à espera de vez.

Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!

Não sei para onde
fugiu a sardinha.
Teu peito que esconde,
ó Mariazinha?

Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!

Minha preguiceira,
ó santo aconchego!
Dormir como um prego
dorme na madeira…

Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!

Recessos da alma,
ressessos estão…
Só quem fala, fala!
Quem se cala, não…

Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!

Um, dois, três! Meu velho
mostra como é,
obriga o joelho
a dobrar de fé.

Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!

Um deus-calçadeira,
portátil, de bolso,
ou a vida inteira
contra-reembolso?

Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!

Para abrir, carregue
onde lhe pareça.
Tome uma colher
e morra depressa.

Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!

Ó Zélia-só-corpo,
história de cordel,
a carne de porco
faz-te mal à pele.

Irene! Ó Irene!
Então esse leite-creme!»
Poemas de Alexandre O’Neill, in ‘Poesias Completas, 1951 / 1986

JDACT

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Para Mim… Poesia. 1951-1986. Alexandre O’Neill. «Gritei por calculado amor por brilhantina por miséria gritei até pela vitória [da CDU] (supremo humor!) dos que se batem contra a Cara-Alegre…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A noite ordinária
«Que bela noite ordinária que eu passei!
Foi isso há tempos
num quarto defendido pelas pulgas
e vigiado por um vento carteirista
que morava (disseste)
mesmo ali ao pé.

O problema da luz foi o primeiro
(que resolvemos apagando-a)
depois o das torneiras
depois o do marinheiro
que queria entrar nos nossos problemas
depois o teu
o teu problema já na cama,
na cama com mais paciência que encontrei!

Depois
falaste com as torneiras
e eu gritei.

Gritei por calculado amor
por brilhantina
por miséria
gritei até pela vitória
(supremo humor!)
dos que se batem contra a Cara-Alegre
gritei p’ra não parar de gritar
gritei Chapultepec e Oaxaca
(nomes por excelência afrodisíacos)
gritei até descobrir
o sítio em que te escondias
e então deixei-te gritar…

Quando a noite resignada
abria a última pálpebra
gritei ainda: mas é isto o espelho!

E o dia levantou-se como um cão
(imagem acessível à família…)
da bela noite ordinária
que passei…»


Fraco mas forte
«Nada na mão
algo na v’rilha
remancho as noites
e troto os dias
entre tabaco
viris bebidas
fraco mas forte
de muitas vidas
(que eu já dormi
co’as duas mães
e as duas filhas
que vão à missa
com três mantilhas).

Nada na mão
algo na v’rilha
sofro comigo
luta intestina
(ao bem ao mal
a mesma alpista)
bebo contigo
cerveja uísque
p’ra que se veja
mais rubra a crista.

Nada na mão
algo na v’rilha
encontro a morte
no meio da vida
morte bonita
nada aflita
(ou é da minha
tão fraca vista?)
e tenho sorte.

Nada na mão
algo na v’rilha
invisto contra
o zero puro
da minha vida

e duro, duro!
Poemas de Alexandre O’Neill, in ‘Poesias Completas, 1951 / 1986

JDACT

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Poesia. 1951-1986. Alexandre O’Neill. «Dinheiro? Isso não! Já sei, pobrezinho, que em vez de pão ia comprar vinho… Teima? Que topete! Quem se julga ele se um tigre acabou nesta sala em tapete?»

jdact

A Queixada
«A queixada marca o tempo
neste lugar,
a queixada com o seu
furioso mastigar.

É entrar num restaurante
popular,
é entrar e ver a queixada
a abrir e a fechar.

À queixada não dão tempo
neste lugar,
não dão tempo nem comida
da que se pode manjar.

E a queixada não se queixa
(que outras se vão queixar!)
Recebe, esmaga e despacha
a comida por provar.

Como lhe falta comida,
carniça boa a sangrar,
a queixada, que não é parva
e não pode viver do ar,

come tudo o que lhe derem
no restaurante, no bar;
uma dobrada singela
ou um frango a engelhar.

Tem pressa e um vazio
a preencher, a tapar.
Neste verso bebe vinho,
neste vai recomeçar…»
Poema de Alexandre O’Neill, in ‘Poesias Completas, 1951 / 1986


JDACT

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Para mim… Poesia. Alexandre O’Neill. «Vai ter capitais, países suspeitas como toda a gente, muitíssimos amigos, beijos namorados esverdeados amantes silenciosos ardente e angustiados»

jdact

Fala!
«Fala a sério e fá-la no gozo
fá-la p’la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro.

Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão.

Fala à miúda mas fá-la bem
fala ao teu pai mas ouve a tua mãe.

Fala franciú fala béu-béu.

Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço.

Fala como se falar fosse andar
fala com elegância muita e devagar».


De porta em porta
« - Quem? O infinito?
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao infinito
estar entre gente.

 - Uma esmola? Coxeia?
Ao que ele chegou!
Podes dar-lhe a bengala
que era do avô.

 - Dinheiro? Isso não!
Já sei, pobrezinho,
que em vez de pão
ia comprar vinho…

 - Teima? Que topete!
Quem se julga ele
se um tigre acabou
nesta sala em tapete?

 - Para ir ver a mãe?
Essa é muito forte!
Ele não tem mãe
e não é do Norte…

 - Vítima de quê?
O dito está dito.
Se não tinha estofo
quem o mandou ser
infinito?»
Poemas de Alexandre O’Neill, in ‘Poesias Completas, 1951 / 1986

JDACT

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Portugal em Quinta. Política. Povo. «Alexandre, meu projecto está a bater errado ou certo? Errado ou certo, ainda bates! Será viver disparate? Esse coração que pulsa é apenas literatura? Esse amuo e essa ânsia disparates de criança? E o P ou que tens bordado no coração? Só vaidade? E o filho ainda de bolso? Será pouco? Alexandre, meu projecto, bate, bate, errado ou certo?»

jdact

«Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.

Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,

tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: - não é poesia!,

diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-

dra que rola na pedra…
Mas também da rima em cheio
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,

a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo…»
Poema de Alexandre O’Neill, in ‘Poesia Completa’


JDACT

sábado, 16 de novembro de 2013

Beautiful África. Rokia Traoré. «Ao lado do homem vou crescendo defendo-me da morte quando dou meu corpo ao seu desejo violento e lhe devoro o corpo lentamente mesa dos sonhos no meu corpo vivem todas as formas e começam todas as vidas. Ao lado do homem vou crescendo… De novos sonhos a vida»

jdact


«Monstros e homens lado a lado.
Não à margem, mas na própria vida.
Absurdos monstros que circulam
quase honestamente.
Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.
Ao rosto vulgar dos dias,
à vida cada vez mais corrente,
as imagens regressam já experimentadas,
quotidianas, razoáveis, surpreendentes.
Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir».


«Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto;
palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
entre palavras sem cor,
esperadas inesperadas
como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
letra a letra revelado
no mármore distraído
no papel abandonado)
palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte.


JDACT

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Para mim… Poesia. Alexandre O’Neill. «Não há nada que resista ao tempo. Como uma grande duna que se vai formando grão a grão, o esquecimento cobre tudo. Ainda há dias pensava nisto a propósito de não sei que afecto. Essa certeza, hoje então, radicou-se ainda mais em mim. Fui ver a casa onde passei um dos anos cruciais da minha vida de menino…»

jdact

O poema pouco original do medo
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis.

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos.

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
[…]
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardente
e angustiados.

Ah o medo vai ter tudo
tudo.

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer).

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada poe seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos.

Sim
a ratos.

Poema de Alexandre O’Neill, in ‘Poesias Completas, 1951 / 1986

JDACT

sábado, 8 de dezembro de 2012

Poesia. Tempo de Fantasmas. 1951. Alexandre O’Neill. «Donde teria vindo! (Não é meu…) De algum quarto perdido no desejo? De algum jovem amor que recebeu mandado de captura ou de despejo? É uma ave estranha: colorida, vai batendo como a própria vida, um coração vermelho pelo ar»



Cortesia de wikipedia

Em Pleno Azul
Com horror mal disfarçado
sincero desgosto (sim!)
lágrima azul aflita
mão crispada de piedade
vêem-me passar cantando
calamidades desastres
impossíveis de evitar
as mães,
as minhas a tua
as que estropiam ternamente os filhos
para monótono e prudente
avanço da família.

E quando paro e faço a propaganda
dos lugares mais comuns da poesia,
há um terror quase obsceno
nos seus olhos maternais.

Então prometo congressos
em pleno azul.

Prometo uma solução
em pleno azul.

Prometo não fazer nada
em pleno azul
sem consultar o ‘bureau’
em pleno azul.

Visivelmente sossegadas
é a hora de não cumprir
de recomeçar cantando
calamidades desastres
ruínas por decifrar.

Se eu não estivesse a dormir
perguntaria aos poetas…
A que horas desejam que vos acorde?

Vamos decifrar ruínas
identificar os mortos
dormir com mulheres reais
denunciar os traidores
e atraiçoar a poesia
envenenada nas palavras
que respiram ausência podre
vamos dizer sem maiúsculas
o amor a vida e a morte.

E as mães
onde estão elas?

As mães rezam as mães
cosem farrapos de dor
as mães gritam,
choram,
uivam,
no espesso rio de um sono
já quase só animal.


O Beijo
Congresso de gaivotas neste céu
como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu…)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
vai batendo como a própria vida,
um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
de duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...

Poema e soneto de Alexandre O’Neill, in ‘Poesias Completas, 1951 / 1986

JDACT

sábado, 1 de dezembro de 2012

“Azulejo sábio” e Poesia. Alexandre O’Neill. «Se é que nele algo mais que não seja o meu desejo de “mostrar uma realidade” e envolver nele os poemas… É a acção e os factos que não inventei. Uma questão entregue ao critério…»

Pavões
jdact e cortesia de wikipedia

Os Amantes de Novembro
Ruas e ruas dos amantes
sem um quarto para o amor
amantes são sempre extravagantes
e ao frio também faz calor.

Pobres amantes escorraçados
dum tempo sem amor nenhum
coitados tão engalfinhados
que sendo dois parecem um.

De pé imóveis transportados
como uma estátua erguida num
jardim votado ao abandono
de amor juncado e de outono.


Há Palavras que nos Beijam
Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto;
palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
entre palavras sem cor,
esperadas inesperadas
como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
letra a letra revelado

no mármore distraído
no papel abandonado).

Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte.
Poemas de Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

JDACT