Mostrar mensagens com a etiqueta Egas Moniz. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Egas Moniz. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O Livro de Cale. Monge Negro. Carlos Cordeiro. «Vindes transtornado e receoso! Que tempestade é essa?, perguntou Soeiro, figura forte de semblante sereno e de olhar acutilante, enquanto cravava novamente os olhos no mapa»

jdact

Recontro em Mofatra
«(…) Entretanto, Gonçalo havia chegado à casa dos Maia, após uma desenfreada jornada desde Mofatra. O solar, imponente e de linhas rudes, repousava praticamente oculto no escuro da noite. Alumiava-o uma pequena fogueira no pátio e uma frágil claridade proveniente do interior. Fora da casa, o ambiente agitou-se com a entrada intempestiva do fidalgo, que nem a ordem de paragem, ao portão, admitiu. Das casas próximas saíram imediatamente dois homens, direitos ao cavaleiro, de lança em punho, que só pararam junto dele, em atitude ameaçadora. Deixai-me, vociferou Gonçalo, mostrando-se. Os dois homens sossegaram as armas e saudaram o fidalgo, que replicou de imediato: fechai o portão e ficai de atalaia. Anoite está violenta e todo o cuidado é pouco! Apeou-se rapidamente, confiou a montada a um lacaio e dirigiu-se ao salão da casa. Franqueou a entrada com alarde e deu com o irmão, Soeiro, sentado à mesa, embrenhado na apreciação de um pequeno mapa. Gonçalo pingava.
Vindes transtornado e receoso! Que tempestade é essa?, perguntou Soeiro, figura forte de semblante sereno e de olhar acutilante, enquanto cravava novamente os olhos no mapa. Gonçalo dirigiu-se à lareira do salão. Aproximou as mãos geladas do lume e respondeu: Já vos dou novas, irmão. Acreditai que a jornada não foi prazenteira. Se continuar com este fado, não tardareis a estar à beira da minha sepultura... O irmão pouco caso fez da sentença. Estava habituado aos desmandos de Gonçalo que, sendo mais novo, estouvado e provocador, se via com frequência em situações pouco edificantes e assaz perigosas. Apesar da sua notável envergadura, aliás comum aos Maia, era folgazão, mas implacável, brejeiro, porém contundente. De feições rudes, olhar vivo e atento, desde cedo enveredara por manifestações temerárias. A arte da peleja, sinal dos tempos, aprendera-a com primos mais velhos.
Do pai, Mendo Gonçalves, guardava a memória de um homem enérgico e jubiloso. Tal como Bernardo, nas suas primeiras duas décadas, Gonçalo era notado como licencioso e agitador. Organizava habitualmente os seus momentos como derradeiros, consumindo-os até os esgotar, por vezes, com aparato excessivo. Outrora, diria que teríeis companhias nefastas, que justificavam os vossos exageros. Acaso, agora, estais a arriscar por conta própria?, inquiriu Soeiro, entre sarcasmos. Mas hoje, enfatizou, estais mais ansioso do que é costume... Referia-se, antes, aos tempos em que Bernardo era o instigador de tais dislates, arrastando Gonçalo para aventuras desbragadas e duvidosas, ainda que, por vezes, também por si partilhadas. Contudo, nesse aspecto, Soeiro era diferente do irmão. Mais cordato, compenetrado e fleumático, planeava o quotidiano com prudência e, sobretudo, informação adequada. Não era tão alto como o irmão, mas sabia impor a sua presença. Ombreava com ele em denodo, mas defendia a diplomacia como solução para o esclarecimento de problemas. Tendo nascido cinco anos antes de Gonçalo, coubera-lhe organizar a casa após a morte do pai. Era o interlocutor privilegiado dos notáveis portucalenses e porta-voz dos seus anseios políticos». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, O Monge Negro, 1060-1089, Publicações Europa-América 2010, ISBN 978-972-1-06140-8.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O Livro de Cale. Monge Negro. Carlos Cordeiro. «Embasbacados, gelaram de dúvida. No instante seguinte, o esquivo oponente estava nas suas costas, martelando-lhes os pescoços com dois valentes muros. Mais dois recuperavam…»

jdact

Recontro em Mofatra
«(…) Acaso duvidais da promessa do anafado Pais?, indagou o primeiro. Nem os da minha casa eu afianço..., quanto mais subornos do perro abade - respondeu desabridamente o desdentado. Não vos amofineis. Dar-lhe-emos o que pediu, nem que seja o crânio de um vilão ébrio, sossegou-o o homem cheio de cicatrizes. Vamos é acabar com a barrica desta mistela que tendes na caneca, convidou. Enchei-me a caneca, barregã, vociferou outro, à passagem de Gilda. Os clientes habituais da estalagem já conheciam o estratagema da rapariga para controlar situações em que o excesso de bebida toldava o discernimento dos comensais. Se não assumissem que o vinho havia acabado, a rapariga recorreria a uma moca de grande dimensão, fatal se dirigida ao crânio mais duro dos mortais. Então, essa zurrapa vem ou não?, insistia o torpe, limpando um fio de sangue que lhe escorria da testa. Gilda aproximou-se do grupo e dirigiu-se ao homem. Já tendes o pouco que sobeja, informou. Por hoje, ficai com o que ainda vos dança na caneca. Esgotámos o vinho das barricas, desculpou-se a rapariga. Quereis mais pão?
Enquanto tentava serenar as exigências do grupo, Gilda reparou que o lugar no estrado estava agora ocupado por uma personagem que não identificou. Inclinou-se para ver melhor mas, de súbito, uma valente palmada no rabo fê-la cair sobre a mesa e entornar uma das canecas num um dos homens. Este disse de imediato: porca serviçal! O pouco que nos dás derrama-lo sobre mim?! Gilda não deu grande importância à observação, habituada que estava a desmandos semelhantes e frequentes. Contudo, assustou-se, ao ver crescer o homem para si, em atitude ameaçadora. Ainda tentou recuar até, ao local onde guardava a famigerada moca, mas não pôde avançar. O homem agarrou-a com uma mão e levantou a outra bem alto, com intenção de lhe bater. Em vão. A personagem que, antes, ocupava o estrado, estava diante do outro, desafiando-lhe o intento.
Era Bernardo, eivado de uma vontade fulminante de justiçar a afronta. Um instante de hesitação e o hirsuto caía no chão, atingido por uma manápula em plena glote. Gilda esquivou-se e correu a buscar a moca. Não contou, todavia, com um dos companheiros do desgraçado que, com um murro certeiro, a estirou no balcão. Os outros não tardaram a reagir. O homem coberto de cicatrizes pulou para a mesa mas, nesse preciso momento, sentiu um forte soco entre as ancas e caiu, contorcendo-se com dores. Outro, pequeno e esquivo, conseguiu agarrar a luva do opositor. Porém, não mais do que isso. Mal o fez, um punho férreo esborrachou-lhe o nariz, torcido em jorros de sangue. Os dois restantes já tinham os punhais em riste, frente ao misterioso agressor que, encostado a uma parede, sulcava com o olhar o local que o rodeava. Num ápice, desapareceu da vista dos dois homens. Embasbacados, gelaram de dúvida. No instante seguinte, o esquivo oponente estava nas suas costas, martelando-lhes os pescoços com dois valentes muros. Mais dois recuperavam, agarrando a pesada mesa que empurraram na direcção de Bernardo, entalando-o. Entretanto, Fernando entrou na liça, prostrando um dos agressores com uma pancada certeira no crânio.
Mas a investida ficou por ali. Lento de movimentos, não conseguiu fugir de uma cotovelada em cheio na cara, que o derrubou de imediato. Do outro lado da mesa, Bernardo estava entalado e mirava pelo canto do olho uma luminária de barro facilmente alcançável. Encolheu os ombros e levantou os braços em sinal de aparente rendição. Um dos homens largou a mesa. Subitamente, a luminária voou na direcção da sua cara. Pouco depois, o homem cambaleava, levava a mão aos olhos e gritava de dor. Bernardo empurrou a mesa e, como se de um aríete se tratasse, arrastou o outro contra o balaústre do estrado. O homem arregalou os olhos e, com um grito lancinante, desfaleceu com as pernas partidas. Já um punhal voava na direcção de Bernardo que, num esforço sobre-humano, saltou o corrimão e caiu em cima de uma mesa. Na sala, apenas rugiam imprecações e estremeciam feridos. Os aldeãos haviam desaparecido». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, O Monge Negro, 1060-1089, Publicações Europa-América 2010, ISBN 978-972-1-06140-8.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O Livro de Cale. Monge Negro. Carlos Cordeiro. «Na sala, o burburinho era tremendo. De tal ordem que, praticamente ninguém descortinou a presença de cinco indivíduos sujos e maltratados, sentados à volta de uma mesa no canto da sala. Antes, haviam agarrado um jarro de vinho e servindo-se de pão»

jdact e wikipedia

Recontro em Mofatra
«(…) Ainda em baixo, existia uma dependência exígua, paredes-meias com outro diminuto espaço, que servia de quarto a Fernando, com uma cama coberta de roupa safada, um caixote velho e um armário antigo mas soberbo. Ao lado do balcão, elevava-se uma escada em madeira, com um corrimão apoiado em robustos balaústres, que levava ao piso superior. Os quartos dispunham-se ao redor de um corredor irregular. À porta de cada um, apoiados em suportes de ferro, dois cotos de velas iluminavam o exíguo espaço de entrada. Um dos quartos, ao fundo, uma pequena jóia de esmero, pertencia a Gilda, filha de Fernando.
A estalagem já tivera a sua época de ouro, quando Beatriz Teles, mulher do estalajadeiro, havia tomado a iniciativa de transformar a grande loja de comércio dos progenitores do marido. Abrira todo o espaço térreo e dividira o piso superior em quartos, na ideia de os ocupar com os viajantes que passariam por Mofatra, assim que a antiga ponte romana fosse recuperada. A iniciativa florescera rapidamente e a estalagem chegou a dispor de rica decoração e de bons materiais. Todavia, durante uma incursão árabe na região, chefiada por galegos, Beatriz havia desaparecido. A partir dessa altura, Fernando viu-se sozinho, com Gilda ainda criança. Só após alguns anos, a pequena conseguiu, a pouco e pouco, começou a ajudar o pai e a recuperar lentamente o anterior aspecto da casa e o prestígio que havia granjeado.
Para tanto, o contributo dos Maia tinha sido decisivo nessa altura, quando eles detinham, tal como agora, soberania sobre um vasto território, que incluía a povoação de Mofatra. Com um sorriso simpático e face trigueira, onde pontuavam olhos amendoados entre longas melenas, Gilda herdara a perseverança, o denodo e a teimosia da mãe, a afirmação e a prudência do pai. Habituara-se às constantes mudanças na estalagem, um local de passagem para mercadores, aventureiros e refugiados das terras a sul do Douro. Todavia, ficara decepcionada com os contactos súbitos. Por tal, impusera-se limites rígidos de convivência com os forasteiros. Contudo, guardava espaços de afecto no coração, na esperança de que alguém os invadisse.
Gilda dividia-se, agora, em tarefas de copa, de serviço às mesas e de arrumo dos quartos. Lentamente, mas com rigor, a estalagem ia melhorando as condições para albergar os clientes que, cada vez mais, preferiam aquele refúgio, situado numa zona inóspita da margem direita do Douro. Nesta noite, a rapariga não tinha mãos a medir. A sala da estalagem acolhia uma multidão que, entre dentadas em galináceos e um roer de milho, vasos de vinho e cerveja, glosava as últimas novas provenientes do sul. Ainda se comentava as movimentações na região de Coimbra, quando já constava que os mouros se mobilizavam novamente, concentrando em Alcácer um grande número de cavaleiros vindos de Mértola e de Silves.
Na sala, o burburinho era tremendo. De tal ordem que, praticamente ninguém descortinou a presença de cinco indivíduos sujos e maltratados, sentados à volta de uma mesa no canto da sala. Antes, haviam agarrado um jarro de vinho e servindo-se de pão, que trincavam como se não comessem há muito. Em surdina, e num vocabulário que confundia o berbere com a língua nativa, encharcaram-se em impropérios sobre uma figura enigmática, assaz demoníaca, cuja existência atribuíam ao Inferno. Mostravam um nervosismo de temor, olhando em redor como os estranhos em terra alheia que eram. Infame sorte ou insano prodígio do qual fomos testemunhas, disse um, ferido do pescoço ao ombro.- Enfrentámos o demónio em pessoa, acrescentou. Sorte a nossa que tal espírito se desvanecesse, balbuciou outro, não menos molestado na carantonha, ainda a pingar sangue. Mísera campanha a nossa, sem jorna nem deleite, acrescentou ainda outro, entre os poucos dentes que ainda mostrava». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, O Monge Negro, 1060-1089, Publicações Europa-América 2010, ISBN 978-972-1-06140-8.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O Livro de Cale. Monge Negro. Carlos Cordeiro. «Ainda incrédulo com a mudança de atitude de Bernardo, Fernando vangloriou-lhe o acto: Haveis tomado uma atitude nobre que vos enaltece a fidalguia! Não, Fernando. Para mim, a situação não passou de um ensaio, retorquiu Bernardo…»

jdact

Recontro em Mofatra
«(…) Condescendente, Fernando pegou numa tocha e convidou Bernardo a segui-lo. À frente, alumiando a marcha, o estalajadeiro arrastou-se para um pequeno corredor, entre paredes estreitas e lúgubres, onde o cheiro da cavalariça dava lugar ao odor de humidade. A galeria desembocava numa dependência minúscula onde, numa das paredes, estava incrustada uma portinhola. Fernando apontou para o local, abriu a passagem e, num tom solene, disse: … Siga pelos degraus interiores. O caminho não é longo. Levantai a tampa, lá em cima. Tendes o quarto preparado... Fernando não conseguiu terminar a frase. Com um estrondo grave e forte, um corpo embateu no chão e rebolou contra a parede. Meio atordoado pela queda e ainda lívido, um homem apessoado, bem constituído e ricamente vestido ficou atónito, ao olhar para as duas figuras que o encaravam. Tentou articular algumas palavras, mas soltou apenas vagos lamentos. De cima, ouviram-se imprecações que aparentemente lhe eram dirigidas.
O pobre homem tinha um ar cadavérico e mais pálido ficou quando sentiu o gélido gume da espada de Bernardo na garganta. Porém, Fernando reconhecera Gonçalo, fidalgo da casa dos Maia, homem leal e laborioso, mas suspeito conquistador de almas mulheris insaciáveis de amor. Tudo indicava que, ao sair de um aperto, o fidalgo entrara noutro ainda mais crítico. Receoso da reacção de Bernardo, Fernando suplicou: Por Deus, deixai-o ir, senhor, que é bom homem, temente a Deus e amigo do povo! Já com a carótida picada pela ponta da espada de Bernardo, Gonçalo apenas articulou: Saí do meu caminho! Deixai-me passar ou a minha vida de pouco valerá!
Apesar da tentativa, Gonçalo não colheu a condescendência de Bernardo. Os urros de assanho no piso superior percebiam-se, agora, de forma mais nítida. Na verdade, em cima, o rebuliço era excessivo e escutavam-se açoites e estaladas. Fernando insistiu, apavorado: Senhor, são feitos de alcova! Não o empeceis! Bernardo baixou a guarda lentamente. Poisou, por instantes, os olhos no colar de Gonçalo e reconheceu a insígnia dos Maia. Tal visão deixou-o estarrecido. Tentou articular uma palavra que fosse, mas a voz embargou-se-1he. Pasmado, retirou lentamente a espada e saiu da frente do homem. Gonçalo, agora liberto, esboçou um gesto de fuga, mas, ao ver de soslaio a espada do agressor, sobreveio-lhe uma recordação longínqua. Apesar de atrapalhado, levantou-se num ápice, transpôs a porta e desapareceu.
Ainda incrédulo com a mudança de atitude de Bernardo, Fernando vangloriou-lhe o acto: Haveis tomado uma atitude nobre que vos enaltece a fidalguia! Não, Fernando. Para mim, a situação não passou de um ensaio, retorquiu Bernardo, teste, que, bem-aventurado, superei, auxiliado pela minha benquista memória que, mesmo assim, se me não revela lesta e inteira, deixou, olhando para onde Gonçalo se tinha desvanecido. O sururu do piso superior havia cessado. Fernando dirigiu-se à parede e afastou uma enorme barrica de vinho, deixando antever outra pequena porta, de onde retirou uma trave que a fechava. Utilizai esta passagem, que é segura, indicou o estalajadeiro, apontando o buraco estreito agora visível, após ter puxado a ponta de uma corda que, do cimo, pendia na abertura. Tendes roupa lavada na cama e água para vos refrescardes e limpardes o sangue que vos cobre o ombro.
Antes de entrar no alçapão, Bernardo pediu ainda ao estalajadeiro que lhe preparasse uma refeição quente. Fernando ainda balbuciou algo incompreensível, mas desistiu perante o olhar do monge. Vamos lá ver o que me reservais, enfatizou Bernardo, ao ver a escura passagem. Apesar de não dispor de mais do que meia dúzia de quartos, a Estalagem de Mofatra, apresentava uma sala plena de comensais. Algumas mesas compridas, dispostas junto às vigas de madeira que sustentavam o piso superior, apesar de gastas, ainda mostravam robustez. Um estrado elevado e amplo, mas mal iluminado, logo após a entrada principal, que dominava todo o espaço e de onde era possível distinguir toda a sala, albergava uma mesa enorme, a única que estava vazia naquela ocasião. Mais abaixo, um pequeno balcão em carvalho tosco ocultava a cozinha. Largos candelabros com base redonda suportavam uma boa dezena de velas delgadas que iluminavam o piso térreo». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, O Monge Negro, 1060-1089, Publicações Europa-América 2010, ISBN 978-972-1-06140-8.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

sábado, 2 de fevereiro de 2013

O Livro de Cale. Monge Negro. Carlos Cordeiro. «Com movimentos demorados e rigorosos, Bernardo tirou as luvas, sacudiu a capa, pegou no bornal e olhou novamente na direcção dos relinchos. Os animais estavam agitados e fatigados. Surgindo do nada, ao lado de Bernardo, uma voz grave e rouca vociferou: - Quem está aí?»

jdact

Floresta de Sobressalto
«Pelas vestes, os cadáveres seriam cristãos. Entre o dever de enterrar os corpos e o ressentimento que dele se apossava, o monge optou por confiar os corpos à sua morada eterna e encomendar as almas a Deus. Porém, os elementos revelaram-se adversos e mostraram toda a sua repulsa através de um dilúvio que se abateu, novamente, sobre o lugar. Com uma fúria insana, a força da torrente de água impeliu os corpos outeiro abaixo, exigindo a Bernardo toda a sua força e destreza para não ser também arrastado. A borrasca, conforme surgiu, assim se extinguiu. Mas, o cenário traduzia o estado caótico do solo e da flora. De onde estava, Bernardo apenas conseguia vislumbrar uma débil luminosidade, ao longe, no vale. Montou Lucus e afastou-se do pesadelo.

Recontro em Mofatra
O céu descobrira-se momentaneamente, deixando o luar incidir numa velha ponte romana, aparentemente reconstruída havia pouco. A claridade do lugarejo tornara-se mais forte, à medida que Lucus se aproximava. Entre as raras tochas acesas, destacava-se uma no que parecia uma habitação antiga, mas sólida. Foi para lá que Bernardo voltou a montada, afagando-lhe o dorso, na tentativa de o acalmar e de aliviar a sua dor. Porém, os afagos não lhe revelaram a ferida que rompia o bojo do cavalo.
O monge também estava ferido. Sentia agora a dor. Talvez as ramagens ou as rédeas o tivessem fustigado. Todavia, os cortes eram demasiado finos e perfeitos, como que infligidos por gumes afiados. Contudo, a chuva, que, entretanto, voltara a cair e que lhe escorria pelo corpo, aliviava-lhe o sofrimento. Cautelosamente, Bernardo aproximou-se da aldeia. Com excepção de uma ou outra tocha, onde bruxuleavam ténues chamas, pouco mais estava iluminado do que uns passos em redor. Sossego, a não ser uma vozearia de chusma, abafada e indefinível, que envolvia o ambiente.
Devagar, mas com firmeza as patas de Lucus iam esmagando, com um bater surdo e ritmado, os dejectos que se arrastavam na rua principal. Atento, Bernardo procurava a origem da assuada. Prosseguiu, acalmando o cavalo que continuava a dar mostras de cansaço e dor. O barulho tornava-se mais audível, à medida que Lucus se aproximava da mansão. Bernardo já sonhava descansar abrigado. Pouco chovia. Estalagem, lia-se numa tabuleta que balouçava, fustigada pelo vento. Avelha tabuleta, que parecia não se aguentar ali por muito mais tempo, abanava com um ruído lúgubre. Sendo pobre, a casa era uma das maiores e melhores do lugar. O granito que, apesar de antigo, parecia firme, sustentava um telhado de madeira alto e largo, que cobria os dois andares, sendo o último, mais recuado.
Bernardo contornou a casa, tentando ver se se tratava de um local seguro. Pretendia deixar Lucus na cavalariça. Deteve-se junto de uma abertura, ladeada por dois pilares de madeira. Entrou num telheiro, apeou-se e amarrou o cavalo a uma trave. Alguns movimentos e relinchos abafados fizeram-no olhar para as outras montadas, apenas percebidas como silhuetas de corcéis árabes. Com movimentos demorados e rigorosos, Bernardo tirou as luvas, sacudiu a capa, pegou no bornal e olhou novamente na direcção dos relinchos. Os animais estavam agitados e fatigados. Surgindo do nada, ao lado de Bernardo, uma voz grave e rouca vociferou: - Quem está aí? Mostrai-vos ou a vossa vida termina agora!! O monge voltou-se e respondeu, para sossegar o homem: - Nada receeis! E gente de Deus!
De súbito, uma ponta de lança gelou-lhe o pescoço, apertando-lhe a jugular. - De que duvidais? - atirou Bernardo, seca mas prudentemente, olhando o homem pelo canto do olho, identificando-lhe o físico e possível ameaça. Fernando, homem atarracado e corpulento, mostrou-se. Lento e pesadão, mas com um olhar vivo na face bochechuda, insistiu: - Esta noite não é, de boa jornada e quem dela surge ou é salteador ou assaltado! - Tendes razão, homem de Deus! Quem é quem, agora? - perguntou ironicamente Bernardo, a avaliar a postura do oponente.
O estalajadeiro ficou confuso. Mudou de lugar, tentando garantir uma melhor posição de ataque. Bernardo perdeu a esperança de convencer o homem e deitou as mãos à lança. Atónito, Fernando viu-se sem poder atacar, ao verificar que a lança se havia ancorado no poderoso braço de Bernardo. Este olhava-o nos olhos, ao mesmo tempo que lhe encostava a espada ao pescoço. Fernando debateu-se, por instantes. Depois, arregalou os olhos e franziu a testa, estupefacto, ao identificar o cunho da espada do oponente. Com a voz tolhida, esforçou-se: - Senh... Senhor! Desculpai-me... pelo santo nome de Deus - desculpou-se, ainda gago de temor. - Não vos reconheci o prestígio na figura. Castigai-me ou desculpai-me, senhor de... - Nem mais uma palavra! Calai-vos, pois não quero o meu nome pronunciado nem a minha presença assinalada - disse-lhe Bernardo, agastado, libertando lentamente o homem, surpreendido, também, por ter sido reconhecido tão rapidamente.
Fernando afastou-se, deferente. Encostou a lança à parede e olhou cabisbaixo para Bernardo, que exigiu, peremptório: - O vosso nome! Que sabeis de mim? – Fernando… nobre senhor - hesitou o estalajadeiro. – Fernando Dias, tal como meu pai... honrado por ter combatido ao lado do conde Nuno. A minha consideração a quem conserva o seu cunho... - Estou elucidado, Fernando! A minha saudação a quem descende de tão digno companheiro de meu pai - respondeu Bernardo para, depois, reclamar um aposento ao estalajadeiro. - Vinde, acompanhai-me - disse o homem, subserviente.
 - Mostrai-me outra entrada que não a comum - exigiu Bernardo. - Mas, senhor, como quereis...? Entrar pela janela? Lá, no alto? -Tereis uma alternativa, decerto! Ou não hospedais gente que passa o tempo a utilizar esse estratagema? - Há... tenho... não sei é se… para vós... a dignidade... - Deixai-vos de juízos quanto à minha condição! Mostrai-me a passagem, homem!» In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, O Monge Negro, 1060-1089, Publicações Europa-América 2010, ISBN 978-972-1-06140-8.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

O Livro de Cale. Carlos Cordeiro. «Tocou no seu corpo. Não tinha feridas, mas faltava-lhe algo no peito. O medalhão, a dádiva de Henrique, tinha desaparecido. Apesar de se assemelharem a sombras ou espectros, os agressores eram, na verdade, homens de carne e osso»


jdact

Floresta de Sobressalto
«Não havia descanso no difícil ensejo de escapar. Mas, um pensamento surgiu, singular, a lembrar-lhe o crucifixo de madeira! Porém, alheou-se rapidamente da ideia, ao escutar por perto o silvo de um apetrecho, que rompia o ar, na sua direcção. Esquivou-se ao acaso. Lucus relinchou de esforço e de dor. A nova investida, Bernardo respondeu de imediato. Tentou apoderar-se da arma uma e outra vez. Em vão. À sua direita, era, então, mais notória, a presença de outros cavaleiros. Escapou-se de um ramo, desviou-se de arbustos, evitou um calhau. Protegeu-se da chuva, puxando a capa para o rosto. Não sossegou. Segurando-se a Lucus com todas as suas forças, espevitou-o até à exaustão, sentindo o esforço do animal. Subitamente, sentiu o crucifixo balançar no seu peito, animando-lhe a memória. Pegou nele de imediato e puxou-o para si, fazendo-o soltar-se do fio. Olhou de soslaio, ergueu o braço e arremessou-o com ganas na direcção dos perseguidores...
Pareceu eterno aquele momento suspenso e, no instante seguinte, após uma explosão, uma aura de energia com impressionante ardência envolveu e asfixiou tudo em seu redor. As coisas perderam forma, imiscuindo-se num espaço indistinto. Sem saber onde estava, Bernardo, mesmo cego de esforço, revoluteou a montada ao encontro dos oponentes. O alarde da refrega tornou-se confuso. De forma lenta, mas precisa, o monge levou a mão à espada. O tempo abrandara, o espaço parecia exíguo, tudo se envolvia num sono sem sonho que tardava em passar. Apenas o olhar de Bernardo, louco de temor e pleno de fúria, se cravara em todas as direcções, procurando pontos de referência. Tudo à volta era confuso e baço. Um vazio sagrado abafara as presenças demoníacas que, imperceptíveis, soltaram queixumes de agonia, parecendo afastar-se precipitadamente. Longe, os espectros desapareciam num declive. Pouco depois, a chuva regressaria, impiedosa e torrencial.
Bernardo recuperou lentamente a serenidade, tentando perceber o quê ou quem o havia provocado com tanto fulgor e de forma tão singular e, talvez, fantástica. Ao guardar a espada, perguntou-se de onde viriam as faúlhas que o haviam perseguido durante o frenético galope e se não teria visto qualquer objecto metálico por perto... Indagou-se, mas não teve resposta. Voltou a cobrir o corpo com a capa, protegendo-o da tempestade, ao mesmo tempo que levava a mão ao peito, tentando inquirir a alma, qual guia místico. Mas não obteve qualquer resposta nem indício inteligível. Ainda duvidava da realidade. Tentou reconhecer um ínfimo pormenor, que denunciasse os infernais agressores, mas não recordava mais do que silhuetas fluidas e mórbidas. Porém, que semelhança assustadora com a sua própria imagem. Inquietava-se. Porquê figuras tão obscuras e sinistras? Porque não vira o cintilar de uma lâmina?, perguntava-se.
Tocou no seu corpo. Não tinha feridas, mas faltava-lhe algo no peito. O medalhão, a dádiva de Henrique, tinha desaparecido. Contudo, o crucifixo, ofertado por Orlando, havia cumprido a sua missão. O seu efeito, porém, apenas seria verificado, quando Bernardo, ao tentar orientar-se, fez Lucus recuar e deparou com três cadáveres, meio ocultos por arbustos, perto de uma vala. Com um misto de espanto e horror, descortinou os corpos despedaçados, mercê da deflagração provocada pelo objecto que lhes havia arremessado. Percebeu então que o risco que correra tinha sido real. Apesar de se assemelharem a sombras ou espectros, os agressores eram, na verdade, homens de carne e osso. Se, antes, a fúria dos elementos lhe havia sugerido estar sob um prenúncio espiritual, agora, perante aquele testemunho, sabia que o ódio profano dos homens também lhe enredava o destino». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, O Monge Negro, 1060-1089, Publicações Europa-América 2010, ISBN 978-972-1-06140-8.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

terça-feira, 5 de julho de 2011

O Livro de Cale. Carlos Cordeiro: Parte 3. «A borrasca, conforme surgiu, assim se extinguiu. Mas, o cenário traduzia o estado caótico do solo e da flora. De onde estava, Bernardo apenas conseguia vislumbrar uma débil luminosidade, ao longe, no vale. Montou Lucus e afastou-se do pesadelo»

Cortesia de guardadorderebenhos

Floresta de Sobressalto
Parte 3
«Porém, alheou-se rapidamente da ideia, ao escutar por perto o silvo de um apetrecho, que rompia o ar, na sua direcção. Esquivou-se ao acaso. Lucus relinchou de esforço e de dor. A nova investida, Bernardo respondeu de imediato.Tentou apoderar-se da arma uma e ourtra vez. Em vão. À sua direita, era, então, mais notória, a presença de outros cavaleiros. Escapou-se de um ramo, desviou-se de arbustos, evitou um calhau. Protegeu-se da chuva, puxando a capa para o rosto. Não sossegou. Segurando-se a Lucus com todas as suas forças, espevitou-o até à exaustão, sentindo o esforço do animal. Subitamente, sentiu o crucifixo balançar no seu peito, animando-lhe a memória. Pegou nele de imediato e puxou-o para si, fazendo-o soltar-se do fio. Olhou de soslaio, ergueu o braço e arremessou-o com ganas na direcção dos perseguidores...
Pareceu eterno aquele momento suspenso e, no instante seguinte, após uma explosão, uma aura de energia com impressionante ardência envolveu e asfixiou tudo em seu redor. As coisas perderam forma, imiscuindo-se num espaço indistinto. Sem saber onde estava, Bemardo, mesmo cego de esforço, revoluteou a montada, ao encontro dos oponentes. O alarde da refrega tornou-se confuso.

Cortesia de arautos

De forma lenta, mas precisa, o monge levou a mão à espada. O tempo abrandara, o espaço parecia exíguo, tudo se envolvia num sono sem sonho que tardava em passar. Apenas o olhar de Bernardo, louco de temor e pleno de fúria, se cravara em todas as direcções, procurando pontos de referência.Tudo à volta era confuso e baço. Um vazio sagrado abafara as presenças demoníacas que, imperceptíveis, soltaram queixumes de agonia, parecendo afastar-se precipitadamente. Longe, os espectros desapareciam num declive. Pouco depois, a chuva regressaria, impiedosa e torrencial.
Bernardo recuperou lentamente a serenidade, tentando perceber o quê ou quem o haúa provocado com tanto fulgor e de forma tão singuIar e, talvez, fantástica. Ao guardar a espada, perguntou-se de onde viriam as faúhas que o haviam perseguido durante o frenético galope e se não teria visto qualquer objecto metálico por perto... Indagou-se, mas não teve resposta. Voltou a cobrir o corpo com a capa, protegendo-o da tempestade, ao mesmo tempo que levava a mão ao peito, tentando inquirir a alma, qual guia místico. Mas não obteve qualquer resposta nem indício inteligível. Ainda duvidava da realidade.Tentou reconhecer um ínfimo pormenor, que denunciasse os infernais agressores, mas não recordava mais do que silhuetas fluidas e mórbidas. Porém, que semelhança assustadora com a sua própria imagem. Inquietava-se. «Porquê figuras tão obscuras e sinistras? Porgue não vira o cintilar de uma lâmina?», perguntava- se.
Tocou no seu corpo. Não tinha feridas, mas faltava-lhe algo no peito. O medalhão, a dádiva de Henrique, tinha desaparecido. Contudo, o crucifixo, ofertado por Orlando, havia cumprido a sua missão. O seu efeito, porém, apenas seria verificado, quando Bernardo, ao tentar orientar-se, fez Lucus recuar e deparou com três cadáveres, meio ocultos por arbustos perto de uma vala.

Cortesia de europaamerica

Com um misto de espanto e horror, descortinou os corpos despedaçados, mercê da deflagração provocada pelo objecto que lhes havia arremessado. Percebeu então que o risco que correra tinha sido real. Apesar de se assemelharem a sombras ou espectros, os agressores eram, na verdade, homens de carne e osso. Se, antes, a fúria dos elementos lhe havia sugerido estar sob um prenúncio espiritual, agora, perante aquele testemunho, sabia que o ódio profano dos homens também lhe enredava o destino.
Pelas vestes, os cadáveres seriam cristãos. Entre o dever de enterrar os corpos e o ressentimento que dele se apossava, o monge optou por confiar os corpos à sua morada eterna e encomendar as almas a Deus. Porém, os elementos revelaram-se adversos e mostraram toda a sua repulsa através de um dilúvio que se abateu, novamente, sobre o lugar. Com uma fúria insana , a força da torrente de água impeliu os corpos outeiro abaixo, exigindo a Bernardo toda a sua força e destreza para não ser também arrastado.
A borrasca, conforme surgiu, assim se extinguiu. Mas, o cenário traduzia o estado caótico do solo e da flora. De onde estava, Bernardo apenas conseguia vislumbrar uma débil luminosidade, ao longe, no vale.
Montou Lucus e afastou-se do pesadelo». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, Publicações Europa-América 2010, edição nº 103583/9344.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O Livro de Cale. Carlos Cordeiro: Parte 2. «A proximidade de outras criaturas revelava-se autêntica. Sentiu um aperto no coração. Um temor desmedido apoderou-se de si, ante as aparentes investidas dos vultos. Porém, apenas de sombras se tratava. O suor misturou-se com os veios de água da chuva que lhe escorriam pelo corpo. Não havia descanso no difícil ensejo de escapar»

Cortesia de guardadorderebenhos

Floresta de Sobressalto
Parte 2
«No bosque, «Lucus» abrandou o galope. O tempo húmido passara a aguacento. Escurecia. Embrenhando-se entre os primeiros carvalhos, Bernardo pressentiu a mudança de uma forma algo estranha. Além da escuridão, fortes rajadas de vento, que estranhamente soprava na vertical, começaram a fustigar o monge e a confundir a orientação de «Lucus», empurrando cavalo e cavaleiro para o solo. A ventania ateimava no restolho, deixando no ar novelos de pequenas folhas secas.
Por instantes, Bernardo estremeceu. Entre a teia de folhas, pareceu-lhe ver, diante de si, a imagem de Mendes Pais, qual Eolo enfurecido e com propósitos ferinos. Porém, logo após, o vento cessou, por obra das copas das árvores que, ardilosas, se fechavam devagar protegendo o espaço sob si. Tudo pareceu parar, num ambiente manso e claro. Mas a bonança acanhou-se, perante uma bátega torrencial, que picou, cruel, por entre as folhas das árvores. Teimava em cair, forte e espessa. O solo inundou-se, enlameando a pista sob os cascos de «Lucus». E a figura do hediondo abade persistia aos olhos de Bernardo, assumindo raias de diabólica provocação.
Porém, de um momento para o outro, a torrente de água amainou por intervenção das folhas das árvores. Alongadas, qual tecto protector natural, passaram a cobrir o espaço em redor de Bernardo e da montada. O ambiente aquietou-se, cedendo apenas ao calcar ruidoso das patas de «Lucus». Com a mudança, já não era a efígie do sátrapa galego que aparecia ao monge, mas uma imagem cândida, porém prisioneira, de Mafalda, a emanar harmonia e serenidade no meio circundante.

Cortesia de europaamerica

Contudo, o repto sobrenatural pesava sobre os magoados ombros do monge, agora sob a forma de um granizo dolorosamente medonho. Dir-se-ia que a abóbada celeste se havia desmoronado, estilhaçando-se no bosque com o fito voraz de massacrar os homens e a natureza. Mas, uma vez mais, o sortilégio, divino, diria Bernardo, fez os ramos das árvores distenderem-se à passagem do cavaleiro, proporcionando-lhe, de novo, uma aura protectora e benfazeja.
Furioso e interminável, o combate entre os elementos, personificado por aquelas duas criaturas de relação tão próxima e carácter tão diverso, Mafalda e Mendes Pais, parecia uma imagem do eterno combate entre o Bem e o Mal, mediado, ainda assim, com êxito, pela intervenção divina. Se o domínio do Inferno constrangia os elementos atmosféricos, encontrava, porém, na flora, um adversário à altura, capaz de deter os assaltos insanos do mundo das trevas.
«Tréguas», suplicara aos poderes sagrados quando a desordem atingira o auge. «Outra prova? Estarei sob nova exigência que me engana? Porquê?» Bernardo não encontrava explicação plausível. Perdido na demanda, optou por se refugiar no aconchego dos seus credos, em busca de soberana protecção espiritual.
Pouco depois, o ambiente sublime aquietou-se. Apenas algumas gotículas de água salpicavam o ar, à passagem do cavaleiro. O céu desanuviara e era agora claro entre o rendilhado da vegetação. Porém, a bonança era passageira.

Cortesia de arautos

Mais à frente, Bernardo apressou a montada entre líquenes e arbustos frágeis, ao frágil abrigo do dédalo arbóreo. Começou a chover. Daí a pouco, chovia intensamente, de tal forma que ocultava a claridade celeste. O bosque era tão cerrado que parecia engolir a vida. Ali perto, raros movimentos indefiníveis roçavam os troncos. «Lucus» passou a trepar, num trilho pedregoso, através de penedos graníticos. Os breves raios de luz, que se esgueiravam entre as árvores, confundiam-se com vultos sinistros, que pareciam agitar-se, como silhuetas gigantes entre uma cortina de chuva persistente. Um relâmpago, logo seguido do ribombar do trovão, acusou sombras dúbias e sinistras. Longínquas, naquele momento, todavia, cada vez mais próximas.
Bernardo quis atribuir-lhes identidades, mas mais não fez do que sobressaltar-se com a proximidade do cenário fantasmagórico, que crescia, ameaçador. Incitou a montada a imiscuir-se no arvoredo mais denso e escuro mas não logrou afastar de si a sensação de estar a ser perseguido. Voltou a apressar «Lucus». Uma vez e outra, enquanto o tropel do animal e a pressão do ar se tornavam violentos. Confundidas nas teias da vegetação, pareciam surgir formas humanas, contudo, de aparência animalesca.

Chovia copiosamente. À medida que a velocidade do cavalo aumentava, Bernardo chamava a si toda a destreza para dominar a montada. O torpor confundia-lhe o discernimento e tolhia-lhe os movimentos. Continuou, buscando repetidamente em redor. Figuras larvares pareciam querer subjugá-lo. Aparentemente talhe de cavaleiros, de silhueta sinistra, montados em não sanhudas feras. Alarmado, Bernardo grudou-se à montada. Soltou uma mão da rédea e procurou a espada, porém, sem sucesso. Na fuga, o estrépito das patas do cavalo sobre o restolho tornara-se feroz, o ruído do tropel ensurdecedor, o cenário medonho, impedindo movimentos precisos. Muito próximo, Bernardo vislumbrou chispas de ferro a fenderem o ar direitas a si. A proximidade de outras criaturas revelava-se autêntica. Sentiu um aperto no coração. Um temor desmedido apoderou-se de si, ante as aparentes investidas dos vultos. Porém, apenas de sombras se tratava. O suor misturou-se com os veios de água da chuva que lhe escorriam pelo corpo. Não havia descanso no difícil ensejo de escapar. Mas, um pensamento surgiu, singular, a lembrar-lhe o crucifixo de madeira!» In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, Publicações Europa-América 2010, edição nº 103583/9344.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O Livro de Cale. Carlos Cordeiro: Parte 1. «Por isso, Bernardo exultava, sentindo no corpo um estranho formigueiro, aliado a lágrimas esparsas. «Que júbilo! Que felicidade ter sido acolhido com afecto no seio de Vallado, estrear-se no combate, ser reconhecido pelos pares e ter, também, a natureza corno testemunha»

Cortesia de wikipedia

Floresta de Sobressalto
Parte 1
«O espírito de Bernardo, desencadeara-se uma pira de expectativa, alimentada pelo apoio evidente que a águia, qual entidade divina e protectora, lhe havia prestado. Invadido por laivos de uma memória longínqua, Bernardo reconheceria a presença da águia no seu percurso dos últimos anos. Acontecera no breve encontro com Mafalda, durante a aprendizagem em Vallado e, havia pouco, na Garganta da Mina. A águia abençoara o amor no lago, havia sido cúmplice durante o tirocínio no mosteiro e sua aliada na peleja transmontana.
Tal como o Céu havia contrariado o Inferno, assim a águia vencera a serpente. Bernardo, cristão, derrotara Yusef, infiel. Para o monge, este credo era óbvio. No entanto, iria mais longe nas suas especulações. A águia, acompanhara os seus mais recentes ritos de passagem, estando presente nos momentos decisivos em que assumiria novas atitudes e melhores comportamentos. Por isso, Bernardo exultava, sentindo no corpo um estranho formigueiro, aliado a lágrimas esparsas. «Que júbilo! Que felicidade ter sido acolhido com afecto no seio de Vallado, estrear-se no combate, ser reconhecido pelos pares e ter, também, a natureza corno testemunha», pensava Bernardo.


Cortesia de wikipedia e europaamerica

Bafejado pela fortuna destas reflexões, Bernardo prosseguiu à mercê do terreno cada vez mais acidentado. Ao longe, havia deixado a bucólica seara transmontana, pintada de ocres e acastanhados, tingida por raros veios azulados de água límpida e serena. Algumas nuvens, ali e acolá, decoravam o infinito celeste, parecendo imóveis, pouco acima das copas de raros carvalhos. O ar adensava-se, pejado de humidade e prometendo um dilúvio.
Bernardo trilhava agora terrenos sobranceiros ao Douro, porventura mais seguros do que os do isolado planalto transmontano. A cada colina que transpunha, bosque que ultrapassava e riacho que fendia, ganhava outro alento, ciente do seu destino cada vez mais próximo. Inspirador, o ocaso tórrido indicava-lhe simultaneamente o seu lugar de origem e, agora, de destino. Bernardo conseguia vislumbrar uma ou outra aldeia e, por momentos, algumas habitações penduradas nas falésias durienses. Contudo, queria manter-se afastado o mais possível de eventuais encontros com os aldeãos.
Ao cair da noite, Savoredo estava à vista do cavaleiro, um lugar antes ocupado por berberes, expulsos pelos barões portucalenses havia pouco tempo. Do castelo restava apenas um pano de muralhas, pouco extenso, e uma torre semidestruída.
«Lucus» trepou alguns penedos, que antecediam escadas cavadas na rocha da antecâmara da torre. Do interior, apenas o esvoaçar desordenado de um bando de morcegos, alertados pelo barulho dos cascos do cavalo, alterou a calma do lugar. Da ruína, era possível avistar algumas léguas em redor. No cimo da torre, um silêncio profundo. «Ideal para pernoitar», pensou Bernardo ao reconhecer que «Lucus» estava extenuado. A noite caiu brandamente. O sono revelou-se justo.
Estátua de Vimara Peres, na cidade do Porto
Cortesia de wikipedia

Já a manhã abrasadora tinha dado lugar à tarde sufocante, quando Bernardo levantou as pálpebras, indolente e alheio às nuvens que manchavam um céu de chumbo. Ergueu-se, cambaleante, e foi direito ao bornal pendurado no dorso de «Lucus» remexeu o interior e atirou-se a uma côdea dura de dias. Com três dentadas, esgotou o alimento que o saciaria até ao entardecer. Abeirou-se de uma fonte e passou água pela cara. Depois, pegou no manuscrito de Cale e encostou-se ao tronco de um grande castanheiro. Pousou lentamente a folha e suspirou, talvez de ansiedade, porventura de cansaço, que o sono não banira do corpo magoado da jornada do dia anterior, das léguas de xistos sob um sol abrasador.
A leste, entardecia. Levantou-se vento e o manuscrito dobrou-se caprichosamente. Seria um sinal para partir. Bernardo sorriu, agradado. Voltou a enfiar o volume no bornal e levou a mão ao bolso da capa. Rebuscou, confirmando que o outro documento, cuidadosamente enrolado e laçado, se mantinha guardado. Levantou-se devagar, espreguiçou-se e respirou fundo. Pegou na capa, juntou o bornal e aproximou-se de «Lucus». Prendeu-lhe o saco e afagou-lhe a crina. Vestiu a capa, calçou as luvas e saltou para o dorso do cavalo. Perscrutou o horizonte, virou as rédeas a poente e desceu até, ao arvoredo que cobria um outeiro do outro lado do vale. Quando se fez ao caminho, Bernardo tinha apenas por companhia a canícula que se colava ao corpo». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, Publicações Europa-América 2010, edição nº 103583/9344.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

sábado, 21 de maio de 2011

O Livro de Cale. Carlos Cordeiro: «Por ocasião de uma disputa territorial entre o monarca e a diocese de Braga, Nuno Mendes assumira o partido desta...Encontrou a morte, depois de uma campanha aziaga que culminou em Pedroso. Nuno, ao perecer, pôs fim à dinastia dos duques de Portucale e condenou a sucessão dos seus filhos. Órfãos, foram obrigados a abandonar a morada paterna...»

Estátua de Vimara Peres, Porto
Cortesia de wikipedia  

«Corria o ano de 1082 e Bernardo habitava a casa dos Mendes, em terras da Maia, no território portucalense, à época administrado por um representante do monarca Afonso VI, domiciliado na Galiza com vinte e cinco anos de idade, de estatura elevada e robusto, Bernardo Mendes exibia muitas feições de família. Tinha cabelo acastanhado, tez escura, nariz afilado e face serena, pontuada por olhos verde-escuros e levemente rasgados. A testa alta e lisa revelava afoiteza e ventura. Além da compleição robusta, herdara do pai o espírito sagaz, laborioso e lutador. A mãe, falecida há poucos anos, aquando de uma epidemia, legara-lhe o apego às coisas da natureza e uma subtil índole bucólica.
Sendo o mais novo de cinco irmãos e estando habituado, desde cedo, a defender o seu lugar face aos seus germanos, Bernardo beneficiava, porém, da protecção privilegiada de seu tio, Hugo, conde de Ferreira. Este assumira a chefia da família Mendes após o desastre de 1071, aquando da morte do irmão Nuno na Batalha de Pedroso, onde ele enfrentara sem êxito o rei Garcia. Este herdara do pai, Fernando I, os territórios de Leão, Castela, Galiza e Portucale.


Cortesia de wikipedia

Nuno Mendes, à data governador do Condado Portucalense, apesar de hábil negociador e destro na governação, merecedor da confiança do velho Fernando, «o Magno», viu o seu crédito arruinado assim que Garcia tomou o poder. A revolta que liderou foi o auge de um conflito para o qual concorreriam vários compromissos frágeis. O carácter tempestuoso de Nuno justificava, também, por vezes, alguma sobranceria e impetuosidade nas contendas com os da Galiza. Assim viveu e, portanto, assim morreu.
Habituado a conviver com as classes privilegiadas do tempo, Nuno Mendes movia-se com mestria nos meandros da política que, nesta altura, envolviam a nobreza, o clero e o rei em frequentes situações de disputa. Essa precariedade obrigava-o a estabelecer alianças, nem sempre rigorosamente respeitadas de parte a parte, com elementos das famílias nobres, com a igreja e com os partidários do rei. Neste pleito, em que os mosteiros beneditinos galegos também se envolveram, o de Santo Alberico revelar-se-ia rápido e decisivo.

Cortesia de europaamerica

Por ocasião de uma disputa territorial entre o monarca e a diocese de Braga, Nuno Mendes assumira o partido desta, julgando contar com o apoio das abadias beneditinas da Galiza. Porém, foi obrigado a enfrentar o rei Garcia, apenas com a ajuda dos bracarenses, de alguns homens da Maia e de Ribadouro, mas sem o apoio galego. Encontrou a morte, depois de uma campanha aziaga que culminou em Pedroso, aonde nunca chegaram os prometidos reforços dos eremitérios galegos. Nuno, ao perecer, pôs fim à dinastia dos duques de Portucale e condenou a sucessão dos seus filhos. Órfãos, foram obrigados a abandonar a morada paterna, recolhendo-se sob a protecção do tio, em Ferreira. Nas exéquias do irmão, Hugo ainda reivindicou a administração dos seus territórios, situados em Portucale a pouco mais de uma légua da antiga muralha sueva, destruída em 825 por Almançor. Foi, contudo, confrontado com uma estranha reclamação de propriedade apresentada por Mendes Pais, abade beneditino do Mosteiro de Santo Alberico, na Galiza. O conde, porém, não consentiu a reclamação territorial e remeteu para Afonso VI a decisão sobre a futura administração das terras do seu germano, tentando, simultaneamente, granjear o favor dos notáveis portucalenses, de forma a pressionar o monarca». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, Publicações Europa-América 2010, edição nº 103583/9344.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

terça-feira, 26 de abril de 2011

O Livro de Cale. Carlos Cordeiro: «A constituição da nacionalidade portuguesa não foi, contudo, apenas obra individual de uma família portucalense, ainda que esta se tenha mantido no poder durante cerca de 200 anos. Foi também importante a contribuição de um grupo de poderosos infanções que ao longo do século X e XI, cimentou uma posição política e social...»

Cortesia de wikipedia 

«As primeiras referências históricas sobre o Condado Portucalense surgem já em finais do século IX. Todavia, as menções ao local cuja denominação daria origem ao nome do condado datam de há cerca de 2 mil anos. Com efeito, já no século I a. C., o historiador romano Salústico menciona a existência de uma civitas identificada como Cale. Esta denominação aparece mais tarde, no século II, no Itenarário de Antonino, que situa a povoação algures no caminho que ligava Liaboa a Braga. Associada, mais tarde, a um ponto de passagem entre as duas margens do Douro, Cale parece ter sido um porto de abrigo, situado na foz do rio, a cuja designação os romanos juntaram o vocábulo portus. Outro documento datado do século V, atribuído ao bispo Idácio, reporta a detenção em Portucale, por ordem do rei visigodo Teodorico, do monarca suevo Requiário.
A localização precisa do lugar, envolvida em alguma polémica após a descoberta das actas do Concílio de Lugo no século VI, que mencionavam a existência de um «Portucale castrum novum», situado na margem direita do rio, e de um «Portucale castrum antiquum», na margem esquerda, não prejudica, porém, a asserção de que do topónimo Cale tenha derivado Portucale, que, por sua vez, terá dado origem ao nome do Condado Portucalense.

Estátua de Vímara Peres. Porto
Cortesia de wikipédia 
Arrasadas por uma das campanhas de Almançor no final do primeiro quartel do século IX, as fortificações suevas do burgo portucalense seriam reconstruídas pelo trisavô de Egas Moniz, Moninho Viegas. Cerca do ano 865, a povoação de Portucale seria a mais importante da área que abrangia os territórios do Minho e algumas terras a sul do rio, recuperada aos mouros pelo conde Vimara Peres, oriundo da poderosa família dos Mendes. Estes, que se manifestaram com êxito no apoio à coroação do rei de Leão, representavam um dos baluartes defensivos dos territórios até ao Mondego e tiveram protagonismo na fundação de Portugal. Uns oram, outros guerreiam, outros trabalham. Do ponto de vista social, é ao clero, à nobreza e ao Povo que correspondem, essas atribuições. Era esta a ordem que organizava o medievo cristão, na segunda metade do século XI, na zona setentrional da Península Ibérica.
Em Portucale, no exercício de estratégias de coligação, revelar-se-ia capital o protagonismo de algumas famílias de infanções:
  • os Sousa,
  • os Bragança,
  • os Maia,
  • os Baião,
  • os Ribadouro, entre outros.

Cortesia de asleiturasdocorvo
A constituição da nacionalidade portuguesa não foi, contudo, apenas obra individual de uma família portucalense, ainda que esta se tenha mantido no poder durante cerca de 200 anos. Foi também importante a contribuição de um grupo de poderosos infanções (antigo título de nobreza inferior ao de rico-homem, nota de JDACT) que ao longo do século X e XI, cimentou uma posição política e social significativa, deu provas de uma capacidade de iniciativa e concretizou o exercício de poderes públicos a nível regional e local.
Para a concretização dessa realidade contribuiu, não só o esforço de organização e iniciativa de toda uma comunidade, mas também a gesta de algumas figuras ímpares em empenho e em audácia. Os nomes de alguns figuram no Livro de Cale.
Dele despontam ameaças, ódios, traição e morte. Por ele, transcendem-se ousadias, ultrapassam-se limites, fundam-se propósitos. Com ele, reconciliam-se solidariedades, criam-se amizades, unem-se paixões». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, Publicações Europa-América 2010, edição nº 103583/9344.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Egas Moniz o «Aio»: Na sua «astúcia» está a Independência de Portugal

(1080-1146)
Cortesia de trabalhoegasmoniz
Egas Moniz, dito «o Aio» foi um rico-homem portucalense, da linhagem dos Riba Douro uma das cinco grandes famílias do Entre-Douro-e-Minho condal do século XII, a quem Henrique de Borgonha, conde de Portucale confiou a educação do filho, Afonso Henriques, tarefa essa que lhe deu o cognome pelo qual é conhecido.

A batalha de Valdevez entre os exércitos de D. Afonso Henriques e Afonso VII de Castela não teve um resultado decisivo para nenhuma das hostes envolvidas. D. Afonso Henriques retirou-se para Guimarães com o seu aio Egas Moniz e com os outros chefes das cinco famílias mais importantes do Condado Portucalense, interessadas na Independência.
O monarca castelhano pôs cerco ao castelo de Guimarães mas o futuro rei de Portugal preferia morrer a render-se ao primo. Egas Moniz, fundamentado na autoridade que a posição e a idade lhe conferiam, decidiu negociar a paz com Afonso VII a troco da vassalagem de D. Afonso Henriques e dos nobres que o apoiavam.
O rei castelhano aceitou a palavra de Egas Moniz de que D. Afonso Henriques cumpriria o voto de vassalagem. Mas um ano depois, D. Afonso Henriques quebrou o prometido e resolveu invadir a Galiza, dando origem a um dos momentos mais heróicos da nossa História.
«Como Afonso Henriques não cumpriu o acordado por seu aio, Egas Moniz, segundo a lenda, ao saber do sucedido, deslocou-se a Toledo, a capital imperial, descalço e com uma corda ao pescoço. Acompanhado da sua esposa e filhos, colocou ao dispor do imperador a sua vida e a dos seus, como penhor pela manutenção do juramento de fidelidade de nove anos antes. Diz-se que o imperador, comovido com tanta honra, o perdoou e mandou em paz de volta a Portucale». In História de Portugal.

Este acto heróico impressionou também D. Afonso Henriques, que concedeu ao seu velho aio extensos domínios.
Segundo os historiadores, esta terá sido uma estratégia inteligente por parte de Egas Moniz para que o primeiro rei de Portugal pudesse ganhar tempo. Ao entregar-se, Egas Moniz ressalvava a sua honra e também a de Afonso Henriques, assegurando através da sua astúcia a futura Independência de Portugal.

Egas Moniz - Painel de Azulejo na Estação de São Bento (Porto)
Cortesia de trabalhoegasmoniz 
OS LUSÍADAS
Canto III
40
«Qual diante do algoz o condenado,
Que já na vida a morte tem bebido,
Põe no cepo a garganta e já entregado
Espera pelo golpe tão temido:
Tal diante do Príncipe indinado
Egas estava, a tudo oferecido.
Mas o Rei vendo a estranha lealdade,
Mais pôde, enfim, que a ira, a piedade.
 41
«Ó grão fidelidade Portuguesa
De vassalo, que a tanto se obrigava!
Que mais o Persa fez naquela empresa
Onde rosto e narizes se cortava?
Do que ao grande Dario tanto pesa,
Que mil vezes dizendo suspirava
Que mais o seu Zopiro são prezara
Que vinte Babilónias que tomara.
42
«Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
O Lusitano exército ditoso,
Contra o Mouro que as terras habitava
De além do claro Tejo deleitoso;
Já no campo de Ourique se assentava
O arraial soberbo e belicoso,
Defronte do inimigo Sarraceno,
Posto que em força e gente tão pequeno,
43
«Em nenhũa outra cousa confiado,
Senão no sumo Deus que o Céu regia,
Que tão pouco era o povo bautizado,
Que, pera um só, cem Mouros haveria.
Julga qualquer juízo sossegado
Por mais temeridade que ousadia
Cometer um tamanho ajuntamento,
Que pera um cavaleiro houvesse cento.

História de Portugal/Cortesia Instituto Camões/JDACT

Egas Moniz: O Nobel de Fisiologia/Medicina de 1949

(1874-1955)
Cortesia de sol.sapo
António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz foi um médico, neurologista, investigador, professor, político e escritor português. Foi galardoado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1949, partilhado com Walter Rudolf Hess.


Exame em Raios X dos vasos sanguíneos do cérebro, utilizando o método – angiografia cerebral – introduzido por Egas Moniz. Um contraste opaco aos raios foi introduzido num dos quatro vasos do pescoço (artéria carótida) que o conduzem ao cérebro. Estado normal (primeira imagem). Um caso de malformação situado na parte parietal do cérebro e provocado por uma artéria dilatada (segunda imagem)
In Nobel e-Museum, Instituto Camões

Formou-se em Medicina na Universidade de Coimbra, onde começou por ser lente substituto, leccionando anatomia e fisiologia. Em 1911 ocupou a cátedra de neurologia como professor catedrático na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. No serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria, Lisboa, existe o  Museu Egas Moniz, onde se pode vislumbrar uma restituição do seu gabinete de trabalho com as peças originais e vários manuscritos de sua autoria.
«Egas Moniz contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da medicina ao conseguir pela primeira vez dar visibilidade às artérias do cérebro. A Angiografia Cerebral, que descobriu após longas experiências com raios X, tornou possível localizar neoplasias, aneurismas, hemorragias e outras mal-formações no cérebro humano e abriu novos caminhos para a cirurgia cerebral».
Como investigador, Egas Moniz, contando com a preciosa colaboração de Pedro Almeida Lima, utilizou duas técnicas:

  • a leucotomia pré-frontal;

  • a angiografia cerebral.
Egas Moniz foi proposto cinco vezes (1928, 1933, 1937, 1944 e 1949) ao Nobel de Fisiologia ou Medicina, obtendo o galardão em 1949. A técnica desenvolvida por Egas Moniz, a operação ao cérebro chamada lobotomia, deixou de ser praticada pelos médicos.

A sua actividade política iniciou-se ainda em estudante.Foi defensor activo da liberdade de expressão e pensamento e, em 1908, foi preso por estar envolvido na tentativa de golpe de estado de 28 de Janeiro contra a ditadura de João Franco. Foi eleito deputado em várias legislaturas, fundou de o Partido Centrista, que pretendia unir antigos monárquicos de corrente progressista e republicanos que se afastavam do Partido Evolucionista. Defensor das liberdades públicas e dos direitos individuais, liderou a corrente parlamentar do Partido Nacional Republicano.  Em 1918 foi Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Sidónio Pais. Após o assassinato de Sidónio Pais, decidiu abandonar a política activa. Publicou a obra «Um Ano de Política», onde expôs os sentimentos e opiniões sobre o seu percurso político.
Passou então a dedicar-se à sua carreira científica.
Morre aos 81 anos em Lisboa.
Cortesia Instituto Camões/Ciências em Portugal
JDACT