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domingo, 26 de janeiro de 2014

O Mosteiro de Santo Tirso. De 978 a 1588. A silhueta de uma entidade projectada no chão de uma história milenária. «Assim, o destinatário dos livros não foi comendador Passos que, de bom grado, renunciaria àquilo de que ânsia nunca tivera. Antes a Biblioteca Municipal do Porto. Pois, no que toca aos prédios…»

Cortesia de wikipedia

Prefácio
«(…) Todo o mundo é minha pátria. Todo o homem é meu irmão. Mas só em ti, ó minha terra, melhor saboreei o genuíno afago do pátrio amor. Como nos conterrâneos meus melhor senti os dotes da progenitura do que em qualquer outra fraternidade a que doido me abraçasse!… Há coisas que sinto, mas que não entendo. E tanto sinto de ti quão assim pouco o sei expressar. No corpo com que me despeço, me fica a alma em teu regaço. Sê tu, pois, o berço da minha eterna felicidade.

Uma reflexão sobre as fontes. O destino dos bens de Santo Tirso, após a extinção
Encerrados os mosteiros, em 1834, foram os seus bens incorporados na Fazenda Nacional. Logo se seguiria a fixação dos destinos a que iriam ser sujeitos os valores de que as casas religiosas se compunham. O mosteiro de Santo Tirso, quanto às propriedades imobiliárias, foi dividido em duas partes: os prédios rústicos e os urbanos. Diviserunt sibi vestimenta meaOs primeiros foram vendidos, em 1839, ao cunhado do ministro Passos Manuel, o comendador José Pinto Soares, que Camilo tanto iria ridicularizar. Parece-me que sem exagero… Os edifícios, esses iriam ser repartidos em três fracções: a galeria reservada às repartições públicas do novel concelho de Santo Tirso; a igreja, o primeiro claustro e o dormitório próximo das escadas que conduziam ao Coro-alto, para a freguesia. O resto, os três claustros e galerias envolventes, afora pequenas secções que foram dadas à paróquia, destinar-se-ia a venda, que o mesmo comendador arremataria em 1842.
Quanto aos bens móveis, pratas, peças de mobiliário, dinheiros livros…, incorporados na Fazenda Nacional, é possível que muitas destas coisas viessem a ser postas a salvo e escondidas pelos frades, junto de pessoas de confiança. Prevendo o facto, a lei instituíra a figura jurídica do delator, espécie de cão, de faro bem apurado, que levantasse a lebre onde quer se descobrisse. Ora o cão dos bens de Santo Tirso veio de Moncorvo. Longe lhe cheirariam as joias dos nossos monges. E o Manuel José, assim se chamava o felino, levantou a lebre na Casa de Singeverga. Uns 50 ou 60 anos antes desta grande unidade de lavoura ter sido doada aos beneditinos. Não sei se as joias do extinto mosteiro de Santo Tirso estavam ou não escondidas. O facto é que a denúncia, só por si, parece supor relações de amizade entre esta casa de lavoura e os religiosos, o que era efectivamente verdade. Até porque um ex-beneditino, vítima da exclaustração, ficara exercendo a sua acção pastoral na freguesia de Roriz. E, com certeza, que o tal beneditino e, possivelmente, outros mais, estabeleceria laços de amizade com famílias de Roriz e doutras paróquias também. Dizia o caça-tesouros Manuel José ao Governo Civil do Porto:
  • Manoel José Alves de Moura, morador na freguesia de Móz Julgado de Moncorvo vem denunciar à Fazenda Nacional os seguintes bens que a mesma pertencem, com o protesto de haver em seo beneficio o que a Lei marca que são os seguintes; as joias e moveis ricos e alguns dinheiros do extincto Convento de Santo Thirso guardados pelo então Abbade do dito Convento Frei José do Espírito Santo (O homem andava mal informado da história, que só para o dinheiro tinha faro. O último abade de Santo Tirso fora Joaquim de Santa Rosa) achão-se guardados na Casa de Singeverga na freguesia de Roris do dito Julgado de Santo thirso…
Pois, no dito despacho poderia ler-se: recebido às onze horas do dia d’hoje: registese e proceda-se as deligencias ordenadas no Decreto de 10/I/1837. Porto 14 de Setembro de 1847. Conde de Penamacor. Quanto aos livros da biblioteca, e era rico o seu recheio!, estes foram para a Biblioteca Pública do Porto. E cedo… Temos a nota da despesa do transporte ao seu destino: 30 de Setembro 1835 Mosteiro de Santo Thirso. Por conducção da livraria para a Biblioteca Pública conforme a Conta, 5.300. Assim, o destinatário dos livros não foi comendador Passos que, de bom grado, renunciaria àquilo de que ânsia nunca tivera. Antes a Biblioteca Municipal do Porto. Pois, no que toca aos prédios, sabemos do jogo sujo dos políticos que tudo fizeram para canalizar, ao mais baixo preço, as quintas e a parte vendável do edifício conventual para as mãos do comendador Passos, o cunhado do ministro Passos Manuel. No referente a joias e dinheiro, sabemos da boca hiante do erário público que, à custa da igreja e, especialmente, dos pobres frades, gosta de saciar a fome do bandulho do seu despesismo insatisfeito. Do arquivo monástico ainda não veio ao meu conhecimento o paradeiro a que arribara. A não ser que, confundido o seu recheio com o da biblioteca, fossem também os códices e pergaminhos parar à dita Biblioteca Municipal do Porto, onde, de facto, ainda hoje, se encontram livros manuscritos e documentos do nosso mosteiro.

Os manuscritos
Em 10 de Agosto de 1789, suponho eu, numa carta dirigida ao abade Correia Serra, dirá João Pedro Ribeiro:
  • (...) todos os Cartorios de Lisboa não valem hum desta Provincia, porque precizando-se mais que tudo de Documentos anteriores á Monarchia, não he aqui que se hão de achar mas sim por estes sitios. O Cartorio do Cabido de Coimbra, Porto e Braga dos Mosteiros de S. Thirso, Pombeiro, Refoyos Arnoya; os Cistercienses em que Frei Joaquim trabalhou sabe Deus como; tudo offerece hum Campo vasto e que pede se lhe não tirem Obreiros. Estes, (e eu seria o mesmo), perdem-se em Lisboa, onde as diversoins alheiam de trabalhos fastidiosos».
In Francisco Carvalho Correia, O Mosteiro de Santo Tirso, de 978 a 1588, A silhueta de uma entidade projectada no chão de uma história milenária, Tese de doutoramento, Facultade de Xeografía e História, Universidade de Santiago de Compostela, Estudo, Santiago de Compostela, ISBN 978-849-887-038-1.

Cortesia da USdeCompostela/JDACT

O Mosteiro de Santo Tirso. De 978 a 1588. A silhueta de uma entidade projectada no chão de uma história milenária. «De qualquer forma, gotejam destas páginas suores de muitas canseiras, sonhos perdidos de noites brancas, sem luares, sem estrelas e sem idílios azuis de anjos. Apenas me aflora ao rosto o suor que do meu pai me coube de herdar…»

Cortesia de wikipedia

Prefácio
«(…) Sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança, assim escrevera António Gedeão, na Pedra Filosofal Antes, o reafirmara o autor da Mensagem: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Quando o homem tem o sonho por realidade, o homem cria a realidade do sonho!… Se a obra não nasce, não é porque Deus o não queira, mas só porque o homem não sonha. O homem sem ideal já o definiu o autor da Mensagem: Besta sadia, cadáver adiado que procria. Devia haver pena de morte para os sonhos que deixamos morrer…Abortá-los ou deixá-los silenciosos no eterno vazio das coisas que não são será crime que não merece a condolência do perdão misericordioso. Na sociedade consumista de hoje, impõe-se a tarefa evangélica da saída do semeador a semear a sua semente. Tantos terrenos votados ao vil abandono do menosprezo… É certo, o sonho é rio com água que flui. Mas uma que outra vez, com cachoeiras de raiva que tanto espumam!… Bem! Desde o sonho à realidade, a distância vai longe. E cansado e débil e de forças quase exausto, como náufrago em luta temerosa contra a maré, chega tantas vezes o sonho ao seu destino: - Nai, onde van os soños que se soñan ? - Os soños non vam, fillo. Os soños veñen da neboa como naufragos buscando Terra (Eva Veiga).
Há muitas décadas que este sonho, a monografia do mosteiro de Santo Tirso, me seduziu. Aos começos, como feto, no ventre materno, ainda informe, que, porém, já algo vaticina, sem que, todavia, tudo nos desvende. Que bom seria que a história surgisse, logo aos começos, acabada e perfeita. Que caísse do céu azul cristalizada como o maná do Deserto! Mas a história não se faz. Vai-se fazendo!… Também, e por outro lado, não gostava que fosse o maná. Se caísse já feita, apenas se nos exigiria o esforço momentâneo de a apanhar. Mas retirar-se-nos-ia o prazer de assistirmos ao seu crescimento. E mais: o prazer de saborearmos, com deleito redobrado, aquilo que é como a Eva do Éden paradisíaco: osso dos meus ossos, carne da minha carne. Com que prazer e carinho não afaga e amacia sobre o seio o seu bebé, uma e muitas vezes, a mãe que o transporta no paraíso terreal do seu ventre! E, depois que nasce, como acresce de beijos e carícias, em transportes de ternura, o seu filhinho, assistindo mimada ao seu crescimento. De qualquer forma, incontornável o princípio das limitações congénitas do ser humano. Mas não posso replicar como o mau administrador da parábola: Senhor, sabia que eras exigente, que recolhias onde não semeavas
Com certeza que, neste dia de contas, posso confessar que todos semearam. Que a semente foi boa. E, se bom fruto não houve, é porque o terreno poderia ter sido melhor. Sei das dificuldades, sei dos limites. Até porque nunca existiu, em história, a última palavra… Poderia citar tantos exemplos de últimas palavras que, no mecanismo inexorável da evolução dialéctica, se fizeram palavras apenas balbuciadas de uma timidez quase infantil. A confusão evangélica dos últimos com os primeiros… O homem, e seu produto, nasce, cresce, envelhece e morre. Se nada se cria e nada se perde, pelo menos tudo se transforma. Só uma coisa me seduzirá: a de fazer o melhor que sei. Quanto ao resto, nada me ilude. Os elogios não me estimulam mais que a minha vontade de fazer; as críticas outra coisa não são que meras varas sem o aguilhão que fira. Não mordem, que deixo caminho aberto e escancarado a que os outros façam melhor.
De qualquer forma, gotejam destas páginas suores de muitas canseiras, sonhos perdidos de noites brancas, sem luares, sem estrelas e sem idílios azuis de anjos com Deus. Apenas me aflora ao rosto o suor que do meu pai me coube de herdar, ele que, nos braços esforçados de um Laocoonte, ao solo arrancava os trepos retorcidos, donde, porém, iria recolher o pão amassado no suor do rosto, com que, em forma de milagre permanente, saciava a fome de seus filhos. Das gralhas que, apesar do meu esforço duro, impugnei, derrota antecipada foi a minha luta. A este propósito, de nada valerá a prece litânica, por mais que repetida, do Libera nos, Domine!…Por isso, e no que toca às remanescências dos piolhos que catei, as confio agora ao leitor que pacientemente as haja de expurgar. Tomo das páginas do fidalgo Francisco Manuel de Melo a recomendação oportuna: da infelicidade da composição, erros da escritura, e outras imperfeições da estampa, não há que dizervos: vós os vedes, vós os castigai». In Francisco Carvalho Correia, O Mosteiro de Santo Tirso, de 978 a 1588, A silhueta de uma entidade projectada no chão de uma história milenária, Tese de doutoramento, Facultade de Xeografía e História, Universidade de Santiago de Compostela, Estudo, Santiago de Compostela, ISBN 978-849-887-038-1.

Cortesia da USdeCompostela/JDACT

O Mosteiro de Santo Tirso. De 978 a 1588. A silhueta de uma entidade projectada no chão de uma história milenária. «Ao fim e ao cabo, a teia ficou terminada. Trabalho conclusivo de uns trinta anos de tão aturada quam paciente investigação. E à Universidade de S. Tiago as lágrimas saudosas que me hão-de irrigar os passos breves…»

Cortesia de wikipedia

Prefácio
«Se saudades me enlevam na velhice?!…, perguntas-me. Afora o aconchego rural dos meus pais, só os tempos distantes de Roma. Ó Roma eterna dos mártires e dos santos, paraíso perdido dos meus sonhos de criança!… Vago e etéreo ainda me revejo, tantas vezes, ora, pasta sob o braço, no átrio da Universidade; ora peregrino, na Praça de S. Pedro; ora contemplativo e extático no interior da Capela Sixtina; ora, no Coliseu, atento ao gesto último das Vestais, sobre o destino dos gladiadores vergados ao peso da derrota; ora devoto e encorajado nas sinuosas galerias das catacumbas dos teus mártires, ó Roma eterna…
Roma me gerou! E um cordão umbilical, que se me não cortaria, me prende, a cada instante, ao útero da loba capitolina, como papagaio de papel que a criança de dedos frágeis vai dominando. Um hiato que não dá para entender. Salto no escuro. De vê-la, nem por um canudo! Falta-lhe o mínimo de competência onde lhe sobeja o frenesi da ambição. Pobre Ícaro que do mais alto da subida no fundo do Oceano se houve de imergir!… Quanto a mim, sentir-me-ia a fazer a travessia do deserto. Nem o abraço de um junípero que do sol me defendesse. Na aspereza da viagem, prostrou-me o peso do cansaço, onde só uma coisa pedi aos céus. A súplica que lhe teria feito Elias: a morte. Só a morte, nada mais. E repetia-se, vezes sem conta. Sim, aparecerá, de quando em vez, o Anjo de Deus, com uma bilha de água e um pão de sob a cinza. Mas de dureza, pareceram-me anos e anos de viagem. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados. Quantas vezes eu quis reunir os teus filhos como a galinha os pintainhos… E tu não quiseste. Fique deserta a tua casa… Quando acordo do pesadelo, vejo-me na Lusa Atenas. A Universidade, velhinha de séculos; o saber dos catedráticos, salpicado de um certo rigor que apreciei; a alegria esfusiante dos seus alunos, tão contagiante como o dedo materno apontado ao beiço da criança, que a desperta num leve sorriso; a camaradagem dos meus colegas, sempre disponíveis na ajuda a um pobre estudante trabalhador; a Sé Velha, onde, acarinhado pelo monsenhor João Evangelista, pernoitei; o fado da despedida que, desde há muito, e pela primeira vez, depois da morte dos meus pais, me fez chorar de saudade; o Quebra-costas e quantas correrias e saltos de agilidade, como cabrito montês em fuga desarvorada pela serra; Santa Cruz e sua comunidade que o Mata-Frades, apesar de perto, nunca soube compreender; a Rainha Santa e o regaço das suas rosas, o milagre permanente de um odor que me refresca a alma e o coração. Coimbra, tens sempre encanto. Mas nunca tão surpreendente como na hora mesma da despedida…
Por fim, S. Tiago de Compostela. Homenagem ao meu pároco: o acolhimento, no seu trono da Catedral, com lábios de sorriso complacente, que eu vi, com os meus
olhos que a terra há-de comer. O círculo da amizade de colegas e professores na Universidade redimiram-me do cansaço. Restauraram-se-me as forças, sentira-me novo, na recuperação maior de uma juventude que julgara para sempre perdida. Faz bem respirar estas auras primaveris! Casa grande é aquela onde cabem muitos amigos… O S. Tiago de Compostela! Ó ruas estreitas de peregrinos apinhados! Ó sagrado turíbulo que, mais que os corpos, perfumas as almas e os corações! A todos os meus professores e amigos, tantos, que fazem grande a sua casa, um adeus de saudade num peregrino que não perde a esperança de regresso. Pois, à cidade do Apóstolo, até depois da morte, possível se faz a retoma de uma visitação! Na hora da partida, pois, um muito obrigado: aos meus professores e aos meus colegas. Dos primeiros, que todos mereceram a minha estima e consideração, é compreensível se destaque quem, pela primeira vez, me acolheu, Lopez Alsina, e quem me orientou, Maria Luz Ríos Rodríguez. Aquele, me ciceroniou, nos primeiros passos e me confortou com a sua amizade; a segunda, nos últimos, quando dedicadamente e por dois anos a fio me ajudou na elaboração da tese e que, com muita exigência, me postularia quanto dar eu pude. Fique sob registo o testemunho da minha dedicação que bem lhe cabe. Se não fosse o seu ânimo, com certeza que só botaria figura de uma Penélope unifacial: dia e noite a fazer e a desfazer uma teia que nunca acabasse… Ao fim e ao cabo, a teia ficou terminada. Trabalho conclusivo de uns trinta anos de tão aturada quam paciente investigação. E à Universidade de S. Tiago as lágrimas saudosas que me hão-de irrigar os passos breves da vida que me restará». In Francisco Carvalho Correia, O Mosteiro de Santo Tirso, de 978 a 1588, A silhueta de uma entidade projectada no chão de uma história milenária, Tese de doutoramento, Facultade de Xeografía e História, Universidade de Santiago de Compostela, Estudo, Santiago de Compostela, ISBN 978-849-887-038-1.

Cortesia da USdeCompostela/JDACT