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domingo, 29 de setembro de 2024

Sermão da Sexagésima. Padre António Vieira. «Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim»

Cortesia de wikipedia

Pregado na Capela Real, no ano de 1655. Semen est verbum Dei. S. Lucas, VIII

«Deixará de frutificar a sementeira, ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do Céu, isso nunca é nem pode ser. Sempre Deus está pronto da sua parte, com o sol para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem: qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos. Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et non feci?, disse o mesmo Deus por Isaías.

Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.

Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação:

Et natum fecit fructum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E porquê? -- Os espinhos por agudos, as pedras por duras». In Sermões, padre António Vieira, 1655, Sermões Escolhidos. v.2, São Paulo, Edameris, 1965, Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro, Universidade de São Paulo, Universidade de Santa Catarina, Wikipédia.

Cortesia de USCatarina/Wikipedia/JDACT

 JDACT, Padre António Vieira, Século XVII, Sermões

Sermão da Sexagésima. Padre António Vieira. «Esta, tão grande e tão importante dúvida, será a matéria do sermão. Quero começar pregando-me a mim. A mim será, e também a vós»

Cortesia de wikipedia

Pregado na Capela Real, no ano de 1655. Semen est verbum Dei. S. Lucas, VIII

«(…) Lede as histórias eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do Mundo; os reis renunciando os ceptros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas; e hoje? Nada disto. Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos omnipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta, tão grande e tão importante dúvida, será a matéria do sermão. Quero começar pregando-me a mim. A mim será, e também a vós; a mim, para aprender a pregar; a vós, que aprendais a ouvir.

III

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus? Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E porque se perderam estas três? A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva. A causa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva, ou porque falta ou sobeja o sol. Pois porque não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva? Porque o sol e a chuva são as afluências da parte do Céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta: do Céu, sempre é por culpa nossa» In Sermões, padre António Vieira, 1655, Sermões Escolhidos. v.2, São Paulo, Edameris, 1965, Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro, Universidade de São Paulo, Universidade de Santa Catarina, Wikipédia.

 Cortesia de USCatarina/Wikipedia/JDACT

JDACT, Padre António Vieira, Século XVII, Sermões,

sábado, 6 de janeiro de 2024

A Aldeia das Almas Desaparecidas. Richard Zimler. «Penso muitas vezes que ela nunca se sentia confortável na companhia de outros adultos, e que nós, as crianças do mundo, éramos o seu refúgio»

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A Floresta do Avesso. A magia segreda-me ao ouvido

«Quando tinha três dias de idade, a magia veio ter comigo na ponta dos pés, tomou-me nas suas mãos grandes e calosas e murmurou-me ao ouvido orações orvalhadas com odor a coentros. Eram sussurros em castelhano na sua maioria, mas condimentados com frases de som gutural numa língua que, quando tinha cinco anos, me foi revelada como sendo a falada por Jesus e os seus apóstolos.

Quando fecho os olhos, agora, vinte e um anos mais tarde, a intimidade daquelas palavras provoca-me arrepios. E apercebo-me de que uma parte de mim continua a ouvir as vozes quentes e amortecidas da minha infância, mesmo quando só há silêncio à minha volta.

A feiticeira que me pegava com as suas grandes mãos parecia-me um ser poderoso e gigantesco. Mas na realidade era uma curandeira de cinquenta e um anos, de vulto frágil e ossudo, muito coxa e com espessas cicatrizes roxas nos pés, tão horríveis de se ver que me faziam chorar quando olhava para elas. Com doze anos, eu já era mais alto do que ela.

A avó Flor.

Tínhamos acabado de regressar do meu baptismo na igreja da aldeia, e ela pôs-se a mascar folhas de coentros, num esforço para manter a compostura. Ao longo de toda a cerimónia permanecera de pé junto à porta da entrada, passando os dedos pela gola de pele do casaco de inverno, desejando não sentir o coração tão apertado pelo medo.

Penso muitas vezes que ela nunca se sentia confortável na companhia de outros adultos, e que nós, as crianças do mundo, éramos o seu refúgio.

Adonai era um nome dado a Deus no Antigo Testamento e uma das poucas palavras que a minha avó sabia na língua da Bíblia. Nas orações que me segredou ao ouvido naquele dia, arrastou lentamente as suas três sílabas. Para manter aquela figura doce e fugidia do Senhor na minha boca por mais uns momentos, dizia-me, sempre que voltava a contar-me aquela história.

Depois de a avó Flor ter invocado Adonai para abençoar a cerimónia que estava prestes a iniciar, encostou os lábios à minha barriga e soprou ruidosamente, para me fazer rir; a seguir, baixou-se e depositou-me no nosso velho tapete de pele de ovelha, e a luz alaranjada da lareira envolveu-me no seu calor reconfortante». In Richard Zimler, A Aldeia das Almas Desaparecidas, A Floresta do Avesso, Porto Editora, 2022, ISBN 978-972-003-580-6.

 Cortesia PortoEditora/JDACT

JDACT, Richard Zimler, Literatura, Cultura, Século XVII, 

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

A Obra Poética. José Pina Martins. «Os dois pastores do diálogo discordam de critério, quanto às virtudes a preferir na mulher, já que um opta pela beleza e outro mais solidamente pelos bens materiais…»

 

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«(…) Pessimismo antropológico e cosmológico até, mas nem sempre expresso através das formas literárias consuetas, dos achadilhos conceituosos da tese e da antítese, como em Petrarca e nos petrarquistas, da afirmação e da negação, da dúvida e da fé, da ilusão e da sua consciência lúcida (desilusão), da aceitação e da atitude inconformista, do crer e do duvidar. É talvez especificamente melódico o recurso à expressividade de um humorismo transcendente para significar a problemática da dor pelo próprio sujeito experimentada. A vocação do moralista ergue-o na passagem do concreto para a reflexão sentenciosa, mas sem um divórcio temático do aforístico em relação ao vivencial ou ao religioso.

Não raro, as fontes clássicas insinuam na palavra poética o recurso a uma erudição profundamente assimilada, mas porque o poeta sabe colocá-la no seu verdadeiro plano de arte ou de artifício, nunca a cultura abafa a experiência, e por isso nunca o artifício sábio ou técnico se sobrepõe à arte. Mas estamos em crer que os sonetos mais artisticamente valiosos de dom Francisco Manuel são os de tema predominantemente religioso, como Antes da Confissão. Já num outro estudo tivemos oportunidade para relevar os elementos essenciais de valorização estética desta composição e não vamos aqui repetir-nos. A palavra poética, nesta parte de As Segundas Três Musas, assume, como na Retórica renascentista, a plenitude de um valor directamente ligado ao humano. Não há dúvida de que uma tal poesia exprime, na arte, o próprio homem.

As Éclogas.

A Sanfonha de Euterpe, segunda parte de As Segundas Três Musas, é formada por éclogas e cartas. Já se observou que falta às primeiras o ambiente genuinamente pastoril que deveria caracterizar o género, mas nisto, como aliás na própria substância doutrinal, o Melodino segue a lição e o exemplo de Sá de Miranda, seu modelo também nas cartas.

A écloga Casamento, que integra o cap. II de PEM, é talvez, neste domínio, o exemplo mais representativo. O tema era muito do agrado do nosso autor, que o tratou também na Carta de Guia de Casados.

Os dois pastores do diálogo discordam de critério, quanto às virtudes a preferir na mulher, já que um opta pela beleza e outro mais solidamente pelos bens materiais. O cura, discreto e avisado segundo o cânone do ideal normativo da época, concilia as duas opiniões de acordo com um ideal de equilíbrio e moderação. A lição do meio termo é igualmente preconizada nas éclogas Temperança e Rústica. Mediano, aliás, é o nome de um dos interlocutores de Temperança, cujo conselho, de resto, pode resumir-se nos dois versos que, com outros, se encontravam gravados no templo aonde os dois pescadores (Afouto e Medroso) são levados por Mediano: Caminha sempre a um justo fim direito, / fugindo todo extremo perigoso. E assim como, em Basto, Gil exprime as ideias de Sá de Miranda, na écloga Rústica, por exemplo, Cremente tem palavras cujo tom de pessimismo profundo e sentido reflecte a experiência dolorosa de dom Francisco Manuel de Melo. A lição de moralidade, que informa o suco didáctico das éclogas, não apagou o sinete autêntico de transposição da vida vivida na palavra poética. Mas as cartas são, a este respeito, ainda mais interessantes.

[...]» In José Pina Martins, A Obra Poética de D. Francisco Manuel de Melo, HALP 31, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, ISSN 1645-5169.

Cortesia de FCGulbenkian/JDACT

JDACT, José Pina Martins, Isabel Allegro Magalhães, Poesia, D. Francisco Manuel de Melo, Século XVII,

terça-feira, 22 de novembro de 2022

A Obra Poética. José Pina Martins. «Os estudiosos mais sérios da nossa terra insistem em ver em As Segundas Três Musas de Melodino, insertas na segunda parte do grosso volume das Obras Métricas (Lyon, 1665)…»

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«Dom Francisco Manuel Melo (1608-1666) ocupa de há muito tempo, como prosador, um lugar eminente na história da literatura portuguesa. São poucos, porém, os críticos que tenham consagrado à sua obra poética a atenção que ela merece. Já alhures escrevemos que a minimização do valor poético de dom Francisco Manuel Melo é, não raro, o resultado de posições apriorísticas ou ideias preconcebidas. Os estudiosos mais sérios da nossa terra insistem em ver em As Segundas Três Musas de Melodino, insertas na segunda parte do grosso volume das Obras Métricas (Lyon, 1665), mais um produto do talento multiforme do autor, do que a expressão literária autêntica de uma experiência humana profundamente sentida e vivida. Estamos em crer que, salvo poucas e honrosas excepções, podem contar-se pelos dedos aqueles que algum dia tenham contactado, em convívio diuturno, o mundo poético do Melodino, pois, de contrário, ter-se-iam logo apercebido do valor estético ímpar de algumas composições. Entre aqueles que, entre nós, estudaram a poesia de dom Francisco Manuel, merecem ser distinguidos José Pereira Tavares que, em 1921, nos deu uma edição antológica das suas Rimas Portuguesas e Orações Académicas, e, mais recentemente, António Correia de A. Oliveira, que ao nosso autor consagrou vários estudos de valor excepcional. Outros  investidores se têm ocupado do Melodino, nomeadamente Hernâni Cidade e Maria de Lourdes Belchior, com invulgar argúcia e erudição: mas não em trabalhos monográficos, ex professo dedicados à sua poesia.

Não nos cabe, estudar mais ou menos detidamente As Segundas Três Musas, mas só dedicar-lhes um antelóquio superficial: a poesia apresentar-se-á por si mesma, no valor genuíno da sua significação humana e estética. Seja-nos, contudo, lícito pôr em relevo um ou outro aspecto temático e de técnica formal mais digno de realce, principalmente numa perspectiva de pesquisa dos valores de fidelidade artística da palavra significante à sua carga vital de significado. Corresponde, então, a poesia do Melodino às dores da experiência vivencial expressa poeticamente? Cumpre-nos aqui observar, in limine, que o prisioneiro da Torre Velha fez da sua vida um poema, ou melhor, a sua vida está toda ela, com o sinete de uma experiência dolorosa, nalguns dos seus poemas. Documentá-lo é, porventura, mais fácil do que enunciá-lo.

Os Sonetos

A primeira parte de As Segundas Três Musas é formada por 100 sonetos, alguns deles documentos interessantes de engenhoso conceptismo, com profusão de imagens requintadas e metáforas de elaboração aguda. Nascem, assim, obscuridades e ambiguidades intencionais, bem de acordo com os preceitos da doutrina barroca. Não obstante tudo isso, que é afinal o tributo pago pelo autor à moda do tempo, já um crítico de grande autoridade foi levado a escrever que o nosso poeta preanuncia, nesta parte da sua obra, a lira anteriana. Quer tratando o tema da liberdade individual, ele que se encontrava prisioneiro na Torre e bem conhecia os grilhões da vida cortesã, quer repetindo alguns tópicos do petrarquismo numa poesia amorosa que, apesar da imitação, ostenta o sinete de uma visível originalidade, dom Francisco Manuel consegue superar os esquemas artificiais de uma arte toda voltada para a quinta essência do jogo dialéctico e do brinco subtil.

Não raro o tom vagamente preceptivo e normativo identifica-se com o epigramático: aliás o poeta hauria a lição em fontes autênticas, como são as da sabedoria popular que exprime o mais saboroso do seu suco em provérbios e ditos exemplarmente concisos. Também a consciência do tempo breve, da fugacidade da vida, da efemeridade das coisas, na certeza de que viver é peregrinar na terra do exílio, tem em dom Francisco Manuel um intérprete inspirado, a despeito da dificuldade de um tal tratamento poético, já então exemplarmente fixado em obras-primas consagradas como as de Sá Miranda e Camões, para só referirmos dois nomes da literatura portuguesa que lhe serviram de modelos e de mestres». In José Pina Martins, A Obra Poética de D. Francisco Manuel de Melo, HALP 31, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, ISSN 1645-5169.

Cortesia de FCGulbenkian/JDACT

JDACT, José Pina Martins, Isabel Allegro Magalhães, Poesia, D. Francisco Manuel de Melo, Século XVII, 

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Você terá de ir ao Mercado de Carne e às barracas de peixe também. É outra das suas tarefas. Dito o quê, ela me deixou com a roupa para lavar. Contando comigo, havia dez pessoas na casa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mas, outra vez, foram os quadros que me espantaram. Havia mais quadros naquele quarto que emqualquer outro lugar. Contei, em silêncio, dezanove. A maioria, retratos, parecia ser de membros das duas famílias. Tinha também um quadro da Virgem Maria e outro dos reis magos adorando o Menino Jesus. Olhei os dois, meio sem jeito. Agora, vamos subir. Tanneke tomou a frente na escada íngreme e colocou um dedo sobre os lábios fechados, pedindo silêncio. Subi fazendo o mínimo barulho possível e quando cheguei no alto olhei em volta e vi uma porta fechada. Atrás dela, um silêncio que eu sabia ser dele. Fiquei com os olhos pregados na porta, sem ousar me mexer, caso se abrisse e ele saísse. Tanneke
inclinou-se e sussurrou: Você vai limpar lá dentro, a jovem patroa explica depois. E esses quartos, apontou para as portas nos fundos da casa,são da minha patroa. Só eu entro lá para arrumar.

Descemos em silêncio outra vez. Quando estávamos na lavandaria, Tanneke disse: Você vai lavar toda a roupa da casa, e apontou um monte de roupas muito mal lavadas. Eu ia trabalhar bastante para colocar o serviço em dia. A cozinha tem uma cisterna, mas é melhor você pegar água no canal, que é bem limpa nesta parte da cidade. Tanneke, você fazia tudo isso sozinha? Cozinhar, limpar e lavar para a casa toda?, perguntei, baixinho. Escolhi as palavras certas. Tudo, além de algumas compras Tanneke estava orgulhosa da própria competência. Claro que a jovem patroa faz a maior parte das compras, a não ser carne e peixe quando está carregando um filho. O que acontece com frequência, acrescentou ela, num sussurro. Você terá de ir ao Mercado de Carne e às barracas de peixe também. É outra das suas tarefas. Dito o quê, ela me deixou com a roupa para lavar.Contando comigo, havia dez pessoas na casa, uma delas um bebê que deveria sujar mais roupas que todos os demais. Eu teria de lavar roupa todos os dias, minhas mãos ficariam rachadas e ásperas com o sabão e a água; meu rosto, vermelho por causa do vapor das roupas na fervura, minhas costas doídas de carregar roupa molhada, e meus braços queimados pelo ferro. Mas eu era jovem e nova na casa, esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.e meus braços queimados pelo ferro. Mas eu era jovem e nova na casa, esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.e meus braços queimados pelo ferro. Mas eu era jovem e nova na casa, esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.esperava-se que fizesse o trabalho mais árduo.

As roupas precisavam ficar de molho um dia antes de serem lavadas. Na mesma despensa que levava ao porão, encontrei dois baldes de estanho e uma chaleira de cobre. Peguei os baldes e percorri o longo corredor até à porta da frente. As meninas estavam sentadas no banco. Lisbeth soprava as bolhas de sabão enquanto Maertge dava pão amolecido no leite para o bebé Johannes. Cornélia e Aley discorriam atrás das bolhas. Quando apareci, elas ficaram paradas me olhando, à espera. Você é a nova criada, declarou a menina ruiva. Sim, Cornélia. Cornélia pegou um seixo e jogou do outro lado da rua, no canal. Estava com o braço todo arranhado, deveria ter perseguido o gato da casa. Onde vai dormir?, perguntou Maertge, enxugando os dedos redondinhos no avental. No porão. Nós gostamos do porão, disse Cornélia. Vamos brincar lá agora! Ela entrou, mas não foi longe.Como ninguém a acompanhou, voltou e ficou emburrada.

Aley dis, chamei, estendendo a mão para a caçula. Pode-me mostrar como pegar a água do canal? Ela segurou minha mão e me olhou. Seus olhos eram como duas moedas cinzentas e brilhantes. Atravessamos a rua, com Cornélia e Lisbeth atrás. Aley dis me levou até uma escada que descia para o canal. Descemos e apertei a mão dela, como fiz anos antes com Frans e Agnes sempre que ficávamos perto de água. Não pise na água, avisei Aley dis, que, obediente, deu um passo atrás. Mas Cornélia estava bem nas minhas costas quando carreguei os baldes na escada. Cornélia, ajuda-me a carregar a água? Senão, fique com suas irmãs. Ela me olhou e fez o pior: se tivesse ficado brava ou gritado, eu saberia como controlá-la. Mas caçoou». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

 

Cortesia de BertrandB/JDACT

 

Johannes Vermeer, Século XVII, JDACT, Pintura, Literatura,

terça-feira, 27 de julho de 2021

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Ela agora está fora, foi fazer compras. Tanneke vai-lhe mostrar a casa e explicar suas tarefas. Sim, madame. Concordei»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Nenhum era como eu esperava que ele pintasse. Mais tarde, descobri que eram todos de outros pintores, ele raramente mantinha seus quadros na casa. Além de artista era comerciante de arte, e havia quadros em quase todos os cómodos da casa, até no que eu dormia. No total, eram mais de cinquenta, embora o número variasse, conforme ele os vendia. Venha, não precisa ficar olhando. A mulher andou rápido por um comprido corredor que percorria um lado da casa até aos fundos. Fui atrás dela até virar de repente para um quarto à esquerda. Na parede em frente havia um quadro que era maior que eu. Mostrava Cristo na cruz, rodeado pela Virgem Maria, Maria Madalena e São João. Tentei não olhar, mas me impressionei com o tamanho e a cena. Meu pai tinha dito que os católicos não eram muito diferentes de nós. Mas nós não tínhamos aqueles quadros nas nossas casas, em igrejas nem em lugar algum. Eu ia ter que ver aquele quadro todos os dias. Sempre chamei aquele lugar de quarto da Crucificação. Nunca me senti bem lá. O quadro me deixou tão espantada que só percebi a mulher no canto quando ela falou. Bem, menina, algo novo para você ver, disse ela. Estava numa cadeira confortável fumando um cachimbo. Os dentes que seguravam o cachimbo tinham escurecido e os dedos estavam manchados de tinta. No resto, era impecável: seu vestido negro, sua gola de renda, sua touca branca engomada. O rosto enrugado era duro, mas seus olhos castanho-claros pareciam simpáticos.

Era o tipo da velha que parecia que ia viver mais tempo que todos. De repente, pensei: é a mãe de Catharina. Não era apenas por causa da cor dos olhos e da mecha castanha que escapou da touca, igual à filha. Tinha o jeito de alguém acostumado a lidar com pessoas menos capazes do que ela, de cuidar de Catharina. Entendi por que tinha sido levada para ela e não para a filha. Embora me parecesse olhar distraída, estava atenta. Quando apertou os olhos, percebi que sabia tudo que eu pensava. Virei a cabeça de forma que minha touca escondesse o meu rosto. Maria Thins deu uma baforada no cachimbo e riu. Está bem, menina. Aqui, seus pensamentos ficam para você. Quer dizer então que vai trabalhar para minha filha. Ela agora está fora, foi fazer compras. Tanneke vai-lhe mostrar a casa e explicar suas tarefas. Sim, madame. Concordei.

Tanneke tinha ficado ao lado da senhora e passou por mim. Segui-a, com os olhos de Maria Thins batendo nas minhas costas. Ouvi ela rir outra vez. Tanneke me levou primeiro para os fundos da casa, onde havia uma cozinha, uma lavandaria e duas despensas. A lavandaria abria para um pequeno pátio cheio de roupas brancas secando. Para começar, essa roupa precisa passar, disse Tanneke. Fiquei calada, embora parecesse que a roupa ainda não estava bem seca pelo sol do meio-dia. Ela me levou aos fundos e apontou um buraco no chão de uma das despensas, com uma escada para descer. Você dorme aqui, anunciou. Ponha suas coisas lá e venha.

Relutante, deixei minha trouxa cair naquele pequeno buraco sombrio, pensando nas pedras que Agnes, Frans e eu jogávamos no canal para acertar nos monstros. Minhas coisas fizeram um som surdo no chão sujo e me senti como uma macieira perdendo sua maçã. Segui Tanneke pelo corredor, para onde se abriam todos os quartos, muito mais quartos que em nossa casa. Ao lado do quarto da Crucificação, onde estava Maria Thins, na frente da casa, havia um quarto menor com camas de crianças, penicos, mesinhas e cadeirinhas com vários objectos de barro, castiçais, espevitadeiras e roupas, uma bagunça. As meninas dormem aqui, resmungou Tanneke, talvez sem graça com aquela confusão.

Voltou para o corredor e abriu a porta de um quarto grande, onde a luz vinha das janelas da frente e batia no chão de ladrilhos vermelhos e cinzentos. O grande cómodo. Aqui dormem o patrão e a senhora, disse ela. A cama de dossel tinha cortinas de seda verde. Havia outros móveis no quarto: um grande armário com entalhe de ébano, uma mesa de madeira branca encostada nas janelas com várias cadeiras de couro espanhol ao redor». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

 

Cortesia de BertrandB/JDACT

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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Os outros quadros eram de coisas mais conhecidas: pilhas de frutas, paisagens, navios no mar, retratos. Pareciam ser de vários pintores. Fiquei pensando qual deles seria do meu novo patrão»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) É melhor você estourar antes que batam no chão, sugeri. Senão, vai precisar limpar os ladrilhos outra vez. A mais velha abaixou a haste onde soprava. Quatro duplas de olhos me olharam de um jeito que não deixava dúvidas de que eram irmãs. Vi vários traços dos pais nelas: olhos acinzentados aqui, castanhos claros lá, rostos angulosos e movimentos impacientes. Você é a nova criada?, perguntou a mais velha. Mandaram a gente esperar você, interrompeu a menina ruiva, antes que eu pudesse responder. Cornélia, vai chamar Tanneke, mandou a mais velha. Vá você, Aleydis, disse Cornélia para a caçula, que arregalou os olhos para mim, mas não se mexeu. Eu vou. A mais velha deve ter achado que a minha chegada era importante, afinal. Não, eu vou. Cornélia pulou e correu na frente da irmã mais velha, deixando-me sozinha com as duas meninas mais caladas. Olhei para o bebé que batia braços e pernas no colo da menina. - É seu irmão ou irmã? Irmão, respondeu a menina com uma voz macia como um travesseiro de plumas. O nome dele é Johannes, mas nunca chame de Jan. Fez a recomendação como se fosse um refrão conhecido. Sei. E você, como se chama?

Lisbeth. E esta é Aleydis. A caçula sorriu para mim. As duas estavam arrumadinhas, de vestido marrom com aventais e toucas brancas. E sua irmã mais velha? Maertge, nunca chame de Maria. Nossa avó é Maria. Maria Thins. Esta casa é dela. O bebé choramingou. Lisbeth montou-o no joelho, para cima e para baixo. Olhei a casa. Sem dúvida, era maior que a nossa, mas não tanto quanto eu temia. Tinha dois andares e mais um sótão, enquanto a nossa tinha apenas um quarto e um pequeno sótão. Era uma casa de final de rua, com a Molenpoort de um lado, um pouco mais espaçosa do que as outras. Parecia menos apertada que muitas casas de Delft, que eram coladas umas às outras em estreitas fileiras de tijolo às margens dos canais, com suas chaminés e tectos inclinados reflectidos na água verde do canal. As janelas térreas da casa eram bem altas, e no primeiro andar havia três janelas juntas, em vez de duas como nas demais casas da rua.

Da casa, via-se a torre da Nova Igreja do outro lado do canal. Uma estranha vista para uma família católica, pensei. Uma igreja onde jamais entrariam. Então você é a criada, não?, ouvi alguém perguntar, atrás de mim. A mulher na porta tinha um rosto largo, com marcas da varíola que tivera há tempos. Seu nariz era grande e irregular e seus grossos lábios se apertavam formando uma boquinha. Os olhos eram azul-claros, como se ela tivesse um toque de céu neles. Estava de vestido marrom com camisa branca, uma touca bem apertada na cabeça e um avental não tão limpo quanto o meu. Ficou parada na porta de modo que Maertge e Cornélia tiveram de empurrá-la para ficar ao seu lado, olhando-me de braços cruzados como se esperassem um desafio. Ela já se sente ameaçada por mim, pensei. Se deixar, vai-me tiranizar. Meu nome é Griet, falei, olhando-a de frente. Sou a nova criada. A mulher mudou o peso do corpo de uma perna para a outra. Então é melhor entrar, concluiu logo. Afastou-se para o interior escuro para dar passagem na porta. Entrei. Sempre me lembro dos quadros, na primeira vez que entrei na sala da frente. Parei na porta, segurando minha trouxa, e olhei. Já tinha visto quadros, mas nunca tantos num só lugar. Contei onze. O maior era de dois homens, quase nus, lutando. Não identifiquei nenhuma história bíblica e achei que devia ser algum tema católico. Os outros quadros eram de coisas mais conhecidas: pilhas de frutas, paisagens, navios no mar, retratos. Pareciam ser de vários pintores. Fiquei pensando qual deles seria do meu novo patrão». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

 

Cortesia de BertrandB/JDACT

Johannes Vermeer, Século XVII, JDACT, Pintura, Literatura, 

terça-feira, 5 de maio de 2020

Imprimatur. O Segredo do Papa. Monaldi & Sorti. «No entanto, todos eles tinham sido convencidos a socorrer os sitiados pelo único e verdadeiro baluarte da Cristandade: o papa Inocêncio XI»

jdact

11 de Setembro de 1683
«(…) Que o Altíssimo venha em nosso auxílio, choramingou entretanto o padre Robleda, mas não percebi se por causa do gesto indecoroso do vidreiro ou da situação em geral, e deixou-se cair lívido em cima de um banco. E todos os Santos, acrescentou o poeta. Já que vim de Nápoles para apanhar o contágio. E não haveis feito bem, rebateu o jesuíta limpando o suor da fronte com um lenço. Bastava que tivésseis ficado na vossa cidade, pois nela não faltam ocasiões. Pode ser que sim. A questão é que aqui, actualmente, reina um papa bom, que julgava ter o Céu a seu favor. Contudo, antes, é preciso ver o que pensam aqueles que estão por detrás da Porta, como se costuma dizer, sibilou Stilone Priàso. De lábios cerrados e língua afiada, o poeta napolitano tinha colocado numa questão que ninguém gostava de ouvir sequer sussurrada. Havia semanas que o exército turco da Porta Sublime Otomana, sequioso de sangue, pressionava às portas de Viena. Todas as falanges infiéis convergiam implacavelmente (pelo menos era o que afirmavam os escassos relatórios que chegavam até nós) em direcção à capital do Sacro Romano Império, e ameaçavam arrombar os seus bastiões.
Os combatentes do lado cristão, prestes a capitular, conseguiam resistir graças à força da Fé. Com escassez de armas e mantimentos, extremados pela fome e pela disenteria, sentiam-se sobretudo aterrorizados pelos primeiros avisos de um foco de peste. Toda a gente sabia: se Viena caísse, os exércitos do comandante turco Kara Mustafá teriam caminho aberto para Ocidente, invadindo-o por todos os lados com alegria cega e terrível. Para esconjurar a ameaça, tinham-se mobilizado muitos príncipes ilustres: o rei da Polónia, o duque Carlos de Lorena, o príncipe Maximiliano de Baviera, Luís Guilherme de Baden e outros mais. No entanto, todos eles tinham sido convencidos a socorrer os sitiados pelo único e verdadeiro baluarte da Cristandade: o papa Inocêncio XI.
Com efeito, desde há muito tempo que o Pontífice lutava incansavelmente para coligar, reunir e reforçar as milícias cristãs. E não apenas com os meios da política, mas também através de um precioso apoio financeiro. De Roma partiam em continuação generosas somas de dinheiro: mais de dois milhões de escudos para o Imperador, quinhentos mil florins para a Polónia, mais cem mil escudos doados ao sobrinho do Pontífice, depósitos pessoais efectuados por vários cardeais e, por fim, uma generosa recolha extraordinária de dízimas eclesiásticas de Espanha.

A Santa Missão que o Pontífice procurava a todo o custo levar a bom termo juntava-se às inumeráveis obras pias realizadas durante os sete anos do seu Pontificado. Antes de mais, o sucessor de Pedro, nascido Benedetto Odescalchi havia setenta e dois anos, tinha dado sobretudo o exemplo. Alto, magríssimo, de fronte larga e nariz aquilino, de olhar severo, queixo saliente mas nobre e coberto por barbicha e bigode, conquistara a fama de asceta.
De carácter fugidio e reservado, era raro vê-lo a passar de carruagem pelas ruas da cidade, e evitava cuidadosamente as aclamações populares. Era sabido que escolhera para si os aposentos mais pequenos, desconfortáveis e despidos que alguma vez um Pontífice habitara, e que quase nunca descia a passear pelos jardins do Quirinale e do Vaticano. Era tão frugal e parcimonioso que apenas utilizava as vestes e os paramentos dos seus predecessores. Desde a sua eleição que vestiu sempre a mesma sotana branca, ainda que muito gasta, e só a trocou quando lhe foi observado que ao vigário de Cristo na terra não convém uma roupa demasiado desleixada.
Mas também na administração do património da Igreja tinha conquistado elevados méritos. Sanara as finanças da Câmara Apostólica, que desde os tempos injuriosos de Urbano VIII e Inocêncio X sofrera pilhagens de todo o género. Abolira o nepotismo: assim que foi eleito, convocara o seu sobrinho Lívio, avisando-o, assim se dizia, de que não o faria cardeal, aliás, de que o iria manter longe dos assuntos de Estado. Por outro lado, exortara os seus súbditos à austeridade e à moderação dos costumes. Os teatros, locais de distracção desordenada, tinham sido fechados. O carnaval, que dez anos antes recebia admiradores de toda a Europa, estava quase morto. Festas e entretenimentos musicais estavam reduzidos ao mínimo. Às mulheres tinha sido proibido trazer vestidos demasiado abertos e decotados à francesa. Aliás, o Pontífice tinha enviado patrulhas de esbirros a inspeccionar a roupa interior que enxugava às janelas, para sequestrar corpetes e camisas demasiado ousadas». In Monaldi & Sorti, 2002, Editorial Presença, 2004, ISBN 972-233-286-4.

Cortesia de EPresença/JDACT

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Imprimatur. O Segredo do Papa. Monaldi & Sorti. «No entanto, os homens do Bargello não tinham vontade, nem poder, para estarem com subtilezas. O Magistrado ordenou o encerramento imediato desta estalagem…»

jdact

11 de Setembro de 1683
«(…) Ouvimo-los todos nós, provinham do primeiro andar. Pellegrino, o estalajadeiro, meu patrão, tinha sido o primeiro a tirar as suas longas pernas da cama, acorrendo rapidamente. Mas deteve-se assim que chegou ao quarto grande do primeiro andar que dava para a via dell’Orso. Ali escavam alojados dois pensioneiros: o senhor Mourai, um velho gentil-homem francês, e Pompeo Dulcibeni, o seu acompanhante de viagem, originário da Marca. Na poltrona e com os pés de molho dentro de uma tina de água para o seu habitual pedilúvio, Mourai jazia de través e de braços caídos, enquanto o abade Melani lhe sustentava o peito e procurava reanimá-lo sacudindo-o pela gola. Mourai olhava fixamente para além de quem o socorria e, com grandes olhos atónitos, parecia perscrutar Pellegrino emitindo um indistinto gorgolejo. Só então Pellegrino se apercebeu de que, na realidade, o abade não gritava por socorro, mas estava a interrogar o velho com grande alarido e concitação. Falava-lhe em francês, e o meu patrão não percebeu, mas imaginou que lhe perguntava o que acontecera. No entanto, Pellegrino teve a impressão (como ele próprio mais tarde referiu a todos nós) de que o abade Melani sacudia Mourai com excessivo vigor na tentativa de o reanimar e, por isso, lançou-se rapidamente a libertar o pobre velho daquelas garras excessivamente poderosas. Foi nesse momento que o pobre senhor Mourai, com enorme esforço. balbuciou as suas últimas palavras: ah! Quer dizer então que é verdade, gemeu em italiano. Depois, deixou de agonizar. Continuava a fixar o estalajadeiro enquanto uma baba esverdeada lhe fluía da boca até ao peito. Foi assim que morreu.

O velho, es el viejo, arquejou padre Robleda num sussurro cheio de terror, meio italiano, meio espanhol, assim que ouvimos dois homens de armas a dizerem um para o outro, em voz baixa, as palavras peste e encerrar. Cristofano, médico e cirurgião de Siena!, chamou o oficial que fazia a chamada. Com gestos lentos e comedidos, o nosso pensioneiro toscano fez-se avante com a sua maleta de couro, contendo todos os seus instrumentos dos quais nunca se separava.
Sou eu, respondeu em voz baixa depois de ter aberto a maleta, remexido em papéis e pigarreado com ar composto e distanciado. Era Cristofano, um senhor gorducho e de baixa estatura, de aspecto bastante cuidado e olhar jucundo que inspirava boa disposição. Nessa noite, o seu rosto pálido e a pingar um suor que não se preocupava em enxugar, as pupilas concentradas em algo de invisível à sua frente e o rápido afago da barbicha negra no momento em que se mexeu, desmentiam a sua aparente impassibilidade, revelando um estado de altíssima tensão. Gostaria de precisar que, após um primeiro e atento exame ao corpo do senhor Mourai, não tenho a certeza de que se trate de peste, começou Cristofano, enquanto o médico perito pertencente ao Magistrado da Saúde, que com tanta segurança o afirma, na realidade, deteve-se pouco tempo junto do cadáver. Tenho aqui comigo, e mostrou os papéis, as observações que fiz por escrito. Creio que podem servir para se reflectir mais um pouco e adiar esta Vossa apressada deliberação.
No entanto, os homens do Bargello não tinham vontade, nem poder, para estarem com subtilezas. O Magistrado ordenou o encerramento imediato desta estalagem, interrompeu o oficial que parecia ser o chefe, acrescentando que ainda não tinha sido declarada a quarentena, propriamente falando: os dias de clausura seriam apenas vinte e sem evacuação da rua; isto, claro está, se não se verificassem outras mortes ou doenças suspeitas. Uma vez que também ficarei fechado cá dentro e, para me ajudar no diagnóstico, insistiu o senhor Cristofano um pouco alterado, posso pelo menos saber mais alguma coisa acerca das últimas refeições do defunto senhor Mourai, visto que comia sempre sozinho e no seu quarto? Poderia tratar-se de uma simples congestão. A objecção fez com que os homens de armas hesitassem e procurassem o estalajadeiro com o olhar. Mas este nem sequer ouvira o pedido do médico: sentado numa cadeira, prostrado e abandonado ao desconforto, gemia e imprecava, como era seu hábito, contra os infinitos tormentos que a vida lhe infligia. O último deles tinha-se dado apenas uma semana antes, quando numa das paredes da estalagem se abrira uma racha, coisa que acontece frequentemente nas velhas casas de Roma. A fissura não representava qualquer perigo, tinha-nos sido dito; mas fora o suficiente, já então, para deprimir e enfurecer o meu padrão.
A chamada, entretanto, prosseguia. As sombras da noite avançavam e a patrulha tinha decidido não colocar mais entraves ao encerramento. Domenico Stilone Priàso, de Nápoles! Angiolo Brenozzi, de Veneza! Os dois jovens, poeta o primeiro, vidreiro o segundo, avançaram olhando um para o outro, aliviados por terem sido chamados ao mesmo tempo, como se isso diminuísse os seus receios. Brenozzi, o vidreiro, de olhar amedrontado, com os seus caracóis castanhos a luzir e de nariz empinado e saliente no meio das faces rosadas lembrava um Cristo de porcelana. Só era pena que, como habitualmente, descarregasse a sua tensão de maneira obscena coçando com dois dedos o aipo que trazia entre pernas, quase como se tocasse num instrumento de uma corda só. Era um vício que saltava mais a meus olhos que a qualquer outra pessoa». In Monaldi & Sorti, 2002, Editorial Presença, 2004, ISBN 972-233-286-4.

Cortesia de EPresença/JDACT

terça-feira, 28 de abril de 2020

Imprimatur. O Segredo do Papa. Monaldi & Sorti. «Abade Melani, de Pistoia!, chamou o oficial olhando para o livro de registo dos pensioneiros. Os rendilhados à moda francesa que adornavam o pulso…»

jdact

11 de Setembro de 1683
«Os homens do Bargello (responsáveis pela ordem pública e, por extensão, a sede onde residiam, também equipada com prisão) apresentaram-se ao fim da tarde, no preciso momento em que eu acendia a tocha que iluminava a nossa insígnia. Nas mãos traziam tábuas e martelos; e selos, e correntes, e pregos enormes. À medida que avançavam pela via dell’Orso, vociferavam e gesticulavam imperiosos para dar a entender aos transeuntes e aos grupos de pessoas que desimpedissem a rua. Chegados junto a mim, começaram a esbracejar: todos para dentro, todos para dentro, temos de fechar o estabelecimento!, gritou aquele que dava ordens.

Ainda não tivera tempo para descer do banco a que tinha subido e já umas mãos poderosas me empurravam com brutalidade pela entrada, enquanto outros se postavam de maneira ameaçadora a bloquear a porta. Fiquei atordoado. Despertaram-me bruscamente as pessoas que, ao ouvirem os gritos dos oficiais, se tinham ajuntado à entrada como um relâmpago vindo do nada. Eram os pensioneiros da nossa estalagem, conhecida como estalagem do Donzel. Eram apenas nove e estavam todos presentes: esperavam que fosse servido o jantar e, como todas as noites, passeavam no rés-do-chão entre as otomanas do átrio e as mesas das duas salas de refeição contíguas, fingindo-se absorvidos por uma coisa e outra; mas, na realidade, todos gravitam em redor do jovem pensioneiro francês, o músico Roberto Devizé, que com grande habilidade se exercitava à guitarra.
Deixai-me sair! Ah, como ousais? Tirai as mãos de cima de mim! Não posso cá ficar! Estou de excelente saúde, percebestes! De excelente saúde! Deixai-me passar, já vos disse! Quem assim gritava (consegui entrevê-lo por detrás da floresta de lanças com que os homens de armas o vigiavam) era o padre Robleda: o jesuíta espanhol, nosso pensioneiro, que, tomado pelo pânico, começara a bradar ficando com a respiração curta e o pescoço vermelho e inchado. A cena fez-me recordar os gritos dos porcos quando ficam pendurados de cabeça para baixo e são mortos. A barulheira reboava pela rua e, parecia-me, até à praceta, que espontaneamente se tinha esvaziado num abrir e fechar de olhos. Do outro lado da estrada entrevi o peixeiro e os dois criados da vizinha estalagem do Urso que observavam a cena.
Vão fechar-nos, gritei-lhes tentando fazer-me ver, mas os três ficaram impassíveis. Um vinagreiro, um vendedor de neve e um pequeno grupo de rapazitos, cujos gritos animavam a rua até há alguns momentos, esconderam-se amedrontados ao dobrar da esquina. Entretanto, o meu patrão, o senhor Pellegrino de Grandis, dispôs uma banca no limiar da estalagem. Um oficial do Bargello colocou em cima da banca o livro de registo dos pensioneiros, que tinha acabado de exigir, e deu início à chamada. Padre Juan de Robleda, de Granada.
Como nunca tinha assistido a um fecho de estabelecimento por quarentena, e como nunca ninguém me tinha falado a tal respeito, pensei de início que nos quisessem prender. Isto está a ficar feio, isto está ficar feio, sibilou Breoozzi, o veneziano. Apareça, padre Robleda!, gritou impaciente o oficial que fazia a chamada. O jesuíta, estatelado no chão após lutar em vão com os homens armados, levantou-se e depois de ter verificado que todas as saídas estavam bloqueadas por lanças, respondeu à chamada erguendo a mão peluda. Foi de imediato empurrado para junto de mim. Era o padre Robleda. Viera de Espanha há alguns dias e, por causa dos acontecimentos, desde manhã que vinha submetendo a dura prova os nossos ouvidos com os seus gritos de medo.
Abade Melani, de Pistoia!, chamou o oficial olhando para o livro de registo dos pensioneiros. Os rendilhados à moda francesa que adornavam o pulso do nosso pensioneiro mais recente, chegado ao amanhecer, fenderam a sombra. Ergueu a mão diligentemente ao ouvir o seu nome, e os seus pequenos olhos triangulares brilharam como estiletes saindo da sombra. O jesuíta não mexeu um músculo para se afastar quando Melani, num andamento solene, tranquilo e silencioso, se juntou a nós. Tinham sido precisamente os gritos do abade, nessa manhã, a dar o alarme». In Monaldi & Sorti, 2002, Editorial Presença, 2004, ISBN 972-233-286-4.

Cortesia de EPresença/JDACT

sábado, 21 de dezembro de 2019

O Quarto da Rainha. Segredo de Estado. Juliette Benzoni. «As duas crianças, unidas por uma profunda ternura e por uma confiança total, sempre se entendiam às mil maravilhas, enquanto, que tinham relações muito mais distantes, até protocolares, com o irmão mais velho, Luis XV…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A menina de pés descalços, o sinete de cera vermelha. 1626
«(…) Era exactamente o que François sentia mas, nem por um momento, pensou em dissimular: é verdade, senhora. Vedes algum inconveniente? Talvez. Dizei-me, primeiro, por que pretendeis lá ir. Será por causa daquela rapariga? Ontem reparei que ela vos tinha sorrido e que lhe havíeis respondido. Já vos encontrastes com ela? Nunca. Foi por isso que tive vontade de voltar a vê-la. Não achais que ela é bem bonita? Decerto, decerto, mas vós sois muito novo para vos interessardes pelas raparigas. Ademais não tenho a certeza de que sereis bem acolhido por lá. Os Séguier não são nossos amigos. Contudo, não compareceram ontem à missa? Tratava-se de prestar homenagem ao defunto rei, vosso antepassado. Além disso, as terras deles dependem do nosso principado de Anet: isso acarreta obrigações, mas não significa que esses novos nobres estejam dispostos a jurar-nos fidelidade. Aliás, o vosso pai não o desejaria: como muitos desses senhores do Parlamento, os Séguier pretendem-se próximos do senhor Cardeal e proclamam bem alto quanto se sentem ligados ao rei Luís. E nós? Não nos encontramos ligados ao Rei? Trata-se do Rei. Devemos-lhe amor e obediência. O mesmo não poderá esperar o bispo de Luçon. Satisfazei-me, François, e tratai de esquecer que uma rapariguinha vos sorriu... A criança inclinou a cabeça.
Esforçar-me-ei pelo amor que vos dedico, senhora, murmurou, sem conseguir suster um enorme suspiro que trouxe um sorriso ao rosto um pouco severo da duquesa. François, gosto da vossa franqueza e obediência. Vinde abraçar-me! Era um raro favor, desde que o jovem tinha sido confiado às mãos dos homens. Apreciou o seu devido valor e ficou um pouco consolado pelo sacrifício que fizera, mas quando alguém se passeia pelo nosso espírito é difícil expulsá-lo de lá. Sob os tectos dourados do hotel Vendôme, em Paris, François não conseguiu esquecer-se de Louise e quando a duquesa, as suas crianças e todo o casario foram, no fim de Maio, apanhar os ares do estio nas margens do Eure, fugindo dos maus cheiros parisienses, o apaixonado de dez anos não pôde impedir-se de sentir uma alegria inabitual. Com um pouco de sorte ia poder voltar a vê-la!
Contudo, se pensava que o seu segredo estava escondido entre ele e a mãe, François enganava-se. A sua irmã Elisabeth, dois anos mais velha que ele, apercebera-se de algo. Bruscos devaneios, rubores fugazes, eram manifestações até aí desconhecidas num rapaz turbulento, irrequieto, apaixonado por cavalos, por armas, independente e dotado de uma vitalidade que as governantas e os preceptores consideravam unanimemente desgastante tudo isso dera-lhe muito que pensar durante os meses de Inverno. Porém, guardara para si as suas impressões e foi apenas ao descer da carruagem no pátio principal do castelo que, deixando o irmão mais velho, Louis de Mercceur (na alta nobreza, o filho mais velho tem sempre um nome diferente até à morte do pai; Fronsac para os Richelieu, Crussol para os Uzès, Mercoeur para os Vendôme, etc.), de catorze anos, acompanhar a mãe até ao interior, ela puxou François à parte, pretextando ir ao encontro dos cisnes nas pequenas lagoas do jardim. Na realidade foram dar um passeio ao longo do canal de carpas. Em silêncio, de começo, o que o rapaz não suportou muito tempo. Se tens algo a dizer-me, di-lo já!, resmungou, empregando a fórmula da segunda pessoa do singular, da qual se serviam quando estavam a sós. Terei feito alguma asneira? Não, mas tens muita vontade de fazer uma. Senti-o há pouco, quando Mme. de Bure falou das damas de Sorel. A nossa mãe mandou-a logo calar-se, mas tu ficaste todo corado e exalaste um suspiro capaz de voltar uma carruagem. Estás a morrer para voltar a ver essa Louise, não estás?
As duas crianças, unidas por uma profunda ternura e por uma confiança total, sempre se entendiam às mil maravilhas, enquanto, que tinham relações muito mais distantes, até protocolares, com o irmão mais velho, Luis XV, ele era o herdeiro, por isso respeitavam-no, mas não gostavam nada dele. François nem sequer tentou negar. É verdade, mas fiz uma promessa à mãe. E lamentas? François desviou a cabeça, baixou-se, e pegou numa pedra que atirou, com um gesto vivo e seguro, fazendo-a ricochetear, por três vezes, na superfície lisa do canal. Por fim fungou e, sabendo que Elisabeth não se satisfaria com uma meia resposta, disse: hum..., sim!... Enquanto estivemos em Paris era fácil. Aqui é outra coisa. Já estava à espera disso. Que vais fazer? Fazes perguntas estúpidas, irmã: não se volta atrás com a palavra dada! Continuo de acordo. Só que..., eu não prometi nada». In Juliette Benzoni, O Quarto da Rainha, Segredo de Estado, 1997, Bertrand Editora, 2000, 2009, ISBN 972-251-097-5, ISBN 978-972-251-821-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

segunda-feira, 29 de julho de 2019

O Quarto da Rainha. Segredo de Estado. Juliette Benzoni. «Já não conseguia encontrar as palavras. O escudeiro veio em seu auxílio: e se fôsseis falar à senhora duquesa? Ela espera-vos nos seus aposentos. A minha mãe?»

Cortesia de wikipedia e jdact

A menina de pés descalços, o sinete de cera vermelha. 1626
«(…) Um belo sorriso esparso, que ele lhe devolveu como pôde, mas que não escapara a dele! A madame Vendôme, de muito mau humor, nesse dia em que desempenhava o papel de chefe de família numa cerimónia que não lhe agradava. Efectivamente, o seu esposo, o duque César, encontrava-se retido no governo da Bretanha, onde se atarefava em criar dificuldades ao homem que mais detestava no mundo: o cardeal Richelieu, ministro do rei Luís XIII. Todavia, durante o regresso, ela nada disse. Quando, após uma noite agitada, François desceu às cavalariças nas primeiras horas da alvorada, teve, no entanto, a surpresa de encontrar o escudeiro de sua mãe, o cavaleiro de Raguenel, que não parava de andar de um lado para o outro no meio das idas e voltas dos moços de estrebaria e dos aguadeiros. François fez de conta que não o vira, mas o empregado  veio ter com ele na altura em que chegava aos portões. Ora bem, meu senhor François, onde pretendeis dirigir-vos a estas horas tão matinais? Dar um último passeio.
Perceval Raguenel era um homem cortês, amável; contudo, François achou-o francamente antipático quando ele lhe perguntou: e para onde contais ir, por favor? Acaso ignorais que temos de regressar a Paris daqui a pouco? O que vos deixa sem tempo disponível. A não ser que tenhais apenas a intenção de dar a volta ao parque... François ficou todo corado: quer dizer, eu...
Já não conseguia encontrar as palavras. O escudeiro veio em seu auxílio: e se fôsseis falar à senhora duquesa? Ela espera-vos nos seus aposentos. A minha mãe? Mas, porquê? Penso que vos dirá. Despachai-vos! Dentro de dez minutos ela irá à capela ler o livro de orações. Como não descortinava maneira de agir de outro modo, François desatou a correr e, alguns momentos mais tarde, uma camareira introduzia-o no quarto onde Françoise Vendôme acabava de se pentear. Era o antigo quarto de Diane Poitiers, uma divisão sumptuosa, mas não muito mais do que o eram as outras vinte e duas daquele castelo quase real. As paredes e o tecto estavam pintados de cores vivas, realçadas a ouro; vários tapetes cobriam o soalho precioso e tapeçarias magníficas aqueciam quase tanto a atmosfera quanto o fogo que ardia na grande chaminé de mármore multicolor. Nessa manhã de Março, o dia passava através das travessas da janela onde se encastoavam vitrais pintados em camafeu cinzento que, podendo dar a ilusão de um relevo e representando cenas do Antigo Testamento, não deixavam filtrar nenhuma luz; no entanto, o fogo e as altas velas de cera branca encarregavam-se disso.
Logo que transpôs a entrada, o jovem fez uma saudação, avançando, em seguida, para a sua mãe, no meio do bailado das acompanhantes que o olhavam sorrindo. Quanto a madame Vendôme, ela não sorria. Ah! Eis-vos aqui! Julie, parece-me que isto está bem, acrescentou, dirigindo-se à sua cabeleireira. Agora deixem-me e ide-vos todas embora. Depois, quando a última aia transpôs a porta: pois bem, onde contáveis ir a estas horas da manhã? Dar um último passeio, senhora, visto que dentro em breve regressaremos a Paris. E para que bandas? Seria para o lado de Sorel? O pequeno príncipe corou sem ousar responder, considerando a mãe com certa apreensão. Na realidade, apesar do cuidadoso amor que lhes dispensava, sem o mostrar excessivamente, Françoise Lorraine-Mercceur, duquesa de Vendôme pelo seu casamento, possuía o dom de impressionar as suas três crianças bem mais que o pai delas, o duque César, cujo carácter jovial e inclinação pelas brincadeiras frequentemente jocosas e cuja despreocupação recordavam muitas vezes as suas origens da região de Béarn (é uma região que corresponde à parte oriental do departamento dos Pirenéus-Atlânticos Unida ao condado de Foix (1290), no século XV passa com este para a casa de Navarra; o futuro rei Henrique IV, rei de Navarra em 1572, foi o último conde de Béarn; Luís XIII anexá-la à Coroa em 1620), faziam dele um interlocutor menos imponente. Isso era devido ao facto de ela se considerar, sobretudo, como serviçal do Senhor, tendo sido educada pela mãe segundo princípios cristãos de grande rigidez que lhe permitiam ostentar uma certa simplicidade no meio do fausto em que a colocavam a sua linhagem, a grande fortuna de que dispunha fora um dos mais belos partidos da Europa e o amor que dedicava a um esposo cujos gostos eram opostos aos seus, salvo no que dizia respeito ao esplendor e ao poder da casa.
César, que era antes de tudo um homem de armas, gostava de despender vastas somas e de levar uma bela vida, enquanto Françoise, afilhada do falecido bispo de Génova, François Sale, amiga de Jeanne de Chantal e dessa prodigiosa personagem a quem chamavam o senhor Vincent, interessava-se, sobretudo, pela salvação eterna dos seus e pela prática de uma caridade que se estendia até bem longe até às prostitutas parisienses das margens do Sena e às do bordel, obrigatoriamente tolerado devido à presença de soldados em Anet. Deste modo, quando uma das crianças devia responder por algum disparate cometido, tinha sempre a vaga impressão de comparecer perante o tribunal do próprio Deus». In Juliette Benzoni, O Quarto da Rainha, Segredo de Estado, 1997, Bertrand Editora, 2000, 2009, ISBN 972-251-097-5, ISBN 978-972-251-821-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

domingo, 21 de julho de 2019

O Quarto da Rainha. Segredo de Estado. Juliette Benzoni. «Dar um último passeio, senhora, visto que dentro em breve regressaremos a Paris. E para que bandas? Seria para o lado de Sorel?»

Cortesia de wikipedia e jdact

A menina de pés descalços, o sinete de cera vermelha. 1626
«(…) Um belo sorriso esparso, que ele lhe devolveu como pôde, mas que não escapara a dele! A Mme. de Vendôme, de muito mau humor, nesse dia em que desempenhava o papel de chefe de família numa cerimónia que não lhe agradava. Efectivamente, o seu esposo, o duque César, encontrava-se retido no governo da Bretanha, onde se atarefava em criar dificuldades ao homem que mais detestava no mundo: o cardeal Richelieu, ministro do rei Luís XIII. Todavia, durante o regresso, ela nada disse. Quando, após uma noite agitada, François desceu às cavalariças nas primeiras horas da alvorada, teve, no entanto, a surpresa de encontrar o escudeiro de sua mãe, o cavaleiro de Raguenel, que não parava de andar de um lado para o outro no meio das idas e voltas dos moços de estrebaria e dos aguadeiros. François fez de conta que não o vira, mas o empregado veio ter com ele na altura em que chegava aos portões. Ora bem, meu senhor François, onde pretendeis dirigir-vos a estas horas tão matinais? Dar um último passeio. Perceval Raguenel era um homem cortês, amável; contudo, François achou-o francamente antipático quando ele lhe perguntou: e para onde contais ir, por favor? Acaso ignorais que temos de regressar a Paris daqui a pouco? O que vos deixa sem tempo disponível. A não ser que tenhais apenas a intenção de dar a volta ao parque... François ficou todo corado: quer dizer, eu... Já não conseguia encontrar as palavras. O escudeiro veio em seu auxílio: e se fôsseis falar à senhora duquesa? Ela espera-vos nos seus aposentos. A minha mãe? Mas, porquê? Penso que vos dirá. Despachai-vos! Dentro de dez minutos ela irá à capela ler o livro de orações.
Como não descortinava maneira de agir de outro modo, François desatou a correr e, alguns momentos mais tarde, uma camareira introduzia-o no quarto onde Françoise Vendôme acabava de se pentear. Era o antigo quarto de Diane Poitiers, uma divisão sumptuosa, mas não muito mais do que o eram as outras vinte e duas daquele castelo quase real. As paredes e o tecto estavam pintados de cores vivas, realçadas a ouro; vários tapetes cobriam o soalho precioso e tapeçarias magníficas aqueciam quase tanto a atmosfera quanto o fogo que ardia na grande chaminé de mármore multicolor. Nessa manhã de Março, o dia passava através das travessas da janela onde se encastoavam vitrais pintados em camafeu cinzento que, podendo dar a ilusão de um relevo e representando cenas do Antigo Testamento, não deixavam filtrar nenhuma luz; no entanto, o fogo e as altas velas de cera branca encarregavam-se disso.
Logo que transpôs a entrada, o jovem fez uma saudação, avançando, em seguida, para sua mãe, no meio do bailado das acompanhantes que o olhavam sorrindo. Quanto a Mme. Vendôme, ela não sorria. Ah! Eis-vos aqui! Julie, parece-me que isto está bem, acrescentou, dirigindo-se à sua cabeleireira. Agora deixem-me e ide-vos todas embora. Depois, quando a última aia transpôs a porta: pois bem, onde contáveis ir a estas horas da manhã? Dar um último passeio, senhora, visto que dentro em breve regressaremos a Paris. E para que bandas? Seria para o lado de Sorel? O pequeno príncipe corou sem ousar responder, considerando a mãe com certa apreensão. Na realidade, apesar do cuidadoso amor que lhes dispensava, sem o mostrar excessivamente, Françoise Lorraine-Mercceur, duquesa de Vendôme pelo seu casamento, possuía o dom de impressionar as suas três crianças bem mais que o pai delas, o duque César, cujo carácter jovial e inclinação pelas brincadeiras frequentemente jocosas e cuja despreocupação recordavam muitas vezes as suas origens da região de Béarn (é uma região que corresponde à parte oriental do departamento dos Pirenéus-Atlânticos Unida ao condado de Foix (1290), no século XV passa com este para a casa de Navarra. O futuro rei Henrique IV, rei de Navarra em 1572, foi o último conde de Béarn; Luís XIII anexá-la à Coroa em 1620), faziam dele um interlocutor menos imponente». In Juliette Benzoni, O Quarto da Rainha, Segredo de Estado, 1997, Bertrand Editora, 2000, 2009, ISBN 972-251-097-5, ISBN 978-972-251-821-5.

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