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sábado, 19 de março de 2022

As Três Sereias. Irving Wallace. «Mas porque motivo se sente nervosa? Hackfeld já concordou em conceder um subsídio. Sabe que Maud afirma que necessitamos de mais. Como pode Hackfeld insistir num grupo…»

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«(…) Depois de acabar de comer os ovos, Claire ergueu os olhos e fitou o marido, que continuava ocupado com a sua refeição. Não se devia nunca observar uma pessoa quando ela comia. Parece ridícula, distorcida, comodista. Claire separou Marc da comida. Ele dava sempre a impressão de ser mais baixo do que ela, disse de si para si. Tem um metro e oitenta e três de altura, mas existe nele um hormónio perverso que lhe reduz a altura. Contudo, considerava-o fisicamente atraente. As suas feições, as suas proporções, eram correctas, regulares, equilibradas. O corte do cabelo parecia um anacronismo num rosto tão rígido, tão grave, embora lhe ficasse bem quando ele sorria, gracejava, se encontrava contente ou esperançado. Os olhos, de um cinzento opaco, eram profundos, mas bem distanciados um do outro. O nariz era aquilino, os lábios finos. Todavia, no aspecto geral, era belo, irradiava sinceridade, por vezes simpatia, como um estudioso austero. Tinha o corpo compacto, demasiado musculoso, de um atleta de segundo plano. Usava ternos largos, mas elegantes, que lhe assentavam bem. Se o aspecto dissesse tudo, pensou Claire, Marc seria mais feliz e ela reflectiria a felicidade dele. Mas o seu interior, sabia Claire, vestia com frequência roupagens diferentes, e ressentia-se do seu acanhamento. Não quis suspirar alto, porém isto aconteceu. Marc ergueu os olhos, interrogativamente. Claire tinha de dizer qualquer coisa. E disse: Sinto-me um pouco nervosa quando penso no jantar especial desta noite, nos convidados...

Mas porque motivo se sente nervosa? Hackfeld já concordou em conceder um subsídio. Sabe que Maud afirma que necessitamos de mais. Como pode Hackfeld insistir num grupo tão grande se se mostra tão avaro em relação ao dinheiro? É por isso que ele é rico. Ademais, tem muitas outras coisas em que pensar. Pergunto-me como Maud resolverá o problema com ele, declarou Claire. Deixe isso com ela. É a sua especialidade. Os olhos de Claire seguiram Suzu até ao fogão. Suzu, que haverá para esta noite? Frango à Teriyaki. O caminho para a bolsa de um homem passa pelo seu estômago. Brilhante, Suzu. Isso é bem verdade, retorquiu ela, sorrindo. Que bolsa? Que estômago? Maud Hayden encontrava-se à porta da sala de jantar. Os cabelos grisalhos achavam-se indescritivelmente revoltos, talvez devido ao vento. O rosto largo e enrugado estava corado. O corpo forte, mas atarracado, parecia não ter formas no casaco com capuz cor-de-rosa e na saia de flanela azul-marinho, e nos sapatos largos, grosseiros. Ela agitou sua bengala, um produto do Equador e do país dos jívaros. Qual é o assunto da conversa?, perguntou. Cyrus Hackfeld, o depositário do nosso dinheiro, respondeu Claire. Tomou já o café? Sim, há já algumas horas, disse Maud, tirando o capuz. Brrr. Faz um frio dos diabos lá fora. Sol e palmeiras, e contudo quase que enregelamos. Que espera em Março?!, exclamou Marc. O tempo da Califórnia, meu filho. Sorriu para Claire. De uma maneira ou de outra, dentro de poucas semanas teremos todo o tempo tropical que conseguirmos suportar. Marc ergueu-se e estendeu a pasta à mãe. A última comunicação sobre as pesquisas acaba de chegar.

Nem uma palavra sobre as Sereias. Um Daniel Wright viveu em Londres. E, até há muito pouco tempo, um Thomas Courtney exerceu a advocacia em Chicago. Maravilhoso!, exclamou Maud, despindo o casaco, com o auxílio de Marc. É do Courtney que eu dependo. Não calcula quanto vai-me auxiliar. Em seguida, dirigindo-se a Claire, acrescentou: Cada viagem de estudo decente demora de seis meses a um ano, e em certos casos mesmo dois anos. A mais curta em que tomei parte demorou apenas três meses. Mas aqui temos umas ridículas seis semanas. Por vezes, demoramos este tempo a localizar o nosso informante mais importante, uma pessoa na aldeia que seja relativamente digna de crédito, que conheça as lendas e a história, que não se importe de falar. Não é possível descobri-lo numa semana e estabelecer depois contacto com ele do dia para a noite. Tem de se esperar com paciência, aguardar que ele se habitue a nós, que aprenda a confiar em nós, e, por fim, que se dirija mesmo a nós. Se se descobre o homem de que se necessita, ele arranja as coisas de maneira a que não encontremos dificuldades na aldeia. Bem, no presente caso tivemos muita sorte. Courtney, se é o que Easterday diz dele, parece-me o perfeito intermediário. Ele tem o povo das Sereias preparado para nos dispensar um bom acolhimento. Compreende-nos e às nossas necessidades». In Irving Wallace, As Três Sereias, Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, 2000, ISBN 978-972-381-025-7.

Cortesia de LdoBrasil/DMundos/JDACT

JDACT, Irving Wallace, Literatura, A Arte, Polinésia, 

sexta-feira, 18 de março de 2022

As Três Sereias. Irving Wallace. «Mais alguma coisa acerca dele? Datas, em especial. Tem trinta e oito anos. Licenciou-se pelas Universidades Northwestern e de Chicago. Sócio de uma firma antiga. Foi aviador na Guerra da Coreia, em 1952»

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«(…) Suzu, sorridente, preparava-se para servir o café e Marc achava-se sentado à mesa da cozinha, inclinado sobre uma pasta aberta, quando Claire entrou. Esta deu o bom dia a Suzu e passou em seguida a mão pelo cabelo de Marc, cortado quase rente, ao mesmo tempo que lhe beijava uma das faces. Sentou-se, bebeu de um trago o suco de laranja e fez uma careta, pois esquecera-se de adoçá-lo. Depois, olhou para o outro lado da mesa. Maud ainda não chegou? Anda passeando por aí, retorquiu Marc, sem erguer os olhos. Claire mordeu o canto de uma torrada. Bem, disse, apontando para a pasta, a nossa Disneylândia polinésia existe realmente? Marc ergueu a cabeça e encolheu em seguida os ombros. Talvez sim, talvez não. Porém, gostaria de estar tão certo como a Matty. Deixou cair uma das mãos sobre os papéis que se encontravam diante de si. Os nossos estudantes parecem ter feito um belo trabalho, mesmo na Biblioteca do Congresso. Vasculharam toda a literatura sobre os Mares do Sul, a publicada e a não publicada. Nenhuma referência em parte alguma às Três Sereias. Nem uma palavra sequer...

Isto não deve surpreender. Easterday disse que era um grupo desconhecido. Sentir-me-ia mais tranquilo se houvesse alguma coisa publicada. Claro..., começou de novo a folhear as notas..., diversas outras fontes parecem apoiar um pouco as afirmações de Easterday. O quê, por exemplo? Existiu realmente um Daniel Wright, que viveu em Skinner Street, em Londres, antes de 1795. Em Chicago houve, também, um advogado chamado Thomas Courtney... Ah, sim?! Mais alguma coisa acerca dele? Datas, em especial. Tem trinta e oito anos. Licenciou-se pelas Universidades Northwestern e de Chicago. Sócio de uma firma antiga. Foi aviador na Guerra da Coreia, em 1952. Ao voltar, começou de novo a exercer a advocacia em Chicago. A partir de 1957 não se sabe mais nada. Foi nesse ano que partiu para os Mares do Sul, afirmou calmamente Claire. Talvez, volveu Marc. Sabê-lo-emos dentro de muito pouco tempo. Em seguida fechou a pasta e dedicou-se aos flocos de cereal e ao leite. Temos onze semanas para fazer compras de Natal, disse Claire. Não creio que se celebre o Natal nas Três Sereias, retorquiu Marc. Não é lugar para mulher..., entre aqueles primitivos. Se eu pudesse, deixaria você aqui, de boa vontade. Não ouse sequer tentá-lo!, exclamou Claire, com indignação. Além disso, não são inteiramente primitivos. Easterday afirmou que o filho do chefe falava um inglês perfeito. Muitos primitivos falam inglês, redarguiu Marc. Incluindo alguns dos nossos melhores amigos, acrescentou de súbito, sorrindo.

Não me agradaria também que você desperdiçasse muito tempo com eles. Encantada com esse interesse, que não era muito habitual no marido, Claire passou a mão sobre a dele. Esse interesse é mesmo verdadeiro?, perguntou. Dever masculino e instinto respondeu Marc. Proteger a nossa companheira... Mas, a sério, as viagens de estudo não são piqueniques. Já disse que detesto as que me vejo obrigado a fazer. Não são nunca tão idílicas na realidade como parecem quando as descrevem nos livros. Em geral descobrimos que não temos muito de comum com os nativos, além do nosso trabalho com eles. Tem-se saudade de todos os pequenos prazeres da vida. Inevitavelmente, adoece-se de disenteria, de malária, ou de qualquer outra maldita febre. Não me agrada expor uma mulher a todas essas situações difíceis, mesmo que se trate de um curto período. Claire apertou a mão do marido.

Você é um amor. Mas estou certa de que não será tão mau como supõe. Apesar de tudo, sempre terei a sua companhia e a de Maud. Poderemos estar muito ocupados. Farei o possível por me ocupar também com alguma coisa. Desejo participar de toda a experiência. Não diga depois que não a avisamos. Claire retirou a mão, pegou no garfo e enterrou-o, pensativa, nos ovos fritos. Conhecendo Marc como conhecia, perguntou-se se ele realmente estava tão interessado no seu bem-estar como queria fazer parecer, ou se projectava apenas seus próprios receios em relação a um facto novo e estranho. Era Marc, como tantos homens, constituído por dois indivíduos separados, constantemente em conflito, cada um deles decidido a obter uma paz separada? Irritá-lo-ia, intimamente, uma rotina monótona, e, ao mesmo tempo, encontraria segurança nela? Era tão firme, tão constante, nos seus movimentos diários como os ponteiros de um relógio que funciona como precisão? Todavia, poderia desejar fugir a esta existência, apesar da tranquilidade que ela proporcionava. Atrás deste ajustamento superficial talvez espreitasse um outro Marc, um Marc que partia para viagens de que ela jamais participaria, viagens a secretos Monte Cristo que temporariamente o libertavam das prisões do dinheiro e das celas do nada. Para ele, talvez as Três Sereias não oferecessem qualquer benefício pessoal, mas apenas o prosseguimento da rotina, mais penoso. Assim, transformaria a aversão que sentia pela sua própria destruição em desvelo e inquietação pela mulher». In Irving Wallace, As Três Sereias, Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, 2000, ISBN 978-972-381-025-7.

Cortesia de LdoBrasil/DMundos/JDACT

JDACT, Irving Wallace, Literatura, A Arte, Polinésia,

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

O Leito Celestial. Irving Wallace. «Mas seguindo os conselhos de especialistas, Kile sempre fora um investigador sagaz, mesmo na faculdade de direito, em Columbia…»

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«(…) Seus olhos se deslocaram para uma fotografia recente, em moldura de prata, que se encontrava num canto da mesa. A esposa, Miriam, atraente nos seus trinta e poucos anos, o filho risonho, Jonny, uma fonte de alegria. Freeberg pensou na sua idade; já se aproximava dos cinquenta anos, um pouco tarde para o primeiro filho..., mas nem tanto assim. Meneando a cabeça, ele pegou as anotações e tentou se concentrar no que escrevera. Reviu tudo depressa, depois largou os papéis. Já sabia tudo de cor e não precisaria consultar as anotações quando se dirigisse aos novos suplentes sexuais. Tinha ainda quinze minutos de espera antes que os cinco aparecessem. Quase como um relaxamento, pôs-se a reconstituir os acontecimentos dos últimos quatro meses, que o haviam levado àqueles momentos. Reviveu-os no presente. Duas semanas após o telefonema inicial de Freeberg, Roger Kile concluíra suas investigações em Los Angeles, encontrando o local ideal. Só que não exactamente em Los Angeles. Kile fora informado de que nessa cidade já havia muitos terapeutas sexuais, e os lugares mais apropriados estavam sendo vendidos a preços exorbitantes. Mas seguindo os conselhos de especialistas, Kile sempre fora um investigador sagaz, mesmo na faculdade de direito, em Columbia, com um conhecimento e interesses amplos, embora fosse um advogado fiscal, encontrara a comunidade em que o amigo poderia prosperar, a uma hora de carro de Los Angeles, ao norte. O lugar chamava-se Hillsdale, uma cidade em expansão, junto à estrada litoral, perto do oceano Pacífico, com 360 mil habitantes. Havia muitos psiquiatras e psicólogos, mas nenhum terapeuta sexual. Contactos bem informados garantiram a Roger Kile que uma clínica instalada por um terapeuta sexual respeitável em Hillsdale, com uma equipa de suplentes sexuais bem treinados e profissionais, haveria de prosperar. Kile fora informado por diversos médicos que em Hillsdale havia muitas pessoas perturbadas, com disfunções sexuais. Kile procurara dois correctores bem recomendados, que logo o levaram a quatro prédios de escritórios pequenos, que pareciam ser boas possibilidades. Freeberg reconhecera o prédio perfeito de imediato, com dois andares, vazio, desocupado pouco antes por uma cadeia de lojas de roupas, no meio da Market Avenue, perto da Main Street. Tudo fora se ajustando rapidamente. Freeberg contratara um jovem e excelente arquitecto para reformar o prédio nas linhas de sua clínica de Tucson.

Depois, Freeberg voltara de avião a Tucson para liquidar a antiga clínica. Miriam cuidara da venda da casa de adobe, em estilo de rancho, conseguindo um preço igual ao que haviam pago. Foram a Hillsdale quatro vezes no período subsequente. Enquanto Freeberg supervisionava a reforma do prédio da clínica, Miriam procurava uma nova casa. Encontrara uma residência maravilhosa, de um só andar, a aproximadamente cinco quilómetros da nova clínica do marido. Freeberg começara a recrutar o pessoal necessário para a clínica. Por intermédio de um médico que tinha um consultório próximo, doutor Stan Lopez, um clínico que lhe inspirara o maior respeito, Freeberg contratara Suzy Edwards para sua secretária pessoal. Lopez vinha usando Suzy como segunda secretária em meio expediente, e sabia que ela desejava um emprego em horário integral. Freeberg entrevistara Suzy, uma ruiva séria e interessada, com cerca de trinta anos. Ela se mostrara ansiosa pelo emprego, e Freeberg já fora informado de que era uma pessoa de confiança.

Depois, ele contratara Norah Ames como enfermeira e Tess Wilbur como recepcionista. Em seguida, Freeberg enviara cartas pessoais a todos os médicos e psicólogos da região que conhecera em convenções e seminários, comunicando a abertura da Clínica Freeberg, em Hillsdale, Califórnia, oferecendo tratamento intensivo e o uso de suplentes sexuais femininos e masculinos, quando houvesse necessidade. Enquanto aguardava respostas, Freeberg iniciara a busca de suplentes sexuais. A fim de encontrar candidatos, escrevera cartas pessoais para psicanalistas em Hillsdale e terapeutas sexuais em Los Angeles, Santa Barbara, San Francisco, Chicago e Nova York. Em poucas semanas recebera vinte e três solicitações de pessoas que desejavam ser suplentes sexuais. Enquanto isso, recolhera informações a respeito de pacientes que precisavam desesperadamente daquele tipo de terapia. Com base nessas informações, concluíra que precisaria de cinco suplentes sexuais, quatro mulheres e um homem, além dos serviços de Gayle Miller, que em breve deixaria Tucson e viria para Hillsdale. À medida que as candidatas a suplente se apresentavam, Freeberg examinava-as, entrevistando cada uma pessoalmente». In Irving Wallace, O Leito Celestial, 1987, Livros do Brasil, colecção Dois Mundos, ISBN 978-972-380-576-5.

Cortesia de LdoBrasil/JDACT

JDACT, Irving Wallace, Literatura,

terça-feira, 24 de agosto de 2021

As Três Sereias. Irving Wallace. «Já tomou o café? Ainda não. Estou-me vestindo. Espero por você, então. Tive de passar sem ele, esta manhã. Dormi de mais. Que quer que diga à Suzu?»

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«(…) Enquanto os fios de água desciam pelas curvas da sua carne cintilante, a sua mente voltou de novo à carta de Easterday. Que dissera ele acerca do vestuário usado nas Três Sereias? Os homens traziam sacos púbicos, presos frouxamente por fios. Decerto que isso não era realmente uma coisa chocante se se considerasse a maneira como os homens se vestiam nas praias durante o verão. Contudo, apenas aqueles sacos, e nada mais. Porém, eles eram nativos, e aquilo não podia deixar de ser decente, quase clínico. Vira centenas de fotografias de nativos, alguns deles sem qualquer saco púbico, e isso, neles, parecera absolutamente natural.

Ocorrera-lhe, uma vez que estava agora de pé no meio do quarto de banho, completamente nua, que era assim que teria de aparecer em público nas Três Sereias. Não, não era bem assim. Easterday escrevera que as mulheres usam curtos saiotes, sem qualquer roupa de baixo, e andam com os seios nus. Mas, céus, era quase o mesmo que mostrar todo o corpo.

Claire voltou-se para se mirar no espelho alto, da porta. Tentou imaginar o que pareceria dessa maneira, nua, aos nativos das Três Sereias. Tinha um metro e cinquenta e três centímetros de altura e pesava, conforme verificara aquela manhã, cinquenta e um quilos. O seu cabelo era escuro e brilhante, cortado curto, com as extremidades caídas sobre as faces. Os olhos em amêndoa pareciam de uma vaga casta do Extremo Oriente, faziam evocar as jovens submissas e recatadas da antiga Cathay, e contudo o efeito sofria o contraste da cor, azul-fumado; sexy, dissera uma vez Marc. O nariz era pequeno, com narinas bastante delicadas, os lábios de um vermelho profundo e a boca generosa, demasiado generosa. Do declive dos ombros e do peito, os seios desenvolviam-se gradualmente. Estes eram largos, cheios, como odiara que assim fossem na adolescência, todavia altos e jovens, o que constituíra uma fonte de saturação quando tinha vinte e cinco anos. As costelas mostravam-se um pouco, que pensariam os nativos?, mas o abdomem era quase liso, apenas ligeiramente arredondado, e as proporções das coxas e das pernas delgadas não pareciam más, realmente. Contudo, não se podia prever o que sentiriam outros povos, noutras culturas, os polinésios poderiam considerá-la magra, com excepção do peito. Então recordou-se do saiote. Trinta centímetros. Era fácil ver que trinta centímetros permitiam apenas dez de modéstia extra. Não falando do vento... Meu Deus, que aconteceria quando se curvasse ou levantasse a perna para subir um degrau, ou, também, como se sentaria? Decidiu discutir todo este assunto do vestuário com Maud.

De facto, uma vez que esta era a sua primeira viagem de estudo, devia perguntar a Maud o que se exigiria dela nas Três Sereias. Enquanto se enxugava, viu-se uma vez mais ao espelho. Como seria quando estivesse grávida? Realmente, tinha uma barriga tão pequena! Onde haveria espaço para outra pessoa, o seu bebê? Bem, havia sempre, a natureza tinha seus segredos, mas era absolutamente impossível prever, neste momento, o que aconteceria. Ao pensar na criança que teria, mas não tinha, franziu automaticamente a testa. Desde o princípio falara com paixão, e mais tarde com naturalidade, em ter um filho, mas Marc opusera-se a isto. Isto é, opunha-se por agora, disse sempre. As razões que o levavam a pensar assim pareciam importantes, quando as manifestava; porém, quando se encontrava só, com tempo para meditar nelas, pareciam-lhe sempre insignificantes. Devemos ajustar-nos primeiro ao casamento, afirmara ele uma vez. Devemos reservar alguns anos só para nós e evitar todas as responsabilidades que pudermos, declarara de outra. E por último acrescentara mais uma razão: era preciso que Maud se instalasse numa outra casa, se separasse deles, vivessem sós, os dois, antes de iniciarem uma nova família.

Agora, à medida que passava a toalha pelas pernas, perguntava-se se qualquer dessas razões era honesta, para não dizer válida, ou se dissimulava a verdade: que Marc não desejava um filho, que temia ter um, pois ele próprio era ainda uma criança, uma criança crescida, demasiado dependente para arcar com responsabilidades. Claire não gostou dessa momentânea suspeita e decidiu não especular mais.

Ouviu bater à porta, atrás do espelho. Claire? Era a voz de Marc. Teve um sobressalto de surpresa e sentiu-se culpada, devido a seus pensamentos, agora que Marc estava tão perto. Bom dia, volveu, com alegria. Já tomou o café? Ainda não. Estou-me vestindo. Espero por você, então. Tive de passar sem ele, esta manhã. Dormi de mais. Que quer que diga à Suzu? Alguma coisa especial? O costume. Muito bem... A propósito, a última comunicação sobre as pesquisas chegou já de Los Angeles. Novidades sensacionais? — Ainda não tive tempo de examiná-la. Vamos lê-la juntos, ao café. Muito bem. Depois de Marc se afastar, Claire pôs rapidamente o soutien, as calcinhas, colocou o cinto das ligas, calçou as meias e prendeu-as e vestiu a combinação cor-de-rosa. Ao sair da atmosfera quente do banheiro para entrar no quarto, mais fresco e claro, perguntou-se se a comunicação apresentaria qualquer facto novo. Dentro de alguns minutos saberia. Penteou-se apressadamente, pôs batom nos lábios, não usava cosméticos no resto do rosto, vestiu a saia leve de lã cor de cacau, em seguida o suéter de cachemira bege, abotoou-o, procurou uns sapatos de salto baixo, calçou-os, dirigiu-se imediatamente para o hall e desceu as escadas». In Irving Wallace, As Três Sereias, Livros do Brasil, coleção Dois Mundos, 2000, ISBN: 978-972-381-025-7.

Cortesia de LBrasil/DMundos/JDACT

JDACT, Irving Wallace, Literatura, A Arte, 

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

A Segunda Dama. Irving Wallace. «Hum... Acabou de comer a sanduíche e inclinou a cabeça. Julgo que sim, substancialmente. Colocou a mão diante da boca e utilizou um palito para retirar resíduos de comida entre os dentes»

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«(…) Pelo menos, tanto como Rosalyrtn Cárter. Tem instintos extraordinários. Quanto a mim, nunca houve lá uma mulher tão atraente. Concordo. É lyn prazer trabalhar com ela. Tem-na visto com frequência, desde que se tornou Primeira Dama? Não. Tenho pouco em comum com a Ala Leste. Pertenço à fauna da Ala Oeste. Política presidencial, exclusivamente. Em todo o caso, ela mostrou-se amável ao ponto de me convidar para três ou quatro jantares oficiais. Eu não sabia que você figurava no seu passado. Um dia, não há muito tempo, ela mencionou-o. Sim? A que propósito? Disse que lhe salvou a pele na sua primeira reportagem no Los Angeles Times. Falou disso? Sim. Afirmou que lhe devia muito. Outro qualquer teria feito o mesmo. No fundo, como repórter, não passava de uma principiante que acabava de abandonar a universidade, com um par de trabalhos publicitários no seu activo. Kilday fez uma pausa. Que lhe revelou? Apenas os factos gerais. Pensa que você pode desenvolvê-los. Precisamos de material colorido para o livro. Continue. O primeiro trabalho para o jornal, por exemplo salientou Parker. Era muito importante para ela, e o administrador..., ignoro o nome... Dave Nugent. Obrigado. Incumbiu-a de entrevistar uma pessoa de relevo... O dr. Jonas Salk, da vacina contra a poliomielite. Deslocou-se de La Jolla para pronunciar um discurso em Los Angeles. Exacto. Por conseguinte, ela solicitou a entrevista e obteve-a. Salk mostrou-se cordial e forneceu-lhe material excelente. Billie sentou-se diante da máquina de escrever, compôs o artigo e entregou-lho, para que o apresentasse ao administrador. Ora, você considerou o texto horrível, próprio de uma principiante, menosprezando os pontos mais importantes, etc., e, sem lhe dizer nada, conservou-o em seu poder, pois sabia que se o editor o lesse a despedia imediatamente. Assim, confiou-o a um amigo, um veterano chamado Steve Woodson... Steve Woods corrigiu Kilday. Pois, obrigado. Ele reescreveu o artigo totalmente e devolveu-lho. Você mostrou-o então ao editor, que gostou e concedeu um lugar permanente a Billie, a qual ficou abismada com o que viu publicado. Foi ter consigo e você elucidou-a. Explicou que a entrevista fora conduzida de uma forma deplorável e indicou onde tinha errado, acrescentando que a entregara a Woods, para que a alterasse, tornando-se necessário rectificar os tópicos abordados para ficar aceitável. Ela demonstrou que podia aprender com rapidez e, a partir de então, procedeu em conformidade com as regras. Esta é a versão da Primeira Dama. Corresponde à verdade, substancialmente?

Hum... Acabou de comer a sanduíche e inclinou a cabeça. Julgo que sim, substancialmente. Colocou a mão diante da boca e utilizou um palito para retirar resíduos de comida entre os dentes. Só noto uma incorrecção, e deve-se ao facto de eu nunca lhe haver revelado a verdade. Não interveio nenhum Steve Woods. Na realidade, nunca existiu, de contrário eu não lhe mostraria o artigo para que ninguém soubesse que ela produzira uma borracheira no seu primeiro trabalho. Não queria que o facto chegasse ao conhecimento das altas esferas do jornal. O que aconteceu foi que o levei para casa e tratei de reescrever, sem que jamais lhe falasse nisso. Portanto, continua sem saber e você não se pode servir desse episódio. Revelo-lho apenas a título confidencial. Enquanto terminava o café, Parker reflectia que tinha na sua frente um homem curioso. Já não havia muitas daquelas pessoas do tipo altruísta, mesmo tratando-se da Primeira Dama como principal personagem envolvida. Sem dúvida assentiu, após breve silêncio. Por conseguinte, ela ingressou nos quadros do jornal e dedicou-se a entrevistas importantes durante cerca de três anos. Certo. E uma das últimas foi a um senador da Califórnia chamado Andrew Bradford, altura em que se iniciou verdadeiramente a sua história. com certeza. Gostava de recolher elementos sobre outras celebridades que entrevistou antes disso. Não vejo inconveniente». In Irving Wallace, A Segunda Dama, 1980, Editora Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, 1983, ISBN 978-972-380-936-7.

Cortesia ELdoBrasil/JDACT

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A Segunda Dama. Irving Wallace. «Mas primeiro gostava de ouvir informações dos seus lábios. Que sucedeu na sua reportagem inaugural? E ela elucidara-o acerca do que conseguira evocar»

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«(…) Exacto. O Phileas Fogg de Verne fê-lo nesse lapso de tempo em ficção, enquanto Nellie Bly completou a viagem na realidade em 1889 e 1890. Circundou o mundo em setenta e dois dias. Por outro lado, antes disso, quando iniciava as actividades como repórter estagiária no World de Nova Iorque, efectuou uma reportagem sobre loucos que tinham sido isolados na Ilha Blackwell e a forma como eram tratados. Mas em vez de recolher elementos pelos meios ortodoxos, disfarçou-se com roupas andrajosas, assumiu uma expressão alucinada e conseguiu que a internassem lá. Inteirou-se assim, em primeira mão, das condições miseráveis e crueldade dispensadas aos companheiros. Quando regressou à liberdade, escreveu dois artigos de primeira página sobre a experiência que vivera. As revelações tornaram-na famosa de um dia para o outro. Portanto, voltando ao nosso assunto, tinham-me encomendado uma tarefa de rotina relativa a um centro de reabilitação de drogados em Santa Mónica, lembrei-me de Nellie Bly e cismei: porque não? Conseguiu ser admitida no centro como toxicómana?

Consumidora de cocaína. E resultou. Mesmo em cheio. Depois, escrevi a reportagem na primeira pessoa, do ponto de vista de uma paciente. Bem, não direi que foi sensacional (apareceu numa publicação pouco importante ao lado de anúncios de compra e venda de propriedades), mas fez incidir uma certa atenção em mim e alguns elogios. Em particular, da minha família. Meu pai adorou-a. Ficou mesmo tão impressionado, que enviou uma cópia a um amigo pertencente à administração do Los Angeles Times. Este também a apreciou, além da particularidade de ter sido escrita pela filha de Clarence Lane (meu pai era muito conhecido na altura, pelos seus inventos), e mostrou-a ao editor, o qual me convocou para uma entrevista e decidiu admitir-me nos quadros do jornal, à experiência. Que aconteceu? O meu primeiro trabalho foi um fiasco. Billie Bradford soltara uma risada. Tinham-me posto na rua passadas quarenta e oito horas, sem a intervenção de George Kilday. Era o responsável do departamento de reportagens e salvou-me a pele. Como?

Preferia não aprofundar o assunto. Pergunte-lhe, que não hesitará em o elucidar. Agora, trabalha aqui, em Washington, como chefe da delegação do Los Angeles Times. De qualquer modo, acho conveniente que o procure. Há-de fornecer-lhe muitos elementos acerca da minha incursão pelo jornalismo que já não recordo. Tem, realmente, um dado clínico, no que se refere a repórteres. Fale com ele. Não deixarei de o fazer, mrs. Bradford. Mas primeiro gostava de ouvir informações dos seus lábios. Que sucedeu na sua reportagem inaugural? E ela elucidara-o acerca do que conseguira evocar. Isto ocorrera há alguns meses e fora o momento em que Parker se inteirara pela primeira vez do modesto papel desempenhado por Kilday na vida de Billie Bradford. Em face disso, decidira encontrar-se com ele e, à terceira tentativa, achava-se finalmente sentado na sua frente, no café do Madison. Parker apressou-se a manifestar gratidão pelo espírito de cooperação do jornalista, que esboçou um gesto de protesto. A empregada reapareceu para receber instruções e, enquanto Kilday esquadrinhava a ementa e optava por canja de galinha e uma sanduíche de queijo e alface em pão de centeio, Parker observava-o dissimuladamente. Tinha sobrancelhas brancas espessas, nariz proeminente, queixo largo com dois pequenos cortes produzidos ao fazer a barba, numa cabeça apoiada num pescoço curto e corpo atarracado envolto num fato cinzento amarrotado.

Depois de encomendar por seu turno, indicou o gravador na mesa de plástico entre ambos e perguntou: Importa-se? De modo algum. Confesso que nunca utilizo essas geringonças. Acho-as uma perda de tempo. Dão muito trabalho na transcrição e a maior parte do material não é essencial. Mas não me importo absolutamente nada que se sirva de uma. Parker premiu uma tecla e as bobinas da cassette principiaram a girar. Há quanto tempo está em Nova Iorque? Fui transferido para cá no ano anterior ao ingresso de Billie Bradford na Casa Branca. Há três anos e meio, portanto. Mais ou menos. Orgulho-me muito dela. Incutiu uma aparência nova à Casa Branca. É elegante como Jacqueline Kennedy, inteligente e honesta como Betty Ford e mais criativa que ambas, assim como mais ao corrente das questões políticas». In Irving Wallace, A Segunda Dama, 1980, Editora Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, 1983, ISBN 978-972-380-936-7.

Cortesia ELdoBrasil/JDACT

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segunda-feira, 22 de março de 2021

A Segunda Dama. Irving Wallace. «Uma vez no átrio decorado com requinte, o ar condicionado proporcionou-lhe alívio imediato e novas energias»

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«(…) No momento em que saiu do prédio de apartamentos em Georgetown, Guy Parker pressentiu que não estava nos seus dias. Quando Washington D.C. se apresentava quente e húmida, não havia em todo o mundo cidade mais sufocante, com efeito, ao entrar no beco, para se dirigir à garagem, já tinha o corpo inundado de transpiração. Havia manchas de suor das axilas até à cintura e a camisa colava-se à pele como uma vasta ligadura adesiva. Depois de abrir a porta do seu novo Ford, despiu o casaco de seersucker, aliviou a gravata de malha e instalou-se ao volante. Em seguida, dobrou o casaco, pousou-o no banco de trás e colocou o gravador em cima. Depois de ligar o motor e abandonar o beco, acelerou e seguiu, o mais rapidamente possível, em direcção ao Hotel Madison, onde devia comparecer para almoçar, às 13.30. Não queria chegar atrasado, porque o seu convidado era uma pessoa muito atarefada e lhe fazia um favor. com efeito, nas duas vezes anteriores que combinara almoçar com George Kilday, este cancelara o encontro no último momento, em virtude de uma reportagem urgente. Uma hora antes, Guy Parker telefonara-lhe para a redacção do Angeles Times em Washington e obtivera confirmação de que não faltaria. Assim, estava resolvido a ser pontual, por se tratar na verdade de um favor. O outro nada tinha a lucrar com a entrevista, ao passo que ele obteria inegáveis benefícios. Constava na cidade, pelo menos entre os membros do Quarto Estado, que Parker arrecadaria meio milhão de dólares do (nota: a Tecido indiano de linho, com riscas brancas e azuis) adiantamento do editor à Primeira Dama pela sua autobiografia (os outros quinhentos mil destinar-se-iam a obras de caridade). Kilday poderia ter todos os motivos para sentir inveja e revelar escasso espírito de cooperação, mas, ao invés, demonstrara que era uma pessoa atenciosa, um veterano que gostava de ver os escritores mais novos triunfar.

Parker alcançou o Madison cinco minutos antes da hora estipulada e, pegando no gravador e casaco, confiou o carro ao porteiro. Uma vez no átrio decorado com requinte, o ar condicionado proporcionou-lhe alívio imediato e novas energias. Passou rapidamente diante da Recepção sem se deter e dirigiu-se ao café despretensioso. Ao transpor a entrada, viu uma empregada acompanhar Kilday a uma mesa e acercou-se com prontidão, acenando cordialmente, gesto que o outro retribuiu. Não conhecia bem Kilday, mas falara com ele umas seis vezes nos últimos dois anos e meio, quando Parker fora um dos redactores dos discursos do Presidente, conquanto se limitassem, a trocar breves impressões sobre política.

Por conseguinte, conhecia-o pouco, pessoalmente, à parte o facto de ser um jornalista respeitado pelos colegas pela persistência e rigor com que investigava os temas das reportagens. Parker ignorava a existência de um elo entre Kilday e a Primeira-Dama, até ao dia em que a própria Billie o mencionara, quando conversavam acerca do período após a formatura dela em Vassar, com uma classificação distinta em jornalismo. Antes da aposentação do pai, trabalhara na agência publicitária que se ocupava da negociação das invenções do progenitor. Billie obtivera colocação numa firma de relações públicas de Nova Iorque e, mais tarde, fora sua representante em Londres durante uma curta temporada. A seguir, regressara a Los Angeles determinada a escrever um romance, que rasgara quando ia a meio.

Pouco depois, conseguiu um lugar no Los Anjeles Times?, perguntara Parker. Não foi bem assim. Na realidade, tive o meu primeiro emprego numa folha insignificante de Santa Mónica, por um salário que nem merece a pena referir. No entanto, o dinheiro não interessava. De facto, não me fazia falta. Em todo o caso, proporcionou-me acesso a muitos acontecimentos e locais que, de contrário, não conheceria. Um dia, o editor incumbiu-me de uma reportagem sobre um centro de reabilitação de drogados e, em vez de proceder em obediência à rotina, entrevistando o director, acudiu-me uma ideia inspirada por uma passagem que lera numa biografia de Nellie Bly. A que tentou bater o recorde de Júlio Verne da volta ao mundo em oitenta dias?» In Irving Wallace, A Segunda Dama, 1980, Editora Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, 1983, ISBN 978-972-380-936-7.

Cortesia ELdoBrasil/JDACT

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domingo, 21 de março de 2021

Irving Wallace. A Segunda Dama. «E agora, decorrida mais de uma hora, tinha consciência de que a conferência de Imprensa chegara ao fim. Nora e Laurel encontravam-se de pé, ladeando-a…»

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«(…) A seguir, entrara na panela de pressão. Houvera um longo almoço na Sala de Jantar da Família oferecido às mulheres dos dirigentes da maioria e minoria no Senado e Casa de Representantes, assim como às de vários chefes de comissões importantes. Depois, recebera os vencedores de um concurso de pintura patrocinado por uma associação nacional de deficientes, após o que o próprio Ladbury, acabado de chegar de Londres, aparecera para a prova preliminar dos vestidos que ela esperava usar na União Soviética e Inglaterra. Sem uma pausa, auxiliada pela criada pessoal, Sarah Keating, imergira na busca de um velho livro de recortes dos tempos da universidade de que Guy Parker necessitava para fonte de consulta da autobiografia que escrevia em seu nome. Logo em seguida, descera a escada apressadamente e dirigira-se ao Jardim das Rosas. Fazia uma tarde de Agosto cálida e, no ambiente aprazível, recebera a delegação das Escuteiras e respectivas chefes, no intuito de distribuir os prémios às que haviam prestado serviços notáveis à comunidade com menos de cinco minutos disponíveis, acompanhara Nora à Sala Oval Amarela do primeiro piso, onde os representantes da Imprensa tomavam chá, enquanto a aguardavam.

E agora, decorrida mais de uma hora, tinha consciência de que a conferência de Imprensa chegara ao fim. Nora e Laurel encontravam-se de pé, ladeando-a, e ela ergueu-se do sofá com prontidão para murmurar palavras de agradecimento aos presentes e despedir-se. Quando a sala se esvaziou, Billie pemaneceu de pé, sem energia. O sorriso formal, longamente congelado nas feições pálidas clássicas, converteu-se numa expressão rígida. O dia crucial chegara ao fim, mas faltava ainda uma coisa. Havia um derradeiro acto a efectuar. Empertigando-se, abandonou a sala só, seguiu pelo extenso corredor em direcção ao elevador e entrou na cabina. Minutos depois, encontrava-se na Ala Oeste, rumo à Sala do Gabinete. Embora raramente se sentisse apreensiva ou nervosa, acudiam-lhe ambas as emoções naquele momento. O espaçoso aposento cheirava a couro e fumo de charuto. Como previra, eles achavam-se lá, os cinco, sentados na extremidade mais próxima da mesa de mogno, olhos ainda cravados nos écrans dos dois monitores de televisão, os quais apresentavam imagens da Sala Oval Amarela que ela acabava de abandonar.

O mais corpulento do grupo, de tronco maciço como um barril, general Ivan Petrov, chefe do KGB, pôs-se de pé imediatamente, com um sorriso de satisfação no largo rosto eslavo. Ah, Vera Vavilova! Acercou-se dela e beijou-a nas faces com formalidade. Foi extraordinária, minha amiga. Uma interpretação sem a mínima falha. Os meus parabéns! Atrás dele, os outros o coronel Zhuk, Alex Razin e dois homens que não conhecia tinham-se levantado igualmente para a felicitar. Obrigada articulou ela, sentindo o coração voltar a palpitar normalmente. Muito obrigada. Terminou, pois, o ensaio geral volveu o general Petrov. Fez uma pausa para a observar com curiosidade. Pensa que está preparada? Creio que sim foi a resposta firme.

Muito bem. Ele pegou no boné. Vamos ao Kremlin informar o Primeiro-Ministro. Quando saíram da Sala do Gabinete, ela seguiu-os e acompanhou-os com o olhar, enquanto entravam na limusina e abandonavam a falsa Casa Branca, atravessando o portão no muro elevado, aberto por guardas do KGB. Olhando através do espaço, avistou as distantes cúpulas e agulhas douradas no interior do Kremlin e o perfil de Moscovo. Mais três dias, após cerca de três duros anos, reflectiu. Por fim, Vera Vavilova sorriu para consigo. Desta vez, um sorriso autêntico. Sim, estava preparada». In Irving Wallace, A Segunda Dama, 1980, Editora Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, 1983, ISBN 978-972-380-936-7.

Cortesia ELdoBrasil/JDACT

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sexta-feira, 19 de março de 2021

A Segunda Dama. Irving Wallace. «… explicando-lhes que, após a viagem a Moscovo e antes da partida para Londres, teria de permanecer um dia em Los Angeles, oportunidade que aproveitaria para os visitar»

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«Sentada ali, ela começou a sentir-se melhor. A provação estava quase no fim. O mobiliário Luís XVI da Sala Oval Amarela fora disposto de outro modo. Ela instalava-se, empertigada, alerta, no meio do sofá listado, de costas para a janela arqueada e extensão de relvado ao sul, enfrentando pelo menos vinte repórteres femininos e quatro masculinos da Casa Branca, na sua maioria em cadeiras dobráveis, todos impacientes. Colocara-se entre Nora Judson, sua secretária de Imprensa e amiga, e Laurel Eakins, secretário de entrevistas, o que resultava amparador e confortável. Mas o peso recaíra nela. Desde que se tornara Primeira-Dama, apenas concedera quatro conferências de Imprensa em dois anos e meio. Aquela, a instâncias do marido (mais aparições em público podem ser vantajosas para ambos), era a quinta. Em virtude do seu longo silêncio, a Imprensa comparecera com uma sobrecarga de perguntas.

Embora não se houvessem registado soluções de continuidade nos últimos sessenta minutos, as interrogações tinham-se revelado, na sua maioria, fáceis e frívolas. Era verdade que se sujeitava a uma dieta de baixo nível de hidratos de carbono? Tencionava reatar as lições de ténis? Interviria activamente na campanha do marido para as primárias? O Presidente confiava nela e consultava-a em questões de Estado? Que livros lera ultimamente? Tinha uma opinião formada sobre a moda feminina actual? Ladbury, de Londres, continuava a ser o seu costureiro preferido? Qual fora a sua reacção às recentes sondagens públicas que a consideravam a mulher mais popular no mundo de hoje? E assim sucessivamente, sem pausas.

Agora, uma mulher corpulenta com sotaque fanhoso do Texas formulava uma pergunta de carácter mais sério: mrs. Bradford, quanto à notícia de que estará presente na Reunião Internacional das Mulheres em Moscovo, esta semana, antes de acompanhar seu marido à Cimeira de Londres... Sim? ... , alterou o seu ponto de vista acerca da Emenda à Igualdade de Direitos ou do aborto? E pensa pronunciar-se sobre esses temas na capital soviética? Ela sentiu a secretária de Imprensa agitar-se em desconforto a seu lado, mas ignorou a advertência e declarou: pretendo discutir os dois assuntos na minha intervenção. Quanto ao meu ponto de vista, não sofreu a mínima alteração. Continuo a acreditar que a igualdade de direitos para as mulheres nos Estados Unidos há muito que devia vigorar, e cada dia que passa recebemos mais manifestações de apoio. No caso do aborto, há muitos pontos a debater por ambas as partes. Fez uma pausa à espera do suspiro de alívio da secretária, ouviu-o e continuou: no entanto, penso que não deve existir legislação alguma contra a sua prática, mas reservar a decisão, individualmente, a cada mulher nessa situação. Referir-se-á a isso em Moscovo?

Sem dúvida. Tentarei igualmente determinar, com base nos dados estatísticos à minha disposição, como pensam as mulheres dos Estados Unidos neste momento, a respeito de ambos os tópicos. Levantou-se outra repórter, alta, de ossos salientes, que se exprimiu com a inflexão bem modulada de Boston: mrs. Bradford, pode revelar-nos que mais espera discutir na Reunião Internacional das Mulheres? A mulher no mundo do trabalho americano. A mulher nas nossas forças armadas. Enfim, um largo número de tópicos. Quando regressar, apresentarei um relatório minucioso.

A editora da secção feminina do New York Times pôs-se de pé por sua vez. Consta que permanecerá três dias em Moscovo. Pode mencionar algumas outras actividades, além das reuniões, a que tenciona dedicar-se? Bem, como se trata da minha primeira visita à União Soviética, espero dispor de tempo para algumas digressões turísticas. Em todo o caso, Nora, aqui presente, está mais familiarizada com o meu programa. Olhou Nora Judson significativamente e esta apressou-se a fazer uso da palavra, de forma fluente e eficiente. Billie Bradford reclinou-se com alívio, pela primeira vez. O dia, em particular a parte da tarde, fora tão activo, que só agora se dava conta do cansaço que a invadia. Sentia-se em desalinho. Baixou os olhos para a camisola de caxemira azul-clara e saia de uma tonalidade mais escura e convenceu-se de que continuavam apresentáveis. Então, devia ser o cabelo. Penteara a longa cabeleira loura para trás, com uma fita de seda em volta do rolo, mas, como sempre, haviam-se desprendido algumas madeixas, que pendiam sobre a fronte. Com um gesto característico, tratou de as impelir para a posição conveniente.

Nora explicava, em voz firme e clara, o itinerário da Primeira-Dama em Moscovo e esta sentia-se-lhe grata. Fingindo prestar atenção às palavras da sua secretária, Billie Bradford deixou o espírito retroceder para o fim da manhã daquele dia crucial e depois avançar ao longo da tarde até ao momento presente. Antes do meio-dia, despachara toda a correspondência pessoal, em especial as cartas destinadas ao pai em Malibu e à irmã mais nova, Kit, explicando-lhes que, após a viagem a Moscovo e antes da partida para Londres, teria de permanecer um dia em Los Angeles, oportunidade que aproveitaria para os visitar». In Irving Wallace, A Segunda Dama, 1980, Editora Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, 1983, ISBN 978-972-380-936-7.

Cortesia ELdoBrasil/JDACT

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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Os Sete Minutos Irving Wallace. «Encadernado e em brochura, já se venderam mais de seis milhões de exemplares, e decerto anda próximo dos sete milhões nesta altura»

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«(…) Este é um aspecto do comércio de livros, por trás do alarido dos críticos e dos anúncios de que o público nem toma conhecimento. Mas de vez em quando, de tantos em tantos anos, se a gente tem sorte, pega-se num negócio de arromba, um romance de estreia que sai a chispar que nem avião a jacto. É o caso de Os Sete Minutos. Claro que já vinha com toda a propulsão preparada. Aquela série de proibições sem fim. Essa conversa de ser imoral, o que ele não é. Agora, pela primeira vez em trinta e cinco anos, as pessoas poderão constatar por si mesmas. Portanto, temos encomendas para cento e trinta mil exemplares e esperamos receber para o resto dos duzentos mil, uma semana depois que o livro tiver saído. E isto é apenas o começo, Mike. Quando estiver exposto em toda a parte, e à venda, e as pessoas passarem a comentar, a discutir, a propaganda de boca fará o negócio pegar fogo. Pode-se chegar a trezentos ou quatrocentos mil exemplares em poucos meses. E isso ainda não é nada. Vamos abrir concorrência para as reedições de bolso. Depois de o tornarmos respeitável, mostrando que foi aceite, vão disputar os direitos de reimpressão como se fosse leilão. O que talvez signifique um milhão de dólares para iniciar, sem contar as futuras vendas e direitos autorais, e não esqueça que Sanford House, a editora, fica com cinquenta por cento da renda das edições de bolso. Entende o que quero dizer, Mike? Não há limite. Você sabe quanto já rendeu O Amante de Lady Chatterley, segundo as últimas estimativas? Encadernado e em brochura, já se venderam mais de seis milhões de exemplares, e decerto anda próximo dos sete milhões nesta altura. Pois é o que temos nas mãos agora, talvez até mais, muito mais, com Os Sete Minutos. E você conhece a minha situação, Mike. Isto fará com que Wesley R. não se levante da cama, doente como está, e nunca mais interfira nos meus negócios. Sabe o que isso significa para mim, Mike. Fora da minha família não há ninguém que saiba disso melhor do que você.
A torrente quase histérica de palavras parou abruptamente. Ouvia-se apenas a respiração ofegante do outro lado do telefone transcontinental. Sei, sim, disse Barrett. Depois ficou em dúvida. Parece que você está com um êxito certo nas mãos. E estou mesmo, Mike..., se nada sair errado. Sem reflectir, quase automaticamente, Barrett começou: mas o que poderia eu... A censura, interrompeu Sanford. Perco tudo, se a Polícia não deixar as livrarias venderem o livro, nem as pessoas comprarem. Se isso acontecer, não só não terei um êxito como será um desastre completo. Wesley R. chutar-me-á daqui nessa mesma hora e a minha querida Betty fará o mesmo. Perderei o negócio e os meus filhos. Não ficarei com coisa alguma, salvo o fundo de garantia que minha mãe me deixou e que não dá para manter um homem vivo, pode crer, Mike. Não dá. Barrett começou a ficar levemente irritado com os presságios do amigo.
Phil, você está com um óptimo negócio nas mãos, portanto para que antecipar desastre quando não há a mínima possibilidade de haver nenhum? Censura? Duvido. Estamos a viver numa época diferente. Tudo é feito às claras, em cima da mesa. Toda a gente sabe que a Rainha tem pernas. Para dizer a verdade, eles sabem que ela tem muito mais do que isso. Você pode comprar Fanny Hill em qualquer prateleira de drogaria. Lembra-se quando alugávamos cópias mimeografadas no colégio? Lembra-se daquele trecho que dizia essa deliciosa fenda de carne, onde se avolumavam agradáveis tufos de cabelo, repartindo-se e apresentando a mais sedutora abertura? E Lady Chatterley, lembra-se de Connie envolvendo as estreitas nádegas brancas do amante com os braços e atraindo-o para ela, de modo que os seios salientes, balouçantes, tocassem a ponta do falo excitado, erecto? E disso venderam-se, quanto foi que você disse?, seis a sete milhões de exemplares. Hoje o negócio é assim e assim será durante muito tempo, talvez para sempre, a não ser que as pessoas se cansem da verdade e a gente retroceda à época do asterisco outra vez. Mas não agora. As pessoas não se assustam tanto com o sexo, especialmente quando é apresentado com talento...  O livro de Jadway não foi proibido só por causa de sexo, interrompeu Sanford. É que certas passagens fortes são sacrílegas». In Irving Wallace, Os Sete Minutos, Coleção Dois Mundos,  Livros do Brasil, 1988, ISBN 978-972-380-948-0.

Cortesia de CDMundos/LdoBrasil/JDACT

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Os Sete Minutos Irving Wallace. «Recebi, sim, Phil. Está do lado da minha cama. Cada dia que passa prometo-me escrever para lhe agradecer, desejar felicidades, mas ando atolado num milhão de coisas»

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«(…) Desacostumado de tomar decisões e impor autoridade, Philip Sanford começou mal. Dos vinte livros iniciais publicados sob a sua direcção no primeiro ano, a maioria foi um fracasso, e o resto apenas deu para cobrir as despesas ou render um lucro irrisório. Nenhum podia alegar qualquer mérito nem figurar na lista dos mais vendidos. Nenhum provocaria uma grande venda subsidiária capaz de atrair os clubes literários ou as reedições de bolso. Finalmente, com a coragem oriunda do puro desespero, Philip Sanford fez um esforço para fugir à sombra paterna e tornar-se dono do próprio nariz. Resolveu publicar o que lhe agradava e não o que julgava que o pai publicaria. Adquiriu os direitos de um romance que lera e admirara durante uma travessia marítima entre Le Havre e Nova Iorque, um livro que nunca tinha recebido licença para ser publicado abertamente em qualquer nação de língua inglesa no mundo. Era uma obra chamada Os Sete Minutos e da publicação e êxito desse romance dependia todo o futuro de Philip Sanford.
Quando Barrett jantara na sua companhia em Nova Iorque aquela última vez, Sanford mostrara-se maníaco sobre as possibilidades do livro. Pela primeira vez na história da literatura moderna, insistia, havia clima propício à aparição de tal obra. Um mundo ocidental que finalmente aceitara O Amante de Lady Chatterley e Fanny Hill estava suficientemente maduro para aceitar Os Sete Minutos. O livro já se achava no prelo. o interesse das livrarias crescia cada vez mais. Prometia ser um êxito louco. E então Sanford teria a sua casa editora, o seu refúgio, o seu futuro e seria, enfim, dono do próprio nariz. A maior parte da noitada fora consagrada a discutir a sobrevivência de Phil. Só nos últimos dez minutos é que se interessou pela vida de Barrett. Queixara-se da carreira rastejante que tinha com Thayer & Turner. E mencionara como únicos paliativos a proposta de Abe Zelkin e a afeição que sentia pela filha de Willard Osborn. E agora, de repente. Philip Sanford queria falar-lhe urgentemente. Levando em conta o que sabia da vida de Sanford, que poderia haver de urgente que lhe pudesse dizer respeito? O telefone a seu lado começou a tocar. Tirou-o do descanso. Alô? Mike?, era a voz de Sanford. Nenhuma secretária ocupara antes a linha, o que indicava urgência. É você. Mike? Quem mais havia de ser? Como vai, Phil? Desculpe por não me ter encontrado. Cheguei mesmo agora. Como vão as coisas? Se você se refere à família, tudo na mesma, como sempre. Trata-se de algo diferente. É assunto de negócios. Mike. Não imagina o meu alívio por ter ligado em seguida. Barrett notou logo o tom da voz de Sanford: nervoso, aflito. Você dá-me a impressão de que aconteceu qualquer coisa de grave. Se houver algo que eu possa... Pode, sim. Você pode ajudar-me.
Então, fale. Mike, lembra-se quando esteve aqui a última vez e eu disse que me estava a sair mal com a primeira lista de livros, os livros meus, não as sobras de stock Wesley R.? Barrett lembrava-se de que Sanford sempre se referira ao pai, Wesley R. Sanford, como Welsley R. Jamais conseguira chamá-lo pai. Sim, mas você mostrou-se optimista... Exacto. Por causa de um livro que eu tinha no prelo. Os Sete Minutos, de J J Jadway. Estava a arriscar tudo nele. Tudo ou nada. Lembra-se? Barrett fez que sim ao telefone. Perfeitamente. O romance que ninguém se atreveu a publicar durante trinta e cinco anos. Vi o anúncio de lançamento no domingo passado. Tremendo. A voz de Sanford tornou-se ansiosa. Você viu o livro, não foi? Mandei-lhe um dos primeiros exemplares por via aérea. Com ar culpado, os olhos de Barrett percorreram rápido o quarto de dormir. Ele tinha recebido o exemplar antecipado de cortesia há cerca de três semanas e o livro continuava fechado em cima da mesa-de-cabeceira da cama de casal. Tencionava lê-lo, a fim de poder escrever ao amigo um bilhete de agradecimento e estímulo, mas tanta coisa se passara desde então que nunca chegou a fazê-lo. As eternas boas intenções.
Recebi, sim, Phil. Está do lado da minha cama. Cada dia que passa prometo-me escrever para lhe agradecer, desejar felicidades, mas ando atolado num milhão de coisas. Li tudo meio à pressa, e acho que o livro é exactamente o que você disse. O assunto é brutal, vai ter um êxito doido. Vai mesmo, afirmou Sanford entusiasmado. Está a preparar-se para ser o maior êxito do ano, talvez da década inteira. Você não faz ideia, do que está a acontecer com os distribuidores e as livrarias. Faltam ainda vários dias para a publicação oficial e já estamos a tirar uma segunda edição. Temos duzentos mil exemplares no prelo e já despachámos cento e trinta mil. Compreende o que isso significa. Míke? Que diabo, você entende de sobra do comércio de livros de tanto me ouvir falar no assunto. Veja, por exemplo, o romance comum. Se for livro de estreia, e o de Jadway é-o, foi o único que ele escreveu, aliás, bem, talvez se imprimam quatro mil exemplares para começar, e talvez os distribuidores consigam colocar dois mil antes de a obra ser publicada, sendo despachados em consignação..., se não forem vendidos, podem ser devolvidos..., e talvez dentro de seis meses ou um ano a gente acabe por vender setecentos e cinquenta exemplares». In Irving Wallace, Os Sete Minutos, Coleção Dois Mundos,  Livros do Brasil, 1988, ISBN 978-972-380-948-0.

Cortesia de CDMundos/LdoBrasil/JDACT

sábado, 29 de junho de 2019

As Três Sereias. Irving Wallace. «Contudo, cerca de cinco semanas antes do presente momento uma coisa muito agradável acontecera a Claire. O efeito que produzira em toda a sua pessoa fora imediato…»

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«(…) E nas noites em que Marc se achava demasiado ocupado, sem tempo para levá-la ao cinema ou para dar com ela um passeio de automóvel, ou quando não se realizava uma festa, ela permitia que o marido fixasse os olhos sobre as suas notas, fizesse as suas pesquisas, corrigisse os seus escritos, trabalho de homem, enquanto ela lia um romance ou assistia, com olhos sonolentos e entediados, a alguns programas no aparelho portátil de televisão. Nada disto fora modificado por Easterday e pelas Três Sereias. Contudo, e Claire tinha a certeza disso, alguma coisa se modificara, no que lhe tocava. Era uma coisa que não se relacionava com a rotina diária. Tratava-se de uma sensação, de uma bolha de emoção quase tangível e efervescente, dentro do seu ser. Ela era a sra. Marc Hayden, oficial, legalmente, para melhor, para pior, para sempre, desde há um ano e nove meses. Com o casamento, um bom casamento tinham dito a mãe e o padrasto, essa bolha de emoção dentro de si parecera vivaz, engraçada, como uma enorme bolha que a elevava continuamente, e para além dela tudo era maravilhoso. Mas pouco a pouco, à medida que os dias passavam, essa bolha detivera-se, desvanecera-se, convertera-se num pequeno charco apavorante que não representava absolutamente nada. Eis o que parecia a bolha: nada. Eis a sua sensação no que se referia a tudo mais: nada. Era como se todas as excitações, todas as possibilidades de ser feliz, se tivessem extinguido. Era como se todos os factos da vida fossem previsíveis, os do próximo momento, do dia seguinte, até ao último, e não houvesse esperança de se sentirem novos frémitos de prazer, de se experimentarem novas alegrias. Eis a sensação, e quando ouvia mães discutirem os sentimentos de depressão que sobrevinham depois de darem à luz uma criança, perguntava-se se o mesmo não seria válido em relação ao casamento. Não podia censurar ninguém pelas suas decepções, nem Marc, decerto, Marc muito menos que as outras pessoas, com excepção, possivelmente, da própria noiva, com o seu murcho buquê de grandes esperanças ultra-românticas. Se tivesse dinheiro, pensava, financiaria um grupo de peritos a fim de que estes descobrissem o que acontecia às Cinderelas após o casamento.
Contudo, cerca de cinco semanas antes do presente momento uma coisa muito agradável acontecera a Claire. O efeito que produzira em toda a sua pessoa fora imediato, mas nada revelara às pessoas que a rodeavam. Sentia-se desperta. Experimentava uma sensação de bem-estar. Tinha a certeza de que a sua vida iria conhecer melhores momentos, uma renovação quase total. E sabia que o elemento inspirador fora a carta de Easterday. Dactilografara com desvelo excertos resumidos, em duplicado, dessa carta. Conhecia de cor tudo o que Easterday prometia. Com excepção de uma longa viagem de uma semana a Acapulco e à Cidade do México, na companhia da mãe e do padrasto, quando tinha quinze anos (recordava-se das Pirâmides, do Jardim Flutuante, de Chapultepec, recordava-se de não se encontrar só nem sequer um instante), Claire nunca estivera fora dos Estados Unidos. E agora, quase de um dia para o outro, seria transportada para um lugar desconhecido e exótico dos Mares do Sul. A promessa de uma transformação era quase insuportável, de tão estimulante que era. Os verdadeiros pormenores acerca das Três Sereias possuíam pouca realidade e portanto pouco significado para ela.
Tinham bastante semelhança com as milhares de palavras dos livros de Maud, de inúmeros outros volumes sobre antropologia que lera atentamente, e tudo parecia apenas história, passado remoto, sem nada a ver com sua vida presente. Todavia, a data aproximava-se cada vez mais, e se Easterday não era o romancista que lhe chamara Marc, se aquelas coisas fossem verdadeiras e não constituíssem somente palavras, ela estaria em breve numa cabana sufocante, entre homens e mulheres quase nus, que retiravam os víveres de um armazém comum, que consideravam a virgindade um defeito e a educação prática nos assuntos do sexo uma necessidade, que praticavam o amor numa Cabana de Auxílio Social e num festival, sem restrições e inibições (com um concurso de beleza nudista!).
Claire lançou um olhar para o relógio de parede esmaltado que se encontrava ao lado da banheira. Eram nove e um quarto. A primeira aula de Marc já teria terminado. Hoje, disporia de quatro horas antes da aula seguinte. Perguntou-se se ele voltaria a casa ou se se dirigiria para a biblioteca. Decidiu que era melhor vestir-se. Estendeu a mão e fez girar a alavanca que se achava sob a torneira; o escoadouro abriu-se e a água e a espuma começaram a descer com o ruído característico. Ergueu-se e, cautelosamente, passou um pé sobre uma das bordas da banheira, ficando a gotejar sobre o espesso tapete branco». In Irving Wallace, As Três Sereias, Livros do Brasil, coleção Dois Mundos, 2000, ISBN: 978-972-381-025-7.

Cortesia de LBrasil/DMundos/JDACT

As Três Sereias. Irving Wallace. «Tenho a impressão de que o seu Easterday não passa de um romancista, dissera ele duas noites antes a Maud. Uma coisa como esta devia ser investigada convenientemente…»

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[…]
Cara Dra Hayden
E assim, nessa altura, afirmou-me: Professor Easterday: embora conheça melhor a Oceania do que nós, devo declarar que a nossa experiência em muitos pontos da Terra ensinou-nos que nem tudo foi descoberto, que nem tudo é conhecido, e que a natureza tem maneira de preservar as suas pequenas surpresas. De facto, conheci alguns antropólogos, pessoas que serviram no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, que me confessaram terem descoberto, por acaso, pelo menos meia dúzia de ilhas desconhecidas, habitadas por tribos primitivas, que não constavam dos mapas existentes.
[…]

«(…) Dos quatro membros da família Hayden, quatro membros, isto é, se se contasse a sempre sorridente Suzu, a empregada japonesa, Claire Emerson Hayden fora, conforme ela própria pensava, a menos afectada, na rotina diária, pela carta de Easterday, recebida cinco semanas antes. A transformação da sogra, Maud (Claire ainda a achava tão extraordinária, após quase dois anos, para chamá-la de Matty), fora a mais acentuada. Maud sempre estivera ocupada, alardeando a sua eficiência, mas nas últimas cinco semanas tornara-se muito mais ativa, fazendo o trabalho de dez pessoas. E mais do que isso, aos próprios olhos de Claire mostrava-se cada vez mais jovem, enérgica, criadora. Claire imaginava que ela se encontrava agora como devia ter sido no auge do seu vigor físico, quando Adley era seu colaborador. Ao pensar nisso, Claire, agora mergulhada até aos ombros no seu voluptuoso banho de espuma, abriu, com a palma da mão, um caminho em forma de leque através da espuma. Permitiu que o seu espírito se detivesse no Dr. Adley R. Hayden, de quem se recordava agora imprecisamente. Vira-o duas vezes antes do seu casamento, quando Marc a trouxera a Santa Bárbara para participar de reuniões mundanas, e impressionara-a bastante aquele erudito alto, curvado, um pouco barrigudo, com a sua ironia seca, os seus vastos conhecimentos e a sua compreensão. Apesar de Marc tartamudear na presença do pai, de provocar com frequência a sua ironia e de ser por ele menosprezado com demasiada facilidade com um leve ridículo, ela sentira-se impressionada pela autoridade de Adley. Sempre pensara ter deixado de si uma impressão pouco lisonjeira, embora Marc lhe tivesse garantido que o pai a achara uma coisinha bastante bonita. Com frequência desejava ter significado mais alguma coisa para Adley; porém, uma semana depois do seu segundo encontro, ele morrera subitamente de um ataque de coração, e, no além, estava certa, seria ainda considerada por ele apenas uma coisinha bastante bonita.
As bolhas de sabonete tinham-se amontoado novamente diante do corpo de Claire, que, ainda divagando, começou a alisá-las. A sua mente errava, sabia, e tentava recordar-se daquilo em que pensara. Por fim recordou-se: a carta de Easterday, recebida cinco semanas antes, e o efeito que produzira em todos eles. Maud mantinha-se numa actividade febril, sim. E Marc achava-se mais ocupado agora, mais concentrado (se isso era possível), mais nervoso, queixando-se cada vez mais de pequenos contratempos, mas acima de tudo perguntando-se se era prudente, se valia a pena, fazerem aquela viagem de estudo. Tenho a impressão de que o seu Easterday não passa de um romancista, dissera ele duas noites antes a Maud. Uma coisa como esta devia ser investigada convenientemente antes de desperdiçarmos todo este tempo e dinheiro. Maud tratara-o como sempre o tratara, com a infinita paciência e a afeição de todas as mães para com os seus filhos precoces. Maud defendera a integridade de Easterday e explicara que as circunstâncias não permitiam qualquer investigação, recordando o seu faro quando se tratava de um cometimento de onde se podiam esperar bons resultados, produto não só do seu instinto como da sua experiência.
Como habitualmente, quando era derrotado pelos argumentos da mãe, Marc batera em retirada e mergulhara no trabalho. Somente a rotina de Claire não parecera afectada pelo recente acontecimento. Havia agora mais trabalho de dactilografia e arquivo para fazer, mas isso não preenchia suficientemente o seu tempo. Todas as manhãs, porém, podia demorar-se no seu banho quente, ler ao café, consultar Maud, fazer o trabalho do costume e participar depois, com as jovens esposas de outros professores, de uma partida de ténis, tomar chá na sua companhia ou assistir a uma conferência». In Irving Wallace, As Três Sereias, Livros do Brasil, coleção Dois Mundos, 2000, ISBN: 978-972-381-025-7.

Cortesia de LBrasil/DMundos/JDACT