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domingo, 13 de março de 2016

Carla Alferes Pinto: A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista. «… após a morte do rei-cardeal Henrique, são ambos leais apoiantes, a ponto de Filipe I nunca os ter perdoado, da subida ao trono de António, Prior do Crato, 18º rei de Portugal, sobrinho dilecto da Infanta»

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A Sereníssima Infanta Dona Maria. A sua casa e fortuna
«(…) É muito provável que o palácio do Campo de Santa Clara tenha uma construção muito tardia, certamente da década de 60, correspondendo ao pedido de desanexação de uma parte da freguesia de Santo Estevão de Alfama. O programa arquitectónico que a Infanta lidera junto do mosteiro das Clarissas, construindo um palácio ao lado do secular mosteiro e uma igreja paroquial, projecta um ambicioso propósito político, que tem correspondência no desenvolvimento urbanístico que proporciona. O palácio de Santos-o-Novo fará, talvez, parte deste desenvolvimento, estabelecendo uma ancestral continuidade entre as três mais significativas casas religiosas a oriente da cidade de Lisboa: os mosteiros das Clarissas do Campo de Santa Clara e de Xabregas e o convento agostinho, que herdara a memória e simbólica do ancestral templo de vestais de Lisboa. Em Santa Clara, a Infanta afirmava o seu poder precursor e, ao mesmo tempo, o distanciamento da política da Ribeira; em Xabregas (não podemos esquecer que no testamento dona Maria pediu para que o seu corpo fosse depositado aqui, enquanto aguardava a conclusão da capela-mausoléu da Luz), tinha a presença da venerada e tutelar imagem da tia Leonor; e em Santos-o-Novo, sob a influência directa de Chelas e da mitológica fundação da cidade por Ulisses, que ao ver-se perseguido pelo desfavor dos deuses procura abrigo num templo de vestais, que a historiografia cristã apropria virtuosamente (a reedificação e melhorias seiscentistas do convento é feita sobre o patrocínio, talvez não inocente, do arcebispo Miguel Castro, responsável pela gestão da fortuna da Infanta e pelo busto-relicário de Santa Engrácia),dona Maria reforçava a imagem do seu virginal sacrifício pela continuidade dinástica e política dos Avis.
Tão vasta fortuna e palácios proporcionavam à Infanta uma casa rica na qual tinham lugar alguns dos membros das melhores famílias do Portugal de Quinhentos. Em 1567, o cronista oficial da corte dava notícia deste facto: traz tam honrrada casa de criados, damas, e outros familiares, que pera se dizer que he igual a todalas Rainhas Deuropa, lhe nam falta mais que o nome de huma dellas.  A lista dos moradores da casa da Infanta não se encontra completa. A documentação disponível tem inúmeras lacunas e acaba, misteriosamente, no início dos anos 40. Nela constam alguns nomes que fazem parte da galeria de personagens célebres do século XVI: Paula Vicente e o seu irmão João, as filhas de Joana de Blasfer e de Francisco Gusmão, Constança, Maria e Luísa (Constança Gusmão e Maria Gusmão ou, segundo alguns autores, de Blasfet, aparecem nos róis de moradias de dona Maria, ainda que a moradia da primeira venha, normalmente, sob o nome da irmã, repetido, tratando-se de um óbvio engano; o nome de Luísa não aparece, talvez, por ser a mais nova das três e ter entrada ao serviço da Infanta em data posterior a 1543, pois não nos parece que Luísa Gusmão estivesse ao serviço de qualquer outra senhora. Luísa Gusmão casou com o 2.º conde de Vimioso, Afonso Portugal, que acompanha a Infanta à raia alentejana no ano de 1558 quando vai ao encontro da mãe e recebe, por isso, particulares mercês, e após a morte do rei-cardeal Henrique, são ambos leais apoiantes, a ponto de Filipe I nunca os ter perdoado, da subida ao trono de António, Prior do Crato, 18º rei de Portugal, sobrinho dilecto da Infanta. Constança será a mais velha das três, uma vez que se torna camareira-mor da Infanta à morte da mãe, Joana Blasfet; casou com Pedro Menezes, que morreu em 1553, em Ceuta, onde era capitão; deste casamento nasceu António Menezes que mais tarde casou com dona Joana Lencastre, filha de Jerónimo Castro, e cujo filho Pedro vem mencionado em vários róis de tenças; maria casou com Francisco Coutinho, 3.º conde do Redondo, e teve três filhas: a célebre Guiomar Blasfet, a quem Camões dedicou inúmeros versos apaixonados, que casou com Simão Menezes, senhor do Louriçal; Joana Gusmão, que casou com o l.º conde de Vila Franca, Rui Gonçalves Câmara; e, por fim, Isabel Henriques, que casou com Afonso Lençastre), ou ainda o ourives real Baltasar Cornejo (consta num rol datado de 1529, quando a Infanta contava 8 anos, tratando-se, portanto, de um pagamento extraordinário por qualquer serviço executado por intervenção da rainha e não de um criado da sua casa). Contudo, os róis são omissos em nomes como os das irmãs Sigeia, Luísa e Ângela, Hortênsia Castro ou Francisco Gusmão, cuja certeza enquanto membros da casa da Infanta se confirma pela documentação oficial (é a própria Luísa que anos mais tarde afirmava ter sido alumna, ou seja, alimentada, beneficiada da Infanta; Hortênsia consta no rol de tenças a serem atribuídas à morte da Infanta, como dama da câmara; lembramos que Carlos V recorre a Francisco Gusmão para obter informações da Infanta mais de uma vez; a documentação do rei João III também o atesta, num alvará de 1554, o rei concede a Luís Gusmão, filho de Joana Blasfet e Francisco Gusmão, uma tença de 50 mil réis pelos serviços dos pais à infanta dona Maria)». In Carla Alferes Pinto, A Infanta Dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.

Cortesia da FOriente/JDACT

quinta-feira, 10 de março de 2016

A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista. Carla Alferes Pinto. «Estava vestida a princesa com um vestido afogado de veludo preto com orla de ouro no colarinho coifa de rede de ouro na cabeça, e uma coroa no braço, de rubis e diamantes»

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A Sempre-Noiva. Política matrimonial e Diplomacia paralela
«(…) De 1571 temos a descrição que João Baptista Venturino fez da visita de Miguel Bonello, o cardeal Alexandrino: tendo anoitecido acompanhados com vinte tochas adiante fomos ao palácio da infanta dona Maria, irmã de João III, a qual, tendo ficado órfã em tenra idade, não quis jamais casar, posto que fosse robusta, formosa e procurada. Era alta, e teria de idade cinquenta anos, posto que não pareça à primeira vista. Dizem que é a princesa mais rica da cristandade, possuindo inumeráveis jóias e milhão e meio de bens patrimoniais, que gasta com os pobres. Estava vestida a princesa com um vestido afogado de veludo preto com orla de ouro no colarinho coifa de rede de ouro na cabeça, e uma coroa no braço, de rubis e diamantes, que avaliámos em trezentos mil escudos. Esperava em pé pelo Legado, num aposento forrado de panos de Flandres de seda e ouro, debaixo de um dossel de brocado. Ajoelhou ao entrar de s. exma e levantando-se veio recebê-lo à porta do quarto. Depois assentou-se no chão debaixo do dossel, e o Legado defronte dela en numa cadeira de quatro damas, e três donzelas não menos honestas que formosas e semelhantes às três Graças, duas vestidas de veludo preto, e a do meio de damasco branco, e todas cobertas de jóias tanto no pescoço como nas mangas com coifas de fio de ouro que lhe chegavam só a meio da cabeça, e os cabelos bem assentados na frente, algum tanto crespos mas não entraçados. Depois de urna curta conversação, o Legado voltou ao palácio. Em 1575 a embaixada do rei do Hidalcão recebe, também, oferendas das mãos da Infanta: voltou para a India nas nàos do anno seguinte com grandes dadivas delRey, rainha, e infanta dona Maria.
Não se tratava de meras visitas de cortesia, mas de verdadeiros actos de Estado. Assim, no dia 20 de Janeiro de 1568, ela foi presença essencial da cerimónia dos Estaus, quando o governo é entregue ao Sebastião: feito isto chegou-se a Rainha sua avò, e beijou lhe a maõ, o mesmo fez a Infante dona Maria, o cardeal, e o Senhor Duarte, seus tios, o qual assistio com o Estoque, como condestavel môr do Reyno. Contudo, as suas relações com o jovem rei não foram as melhores. Dona Maria não casara, porque Fernando se fora recusando a contrair matrimónio no interesse dos seus filhos e, entretanto, falecera em 1564, assim perdendo poder negocial; e o estalar da crise de 1569 conduziu ao seu afastamento voluntário da cena política (parece-nos que este afastamento se deu apenas ao nível dos órgãos de poder, pois a Infanta continua a dar provas de um verdadeiro objectivo político que se manifesta, nomeadamente, na fundação de uma nova paróquia na cidade extra-muros, com a desanexação de parte da freguesia de Santo Estevão de Alfama). A sua morte em 1577, dez meses antes da cruzada de Alcácer-Quibir, não sem antes, segundo os cronistas, ter anunciado o desastre, afastou qualquer futura possibilidade de vir a herdar o trono português. Assim, não admira que não lhe restasse mais do que, refugiando-se no passado, deixar por testamento instituídos por herdeiros universais, as almas delRey [seu] pay, e da Raynha [sua] mãy.

A Sereníssima Infanta Dona Maria. A sua casa e fortuna
Iffante de Portugal e dos Algarves (convento de São bento de Santarém), Senhora de Torres Vedras e Viseu, soberana do senescalado de Agenois na Gasconha e do de Ruag, bem como dos rios, ribeiras e senhorios de Verdum e Algiboens no Languedoc,
para além das baixella douro, Prata, joias, pedras preciosas, tapeçarias, douro, e seda, e outros enxovaes, era a imponente lista de títulos e riquezas de dona Maria.
Não admira que lhes correspondesse um estado e um modo de vida igualmente imponente. A história dos palácios quinhentistas portugueses é-nos, ainda, desconhecida. Sabemos, através de relatos posteriores, nos quais se insere a reacção de desagrado de Filipe I ao conhecer os paços reais da Ribeira, que estes não seriam tão sumptuosos e dignos de memória como poderíamos desejar. A inexistência de fontes que os mencionem e/ou descrevam é, talvez, sintoma dessa decadência. Das casas habitadas pela Infanta temos, pois, poucass notícias. Sabemos que viveu com a família real, na Ribeira, até atingir os 16 anos, altura em que o rei decide separar a sua morada, criados e serviços da casa real dando-lhe os paços velhos da Alcáçova para nova residência. Existem, depois, duas referências e palácios de dona Maria: em Santa Clara e em Santos-o-Novo (no dia 18 de Julho de 1577 dona Maria assina o testamento no seu palácio, que entonces era cerca del Conuento de Santos el nueblo, 1675; a memória dos paços da infanta dona Maria perdeu-se rapidamente, nomeadamente no que diz respeito ao local onde faleceu; Barbosa Machado escreveu que dona Maria morreu nos paços da Alcáçova, 1736-1751; já Júlio Castilho discordava, lembrando que a Infanta tinha opulenta casa em Santa Clara, 1935)». In Carla Alferes Pinto, A Infanta Dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.

Cortesia da FOriente/JDACT

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A Infanta dona Maria de Portugal. O Mecenato de uma Princesa Renascentista. Carla Alferes Pinto. «… pois a conheci eu em Lisboa, com a idade de quarenta e cinco anos, e era uma mui formosa e amável donzela, de boas graças e bela aparência, doce e agradável…»

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A “Sempre-Noiva”. Política matrimonial e Diplomacia paralela
«(…) De facto, Filipe casa pela terceira vez, 1560, com Isabel Valois, dita da Paz, por celebrar a tão desejada aliança entre as coroas castelhana e francesa. Não nos parece, contudo, que o pouco interesse da Infanta se devesse a uma escolha pelo celibato, mas às negociações do seu casamento com Fernando da Alemanha, que entretanto continuavam. A falta de documentação oficial sobre as negociações de casamento de dona Maria com Fernando da Alemanha, mostram que os contactos diplomáticos foram feitos por enviados da própria, de maneira paralela, através de uma hábil rede de informações que lhe permitia patrocinar um verdadeiro Estado dentro do Estado. A imagem de pia modéstia que a historiografia nos transmitiu não corresponde, julgamos, à verdade; dona Maria assumia-se como uma grande senhora da cone e figura de direito próprio, papel do qual nunca abdica, antes empola, depois da morte de João III. A situação assim o exigia: antes mesmo que os Três Estados nas Cortes de 1562 soubessem da vontade de dona Catarina em abdicar da regência: … houve muitas Pessoas, que quizerão logo se nomeasse outro Sucessor [e] apontavão na Senhora Infanta Donna Maria.
Longe, pois, de se recolher a um resignado celibato, a Infanta emergia como uma figura pública de primeira linha e largos horizontes. É certo que tinha alguns obstáculos a ultrapassar nesta questão: por um lado, o cardeal Henrique (as disputas de dona Maria com o cardeal Henrique começavam nas suas fortes e antagónicas personalidades, que tem, da parte de dona Maria, afirmação no programa iconográfico da Igreja de N.ª Sr.ª da Luz, nomeadamente na mesa-de-altar que apresenta nas estelas centrais o confronto entre a Fé e a Ciência, e passavam pelas questões dinásticas e pela negação do pedido da Infanta através de Sebastião, de ser enterrada no panteão dos Avis, ou seja na Casa do Capítulo, ainda em construção, de Santa Maria de Belém), por outro o partido castelhano, que acima de tudo temia a Infanta pela sua fortuna e pelo seu sentido de Estado. Mas as suas reais hipóteses (o seu prestígio era tão grande que um anel com as suas armas usado por António Leitão é citado como símbolo de prestígio num processo de 1622) eram conhecidas de todos; entendendo-se melhor, assim, a razão das inúmeras visitas que recebe a partir de então.
Brântome relata-nos as suas impressões quando, em 1566, a vê em Lisboa: … pois a conheci eu em Lisboa, com a idade de quarenta e cinco anos, e era uma mui formosa e amável donzela, de boas graças e bela aparência, doce e agradável, merecendo um marido semelhante a ela em tudo, e mui cortês, principalmente para nós, os franceses. Posso afirmá-lo por ter a honra de com ela por várias vezes e privadamente ter falado. E Jean Nicot, embaixador de França em Portugal entre 1559 e 1561: … l’Infante dona Maria estoit avec le roy quand je lui ai baisé les mains, qui est une belle princesse et si richement parée qu'il sembloit qu'il ne fut demeurré pierre ni perle en l'orient; on m'en a dict tant de choses honestes et vertueuses qu'il n'est posible de plus [...] Madame l'Infante Maria estoit si richement drappée de perles et pierries diverses que le soleil n'est pas plus brillant. Numa carta de 12 de Outubro de 1567, o dr. Wilson conta a William Cecil, secretário de Isabel I de Inglaterra, como o haviam levado: … a uma grande sala onde a rainha se achava sobre o throno, fallando com a Infanta dona Maria, filha da rainha dona Leonor [...] elle se dirigíra a S.A. a Infanta dona Maria, e lhe fizera os cumprimentos da parte da rainha d'Inglaterra». In Carla Alferes Pinto, A Infanta Dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.

Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

A Infanta dona Maria de Portugal. O Mecenato de uma Princesa Renascentista. Carla A. Pinto. «Dona Leonor planeia então uma visita, breve, a realizar-se junto da raia portuguesa, onde veria a filha que deixara há mais de trinta anos»

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A “Sempre-Noiva”. Política matrimonial e Diplomacia paralela
«(…) João III morre em Junho de 1557 sem ter autorizado a saída da Infanta e os preparativos para a partida desta são interrompidos a pedido da rainha (dona Catarina terá interrompido as negociações para a saída da Infanta para Castela no contexto da pressão que sofria, por um lado, de Carlos de Habsburgo para que aceitasse o juramento do seu neto como herdeiro de Portugal à morte do monarca Sebastião I e, por outro, da população portuguesa que vira com muito desagrado a visita de legados espanhóis a Portugal tão próximo da morte do rei; contudo, não se pode ver nesta atitude qualquer submissão ao irmão; é antes um tactear de terreno, pois são as próprios embaixadores do imperador que confessam: … quanto à rainha, apesar de querer a Carlos V como a um pai e senhor e reconhecer que esta aqui de su mano, o seu fim principal era defender o interesse do reino português [...] que, sendo preciso, a própria rainha daria batalha ao imperador; nos negócios da infanta dona Maria mostrara-se tão firme como el-rei falecido», mas também por altas razões de Estado, uma vez que o único herdeiro da coroa tinha pouco mais de 2 anos e o reino não via com bons olhos a saída de uma legítima filha de Manuel I. Pensando na hegemonia peninsular, Carlos V mandara chamar a Castela a filha dona Joana (todavia, dona Joana, porque interessada em que o seu filho fosse o incontestado rei de Portugal, terá agido mais como interlocutora de Portugal na corte carolina) com o intuito de não dividir o partido espanhol na questão da sucessão à coroa portuguesa, e empenha-se pessoalmente na rápida partida da Infanta para Castela (Carlos V envia rapidamente para Lisboa Francisco Borja, embaixador plenipotenciário, amigo de infância de dona Catarina, com o intuito de influenciar a política interna portuguesa; uma das missões de Borja era apressar a partida da Infanta: … a cuja diligencia veyo a este Reyno por mandado do Emperador, o glorioso Francisco Borja, duque, que tinha sido de Gandia, e agora religioso da Companhia de Jesu, o qual à volta de visitar a rainha, e o cardeal, e dar-lhes os pezames da morte delrey, trouxe a incumbencia de tratar apertadamente deste negocio, sobre que o dito Emperador estava muito empenhado por parte da dita irmãa, e de si mesmo tambem por lhe fazer o gosto) já não com o intuito de contentar a irmã, mas por razões mais fortes que passavam pelos direitos de sucessão ao reino de Portugal e assim impedir qualquer veleidade de dona Maria. Mas esta via mais alto e não queria ir para Castela: o casamento com Fernando torná-la-ia imperatriz (em 1562, ainda: … falava-se em Castela do casamento da infanta dona Maria com o velho imperador, em que dona Joana não podia acreditar, pela diferença de idades, pela consideração dos filhos de Fernando I, por questões de dote, etc.; em Castela comentava-se tal notícia como resultante da vontade de dona Maria em ser imperatriz nem que fosse por uma hora; com base numa carta de dona Joana para Lourenço Pires Távora, de 17 de Janeiro de 1562), e o seu nome era apontado como legítimo herdeiro do trono português (podia ser chamada à coroa dona Maria, filha do casamento de Manuel I com dona Leonor de Áustria).
Dona Leonor, uma vez mais contrariada nos seus intentos, planeia então uma visita, breve, a realizar-se junto da raia portuguesa, onde veria a filha que deixara há mais de trinta anos. As rainhas dona Leonor e dona Maria partem para Badajoz ao encontro de Infanta. Não decerto por acaso, dona Maria tardou mais de dois meses a ir ao encontro da mãe, segundo o biógrafo da Infanta a demora tornou-se tão desagradável que dona Maria da Hungria chegou a querer partir (aliás, esta entrevista foi recheada de incidentes; a desconfiança dos portugueses em relação aos castelhanos reflectiu-se no comportamento da comitiva da Infanta e muitos castelhanos escusaram-se a acompanhar as rainhas até Badajoz). O atraso devia-se ao receio, decerto ardilosamente provocado pela Infanta (após a morte de João III e da designação não testamentária da rainha dona Catarina como regente, o Conselho, depois de reunir e deliberar pela justeza da medida, decide ouvir o parecer da cidade de Lisboa estabelecendo um laço jurídico entre o conselho e o poder da primeira cidade do reino, que representava os povos em cortes; dona Maria reedita este laço, usando a cidade e a sua legitimidade como demonstração do seu poder), que a câmara da cidade de Lisboa e a sua população tinham de que a Infanta não voltasse da estada em Badajoz. A solução encontrada foi um juramento público em como dona Maria regressaria da cidade estremenha. Dona Leonor pouco tempo resiste à separação, morrendo a 25 de Fevereiro de 1558, cerca de quinze dias depois de deixar a filha. No mesmo ano morrem Carlos V, dona Maria da Hungria e dona Maria Tudor, deixando Filipe de Castela viúvo pela segunda vez e candidato pela terceira à mão de dona Maria». In Carla Alferes Pinto, A Infanta Dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.

Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Carla Alferes Pinto: A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista. «… em contrariar as ambições da Infante: ao propor o filho-segundo deserdado ou o herdeiro dum pequeno principado como noivo para a sobrinha, anulava as pretensões da princesa portuguesa…»

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A “Sempre-Noiva”. Política matrimonial e Diplomacia paralela
«(…) É-nos mais fácil entender, dentro de uma perspectiva de Estado, os seus evidentes ganhos nesta união, até porque muitas das questões não resolvidas com Carlos V poderiam agora ser discutidas com outro soberano e com uma rainha de sangue português, vantagem que se perdera com a morte de D. Isabel em 1539. O interesse da Infante numa união com Fernando da Alemanha é inquestionável, e é neste contexto que devemos entender e encomenda das doze tapeçarias em Bruxelas com o relato dos feitos do vice-rei João de Castro. Carlos V não recusa a ideia, mas informa Lourenço Pires Távora de estar certo que o irmão tinha pouca intenção de casar, pelo que se devia insistir no arquiduque fazer iguais diligências junto da corte de Sabóia para apurar das vantagens de um casamento com Emanuel Felisberto. Na carta de Lourenço Pires Távora para o rei João III, datada de 16 de Janeiro de 1557, há indicações para que a Infanta não fosse avisada. Julgamos que a razão se encontra no propósito de Carlos V em contrariar as ambições da Infante: ao propor o filho-segundo deserdado ou o herdeiro dum pequeno principado como noivo para a sobrinha, anulava as pretensões da princesa portuguesa manifestadas nas negociações com o poderoso imperador alemão e, ao mesmo tempo, ia criando elementos de diversão que poderiam delongá-las, nomeadamente, voltando a falar num possível casamento de Maria com o seu filho Filipe.
O Távora foi depois dar conta das propostas às rainhas viúvas e à princesa D. Joana que se encontrava em Castela. Segundo frei Pacheco, a nova exposição dos casamentos fez-se sobretudo junto de D. Maria da Hungria e de D. Joana, porque a mãe da Infanta seria mais sensível ao assunto. Julgamos, todavia, que a razão seria outra: D. Maria da Hungria conhecia bem o seu irmão Fernando e terá, muito provavelmente, servido de interlocutora numa espécie de contactos paralelos que a Infanta então desenvolveu. A resposta de João III não se fez esperar, confidenciando ao seu embaixador que: sempre dezeiei caza com os maiores cazamentos da Christandade, e por conseguir este meu dezeio apontei no de El Rey dos Romanos, [...] toda via vendo que o do Archiduque lhe he [a Carlos V] tam conveniente e que cederia, reduzindo as suas opções a Fernando e a Emanuel Felisberto.
Segundo a carta de Fevereiro, a resposta de D. Maria da Hungria à proposta de casamento da Infanta com o seu irmão Fernando não foi muito favorável, tendo repetido os argumentos de Carlos; quanto ao arquiduque, este confidenciara já à tia que não desejava casar e que se o fizesse seria dentro dos interesses da Casa da Boémia, junto à qual se encontravam as poucas terras que tinha; e, por fim, quanto ao duque de Sabóia, sabia que o seu pai negociava uma união com uma filha do rei dos Romanos, pelo que não seria bem acolhida qualquer outra proposta. Pelo tom da carta parece-nos que a ideia que então prevalecia era a de levar a Infanta para Castela a qualquer custo, pois acaba tratando dos assuntos relacionados com essa jornada e dando a nova de que o imperador finalmente entrara no mosteiro a 3 de Fevereiro de 1557. Filipe também é consulado sobre a ida da Infanta para a corte castelhana, desaconselhando-a através do seu enviado especial Rui Gomes Silva, o conde de Melito». In Carla Alferes Pinto, A Infanta Dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Carla Alferes Pinto: A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista. « Estávamos no ano de 1557; a Infanta tinha 36 anos. É o próprio rei que faz e proposta do noivo à Infanta: Y porque el rey Don Fernando se halla viudo, y es la Magestad mas digna de vuestros méritos…»

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A “Sempre-Noiva”. Política matrimonial e Diplomacia paralela
«(…) Os cronistas e estudiosos (Carolina Michaëlis de Vasconcelos, incluída) na sequência deste episódio falam de ume Infanta sofredora e profundamente magoada, que se resigna em silêncio às adversidades de ser apenas mais ume princesa casadoira. Não duvidamos do empenho pessoal de D. Maria neste casamento. Filipe era senhor de Castela e herdeiro do império de seu pai; não haveria, portanto, consórcio que a Infanta mais almejasse. Mas a sua reacção à mudança de estratégia política de Carlos V se sentimental, foi rapidamente ultrapassada por um sentido de Estado quase inato que sempre caracterizou e, sua actuação. Veja-se como exemplo a carta que escreveu a Maria Tudor, de Setembro de 1553 (as negociações foram interrompidas em Julho), exprimindo a felicidade que sentia pela conclusão favorável dos seus negócios. D. Leonor, mesmo contrariada, não desiste de reaver a filha, e depois do desaire do casamento com Filipe II pressiona o irmão para que reclame junto da coroa portuguesa a ida da Infanta para Castela; será esta a razão porque Carlos V atrasou a sua entrada no Mosteiro de Juste. D. Leonor envia logo a Portugal, para não perder tempo enquanto fazia a fatigante viagem para Castela, o embaixador João Mendonça com cartas de Carlos V, de Filipe I e suas para João III.
Carlos, Leonor e Maria da Hungria chegam a Castela, tendo as duas últimas ficado em Valladolid, onde se juntaram à princesa D. Joana que para aí voltara depois de ficar viúva de João de Portugal. É então que chega a primeira negativa, pelo embaixador Duarte Almeida, de João III baseada na falta de decoro que era a saída da Infanta de Portugal sem estar casada. A resposta do rei português não agradou aos seus interlocutores e Carlos V envia a Portugal Sancho de Córdova com a missão de levar consigo a Infanta, sem qualquer hipóteses de desculpa. Escreve cartes a João III e a D. Catarina onde dá conta da sua vontade, cuja base legal se encontra no contrato de casamento de Manuel I com D. Leonor.
D. Leonor escreve também uma carta à irmã, a rainha D. Catarina, na qual, junto com as palavras de reverência e afecto, encontramos outras de ressentimento e diplomática dúvida quanto às intenções dos reis portugueses. Sancho de Córdova chega a Lisboa e entrega as cartas, quando João III decide enviar Lourenço Pires Távora ao imperador e às rainhas viúvas de França e Hungria. Este embaixador levava novas propostas de casamento para a Infanta, desta vez com o velho Imperador dos Romanos e seu tio, ou com o seu filho segundo também de nome Fernando. Estávamos no ano de 1557; a Infanta tinha 36 anos. É o próprio rei que faz e proposta do noivo à Infanta: Y porque el rey Don Fernando se halla viudo, y es la Magestad mas digna de vuestros meritos, que quantos principes ay de presente en Europa, y que en breue serà Emperador por la renunciacion que haze en el Carlos vuestro tio, parece que se deue tratar luego deste casamiento, por los medios que sean mas efectiuos. Se nos alhearmos das interpretações algo tendenciosas do biógrafo da Infanta e de Carolina Michaëlis, nada na documentação de per si nos permite concluir que João III utilizou esta proposta de casamento como forma de dilatar as negociações para a saída da Infanta». In A Infanta Dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Carla Alferes Pinto: A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista. «Que se julgava geralmente que Monseigneur o nosso Principe (Philippe II) se desposaria com a Princeza de Portugal, e que Ruy Gomez Silva fôra a Portugal para esses efeito. Termina falando nas vantagens dum casamento com Filipe II»

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A “Sempre-Noiva”. Política matrimonial e Diplomacia paralela
«(…) Com efeito, ao contrário do que Carlos V planeara ao abdicar dos reinos germânicos em favor de seu irmão Fernando, este não estava disposto a reuni-los sob a égide de Filipe, achando antes que o legítimo herdeiro era o seu filho varão, Maximiliano. O imperador tenta negociar com as armas que tem, ou seja, uma filha solteira e um filho viúvo. A Infanta recebe, então, uma proposta do tio para que casasse com o seu primo o arquiduque da Áustria, Fernando, filho segundo de Fernando da Alemanha e Ana da Hungria.
D. Leonor, contrafeita ou não, aceitou estas alterações e enviou à corte portuguesa um mensageiro que, sob um falso pretexto, tinha por missão saber se a Infanta concordava com o noivo proposto pelo tio. As converses entre os Habsburgo não teriam sido totalmente secretas, pois o certo é que Lourenço Pires Távora soube de que tratavam e escreveu duas cartas, datadas de Dezembro de 1550, uma ao rei e outra à Infanta, com o intuito distorcidamente genial de convencer D. Maria que as negociações do casamento com Filipe avançavam bem, pelo que o melhor seria recusar a proposta de Fernando da Áustria. O que a Infanta fez.
Carlos V não tem melhor sorte com a irmã. Vendo que não conseguia a concretização dos seus intentos, volta-se para a Infanta. Agora, sim, com empenho:


E assim foi. João III resignou-se, desculpando-se por não poder pagar o dote por inteiro, Portugal e a sua corte receberam parabéns e mostras de alegria pelo casamento da Infanta, que foi mesmo chamada de princesa de Castela. Rui Gomes Silva parte de Madrid para Lisboa com a missão de tratar dos últimos pormenores.
Inesperadamente, morre Eduardo, subindo ao trono inglês a princesa Maria, filha única de Catarina de Aragão. João III escreve ao seu embaixador junto de Carlos V, António Saldanha, com toda a urgência, logo a 7 de Setembro de 1553, para que este trate rapidamente do casamento do infante Luís com Maria Tudor, agora rainha. Mas a diplomacia inglesa não estava parada, procurando também o melhor partido para Maria, como o demonstra a carta de Simon Bernard, embaixador do imperador em Inglaterra, ao bispo de Arras na qual são tratadas as questões relacionadas com os possíveis candidatos ao matrimónio com Maria Tudor.

NOTA: Já em 1550, quando da visita da família real à Universidade de Coimbra, o lente Martim de Azpicuelta Navarro dedicou à Infanta o Jubileo, referindo o casamento com Filipe de Castela. Quando se decidiu fazer a2.ª edição em 1575, o autor viu-se na obrigação de dar uma explicação para a incongruência dos factos (que frei Miguel Pacheco transcreveu na sua obra de 1675. Este é, aliás, a mais pungente das reacções que até nós chegou do pronunciado desaire, demonstrando a dor dos que queriam bem à Infanta e os pedidos a Deus para que não se esquecesse dela. Luísa Sigeia, já como latina da casa da Infanta, dedica-lhe, também, o texto do Colloquium (1552) aludindo ao casamento próximo da sua senhora. E não podemos deixar de referir a presença de António Moro na corte portuguesa no ano de 1551; enviado pela rainha Maria da Hungria para retratar o ramo peninsular da família, o retrato de D. Maria pode ter tido uma cópia enviada a Castela para Filipe conhecer a sua noiva O papado tinha também dado a aprovação ao enlace, emitindo uma bula de 6 de Março de 1543, publicada in Corpo Diplomatico Portuguez, 1862-1891.

Nela se escreve: Que se julgava geralmente que Monseigneur o nosso Principe (Philippe II) se desposaria com a Princeza de Portugal, e que Ruy Gomez Silva fôra a Portugal para esses efeito. Termina falando nas vantagens dum casamento com Filipe II. Por seu lado, a própria Maria Tudor manifesta extremo interesse em casar com Filipe II. Numa carta datada de 8 de Setembro de 1553, entre as mesmas personagens, Simon Bernard dá conta de que: estava agastada [M. T.] que S. A. esposasse a Princeza Portuguesa por ser tão proxima parenta de S. A..
Nas vésperas de Rui Gomes Silva, príncipe de Eboli, assinar o contrato nupcial, chega a Lisboa um correio de Carlos V ordenando que se suspenda toda a negociação, caso ainda não estivesse concluída, porque o seu filho ia casar com a mui católica Maria Tudor».

In Carla Alferes PintoA Infanta Dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Carla Alferes Pinto: A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista. «Este casamento tinha como grande opositor o rei João III, julgamos, realmente por razões de Estado; nomeadamente, e uma vez mais, financeiras. E João III ganha um aliado inesperado…»

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A “Sempre-Noiva”. Política matrimonial e Diplomacia paralela
«(…) João III dá, então, resposta aos reis franceses em forma de carta, assinada pelo secretário de estado António Carneiro. Nela, lembra como:


O rei João III continua, afirmando que está disponível para pagar o dote da irmã, mas que não pode consentir na saída de D. Maria de Portugal sem estar casada, porque:


O rei esgrime, assim, um argumento que escapara a todos os diplomatas, mas que apenas contraria, no imediato, os objectivos de Francisco I. Com este despacho despediu-se do bispo de Ade, Maio (?) de 1542, dando-lhe algumas jóias e mil escudos em ouro. Porém, João III tinha já outros assuntos em que pensar. Logo em 1543 realiza-se o casamento que o rei mais ambicionava e para o qual negociava havia muito: o da sua filha Maria com o herdeiro de Carlos V, Filipe, ambos com 16 anos. A infanta D. Maria tinha então 22 anos. Durou pouco este casamento, cerca de dois anos, acabando com a morte da princesa ao dar à luz o desafortunado Carlos, primeiro neto do imperador e de Isabel de Portugal.

NOTA: Segundo o biógrafo da Infanta este casamento dever-se-ia mais à vontade da rainha que do rei. Com efeito, o autor refere que o príncipe João era doente e pouco capaz para gerar um herdeiro para o trono; razões de Estado ditavam, então, que a princesa deveria casar com o infante Luís, seu tio, garantindo a continuidade da Casa de Avis-Beja, enquanto Filipe deveria casar com a infanta D. Maria, garantindo a amizade com Castela. Parece-nos, no entanto que este entendimento dos factos se deve à parcialidade com que o biógrafo explica os eventos em torno da Infanta. Assim, este consórcio interessava muito a João III e a Portugal, e por outro lado o príncipe João não tinha mais de 6 anos de idade, sendo, certamente, prematuro fundamentar alianças matrimoniais na sua inépcia.
A data do poema Syntra de Luísa Sigeia, que tem uma referência expressa a este casamento, é 1546.

Pouco depois surgia o projecto de fazer da infanta D. Maria a segunda mulher de Filipe. A historiografia tradicional, sempre muito colada à interpretação de frei Miguel Pacheco, viu em Carlos V o autor e impulsionador da ideia. Todavia colocamos uma nova hipótese, pelas razões que passamos a explicar. Não há qualquer registo documental da data em que a proposta chegou à corte portuguesa, facto que não é pouco significativo atendendo às relações privilegiadas (e constantes) entre as cortes portuguesa e imperial. Por outro lado, é o próprio João III que numa carta a António Saldanha lança o nome daquela que consideramos ser a verdadeira autora deste projecto:


Reafirmando a sua surpresa por:
  • ele [Imperador] narn ther mandado falar neste casamento.
As datas e a maneira com o negócio foi conduzido corroboram esta tese. D. Leonor começa a exercer verdadeira pressão junto de João III por volta de 1547, dois anos depois da morte da princesa Maria, quando enviuvara pela segunda vez e vivia já na Flandres em companhia da irmã Maria e junto do irmão Carlos. Este ter-se-á limitado a concordar com a vontade da rainha, sem encontrar nisso qualquer inconveniente para a sua política europeia, mas sem se empenhar pessoalmente, o que justificaria as escusas de João III e nomeadamente a acção do seu embaixador na Flandres, Lourenço Pires Távora, que é, cinicamente, aconselhado a:
  • trata lo [o assunto do casamento] de tal modo que se va o mais suavemente que puder ser dispondo rara este fim [atrasar as negociações].
Este casamento tinha como grande opositor o rei João III, julgamos, realmente por razões de Estado; nomeadamente, e uma vez mais, financeiras. E João III ganha um aliado inesperado nesta questão».

In Carla Alferes Pinto, A Infanta Dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Carla Alferes Pinto: A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista. «A acrescentar às 400 mil dobras de ouro, havia os interesses acumulados nos 21 anos da Infanta (…) importando tudo em cerca de um milhão de dobras de ouro»

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A “Sempre-Noiva”. Política matrimonial e Diplomacia paralela
«(…) O bispo foi recebido pouco tempo depois na corre por João III, a quem entregou duas cartas, uma de cada um dos seus soberanos. Vai depois à presença da rainha D. Catarina, que estava acompanhada da Infanta e da filha homónima, bem como de várias damas da corte. Entrega outra carta da rainha de França a D. Catarina e fala com a Infanta. Carlos V é prontamente avisado pelo seu embaixador e, também, pela carta da irmã. Manda que o primeiro, que encarrega Francisco de Gusmão, dado ser-lhe impossível ir ao Paço de D. Maria sem que os espiões do rei soubessem, entregue à Infanta instruções nas quais a adverte do perigo que constitui o Frances, esclarecendo-a de que a sua ida para a corte dos Valois não servia para mais do que financiar a guerra contra os Habsburgo e que a razão apresentada por Francisco I, satisfazer um desejo de D. Leonor, não podia estar mais longe da realidade em vista da maneira pouco cortês com que a tratava, deixando-a só longas temporadas enquanto se divertia com os seus cortesãos e cortesãs em um qualquer outro palácio. Através de outra carta, o imperador convence a irmã das desvantagens de chamar a si a Infanta sem estar casada, pois, assim, Francisco I poderia casá-la com quem bem entendesse, despojando-a dos bens e obrigando-a a viver em solo inimigo, à semelhança da vida que ela, rainha, enfrentava todos os dias.
Carlos V compõe o ardil com o objectivo de dilatar as negociações, até encontrar a resolução que mais lhe conviesse. Francisco I era ludibriado, já que para ele a rainha insistia em que a filha saísse de Portugal solteira e acompanhada de toda a sua fazenda a infanta D. Maria optava por obedecer ao tio ao evitar sair de Portugal sem noivo escolhido, permitindo-lhe assim controlar o seu dote; e D. Leonor contrariava, de maneira não oficial e sempre usando o nome de D. Maria, as ordens que o bispo de Ade recebera para que, e só em último caso, a Infanta pudesse sair do país com a promessa de que a sua fortuna seria paga com o rendimento obtido nas feiras anuais.
O segredo e a desconfiança em torno dos criados de origem portuguesa que serviam a Infanta fazem crer que João III não foi consultado sobre o negocio da Infanta. Todavia, os propósitos de Carlos V, ainda que por motivos diversos, coincidiam com os seus: João III não queria deixar sair a Infanta, e tentou, mesmo, dissuadi-la numa conversa que tiveram nos seus paços e que foi relatada por Francisco de Gusmão a Luís Sarmiento, que a descreve a Carlos V:


 Não deixa de ser curioso verificar a proximidade das datas e a rapidez com que as perguntas e as respostas chegavam aos interlocutores, quando os assuntos anteriores foram tratados com o vagar diplomático que as razões de Estado ditavam. É, de novo, o que se passa com e resposta de João III sobre a única interrogação que importava responder: qual era, afinal, o valor da fortuna da Infanta? Foi esta a maneira que o rei encontrou de contrariar os propósitos da irmã que insistia em não partir sem os seus cabedaes.
As cláusulas do Tratado de Saragoça estipulavam que:
  • ao filho primogénito dar-se-iam 800 mil dobras de ouro, ou ao segundogénito, caso o primeiro falecesse; 
  •  não ficando filho varão e havendo crianças do sexo feminino, dar-se-iam 400 mil dobras;
  • não havendo nascido filho varão ficaria a mais velha das filhas com 200 mil dobras de ouro.
D. Maria tinha direito ao cumprimento da segunda cláusula, uma vez que tivera um irmão de nome Carlos que morrera com cerca de 18 meses. Mas João III contrapunha que nascer e morrer logo em seguida era o mesmo que nunca ter nascido, pelo que a Infanta teria direito às dobras expressas na terceira cláusula. O conselho que mandara reunir para analisar o caso dá-lhe obviamente razão. Cados V ordenara também a reunião de alguns membros do seu conselho para deliberar sobre as palavras do contrato, concluindo exactamente o contrário dos juízes de João III, e argumentando que qualquer ambiguidade do texto se devia ao próprio rei Manuel I, que o mantivera tendo presenciado a morte do filho e o nascimento posterior de D. Maria.
A acrescentar às 400 mil dobras de ouro, havia os interesses acumulados nos 21 anos da Infanta: o valor em dinheiro dos lugares e cidades (como Torres Vedras e Viseu) que possuía em Portugal e as jóias, importando tudo em cerca de um milhão de dobras de ouro. O que criava um problema grave a João III pois o bispo de Ade não estava disposto a partir e o rei não tinha como pagar o dote».

In Carla Alferes PintoA Infanta Dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Carla Alferes Pinto: A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista. Parte XII. «O bispo, que chega a Lisboa a 10 de Janeiro de 1542, tinha ordens para levar a Infante para França, com o dote que lhe era devido. Se tal propósito ‘levasse muito tempo e pouca solução’ D. Maria poderia partir sem o dote e com promessas de que o mesmo seria pago... Era esta a intenção»

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«Manobrara de forma hábil as ambições portuguesa e francesa sobre o ducado de Milão, de maneira a tornar os dois reinos adversários, e começara a convencer João III de que armar de tantos capitais um país com exércitos comandados por Francisco I acabaria por ser prejudicial, não só para ele como para Portugal, face às inúmeras relações pessoais que existiam entre as casas de Avis e de Habsburgo. Mas Francisco I, interessado no dote da Infanta e também terrivelmente pressionado pela rainha D. Leonor, escreve, a 26 de Agosto de 1538, ao seu embaixador na corte de Carlos V para que averigue, discretamente, sobre qual das duas Marias, filha de Carlos e de Isabel de Portugal, ou a Infanta portuguesa, gostaria o imperador de ver casada com o duque de Orleães.
Carlos V deu resposta logo no mês seguinte dizendo não poder dispor da mão de sua filha por motivos que ElRei de França devia de saber, e quanto ao casamento da infanta portuguesa com o duque francês, não o julgava correcto, uma vez que Carlos de Orleães estava quasi fiançado com a filha de Fernando da Alemanha.

NOTA: Com efeito, Carlos V reservara para o filho primogénito do rei dos romanos a sua filha mais velha, homónima da infanta portuguesa...; tanto mais que não podia a Infanta portugueza ccasar-se com o primogenito d' ElRei dos Romanos, a quem estava a filha do Imperador, o qual não entendia saísse sua filha fóra da casa d’Austria, [doc. Datado de 1535]. Relations des Ámbassadeurs vénitiens sur les affaires de France au XVIe siècle, tomo I, in Santarém, 1842-1860.

E para que não restassem dúvidas quanto à vontade do imperador - e, também, para acalmar a ansiosa rainha - reserva todo um artigo na carta ao rei francês para manifestar o seu empenho pessoal na resolução desta questão. Esse empenho não foi suficientemente lesto; em Abril de 1540, Carlos V volta a dar resposta a Francisco I sobre o mesmo assunto, agora num tom mais moderado, mas que deixa adivinhar que continuavam as manobras diplomáticas de bastidores.

NOTA: … diz que confiando nas virtudes da dita Infanta, e nas de sua mãi a Rainha D. Leonor, viuva d’EIRei D. Manoel de Portugal, elle se obriga a fazêl-as consentir em quanto a respeito d’ellas ajustar com ElRei de França. E no art. XIII oferece a sua mediação e bons ofícios, junto a ElRei de Portugal, afim de se concertarem amigavelmente as diferenças que entre elle e ElRei de França subsistião. [BNP, Cód. 8577].

D. Leonor e  Francisco I não desistem e mandam a Lisboa o bispo de Ade, dando início a um período de fértil correspondência entre a Infanta, a rainha D. Leonor, Francisco de Gusmão e as cortes de João III, Carlos V e Francisco I, com o intuito de concluir as negociações sobre a ida de D. Maria para França.
Em Dezembro de 1541 é a rainha de França que escreve à filha a fim de lhe dar a conhecer os seus desejos e as diligências que faz. Nesta carta, D. Leonor dá conta de que:
  • ya tengo escrito al Emperador, suplicando le haga de rnanera que vuestra hazienda sea assegurada desde aora, e que se Si dixeren que no salgais de sus manos sin ser casada, direis, que esto toca a vuestra madre.
Recomenda-lhe, ainda, que a carta, só seja vista por Joana Blasfer e que a queime depois de lida; e termina dando-lhe instruções para que não fale com ninguém sobre tal assunto, nomeadamente ao embaixador francês Honorato de Caix, salvo com o enviado de Carlos V na corte portuguesa, Luís Sarmiento. O bispo, que chega a Lisboa a 10 de Janeiro de 1542, tinha ordens para levar a Infante para França, onde se trataria de arranjar estado para a jovem princesa, com o dote que lhe era devido; todavia, e se tal propósito levasse muito tempo e pouca solução, D. Maria poderia partir sem o dote e com promessas de que o mesmo seria pago conforme fosse possível. Era esta a intenção. Pelo menos a de sua mãe, mas não necessariamente a de Carlos V, e certamente que não a de Francisco I». In Carla Alferes Pinto, A Infanta Dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Carla Alferes Pinto: A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista. Parte XI. «Não é difícil concluir que João III mudara de opinião sobre as vantagens de uma aliança luso-francesa. Carlos V fizera uma proposta bem mais vantajosa. Manobrara de forma hábil as ambições portuguesa e francesa sobre o ducado de Milão…»



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«Com efeito, o mês de Maio de 1536 foi para Henrique VIII de tal forma célere e bizarro que confundiria qualquer diplomata, até o mais avisado: a 19 faz executar Ana Bolena e ainda antes do fim do mês casa com Jane Seymour que também não seria rainha de Inglaterra por muito tempo, desta vez mais por culpa da incipiente medicina dos Tudor que por capricho real. Jane conseguira gerar o varão que Henrique tanto ambicionava e este custou-lhe a vida: Eduardo nasce a 12 de Outubro e ela morre a 24, no ano de 1537. Numa carta, datada de 29 de Novembro de 1537, de Cromwell a Thomas Wyatt, na qual o primeiro se queixava da pouca importância dada pelos embaixadores imperiais à conclusão das negociações do casamento de Luís com Maria Tudor, conclui que esses mesmos enviados haviam feito:
  • uma proposta de casamento com uma Filha d'ElRei de Portugal, e que fora esta bem aceite pelo Governo Inglez.
Apenas dois meses após a morte da rainha, o ministro de Henrique VIII retoma uma proposta de Carlos V que se tornara incapaz um ano antes; esta filha do rei português não podia ser outra que não a infanta D. Maria (as filhas de João III e de D. Catarina eram demasiadamente novas e as irmãs da Infanta estavam já casadas). Mais uma vez o casamento não se concretiza, e mais uma vez a responsabilidade terá que ser imputada a Carlos V e à sua política europeia. Inesperadamente, em 1538, o imperador e Francisco I põem de lado as suas diferenças, ao que se segue ume feroz retaliação por parte da Santa Sé contra Henrique VIII; e o Tudor casa no final de 1539 com Ana, duquesa de Clèves, cuja casa paterna tinha ligações com a Liga de Esmalcalda, qual os príncipes luteranos alemães se haviam unido para lutar contra Carlos V.
A carta de Álvaro Mendes Vasconcelos contém ainda uma frase que nos ajuda a compreender a mudança de atitude de João III face às propostas do rei francês:
  • Quanto a frança Vossa Alteza a meu ver e não me engano deve satisfazer o Emperador largamente e obrigado a passar os vossos negocios por onde os seus.
De facto, outra carta, datada de 22 de Setembro de 1537, em que o rei dá instruções ao conde de Castanheira sobre os motivos que se prendem com a sua missão de confiança, começa o texto tratando do assunto da:
  • Infante, dona Maria, minha irmãa, pela presunção que tenho, alem do que ele [Imperador] ja nisto me escrevueo, que a Rainha de França, sua mãy, rne quer pedir que a mande a França..
A vontade régia ia contra o desejo de D. Leonor e, apesar de não esclarecer, considera:
  • que pera ysto sejam as rezões em contrario muy craras a todos, porque alg~uas sam de calidade que se nam podem bem praticar.
Tem por tão certa a justeza da sua recusa que reafirma que:
  • a ele [Imperador] lhe não parecera bem tal cousa, e que lhe peço que asy seja polas muytas Rezões que ha pera iso, [...] por que a Rainha, sua mãy, pelo emxempro que de mym tem, me devia de mandar de França sua filha, mynha irmãa, pera d’aquy milhor casar que de França; [...] e da casa da Rainha nam devia a Rainha de França de querer que sua filha d’aqui saise, quanto mais pera o trato fances. Item: todas as mais Rezões d’isto que convosquo pratiquey, dizendo lhe tanbem quanto a Rainha sente ouvir falar nisto, e como lhe parece Rezão, se fora licito criarense suas filhas fora da Regno, mandalas ele a sua casa antes que a Arevalo, quanto mais averse de hyr de sua casa sua sobrinha, minha irmãa.
Não é difícil concluir que, por esta altura, João III mudara já de opinião sobre as vantagens de uma aliança luso-francesa que fosse contra os desejos do imperador. Como vimos, Carlos V fizera uma proposta bem mais vantajosa. Manobrara de forma hábil as ambições portuguesa e francesa sobre o ducado de Milão, de maneira a tornar os dois reinos adversários, e começara a convencer João III de que armar de tantos capitais um país com exércitos comandados por Francisco I acabaria por ser prejudicial, não só para ele como para Portugal, face às inúmeras relações pessoais que existiam entre as casas de Avis e de Habsburgo». In Carla Alferes PintoA Infanta Dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.

domingo, 10 de junho de 2012

Carla Alferes Pinto: A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista. Parte X. «João III recebe o embaixador com algum entusiasmo; mera aparência, segundo o biógrafo da Infanta, já que as razões financeiras pesaram mais. O rei responde [...] a pouca idade da Infanta e o facto de não estar ainda ajustado qual o montante do dote que lhe era devido»



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«O certo é que o delfim morreu, nesse mesmo ano, em circunstâncias assaz misteriosas, diz-se que envenenado, tendo por tal crime sido julgado Montecuculi em grande assembleia que Francisco I fez, reunir em Lyon a 25 de Setembro de 1536.
Ainda antes destes acontecimentos, o tio de D. Maria procurara noiva para o seu filho herdeiro, Maximiliano, encontrando na Infanta princesa ideal para esse consórcio. De facto, Fernando não achou qualquer outro obstáculo que não a idade da Infanta, cerca de 11 anos, contornável, aliás, pelo tempo que as dispensas papais, as negociações políticas, os contratos diplomáticos e as bençãos reais iriam levar. Assim, o soberano despacha a Lisboa o monsenhor de Lourdes, com a especial incumbência de propor o "negócio" a João III e mostrar-lhe o quão vantajoso seria para sua irmã e para ele próprio como rei de Portugal. João III recebe o embaixador com algum entusiasmo: mera aparência, segundo o biógrafo da Infanta, já que as razões financeiras pesaram mais. O rei responde mais tarde com dois argumentos que fariam dilatar as negociações: a pouca idade da Infanta e o facto de não estar ainda ajustado qual o montante do dote que lhe era devido. Maximiliano acabaria por casar com Maria, filha de Carlos V e de Isabel de Portugal, em 1548,quando a princesa contava já 20 anos, e mais de l5 depois destas negociações.
17 de Maio de 1536 é a data de uma carta de Álvaro Mendes de Vasconcelos, embaixador de João III na corte do imperador. Nela, o embaixador conta como foi chamado junto a Carlos V e informado que:
  • sobre o casamento da Iffante Vossa Irmã. Com o Delfim [...] a rezão de seer estava perdida e para se não dever de falar nisso e para se não buscar tão danada aliança como Vossa Alteza bem via e que vistas estas rezões que se tão manifestamente descobrião e olhando as ditas novas de Inglaterra tão ordenadas por Deos.
Daqui se conclui que Carlos V via de bom grado uma aliança matrimonial de um membro da sua família com Henrique VIII, rei que havia dez anos repudiara sua tia, Catarina de Aragão, mas que a lógica de Estado obrigava a trazer para a sua esfera de influência face às constantes hesitações na diplomacia externa do Tudor. A carta segue dizendo:
  • ElRey de Inglaterra ficava como lhe escreve seu embaixador livre, e com muito desejo de casar e de maneira que não pode negar a Princesa de filha legitima herdeira [...] que se lhe bem estiver casar com a Senhora Iffante Vossa Irmã e Por Vos a Princesa para o Iffante Dom Luis que elle o falará com Vossa Alteza e que confia tanto em Vossa Amizade que cre que fareis nisto o que vos elle pedir.
Uma das vantagens desta dupla união, e argumento que calaria os protestos de João III, estava no facto de o dote que Henrique VIII receberia pelo casamento com a Infanta ser imediatamente devolvido pelo casamento de Maria Tudor com o infante Luís. Acrescentava ainda:
  • Que a Iffante nanqua parirà ficarà o Iffante Dom Luis Rey de Inglaterra que he a melhor cousa do mundo, e se parir fica o Ifante Dom Luis rnuito bem casado.
Henrique VIII também teria algo a ganhar, já que:
  • [o] Emperador tinha falado ao Papa e faria que tudo se acabasse bem que me afirmava que EIRey de Inglaterra era bom cristão, e de bons respeitos e bem inclinado.
A razão de semelhante interesse por parte de Carlos V em ter um membro da sua família junto de Henrique VIII é explicada mais adiante na carta:
  • porque sem duvida elle o espera e deseja que Vossa Alteza mande ir seus embaixadores quando elle mandar vir [de França] os seus que serà muito sedo segundo as cousas vão. E o quando mandarà vir o dito seu embaixador e quando mandarà apregoar a guerra ainda não està nomeado o dia mas diz oEmperador que mui prestes mo dirà e se farà.
Os factos confirmam que esta proposta era unilateral, tendo sido tratada primeiro com os diplomatas portugueses e .só depois comunicada para Inglaterra. Com efeito, o mês de Maio de 1536 foi para Henrique VIII de tal forma célere e bizarro que confundiria qualquer diplomata, até o mais avisado: a 19 faz executar Ana Bolena e ainda antes do fim do mês casa com Jane Seymour que também não seria rainha de Inglaterra por muito tempo, desta vez mais por culpa da incipiente medicina dos Tudor que por capricho real. Jane conseguira gerar o varão que Henrique tanto ambicionava e este custou-lhe a vida: Eduardo nasce a 12 de Outubro e ela morre a 24, no ano de 1537».  
In A Infanta Dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Carla Alferes Pinto: A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista. Parte IX. «João III via, pois, no casamento da irmã com o delfim uma forma de selar a união política que lhe permitiria controlar as pilhagens francesas nos mares e, apesar de haver passado dois anos sobre a data estipulada em Madrid, em 1535 este plano estava ainda de pé»



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A "Sempre-Noiva”. Política matrimonial e diplomacia paralela
«A justificação para o epíteto de "sempre-Noiva" com que Carolina Michaëlis de Vasconcelos baptizou D. Maria foi sempre baseada em dois estigmas que condicionavam a visão da personalidade da Infanta: a sua enorme fortuna e os interesses políticos adversos. Estas não são razões menores, o erário estava depauperado com os incontáveis gastos dos três casamentos reais, o de Manuel I com D. Leonor em 1518, o de João III com D. Catarina em 1525, e o de Carlos V com D. Isabel em 1526, com a questão das Molucas e as constantes perdas financeiras envolvendo o Império e as considerações político-diplomáticas jogaram aqui um papel importante. No entanto, elas não foram razões exclusivas.
O dote da Infanta era avultadíssimo, de facto, e havia duas faces da mesma moeda a considerar. Se por um lado o erário não podia suportar tal perda, por outro, o enorme dote devido a D. Maria iria engrandecer monetariamente outro Estado, cuja aliança teria de, indubitavelmente, beneficiar Portugal. De qualquer forma, não havia em Portugal pessoa nobre que pudesse casar com a Infanta, quer pela sua cultura e condição que, acima de tudo, pela sua fortuna. Assim, desde muito cedo se lhe procurou noivo fora do reino.
Em 1526 (14 de Janeiro, no Tratado de Madrid, pelo qual se definira o contrato de casamento entre Francisco I e D. Leonor), Carlos V que acabara de infligir uma pesada derrota e humilhação pessoal ao rei dos franceses na Batalha de Pavia, julgava poder dominar o seu arqui-inimigo. Concede, então, à irmã a única cláusula por ela pedida e que estipulava o casamento do delfim Francisco, filho primogénito do rei francês, com D. Maria, a concretizar-se em 1533, altura em que ambos teriam já completado os 12 anos.
Francisco I revelar-se-ia bastante mais intransigente, e nem o consórcio apaziguador com D. Leonor o afasta do desejo de guerrear com Carlos V Ao longo de toda a década de 30, volta a provocar e prejudicar os interesses dos Habsburgo e, também, de Portugal. Estes factos não o impedem de fazer a esperada proposta a João III. Numa carta deste a Bernardim de Távora, que estava na corte francesa para felicitar o rei pelo casamento do seu filho Henrique com Catarina de Médicis e desejar as melhoras à rainha D. Leonor na sua doença, confessava que:
  • Nos dias passados Honorato de Caiz veo a mi e me cometteo Casamento da Infante minha Irmaã para hum filho de El Rey de França e assi que nos comcertacemos nas navegaçoens dos Mares; que eu quizesse que se vendessem em França certas especiarias, e porque nestes tempos sempre os Francezes fizeraõ roubos, e tomadas a meus Vassalos e nunca se fez justiça [...] Vos dareis essa carta minha de crença a El Rey de França e lhe direis que ouvi o que Honorato de Caiz Seu Embaixador me disse, e porque dezejo muito conservar sua amizade e assi por cumprir o que os Reys […] devem a Deos me pareceo bem de lhe pedir e muito lhe rogar o que já outras vezes lhe tenho pedido e rogado; que elle queira ver como estas couzas de entre os seus Vassalos e os meus passaõ [...] daria muy grandes castigos, aos que assi lhe dizem o que nam hé, mas se espantaria muito de tamanhos roubos e damnos como se fazem a meus Vassalos.
João III via, pois, no casamento da irmã com o delfim uma forma de selar a união política que lhe permitiria controlar as pilhagens francesas nos mares e, apesar de haver passado dois anos sobre a data estipulada em Madrid, em 1535 este plano estava ainda de pé. Contudo, as fortes pressões de Carlos V, que encontrava no avultado dote da Infanta o financiamento da guerra francesa, dificultaram o plano do rei português, ou pelo menos delongaram as decisões por todos estes anos.

NOTA: O que não impede João III de fazer uma proposta muito mais vantajosa para os seus descendentes directos, escusando-se que por não tirar dinheiro de meus Reynos não queria outra liança senão a sua e a dos seus. Ou seja, é numa carta cuja função é o pedido de Honorato de Caix da mão da princesa D. Maria para o delfim francês que o rei toca pela primeira vez com Carlos V num assunto que verdadeiramente lhe interessa […]

A negociação diplomática desta questão terá sido definitivamente minada quando o imperador fez saber que a disputa sobre o Ducado de Milão resultara de um pedido de João III». 
In A Infanta dona Maria de Portugal, o Mecenato de uma Princesa Renascentista, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-90-5.

Cortesia da Fundação Oriente/JDACT