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sexta-feira, 31 de março de 2017

31 com os Poetas. António Ferreira. «Pretidão de Amor, tão doce a figura, que a neve lhe jura que trocara a cor»


jdact



… tenho sono talvez porque toquei onde sinto o animal que abandonei e o sono é uma lembrança que encontrei…



«Aquela nunca vista formosura,

aquela viva graça e doce riso,

humilde gravidade e alto aviso,

mais divina que humana real brandura.



Aquela alma inocente e sábia e pura

que entre nós cá fazia um paraíso,

ante os olhos a trago e lá a diviso

no céu triunfar da morte e sepultura.



Pois por quem choro, triste? Por quem chamo

sobre esta pedra dura a meus gemidos,

que nem me pode ouvir nem me responde?



Meus suspiros nos céus sejam ouvidos;

e enquanto a clara vista se me esconde,

seu despojo amarei, amei e amo».

António Ferreira (1528-1569), Soneto



… tenho sono talvez porque toquei onde sinto o animal que abandonei e o sono é uma lembrança que encontrei…»



JDACT

sábado, 24 de dezembro de 2011

O Humanismo de António Ferreira. T. F. Earle. Século XVI: «Nos dois livros de cartas Ferreira voltou ao exemplo de Horácio, e no pequeno grupo dos epitáfios ao de Ausónio, poeta romano da época tardia. A fonte principal de Castro são as tragédias de Séneca»

Cortesia de cokalipedia

«É impossível pensar na obra de António Ferreira sem tomar o humanismo em consideração. Graças, provavelmente, à protecção da família poderosa dos Lencastre, o poeta, que nasceu em Lisboa em 1528, teve a sorte de fazer os seus estudos em Coimbra durante o período de maior esplendor da universidade portuguesa renascentista. Muito mais que qualquer outro poeta importante da época, Ferreira foi o produto do novo programa de estudos humanísticos decretado por D. João III, com ênfase na aquisição de um bom conhecimento da literatura greco-romana e dos valores estéticos e espirituais associados à civilização clássica. [...]
Ferreira entrou na Universidade talvez em 1543, com a idade de 15 anos apenas, e saiu depois de se ter doutorado em 14 de Julho de 1555. Foi o período mais feliz da sua vida, a que nos anos a seguir se referia sempre com saudade. Numa carta de 1557 ou 1558, escrita de Lisboa ao amigo universitário Manuel de Sampaio, que tinha em Coimbra, revela esse sentimento desde o início:

Das brandas Musas dessa doce terra
pera sempre apartado, choro, e gemo,
em vãos cuidados posto, em dura guerra.
[...]

O renascimento da literatura clássica
[...]. Na Universidade Ferreira aprendeu o latim e nessa língua leu a literatura romana e também a grega, que em meados do século XVI tinha sido em grande parte traduzida para latim. Ferreira tinha uma admiração sem limites pelos grandes mestres da literatura clássica, de forma que, para ele, Horácio, Virgílio, Séneca e poucos mais constituíam a totalidade da poesia lírica e dramática. [...] Ferreira também aceitou como clássicos vários escritores italianos, principalmente Petrarca, e alguns outros que viveram depois dele e que se exprimiam em latim, como Iacopo Sannazaro e Girolamo Angeriano. Fora deste âmbito greco-romano e italiano não havia literatura, porque Ferreira a concebia exclusivamente em termos livrescos. É notório, por exemplo, o seu desprezo pela literatura popular, que condena na carta a D. Simão da Silveira. Na sua opinião a literatura moderna, portuguesa, não podia ser mais que uma recriação da literatura antiga porque, na sua concepção altamente humanística, a Beleza era una e derivava de uma única fonte greco-romana. A tarefa que ele assumiu, com toda a solenidade, era a de recriar essa beleza para o Portugal de quinhentos.

Cortesia de eltripodedehelena

A esta recriação, comum a muitos autores humanísticos, dá-se normalmente o nome de imitação. Ferreira era, sem dúvida nenhuma, um poeta imitativo: todos os géneros literários que tentou existiam já, ou na época greco-romana ou na Itália de Petrarca, e quase não há poesia nos Poemas Lusitanos que não se reporte, por minimamente que seja, a uma fonte clássica. Assim, os sonetos de Ferreira derivam dos de Petrarca, e os epigramas das supostas odes do poeta grego Anacreonte ou do poeta novilatino Angeriano. As odes são todas horacianas, com a excepção de uma, inspirada num poema de Catulo. Não se associava a elegia, género mais fluído, com um único escritor clássico, mas algumas das de Ferreira baseiam-se nos ‘Anacreóntica’. Virgílio, inevitavelmente, é a divindade titular das éclogas, enquanto as duas longas poesias que as seguem nos ‘Poemas Lusitanos’, dedicados a Santa Comba dos Vales e ao casamento da Princesa D. Maria de Bragança com Alessandro Farnese, são, respectivamente, um ‘epyllion’ e um epitalâmio, ambos eles géneros muito bem conhecidos dos antigos.
Nos dois livros de cartas Ferreira voltou ao exemplo de Horácio, e no pequeno grupo dos epitáfios ao de Ausónio, poeta romano da época tardia. A fonte principal de Castro são as tragédias de Séneca.
[...]
Cortesia de historiadaarte

Contudo, o classicismo de Ferreira tinha limites bem marcados. Era humanista, mas um humanista cristão que nunca teria permitido que a filosofia pagã maculasse a sua pureza doutrinal. Ao contrário de Camões, e até do Sá de Miranda das éclogas ‘Fábula do Mondego e Encantamento’, não narra histórias derivadas da mitologia greco-romana, que muitas vezes rejeita como «fábulas vãs». Nas cartas ao irmão, Gracia Fróis Ferreira, e ao amigo universitário Diogo de Betancor falava até com um certo desprezo dos «escuros meios» com que os filósofos antigos tentavam penetrar a verdade religiosa sem terem a ajuda necessária da revelação cristã. E é sobretudo hostil à concepção clássica da fortuna que, segundo ele, os romanos consideravam erroneamente uma deusa poderosa.
Ferreira, como muitos outros da sua geração, estava fascinado pela astrologia e acreditava no poder das estrelas para influenciar os acontecimentos terrestres. Mas, como bom católico, sabia que a consciência humana é livre para escolher entre o bem e o mal. Esta ê a temática da ode a D. João de Lencastre, filho ilegítimo do Duque de Aveiro, a quem afirma que a «consciência pura» nada podia temer da fortuna, «falsa deosa..., falso poder, e falsa divindade». Idêntica mensagem é a da tragédia ‘Castro’, escrita, como a ode, enquanto estudava em Coimbra. Apesar de o Infante D. Pedro, por exemplo, falar muito no efeito determinante da fortuna, ele podia ter controlado os seus impulsos, como lhe disse repetidas vezes o seu Secretário. Mas, em vez disso, o Infante prefere deixar-se dominar pelos próprios desejos, como o pai D. Afonso IV e outros membros da família real, assim criando uma situação de conflito que nem a morte de Inês resolve, já que a ela se segue uma guerra civil. [...]». In T. F. Earle, O Humanismo de António Ferreira, História e Antologia da Literatura Portuguesa, Século XVI, Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

Cortesia da FCG/JDACT

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A Bela Poesia: António Ferreira. «Ó olhos, cujo fogo a neve fria acende e queima; ó olhos poderosos de dar à noite luz, e vida à morte!»

(1528-1569)
Cortesia de rmmv

Livro I dos Sonetos
14

Ó olhos, donde Amor suas frechas tira
contra mim, cuja luz m'espanta e cega;
ó olhos, onde Amor s'esconde, e prega
as almas e, em pregando-as, se retira!

Ó olhos, onde Amor amor inspira,
e amor promete a todos, e amor nega;
ó olhos, onde Amor tão bem s'emprega
por quem tão bem se chora, e se suspira!

Ó olhos, cujo fogo a neve fria
acende e queima; ó olhos poderosos
de dar à noite luz, e vida à morte!

Olhos por quem mais claro nasce o dia,
por quem são os meus olhos tão ditosos,
que de chorar por vós lhes coube em sorte.
António Ferreira

Cortesia de tertuliabibliofila

Livro II dos Sonetos
9

Co'a alma nos céus pronta, o espírito inteiro,
leve o sembrante, a vista graciosa,
aquela, antes da morte já gloriosa,
esperava o combate derradeiro.

de santa fé armada e verdadeiro
amor divino, venceu a espantosa
morte, que nela pareceu fermosa,
e nova estrela a fez no céu terceiro.

E tomando-me a mão leda, e risonha
- Meu doce amigo -diz - vinda é minh'hora.
Quem nos assi cá atou soltou o nó.

Quem mais cuida que vive, esse mais sonha.
Lá onde se não geme, nem se chora,
t'amará mais est'alma, o corpo é pó.
António Ferreira

JDACT

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

António Ferreira: Considerado um dos maiores poetas do classicismo renascentista de língua portuguesa, conhecido como «o Horácio português»

Cortesia de grandesescritoresportugueses

Livro I dos Sonetos
12
Quando entoar começo com voz branda
vosso nome d'amor, doce, e suave,
a terra, o mar, vento, água, flor, folha, ave,
ao brando som s'alegra, move, e abranda.

Nem nuvem cobre o céu, nem na gente anda
trabalhoso cuidado, ou peso grave.
Nova cor toma o sol, ou se erga, ou lave
no claro tejo, e nova luz nos manda.

Tudo se ri, se alegra, e reverdece;
todo mundo parece que renova,
nem há triste planeta, ou dura sorte.

A minh'alma só chora, e se entristece.
Maravilha d'Amor cruel, e nova!
O que a todos traz vida, a mim traz morte.

Cortesia de sebodomessias

13
Não aparece o sol, triste está a terra,
as nuvens carregadas, os céus tristes.
Estes sinais, que vós, meus olhos, vistes,
ó que mal vos prometem, ó que guerra!

Aquele sol fermoso que na Serra
nos sói amanhecer, vós o encobristes:
parece que sentiu que não dormistes,
esperando sua luz quem vo-la encerra.

E por fazer-nos mal, o fez ao dia,
que queixando-se está deste mal nosso
em tempo que tão mal lho merecia.

Eu não me queixarei, porque não posso,
nem doutro maior mal me queixaria.
Mas vós, olhos, chorai, que isto é mais vosso.

JDACT

terça-feira, 23 de novembro de 2010

António Ferreira: Considerado um dos maiores poetas do classicismo renascentista de língua portuguesa, conhecido como «o Horácio português»

(1528-1569)
Lisboa
Cortesia de mozelosaveiro 

Além de desembargador, cultivou a poesia, sendo o discípulo mais famoso de Sá de Miranda. Os seus poemas foram publicados em 1598, sob o título de Poemas Lusitanos. Escreveu as comédias Bristo e Cioso, publicadas em 1622, e a tragédia Castro, publicada em 1587.

Livro I dos Sonetos
7
Lágrimas costumadas a correr-me,
quem vos pode deter? Saí correndo
doces, e tristes; vão-vos todos vendo,
uns riam, outros chorem de tal ver-me.

Onde poderei eu de mim esconder-me?
Se quanto mais resisto, e me defendo,
então me venço mais, e vai crescendo
a força, como posso defender-me?

Quem meus olhos olhar, rindo, ou chorando,
sentirá neles logo um movimento
d'algum esprírito que os lá rege, e manda.

Este chorar me faz, este cantando
me leva após meu mal, sem um momento
esta alma livre ter do estado em que manda.

Cortesia de toneldiogenes 
10 
Parecerá, senhora, em outra idade
milagre grande o que hoje todos vemos.
Quem haverá que creia tais extremos
d'amor, de fermosura, e crueldade?

Alguns dirão: - Se não fora verdade,
quem podera inventar isto que lemos?
E se tal foi, já agora não teremos
pagar-se bom amor mal, por novidade.

Cada um dará juízo sobre mim.
Todos condenarão vossa aspereza
chorando minhas mágoas, quando as lerem.

Mas esta glória só terei enfim,
que juntos nos lerão, e os que as crerem
dirão: - Igual ao amor foi a dureza.

HALP, 2001
JDACT

sábado, 9 de outubro de 2010

Sheila Moura Hue: Alguns apontamentos sobre a recepção da obra camoniana no século XVI. Antes da publicação de «Os Lusíadas», a obra de Camões já estava a ser lida e avaliada pelos seus contemporâneos. As obras eram conhecidas através da circulação de manuscritos

Cortesia de shahid
Com a devida vénia a Sheila Moura Hue, publico algumas palavras referente à obra camoniana no século XVI.

Alguns apontamentos sobre a recepção da obra camoniana no século XVI.

«A tradição regista que Camões enfrentou a inveja e uma espécie de preconceito dos poetas seus contemporâneos. É essa tradição que está presente, por exemplo, no poema de Jorge de Sena intitulado «Camões dirige-se aos seus contemporâneos», em que os poetas da época são acusados de terem roubado as ideias e as palavras do poeta, e também de não o terem citado, suprimindo-o e aclamando «outros ladrões mais felizes».
Há alguns testemunhos da época sobre esse movimento de hostilidade, que são alusões não muito esclarecedoras, mas que descrevem um clima geral de inveja e ataque da obra camoniana. Esses testemunhos, no entanto, não nomeiam os inimigos de Camões. Sobre essa hostilidade, há estudos de alguns críticos portugueses do nosso século que, estes sim, dão nome aos bois:
  • Os inimigos de Camões, segundo esses críticos, seriam os poetas que gravitavam em torno de Sá de Miranda, poetas que queriam escrever uma epopeia portuguesa, e que nutriam uma forte repulsa por Camões.
A recepção da obra camoniana começa antes mesmo da publicação de «Os Lusíadas» No final do século XVI, as obras poéticas corriam principalmente através de manuscritos. A recepção da obra de um poeta dessa época dava-se através das cartas que os poetas escreviam uns aos outros, dos poemas que trocavam, e dos cancioneiros que então registavam a produção contemporânea. Foi somente na década de 1590 que começaram a sair as primeiras edições da poesia lírica dos autores da época. É interessante observar que nunca António Ferreira leu Sá de Miranda ou Diogo Bernardes num livro impresso.
Cortesia de angnovuswordpress
As obras desses poetas eram conhecidas dos leitores unicamente através da circulação de manuscritos.
Mesmo antes da publicação de «Os Lusíadas», a obra de Camões já estava  a ser lida e avaliada pelos seus contemporâneos. E se houve uma avaliação negativa por parte desses contemporâneos, esta começou a se formar através da leitura de manuscritos que então deviam circular no Oriente, onde o poeta passou 17 anos, e também em Portugal.
O público leitor conhecia a sua poesia através de cartas ou de cancioneiros, como o de Luís Franco Correia, que começou a recolher poemas em 1557, e que, além da produção lírica de Camões, traz também o primeiro canto de Os Lusíadas numa versão diferente da impressa em 1572. No final da cópia desse primeiro canto encontra-se uma nota que diz: «Não continuo porque saiu à luz», isto é, a cópia é interrompida porque Os Lusíadas tinham sido publicados e não havia necessidade de copiá-los.
Ainda a respeito dos cancioneiros manuscritos que então veiculavam a obra de Camões, há que observar o facto de ao existir uma grande quantidade de poemas camonianos, é a afirmação de que além dos lendários inimigos do poeta, também existiam grandes admiradores da sua obra.
Cortesia de arquivohistoricomadeira
No entanto, vejamos alguns dos testemunhos da época que registam ter havido uma forte corrente contrária a Camões antes de sua morte e glorificação. Uma das imagens mais fortes é mostrada por Fernão Álvares do Oriente, um dos primeiros a reconhecer Camões como mestre. No seu livro Lusitânia Transformada, o autor mostra dois pastores que, após uma peregrinação, chegam ao Templo da Poesia, que encontram inteiramente destruído. A ideia é a de que a poesia, na época, está em decadência, praticamente em ruínas. A única estátua no Templo que se encontra íntegra e de pé é a estátua de Camões

O primeiro poema a ser impresso saiu em 1563, em Goa, na primeira edição de «Colóquio dos Simples e Drogas da Índia», de Garcia de Orta, e era justamente uma ode, em louvor do então Vice-rei da Índia, ode que figura entre onze páginas de homenagens e elogios a Garcia de Orta e a seus protectores. A segunda vez que um poema lírico de Camões é impresso ocorre em uma situação similar, também no espaço reservado aos elogios de praxe. Desta vez, trata-se de um soneto e de um poema em tercetos publicados no livro «História da província de Santa Cruz», de Pêro de Magalhães de Gândavo, impressa pelo mesmo editor de «Os Lusíadas».
António Ferreira
Cortesia de grandesescritoresportugueses
Nestes autores que citam Camões, como fazem Fernão Álvares do Oriente e Magalhães de Gândavo, assim como naqueles que lhe encomendam poemas laudatórios para homenagear seus protectores, como Garcia de Orta, temos uma espécie de primeira recepção da obra camoniana, uma recepção que podemos chamar de positiva. Outro dos raros autores quinhentistas a citar Camões é André Falcão de Resende, autor de uma sátira dedicada ao poeta, em que critica aqueles que não sabem admirar a alta cultura e em que ilustra a pobreza do poeta em Lisboa, sátira contemporânea da publicação de «Os Lusíadas».
Portanto, se de um lado temos esses homens que admiraram a obra de Camões publicamente, temos, por outro, a história dos inimigos de Camões, história delineada pelas interpretações de críticos do nosso século. José Maria Rodrigues, em «Fontes dos Lusíadas», é quem mais vivamente levanta o enredo dessas inimizades.

No capítulo sobre António Ferreira e Camões, Rodrigues interpreta poemas do próprio Ferreira, de Andrade Caminha e de Diogo Bernardes, enxergando em certos versos farpas agudas contra o poeta. A ideia geral de José Maria Rodrigues é a seguinte:
  • Em cartas a vários amigos poetas, António Ferreira incentiva-os a escrever uma epopeia sobre os feitos portugueses, e, sabendo que Camões está a escrever a sua, e julgando-o abaixo do valor dessa tarefa, quer que alguém de seu grupo o faça antes, de modo a inutilizar o que Camões vinha escrevendo. Um dos destinatários dessas cartas é Pêro de Andrade Caminha, que ficou para história mais pela sua lendária inimizade a Camões do que por sua produção poética.
António Ferreira, deu duas alcunhas a Camões:
  • A de pomposo Quérilo, que é um nome simbólico de mau poeta épico na tradição humanista;
  • A de Magálio, em que parece criticar a mania de grandeza do poeta.
Diogo Bernardes que, segundo José Maria Rodrigues, também fazia parte do grupo dos inimigos, é um caso a parte. Se num primeiro momento, ele se encontrava neste grupo, num segundo momento, posterior ao seu cativeiro em Alcácer Quibir, ele aparece entre os que louvam Camões, como atesta seu soneto publicado na primeira edição das Rimas, em 1595.
No entanto, ainda sobre esse primeiro momento de hostilidade, Américo da Costa Ramalho parece ter uma prova concreta da indisposição de Diogo Bernardes contra Camões.

Não cantarei aqui fábulas vãs
De novidades sempre tão amigas,
Que vem a converter homens em rãs,
E tornam a fazer homens em formigas.
Verdades contarei, verdades chãs
E vistas por meus olhos, não antigas,
Da jornada que fez o bom Carneiro
Dos Alcáçovas tronco verdadeiro.

Cortesia de poesiaexpressaodaalma
Diogo Bernardes parece acompanhar o percurso da recepção da obra camoniana no século XVI, hostilizando-o antes de 1580, e louvando-o depois, quando as exigências do tempo já eram outras. «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontade». In Sheila Moura Hue.

Cortesia de Américo da Costa Ramalho/José Maria Rodrigues/JDACT

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Diogo de Teive: O humanista do século XVI que escreveu toda a sua obra em Latim, foi historiador da gesta lusa, prosador, poeta inspirado, dramaturgo. Autor da «Tagédia do Príncipe João». Marcou a dramaturgia quinhentista em Portugal

Colégio de Santa Bárbara, Paris
Cortesia de enwikipedia

Com a devida vénia a Nair de Nazaré Soares, Universidade de Coimbra, publico algumas palavras do seu «brilhante» trabalho sobre Diogo de Teive e a dramaturgia quinhentista em Portugal.

O quinhentismo possuíu estudiosos como Diogo de Teive, que devem ser classificados como integrantes do Humanismo. A imitação greco-latina era superior ao elemento nacional e, deste modo, a sua característica era centrada na exaltação do Homem. António Ferreira, que fora seu discípulo, escreveu A Castro em vernáculo, isto é, imitou os clássicos antigos, mas não esqueceu o elemento nacional. Diogo de Teive  nunca escreveu em português, nem sequer no depoimento que fez na Inquisição.

Diogo de Teive, o humanista do século XVI que escreveu toda a sua obra em latim, foi historiador da gesta lusa, prosador, poeta inspirado, dramaturgo.

Colégio das Artes, Coimbra
Cortesia de
A sua vida (nascido em Braga no ano de 1513 ou 1514 e ainda era vivo em 1569), cheia de variedade e aventura, decorreu em vários centros culturais europeus, desde o Colégio de Santa Bárbara, em Paris, onde foi um dos bolseiros d’el Rey, à Universidade de Salamanca, Toulouse, Poitiers, Bordéus e outras paragens. Adquirida uma sólida formação humanística na Europa, nela se tornou prestigiado mestre de Retórica, sendo um dos «bordaleses» que vieram da Schola Aquitanica, do Colégio de Bordéus, com André de Gouveia fundar o Colégio das Artes, em Coimbra, em 1548.

No seu processo na Inquisição, Teive fala de si, desde os doze anos até à idade adulta, das cidades europeias onde estudou letras latinas e gregas e também leis, onde leccionou, e apresenta-se como uma pessoa «facil e conuersavel cõ todos e principalmẽte cõ homẽs de letras».

No apogeu do Humanismo Português, desde 1548, ensina no Colégio das Artes, em Coimbra, a Primeira classe de Retórica, onde teve alunos que honraram o seu magistério e que nas suas obras mostram a influência do mestre, como é o caso do apóstolo do Brasil, poeta e dramaturgo José de Anchieta, S. J. Em 10 de Setembro de 1555, o Colégio das Artes, devido à morte inesperada de André de Gouveia e à suspeição de heresia de alguns dos seus prestigiados mestres é entregue, pela mão do então Principal Diogo de Teive, aos Jesuítas, que teriam o monopólio da educação entre nós até ao tempo do Marquês de Pombal.

A Cleópatra de Sá de Miranda, a Ioannes Princeps Tragoedia – a Tragédia do Príncipe João  de Diogo de Teive. O português que percorrera os diversos centros intelectuais da Europa, onde adquirira uma dimensão de saber e mentalidade verdadeiramente humanistas, é autor, como Buchanan, seu colega e amigo, de duas tragédias bíblicas David e Judith.

Primeira e última páginas da defesa de Buchanan no processo da Inquisição
Cortesia de arlindocorreia
Não quer isto dizer que a história e a mitologia não continuassem a servir de inspiração aos poetas dramáticos quinhentistas, em latim e em língua vulgar, como o provam, entre nós, a desaparecida tragédia David, sobre o episódio de Golias que David abateu com a sua funda, foi levada à cena em Santa Cruz, no claustro da Portaria, em 16 de Março de 1550, por ocasião do bacharelato em Artes de D. António, filho do Infante D. Luís – irmão de D. João III.

Mais de um século havia decorrido e ainda se conservavam na memória os coros das moças de Israel, acompanhados de música suave, que saudavam o regresso do herói vitorioso: percussit Saul mille, et David decem millia «abateu Saul mil, e David dez mil». 

Ambas as tragédias bíblicas de Teive se perderam. Exercício de adestramento da língua latina, da retórica e da poética, decerto compôs Diogo de Teive estas tragédias para serem interpretadas pelos seus discípulos. À semelhança do que acontecia nos grandes centros intelectuais da Reforma, que contava com pedagogos como Johan Sturm e Philipe Melanchton, a temática bíblica era privilegiada, no teatro europeu e português. 

A obra dramática de Diogo de Teive, como toda a produção novilatina da época, é profundamente influenciada, na forma, na ideologia, na linguagem e na concepção trágica pelo teatro de Séneca, tão conhecido e divulgado. Nela dominam a análise psicológica, os monólogos, as confidências, a afirmação constante dos sentimentos dos protagonistas, que se revelam em plena maturidade desde o início, o que vai retardando a acção e lhe confere uma certa passividade de movimento dramático. Era o gosto, corrente na época, por um estilo empolado, cheio de retórica e sentenças morais, bem característico da obra do Cordovês, tão conhecido e divulgado.

Séneca
Cortesia de cmminhaterra
Todavia, a Tragédia do Príncipe João, apesar de ter Séneca como modelo, apresenta um certo número de aspectos que marcam a sua independência e definem a sua originalidade. A cultura literária e o próprio magistério docente de Diogo de Teive, que o mantinham em contacto permanente com as letras clássicas, permitiam-lhe utilizar os autores da Antiguidade de tal modo que os traços imitados se afiguram, por vezes, como puras reminiscências. É assim que se encontram disseminados por toda a obra passos de Virgílio, Horácio, Ovídio, dos poetas elegíacos, de Lucrécio. No entanto, muitos dos aspectos pertencentes à tradição clássica e nomeadamente senequiana, enquadram-se de tal modo na própria ideologia do Humanismo renascentista, que é difícil avaliar até que ponto Diogo de Teive teve intenção de imitar ou simplesmente procurou exprimir a mentalidade do tempo.

Tragediógrafo neolatino criativo e bom poeta, Diogo de Teive terá marcado de forma impressiva a dramaturgia quinhentista em Portugal, em latim e em vulgar

A ajuizarmos pelo acervo da tragédia jesuítica neolatina, não há dúvida de que, desde o iniciador do género, em Coimbra, o Padre Miguel Venegas, S. J, o teatro da Companhia de Jesus muito ficou a dever a Diogo de Teive, como o provam os estudos que lhe têm vindo a ser dedicados, recentemente. Considerada fonte da Castro, não só pela escolha do tema nacional, mas ainda no que se refere aos cânones estéticos e a certos traços temático-estruturais, a Tragédia do Príncipe João de Diogo de Teive adquire um peso singular, na história e na crítica literárias nacionais.
A Tragédia do Príncipe João, ao tomar por tema a morte do príncipe, único herdeiro do reino, ocorrida 18 dias antes do nascimento de seu filho, D. Sebastião, revela-nos, em toda a sua dimensão, um problema político actual, que abalou o país inteiro e comoveu todos os poetas, em língua latina e portuguesa.

CHORUS
Nós, ó deus Cupido, teus poderes,
Tuas chamas pelas quais não só o mar profundo
Incendeias, pelas quais ardes
O supremo Olimpo,
Pelas quais se abrasa a terra, cantemos brevemente.

Nada nasce nas terras e no vasto mar,
Nada nasce no luminoso éter, que não
Sinta tuas chamas.
Juntamente, este furor o sentem as maviosas aves,
No radiante teto do céu,
E vencidas, modulam seus cantos ardentes
Na voz melodiosa.

Este, as feras nos densos esconderijos do bosque;
Este, o selvagem javali, o leão, o touro, o urso;
Este, os mansos rebanhos, e ao mesmo tempo, pelo furor,
Uma turba excitada (de viventes).

Sentem, sob o espelho das ondas marinhas,
Os habitantes do vasto mar, cobertos de escamas douradas,
A tua divindade e retêm estas chamas
No profundo abismo (inundado).

Dessas vêm os nascimentos, elas ofertam os frutos (da vida);
Dessas, a terra bem cultivada, suas messes;
Dessas, as abelhas geram o mel gratificante,
Agitadas pelas tuas chamas.

Nenhum recanto têm o mar, a terra e o éter,
Por mais afastado que seja,
No qual o cetro supremo do Amor não se arme
Com seu arco poderoso.

Embora seja cego e jovem, certeiro
Aponta a seta e dilacera o peito
Com uma ferida dolorosa e não dá lenitivo
Ao amante queixoso.

Ele não poupa a Polifemo que apascenta
Seu rebanho pelos pastos; ele atormenta
O de clava invicta, apesar dos músculos robustos,
Nutridos por Júpiter.

Este, nem as raças prodigiosas (o) domaram:
Nem touros ferozes, nem o terrível leão de Neméia,
Nem os monstros de Lerna, (ou) o inexorável
Cérbero de tríplice mandíbula.

(Mas) o menino cego e delicado,
Força-o, vencido, levar ao pescoço
Um jugo ou um vitelo e ir entregue o fardo
(Agora suave) à amada senhora.

Se Cupido domina vencedor todos os corações
Inexpugnáveis, embora (tais corações) sejam gerados duros
E ferozes espinhos e pela truculência
Empedernida pelo ferro,
Por que não poderia domar o peito tenro
Das jovens e arder as mentes suaves dos jovens?

Aos que resistem, arrasta e os que os consentem
Conduz afavelmente.
De todos é vencedor o deus Cupido,
Porém, sabe dominar mais ainda os corações sensíveis
Das meninas e abrasar os dos jovens
Com chamas sedutoras.

Chamam-lhe alguns fúria e veneno,
Flagelo, peste, crime e desvario
Mil ditos ultrajantes lhe lançam
Com língua truculenta.
Entretanto, não sabem que dois Amores:

Um cego, furioso, cruel,
Que vence em ligeireza (os velozes) cervos,
Vence até os ventos;
Outro, casto, moderado, amigo,
Prudente, doce, plácido, sossegado,
a quem são gratas sempre a lealdade e a justiça,
Está ligado ao peito.

A este prestam culto desde tenra idade
Os piedosos Príncipes unidos a leitos de marfim,
Príncipes nossos: aos quais do supremo
Olimpo, Febo ou sua irmã nada vêem,
Nos recantos da terra, melhor ou maior do que eles,
Nada mais belo ou luminoso
Que alguma tenha nascido.

Ambos estão unidos por vínculos estreitos;
Uma e constante é a alma de um e de outro;
Uma só mente rege a ambos; uma
Vontade firme os liga.

Mas as coisas humanas são incertas nas suas ambigüidades
E inquietas não se mantém em lugar estável:
A este ardor pio e fé verdadeira
O destino se opõe.

A dura sorte costuma invejar
A prosperidade, não suporta o que dura muito no mundo
E revolve tudo
Com rápido movimento.

A devastação, a morte, a destruição, a ruína
Total cairão por terra e derrubará
Toda esta máquina, a não ser que em nosso socorro,
Ó Pai supremo, venhas.
Diogo de Teive, in Tragédia do Príncipe João

A dramaturgia quinhentista, de tema bíblico, mítico ou histórico define-se pelas marcas impressivas de um código poético comum,  quer a linguagem e a expressão poética se ajustem ao modelo do teatro neolatino, de marcada influência senequiana, quer informem o teatro em vulgar, que acolhe as novidades estético-formais dos dramaturgos italianos do Cinquecento. Já foram anotados os aspectos ideológicos que aproximam a Tragédia do Príncipe João e a Castro, por exemplo, no plano político, nomeadamente no que toca ao conceito de realeza e à caracterização do «leal servidor». A par dos aspectos ideológicos, os temático-estruturais, como o motivo do sonho, o papel da aia, o tema do amor e sua expressão, nas personagens principais e ao longo dos coros. Depois de verificar semelhanças de conteúdo, por vezes até literais, que ocorrem em ambas as tragédias, apesar dos aspectos fundamentalmente diversos que determinam a estrutura e o teor de cada uma delas, é possível falar de imitação, por parte de Ferreira, em relação à obra de Teive?

A resposta é quase totalmente positiva. Não se pode duvidar de que pelo menos tenha tido conhecimento dela, dado que muitas das coincidências encontradas são mais do que casuais. Apesar disso, se analisarmos em conjunto as linhas gerais que presidiram à elaboração de ambas as tragédias, notaremos as diferenças que neste particular podem apontar-se. Refiram-se, a título de exemplo, algumas das mais expressivas.
  • António Ferreira não tentou escrever a sua tragédia em latim: preferiu a língua vernácula, que sempre defendera. Nem se poderia esperar outra atitude do poeta que, na Carta a Pedro de Andrade Caminha, entoa um verdadeiro hino à língua portuguesa.
«Floreça, fale, cante, ouça-se, e viva
A Portuguesa língua, e já onde for
Senhora vá de si soberba, e altiva.
Se téqui esteve baixa, e sem louvor,
Culpa é dos que a mal exercitaram,
Esquecimento nosso e desamor»

O lirismo petrarquista, no seu jogo intelectivo de antíteses abstractas e assente numa estratégia da reduplicação do sujeito da enunciação em relação ao sujeito do enunciado, na valorização das capacidades perceptivas, em que avulta a prevalência da luz, do ver e do olhar, de inspiração plotino-ficiniana – que a Castro admiravelmente realiza – está já presente na Ioannes princeps, nas falas da princesa, grávida de D. Sebastião, e por isso afastada do seu príncipe, moribundo:
O care coniux, care plus quam lumina
quibus solebam te uidere, te ut iubar
conspicuum Olympi, qui potes per tot dies
abesse praesens? Aula cum te regia
haec teneat, oculos fugere tu meos potes?
conspectu abesse tandiu a meo potes?
Non id uoluntate, auguror, facis tua;
nec dubito ob oculos quin tuos semper meos
uidere cupias [...] (vv. 651-659).
Sed uos, uidere lumina infelicia
dum non potestis uestra clara lumina
iubarque uestrum iubare Phoebi clarius,
lugete semper ac perennes fundite
lacrimas (vv. 665-669).



Ou em tradução:



«Ó querido esposo! Querido mais do que os olhos com que eu costumava ver-te, a ti, brilhante como o resplendor do Olimpo! Como podes tu estar ausente – embora presente – durante tantos dias? Vivendo tu neste mesmo palácio, podes tu escapar à minha vista? podes há tanto tempo estar afastado do meu olhar? não é da tua vontade, eu o pressinto, nem duvido que os teus olhos desejem ver sempre os meus diante dos teus» [...]
«Mas vós, ó olhos infelizes, enquanto não podeis ver o vosso claro olhar e o vosso esplendor mais brilhante que o esplendor de Febo, chorai sempre e derramai lágrimas sem cessar.»
 
Cortesia de purl
A verdade é que os três poetas, Séneca, Diogo de Teive, António Ferreira, têm de comum o tratamento semelhante deste tema lírico, o poder cósmico do amor, e o emprego da estrofe sáfica. O recurso a este metro é, no entanto, mais uma prova irrefutável da influência formal do modelo dramático latino, na concepção da Castro.
Sem confundir o poder de imitação com génio criador, pode afirmar-se a importância do papel de Diogo de Teive na nossa dramaturgia quinhentista e mesmo na defesa da sua irrefutável originalidade. O teatro novilatino teiviano de tema bíblico foi suporte genológico da produção trágica quinhentista, designadamente do acervo dramático jesuítico, a que deu início o Padre Manuel Venegas, seguindo-se-lhe outros autores de renome, como o Padre Luís da Cruz.

A Ioannes Princeps tragoedia de Diogo de Teive, que canta um tema histórico nacional contemporâneo, serve de modelo à obra-prima da literatura portuguesa, a Castro de António Ferreira. A primeira edição, de 1587, prende-se mais estreitamente à lição do «mestre», decalcada, na estrutura e nos motivos e desenvolvimentos da intriga, no modelo dramático que priviligia a retórica, ao modo senequiano. A edição definitiva da Castro, de 1598, é a expressão acabada da individualidade poética e da veia trágica do seu autor através da reelaboração dos modelos, da depuração das fontes, onde Diogo de Teive tem um inegável quinhão.
 
Em suma, Diogo de Teive, amigo dilecto de António Ferreira e mestre de Jesuítas em Coimbra, foi marco indelével na orientação da tragédia quinhentista, que, no seu intrincado de relações estéticas e ideológicas, é bem a expressão do utile dulce, do aut.prodesse aut delectare horacianos (Arte Poética, vv. 343 e 333), ou melhor ainda, da depuração desse ideal, como preceituava a Poética do Estagirita, em realizações admiráveis de vida e poesia, de tradição e modernidade. 

Nair de Nazaré Soares
O meu Obrigado UC!
Cortesia da Universidade de Coimbra 
Cortesia de Nair de Nazaré Soares/Revista de Letras, Série II, nº 3/Universidade de Coimbra/JDACT