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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Matilda Wright. Aposta Indecente. «Catherine desesperou-se. Atirou-se para cima da cama e ficou aos prantos que desde a véspera, que lhe oprimia o peito. Dentro de algumas horas ficaria sabendo qual o convento que Villeclaire tinha escolhido»

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«(…) Tinha-se sentido alegre uma única vez, é verdade! Na semana anterior, naquele princípio de manhã em que um grupo de homens e bateu na sua porta para entregar o cadáver do marido. Não tinha vergonha de reconhecê-lo. Sentiu, de facto, uma alegria profunda quando olhou para aquele corpo morto, aquele rosto balofo e amarelo onde o sangue tinha deixado de correr. Nem sequer tinha feito um esforço para parecer penalizada. Na confusão de conversas, e enquanto depositavam o morto no quarto, percebeu que se tratava de uma aposta e não se admirou. Sabia que Duvernois era um jogador. Passou a semana de recolhimento a que o luto a obrigava a pensar no que faria da sua vida. Finalmente estava livre. Calculou que haveria dívidas para pagar e, por isso, decidiu que venderia tudo o que herdasse, pagaria o que houvesse a pagar e, depois..., depois deixaria Paris, viraria as costas àquela cidade onde foi tão desgraçada e começaria tudo de novo, noutra cidade qualquer. Rumaria a sul, decidiu. Procuraria uma dessas pequenas cidades à beira do Mediterrâneo onde a aristocracia passava o Verão. Alugaria uma casa, arranjaria uma criada e trabalharia como estilista ou bordadeira. Quem a conhecera antes de se ter tornado aquele farrapo de gente elogiava e a sua perfeição nos bordados e o bom gosto das roupas que costurava. Para os pobres, muito antes de ela própria ter-se tornado pobre.

Tinha sido uma semana não de luto, mas de alegria. Passada no recolhimento do seu quarto, o único lugar limpo daquele casarão decrépito e cheio de pó, onde as teias de aranha cresciam sem que ninguém se incomodasse em limpá-las. Indiferente aos desaforos do criado e ao pão duro e à sopa azeda que a cozinheira lhe mandava servir no almoço e no jantar. Noutra situação qualquer teria recusado aquele caldo nojento e mal cheiroso mas durante essa semana comeu tudo o que pôde. Sabia que ia precisar de forças para enfrentar os dias de viagem, as mudanças de diligência, as esperas em estalagens à beira de estradas. Ainda na véspera, quando o primeiro credor lhe bateu na porta, tinha continuado a se sentir feliz. Acabara o luto. Bastava agora esperar um ou dois dias para que todos viessem cobrar as dívidas, vender o que fosse preciso para pagar o que fosse urgente e arranjar dinheiro para a viagem. Eram grandes quantias: três mil francos a um, cinco mil a outro, cem francos ao homem do açougue, embora não entendesse porque nunca tinha comido carne naquela casa, cinco francos ao padeiro, mais doze mil francos de uma aposta num jogo de cartas. Não era grave. Era muito dinheiro mas venderia os móveis e as pratas. Viajaria com o que sobrasse e colocaria as casas à venda. Talvez, saldadas todas as contas, ficasse com dinheiro para ter uma vida confortável e sem sequer precisar trabalhar. A hora da liberdade tinha chegado!

Continuou a sentir-se feliz e livre até ao momento em que Louis Villeclaire tinha entrado na sua casa e tinha lhe mostrado o documento assinado pelo marido. Dois bilhões de francos! Mesmo que vendesse tudo não chegaria sequer para lhe pagar metade..., para piorar a situação, Duvernois tinha deixado o seu futuro nas mãos do seu credor. Como se também ela fosse uma coisa, uma arca ou uma cadeira. Aquele homem altivo e frio, que ainda assim não conseguia deixar de achar bonito desde a primeira vez em que olhou para ele, aquele homem que a fizera estremecer por dentro, numa sensação agradável e até aí desconhecida, como se tivesse sido avassalada por um tsunami, e que se mostrara implacável, tinha acabado com o sonho que acalentara durante toda uma semana. Não iria para o sul, não recomeçaria a vida numa cidade à beira-mar onde ninguém saberia quem ela era. O futuro, agora, tal como ele dissera, era um convento para mulheres pobres, onde viveria o resto dos seus dias entre outras mulheres que não conhecia, onde continuaria a comer pão duro e a usar roupa velha, a que nunca chamaria sua.

Catherine desesperou-se. Atirou-se para cima da cama e ficou aos prantos que desde a véspera, que lhe oprimia o peito. Dentro de algumas horas ficaria sabendo qual o convento que Villeclaire tinha escolhido. Muito provavelmente nessa mesma noite já ali dormiria, naquela que seria a sua nova casa até que Deus se apiedasse dela e a levasse. Se ao menos tivesse descoberto uma réstia de bondade naquele homem..., valeria a pena tentar? Podia suplicar-lhe que a deixasse livre para recomeçar a sua vida. Não poderia ter criada e teria de alugar uma casa minúscula, um quarto, talvez... Mas trabalharia noite e dia, seria a melhor estilista da cidade. Não contaria nunca a ninguém o seu passado. Villeclaire poderia ficar descansado, nunca ninguém saberia que a tinha deixado na maior pobreza... Tentaria! E sentiu-se animada por esta ideia. Sim, ia propor-lhe que a deixasse livre quando, nesse dia, ele voltasse para levá-la para o convento...

Louis de Villeclaire chegou no início da tarde acompanhado por um outro homem. Um senhor de meia-idade, elegante, vestido de preto, com uma cara redonda e bondosa. Monsieur Laval, o meu procurador, apresentou o marquês. A jovem viúva animou-se. Aquele homem bondoso era, com certeza, uma ajuda do céu. Mas a sua esperança depressa se desvaneceu. Monsieur Laval pediu licença para sair da sala dizendo que ia acertar as indenizações com os criados. Catherine sentiu um arrepio quando a porta se fechou deixando-a sozinha com Villeclaire. Sem a presença de Laval soube imediatamente que nenhum pedido seu seria atendido. Mas não estava disposta a mostrar àquele homem o medo que sentia naquele momento. Por isso, olhou-o de frente, desafiando-o a ditar a sentença que a condenaria para sempre. Parto amanhã para o Vale do Loire e vou levá-la comigo, disse Louis. Catherine levantou uma sobrancelha, admirada. Pensei que tinha falado num convento em Paris..., retrucou. Não se trata de um convento. Mudei de ideia a seu respeito. É jovem e bonita, seria um desperdício escondê-la do mundo. Tenciono torná-la minha amante..., por enquanto. Depois pensarei o que fazer... In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.

Cortesia de Ld’Hoje/JDACT

JDACT, Literatura, Matilda Wright, 

terça-feira, 20 de julho de 2021

Aposta Indecente. Matilda Wright. «Que ideia, Martine! Só de ouvi-la falar em casamento já me sinto enfadado... Louis forçou um sorriso. Pense no que lhe digo»

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«(…) Muito provavelmente o velho tabelião era cliente de casas mais modestas ou podia tê-la conhecido numa casa de jogo, onde muitas dessas aventureiras que trabalhavam sem a protecção de uma madame e de um tecto fixo, iam todas as noites caçar os seus parceiros. Era isso, não havia dúvida e logo ali tomou uma decisão que, definitivamente, lhe resolveria vários problemas. Sozinho esta noite, meu belo marquês?,  perguntou Martine que, entretanto, se aproximou sem que Louis percebesse. A Cléa está ocupada... Há outras moças disponíveis. Estou sem paciência para escolher, Martine. Talvez esteja ficando velho ou talvez este não seja um bom dia. Talvez esteja ficando apaixonado, meu senhor! Ouvi dizer que uma tal madame Bosquet o traz muito ocupado. É o que se diz?, Louis sorriu e Martine notou que havia tristeza nos seus belíssimos olhos azuis. Louis, Louis..., conheço-o há quantos anos? Vinte? Era um rapazinho quando o seu pai o trouxe aqui pela primeira vez. Estimo-o como estimei o seu pai e conheço-o melhor do que muitos dos seus amigos. Procure uma jovem no seu meio que lhe dê filhos e uma vida familiar agradável, que lhe permita perpetuar os seus títulos e a sua fortuna... Que ideia, Martine! Só de ouvi-la falar em casamento já me sinto enfadado... Louis forçou um sorriso. Pense no que lhe digo. É agradável a sua vida. Tem dinheiro, posição, amigos e as mais belas mulheres de Paris aos seus pés, mas nenhuma à sua espera quando chega em casa. Os anos passam, meu amigo, e esse vazio que se lê nos olhos se tornará mais e mais profundo. Acredite em mim, sei do que falo. O embaixador da Bélgica entrou nesse momento e Martine despediu-se de Louis para recebê-lo. Uns minutos depois, sem esperar pelos amigos que, entretanto, tinham subido para os quartos com as suas amantes, o marquês de Villeclaire pediu a um criado que chamasse o seu cocheiro e saiu. Quando chegou em casa avisou Maurice, que como sempre ainda o esperava, que dentro de dois dias partiria para o Loire.

Acompanho-o, senhor? Sim, por favor, Maurice. Alguma providência que quer que eu tome? Terá convidados? Nada de especial, o costume. Não nos demoraremos mais do que uma semana. Duas, no máximo. Louis deitou-se pensando no corpo esguio e suave de Catherine Duvernois. No seu pescoço de cisne, nos seus cabelos escuros. Teve vontade de tê-la ali, na sua cama, de lhe percorrer o corpo com os dedos, descobrindo as formas que se escondiam debaixo daqueles vestidos gastos e desajeitados. Imaginou como seriam duros os seus seios e, naqueles segundos antes de adormecer, de olhos fechados, na escuridão do seu quarto, fantasiou que lhe prendia com um braço a cintura fina, que descia a mão até ao centro do seu ser e a excitava delicadamente, fazendo-a gemer e abrir as pernas, pronta para o receber. O sexo de Louis ganhava vida própria e abriu-lhe a porta para uma noite de sonhos deliciosos em que Catherine, nua, se sentava sobre ele e o conduzia num acto de amor selvagem e louco, elevando e baixando o tronco para que o p… de Louis entrasse e saísse d…, cada vez mais depressa, enquanto ele lhe agarrava as ná… com uma das mãos e, com a outra, lhe acariciava os se…, soltos, afastava os longos cabelos da face e percorria a boca com um dedo, introduzindo-o depois na boca, explorando-a, como se a pene… duplamente. Acordou confuso, recordando o sonho em todos os pormenores e achando até estranho não a encontrar ali deitada, abraçada a ele… Que loucura, pensou Villeclaire ao acordar. E voltou a sentir que o sexo lhe endu… e que desejava ardentemente Catherine.

Catherine Duvernois arrumou os seus parcos haveres mesmo antes de saber qual seria o seu destino. Fosse o que fosse que o marquês de Villeclaire decidisse sobre ela, sabia que estava vivendo os últimos dias naquela casa. Não teria saudades desses cinco anos em que viveu encerrada naquele casarão frio e decrépito, tendo de suportar os maus modos daquele velho desagradável de quem agora era viúva, a falta de dinheiro, a má comida, a solidão, a impertinência dos criados que a tratavam como uma igual, o desprezo com que as outras mulheres a olhavam nas raríssimas vezes em que saía, sem nunca ir muito longe, para comprar botões ou linhas para remendar a sua roupa velhíssima, os olhares de piedade dos caixeiros quando entrava numa loja, deixando-a a um canto, para ser atendida mesmo depois de outras senhoras que chegavam a seguir dela. Estava cansada daquela vida. Aos vinte e dois anos sentia-se, muitas vezes, uma velha. Desejara tantas vezes a morte naqueles dias duros de Inverno em que as correntes de ar daquela casa a prostravam, cheia de febre, sem ninguém que tivesse a caridade de lhe levar um chá». In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.

 Cortesia de Ld’Hoje/JDACT

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Matilda Wright. Aposta Indecente. «É evidente, foi isso mesmo que aconteceu! O velho Duvernois deve ter conhecido a mulher num bordel e casou com ela. Por que outra razão estaria uma moça tão nova casada com um velho?»

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«(…) Nessa noite, Louis jantou em casa com os seus amigos de sempre, Gaston, Pierre, Laurent e Marcel. Estava taciturno e distraído, e durante todo o tempo uma ruga vincava a sua bela testa. Villeneuve, que bicho lhe mordeu? Convida-nos para celebrar os seus novos dois bilhões de francos e está com essa cara... De repente, a fortuna causa-lhe problemas?, brincou Pierre. Marcel, o banqueiro, soltou uma gargalhada: meu caro marquês, diga-nos o que o aflige. Certamente nada que uma experiente conta bancária não possa resolver por você! Os amigos riram e Louis tentou rir com eles. Mas, de facto, alguma coisa o incomodava. Aqueles olhos verdes e desafiadores de Catherine Duvernois que nem por um momento se humedeceram quando a ameaçou com um futuro sombrio num convento para indigentes… Nada de muito grave!, respondeu aos amigos. De facto, tenho de ir ao Vale do Loire por uns dias, o dever me chama. E logo numa altura em que esta neve torna as viagens mais incómodas e gostaria do aconchego quente da cama de Cléa. Esforçou-se por ser natural e voltou a rir. Os rapazes riram com ele. E madame Bousquet?, quis saber Laurent. Oh! A Bousquet! Está insuportável, apaixonada, exige que a visite todas as horas e fala até em largar o marido e fugir comigo para a Inglaterra ou para a Alemanha. Sonha com uma casinha pequena, no campo, onde viveremos os dois, felizes, até sermos velhos. Meu bom Louis, ainda bem que o dever o chama ao Vale do Loire porque, de facto, tem aí um problema. Oh! Se tem! É o que dá se meter com burguesas..., têm a imaginação curta e a cabeça cheia de ideias bucólicas que bebem nos romances da moda. É fugir delas, Villeclaire, é fugir delas..., declarou o príncipe de Montblanc.

E foi ainda rindo das desventuras de Louis Villeclaire com a sua amante burguesa que os rapazes chegaram à casa de Martine. Cléa estava ocupada com um outro cliente e Louis somou mais essa contrariedade ao seu dia e decidiu ficar ali mesmo pelo salão, bebendo champanhe, sem paciência para escolher outra moça. Queria a pequena Cléa, que de noite em noite estava cada vez mais competente na arte do amor e o excitava cada vez mais. Gostava das pernas dela, brancas e duras, um pouco roliças, mas que se enrolavam em volta do seu tronco, puxando-o para si, enquanto lhe guiava o sexo para dentro dela. Cléa era uma mulher permissiva, que gostava de ter prazer e que o procurava. Dois dias antes, ao entrar no seu quarto, Louis tinha-a encontrado na cama com Denise, outra das mulheres que trabalha na casa de Martine, ambas nuas, lambendo o sexo uma da outra e nem sequer se interromperam quando ele se juntou, misturando o seu corpo nos delas e amando as duas. Tinha sido uma tarde inesquecível e repetida no dia seguinte, cada vez com mais prazer. Mas as moças eram assim mesmo, à noite, quando a casa estava cheia, atendiam quem chegava primeiro e as escolhia. A ele, tanto fazia que se deitassem com ele e com mais não sei quantos. Até que chegasse um velho tolo que se embeiçasse por elas e lhes montasse casa. Às vezes, até casavam... Bebeu mais um gole de champanhe e, de repente, foi como se um relâmpago lhe iluminasse o pensamento. É evidente, foi isso mesmo que aconteceu! O velho Duvernois deve ter conhecido a mulher num bordel e casou com ela. Por que outra razão estaria uma moça tão nova casada com um velho?... E aquela frieza no olhar!, disse para si próprio. Não se lembrava de alguma vez tê-la visto em nenhum dos bordéis de luxo que frequentava, mas a verdade é que também nunca tinha encontrado Duvernois em nenhum deles». In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.

Cortesia de Ld’Hoje/JDACT

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Aposta Indecente. Matilda Wright. «Quanto à senhora..., creio, o convento das Franciscanas Descalças ou qualquer outro que acolha viúvas pobres servirá perfeitamente. Vou pensar nisso!»

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«(…) Não que eu saiba. Mas o senhor Legrand, o tabelião perante quem Duvernois assinou esta infâmia poderá informá-lo melhor do que eu. Louis fingiu não ouvir este último comentário da jovem viúva e continuou a fazer perguntas sobre Saint-Cast-le-Guido. É uma propriedade grande? Não, de maneira nenhuma. É uma pequena casa de pedra com um jardinzinho, à beira-mar. A irritação de Louis aumentou. Não bastava a altivez e o desprezo com que aquela mulher lhe falava, agora descobria que o património de Duvernois estava longe de chegar aos dois bilhões de francos que o tabelião lhe devia. Quem vive no prédio da Rue des Rosiers? O judeu que tem a padaria no térreo e a sua família. E quanto pagam de aluguel? Não sei lhe dizer. vejo que não está disposta a colaborar na resolução deste assunto, disse Villeclaire, com rispidez. Catherine pôs-se de pé e retrucou, furiosa, separando as palavras com uma breve pausa, como se falasse com alguém que tivesse dificuldade em entender o que lhe diziam: não sei responder!

Louis levantou-se e passeou pela sala, a grandes passadas, com as mãos atrás das costas. Tinha mais problemas para resolver do que gostaria. E precisava ir ao Vale do Loire urgentemente. Que grande golpe! Eis o que pretendo, minha senhora: vou imediatamente ao cartório onde essa escritura que tem nas mãos foi assinada pelo seu marido e passarei imediatamente para meu nome todos os bens que lhe pertenceram. Os dois criados desta casa e o escrivão receberão indenizações e cartas de recomendação e, hoje mesmo, estarão livres para procurarem outras colocações. Quanto à senhora..., Louis olhou mais uma vez para ela e não descobriu uma sombra de medo. Muito pelo contrário, continuava a fitá-lo, desafiadora. Quanto à senhora..., creio, o convento das Franciscanas Descalças ou qualquer outro que acolha viúvas pobres servirá perfeitamente. Vou pensar nisso! Entretanto, enquanto vou ao cartório, deixarei o meu cocheiro aqui na porta e antes que eu próprio tenha tratado de todos os papéis, estará aqui um polícia, por isso, não tente fugir ou tirar de casa coisas que, de facto, já há uma semana me pertencem. Se esperei estes dias para lhe dizer foi porque decidi respeitar o seu luto, podia ter passado todos estes bens para meu nome sem sequer lhe comunicar.

Catherine esboçou um ligeiro sorriso que pareceu irônico a Louis. Não precisa obrigar um pobre polícia a suportar esta neve, senhor marquês. Nada será tirado desta casa e eu não pretendo fugir. Aguardarei que me diga que convento escolheu para mim uma vez que, agora, sou também uma coisa sua, disse-o como se lhe desse uma bofetada, com um tom cortante e desabrido. Tenha uma boa tarde, madame Duvernois, disse Louis, e saiu irritado, a caminho do cartório, pensando que tudo teria sido mais fácil se a viúva do tabelião fosse uma velhota simpática e bondosa. Muito provavelmente teria até gostado dela e o seu bom coração teria amolecido, acabando por instalar a senhora num dos bonitos apartamentos que possuía nos Champs Ely sées. Mas aquela jovem tão bela quanto desafiadora ia ter o que merecia...» In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.

Cortesia de Ld’Hoje/JDACT

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segunda-feira, 19 de julho de 2021

Aposta Indecente. Matilda Wright. «Catherine fez-lhe sinal com a mão para que se sentasse e sentou-se ela também. Calculei que fosse isso, apesar do criado ter-me dito que vinha apresentar os seus pêsames. Foi delicado da sua parte e devo agradecer-lhe»

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«(…) E estava imaginando tudo isto quando a porta voltou a abrir-se e entrou uma jovem alta e magra, vestida de luto, mas cuja roupa parecia não ter sido feita para ela. O corpete era muito grande e tinha os punhos dobrados e a saia caía sem graça, como se estivesse pendurada num cabide. O preto do tecido não tinha brilho e mostrava o desgaste dos anos. Louis supôs imediatamente que se tratava de uma filha do velho tabelião, e reparou, quase em pânico, que nunca tinha posto a hipótese de Duvernois ter descendência. Mas era um homem do mundo e não deixou transparecer a surpresa com que recebeu a sua chegada. Dirigiu-se e estendeu a mão para beijar a dela: Louis Villeclaire, disse, tocando-lhe a pele com os lábios e reparou que a mão da moça era pequena, branca, delicada, com unhas perfeitas, sem anéis. Catherine Duvernois, respondeu ela, numa voz suave, e logo depois acrescentou: suponho que veio cobrar alguma dívida que o meu marido tinha consigo, senhor marquês... Louis sentiu-se fulminado por um raio. Aquela jovem, que teria pouco mais de vinte anos, era a viúva do tabelião! Olhou uma vez mais para ela e admirou-lhe os enormes olhos verdes, as maçãs do rosto salientes, a boca cheia e bem desenhada e o cabelo escuro que lhe caía, encaracolado, nos ombros e nas costas. Era muito bonita. Era mais do que bonita, era verdadeiramente encantadora, mas de uma beleza triste. Exactamente..., concordou o jovem marquês.

Catherine fez-lhe sinal com a mão para que se sentasse e sentou-se ela também. Calculei que fosse isso, apesar do criado ter-me dito que vinha apresentar os seus pêsames. Foi delicado da sua parte e devo agradecer-lhe. Mas desde esta manhã tenho recebido várias visitas de credores e não vi razão para a sua ser diferente. Duvernois não tinha amigos... Louis tossiu ligeiramente, sem saber o que lhe responder. Estava encantado com a beleza daquela mulher e, ao mesmo tempo, confuso com o facto de tal beldade ser a viúva de um homem tão velho e tão repugnante como o velho tabelião. Catherine continuou: se quiser fazer o favor de me dizer o montante da dívida, venderei o que for necessário e amanhã ou depois saldarei a quantia. Duvernois não deixou dinheiro, deixou contas para pagar e é isso que tenho feito. Espero que compreenda e que tenha a paciência de esperar alguns dias. Não me parece que seja possível, minha senhora. De facto, trouxe os documentos comigo, o seu marido devia-me dois bilhões de francos... Catherine empalideceu ao ouvi-lo dizer tal coisa e foi com as mãos tremendo que segurou os papéis que Villeclaire lhe estendia. Depois de ler perguntou com a voz serena, mas firme: o que pretende fazer agora, senhor marquês? Tomar imediatamente posse do que é meu, minha senhora, antes que outros credores a visitem e a senhora se lembre de vender património que já é meu.

Catherine Duvernois olhou-o nos olhos, desta vez com desprezo e isso o irritou. Não gostava de ser desafiado e muito menos por uma mulher. Nunca antes alguma tinha tido a ousadia de o olhar daquela maneira. Aquela moça, certamente, não sabia com quem estava falando. E o que vai fazer connosco uma vez que, agora, pelo que leio, também somos propriedade sua?, perguntou ela. Ah! A altivez com que lhe falava! Era, de facto, muito bonita, mas o seu orgulho irritava-o. Quantas pessoas moram nesta casa?, Villeclaire respondeu-lhe com outra pergunta. Eu, o criado que já conhece e uma cozinheira, respondeu Catherine, sem deixar de o olhar de frente. Estava sentada com as costas muito direitas e tinha um porte orgulhoso, apesar da pobreza das roupas que vestia. Não há mais empregados nem mais família? Apenas o escrivão que trabalhava no gabinete da Rue des Francs Bourgeois. Mais ninguém? Mais ninguém. Não há um feitor, um caseiro, em Saint-Cast-le-Guido?» In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.

Cortesia de Ld’Hoje/JDACT

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Aposta Indecente. Matilda Wright. «O jovem marquês hesitou uns segundos. Dizer o quê? Que vinha apresentar os seus pêsames à família? E se não houvesse família? Devia ter-se informado antes…»

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«(…) Sim, aqui estava o documento, exactamente no lugar onde Louis suspeitava tê-lo guardado. O cofre do escritório. Pela primeira vez leu o documento assinado por Duvernois. Pareceu-lhe tudo tal como combinado: em 18 de Novembro de 1857, se não dispusesse dos dois bilhões de francos que lhe devia, o tabelião comprometia-se a passar para a sua propriedade o edifício onde moro, no nº 42 da Rue des Archives, o edifício no 71 da Rue des Francs Bourgeois, o nº 60 da Rue de Rosiers, a minha casa de Saint-Cast-le-Guido, e todos os bens e pessoas que nelas houver. Todos os bens e pessoas..., repetiu Villeclaire, batendo com o rolo de papéis na palma da mão. Começou a percorrer a biblioteca em grandes passadas. A escritura de dívida mais parecia um testamento. Duvernois entregava-lhe tudo o que era seu. A mulher também, se a houvesse. E havendo..., teria de encontrar uma solução para a velha senhora Duvernois. Como seria ela? Talvez uma velhota simpática e bondosa. De repente, sentiu um aperto no coração. Se fosse esse o caso, dentro de algumas horas ficaria com tudo o que até aí tinha sido dela. Talvez a senhora estivesse aliviada por se ver livre do insuportável Duvernois, viciado em jogo e apostas. Talvez pensasse que agora poderia acabar os seus dias em paz. E ele ia aparecer para lhe roubar as últimas esperanças. E se a velhota fosse, de facto, simpática e bondosa... Não seja piegas, Louis!, disse para si mesmo, em voz alta. E logo ali decidiu que, se fosse esse o caso, lhe proporia um resto de vida descansado e confortável no convento das Ursulinas, para onde se podia retirar com uma criada para servi-la. Ele próprio se encarregaria do dote e de dizer à Superiora que se tratava de uma parente muito afastada e viúva. Ou, se a solidão da clausura não lhe agradasse, poderia ceder-lhe um dos muitos apartamentos num dos prédios de que era dono. Não nos Champs Ely sées, mas perto da Sorbonne, um daqueles apartamentos pequenos e antigos que alugava a estudantes que nunca lhe pagavam o aluguel. De qualquer modo, deixaria que madame Duvernois vivesse num deles. Daria-lhe uma pequena pensão anual e uma criada. Qualquer coisa que permitisse viver modestamente mas com decência.

Logo veria com Laval, o seu procurador, de quanto poderia ser a pensão. De repente, franziu a sua bela testa e os olhos azuis tornaram-se frios como aço. E se a velha fosse insuportável como o marido? Uma dessas velhas rabugentas, que desatam aos gritos, que arrancam os cabelos... Sim, podia muito bem ser um osso duro de roer. Era até o mais provável! Que velhinha bondosa e simpática teria alguma vez casado com Duvernois na juventude? Nesse caso, nem apartamento nem Ursulinas, um convento qualquer, desses que recolhem indigentes, seria mais do que suficiente. Ao diabo com a velha!, murmurou. Nesse momento bateram à porta da biblioteca e Maurice anunciou que a carruagem já estava pronta e à espera.

A casa da Rue des Archives era sólida, grande, com uma enorme porta de madeira trabalhada e janelas fechadas, nos três andares. Parecia desabitada. Talvez tenham ido embora... Talvez tenha chegado tarde demais..., pensou Louis Villeclaire quando saiu da carruagem. A neve já se acumulava na calçada e havia pouca gente na rua. Amaldiço-ou o tempo que o fazia sair de casa com aquele frio e puxou a corrente de metal que fez soar um sino, longe da porta mas suficientemente audível. Teve de esperar uns minutos, dando alguns passos de um lado para o outro para não enregelar, até que a porta se abriu e Louis pôde ver um criado de meia-idade, mal-encarado e mal vestido, com chinelos de fazenda grossa e embrulhado numa manta. Faça o favor de dizer...

O jovem marquês hesitou uns segundos. Dizer o quê? Que vinha apresentar os seus pêsames à família? E se não houvesse família? Devia ter-se informado antes, mas andou muito ocupado entre os braços de Cléa e os de madame Bousquet. Agora, não tinha outro remédio senão supor que havia, de facto, uma família que devia ser cumprimentada. Sou o marquês de Villeclaire. Venho apresentar os meus pêsames à família. O criado afastou-se um pouco da porta para lhe dar passagem. Faça favor de entrar, vou anunciá-lo. A casa cheirava a mofo e era escura, mas ainda assim Louis pôde reparar na decrepitude que o rodeava. As enormes tábuas do chão rangiam sob os seus pés e os móveis estavam cobertos de pó. Os quadros eram soturnos, as pratas estavam sujas. O criado conduziu-o a uma sala grande, onde os estofos das cadeiras de palhas estavam puídas e os tapetes já tinham conhecido melhores dias, abriu as grandes portadas das janelas e deixou-o à espera. Durante uns breves minutos Villeclaire pôde observar tudo em pormenor, à fraca luz que entrava pelos vidros sujos. Aquela sala tinha manifestos sinais de já ter tido outra vida. Certamente teria havido ali dias alegres, de bailes e reuniões sociais. Aquelas paredes tinham sido testemunhas de gargalhadas e segredos, conversas de senhoras e reuniões de homens». In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.

 Cortesia de Ld’Hoje/JDACT

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segunda-feira, 8 de junho de 2020

Aposta Indecente. Matilda Wright. «Há correio? Sim, senhor marquês, a maior parte serão convites e chegaram duas cartas por mão-própria, uma do seu procurador e outra de...»

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«(…) Pois eu, meu caro Villeclaire, no seu lugar, não esperava nem mais um dia após a semana obrigatória de luto para visitar seja quem for que viva para lá dos portões daquela casa. Ao que sei, o velho Duvernois deve-lhe dinheiro e a mais não sei quantos. Sempre teve fama de usar as suas artimanhas de tabelião para não pagar o que devia. Como você, esta noite, muitos outros terão certamente a mesma ideia de ir apresentar condolências à viúva. Apresse-se, para que seja, se não o primeiro, pelo menos um dos primeiros... Louis não respondeu mas guardou, muito bem guardada, a informação utilíssima que o amigo acabava de lhe dar, e prometeu que, daí a oito dias, sem adiamento algum, iria à Rue des Archives. Caramba, dois bilhões sempre eram dois bilhões!

Louis acordou tarde, como acontecia quase sempre quando estava em Paris. Passava as noites nos teatros, nos bordéis, nos bailes da alta sociedade e, de qualquer maneira, tanto lhe fazia. Na cidade não havia muito mais que um homem elegante pudesse fazer. Por isso, era já perto do meio-dia quando Maurice, o seu criado pessoal, entrou no quarto com a bandeja de prata em que, todos os dias, lhe servia o café da manhã. Pousou-a sobre uma mesa, abriu os pesados cortinados de veludo azul que impediam que a luz despertasse cedo demais o jovem marquês e ficou à espera que o amo acabasse de se espreguiçar. Bom dia, senhor marquês! E é este um bom dia, Maurice?, quis saber Louis. Talvez não, meu senhor! Começou a nevar... Louis bocejou. Voltou a espreguiçar-se. Recostou-se nas almofadas e o criado aproximou a bandeja com a primeira refeição do dia.
Há correio? Sim, senhor marquês, a maior parte serão convites e chegaram duas cartas por mão-própria, uma do seu procurador e outra de... Maurice interrompeu-se, sem saber como terminar a frase. De quem, meu velho? De madame Bousquet? O criado confirmou com um aceno de cabeça. Ah, não! A chata madame Bousquet! Tão chata quanto bonita. Estava sendo tão divertido e, imagina, teve a infeliz ideia de se apaixonar por mim. As mulheres estragam sempre tudo quando se apaixonam, Maurice... E como o criado não respondia, o marquês de Villeclaire insistiu: não diz nada? Maurice sorriu. Que quer o senhor marquês que lhe diga?! Louis riu e começou a tomar o café da manhã enquanto abria o correio e ia dizendo alto: um baile na casa dos duques de Saint-Denis..., almoço na casa da tia Clemence na próxima sexta-feira..., ceia na casa dos príncipes Walensky... Ah! E madame Bousquet quer que vá visitá-la hoje, à hora do chá. Hoje? Que dia é hoje, Maurice?
Terça-feira, 25 de Novembro, meu senhor.
Louis lembrou-se, então, que a semana de luto por monsieur Duvernois acabara na véspera e que devia, nesse dia, sem falta, visitar a família e cobrar a dívida. Papel e pena, Maurice. Tenho de agradecer o convite a madame Bousquet e avisá-la de que não poderei ir. Abriu, depois, a carta do procurador e ficou sabendo que seria conveniente a sua presença no seu castelo do Vale do Loire para decidir com o feitor alguns assuntos relacionados com as sementeiras de Inverno naquela sua grande propriedade. Normalmente detestava tratar desses assuntos. Que plantassem batatas ou abóboras, para ele tanto fazia, mas o pai e já antes do pai o avô, cumpriam escrupulosamente esta traição de ouvirem o feitor explicar o que iriam plantar ou colher e de quanto tinham sido as rendas pagas pelos rendeiros no final das sementeiras, e ele cumpria o ritual umas vezes com mais enfado do que outras. Olhou lá para fora, através da janela. O céu estava escuro e a neve caía acumulando-se na balaustrada da varanda. Muito bem, rumaria a oeste, onde pelo menos não nevava e onde podia passar uns dias agradáveis caçando. Podia convidar os rapazes, iriam todos... Talvez levasse Cléa... O senhor marquês almoça em casa?, Maurice interrompeu-lhe os pensamentos. Que horas são? Passa já do meio-dia, meu senhor. Não, não almoço. Prepara a minha roupa. Vou ter de sair, avisa o cocheiro.
Maurice saiu para mandar preparar a carruagem e voltou ao quarto seguido por uma criada que carregava uma enorme bacia de prata que fumegava. Bom dia, senhor marquês!, disse a moça pedindo permissão. Bom dia, Marie!, respondeu Villeclaire. Quando a criada voltou a fechar a porta do quarto Louis saltou da cama e foi sentar-se na cadeira de toilette, pronto para ser barbeado por Maurice. E enquanto o criado o arrumava e o ajudava a se vestir, deliciou-se pensando no quão mais rico estaria quando esse mesmo dia acabasse. Dois bilhões de francos a mais no seu património! Mas, primeiro, teria de procurar a escritura assinada por Duvernois. Tinha a vaga ideia de tê-la guardado no cofre da biblioteca, juntamente com as caixas de jóias que tinham pertencido à sua mãe e os títulos das suas propriedades do Vale do Loire e da Borgonha». In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.
                            
Cortesia de Ld’Hoje/JDACT

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Aposta Indecente. Matilda Wright. «Dois bilhões!, exclamou Marcel de Bachelard em tom chocado com a exorbitância do montante da aposta. Trinta e três vermelho!»

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«(…) Estava um pouco bêbado..., confessou Louis Villeclaire, como se preparasse os amigos para o que se seguiria. Tendo provado a ele próprio que essa era, de facto, uma noite de sorte excepcional e guardando já os 300 francos que acabava de ganhar numa única jogada, foi parado por uma mão que lhe travou o braço. Era Duvernois! Meu jovem marquês! Reparei que ainda agora entrou e já o vejo sair. Uma noite má? Não, muito pelo contrário! Vim provar a mim mesmo que estou invencível..., respondeu com uma gargalhada. Os olhos do velho tabelião brilharam ao ouvi-lo dizer tal coisa e ali mesmo o desafiou para uma aposta absurda com o argumento de que não havia homens invencíveis, nem sequer por uma única noite. Villeclaire que escolhesse um número, sem fichas na mesa. Ele, Duvernois, escolheria outro. Se nenhum deles acertasse a coisa ficaria por aí mesmo, aprendendo Villeclaire que Duvernois tinha razão quanto à impossibilidade de se ser absolutamente invencível. Se algum deles acertasse, receberia do outro dois bilhões de francos... Dois bilhões!, exclamou Marcel de Bachelard em tom chocado com a exorbitância do montante da aposta. Trinta e três vermelho!, disse Villeclaire, e ainda acrescentou: contra todos os outros números, Duvernois. Hoje estou especialmente generoso. Os quatro rapazes soltaram exclamações de horror. E Gaston não se conteve: um pouco bêbado, Louis? Estava completamente embriagado... Villeclaire não lhe respondeu e continuou contando aos amigos que esse número lhe veio à cabeça por ser a idade de madame Bousquet; e a cor? Ah! A cor do vestido que essa senhora usava nessa noite e espalhava nos cabelos ruivos um ardente tom de fogo. Era um cavaleiro e, por isso mesmo, dispensou-se de acrescentar que eram também de fogo os beijos que trocou com ela, no jardim, enquanto o marido jogava bilhar e fumava charutos no aconchego elegante da sala de fumo dos condes de Balac. Depois dos beijos, escondidos numa estufa de plantas, os dedos dela desapertaram um a um os pequenos botões de madrepérola que fechavam as calças de Louis, libertando-lhe o sexo. Ajoelhando-se na relva, lambeu-o. Primeiro, delicadamente, passeando a língua ao longo daquele tronco duro e enorme, enquanto o marquês lhe segurava os seios, com violência. Depois, rolaram os dois pelo chão, numa confusão de saias de seda. Ela gemia de desejo, pedindo que a possuísse. Mas Louis prolongava-lhe o prazer explorando com os dedos o interior do seu ser até que, finalmente, lhe tapou a boca com a sua, entrelaçando a língua, e deixou que a sua virilidade explodisse dentro dela, fazendo arquear o corpo. Ah! Tinha sido maravilhosamente selvagem… Mas era uma recordação íntima e que um homem bem-educado nunca dividiria com ninguém, nem com os seus melhores amigos. E?..., perguntou Gaston Montblanc. E saiu o 33 vermelho..., disse Louis Villeclaire. Todos ficaram em silêncio perante tamanha temeridade. E o estouvado marquês prosseguiu com a sua história: dois dias depois passou pelo gabinete de Duvernois, na Rue des Francs Bourgeois, para cobrar a dívida, e o velho tabelião confessou-lhe não ter o dinheiro disponível. Mas logo ali se prontificou a assinar uma nota de dívida, a vencer daí a duas semanas, em 18 de novembro de 1857. Amanhã..., sussurrou Laurent de Juy. Villeclaire continuou a contar os pormenores do negócio que, por vontade Duvernois, tinha ficado estabelecido em escritura pública feita perante um outro tabelião, amigo do devedor. Se, na data combinada, Duvernois continuasse a não ter disponível a quantia devida, os dois bilhões de francos, todos os seus bens passariam para a posse de Villeclaire. Por isso, meus amigos, bebamos! Esta noite fiquei dois bilhões de francos mais rico e, passada uma semana de luto, como manda a decência, tenciono visitar a família do bom Duvernois para apresentar condolências e..., cobrar a minha dívida! Família? Será que o Duvernois tem família?, perguntou Gaston Montblanc. Sabemos que vivia numa bela casa na Rue des Archives e que tinha gabinete na Rue des Francs Bourgeois. Mas família? Nunca ouvi falar... Vocês ouviram? Todos concordaram que, apesar de Duvernois ser um homem conhecido em todos os locais de Paris onde houvesse apostas, nunca ninguém tinha visto a família. Nem sequer tinham ouvido falar... Nem nas corridas de cavalos de Chantilly apareceu alguma vez com a mulher, lembrou Marcel. Pierre soltou uma gargalhada: e nunca o vimos em nenhum lado onde houvesse mulheres! O velho era louco por cavalos e mesas de jogo, mas mulheres... Haverá, certamente, uma velha e simpática madame Duvernois escondida na casa da Rue des Archives. Ou, no pior dos casos, um procurador qualquer que agora trate dessas minúcias, disse Louis». In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.
                            
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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Aposta Indecente. Matilda Wright. «Muito fácil, meus amigos! Que outra maneira existe de um cavalheiro aumentar, do dia para a noite, a sua fortuna? Ganhei uma aposta! Que aposta, Louis?»

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«(…) Uma ideia desproporcional! Estragar assim a noite de um cristão... Acabaram-nos com a festa! O Joubert é primo de um ministro do império e à Martine ninguém toca, que Napoleão III não deixa. Por alguma razão ela fornece as melhores moças de Paris e lhe arranja os disfarces para que Sua Excelência possa se encontrar com elas. Mas enfim, ia ser uma grande chatice, ter de ficar ali até de manhã, à disposição de um cabo de esquadra qualquer, querendo fazer perguntas a torto e a direito, para mostrar serviço... E não ia servir para nada. Com o Joubert metido nisto, nem sequer vai haver inquérito, já se sabe. Villeclaire sorriu discretamente e entrou no Gascogne atrás de Pierre.
O jovem marquês ainda sorria quando se juntou aos três outros amigos que, num gabinete privado, já bebiam champanhe enquanto esperavam as famosas ostras. Laurent contava aos outros as maravilhas de Andreja, a polaca loira com quem tinha estado nessa noite na casa de Martine. Mas interrompeu-se quando viu Louis entrar: morre um homem, estragam-me a noite com a bela Andreja e meu velho, entra aqui com essa cara de felicidade?... Há que experimentar os dotes dessa Cléa se ela o deixa assim! Engana-se, meu caro. Por uma vez, a minha felicidade nada tem a ver com mulheres e nem sequer com champanhe. Simplesmente, esta noite, fiquei um pouco mais rico... Ah, não! Louis, não vai aproveitar esta ocasião já um pouco fúnebre para nos anunciar que a sua tia Clemence, finalmente, o convenceu a casar-se com uma das enfadonhas herdeiras ricas que frequentam os seus chás literários... Não, nada disso, meu querido Laurent! Quantas vezes lhes disse que não fui destinado para o casamento? Sou um pássaro que precisa de liberdade...
E então?, quis saber o príncipe de Montblanc. Vai-nos contar a origem desse dinheiro que fará com que a sua escandalosamente enorme fortuna se torne ainda um pouco mais escandalosamente enorme? Louis de Villeclaire esfregou as mãos saboreando a curiosidade dos amigos. Acendeu um charuto e ficou vendo as ondas de fumo desfazerem-se no ar. Um criado bateu à porta e pediu licença para entrar. Trazia uma travessa onde brilhavam deliciosas ostras que inundaram a sala com o seu cheiro de mar. Alphonse, mais champanhe! Muito gelado!, pediu Louis. Sentaram-se à mesa, requintadamente coberta por uma toalha de linho branco com finos bordados, e prepararam-se para provar aquela ceia servida em caríssimos pratos de porcelana de Limoges e talheres de prata. Antoine Gascogne sabia como agradar aos seus melhores e mais exclusivos clientes. Se não vai casar-se com uma herdeira rica, conte-nos como ficou ainda mais rico, pediu, curioso, Gaston Montblac.
Muito fácil, meus amigos! Que outra maneira existe de um cavalheiro aumentar, do dia para a noite, a sua fortuna? Ganhei uma aposta! Que aposta, Louis? Você mesmo nos contou que esteve em casa, lendo, durante todo o dia. Depois, jantou connosco na casa do Bachelard e fomos juntos para a Martine..., lembrou Laurent. A menos que, agora, faça apostas com o seu mordomo ou com o seu cocheiro... E, por acaso, eu disse que tinha feito a aposta hoje? Contei-lhes, apenas, que a tinha ganho hoje. Aliás, para ser exactamente preciso, ganhei-a há menos de uma hora. Mas é uma aposta antiga. Louis riu. Enfim, não muito antiga..., tem duas semanas ou coisa parecida. O marquês de Villeclaire serviu-se de ostras e mostrou-se deliciado com o manjar que os amigos tinham escolhido para a ceia. Mas, em volta da mesa, mais ninguém comia e todos estavam suspensos do que Louis tinha para lhes contar. E como este parecia mais interessado nos mariscos do que em satisfazer a curiosidade deles, Marcel, o banqueiro, não se conteve: então, vai ou não nos dizer que aposta foi essa? Devia, antes, perguntar-me de quem ganhei a aposta, Bachelard... De quem?, perguntaram Pierre e Laurent em coro. Louis deu uma enorme gargalhada antes de responder: do morto! De Duvernois? Como foi isso?, quis saber Gaston. Eu lhes conto..., decidiu-se dizer, finalmente, Villeclaire. E contou aos amigos que, duas semanas antes, depois de ter estado com eles no baile da condessa de Balac, e quando já ia na sua carruagem a caminho de casa, não tendo sono, decidiu dar ordem ao cocheiro para parar no meio dos Champs Elysées. De repente, teve vontade de tentar a sorte na roleta, depois de uma noite com muita sorte com madame Bousquet, a bela ruiva casada com um dos maiores proprietários de Paris. Por isso, mandou o cocheiro parar e entrou no cassino Étoile». In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, Publicações dom Quixote, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.
                            
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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Aposta Indecente. Matilda Wright. «… as belas moças que trabalhavam em sua casa exibiam as suas formas esculturais dançando ou, simplesmente, conversando em pequenos grupos»

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«(…) Querendo ver tudo e, atrás de um túmulo, com habilidades de contorcionista tornando (…) e debruçando-se sobre a tampa do sepulcro para ser possuída… Helène aos gritos, os dedos cravados nas pregas de pedra de um manto real qualquer, descontrolada. O sacristão, velho e quase surdo, passando por ali e olhando espantado para a aflição daquela moça tão nova. Um antepassado, disse Villeclaire. Está muito comovida... Helène, a louca! Vem!, disse Louis abrindo os olhos, na urgência que as recordações de Helène lhe tinham deixado no corpo.
Monsieur, o conde de Joubert..., repetiu Cléa, e parecia uma menina, pálida, assustada, o pequeno corpo tremendo. Está lá em baixo, ferido, matou um homem... Villeclaire despertou imediatamente do torpor em que a noite com Cléa e as recordações de várias outras noites, muito antes de Cléa, o tinham deixado e saltou da cama, nu. Bertrand de Joubert não era exactamente um amigo e, apesar do título de conde, também não era um verdadeiro cavaleiro, mas era um velho conhecido, um vizinho cujo castelo no Vale do Loire ficava muito próximo do enorme palácio que Louis tinha herdado naquela mesma região. Vestiu-se às pressas, amaldiçoando as inúmeras peças de roupa que um homem elegante era obrigado a usar, e saiu do quarto, ainda atando a fita de seda com que prendia o cabelo, seguido por Cléa, pobre Cléa, em pânico.
Louis de Villeclaire foi um dos últimos clientes de madame Martine a entrar no enorme salão onde os grandes espelhos de molduras douradas reverberavam à luz das centenas de velas que ardiam, envolvendo o ambiente num cálido odor de cera e almíscar. As paredes, ricamente forradas de damasco azul, eram testemunhas mudas das muitas conversas ali mantidas ao longo dos anos. Negócios de Estado, vendas de bancos, nomeações de diplomatas, substituições de ministros, até o início da guerra na Crimeia, dizia-se, tinham sido decididas naquela sala onde Martine recebia os seus selectos clientes e onde, enquanto estes bebiam champanhe e fumavam longos charutos perfumados, as belas moças que trabalhavam em sua casa exibiam as suas formas esculturais dançando ou, simplesmente, conversando em pequenos grupos.
Mas não era nada disso que se passava naquela noite quando Louis desceu do quarto de Cléa e entrou no salão. Bertrand de Joubert jazia num dos canapés forrados de seda azul celeste, e o doutor Moreau, o mais famoso dos médicos de Paris, acabava de lhe colocar uma ligadura no braço direito. Havia na sala uma agitação desusada. Os risinhos das moças tinham sido substituídos por sussurros. Homens circunspectos conversavam em voz baixa. E Martine, mantendo o seu porte de rainha crioula, segurava a mão de Joubert. Vamos, onde se meteu? Por pouco não subi para arrombar a porta do quarto de Cléa. Pierre Forchemont puxava o amigo, a caminho da saída. O que é que aconteceu?, queria saber Villeclaire. Conto-lhe quando estivermos a salvo dentro da minha carruagem. A polícia não tarda a aparecer... E os outros? Marcel, Laurent, Gas... O marquês de Fochemont nem lhe deu tempo para acabar a frase: estão à nossa espera no Gascogne, com ostras e champanhe. Conto-lhe no caminho.
A carruagem que já os esperava na porta atravessou a Rue Saint-Honoré e, logo depois, os cavalos trotavam ao longo da Rue de Rivoli finda a qual depositaria os passageiros junto das magníficas arcadas da Place de Vosges, onde ficava o Gascogne, restaurante frequentado pela alta sociedade parisiense e com fama de ter as melhores ostras da França. Chovia torrencialmente e as grossas gotas de chuva batiam na capota da carruagem fazendo um barulho ensurdecedor, ainda piorado pelo som das ferraduras dos quatro possantes cavalos. Era impossível conversar, fazer perguntas. Por isso, Louis de Villeclaire limitou-se a ouvir o que o seu amigo Pierre de Fochemont contava, aos gritos e entre gargalhadas: uma aposta estúpida! Entre o Joubert e o Duvernois, o velho tabelião da Rue des Archives... Nem entendi bem! Uma confusão qualquer aos dados que acabou numa aposta sobre qual deles era mais rápido disparando uma pistola...
Villeclaire soltou uma gargalhada: dois apostadores inveterados e dois péssimos atiradores! Mas, pelo visto, ambos com a mesma velocidade no gatilho, disse Fochemont. O Joubert foi atingido num braço e a ironia é que, apesar de mau atirador, desta vez acertou no alvo. Matou o Duvernois... Matou? Villeclaire já não ria. Matou, respondeu Fochemont no momento em que a carruagem parava em frente à porta do restaurante. Saíram correndo para chegarem ao abrigo das arcadas antes que a chuva os deixasse encharcados. Onde foi isso? Marcaram encontro para esta noite, no Bois de Bologne. No Bois?, ainda perguntou Louis. No Bois, meu caro! Se é isso que quer saber, trouxeram o Joubert para a casa da Martine porque calcularam que o bom do Moreau lá estaria. Às três da manhã era a melhor maneira de lhe arranjarem rapidamente um médico, Pierre ainda disse, cínico, antes de empurrar a porta de madeira e vidro». In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.

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Aposta Indecente. Matilda Wright. «Como tudo era calmo naquela casa, nesse ano de 1834, quando Martine lhe pegou na mão e o conduziu pela enorme escadaria de mármore»

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«Havia duas coisas que Louis de Villeclaire não dispensava: um bom champanhe e mulheres bonitas. Como Cléa, a pequena alsaciana acabada de chegar à casa de madame Martine e que lhe mostrava que sabia usar a língua não só para falar quando foram interrompidos por vozes vindas do salão, no andar de baixo, e barulho de gente que corria e falava no corredor. Que inferno!, exclamou Louis erguendo-se num cotovelo, o belo corpo nu iluminado pelo enorme candelabro de doze velas que ardiam ao lado da cama. Cléa parou de lhe la… o interior das coxas musculosas. Olhou para ele um pouco assustada: será fogo?, a jovem abriu muito os seus já enormes olhos castanhos. Louis soltou uma gargalhada irónica. Fogo, Cléa? Diz antes a besta do Vertou! Não sei porque é que Martine franqueia a porta da sua casa a esses burgueses novos-ricos que não sabem portar-se como cavaleiros...
A moça saiu da cama com um salto ágil de gazela e envolveu as suas deliciosas curvas num luxuoso roupão de seda cor de pérola, bordado com exóticos pássaros azuis e laranja. Vou ver o que é..., disse Cléa, e saiu do quarto, fechando a porta atrás dela. Louis deixou-se ficar estendido na cama, irritado com aquela interrupção inusitada. A culpa era, certamente, de Vertou que não sabia nem beber nem tratar com mulheres e que, nadando em dinheiro novo, frequentava agora os melhores bordéus de Paris. Ainda há dois dias tinha armado um enorme escândalo na casa de Colette, numa festa em que ele e os seus amigos de pândega se deixaram açoitar com chicotes pelas moças. Um depravado sem maneiras! Até para se ser depravado era preciso ter educação. Essa era, pelo menos, a opinião de Louis de Villeclaire, ele próprio um depravado assumido. Uma fama lendária envolvia o seu nome desde a primeira noite em que pisara o melhor e o mais exclusivo bordel de Paris.
Oh! Como as coisas tinham mudado... Ainda se lembrava daquela tépida noite de primavera de 1834 quando o seu pai, o velho marquês de Villeclaire, o tinha trazido, pela primeira vez, a ele e a Gaston, o jovem príncipe de Montblanc, àquela casa. Ainda hoje, mais de vinte anos depois, podia sentir a maciez das alcatifas que atapetavam as salas, o cheiro suave do perfume das mulheres, o toque delicado dos seus vestidos soltos, quase transparentes, que mostravam mais do que encobriam. E lembrava-se de Martine, claro! Como poderia tê-la esquecido? O porte de rainha da bela mulata, os seus olhos verdes, amendoados, os lábios cheios, trocistas, recostada numa chaise longue forrada a veludo cor de sangue, lânguida. Lembrava-se de se ter sentido minúsculo perante aquela mulher de 40 anos que o olhava de cima a baixo e cujos olhos o atingiram como um raio. Da vergonha que sentiu de que os outros, o pai, sobretudo, pudessem perceber a sua aflição. E a mão de Martine a acariciar-lhe o rosto: como é bonito..., disse Martine, e o seu sotaque crioulo soou como música aos ouvidos do jovem Louis.
E depois, voltando-se para Gaston, passando-lhe os dedos pelos caracóis loiros: mon prince! Como tudo era calmo naquela casa, nesse ano de 1834, quando Martine lhe pegou na mão e o conduziu pela enorme escadaria de mármore que leva ao seu quarto. Louis tinha apenas 15 anos e sentia as pernas tremerem enquanto vencia os degraus. Mas também se lembrava que essa fora a primeira e única vez em que lhe custou subir aquelas escadas. Depois dessa noite, voltara milhares de outras noites. Quase sempre com Gaston, o cobiçado príncipe de Montblanc, e também com Laurent, conde de Juy, Pierre, marquês de Forchemont, e Marcel Bachelard, filho de um dos maiores banqueiros da França, burguês e judeu, é certo, mas educado pelos melhores preceptores de Paris e, por isso, um homem elegante, refinado e também ele um dos seus companheiros inseparáveis de diversão desde o tempo em que todos frequentavam o mesmo colégio. Como tudo era civilizado e silencioso na casa de Martine, em 1834 e nos muitos anos que se seguiram. Aconchegou-se mais entre as cobertas fofas da cama de Cléa e ficou pensando no calor suave de todos os corpos de mulheres que tinha amado naquela casa. Nanette, Renée, a louca Helène, insaciável, que fazia amor coberta de esmeraldas e contava que era filha ilegítima do czar Alexandre da Rússia...
O conde de Joubert, senhor marquês..., ia começar Cléa contando quando voltou a entrar no quarto, pálida, como se tivesse visto um fantasma. Louis voltou-se na cama, desagradado por aquela entrada intempestiva ter-lhe desviado o pensamento de Helène, a louca, com quem uma tarde tinha feito sexo atrás de um dos túmulos da cripta de Notre-Dame. Não seja mau, venha aqui comigo. Vou rezar para que o pai me aceite como sua filha. Quero vê-lo, tinha escrito no bilhete que lhe mandou pela criada. E ele foi, por vontade e porque não queria a tarde literária na casa da tia Clemence, princesa de Auvergne. Poesia chocha, chá quente, velhas cheirando a violetas e moças desengraçadas, mortas por o caçarem como marido, apesar da má fama que o envolvia, mas deslumbradas pelo seu título de marquês de Villeclaire e, também, pela sua enorme fortuna. Chatice por chatice antes as rezas de Helène para se tornar princesa da Rússia, à literatura da tia. Por isso foi e por isso mostrou a cripta da catedral a Helène quando ela, fazendo beicinho, lhe pediu: imagine, há dois anos vivendo em Paris e nem conheço a Notre-Dame! Helène, de repente, muito interessada nos pormenores da arquitectura mortuária francesa». In Matilda Wright, Aposta Indecente, 2011, Editor Livros d’Hoje, 2011, ISBN 978-972-204-776-0.

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