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domingo, 19 de março de 2017

Neve. Nobel da Literatura. Orhan Pamuk. «Uns poucos mostraram-se muito amistosos, talvez porque pensassem que Ka e Serdar bei eram candidatos e estavam trazendo-lhes latas de óleo de girassol…»

jdact e wikipedia

A nossa cidade é um lugar tranquilo
«(…) Que todos os recém-chegados, mesmo os jornalistas, devessem visitar a polícia, era um costume provinciano que remontava à década de 40. Como era um exilado político recém-chegado ao país depois de muitos anos de ausência e porque, embora ninguém tivesse tocado no assunto, sentira a presença dos guerrilheiros separatistas curdos (PKK) na cidade, Ka não fez objecção. Eles saíram para a neve, atravessando um mercado de frutas e passando pelas lojas de autopeças e ferragens da avenida Kâzim Karabekir, pelas casas de chá onde homens desempregados, deprimidos, olhavam a televisão e a neve caindo, e por lojas de laticínios que exibiam grandes queijos amarelos redondos; levaram quinze minutos para cruzar a cidade em diagonal. No caminho, Serdar bei parou para mostrar a Ka o lugar onde o ex-presidente fora assassinado. Conforme um boato, ele fora morto por causa de uma simples disputa municipal: a demolição de uma sacada ilegal. Capturaram o agressor três dias depois, na aldeia para onde tinha fugido; quando o encontraram escondido num celeiro, ele ainda estava com a arma. Mas houvera tanta bisbilhotice durante os três dias da sua captura que ninguém queria acreditar que ele era o verdadeiro culpado: a simplicidade da sua motivação desapontava. O quartel da polícia de Kars ocupava um comprido edifício de três andares na avenida Faikbey, onde as velhas construções de pedra, outrora pertencentes a russos e arménios abastados, agora, na sua maioria, sediavam órgãos do governo. Enquanto esperavam pelo subchefe de polícia, Serdar bei chamou a atenção para os altos tectos ornamentados e explicou que entre 1877 e 1918, durante a ocupação russa da cidade, aquela mansão com quarenta quartos fora, a princípio, a residência de um rico arménio, e depois, um hospital russo.
Kasim bei, o subchefe de polícia, veio com a sua barriga de cerveja recebê-los no corredor e os conduziu à sua sala. Ka logo percebeu que estavam diante de um homem que não lia jornais nacionais como o Republicano, pois os considerava de esquerda. Notou também que ele não ficou especialmente impressionado ao ver Serdar bei elogiar alguém simplesmente por ser poeta, mas que o temia e respeitava pelo facto de ser proprietário do principal jornal local. Depois que Serdar bei terminou de falar, o subchefe de polícia voltou-se para Ka. O senhor quer protecção? Como? Estou sugerindo apenas um policial à paisana. Para que fique tranquilo. Será que preciso mesmo disso?, perguntou Ka no tom inquieto de um homem cujo médico tivesse acabado de recomendar que passasse a usar uma bengala. Nossa cidade é um lugar tranquilo. Apanhamos todos os terroristas que estavam semeando a discórdia entre nós. Mas ainda assim eu recomendo que se faça isso, por via das dúvidas. Se Kars é um lugar tranquilo, eu não preciso de protecção, disse Ka. No íntimo ele esperava que o subchefe de polícia lhe garantisse novamente que Kars era um lugar tranquilo, mas Kasim bei não repetiu a afirmação.
Eles rumaram em direcção a norte, para Kalealti e Bayrampaşa, os bairros mais pobres. Ali os barracos eram feitos de pedra, tijolos e alumínio corrugado dos lados. Sob a neve que continuava a cair, foram andando de casa em casa: Serdar bei batia numa porta e, se uma mulher atendia, ele perguntava se podia falar com o homem da casa; quando Serdar bei o reconhecia, falava-lhe, num tom que inspirava confiança, que seu amigo, jornalista famoso, viajara de Istambul a Kars para escrever sobre as eleições e também para descobrir algo mais sobre a cidade, para escrever, por exemplo, sobre o porquê de tantas mulheres estarem suicidando-se, e se aqueles cidadãos pudessem dividir com ele suas preocupações, estariam fazendo uma boa coisa para Kars. Uns poucos mostraram-se muito amistosos, talvez porque pensassem que Ka e Serdar bei eram candidatos e estavam trazendo-lhes latas de óleo de girassol, caixas de sabão ou pacotes de biscoitos e de macarrão. Se eles resolviam convidar os dois homens para entrar por curiosidade ou simples hospitalidade, a primeira coisa que diziam a Ka era que não tivesse medo dos cães. Alguns abriam as suas portas, temerosos, imaginando, depois de tantos anos de intimidação por parte da polícia, que se tratava de mais uma batida, e mesmo depois de perceberem que aqueles homens não eram do governo, mantinham-se em silêncio. Quanto às famílias das jovens que se tinham suicidado (em pouco tempo, Ka ouvira falar de seis casos), todas insistiam que as suas filhas não tinham dado previamente nenhum motivo para preocupação, deixando-os a todos horrorizados e consternados com o acontecido». In Orhan Pamuk, Neve, 2002, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 2008, ISBN 978-972-233- 910-0.

Cortesia de EPresença/JDACT

Neve. Nobel da Literatura. Orhan Pamuk. «Não era a pobreza ou o desamparo que o perturbavam, mas o que ele haveria de ver inúmeras vezes durante os dias seguintes…»

jdact e wikipedia

A nossa cidade é um lugar tranquilo
«(…) Escondendo, como de costume, a sujeira, a lama e a escuridão, a neve continuaria a falar de pureza a Ka mas, depois do seu primeiro dia em Kars, já não lhe prometia inocência. A neve ali era tediosa, irritante, assustadora. Nevara a noite inteira. Continuou a nevar durante toda a manhã enquanto Ka percorria as ruas bancando o repórter intrépido, entrando nos cafés cheios de curdos desempregados, entrevistando eleitores, tomando notas e , ainda estava nevando mais tarde, quando ele subiu as ruas íngremes e geladas para entrevistar o ex-presidente, o vice-presidente e as famílias das moças que se tinham matado. Mas aquilo não o levava mais de volta às ruas cobertas de neve da sua infância; não o fazia mais pensar, como quando era criança ao olhar pelas janelas das sólidas casas de Nisantas, que estava contemplando a paisagem de um conto de fadas; ele não tinha mais voltado a um lugar onde podia desfrutar a vida de classe média de que sentia tanta falta que chegava a visitá-la em sonhos. Em vez disso, a neve lhe falava de desespero e de aflição.
Naquela manhã bem cedo, antes que a cidade acordasse, e antes de se deixar vencer pela neve, ele fez uma rápida caminhada, passando pelo bairro logo abaixo do Atatürk Boulevard, e tomou o rumo da região mais pobre de Kars, um bairro chamado Kalealti. As cenas que ele contemplou enquanto andava a passos rápidos sob os galhos cobertos de gelo dos plátanos silvestres e dos oleandros, os velhos edifícios russos decadentes, com chaminés apontando de cada janela, a centenária igreja arménia sobranceando os depósitos de madeira e os geradores de eletricidade, o bando de cães latindo para cada transeunte de uma ponte de pedra de quinhentos anos enquanto a neve caía nas águas semicongeladas do rio que corria lá em baixo, as finas fitas de fumaça elevando-se dos minúsculos barracos de Kalealti que quedavam sem vida sob o manto de neve, fizeram-no sentir uma tal melancolia que lhe vieram lágrimas aos olhos. Havia duas crianças na margem oposta, uma menina e um menino que tinham saído cedinho para comprar pão e lá se iam, ora balançando os pães quentes para a frente e para trás, ora apertando-os contra o peito, parecendo tão felizes que Ka não pôde deixar de sorrir. Não era a pobreza ou o desamparo que o perturbavam, mas o que ele haveria de ver inúmeras vezes durante os dias seguintes, as vitrines vazias das lojas de artigos fotográficos, as vidraças cobertas de gelo das casas de chá apinhadas de gente onde os desempregados da cidade passavam o tempo jogando cartas, e as praças vazias cobertas de neve. Aquelas visões lhe falavam de uma estranha e densa solidão. Era como se ele estivesse num lugar de que o mundo inteiro se esquecera, era como se nevasse no fim do mundo.
A boa sorte acompanhou Ka durante toda a manhã, e quando, ao perguntar, as pessoas ficavam sabendo quem ele era, todas queriam apertar-lhe a mão; elas o tratavam como a um famoso jornalista de Istambul, do vice-presidente ao homem mais humilde, todos abriam as suas portas e conversavam com ele. Foi apresentado à cidade por Serdar bei, o editor da Gazeta da Cidade Fronteiriça (tiragem de trezentos e vinte exemplares), que por vezes mandava notícias locais para o Republicano de Istambul (que em geral não eram publicadas). Tinham recomendado a Ka que fizesse uma visita ao nosso correspondente local antes de mais nada, logo que deixasse o hotel pela manhã. Assim que encontrou o velho jornalista escondido no seu escritório, percebeu que o homem sabia tudo o que havia para se saber em Kars. Foi Serdar bei quem primeiro lhe fez a pergunta que ele ouviria centenas de vezes durante sua estada de três dias. Bem-vindo à nossa cidade fronteiriça. Mas o que veio fazer aqui? Ka explicou que viera cobrir as eleições municipais e talvez escrever sobre o suicídio das jovens. Da mesma forma como aconteceu em Batman, essas histórias de suicídio foram exageradas, respondeu o jornalista. Vamos, vou apresentá-lo a Kasim bei, o subchefe de polícia. Por via das dúvidas, eles devem saber que o senhor chegou». In Orhan Pamuk, Neve, 2002, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 2008, ISBN 978-972-233- 910-0.

Cortesia de EPresença/JDACT

sábado, 9 de maio de 2015

Neve. Nobel da Literatura. Orhan Pamuk. «As ruas estavam vazias por causa da neve, ou aquelas calçadas geladas viviam sempre desertas? Enquanto andava, ia observando atentamente os anúncios que se viam nas paredes, cartazes da campanha eleitoral…»

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O silêncio da neve A viagem para Kars
«(…) Ele desceu do autocarro. Quando o seu pé afundou no macio tapete de neve, uma lufada de ar frio cortante entrou-lhe pelas pernas da calça. Ele reservara um quarto no Hotel Palácio de Neve. Quando procurou o motorista para lhe perguntar onde ficava o hotel, viu duas ou três fisionomias que lhe pareceram familiares entre os passageiros que esperavam a bagagem, mas, com a neve caindo tão densa e rapidamente, ele não conseguiu descobrir quem eram. Ka viu-os novamente no Café Campos Verdejantes, para onde foi depois de deixar a bagagem no hotel: um homem cansado e preocupado, mas ainda bonito e atraente, com uma mulher gorda porém vivaz que parecia ser sua companheira de toda a vida. Ka vira-os representar em Istambul na década de 70, quando eles eram os expoentes do teatro revolucionário. O nome do homem era Sunay Zaim. Enquanto contemplava o casal, deixou a cabeça divagar e finalmente chegou à conclusão de que a mulher lhe lembrava uma colega do primário. Havia outros homens na mesa deles, todos com aquela palidez mortal que revela uma vida passada no palco; o que uma pequena companhia de teatro estaria fazendo naquela cidade esquecida, ele se perguntou, numa noite de Fevereiro? Antes de sair do restaurante, que vinte anos antes estivera cheio de funcionários públicos de alto escalão, em casaco e gravata, Ka pensou ter visto um dos heróis da esquerda militante sentado noutra mesa. Mas era como se um manto de neve tivesse recoberto as suas lembranças daquele homem, do mesmo modo como fizera com o restaurante e com a própria cidade combalida e ofegante. As ruas estavam vazias por causa da neve, ou aquelas calçadas geladas viviam sempre desertas? Enquanto andava, ia observando atentamente os anúncios que se viam nas paredes, cartazes da campanha eleitoral, anúncios de escolas e restaurantes e os novos cartazes com que as autoridades municipais esperavam conter a onda de suicídios: os seres humanos são obras-primas de Deus, e o suicídio é uma blasfémia. Pelas vidraças cobertas de gelo de uma casa de chá, meio vazia, Ka avistou um grupo de homens amontoados ao redor de um aparelho de televisão. Ele alegrou-se um pouco ao ver ainda de pé aquelas velhas casas de pedra em estilo russo, que tinham feito de Kars um lugar tão especial na sua lembrança. O Hotel Palácio de Neve era um desses elegantes edifícios em estilo báltico. Tinha dois andares, com janelas compridas e estreitas, que davam para um pátio, e uma arcada voltada para a rua. A arcada tinha cento e dez anos e era alta o bastante para dar passagem, com facilidade, a charretes puxadas por cavalos; Ka sentiu um arrepio de excitação ao passar por baixo dela, mas estava cansado demais para se perguntar por quê. Digamos apenas que tinha algo a ver com uma das razões que o levaram a Kars. Três dias antes, Ka visitara a redação do Republicano em Istambul, para ver um amigo de juventude. E aquele amigo, Taner, falara-lhe das eleições municipais que se aproximavam e também do extraordinário número de jovens mulheres que, como na cidade de Batman, sucumbira à onda de suicídios. Taner chegou a dizer que se Ka quisesse escrever sobre esse assunto e ver qual era realmente a situação da Turquia depois de sua ausência de doze anos, devia pensar em ir a Kars; como não havia ninguém disponível para essa tarefa, ele podia conseguir uma credencial de jornalista; e além do mais, disse ele, Ka poderia estar interessado em saber que a sua ex-colega de escola İpek residia agora em Kars. Embora separada do marido, Muhtar, ela continuava na cidade e estava vivendo com o pai e a irmã no Hotel Palácio de Neve. Enquanto ouvia as palavras de Taner, que escrevia comentários políticos para o Republicano, Ka lembrava-se de quanto İpek era bonita. Cavit, o recepcionista, estava assistindo à televisão. Ele entregou a chave a Ka, que subiu ao segundo andar, encaminhando-se para o quarto 203; tendo fechado a porta atrás de si, sentiu-se mais calmo. Depois de cuidadosa análise, concluiu que, apesar dos temores que o assaltaram durante a viagem, nem o seu coração nem a sua cabeça estavam perturbados ante a possibilidade de İpek se encontrar no hotel. Depois de uma vida em que toda a experiência amorosa trazia a marca da vergonha e do sofrimento, a perspectiva de apaixonar-se deixava Ka tomado de um medo intenso, quase instintivo. No meio da noite, antes de ir dormir, Ka atravessou o quarto de pijama, abriu as cortinas e observou os flocos grossos e pesados de neve que caíam sem cessar». In Orhan Pamuk, Kar, 2002, Neve, Nobel da Literatura, tradução de Luciano Machado, Companhia das Letras, 2006, ISBN 853-590-922-2.

Cortesia Cletras/JDACT

segunda-feira, 30 de março de 2015

Neve. Nobel da Literatura. Orhan Pamuk. «Quando, às dez horas da noite, três horas depois do previsto, o autocarro começou a avançar lentamente pelas ruas cobertas de neve de Kars, Ka não reconheceu a cidade de modo algum. Ele nem ao menos viu a estação ferroviária, aonde ele chegara vinte anos antes…»

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O silêncio da neve A viagem para Kars
«(…) Ainda nos tempos de escola, nosso herói insistia em se assinar como Ka nas suas tarefas e provas; ele assinou Ka nos formulários de inscrição da universidade e aproveitava todas as oportunidades para defender o seu direito de continuar a fazê-lo, ainda que isso implicasse conflito com professores e funcionários públicos. A mãe, a sua família e os seus amigos o chamavam de Ka e, tendo também publicado uma colectânea de poesias sob esse nome, gozava de uma pequena fama enigmática como Ka, tanto na Turquia como nos círculos turcos da Alemanha. Isso é tudo o que posso adiantar por enquanto. Como o motorista do autocarro desejou aos passageiros uma boa viagem quando partimos da estação rodoviária de Erzurum, permitam-me acrescentar apenas estas palavras: Que a sua estrada esteja aberta, meu caro Ka. Mas não quero enganá-los. Sou um velho amigo de Ka e começo esta história sabendo tudo o que vai acontecer com ele em Kars. Depois de deixar Horasan, o autocarro rumou para o norte, indo directamente para Kars. Enquanto subia pela pista tortuosa, o motorista teve de pi­sar com força no travão para evitar chocar-se contra um cavalo que surgira do nada, puxando uma carroça, numa das curvas fechadas, e Ka acordou. O medo já havia criado um forte sentimento de solidariedade entre os passageiros, e não demorou muito para Ka sentir-se um deles. Embora estivesse sentado logo atrás do motorista, Ka logo estava agindo exactamente como os passageiros atrás dele: toda vez que o autocarro diminuía a velocidade para fazer uma curva ou evitar cair num precipício, ele se levantava para ver melhor; quando o passageiro diligente que se dispusera a ajudar o motorista limpando a condensação do pára-brisa deixava de limpar uma área do vidro, Ka a apontava com o indicador (colaboração que passava despercebida), e quando a tempestade ficou tão forte que as escovas já não conseguiam impedir que a neve se acumulasse sobre o pára-brisa, Ka juntou-se ao motorista para tentar adivinhar o caminho.
Era impossível ler as placas rodoviárias, que estavam cobertas de neve. Quando a tempestade de neve começou a mostrar a sua fúria, o motorista desligou o farol alto e diminuiu as luzes dentro do autocarro, na esperança de fazer a estrada surgir da penumbra. Os passageiros caíram num silêncio apreensivo, olhos fitos na cena lá fora: a neve cobrindo as ruas das aldeias pobres, as casas periclitantes de um só pavimento, parcamente iluminadas, as estradas para aldeias mais distantes, já fechadas, e as ravinas que mal se podiam ver para além das luzes dos postes. Quando falavam, era num murmúrio. Assim, foi quase cochichando que o passageiro ao lado de Ka, o homem em cujo ombro Ka adormecera pouco antes, perguntou-lhe por que estava indo para Kars. Era fácil perceber que Ka não era do lugar. Sou jornalista, respondeu Ka baixinho. O que era mentira. Estou interessado nas eleições municipais, e também nas jovens que se suicidaram. Isso era verdade. Quando o autarca de Kars foi assassinado, todos os jornais de Istambul deram a notícia, respondeu o vizinho de Ka. E tem sido a mesma coisa com as mulheres que estão suicidando-se. Ka não saberia dizer se o tom de voz do homem deixava transparecer orgulho ou vergonha. Três dias depois, parado na neve que cobria a avenida Halitpaşa, com lágrimas nos olhos, Ka veria novamente aquela aldeão delgado.
Durante a conversa sem rumo certo que se seguiu pelo resto da viagem de autocarro, Ka ficou sabendo que o homem acabara de levar a mãe para Erzurum porque o hospital de Kars não era muito bom, que revendia animais de granja nas aldeias próximas de Kars, que enfrentara muitas dificuldades mas não se tornara um rebelde, e que por motivos misteriosos que não revelou a Ka, lamentava não a própria sorte mas a do seu país e estava feliz em ver que um homem culto, um cavalheiro como Ka se dera ao trabalho de viajar de Istambul para se inteirar dos problemas da cidade. Havia uma tal nobreza na simplicidade da sua fala e no orgulho que exibia, que Ka sentiu respeito por ele. A própria presença dele inspirava calma. Nem uma vez nos doze anos de Alemanha, Ka sentira tanta paz interior; fazia muito tempo que tivera o prazer fugaz de experimentar empatia com alguém mais fraco que ele. Ele se lembrou de ter tentado ver o mundo pelos olhos de um homem capaz de sentir amor, simpatia e ternura. Ao fazer a mesma coisa naquele momento, já não sentia tanto medo da tempestade incessante. Sabia que não estavam destinados a cair num abismo. O autocarro iria atrasar-se, mas chegaria ao destino.
Quando, às dez horas da noite, três horas depois do previsto, o autocarro começou a avançar lentamente pelas ruas cobertas de neve de Kars, Ka não reconheceu a cidade de modo algum. Ele nem ao menos viu a estação ferroviária, aonde ele chegara vinte anos antes numa maria-fumaça, nem tampouco qualquer sinal do hotel para o qual o motorista o levara naquele dia (depois de percorrer toda a cidade): o Hotel República, um telefone em cada quarto. Era como se tudo tivesse sido apagado, estivesse perdido sob a neve. Ele teve um vislumbre dos velhos tempos nas charretes ali e acolá, esperando em garagens, mas a cidade parecia muito mais pobre e mais triste que aquela de que ele se lembrava. Pelas janelas geladas do autocarro, Ka viu os mesmos prédios de apartamentos de concreto que se tinham multiplicado por toda a Turquia nos últimos dez anos, os mesmos painéis de Plexiglas; viu também faixas com slogans da campanha eleitoral penduradas em todas as ruas». In Orhan Pamuk, Kar, 2002, Neve, Nobel da Literatura, tradução de Luciano Machado, Companhia das Letras, 2006, ISBN 853-590-922-2.

Cortesia Cletras/JDACT

domingo, 22 de março de 2015

Neve. Nobel da Literatura. Orhan Pamuk. «Era tímido e gostava de ficar sozinho. Se pudesse imaginar o que iria acontecer tão logo adormecesse, com o balanço do autocarro a sua cabeça iria descair primeiro sobre o ombro do homem ao seu lado, depois em seu peito…»

jdact e wikipedia

«Na década de noventa, depois de anos de exílio na Alemanha, o poeta turco Ka volta a Istambul para o enterro da mãe. De lá, segue para a remota Kars, na fronteira com a Geórgia, a pretexto de fazer uma reportagem sobre uma onda de suicídios entre jovens islâmicas. Durante essa visita, uma queda de neve bloqueia todas as estradas, isolando a cidade do resto do mundo, e é nesse clima de isolamento que um veterano actor e a sua mulher aproveitam para liderar um golpe militar. Embora tenha se distanciado da política há muitos anos, Ka é alçado a protagonista involuntário dessa revolução. Nada menos apropriado para o escritor cujo desejo, além de se casar com İpek, antiga colega de escola que reencontrou em Kars, é apenas registar as poesias que lhe escapam há anos, mas que agora passam a fluir com extrema naturalidade. O confronto intransigente e muitas vezes sangrento dos islamitas radicais com um estado que quer ser secular, a violência do aparelho repressivo, o medo de que os radicais cheguem ao poder pela democracia e os crimes cometidos pelos dois lados: é nesse turbilhão que Ka vaga por três dias, tentando salvar-se a si mesmo e ao seu recém-descoberto amor por İpek. Enquanto o poeta tenta se equilibrar entre as diversas facções em choque, vê a cidade tornar-se um microcosmo dos conflitos raciais, políticos e étnicos da Turquia, além de palco da sua tragédia pessoal. A acção de Neve se passa alguns anos após o golpe e a fatídica e brutal queda de neve. Um amigo de Ka, obcecado por encontrar o seu caderno de poesias, visita Kars a fim de refazer os passos do poeta e de entender as mudanças radicais que aqueles três dias provocaram em sua vida. A grande habilidade de Pamuk está em combinar um tema presente, actual, a relação entre islamismo e política, com questões atemporais, que se manifestam nas inquietações espirituais e artísticas de Ka. Ao expor as relações intrínsecas do motor social com a subjectividade das suas engrenagens, são jornalistas, políticos, terroristas, cidadãos, Pamuk criou um romance complexo, multifacetado, numa visão original e arrebatadora da realidade, como só a ficção permite».

O silêncio da neve A viagem para Kars
«O silêncio da neve, pensou o homem que estava sentado logo atrás do motorista do autocarro. Se aquilo fosse o começo de um poema, poderia chamar o que sentia no seu íntimo de o silêncio da neve. Tomara o autocarro de Erzurum para Kars, com apenas alguns segundos de folga. Mal chegara à estação rodoviária num autocarro vindo de Istambul, depois de dois dias de viagem, sob tempestade e neve, e começara a andar para cima e para baixo nos corredores húmidos e sujos arrastando a mala e procurando a sua ligação, quando alguém lhe disse que o autocarro para Kars partiria imediatamente. Ele conseguiu encontrar o autocarro, um velho Magirus, mas o motorista acabara de fechar a bagageira e, como estava com pressa, recusou-se a abri-lo novamente. Assim, o nosso viajante foi obrigado a entrar no autocarro com a bagagem. A grande mala vermelho-escura Bally estava agora enfiada entre as suas pernas. Estava sentado perto da janela e trajava um grosso casaco cor de carvão que comprara na Kaufhof, em Frankfurt, cinco anos antes. É bom deixar claro, desde já, que aquele casaco macio e delicado seria motivo de vergonha e inquietação para ele nos dias que passaria em Kars, ao mesmo tempo que lhe proporcionaria uma sensação de segurança.
Assim que o autocarro partiu, o nosso viajante grudou os olhos na janela; es­perando talvez ver alguma coisa nova, esquadrinhava as lojinhas, as padarias ordinárias e os cafés arruinados que se alinhavam nas ruas dos subúrbios de Erzurum. E, enquanto isso, começou a nevar. Era uma neve mais densa e pesada que a que vira cair entre Istambul e Erzurum. Se não estivesse tão cansado e tivesse prestado atenção aos flocos de neve que revoluteavam no céu como plumas, teria percebido que avançava directamente para uma tempestade de neve; teria visto desde o começo que estava embarcando numa viagem que iria mudar a sua vida para sempre e teria voltado atrás. Mas esse pensamento nem sequer lhe passou pela cabeça. Quando caiu a noite, ele se abandonou à luz que tardava no alto do céu; nos flocos de neve que redemoinhavam ao vento ainda com mais fúria, ele não via o anúncio de uma tempestade iminente mas antes uma promessa, um sinal indicando o caminho de volta à felicidade e à pureza que conhecera em criança. O nosso viajante passara os anos de felicidade e infância em Istambul; voltara uma semana antes, pela primeira vez em doze anos, para os funerais de sua mãe e, tendo lá permanecido durante quatro dias, resolvera fazer essa viagem a Kars. Anos mais tarde ele ainda haveria de rememorar a extraordinária beleza da neve naquela noite; a felicidade que ela lhe proporcionou fora, de longe, muito maior que qualquer outra que experimentara em Istambul. Era um poeta e, como ele próprio escrevera, num de seus primeiros poemas, ainda desconhecido dos turcos, neva apenas uma vez em nossos sonhos.
Enquanto olhava a neve cair do lado de fora da janela, lenta e silenciosamente como num sonho, o viajante mergulhou num devaneio havia muito esperado e desejado; purificado pelas lembranças inocentes da infância, ele se rendeu ao optimismo e ousou acreditar estar à vontade neste mundo. Logo depois ele sentiu mais uma coisa que não sentia, fazia muito tempo e adormeceu no seu banco. Vamos aproveitar essa calmaria para sussurrar alguns dados biográficos. Embora tivesse passado os últimos doze anos em exílio político na Alemanha, o nosso viajante nunca se envolvera muito com política. A sua verdadeira paixão, o seu único pensamento, era a poesia. Tinha quarenta e dois anos, era solteiro, nunca se tinha casado. Ele era alto para um turco, embora não fosse fácil perceber isso vendo-o encolhido no seu banco; tinha cabelos castanhos e um rosto pálido, que ficara ainda mais pálido durante a viagem. Era tímido e gostava de ficar sozinho. Se pudesse imaginar o que iria acontecer tão logo adormecesse, com o balanço do autocarro a sua cabeça iria descair primeiro sobre o ombro do homem ao seu lado, depois em seu peito, ele se sentiria muito envergonhado. Pois o viajante que estamos vendo recostado no passageiro ao seu lado é um homem honesto e bem-intencionado, cheio de melancolia, como aqueles personagens de Tchekhov tão cheios de virtudes, que não conseguem nada na vida. Teremos muito a dizer sobre melancolia mais adiante. Mas como, ao que parece, ele não vai ficar dormindo por muito mais tempo nessa posição incómoda, por agora basta dizer que o nome do viajante é Kerim Alakuşoğlu, que ele não gosta desse nome e prefere ser chamado de Ka (as suas iniciais)». In Orhan Pamuk, Kar, 2002, Neve, Nobel da Literatura, tradução de Luciano Machado, Companhia das Letras, 2006, ISBN 853-590-922-2.

Cortesia Cletras/JDACT