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quinta-feira, 22 de agosto de 2019

O Padre Negro. Edgar Wallace. «Nunca mostrara a sua aversão por aquele advogado embonecado. Eu sei, disse ela. Ele às vezes também me exaspera…»

Cortesia de wukipedia e jdact

«(…) Fossaway Manor, corrigiu ele. Não fuja do assunto. Fale. Estou contando os dias, disse ele. Sim. Ele retirou uma cigarreira de prata do bolso, escolheu um cigarro e acendeu-o. Querida Leslie..., começou ele, mas ela abanou a cabeça. Estava muito séria agora. Pensa que vou interferir..., nas coisas? Na administração da propriedade? Eu sei que o pobre Harry não conseguiria gerir nem uma fazenda pequena, mas acho que está enganado. Ele soprou a fumaça para o ar antes de responder. Quem me dera que administrasse a propriedade, disse calmamente. Para mim seria uma bênção. Não, não estou preocupado com isso. Com o seu dinheiro, desculpa a brutalidade, a propriedade não conta. Um capataz poderá tratar disso tão bem como um segundo filho.

Ele falou sem acidez, sem ponta de autocomiseração, e ela manteve-se silenciosa. Ele era filho de um segundo casamento, e isso tornava as coisas piores. Quando o velho lorde Chelford seguira a mãe de Dick para o túmulo, o que dizia respeito ao segundo filho ficara para ele. A propriedade, o título, o carro que utilizava como sendo seu, tudo lhe fora retirado. Uma pequena propriedade em Hertfordshire que lhe dava duzentas libras por ano, algumas jóias da sua mãe e mil libras tinham-lhe calhado por ser o segundo filho. Mas as mil libras nunca as recebera. De uma forma estranha, tinham sido engolidas. Mr. Arthur Gine tratava da propriedade. De qualquer maneira, Dick sentia-se melhor quando não pensava nas mil libras. Contudo, por qualquer razão, pensava nelas naquele momento, e, como se ela lesse os seus pensamentos e avaliasse a reserva dele em relação ao seu irmão, perguntou: não gostas de Arthur, não é? Por que pergunta isso?, disse ele com genuína surpresa. Nunca mostrara a sua aversão por aquele advogado embonecado. Eu sei, disse ela. Ele às vezes também me exaspera e compreendo que um homem como você o deteste.
Dick sorriu. De qualquer modo, Harry não o detesta e é ele quem conta. Ela olhou para ele. Nem me parece verdade que vou casar, foi um pedido tão engraçado. Harry foi tão educado, tão formal, tão irreal. Acho que se houvesse sido feito de outra maneira... Ela abanou a cabeça. Dick pensou como é que o irmão a teria pedido em casamento: Harry era de certa forma um novato no jogo do amor; tivera em tempos uma bela secretária e numa tarde quente de Junho, Dick interrompera o que fora uma proposta da empreendedora jovem. E o perturbado Harry teria concordado com as sugestões matrimoniais dela, só que Dick interferira e a calculista miss Wenner deixara Fossaway Manor apressadamente. Ele lembrava-se disto. Suponho que se ele te tivesse pedido de uma forma convencional tu não o terias aceitado? Não sei, disse ela com ar de dúvida. Mas foi estranho. Gosto muito do Harry. Às vezes pergunto-me se ele gostaria de mim se eu..., não acabou a frase. Se não fosses tão terrivelmente rica? Dick sorriu. Não estás a fazer uma grande ideia dele. Ela estendeu-lhe as mãos, e ele ergueu-a; embora não houvesse necessidade, já que ela era habitualmente uma jovem muito ágil. Dick, disse ela enquanto caminhavam lado a lado em direcção à estrada, que faço?
Em relação a quê?, perguntou ele. Em relação ao Harry e a tudo. Ele não respondeu. Arthur está muito empenhado em que eu case, disse ela. E eu não sou contra, pelo menos acho que não. Suponho que a maioria das moças da minha posição arranjam os seus casamentos da mesma forma do que o meu, e até há pouco tempo aceitei esta ideia como inevitável. E porque mudou agora de ideias?, perguntou ele directamente, e viu-a corar. Não sei. A resposta dela foi curta, quase brusca. E então ela reparou no olhar dele, reparou no desespero daquele olhar. E de repente a verdade surgiu-lhe. Por qualquer razão que não soube explicar, ficou de repente sem fôlego e com dificuldade em falar. Parecia-lhe que o bater do seu coração era audível e tentou desesperadamente readquirir o controle. Aos seus olhos apareceu a imagem nítida do noivo, o jovem magro e irritável. Uma criatura de nervos à flor da pele, que ora pedia, ora ordenava, sem se importar com a impressão causada na mulher com quem iria partilhar a vida. E desta imagem mental os seus olhos passaram mecanicamente para o homem que tinha ao lado: calmo, sereno, irradiando força e segurança». In Edgar Wallace, O Padre Negro, 1926/1927, Publicações Europa-América, 1985, ISBN 978-972-101-690-3.

Cortesia PEAmérica/JDACT

terça-feira, 20 de agosto de 2019

O Padre Negro. Edgar Wallace. «Ela acenou com a cabeça. Só por isso devias ir à procura dele. Vai, eu espero aqui, disse sentando-se e, quando ele se levantou, acrescentou num resmungo…»

Cortesia de wukipedia e jdact

«(…) Chelfordbury, uma aldeia adormecida do Sussex, está envolvida no desporto emocionante da caça ao fantasma. O Padre Negro de Fossaway, depois de um período de calma, voltou a aparecer. A lenda conta que há setecentos anos Hubert de Redruth, pároco de Chelfordbury; foi assassinado por ordem do 2º conde de Chelford. Desde então, de-quando-em vez, o seu fantasma tem sido visto. Durante os últimos anos têm corrido histórias horríveis de um ser invisível que emite gritos demoníacos, mas o fantasma nunca fora visto até à semana passada. Fossaway Manor tem outras histórias além de fantasmas. Há quatrocentos anos um grande tesouro de ouro foi, de acordo com a lenda, escondido em algum lugar na propriedade; até hoje ainda não foi descoberto, embora os sucessivos condes de Chelford tenham procurado diligentemente o tesouro ancestral. O actual conde de Chelford, que por acaso está noivo de miss Leslie Gine, a única irmã de mr. Arthur Gine, o tabelião local, informou o nosso representante de não ter dúvidas de que a aparição do Padre Negro era uma brincadeira de mau gosto da autoria de algum jovem das redondezas. Harry fez menção de rasgar o papel, mas pensou melhor e colocou o recorte debaixo do pisa-papéis. Aquela referência aos brincalhões da aldeia era reconfortante, principalmente quando se aproximava o cair da noite e ele necessitava de encorajamento. E isto porque lorde Chelford acreditava no Padre Negro tão religiosamente quanto proclamava o seu cepticismo. A sua mão inquieta dirigiu-se para a campainha. Mr. Richard já voltou? Não, milorde. Lorde Chelford bateu na mesa com a palma da mão. Onde raios vai ele de manhã?, perguntou, irritado. Thomas, muito prudentemente, fingiu não ouvir.

Dick Alford estava sentado no alto de um pequeno morro e avistava os campos de Sussex, por muitas milhas. Se virasse a cabeça poderia avistar toda a propriedade e os telhados verdes e as cúpulas de Fossaway Manor, com os seus relvados extensos e sebes bem cortadas. Nem os campos nem a casa o atraiam naquele momento. Os seus olhos e a sua atenção estavam centrados na moça que caminhava rapidamente pelo caminho que conduzia ao local onde ele se encontrava sentado. Tom, o espião!, disse ela com ar de reprovação. Ela não era tão alta como a média das moças inglesas, mas a magreza dava-lhe altura e os seus movimentos suaves davam-lhe mais força do que a sua figura frágil sugeria. O rosto delicadamente modelado tinha o requinte subtil da classe. Pequena, de mãos e pés delicados, uma cabeça esguia, olhos de um cinzento profundo e uma boca vermelha que sorria facilmente, Leslie Gine mesmo mal vestida seria sem dúvida uma bela mulher. Ali estava ela agora em pé, com o pequeno chapéu de montar caído nas costas, vestindo uma roupa preta  e uma camisa branca. Dick Alford, sentado no alto da colina, mastigava um pedaço de erva entre os dentes enquanto a observava com ar de aprovação. Tens andado a montar, Leslie? Sim, disse ela gravemente, e acrescentou: um cavalo. Ele olhou à volta inocentemente. E onde está o feliz animal?, perguntou. Ela olhou-o desconfiada, mas nem um músculo do rosto queimado se mexeu. Desmontei para apanhar flores silvestres e o animal fugiu. V o viu, acusou ela. Vi qualquer coisa que se parecia com um cavalo em direcção a Willow House, admitiu. Até julguei que te tivesse derrubado.
Ela acenou com a cabeça. Só por isso devias ir à procura dele. Vai, eu espero aqui, disse sentando-se e, quando ele se levantou, acrescentou num resmungo: de qualquer maneira, já tencionava pedir-te. Quando te vi, pensei: ali está um preguiçoso a precisar de exercício! As futuras cunhadas têm os seus privilégios. Ele fez uma careta ao ouvir aquelas palavras. Ela deve ter reparado na tristeza do seu rosto, pois colocou-lhe a mão no braço e disse: um dos empregados pode ir atrás dele, Dick. Ele é um porco tão faminto que já deve ir a caminho dos estábulos. Não, não estou a referir-me ao empregado. Sente-se, quero falar-lhe. Ela subiu o pequeno morro e sentou-se no local onde ele estivera. Richard Alford, não me parece que esteja satisfeito com a perspectiva de eu vir a ser a senhora de Fossaway House». In Edgar Wallace, O Padre Negro, 1926/1927, Publicações Europa-América, 1985, ISBN 978-972-101-690-3.

Cortesia PEAmérica/JDACT

O Padre Negro. Edgar Wallace. «Acenou ao homem para que desaparecesse e pôs-se a estudar o livro escrito a negro que chegara da Alemanha naquela manhã…»

Cortesia de wukipedia e jdact

«Thomas! Sim, milorde. Thomas, o criado, aguardou com ar de interesse enquanto o homem pálido que se encontrava atrás da grande secretária da biblioteca retirou um pequeno maço de notas de banco. A caixa de aço de onde saíram estava cheia de diversas notas de banco numa terrível confusão. Thomas, disse com ar ausente. Sim, milorde. Põe este dinheiro naquele envelope, esse não, pateta, no cinzento. Está endereçado? Sim, milorde. Cherr Lubitz, Frankforterstrasse, 35, Leipzig. Fecha-o, vai aos correios e regista-o. Mr. Richard está no gabinete? Não, milorde, saiu há uma hora. Harry Alford, o 18º conde de Chelford, suspirou. Estava já avançado na casa dos trinta anos, tinha o rosto esguio e pálido de estudante, o cabelo negro realçava mais a palidez da pele. A biblioteca onde trabalhava ficava num compartimento de tecto alto, cujas paredes estavam divididas por um corredor largo aonde se chegava através de uma escada circular metálica. Desde o tecto até ao chão, as paredes estavam completamente cobertas de prateleiras, apenas com uma excepção. Por cima da enorme lareira havia um quadro grande representando uma bela mulher. Ninguém que conhecesse o conde poderia se enganar quanto à relação existente entre ele e aquela beleza de olhos selvagens. Era a mãe dele; tinha as mesmas feições delicadas, o mesmo cabelo escuro, asa de corvo, olhos insondáveis. Lady Chelford fora a mais famosa debutante da sua época e o seu fim trágico tinha sido a sensação do começo do século XX. Não havia qualquer outro retrato seu na sala. Os olhos dele pousaram no quadro. Para Harry Alford, Fossaway Manor, apesar de toda a sua beleza e encanto, não era cofre suficientemente bom para tal jóia.
O criado, de sóbrio terno preto e cabelos já brancos, inclinou-se. Mais nada, milorde? Mais nada, respondeu o conde gravemente. No entanto, quando o homem se dirigia sem ruído para a porta... Thomas! Ouvi-o falar num acidente quando passou sob a minha janela com Filling, esta manhã?... Ele estava falando sobre o Padre Negro, milorde. O rosto pálido contraiu-se numa careta. Mesmo à luz do dia, com os raios de Sol passando pelas janelas e se reflectindo em arabescos púrpura, azuis e ametista, a simples menção ao Padre Negro punha-lhe o coração aos saltos. Qualquer homem ao meu serviço que fale sobre o Padre Negro será imediatamente despedido. Diz isso aos teus colegas, Thomas. Um fantasma? Meu Deus! Estão todos doidos? O seu rosto estava agora congestionado, pequenas veias sobressaíam-lhe nas têmporas e, sob a onda de cólera, os seus olhos negros pareciam desaparecer no rosto. Nem uma palavra, entendeu? É mentira! Uma mentira desprezível para dizer que Fossaway está assombrada. É uma brincadeira. E chega!
Acenou ao homem para que desaparecesse e pôs-se a estudar o livro escrito a negro que chegara da Alemanha naquela manhã. Uma vez fora da sala, Thomas pôde arriscar-se a fazer uma careta. Foi só durante alguns segundos e depois retomou a seriedade. Devia haver quase mil libras naquela caixa, e Thomas uma vez cumprira uma pena de dez anos por um décimo daquela soma. Até mr. Richard Alford, que sabia a maior parte das coisas, desconhecia este interessante facto. Thomas tinha uma carta para escrever, pois mantinha uma lucrativa correspondência com alguém que tinha um interesse especial em Fossaway Manor, mas primeiro deveria relatar a conversa a mr. Glover, o mordomo. Não me interessa o que o conde diz (e porque havia ele de o dizer a um criado e não a mim, não entendo); há um fantasma e já muita gente o viu. Eu não passaria a pé em Elm Drive durante a noite nem por cinquenta milhões de libras.
O homem abanou a cabeça que o tempo já tornara grisalha. E o conde também acredita. Quem me dera que ele tivesse casado. Sempre seria mais sensato. E aí víamo-nos livres de mr. Blooming Alford, hem, mr. Glover. O mordomo fez um ruído com o nariz. Há os que gostam e os que não gostam, disse o mordomo. Nunca trocamos uma palavra azeda. Thomas, estão batendo à porta. Thomas apressou-se a abrir a enorme porta. Havia uma moça à entrada. Era bonita de uma forma ousada, lábios vermelhos, olhos brilhantes e vestia luxuosamente. Thomas reconheceu-a. Bom dia, miss Wenner..., mas que surpresa! O conde está, Thomas? O criado contraiu os lábios em sinal de dúvida: ele está, menina, mas receio não poder levá-la até lá. Não me culpe, são ordens de mr. Alford. Mr. Alford, repetiu ela. Quer dizer que venho de propósito de Londres e não posso ver lorde Chelford? Thomas continuou com a mão na porta. Gostava da moça que, enquanto fora secretária do conde e, nunca se dera ares de grande importância (o pecado imperdoável dos criados de dentro) e sempre tivera um sorriso para o elemento mais insignificante do pessoal. Tê-la-ia deixado entrar e pensava que Sua Senhoria ficaria satisfeito por vê-la, mas no seu espírito apareceu-lhe a imagem de Dick Alford, um homem de poucas falas, que não só era capaz de o pôr na rua, como também de o fazer aos pontapés.
Tenho muita pena, menina, mas, como sabe, ordens são ordens. Percebo, disse ela. Sou posta fora do que poderia ter sido a minha casa, Thomas. Ele tentou mostrar-se compreensivo e conseguiu fazer uma careta de imbecilidade. Ela sorriu-lhe, apertou-lhe graciosamente a mão e afastou- se. Miss Wenner, relatou Thomas, aquela que Alford despediu porque pensou que o conde estava sendo carinhoso demais com ela... A campainha da biblioteca tocou naquele momento e Thomas apressou-se a responder à chamada. - Quem era a senhora que vi pela janela? Miss Wenner, milorde. Uma nuvem passou pelo rosto de Harry Alford. Disse-lhe para entrar? Não, milorde, mr. Alford deu ordens... Sim, claro. Tinha-me esquecido. Talvez tenha razão. Obrigado. Puxou o castiçal para junto dos olhos, pois mesmo durante o dia trabalhava à luz artificial, tal era a escuridão na biblioteca, e continuou a analisar o livro. Contudo, o seu espírito não estava totalmente concentrado no trabalho. Levantou-se e caminhou na biblioteca para cima e para baixo, as mãos cruzadas e o rosto descaído. Deteve-se ante o retrato da sua mãe, suspirou e regressou à mesa. Havia um parágrafo que recortara de um jornal londrino e leu-o pela terceira vez, não muito desagradado pelo facto pouco habitual de se ver o objecto de um comentário de jornal, no entanto irritado pelo assunto que provocara a notícia». In Edgar Wallace, O Padre Negro, 1926/1927, Publicações Europa-América, 1985, ISBN 978-972-101-690-3.

Cortesia PEAmérica/JDACT