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sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Horizonte Perdido. James Hilton. «Em região de tão escassa população era magra a esperança, mas valia a pena tentá-la. O quarto passageiro era uma mulher, miss Brinklow»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Conway, que conhecia um pouco o idioma afegane, arengou com os homens conforme pôde, naquela língua, mas sem resultado. Quanto ao piloto, a única resposta a qualquer pergunta, em qualquer língua, era um significativo aceno com o revólver. O sol do meio-dia, chamejando sobre o tecto da cabina, aquecia o ar inteiro a tal ponto que os ocupantes dela estavam quase a desmaiar, com o calor e o esforço despendido em protestos. Viam-se absolutamente impotentes; era condição da evacuação que viajariam sem armas. Quando afinal os tanques foram fechados, passou-se uma lata de petróleo cheia de água morna por uma das janelas da cabina. Ninguém respondeu a pergunta alguma, ainda que os homens não parecessem pessoalmente hostis. Depois de outra conferência voltou o piloto para o seu posto; desajeitadamente, um dos afeganes pôs a hélice em movimento, e recomeçou o vôo. A partida, naquele espaço confinado e com a carga suplementar de combustível, foi ainda mais magistral do que a aterragem. O avião ergueu-se por entre o nevoeiro, depois voltou-se para o oriente, como a assentar um rumo. Ia em meio a tarde. Que caso extraordinário.

Era para desorientar! Já retemperados pelo ar mais fresco, mal podiam crer os passageiros que tudo aquilo de facto acontecera. Era um ultraje sem precedente e sem igual, mesmo nos anais turbulentos da fronteira. E, se não fossem eles mesmos as vítimas, certo o reputariam incrível. Era a coisa mais natural do mundo que a esse primeiro momento de incredulidade se seguisse uma explosão de indignação e, dissipada esta, uma ansiosa curiosidade. Apresentou Mallinson uma teoria que foi aceita, à falta de outra melhor: tinham-nos raptado para serem postos a resgate. Se o processo não era novo, a técnica não carecia de originalidade. Já era consoladora a ideia de que não tomavam parte num facto inteiramente virgem na história mundial; afinal, já tinha havido muito rapto no mundo e boa parte deles acabara bem. Os homens os reteriam em algum covil das montanhas até que o governo pagasse, e então lhes dariam a liberdade. Seriam tratados com toda a consideração, e, como o dinheiro do resgate não lhes sairia do próprio bolso, aquilo só seria desagradável enquanto estivessem prisioneiros.

Mais tarde, certamente, a Air Force enviaria um avião de bombardeio, e ficava-se com uma boa história para contar durante o resto da vida. Foi Mallinson que, um tantinho nervoso, enunciou esta conclusão. O americano, porém, entendeu de fazer espírito barato: Pois, meus senhores, parece-me que é uma bela ideia, seja lá de quem for, mas não posso dizer que a sua Air Force se cobriu hoje de glória. Vocês, ingleses, fazem chacota dos assaltos de Chicago e outras coisas, mas não me lembra nenhum caso de um bandido ter fugido assim sem saber o que fez este sujeito do verdadeiro piloto. Posto que o derrubou com uma paulada na cabeça. E acabou num bocejo.

Era Barnard um homem alto e corpulento: no rosto duro, os vincos pessimistas não apagavam por completo a expressão de bom humor. Pouco se sabia dele em Baskul; viera da Pérsia, onde, ao parecer, se entregava ao comércio de petróleo. Conway, por seu lado, ocupava-se numa tarefa prática: reunia todos os pedacinhos de papel que seus companheiros traziam e neles escrevia mensagens em várias línguas nativas para, de espaço a espaço, deixar cair uma delas. Em região de tão escassa população era magra a esperança, mas valia a pena tentá-la. O quarto passageiro era uma mulher, miss Brinklow. Toda tesa no assento, com os lábios apertados, poucos comentários emitia e nenhuma queixa. Era de baixa estatura e aparência coriácea. Dir-se-ia, ao observá-la, que assistia constrangida a uma reunião onde sucediam coisas contrárias aos seus princípios. Conway falava menos que os outros dois, pois transmitir mensagens em vários dialetos é um exercício mental que exige concentração. Respondia, ainda assim, às perguntas que lhe dirigiam e concordara, a título de ensaio, com a teoria de rapto apresentada por Mallinson. Aquiescera também, até certo ponto, nas observações de Barnard sobre a Air Force». In James Hilton, Horizonte Perdido, 1986, Publicações Europa-América, 1986, ISBN 978-972-101-163-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

JDACT, James Hilton, Literatura,

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Horizonte Perdido. James Hilton. «O avião se debatia e agitava entre golfadas de ar, tão violentamente como um bote de remo nas ondas encrespadas. Os quatro passageiros mal se podiam manter sentados»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Conway não se inquietou. Estava habituado às viagens aéreas e confiava nos pilotos. Além disto, não tinha motivo algum para desejar chegar depressa a Peshawar. Nada tinha de particular a fazer ali e não se sentia ansioso por ver ninguém. Era-lhe, pois, de todo indiferente que a viagem durasse quatro ou seis horas. Não era casado; não o aguardava uma terna recepção ao desembarcar. Tinha amigos na cidade e provavelmente alguns deles o levariam ao clube, onde beberiam juntos; era uma perspectiva agradável, mas não de molde a causar-lhe grande alvoroço. Também não encarava com saudades a década transcorrida. Fora um período igualmente agradável, ainda que não o tivesse satisfeito inteiramente. Instável, bom por intervalos, tendendo a perturbar-se; tal era o sumário meteorológico daquela época de sua vida, bem como da história mundial. Passaram-lhe pela memória Baskul, Pequim, Macau e outros lugares. A cena mais remota na sua lembrança era Oxford, onde, depois da guerra, passara dois anos fazendo prelecções sobre história oriental, respirando o pó em bibliotecas cheias de sol, descendo a High Street de bicicleta. A visão era atraente, mas não o comovia; parecia-lhe, em certo sentido, que ele era apenas uma parte de todas as coisas que pudera ter sido.

Uma sensação gástrica muito sua conhecida advertiu-o de que o avião começava a descer. Teve a tentação de admoestar Mallinson pelo seu nervosismo, e tê-lo-ia feito sem dúvida se o moço não se houvesse levantado subitamente, batendo com a cabeça no tecto e acordando Barnard, o americano, que estava a cochilar no seu canto, do outro lado do estreito corredor. Meu Deus!, exclamou Mallinson, espiando pela janela. Olhem para baixo! Conway olhou. Não era aquela, certamente, a vista que esperava, se é que esperava alguma coisa. Em vez dos acantonamentos em elegante disposição geométrica e dos rectângulos mais compridos dos hangares, só se avistava um nevoeiro opaco que velava uma imensa desolação. O avião, que ia descendo rapidamente, achava-se ainda a uma altura extraordinária para um voo comum. Avistava-se, cerca de uma milha aquém da névoa mais sombria dos vales, o espinhaço rugoso de uma longa fila de montanhas. Era o cenário típico da fronteira, se bem que Conway jamais o tivesse visto de tamanha altura. Não era, e isto lhe causou estranheza, sítio algum próximo de Peshawar. Não reconheço esta parte do mundo!, observou.

Depois, e mais discretamente, por não querer assustar os outros, acrescentou ao ouvido de Mallinson: Parece que você tinha razão... O homem errou mesmo o caminho! O avião descia com espantosa rapidez e o ar ia ficando cada vez mais quente. Dir-se-ia que a terra adusta que se avistava lá em baixo era um forno, cuja porta se abrira de repente. Acima do horizonte erguiam-se picos de montanhas, um após outro, recortando no ar a silhueta escarpada. Já o voo seguia a curva de um vale, cuja base estava toda semeada de rochedos e vestígios de cursos de água ressequidos; pareciam cascas de nozes espalhadas pelo chão. O avião se debatia e agitava entre golfadas de ar, tão violentamente como um bote de remo nas ondas encrespadas. Os quatro passageiros mal se podiam manter sentados.

Parece que ele vai aterrar!, gritou o americano com voz rouca. Mas não pode!, retorquiu Mallinson. Só se for louco tentará semelhante coisa! Vai despedaçar-se, e então… Mas o piloto aterrou. Abria-se um pequeno espaço livre à beira de um barranco e o aparelho, com muita perícia, depois de alguns baques e solavancos, pousou sereno. O que veio depois, contudo, foi mais espantoso e menos tranquilizador. Apareceram nativos barbudos, de turbante à cabeça, que acorriam de todos os lados cercando o avião e impedindo que alguém saísse dele, a não ser o piloto. Este saltou em terra, mantendo com eles animada palestra, durante a qual se verificou que não somente não era Fenner como até não era inglês, e quiçá nem europeu. Enquanto falavam iam carregando latas de petróleo de um depósito próximo e despejando-as nos tanques, de capacidade excepcional. Os gritos dos quatro passageiros aprisionados eram recebidos com arreganhos de dentes e desdenhoso silêncio. E à mais leve tentativa de desembarque correspondia logo um movimento ameaçador de vinte espingardas». In James Hilton, Horizonte Perdido, 1986, Publicações Europa-América, 1986, ISBN 978-972-101-163-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

 JDACT, Literatura, James Hilton,

Horizonte Perdido. James Hilton. «Meu caro rapaz, como vou saber disso? Não julga certamente que aprendi de cor a fisionomia de todos os tenentes-aviadores da Air Force, não é?»

jdact e cortesia de wikipedia

«Piorara consideravelmente a situação em Baskul naquela terceira semana de Maio, e no dia 20 chegaram de Peshawar aparelhos da Air Force, mediante arranjo feito para evacuar os residentes brancos. Eram estes mais ou menos oitenta e a maior parte foi conduzida sem novidade, atravessando as montanhas em aviões de transporte de tropa. Empregaram-se também nesse mister alguns aparelhos de várias espécies, entre eles um avião de cabina, cedido pelo marajá de Chandapor. E foi nesse avião que embarcaram, pelas dez horas da manhã, quatro passageiros: Miss Roberta Brinklow, da Missão do Oriente; Henry D. Barnard, cidadão americano; Hugh Conway, cônsul de S. M. Britânica; e o capitão Charles Mallinson, vice-cônsul. Estão aí os nomes, conforme apareceram mais tarde nos jornais indianos e ingleses.

Contava Conway trinta e um anos. Havia dois que estava em Baskul, desempenhando uma tarefa que, vista agora à luz dos acontecimentos, poderia ser considerada como a defesa teimosa de uma causa perdida. Encerrava-se ali uma fase da sua vida. Dentro de algumas semanas, talvez uns poucos meses de licença, seria enviado para outra parte. Tóquio ou Teerão, Manilha ou Mascate: na sua profissão nunca se sabe o que vai acontecer. Estava já há dez anos no serviço consular, tempo suficiente para avaliar as suas possibilidades com a mesma agudeza com que observava as aldeias. Sabia que nunca teria muito com que comprar melões; mas já era consolação bastante pensar que não gostava mesmo de melão. E, para usarmos outra imagem botânica, não se tratava de uvas verdes. Preferia as ocupações menos cerimoniosas e mais pitorescas que se lhe ofereciam, e, como nem sempre eram as melhores, muita gente achava que ele fazia mau jogo. Entretanto, e segundo o seu gosto, parecia-lhe que jogara muito bem; tivera um decénio moderadamente agradável.

Era alto, muito bronzeado, cabelos castanhos aparados curtos e olhos de um azul quase negro. Parecia severo e preocupado, enquanto sério; quando ria, o que era raro, tinha aparência de menino. Observava-se-lhe, junto ao olho esquerdo, uma leve contração nervosa que aparecia nitidamente quando trabalhava em excesso ou bebia demais; e, como passara todo o dia e toda a noite que precederam a evacuação a reunir e destruir documentos, era essa contração muito acentuada quando entrou no avião. Achava-se fatigadíssimo e infinitamente satisfeito por ter arranjado as coisas de sorte a viajar no luxuoso aparelho do marajá, em vez de ir num dos apinhados aeroplanos da tropa. Refestelou-se gostosamente no confortável assento de vime quando o avião se elevou nos ares. Era daquela espécie de homens que, estando habituados aos trabalhos mais duros, esperam ter em recompensa os pequenos confortos da vida. Podia suportar alegremente os rigores da estrada de Samarcande, mas, para viajar de Londres a Paris, gastaria a última nota de dez libras tomando uma passagem no Seta de Ouro.

Já fazia mais de uma hora que estavam voando quando Mallinson, que ia sentado logo à frente de Conway, observou que, a seu ver, o piloto não seguia o caminho direito. Era Mallinson um moço de vinte e poucos anos, corado, inteligente sem ser intelectual, encerrado nas limitações do ensino público, cujas vantagens também soubera aproveitar. A reprovação num exame era a causa principal de ter sido mandado para Baskul, onde estivera seis meses em companhia de Conway, que já começava a gostar dele. Mas Conway não queria fazer o esforço que exige uma conversação em aeroplano. Abriu os olhos sonolentos e replicou que, fosse qual fosse o caminho tomado, era de supor que o piloto o conhecesse melhor do que eles.

Dali a meia hora, rendido pelo cansaço e embalado pelo zumbido do motor, ia já a adormecer quando Mallinson tornou a perturbá-lo: Escute, Conway, pensei que era Fenner quem nos levava! E então, não é ele? O sujeito voltou a cabeça agora mesmo, e sou capaz de jurar que não é ele. É difícil de dizer, através daquele vidro. Eu conheceria o rosto de Fenner em qualquer parte. Pois bem, se não é ele é algum outro. Não tem importância. Mas é que Fenner me disse positivamente que iria conduzir este aparelho. Sem dúvida mudaram de ideia e deram-lhe um dos outros. Bem, neste caso, quem é aquele homem? Meu caro rapaz, como vou saber disso? Não julga certamente que aprendi de cor a fisionomia de todos os tenentes-aviadores da Air Force, não é? Pois eu conheço muitos, e não me lembro daquele sujeito. Deve pertencer então à minoria que você não conhece, replicou Conway, sorrindo. E acrescentou: Quando chegarmos a Peshawar, daqui a pouco, poderá travar conhecimento com ele e indagar tudo quanto quiser. Neste andar não chegaremos nunca a Peshawar. O homem está completamente fora de rumo. E não me admira… Voando a tamanha altura ele não pode ver onde está». In James Hilton, Horizonte Perdido, 1986, Publicações Europa-América, 1986, ISBN 978-972-101-163-2.

 Cortesia de PEAmérica/JDACT

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