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terça-feira, 12 de junho de 2018

A Conquista de Ceuta. 1415. João Monteiro e António Costa. «Já João I chamou a si o encargo da coordenação do projecto e da organização das artilharias e das armas que haveriam de equipar a frota…»

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«(…) Foi também providenciado o pagamento dos soldos e das quantias anuais devidas aos vassalos e a todas as outras pessoas que a isso tinham direito, para que ninguém tivesse desculpa para negligenciar o seu equipamento. El-rei enviou cartas de percebimento aos senhores, fidalgos e homens de conta, para que se fizessem prestes para ir na armada e para que lhe dissessem com brevidade com que gentes tencionavam servi-lo naquela aventura, de modo a serem desembargadas as verbas necessárias. Ao infante mais velho e herdeiro do trono, o infante Duarte, que contava então 22 anos e que estava destinado a envolver-se na administração do reino, foi dado o encargo da justiça e da fazenda régias, uma tarefa bem pesada e que o príncipe me confessou mais tarde tê-lo conduzido a uma depressão profunda, que só a doença entretanto contraída pela mãe, e o que isso exigiu dele, ajudou a ultrapassar. Já João I chamou a si o encargo da coordenação do projecto e da organização das artilharias e das armas que haveriam de equipar a frota que, nesse dia 24 de Julho de 1415, partiu do Restelo para Santa Catarina, antes de se fazer ao mar oceano.

5.ª- Feira, 25 de Julho: zarpar em dia de São Tiago
No cais, a população apinhava-se para ver zarpar a formosa frota de destino misterioso. Era o culminar de muitos meses ou até anos de preparativos intensos e que haviam espantado (e cansado) o povo. Quem lá esteve falava de como se tinham limpado as armas, fabricado biscoito, salgado enormes quantidades de carne e de outras vitualhas, corregido dezenas de navios e aparelhado as respectivas guarnições. Sobretudo em Lisboa e no Porto, a agitação tinha sido grande, de dia e de noite. Junto ao rio Tejo, pudera-se observar o labor dos calafates e dos mesteirais a reparar os navios, enquanto noutros locais os homens decepavam bois e vacas, esfolavam os animais, cortavam-nos e salgavam-nos, metendo-os depois nos tonéis e nas botas em que haveriam de ser embarcados. Por seu lado, os pescadores, com a ajuda das suas mulheres, tinham aberto e salgado pescadas, cações e raias, entre outro pescado que espalhavam ao sol. Já os tanoeiros tinham-se atarefado a reparar vasilhas para transporte de vinhos, carnes e outros mantimentos, enquanto os alfaiates e os tosadores aparelhavam os panos e costuravam as librés de maneira vária, ao gosto dos senhores que lhas encomendavam. Enquanto isso, os carpinteiros tinham-se aplicado a encaixar os trons e as bombardas, mais a restante artilharia e os seus reparos, ao mesmo tempo que os cordoeiros tinham dado o seu melhor para compor guindastes, cabos e outra cordoaria de linho. Tinham sido meses e meses agitados para aprontar uma armada que, finalmente, dizia adeus a Lisboa.


Lisboa vista do rio na segunda metade do século XVI, por George Braunio. Neste desenho, é ainda possível observar a urbe tardo-medieval, defendida pelo grande perímetro da muralha fernandina e coroada pelo velho castelo de São Jorge. In Album/Atlantico Press.

A capital, diga-se de passagem, tinha sofrido bastante com o acontecimento, ficando muito gasta de pão e de outros mantimentos, pelo que el-rei decidira conceder isenção do pagamento da dízima e da sisa aos mercadores que importassem ou que trouxessem por mar os cereais e os legumes de que Lisboa precisava. Ao mesmo tempo, e de forma avisada, João I renovara a antiga regra de ninguém (mestres de navios, marinheiros ou senhores, em especial os de Lisboa) poder fretar navios para levar pão, castanhas, avelãs, nozes e outros mantimentos, assim como armas (lanças, dardos, espadas, solhas, bacinetes, cotas ou bestas), aço, ferro ou outras ajudas, a terra de mouros, sob pena de morrerem e de os seus bens e navios serem divididos entre a Coroa e os acusadores». In João Gouveia Monteiro e António Martins Costa, 1415, A Conquista de Ceuta, Manuscrito, 2015, ISBN 978-989-881-804-1.
                                                                                                             
Cortesia de Manuscrito/JDACT

A Conquista de Ceuta. 1415. João Monteiro e António Costa. «… eu mesmo me pus de pé e declarei perante todos: Senhor, não sei mais que diga, senão ruços além! E isto falou o bom do alferes-mor…»

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«(…) Claro que, com tudo isto, o povo andava muito intrigado; ainda por cima, o monarca preferiu recorrer às rendas e à cunhagem de nova moeda e não convocou qualquer reunião de cortes, de maneira a não ter de explicar a mais ninguém o que pretendia fazer e a evitar os habituais protestos dos procuradores concelhios, sempre que se lançavam impostos para mais uma campanha militar. O tempo foi correndo, devagar, os infantes mostravam-se entusiasmadíssimos (organizaram em Coimbra e em Viseu, entre as vésperas do Natal e o dia de Reis, divertimentos e justas notáveis) e, por alturas do São João de 1414, o rei decidiu finalmente convocar uma reunião do seu conselho para Torres Vedras, de maneira a obter o acordo dos apoiantes mais fiéis e a fixar a data da expedição. João Gomes Silva esteve presente nesta reunião, ao lado d'el-rei e dos infantes, do condestável, dos mestres das quatro ordens militares (Cristo, Santiago, Avis e Hospital), do marechal Gonçalo Vasques Coutinho, de Martim Afonso Melo (homem reputado pelo seu conhecimento das tácticas militares e autor de um Livro da Guerra) e de alguns outros senhores e fidalgos. O monarca abriu a sessão, lembrou a vitória militar decisiva obtida em São Jorge a 14 de Agosto de 1385, apresentou o projecto e pediu o conselho dos que ali estavam, quase todos homens bravos e que o acompanhavam desde o momento fundador daquela dinastia. Conforme o combinado, Nuno Álvares falou logo a seguir, para inclinar a balança a favor de uma decisão favorável, e mostrou aquele feito como pertencendo ao serviço de Deus. Os infantes falaram depois; a seguir, todos os restantes foram chamados a dar a sua opinião e ninguém ousou contestar a ideia de atacar Ceuta. Pelo contrário, disse-me João Gomes, eu mesmo me pus de pé e declarei perante todos: Senhor, não sei mais que diga, senão ruços além! E isto falou o bom do alferes-mor porque todos os que ali estavam tinham já as cabeças cobertas de cabelos brancos, após tantas aventuras e perigos vividos em conjunto durante mais de 30 anos de guerras... Todos se riram desta lembrança tão certeira, e el-rei encerrou a sessão com o seu plano já aprovado.
Programada a partida para o São João seguinte, o rei João I tratou de enviar o emissário Fernão Fogaça ao duque da Holanda, com o pretexto de o desafiar para uma guerra que serviria, pretensamente, para os portugueses se vingarem de alguns roubos e danos que certos navios daquele duque tinham provocado no mar a mercadores lusitanos. Com isto, el-rei queria apenas desviar as atenções do seu verdadeiro objectivo: o ataque a Ceuta. O duque entrou no jogo e, apesar da apreensão dos seus conselheiros, que temiam a fama militar portuguesa e que tinham tido notícia, por mercadores de Bruges, da preparação de uma frota em Portugal, fingiu aceitar o desafio, fazendo-se prestes para esta guerra de fantasia.
Enquanto isso, seguiram cartas e mensageiros de João I para a Galiza, para a Biscaia, para a Inglaterra e para a Alemanha, com o objectivo de se fretarem navios para transportar as tropas para o Norte de África. Os infantes Pedro e Henrique foram nomeados os principais capitães da armada, a seguir ao rei, e decidiu-se que as gentes das comarcas da Beira, de Trás-os-Montes e de Entre Douro e Minho embarcariam no Porto e as das restantes províncias em Lisboa. O infante Henrique, sempre muito activo, começou a juntar os coudéis e os anadéis da Beira e de Trás-os-Montes e, com base nos cadernos dos alardos reunidos pelo escrivão da puridade, mandou apurar toda a gente em causa; o conde de Barcelos, Afonso, fez, o mesmo no Minho, enquanto o infante Pedro se encarregava da mobilização das gentes da Estremadura, de Entre Tejo e Guadiana e do Algarve, que haveriam de concentrar-se na capital». In João Gouveia Monteiro e António Martins Costa, 1415, A Conquista de Ceuta, Manuscrito, 2015, ISBN 978-989-881-804-1.

Cortesia de Manuscrito/JDACT

sexta-feira, 31 de março de 2017

A Conquista de Ceuta no 31. 1415. João Monteiro e António Costa. « João I ficou impressionado, agradeceu e recompensou os seus emissários, posto o que mandou destruir o modelo, para não comprometer o sigilo da operação»

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«(…) Tudo somado, valia a pena arriscar o empreendimento, tanto mais que os infantes o desejavam ardentemente e muita outra fidalguia jovem ameaçava colocar-se ao serviço de Castela para alcançar a glória que só os feitos de armas conferem aos mais nobres. Não me canso de imaginar a alegria dos infantes com esta decisão, mas também a responsabilidade que sentiram de a planificar de uma forma cuidadosa. De resto, João I era um guerreiro muitíssimo experiente e astuto e, logo no Verão de 1412, tratou de organizar um estratagema que lhe permitiu recolher informações preciosas sobre a cidade a assaltar. Naquele dia 24 de Julho de 1415, enquanto ultimavam os preparativos da frota no Restelo, contou-me João Gomes Silva como o capitão-mor Afonso Furtado e o prior do Hospital recordavam orgulhosamente a missão de espionagem que tinham levado a cabo: simularam que iam à Sicília propor à rainha viúva, dona Branca, que em vez de se casar com o infante Duarte, herdeiro do trono de Portugal, contraísse antes matrimónio com o infante Pedro; a corre lusitana sabia que o mais certo seria a proposta ser recusada, mas isso de nada importava, pois o verdadeiro objectivo da missão era aportar, à ida e à vinda, em Ceuta e inspeccionar as defesas da cidade, os locais mais adequados para a frota desembarcar e todos os detalhes relevantes! Os espiões assim fizeram, sem serem notados nem de dia nem de noite, e logo que regressaram fecharam-se com o monarca e com os infantes mais velhos num dos aposentos reais e organizaram uma sessão inesquecível: com duas cargas de areia, um novelo de fita, meio alqueire de favas e uma escudela, improvisaram uma réplica da cidade, desenhando as torres, a muralha, o terreno e os seus declives, e tudo o mais que interessava saber a quem preparava um ataque em força à rica cidade de Ceuta.
João I ficou impressionado, agradeceu e recompensou os seus emissários, posto o que mandou destruir o modelo, para não comprometer o sigilo da operação. A seguir, tratou de garantir a aprovação da rainha dona Filipa (que os infantes convenceram sem dificuldade, salvo no que tocava à participação do próprio marido na campanha) e do velho condestável Nuno Álvares Pereira, um homem de enorme autoridade e que discretamente abordaram, com sucesso, durante uma montaria (desenfadamento que el-rei prezava acima de todos os outros) organizada no Alentejo, um hábil estratagema utilizado para prolongar o segredo em torno do projecto.
Com a bênção do rei, da rainha e do condestável, os infantes podiam agora pôr os preparativos em marcha: nas taracenas (os estaleiros), averiguaram quantos navios havia e como estavam reparados; mandaram cortar madeira para refazimento de algumas galés e fustas e trataram de aparelhar carpinteiros e calafates que colaborassem nisto; deram ordens para que se recolhesse quanto cobre e prata havia no reino e para que se mandasse trazer mais de fora, através de um bom acordo com os mercadores, com o que em breve se reuniu bastante quantidade de metal. Contou-me João Afonso, o vedor da fazenda, que, aflito com a situação das finanças régias, sugerira aos infantes um ataque a Ceuta, como ele próprio tratou logo de prover as rendas da cidade e como falou com o tesoureiro da moeda, Rui Pires Alandroal, embora sem lhe revelar o segredo da expedição; assim, logo ficaram a postos os fornos da moeda e esta pôde começar a ser cunhada, de dia e de noite. Quanto ao almirante, descendente dos famosos Pessanha de Génova que haviam vindo para Portugal ao tempo d'el-rei Dinis I, foi avisado para prover todos os mareantes, cada qual em seu estado.
A par de todo o negócio teve de ficar também o escrivão da puridade (primeiro ministro) do rei, Gonçalo Lourenço Gomide, que mandou fazer cartas em nome do monarca para o escrivão dos dinheiros (os maravedis) e para todos os oficiais, coudéis e anadéis (com autoridade sobre os aquantiados das cidades, vilas e aldeias do reino e sobre os besteiros do conto), para que logo organizassem as suas revistas às tropas (os alardos); depois, enviariam a João I os cadernos deles, com indicações precisas sobre o número de homens disponíveis para a campanha, as suas idades e o equipamento de que dispunham para servir a Coroa». In João Gouveia Monteiro e António Martins Costa, 1415, A Conquista de Ceuta, Manuscrito, 2015, ISBN 978-989-881-804-1.

Cortesia de Manuscrito/JDACT

domingo, 24 de abril de 2016

A Conquista de Ceuta. 1415. João Monteiro e António Costa. «O rei ficou convencido e, apesar dos riscos, decidiu aprovar a expedição, tanto mais que percebia a grande vantagem de desviar os ímpetos bélicos dos cavaleiros das rixas internas ou dos conflitos com Castela para o Norte de África»

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«(…) Os infantes (instigados pelo seu meio-irmão Afonso, conde de Barcelos), todavia, não se deram por satisfeitos. Contou-me Henrique que eles achavam que festas e folguedos eram coisas mais adequadas a mercadores e a filhos de cidadãos, e decidiram propor ao pai um projecto muito mais ambicioso. Naquele dia 24 de Julho de 1415, a bordo das naus e das galés que se preparavam para zarpar, os infantes recordavam gostosamente a dificuldade que tinham tido para convencer João I a armá-los cavaleiros na sequência de um aparatoso feito de armas. Felizmente, o vedor da fazenda do rei, João Afonso Alenquer, tivera a ideia de lhes propor um bom projecto: por que não atacar Ceuta, aonde o vedor enviara um criado seu resgatar alguns cativos e que, por isso, sabia ser uma cidade grande e rica, o que vinha mesmo a calhar para o reforço do tesouro régio, que vivia momentos de aflição?
Segundo Henrique, o monarca começou por se rir da ideia, apesar de os filhos frisarem que o projecto constituiria grande serviço de Deus, acarretaria uma honra que só a guerra ofensiva pode conferir e permitiria armá-los cavaleiros com a dignidade necessária. O pai teve dúvidas e mandou chamar dois colaboradores próximos (frei João Xira e Vasco Pereira), juntamente com outros letrados e pessoas de quem se fiava, para se aconselhar. A resposta veio célere: o plano era meritório, pois o objectivo da paz não tinha de se aplicar às relações com gentes de outras crenças; pelo contrário, o exercício das armas pelos cristãos é especialmente louvado se for praticado contra os infiéis. Mesmo assim, João I hesitava, face à dimensão do projeto: onde é que se iria buscar o dinheiro, os barcos e os homens de armas indispensáveis a uma tal empresa do outro lado do mar? E como manter a praça após uma eventual conquista? E seria que os castelhanos, depois de conquistarem Granada, quereriam desforrar-se das humilhações sofridas em Portugal entre 1383 e 1411, atacando Ceuta? Em síntese: o melhor era abandonar a ideia.
Os infantes, todavia, não se deram por vencidos e depressa voltaram à carga. Quanto ao dinheiro, alegaram que se podia comprar bens aos mercadores portugueses a preço de custo e revendê-los depois no estrangeiro, obtendo com isso bons ganhos em metal precioso, com o que se poderia cunhar moeda a câmbios favoráveis; explicaram que uma gestão mais rigorosa das rendas da Coroa permitiria eliminar despesas supérfluas; e garantiram que muitos dos notáveis do reino conseguiriam assegurar, pelos seus próprios meios, os preparativos expedicionários das suas comitivas; além disso, o que o monarca pouparia nas sumptuosas festas que pensara organizar já daria para uma boa parte da viagem; quanto ao resto, não seria a primeira vez que o pai se metia numa grande e arriscada aventura sem ter ainda a certeza dos meios financeiros para a concluir...
No que dizia respeito aos navios, Pedro e Henrique contaram-me que responderam ao pai que se poderiam fretar nas costas da Galiza e da Biscaia, na Alemanha e em Inglaterra; se os armadores dessas paragens costumavam vir de boa vontade ao frete do sal, do azeite e dos vinhos, não deixariam de acorrer também para o transporte de tropas; além disso, podia-se reparar algumas galés portuguesas e mandar construir outras de novo, e mobilizar desde já as naus para que se preparassem; à medida que a notícia dos preparativos corresse por essa Europa fora, era provável que mais armadores estrangeiros se quisessem juntar à empresa. Gente de armas também não faltaria, mesmo não contando com aquela que teria de ficar a guardar as fronteiras, ainda que - com a paz com Castela recentemente assinada, não fosse nada provável que dona Catarina e Fernando quisessem violar os tratos.
O rei ficou convencido e, apesar dos riscos, decidiu aprovar a expedição, tanto mais que percebia a grande vantagem de desviar os ímpetos bélicos dos cavaleiros das rixas internas ou dos conflitos com Castela para o Norte de África, e isso, só por si, justificava a despesa que se viesse a fazer; e, quanto à manutenção da praça, logo se veria, seria o que Deus quisesse! O monarca sentia também que uma grande operação contra os muçulmanos mereceria a aprovação e o elogio da Santa Sé e da cristandade em geral e que isso reforçaria a sua autoridade como chefe de uma nova dinastia, que chegara ao trono na sequência de uma árdua disputa interna e com Castela. Depois, se a missão fosse bem-sucedida, talvez o Algarve ficasse mais aliviado do corso e da pirataria muçulmanas, já, que Portugal passaria a ter também uma palavra a dizer no controlo do estreito (de Gibraltar), numa altura em que Tarifa e Algeciras estavam por Castela, Gibraltar tinha a tutela de Granada e Ceuta se encontrava nas mãos da dinastia dos merínidas de Fez. Constava até que esta dinastia, que chegara ao poder em Marrocos na segunda metade do século XIII', se encontrava bastante enfraquecida por divergências internas, o que decerto dificultaria o socorro a uma cidade de que João I ouvira já gabar o artesanato e, sobretudo, o comércio por mar (com cidades italianas como Génova, Pisa ou Veneza, mas também com a França e com os reinos peninsulares de Castela e Aragão) e por terra o criado do vedor João Afonso explicara na corte que em Ceuta, em resultado da circulação das caravanas que vinham de outras regiões do Norte de África, se podia comprar escravos, cavalos, couros, peles, tapetes, lã e coral de altíssima qualidade, para além de cereais, açúcar, frutos secos e peixe salgado, podendo ali vender-se panos, pássaros de caça, metais, tecidos, especiarias, vinho, madeiras e armas, entre outros produtos». In João Gouveia Monteiro e António Martins Costa, 1415, A Conquista de Ceuta, Manuscrito, 2015, ISBN 978-989-881-804-1.

Cortesia de Manuscrito/JDACT

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A Conquista de Ceuta. 1415. João Monteiro e António Costa. «A animação era grande no Restelo, com a concentração da imensa armada portuguesa, que fazia os últimos preparativos para se lançar ao mar, rumo a um destino ainda desconhecido da maioria dos participantes»

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«(…) Isto contou-me João Gomes Silva, alferes-mor do rei e um dos participantes na expedição, quase três décadas depois da grande conquista. Infelizmente, eu, Gomes Eanes Zurara, guarda-mor da livraria real e do arquivo da Torre do Tombo, incumbido por el-rei Afonso V de escrever a crónica deste feito, não tive possibilidade de participar na campanha de 1415. Por isso, restou-me recordá-la em livro, na certeza de que a única coisa que verdadeiramente resiste ao tempo é a escrita e que, através dela, os bons feitos de armas serão sempre lembrados e quem os praticou poderá acalentar a esperança de receber por eles um legítimo galardão. Agora, já velho e cansado, recordo com saudade os dias felizes mas trabalhosos em que, depois de estudar numerosos documentos e conversar com diversos anciãos, compus essas longas páginas.

24 de Julho de 1415. Reunir a frota
A animação era grande no Restelo, com a concentração da imensa armada portuguesa, que fazia os últimos preparativos para se lançar ao mar, rumo a um destino ainda desconhecido da maioria dos participantes. O caso não era para menos: fazia três ou quatro anos que o rei João I, a rainha dona Filipa de Lencastre, os seus filhos mais velhos (os infantes Duarte, Pedro e Henrique) e um pequeno núcleo de colaboradores e conselheiros da corte (com destaque para o condestável Nuno Álvares Pereira, o alferes-mor João Gomes Silva, o prior do Hospital, Álvaro Gonçalves Camelo, o capitão-mor, Afonso Furtado, o vedor da fazenda, João Afonso Alenquer, o escrivão da puridade, Gonçalo Lourenço Gomide, e o escrivão da câmara do rei, Gonçalo Caldeira) guardavam religiosamente um segredo que intrigava metade da Europa.
Contou-me João Gomes Silva que, quando se assinaram as pazes entre Portugal e Castela, em Outubro de 1411, em Ayllón (Segóvia), na sequência de uma embaixada em que ele próprio participou (na companhia de Martim do Sem, governador da Casa de Duarte I, e do Beliago, deão da Sé de Coimbra), o rei português respirara de alívio. É certo que o novo monarca castelhano, João II, era ainda uma criança quando lhe morreu o pai, Henrique III, mas os seus tutores, a rainha viúva, Catarina Lencastre, irmã da nossa dona Filipa, e o tio Fernando de Aragão, pareciam sinceramente dispostos a preservar uma paz por que os povos já ansiavam e que, se Deus quisesse, haveria de ser ratificada quando o jovem monarca castelhano atingisse a maioridade e pudesse governar o reino vizinho. Tudo foi assinado e confirmado entre as partes, e devidamente apregoado em ambos os reinos, como eu pude confirmar nos documentos à minha guarda no arquivo da Torre do Tombo.
Sucedeu, porém, que nem todos se alegraram com o pregão que anunciava o termo de uma longa e desgastante guerra luso-castelhana iniciada há quase três décadas (já, para não falar nas guerras fernandinas que a antecederam). É que, se as gerações mais velhas e sensatas rejubilaram com a possibilidade de cultivarem as suas terras, de desenvolverem os seus negócios ou de armarem os seus navios em segurança, já, muitos dos fidalgos e homens mais novos lamentavam a chegada da paz e receavam ver comprometida a sua oportunidade de alcançarem honra, proveito e glória em novas aventuras militares; achavam que a velha geração de Aljubarrota estava esgotada pelo cansaço acumulado em campanhas sem fim e que só pensava agora em descansar à sombra dos louros conquistados, condenando os jovens ao imobilismo ou forçando-os a procurarem outros reinos e cenários para se cobrirem de iguais louros.
Quando compus a minha crónica, já muitos dos heróis de Ceuta tinham falecido, e nem todos os que ainda eram vivos nos anos de 1449 e 1450 se prestaram a falar. Mas, dos testemunhos que recolhi, sobretudo da boca do alferes-mor e do infante Henrique, em 1411 o velho monarca lusitano ainda acalentava alguma esperança de lavar em sangue muçulmano as mãos que cobrira de feridas nas guerras que travara contra os castelhanos na Península Ibérica. Por isso, João I, o da Boa Memória, chegou a desafiar Fernando de Antequera para uma guerra conjunta contra Granada, o bastião muçulmano que sobrevivia no Sul da Hispânia, mas o regente de Castela não correspondeu ao pedido, de tão atarefado que andava com a disputa pelo trono aragonês». In João Gouveia Monteiro e António Martins Costa, 1415, A Conquista de Ceuta, Manuscrito, 2015, ISBN 978-989-881-804-1.

Cortesia de Manuscrito/JDACT

sábado, 22 de agosto de 2015

A Conquista de Ceuta. 1415. João G. Monteiro e António M. Costa. «Juntos à terceira porta, o combate tornou-se especialmente rijo, com os mouros a meterem as suas azagaias, lanças curtas, rente ao solo, de maneira a ferirem as pernas dos nossos combatentes»


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«… E foi assim que o infante Henrique, intrépido e ávido de ganhar naquele dia as suas esporas de cavaleiro, avançou em direcção ao castelo. Baixou a viseira do seu bacinete, embraçou o escudo que trazia e pôs em fuga um grupo de mouros que perseguia as centenas de cristãos que tinham logrado forçar a entrada pela Almira. Na rua Direita, encontrou uma porta reforçada por uma barbacã, o que lhe deu um bom pretexto para testar a fortaleza dos seus membros grossos e viris, no auge das suas vinte e uma primaveras. A investida foi tal que os inimigos se tiveram de abrigar na junção de três muros, desencadeando a partir daí um contra-ataque apoiado. Nessa altura, Henrique já só podia contar com a ajuda de 17 homens da sua coluna de ataque, pois a sede, o cansaço e a ganância do saque tinham deixado os restantes para trás. Ainda assim, aguentou ali, estoicamente, durante duas horas e meia.
Isso não foi, porém, suficiente para saciar o desejo de glória do infante: repelidos os adversários, decidiu avançar com apenas quatro companheiros, Álvaro Fernandes Mascarenhas, Vasco Esteves Godinho, Gomes Dias Góis, todos eles servidores da sua Casa, e Fernão Álvares, um escudeiro do rei que queria muito bem a Henrique e que tinha vontade de se colocar ao seu serviço. Mas ai onde eles se foram meter! Entre uma porta colocada junto à robusta muralha coroada por duas filas de ameias e uma torre de estrutura abobadada munida de aberturas para o despejo de pedregulhos e de líquidos incendiários pelos sitiados, saía um caminho estreito que partia de uma segunda entrada e que conduzia os assaltantes entre o muro e a barbacã, até se chegar a uma terceira porta. A concentração de guerreiros era ali de tal ordem que os de dentro receavam lançar pedras sobre os cristãos, com medo de acertarem nos seus próprios homens…
Juntos à terceira porta, o combate tornou-se especialmente rijo, com os mouros a meterem as suas azagaias, lanças curtas, rente ao solo, de maneira a ferirem as pernas dos nossos combatentes. A situação tornou-se desesperada e quem se apercebeu do perigo deu logo o infante morto. A notícia correu célere e chegou aos ouvidos de João I, que reagiu de coração apertado à ideia da perda, sem contudo deixar de salientar que o mais importante era que ele tinha morrido honradamente, no cumprimento do seu ofício de homem de armas…» In João Gouveia Monteiro e António Martins Costa, 1415, A Conquista de Ceuta, Manuscrito, 2015, ISBN 978-989-881-804-1.

Cortesia de Manuscrito/JDACT