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sábado, 21 de março de 2020

A Alma Secreta de Portugal. Paulo A. Loução. «… apontando a necessidade de o salvaguardar e fazendo disso o primeiro imperativo moral da humanidade. Então, Sérgio ou Pascoaes? Decerto, que hoje, ao contrário de ontem, cada vez mais…»

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As três colunas da Cultura Portuguesa
Seara nova, a coluna da esquerda
Choca-me muito nos governos de esquerda a incapacidade que têm para sair do materialismo absurdo. In Maria João Pires

«[…]
ACF - Paulo, já nos conhecemos há algum tempo, lemo-nos mutuamente e, portanto, conhecemos as ideias um do outro. O Paulo certamente sabe que eu me encontro de alma e coração, quase por instinto, muito próximo das ideias do Teixeira de Pascoaes. É necessário observar com muito cuidado essas ideias, ao lado das de Sérgio. O Pascoaes diz que há um génio português; o António Sérgio contrapõe que não há génio nenhum e o que interessa é fazer tábua rasa da História e do passado. É óbvio que cada um deles tinha razão a seu modo e que o diálogo dos dois foi um diálogo de surdos. Se alguma verdade há nisto tudo, tem necessariamente de resultar, como bem viu o Paulo Alexandre Esteves Borges, da fusão dos dois. De qualquer modo, a fusão nunca será completa e cada época se aproximará mais de um ou de outro, consoante as necessidades que se fazem sentir são de ordem estreitamente material ou não. O que interessa para já é perceber como tudo funcionou na época deles e passou depois a funcionar na nossa. Pascoaes viveu muito isolado e foi muito criticado mesmo dentro da Renascença Portuguesa, até por companheiros próximos. 1912 é a data em que efectivamente a Renascença Portuguesa arranca; logo depois dela, em 1913-14, surge a polémica do Sérgio com o Pascoaes, onde o confronto se faz essencialmente em torno da industrialização do país, com Sérgio a apontar a florescente indústria inglesa como exemplo e Pascoaes a defender a conservação do tecido rural português. Pascoaes percebe que está sozinho e que tem muita dificuldade em fazer passar as suas ideias, que dão continuidade ao último Eça e sobretudo ao democratismo republicano de um Sampaio Bruno. Mesmo companheiros com afinidades fortes como Jaime Cortesão começam a ter dúvidas em relação à eficácia do saudosismo. As ideias de Antero, que a própria geração de 70 acabara por abandonar, voltam a conhecer um avanço. Temos de nos introduzir no tempo, que era o deles. Pascoaes, quando faz afirmações como aquela que o Paulo repetiu há pouco, é uma espécie de profeta que tem razão antes do tempo. Na situação do Portugal de 1910, a ideia de fazer tábua rasa do passado era cativante e popular. Para homens como o Cortesão, como o Leonardo, e até como o Bruno, homens que tanto se empenharam na queda da monarquia, a ideia de que era preciso partir do zero, era uma ideia cativante, que perturbava a cabeça das pessoas. Além disso, é preciso pensar que, naquele momento, toda a Europa representava um padrão único de desenvolvimento, que ninguém se atrevia a pôr em causa. O único que o pôs em causa foi o Teixeira de Pascoaes. Por isso, eu digo que este homem está isolado no seu tempo, uma espécie de profeta com razão antes do tempo. A dissidência da Seara, arrastando com ela tantos renascentes de primeira linha (a bem dizer só ficaram Pascoaes e Leonardo), é, neste contexto, fácil de entender. As ideias de Antero quanto ao país pareciam muito mais fáceis de aceitar que as de Bruno. O país parecia era ter falta de pão, como dizia o Sérgio, e não de saudade, como adiantava o Pascoaes. Só hoje, em função daquilo que se passa no mundo, uma delapidação suicida de espécies e de recursos, é que nós entendemos a força das ideias saudosistas, quando elas insistem em olhar para o passado, apontando a necessidade de o salvaguardar e fazendo disso o primeiro imperativo moral da humanidade. Então, Sérgio ou Pascoaes? Decerto, que hoje, ao contrário de ontem, cada vez mais Pascoaes e menos Sérgio, apesar da atenção que as ideias deste merecem. Nós já percebemos que estamos num ponto da civilização em que a falta de atenção pelo passado, e pelo património natural e humano que lá se inclui, se está a tornar numa perda irreparável e suicidária. Logo, quando Pascoaes fala do passado naquele tempo é uma coisa, quando se fala do passado hoje é outra. E aqui, Paulo, entra uma ideia chave, a ideia de progresso, que é por excelência a noção social do António Sérgio da época.
PAL - Sem qualquer dúvida...
ACF - É a ideia que vem da razão iluminista dos séculos XVII e XVIII, a ideia que está na base do desenvolvimento económico da revolução industrial do séculos XVIII e XIX e a ideia que fundamenta a geração de 70, e a crítica que esta geração faz à sociedade portuguesa; é também a ideia de base do pensamento de António Sérgio e dos seareiros em geral. Acrescente-se que na altura era quase impossível questionar o progresso; quem é que se arriscava no início da República a fazer causa contra o progresso? Só mesmo o Pascoaes, com o pano de fundo dialéctico que o Bruno lhe deu. Até o Pessoa escreveu aquelas odes triunfais à electricidade e à mecânica, que são uma coisa hoje mais que datada, se não ridícula. O progresso era para todos eles, à esquerda ou à direita, a panaceia para salvar o mundo; e daí as afinidades de Integralistas e Seareiros, que ainda chegaram a colaborar entre si. Ora, no século XXI, nós não encaramos mais o progresso dessa forma. Temos cada vez mais uma noção exacta das contradições malignas que o progresso encerra.
PAL - Sim, mas de qualquer maneira essa forma mental continua a dominar. Ainda ontem ouvi uma entrevista do Presidente da República, na TV Cabo, parece não despertar audiência nos canais tradicionais, afirmando que a panaceia está na inovação e na produtividade. Ora, não colocando em causas essas necessidades, tem de se salientar que não há cultura nem espírito no seu discurso, nem preservação do património, nada disso existe.
ACF - Aquilo que talvez valha a pena lembrar, é que o Jorge Sampaio é um resultado da Seara Nova e do pensamento de Sérgio, naquilo que ele tem de bom e de mau. Portanto não é uma surpresa que ele exponha essas ideias. Agora também é preciso saber contextualizar um discurso de Jorge Sampaio, enquanto Presidente da República, em função das determinantes da política internacional; e nós sabemos que a política internacional, sobretudo quando orientada pelos Estados Unidos, continua dominada por uma ideia muito ingénua e nociva de progresso. O que fica em causa é a necessidade de mudar de paradigma, de abandonar um modelo de progresso linear e exponencial. Precisamos de um novo paradigma que nos faça olhar para o passado e nos obrigue a preservá-lo. O progresso é o futuro, mas neste momento o que percebemos é que sem passado não podemos ter futuro. Portanto, há aqui um novo modelo social a nascer que põe em causa o progresso simples, de uma só dimensão, tal como Antero e Sérgio ainda o entendiam. Ora o que eu queria dizer há pouco, quando adiantei que o Pascoaes era um dos que teve razão antes do tempo, é que ele, Pascoaes, tem, pela primeira vez, numa altura em que isso parecia prematuro, uma ética da salvaguarda e da conservação da natureza. É importante que se diga que esta ética não exclui, de modo nenhum, no saudosismo, uma ética da liberdade humana». In Paulo Alexandre Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-860-515-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

A Alma Secreta de Portugal. Paulo A. Loução. «Pode talvez dizer-se que a Seara dá origem àquilo que é o Partido Socialista de hoje em dia, constituindo assim o elo de ligação entre o Partido acutal, fundado nos anos setenta…»

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As três colunas da Cultura Portuguesa
Da Geração de 70 à Renascença Portuguesa
«[…]
Porém, ao mesmo tempo, isto é inconsequente, porque se há um ideólogo, antes do Salazar, para o Estado Novo é o António Sardinha. Salazar era um monárquico e um monárquico de inspiração integralista, que nunca escondeu as suas leituras e as suas primeiras simpatias. A matriz ideológica e cultural de Salazar é o Integralismo Lusitano. Agora é preciso ter em atenção que os quarenta anos do salazarismo são complexos e muitos dos integralistas vão-se incompatibilizar com Salazar e com o regime, e nem sempre por razões de ordem pessoal.
O Integralismo Lusitano dura até aos anos sessenta ou setenta; não me parece que se possa falar hoje, com propriedade, em pensamento integralista. Falta agora falar da segunda braçada, a da esquerda, a da Seara Nova.

Seara nova, a coluna da esquerda
Choca-me muito nos governos de esquerda a incapacidade que têm para sair do materialismo absurdo. In Maria João Pires

ACF - Esta segunda braçada é hoje muito mais importante; nasceu duma divergência directa da Renascença Portuguesa. O António Sérgio e o Raul Proença, vindos da Renascença, e arrastando com eles o Jaime Cortesão e o Augusto Casimiro, vão fundar, em 1921, a Seara Nova. Surge assim uma corrente de pensamento que, nascendo logo em 1912, dentro da própria Renascença, com os textos de Proença e Sérgio, se vai depois autonomizar como parcela, sobrevivendo ao próprio desaparecimento da sociedade-mãe, a Renascença, em 1932. Ela caracteriza-se, no essencial, por um regresso às teses mais duras da geração de 70, em especial às do Antero das Causas da Decadência, que foi uma das palestras que ele fez no Casino do Chiado, deixando de lado toda a matização ou graduação crítica que a geração de 90 fez dessas teses. Essa corrente engrossará muito, por reacção ao Estado Novo, e sobretudo à sua fachada propagandística, transformando-se na principal corrente oposionista não-comunista. Pode talvez dizer-se que a Seara dá origem àquilo que é o Partido Socialista de hoje em dia, constituindo assim o elo de ligação entre o Partido acutal, fundado nos anos setenta, e o do tempo de Antero e José Fontana. O Mário Soares é (era) um colaborador da revista e o seu mestre é o António Sérgio, não o Agostinho da Silva. Por muito que este tenha gravitado, em certa época, na órbita do racionalismo francês de Sérgio, Agostinho da Silva nunca acreditou piamente nas ideias de industrialização, urbanização e escolarização. Creio que foi num Governo do Partido Socialista que se instituiu a nota de cinco mil escudos com o António Sérgio. O Sérgio transforma-se numa figura popular depois do 25 de Abril. Há bairros, escolas e ruas com o seu nome por todo o país. É pior que o Cândido dos Reis. Mas atenção, também há o risco de eu estar a distorcer alguma coisa, porque o Sérgio tem uma dívida muito grande para com o idealismo puro do Antero. O António Sérgio não tinha o mínimo espírito prático para governar, mas tinha ideias, as ideias que ele bebera em Antero e que ele soubera adaptar muito bem à situação do seu tempo. Sérgio foi assim uma espécie de ideólogo da nova democracia portuguesa. De qualquer modo, não se pode dizer que o Mário Soares quando governa depois do 25 de Abril isso corresponda àquilo que o António Sérgio tenha efectivamente pensado e até desejado para o país. A governação de Soares e a ideação de Sérgio estão porventura muito longe uma da outra.
Repare que o António Sardinha está na mesma posição em relação ao Oliveira Salazar. Aquilo que o integralismo pensa através da cabeça de António Sardinha não é provavelmente aquilo que o Salazar depois vai fazer no Estado Novo. O que eu vejo aqui, nesta história do Sardinha e do Sérgio, são duas colunas triunfantes; isto é que valeria a pena ter em atenção. No meio, impassível e sereno, corre o grande rio, o rio desatendido, que nunca triunfa, mas que ao mesmo tempo está sempre presente, a Renascença Portuguesa.
PAL - O António Sérgio, na sua polémica com Teixeira de Pascoaes, mostra ter muito pouca sensibilidade para a espiritualidade e afirma não existir um génio especificamente português; enquanto Pascoaes sustenta que alguém, se quiser compreender o país, tem que ir à História, para assim captar os seus arquétipos fundamentais. Neste célebre confronto, a seguinte citação do seu artigo parece-me merecedora de reflexão: a coluna central da cultura portuguesa, portanto a renascença do século XX, foi malignamente esmagada pelos violentos encontrões da direita e da esquerda que preferiram disputar entre si a seiva da árvore [portanto existe uma seiva da árvore que seria o passado, a experiência do passado, penso eu] mesmo com o risco de poderem secar as raízes a reconhecerem honestamente o tronco central donde brotaram. A leitura que faço do seu texto, é que existe uma seiva, que no fundo é o património do passado, e que aqueles que negam existir essa seiva são os que se estão a aproveitar da mesma..., seria cómico se não fosse trágico. No seu modo de ver, existe um génio especificamente português?» In Paulo Alexandre Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-860-515-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

A Alma Secreta de Portugal. Paulo A. Loução. «António Sardinha morre em 1925, antes da revolução do Estado Novo e, portanto, antes da vitória das suas ideias. É por isso que o António Sardinha permanece numa margem indefinida…»

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«O que diferencia um tronco flutuante
de uma barca feita da mesma madeira
é que esta última tem remos e pode
vogar contra a corrente»

«Conservar a infância é levar dentro de si, desperta e pronta, uma misteriosa lâmpada capaz de conduzir a luz até à alma das coisas». In Leonardo Coimbra

«Toda a luz desenvolve no seu seio um núcleo poderoso de trevas, tal como a sombra desenvolve um ponto de luz». In António Cândido Franco

As três colunas da Cultura Portuguesa
Da Geração de 70 à Renascença Portuguesa
«[…]
PAL - Temos aí o percurso da geração de 70 até à Renascença, onde Teixeira de Pascoaes regressa às tradições.
ACF - Sim. Por essa razão é que eu lhe chamava a atenção para a existência dessa geração intermédia, que é a de 90. Entre um Leonardo Coimbra e um Antero filósofo, há um Sampaio Bruno e entre um Pascoaes e um Eça, há um Raul Brandão, como entre um Junqueira e um Mário Beirão há um António Nobre. Quando nós vemos a prosa de um Eça, sobretudo até aos anos 90, e a prosa de um Pascoaes, sobretudo depois de 1921, nós sentimos que aquilo são dois mundos incomunicáveis. Mas eles têm, ainda assim, um fio de ligação.
PAL - No século XX temos as tais três colunas que expressa no artigo que citei de início. Poderia transmitir em síntese essa sua análise...
ACF - No fundo é tentar organizar com um mínimo de inteligibilidade e de clareza aquilo que foi a vida cultural portuguesa no último século, tentando encontrar famílias de pensamento, de ideias, de estilos. Daí esta ideia de três correntes, três famílias ou três colunas, que dão corpo à cultura portuguesa no século XX. A Renascença parece-me a linha central, porque é aquela que arranca do século anterior, arrancando raízes na geração de 70, melhor, no cruzamento desta geração com a seguinte, a geração de 90, Eça e Bruno, Junqueira e Nobre. São estes casamentos que vão dar origem ao nascimento de uma nova camada geracional que será, no momento re-fundador da República, a da Renascença Portuguesa. Mas, evidentemente, a Renascença Portuguesa não é o único corpo cultural do século passado em Portugal. Há, pelo menos, duas outras famílias que se destacam, a dos integralistas e a dos seareiros. De qualquer modo, ambas deitam raízes na Renascença, funcionando quase como dissidências. Portanto, a Renascença é um tronco, não sendo uma raiz; a raiz são as origens diversificadas de que falámos e que estão lá na parte final do nosso século XIX. De qualquer modo, a Renascença é um tronco suficientemente forte para depois se desmembrar em dois ramos, um à direita e outro à esquerda, e daí as três colunas. O ramo da direita é o Integralismo Lusitano, como o da esquerda é o da Seara Nova. No primeiro, pontifica o António Sardinha, no segundo, o António Sérgio. Comecemos pela ramada da direita. Há afinidades fortes de Sardinha e da Renascença, sobretudo na tentativa de compreender Portugal. Sardinha começa por ser um republicano entusiasta em 1910, depressa se tornando um desiludido. Transforma-se num pensador da portugalidade, que é um conceito criado por ele, e dá origem ao Integralismo Lusitano que vai constituir a raiz cultural e política do Estado Novo. Todo, ou quase todo, o pensamento monárquico se reencontra no Integralismo depois da queda da monarquia. Para os monárquicos, o 5 de Outubro representou uma espécie de apocalipse, um fim de mundo; houve depois dele a necessidade de readequar o pensamento monárquico à nova situação que era a República.
PAL - Tem a raiz nos absolutistas, em parte...
ACF - O Integralismo é curioso. Não sou um especialista do assunto, nem li o Sardinha todo de uma ponta a outra, ou pelo menos não o tenho todo presente, mas mesmo assim dá para perceber o que se passou ali. O ponto de partida dele é o seguinte: uma monarquia que tivesse sido forte nunca justificaria uma república. Logo o único caminho para reabilitar o pensamento monárquico era pôr em causa tudo aquilo que estava na origem da revolução republicana, quer dizer a monarquia que então existia, liberal e constitucional. Daí o integralismo se ter aproximado muito, logo desde a origem, da linhagem política miguelista, afastando-se da tradição liberal. As duas linhagens da monarquia portuguesa eram: a constitucional, de raiz democrática, e a miguelista, de sinal absolutista, que fora vencida pela Convenção de Évoramonte, em Maio de 1834. Logo o Integralismo vai reabilitar não só a monarquia, mas aquilo que a monarquia não tinha sido, ou não pudera ser com a derrota de dom Miguel. Percebe-se bem nesta origem anti-liberal e anti-constitucional do Integralismo a raiz do Estado Novo posterior, com a proibição do pluralismo político e a ditadura de um único homem. O salazarismo acabou por ser, com a paternidade Integralista, o retorno dessa nebulosa recalcada que era o miguelismo derrotado de 1834 e que fora aparentemente arrumado e esquecido, a partir de 1850, com a Regeneração fontista. Não vale a pena, porém, esquematizar demais, porque tudo isto é muito mais complexo, pois implica uma leitura do país, em muitos aspectos, original. É uma leitura com afinidades com Alexandre Herculano e até com certos republicanos, como Henriques Nogueira, sobretudo a partir do municipalismo da Idade Média. É certo que se implica sempre nisso, e de uma forma obsessiva que se torna prioritária, um pensamento reaccionário assumido. É o pensamento da coluna da direita.
PAL - Já se pode falar de extrema-direita?
ACF - Pode. Exactamente nestas franjas da monarquia anti-constitucional que o Integralismo vai começando a criar. O Integralismo Lusitano capta muito rapidamente fatias importantíssimas da população portuguesa, sobretudo intelectuais e jovens. Essas fatias são muito heterogéneas entre si, indo desde os católicos simples e apolíticos aos anti-liberais militantes, de tradição absolutista, que eram residuais, mas continuavam a existir. É nesse caldo que se forma a moderna extrema-direita em Portugal.
PAL - Sobretudo, graças à desordem do país.
ACF - Claro. Há sempre nas situações caóticas um pensamento de reacção. Esse pensamento tem tendência a tornar-se facilmente popular. Ora, o António Sardinha, numa situação de dificuldades crescentes, que se agravam a partir de 1914 com a Grande Guerra, cria um pensamento com o objectivo de demolir a República e daí o seu favor rápido.
PAL - É um propagandista...
ACF - É um propagandista, claramente. É um homem de Partido. Agora, caso curioso, António Sardinha morre em 1925, antes da revolução do Estado Novo e, portanto, antes da vitória das suas ideias. É por isso que o António Sardinha permanece numa margem indefinida. Há muito boa gente que sempre me disse que o Sardinha nunca teria aderido ao Estado Novo». In Paulo Alexandre Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-860-515-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

domingo, 17 de novembro de 2019

Os Pecados da Rainha Santa Isabel. António Cândido Franco. «O levantamento teria o apoio dos ricos-homens e dos mesteirais e levaria a todas as bocas do orbe cristão, a luta do império e do papado»

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«(…) Mas as consequências do abalo não ficaram por aí. Também Aragão tremeu. As fundações da federação aragonesa-catalã eram rijas, mas o reino estava descabeçado e sem ordem. A batalha, goela aberta e funda, maré-cheia de inesperados destroços, levara o rei e engolira na onda gigante uma parcela de monta do escol militar. O herdeiro, uma criança com oito anos, fora aprisionado nos cárceres da alcáçova de Carcassone e lá esperava o seu destino. Corria que Simão Monforte o mandaria executar em breve pelo mesmo carrasco que degolara o jovem Raimundo Trencavel. Fazia-se fé que depois do fim de Jaime I o exército dos cruzados, entusiasmado por tão decisiva campanha, passaria os Pirenéus, engolindo na passagem o reino de Aragão e o condado de Barcelona, cuja fama herética era tão sulfurosa como a do de Toulouse. O mesmo abade do Demo que o fez visconde nas masmorras de Carcassone e depois conde nas de Toulouse, o faria malogrado nas de Saragoça e de Barcelona, sussurravam, impotentes e furiosos, os ricos-homens de Aragão que haviam escapado vivos do desastre de Muret.
O papa não esteve porém pelos ajustes. Caso a desordem incendiasse as terras de Saragoça e de Barcelona, o rei da Sicília, o futuro Frederico II, levantar-se-ia em armas, mais tarde ou mais cedo, exigindo para a esposa o trono da confederação. Estava casado com uma irmã de Pedro II, Constança de Aragão, na qual, na ausência de Jaime I, recaia a coroa do reino. O levantamento teria o apoio dos ricos-homens e dos mesteirais e levaria a todas as bocas do orbe cristão, a luta do império e do papado. Frederico Hohenstaufen era então um jovem de dezanove anos, que devia a sua ascensão à protecção interessada de Inocêncio III. Iniciara porém uma administração da Sicília em jeito de novidade, tomando a indulgência religiosa como alicerce. As chamadas heresias cristãs eram toleradas e viviam em meia paz, sem serem importunadas. Os judeus frequentavam as esnogas com a mesma segurança com que um cristão entrava no templo onde se guardava o santo cibo. E até os muçulmanos gozavam duma liberdade inusitada, mostrando o jovem soberano uma singular inclinação pelas formas recessas da mística islâmica. O caso fazia escândalo numa Igreja que tomava por gangrena qualquer desvio. Mas pior que a indignação, era a inquietação, pois tudo corria na propinquidade dos Estados do papa. Naquele tempo o reino da Sicília não se ficava pelo triângulo do Etna mas entrava pelo continente, subindo no Adriático quase até Ancona e no mar Tirreno até às margens do Tibre.
Melhor me vai o herdeiro de Aragão como refém que como cadáver, declarou o papa, tudo ponderando, quando lhe falaram nos propósitos desmedidos do novo conde de Toulouse. Mandou suspender a execução do filho de Pedro II e negociou com os templários de Narbona a hospedagem da criança. A coroa de Aragão salvava-se mas ficava refém do papa. O futuro do reino, depois daquela hecatombe, era incerto como o destino duma flor emurchecida pela geada tardia. Inocêncio III, conde de Segni, via-se nessa época como um homem que acabava de ganhar o bastante para se retirar satisfeito, não para deitar tudo a perder num gesto perdulário. Tinha outros negócios onde aplicar o que de turbulência lhe restava; Aragão ficava-lhe bem assim de cariz dobrado e língua decepada nos condados da Gália meridional. O que agora lhe ia era uma expedição de cruz e arrocho à Prússia pagã, na ponta da Europa, depois do Elba, nas praias frias e cinzentas do mar Báltico. Permita-me o leitor uma palavra mais demorada sobre Inocêncio III, verdadeiro causídico da época. Forjara em jovem a sua ambição na luta da Igreja contra o primeiro Frederico. Batera-se depois pela cadeira do apóstolo Pedro, afirmando que a Igreja só veria o porvir se avançasse pelo princípio de Alexandre III, que reservara ao papa a autoridade soberana e deixara aos reis o mero poder de administração. Quando se sentara no sólio, prometera um pontificado decisivo na vassalagem da Cristandade à Santa Sé». In António Cândido Franco, Os Pecados da Rainha Santa Isabel, Ésquilo, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-809-289-2.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Vida Ignorada de Leonor Teles. António Cândido Franco. «Continuava a enganar as insónias com o som das trombas de prata, longas e canoras, saltando ligeiro para a rua e convidando com berratas os mesteirais e os homens-bons a dançar com ele»

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O Comércio do Invisível
«(…) Leonor olhou para uma roseira que tinha na portada do estrado da varanda. Era o início do mês de Março e os dias nasciam luminosos e claros. A roseira estava cheia de rebentos novos, onde espreitavam, da grandeza duma unha, leques de folhas vermelhas. Podara-a com suprema delicadeza em Outubro ou Novembro. Juntara à severidade dos cortes um pedido intimo de escusas. Acreditava numa sinergia de afectos, numa convergência de propósitos entre a sua vida e a do reino vegetal. A roseira ganhara durante os meses parados do Inverno uma seiva vigorosa que subira pelos veios e explodia agora em todos os nós. Num dos cantos, sobre um dos pedúnculos mais adiantados, uma cheia rosa vermelha, estoirara o envólucro verde das suas sépalas verdes e mostrava, num punho cerrado, as suas pétalas virgens e vermelhas, prontas para abrirem à luz da Primavera. Eu sou assim como esta rosa, exortou, encostando os dedos às pétalas vivas que guardavam no seu seio os filetes minúsculos dos estames. Não posso viver sem os espinhos que a guardam.

Veio por fim um dos mais esperados momentos da vida de Pedro de Portugal. Tinha nos cárceres do sobrinho de Castela dois dos matadores de Inês, Álvaro Gonçalves e Pero Coelho. Corria que Diogo Lopes Pacheco conseguira à última hora, por um acaso milagroso, escapar aos meirinhos de Pedro de Castela, mas à boca fechada dizia-se que a fuga fora combinada por intermédio do camareiro-mor do rei de Portugal, João Afonso Telo, com o acordo tácito do soberano. Contentava-se o rei com os outros dois, deixando homiziado o Pacheco, cunhado ainda do seu conde. Por outro lado, o túmulo real de Inês avançado ia em Alcobaça. Tinha-o nas mãos um mestre canteiro que parecia haver compreendido, assim se dizia na corte, o desígnio de eternidade que Pedro pedia para o seu amor. O rei não tinha repouso. Há anos que esperava aquele momento. A justiça que praticava nos desgraçados que ia apanhando pelos caminhos e pelos lugarejos mais distantes já não tinha sabor. Continuava inexorável, mas baraço e chicote não passavam agora do ensaio do grande drama que vislumbrava próximo. Queria nas mãos os matadores de Inês. Antes disso, pensava ele, o seu sentido de justiça sempre sofreria maleita insanável. Tinha nos seus calabouços da alcáçova de Lisboa os quatro castelhanos que o sobrinho exigia para lhe entregar os dois ministros do pai.
Toste se faça a troca na fr..., fronteira de Elvas, ordenou ele ao seu primeiro camareiro. Os bargantes de Castela sa..., saem de Lisboa e os satanases que abocanharam a inocente de Sevilha. Ve…, venham os perros, venham do inferno que danças e tr..., trebelhos hemos cá para eles, eh-eh. Sonhava aquele momento com raiva, uma raiva boa, porque a sentia vibrar dentro de si em nome da justiça, que era para ele a virtude pura, sem mistura de manchas ou de interesses. Para Pedro não havia Deus sem justiça; o entendimento de Deus, que era Pai, traduzia-se na ideia de justiça. Por isso exigia momento a momento ao canteiro de Alcobaça que na pedra do túmulo da sua amante e santa figurasse aquele episódio que era para ele o sinal da vontade divina, o Juízo Final. Pudesse ele ser o Deus desse momento! Que bem se via no lugar do Pai do céu! Quem lhe dera nas mãos a missão de julgar a multidão final das almas!
Continuava a enganar as insónias com o som das trombas de prata, longas e canoras, saltando ligeiro para a rua e convidando com berratas os mesteirais e os homens-bons a dançar com ele. Primeiro, aliviado de pensamentos negros, bailava ao som das trombas de prata dos seus pajens; depois, quando os alvores da madrugada despontavam a oriente e a luz viva das grandes tochas começava a empalidecer, mandava o mordomo-mor ao paço trazer viandas, pão e vinho para que todos comessem e bebessem antes do destroçar». In António Cândido Franco, Vida Ignorada de Leonor Teles, Edições Ésquilo, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8092-59-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Vida Ignorada de Leonor Teles. António Cândido Franco. «Não vades pelo silêncio. Dizei já: que pensais vós de min? Sentindo-se em aperto, Maria Peres acabou por falar. Que quereis que vos diga, senhora?»

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O Comércio do Invisível
«(…) Cães, tão vulgares nas casas dos ricos-homens, recusava ter. Não suportava os odores fedorentos que produziam, os uivos sinistros que emitiam e aquela fome desencontrada e carnívora que todas as manhãs manifestavam e que só o sangue fresco apaziguava. Incensava ao invés os caracóis, em que via uma forma perfeita, depositária da ordem primordial da criação terrena. Esses seres escusos, esquivos e escorregadios haviam transitado sem mudança relevante do plano ascendente do Paraíso para o plano inclinado da Dor; por isso, na sua casca impenetrável se inscrevia em misteriosas pintas a escada de Jacob, que subia da Terra para os mundos superiores. Tinha ainda consigo uma toutinegra em liberdade, que lhe dava a ouvir todas as manhãs a filigrana da sua voz de oiro. Cativara-a apenas com a sua presença. E as plantas que cresciam e se desenvolviam nos aposentos de Leonor Teles não eram apenas motivos inertes de decoração; eram seres vivos, que respiravam e pensavam a seu lado. A elas dirigia a filha de Martim Afonso Teles a palavra, convicta de ser entendida.
Vós me entendeis melhor que uma formatura de letrados, costumava ela dizer, afagando com as mãos as labaredas de fogo verde que se soltavam no ar. Exigia no mais pequeno pormenor o mais sério requinte; a harmonia era para ela a memória da Luz celeste. Na beleza terrena via a derradeira emanação do fulgor divino e no canto dum pássaro humilde, escondido nas moiras silvestres, sentia a música do Verbo do Criador. A beleza era tudo, pois na beleza da Terra é que vinha morrer o último raio do esplendor das Alturas. Mas a beleza terrena, sendo a derradeira orla do manto divino, um efeito ainda da ofuscante Luz cimeira, não podia outrossim deixar de ser, num mundo que a cada instante morria por lhe sentir a falta, motivo de disputa e de ciúme. Por isso, quando a epifania da Beleza divina se dava, a reserva se impunha. Guardar silêncio é obrigação de quem tem a seu cargo um segredo; mas quando o sigilo é a boceta de Pandora (origem de todos os males) a obrigação passa a dever inviolável.
Um dia, em que se sentia impaciente com as exigências dos irmãos, que insistiam na sua companhia num passeio a Rates, interrogou Leonor Teles a camareira Maria Peres. Que pensais vós de mim? A Peres não soube que responder. Conhecia a mascarilha de seriedade que a donzela costumava usar junto dos tios, dos irmãos e dos primos e habituara-se à sua distensão na intimidade, com as momices próprias duma cortesã mimada. A bem dizer, só ela conhecia esse seu semblante de alívio e brincadeira. Nem a tia Guiomar, regrada de mais para a braveza solitária com que a menina tratava a vida, tinha notícia daquela alegria tão fresca e desusada. Encolheu os ombros e riu-se como quem se esquiva a entrar na conversa. Insistiu Leonor.
Não vades pelo silêncio. Dizei já: que pensais vós de min? Sentindo-se em aperto, Maria Peres acabou por falar. Que quereis que vos diga, senhora? Que ninguém vos conhece? E certo que sim. Quem sois ou quem pareceis? Mester esse azarado. Mais de jeito vai de vos dizer o que não sois. E decerto que não sois como as fustas que arribam às areias de Esposende, para enfunardes as velas e mostrardes o rosto.
Leonor olhou-a sem surpresa. Maria conhecia-a melhor do que qualquer outro. Ainda assim, estava longe de perceber o vulcão que ardia dentro dela e sobretudo desconhecia aquele sentido interior que lhe activava a visão mediúnica. A sua discrição era incondicional. Maria Peres era porém para ela nessa época a única ponte com o mundo. Digo-vos para vosso cuidado. Este mundo me ofende e ensandece. Não lhe pertenço nem o quero. Falais assim por causa do agravo com vossos irmãos?» In António Cândido Franco, Vida Ignorada de Leonor Teles, Edições Ésquilo, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8092-59-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Vida Ignorada de Leonor Teles. António Cândido Franco. «Na intimidade, expandia-se. Deixava de lado a cor escura da capa, o resguardo do capuz, a sombra do silêncio. Rodeava-se de cores quentes e impressivas, como o amarelo e o laranja; perfumava o ar de essências capitosas e inebriantes»

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O Comércio do Invisível
«(…) A luta que se travava no plano visível da Natureza degradada, com seres cegos e impiedosos, devorando e sendo devorados, continuava de forma ainda mais atroz no plano das emanações invisíveis terrenas. Uma fada que fosse cooptada por um monstro, servia de imediato as disformidades do seu hospedeiro, perdendo-se para sempre. O contrário porém era impossível; nenhuma fada, nenhum elfo ou nenhum génio volátil, emanação do mais leve e anódino animal de asas e penas, se podia tornar hospedeiro dum monstro, reformando-o dentro de si. Enquanto a humanidade não deixasse de ser pábulo das trevas, as benéficas emanações da Natureza material haviam de continuar a viver uma vida de fugitivas, sem qualquer possibilidade de exporem a sua mansidão, vencendo o horror das emanações disformes.
Leonor Teles, tendo visitado os planos angélic osda criação anterior à formação da Terra, possuía na alma uma irremediável nostalgia do além. O seu narural impulso atirava-a para esse píncaro de Luz, onde o Criador residia num estado próximo do Nada, alimentando-se em si, de si e para si. Tinha por isso momentos em que detestava estar viva, na Terra, sendo pertença da mesma criação terrena que parira lobos carniceiros, ursos ferozes, insectos sanguinários. Sentia-se anjo, essência nómada, olor luminoso, não mulher. Não percebia porque razão adquirira um vestuário de carne e sangue, idêntico ao de tantos seres densos, cegos e inferiores. Nessas alturas, em que a tristura de se sentir viva era tanta, falando alto consigo, como lhe sucedia sempre que estava só, desafogava. Isto é uma tulha do Inferno. O demo me prendeu a esta terra maldita de vinte passos!
Outros momentos tinha em que se adequava melhor à sua situação carnal, compreendendo que depois da vinda de Cristo à Terra era mister continuar uma obra de resgate, em que ela teria, não sabia onde nem como, um papel escolhido. Havia o sinal de Caim e o sinal de Jesus; aquele era uma nódoa escura, um ponto negro, e este um fumo branco, uma fragrância estonteante, derradeiro e precioso vestígio das correntes do bdélio que o paraíso terreal, no momento inicial da criação, conhecera. Por isso a tunicela de aromas estonteantes que de quando a quando na solidão a visitava de modo tão inebriante era para a jovem Leonor Teles o traço da sua aliança com Jesus. Nela o perfume era uma essência espontânea da alma e não uma exalação exterior. Não precisava de procurar as destilações exteriores que faziam o furor da irmã e da prima para sentir as sublimações da transcendência. Esse traço lhe chegava para saber que, não conhecia onde nem quando, teria um papel a desempenhar na história da redenção do mundo terreno.
Por agora, calava e escondia. Guardava o interior dos seus aposentos para manifestar aquilo que mais cerca andava da sua essência. No exterior reservava-se no silêncio, por vezes até na rispidez, não se desavindo por passar por aquilo que não era, uma menina brava e de mau humor. Na intimidade, expandia-se. Deixava de lado a cor escura da capa, o resguardo do capuz, a sombra do silêncio. Rodeava-se de cores quentes e impressivas, como o amarelo e o laranja; perfumava o ar de essências capitosas e inebriantes; adorava a voluptuosidade dos tecidos raros e aveludados. Os seus aposentos nada tinham da cela austera duma casa religiosa; antes pareciam os paços duma princesa mimosa que não suportasse senão o esplendor duma manhã ruidosa de Maio. Caprichava nos adornos, nas colgaduras, nos bordados a fio de oiro; cercava-se de plantas e de flores, que ela própria cuidava, delas tirando um brilho invulgar». In António Cândido Franco, Vida Ignorada de Leonor Teles, Edições Ésquilo, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8092-59-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

O Mar e o Marão. Conferência-Manifesto. António Cândido Franco. «A grandeza do Passado, Antero não o diz explicitamente mas é fácil depreendê-lo, teria sido justamente a de ter contribuído como mais nenhum outro momento para a criação do mundo moderno»

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O Mar e o Marão
«(…) Esta ideia dum mar fechado, vem já dos primórdios da expansão marítima, talvez do tempo das bulas de Nicolau V e Calisto III ao Infante Henrique, respectivamente de 1454 a 1456, e é outro dos sinais da imperfeição do nosso passado, um sinal que diminui decerto a grandeza dessa unidade física da Terra, a que os portugueses tão esforçadamente se entregaram. Essa unidade da Terra constitui, aliás muito justamente, um dos factos da glória portuguesa, mas, não constitui no entanto, o facto maior da sua grandeza passada ou futura.
O hábito de olhar exclusivamente para o passado quando procura, por os feitos da nossa glória, pode-nos colher indevidamente, escondendo-nos as mais altas sínteses da nossa história.
A ideia exposta por Antero de Quental nas Conferências do Casino sobre a decadência dos povos peninsulares tem uma frase paradigmática que, pelas implicações, vale a pena transcrever:

Nos dois últimos séculos não produziu a Península um único homem superior que se posso pôr ao lado dos grandes criadores da ciência moderna: não surgiu da Península nem uma só das grandes descobertas intelectuais, que são a maior obra e a maior honra do espírito moderno.

Antero dizia isto, visando então como século de viragem do Passado para o Futuro. Sem sabermos muito bem a partir de que valores uma tal transição aconteceria, tanto mais que Antero fica nesse aspecto muito aquém de qualquer definição em profundidade e não apenas em extensão, podemos no entanto inferir que aquilo que designámos de Futuro teria tido então aí o seu início.
Dissemos que na história dos homens o Passado estabelece uma relação contrapolar ou antitética com o Futuro como na história das coisas elementares a Luz estabelece uma relação binária com a Sombra. Antero, e antes dele Herculano, parece ter resolvido esta relação binária estabelecendo uma contradicção estritamente linear entre Passado e Futuro, relação esta que me parece ter tido apenas em conta a extensão e não a profundidade do problema. Quero eu dizer, em termos de valorização de que o Passado foi para Antero de grandeza, ideia esta que se encontra já bem explícita nas palavras iniciais d’O Bobo de Herculano, enquanto que o Futuro, antítese do seu antecedente, de decadência. A Revolução, esse cristianismo do mundo moderno como Antero lhe chamava seria para ele, como idade de progresso e de desenvolvimento racional, a possibilidade de superar essa decadência.
O juízo de Oliveira Martins, formulado na História da Civilização Ibérica (1879) como resposta a Antero, não parece porém afastar-se no essencial, se descontarmos talvez a hipótese revolucionária de Antero, da ideia de que a história portuguesa estaria sujeita a um ciclo do Passado, que teria terminado nos meados do século XVII, e onde residiria toda a nossa grandeza, e a um ciclo do Futuro, onde se teria progressivamente afirmado, em relação a esse mesmo passado, a nossa decadência. A Sombra, face baça e lunar da existência, seguir-se-ia, na sucessão das coisas, à luz mais alta e mais real.
A grandeza do Passado, Antero não o diz explicitamente mas é fácil depreendê-lo, teria sido justamente a de ter contribuído como mais nenhum outro momento para a criação do mundo moderno. E o mundo moderno tem como definição aquele fundamento existencial e moral, bem português, que preside à unidade física da Terra e à unidade cultural e social da humanidade. É a unidade cultural do homem que funda e determina a existência mesma do mundo contemporâneo. Torna-se óbvia, deste ponto de vista, mesmo deixando passar em aberto, como Antero e Oliveira Martins fizeram, as nódoas escuras do Passado, a grandeza que ambos atribuem aos antigos portugueses. Uma tal grandeza, mesmo que tenha raízes diversas, é um dos consensos mais evidentes entre todos aqueles que desde há cem anos têm vindo a estudar a história portuguesa». In António Cândido Franco, O Mar e o Marão. Conferência-Manifesto, Junho de 1989, IADE, Lisboa.

Cortesia de IADE/JDACT

O Mar e o Marão. Conferência-Manifesto. António Cândido Franco. «… uma excelente parábola da situação interna de muitos cristãos inteligentes entre eles a do próprio Damião de Góis, ao tempo cronista do rei…»

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O Mar e o Marão
«(…) Já em 1534, numa altura em que as explorações do Pacífico se encontravam ainda numa fase praticamente inicial e em que os portugueses não tinham ainda atingido as ilhas de Cipango, consideradas o outro extremo do orbe, Damião de Góis nos restitui, através das palavras do embaixador etíope Zaga Zabo, cristão da Abissínia, onde os Portugueses pensaram encontrar o desejado Preste João, ter sido aquele embaixador expressamente proibido em Lisboa de comungar, pouco depois da sua chegada. As razões que levaram a esta proibição prendem-se com o cristianismo etíope, necessariamente diferente daquele que se desenvolveu na Europa a partir de Roma, que foi logo depois das primeiras impressões e apresentações, considerado como heresia. Zaga Zabo, cristão pertencente a uma das linhagens mais antigas do ramo cristão, aquela que descendia directamente da evangelização pelos apóstolos, neste caso o apóstolo Filipe (que teria baptizado Indich, criado da rainha Candace) foi considerado excomungado. Lembremos ainda que o reino cristão da Etiópia tem origem em Meilech, filho da Rainha de Sabá, chamada Magueda, e Salomão, que reinava em Jerusalém. Segundo a lenda, com Meileeh a Arca da Aliança, sinal de eleição passou de Jerusalém para a Abissínia.
A história de Zaga Zabo, que parece ter funcionado como uma excelente parábola da situação interna de muitos cristãos inteligentes entre eles a do próprio Damião de Góis, ao tempo cronista do rei está reproduzida no opúsculo do mesmo chamado Fídes, Religio, Moresque Aethiopum Sub Imperio Precíosi Joannis, publicado em Lovaina em 1540.
Mas se Zaga Zabo foi assim tratado como cristão no Portugal dos Descobrimentos físicos, o padre Francisco Álvares, que escreveu um magnífico relato da sua estada na Etiópia entre 1520 e 1526, Verdadeira Informaçam das Terras do Preste João, e a quem é preciso prestar justiça, chegou a celebrar missa na própria tenda do imperador Lebna Dengel, tendo sido grande amigo do Patriarca copta da Abissínia o Abuna Marcos, que por sua vez não se importou de beijar por veneração, o pé do padre Francisco Álvares. Porém as manifestações de verdadeira fraternização religiosa são a excepção e em 1634, com a morte do imperador Susenyoso os jesuítas portugueses devido à radical e violenta intolerância com que tratavam os cristãos etíopes, eram obrigados a deixar para sempre o país pondo assim ingloriamente fim a uma das mais antigas esperanças portuguesas do ciclo português do Mar: o encontro e a aproximação com o reino, espiritualmente desenvolvido, do Preste João.
A gravidade da nossa intolerância religiosa foi tão grande que acabou por se tornar autêntica perseguição étnica, a pontos de se ter quase assistido, com o estabelecimento e o desenvolvimento do Santo Ofício (maldito), e um etnocídio generalizado na Península quer dos judeus quer dos muçulmanos. Este etnocídio porventura o facto mais grave de toda a nossa consciência de povo dominará já todo o início dum outro ciclo da nossa história, que está para o Mar como o Futuro está para o Passado. É provável que a estas três vertentes que diminuem a grandeza do nosso passado será possível acrescentar, por indicação do mesmo Bruno, uma outra vertente, que teria por centro a conhecida teoria do padre Serafim Freitas exposta no seu livro De Justo Imperio Lusitanorum Asiatico, publicado em 1625, em Valhadolid, em que se negava a liberdade, e se afirmava o exclusivo monopólio material português». In António Cândido Franco, O Mar e o Marão. Conferência-Manifesto, Junho de 1989, IADE, Lisboa.

Cortesia de IADE/JDACT

Os Pecados da Rainha Santa Isabel. António Cândido Franco. «Na linha da vanguarda alçavam-se sobre todos os balsões reais com as armas riscadas de vermelho da confederação aragonesa-catalã. De seguida apresentava-se o segundo corpo, constituído pelas lanças das ordens militares»

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«(…) O cabo de guerra francês, Simão de Monforte, robustecido pelos sucessos, preparava-se então para assaltar os muros de Toulouse, centro da heresia, rica cidade de trinta ou quarenta mil habitantes, onde residia Raimundo M., conde de Toulouse e cunhado e vassalo do rei de Aragão. Quando o francês ouviu as palavras determinadas do mensageiro de Pedro II, riu com protérvia. Ele que venha bailar no que é seu e depois verá!
Ao saber da grosseria do cabeça da cruzada., o aragonês não titubeou. Mandou chamar os fronteiros e deu-lhes ordem de arregimentação. Correu por todo o reino o apelo dos fronteiros às tropas. Formaram na várzea de Saragoça os muitos corpos do exército de Aragão. Era a contra-cruzada em marcha.
Na frente postaram-se os homens de armas da guarda real. Pajens, infanções e ricos-homens aí mostravam a vivacidade e o desembaraço da cavalaria, com reluzentes bacinetes emplumados e muitos pendões e flâmulas a tremularem na carreira do vento. Na linha da vanguarda alçavam-se sobre todos os balsões reais com as armas riscadas de vermelho da confederação aragonesa-catalã.
De seguida apresentava-se o segundo corpo, constituído pelas lanças das ordens militares. Depois, vinham os corpos dos cavaleiros e besteiros e por fim os peões de lança, os contingentes das vilas e das cidades, os coudéis mouros com as suas companhias de fundibulários e os auxiliares, onde tanto entravam os azeméis, os vivandeiros, os curadores, os serventes e mais gente necessária à manutenção do exército como os foragidos dos condados occitanos fustigados pela cruzada e dispostos a combater. Eram quarenta mil homens que tiravam o pé da paz.
Pôs-se em movimento o exército com o rei à testa e foi atravessar os Pirenéus depois da cidade fortificada de Jaca, na esperança de alcançar num curto salto o Garona, subindo por ele sem esforço até às muralhas sitiadas da Tolosa occitana. Corria o fim da Primavera e os trilhos dos cumes, batidos pelo alto Sol do solstício, desimpedidos de neves e gelos, eram mais fáceis de percorrer que galeria de mar costeiro em dia de bonança e céu azul. No curso do Garona, já nas proximidades do grande centro onde por então se concentrava o nó da resistência à cruzada dos Franceses, deparou Pedro de Aragão com as muralhas de Muret.
O cabo de guerra francês tomara havia pouco a cidadela e depois de fazer pular os heréticos nas labaredas lá deixara como defensão uma grossa coluna de homens. Por aí, à ilharga do corpo central das operações, pensou o aragonês abrir a campanha de hostilidades contra os Franceses.
Brilhavam os doces e abundosos dias de Verão e a defesa de Muret não deu mostras de se intimidar com o assédio. Havia água e mantimentos com fartura. Viam-se nas seteiras os fortes bacinetes de ferro dos Franceses e nas ameias arrumavam-se as poderosas máquinas de arremesso de que dispunham. Um único homem se atrevia a expor o corpo nas ameias, exprobrando com palavras duras o exército sitiante.
Ide, senhores, ou um raio mais destrutivo do que aquele que destroçou os pagãos vos fuzilará para sempre, dizia, renitente e profético, afastando as abas negras do capeirão. Era Domingos Gusmão, o pregador que anos antes viera calcorrear os caminhos dos domínios do conde de Toulouse e do rei de Aragão, na esperança de debelar a heresia com a palavra destra, reconduzindo os cátaros aos dogmas romanos. Juntara-se depois ao legado papal e abade de Cister, quando este aparecera com os barões do rei de França munido duma ordem papal de limpeza. Aparecia agora com um feroz e obediente ao lado, a que afagava a caixa do crânio de quando em quando, apertando de seguida as orelhas atentas e espetadas nas mãos miúdas e cuidadas de estudioso». In António Cândido Franco, Os Pecados da Rainha Santa Isabel, Ésquilo, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-809-289-2.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Estâncias Reunidas. Poesia. António Cândido Franco. «A lira de Orfeu numa região a brilhar do céu. Andrómeda vestindo uma túnica de malha de Atlante»

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[…]
IX
«o leite das tetas.
Escorpião
a sua cauda escaldante
sobre o horizonte abanando.
Ursos nos pólos
espreguiçando-se.
Baleia nos ventos se agitando.
Cão ladrando
com os olhos em brasa.
Touro mugindo
no meio dos celestes campos.
Cisne nadando na Via Láctea.
Pégaso nitrindo
e escarvando o chão.
O céu é uma tela
que de noite a vida terrestre passa.
O céu está cheio de nomes.
Nomes repletos de escuridão.
Escuridão cheia de sol.
Escuridão saturada de memória.
Constelações de luz
brilhando na origem de tudo.
Constelações de astros animados
ondulando
antes de tudo existir.
Constelações de letras.
Constelações que desenham
do mundo no céu a história.
Memória pura
sem coisas.
Saudade.
Livro de estrelas.

Astros inteligentes e nus
como homens.
Perseu domando o dragão.
A lira de Orfeu
numa região a brilhar do céu.
Andrómeda vestindo
uma túnica de malha de Atlante.
Orionte na floresta
correndo da escuridão.
Centauro o seu poder
escondendo nas grutas estelares.
Cassiopeia dos abismos subindo
e mergulhando na morte.
Quero revisitar as estâncias.
Quero olhar as constelações
para da terra a vida entender.
Quero ver as ideias
que presidem aos eventos
para da vida a eternidade perceber.
Quero olhar as forças
que da vida na origem estão
para o seu vazio compreender.
Quero no teatro do céu
do mundo a história saber.
Quero a saudade.
Quero as essências contemplar
para perceber a glória das coisas.
Quero ler os sinais e as palavras
do livro das estrelas
para conhecer a Luz».
Poema de António Cândido Franco, in ‘Estâncias Reunidas

In António Cândido Franco, Estâncias Reunidas, 1977-2002, Quasi edições, biblioteca Finita Melancolia, Vila Nova de Famalicão, 2002, ISBN 972-8632-64-9.

Cortesia de Quasi/JDACT

Estâncias Reunidas. Poesia. António Cândido Franco. «Sinais. Nomes. Pistas. Da vida os figurinos as formas desenhando»

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[…]
IX
«e encontrar na fazenda de dentro
sobre o pólo
essa flor de neve.
Regulus é do céu outra flor.
Girassol celeste com pétalas de oiro
esta flor tem uma memória.
Sua sangue.
Flor de ardor
consumindo o seu coração.
Marte é o fogo a crepitar nas pétalas
da rosa.
Paixão de pedra
em gotas de orvalho frio
no fundo orgânico da noite abrindo.
O céu é uma outra terra
uma planície onde
com todas as cores
uma flora vegetal desabrocha.
Spica é uma espiga azul
de luz em grãos se desfazendo.
Vénus é de marfim
um jacinto quente.
Castor e Pólux duas margaridas brancas
e Aitaír um gladíolo.
Nebulosas silvestres
da noite rebentando a meio.
Perfumes de luz
nos campos correndo do céu.
Via Láctea de pólen
da nocturna Primavera no ar voando.
Júpiter no lodo celeste
abrindo em nenúfar.

Vega
na margem de uma estrada
como uma hidrângea brilhando azul.
Sóis como torrados campos de girassol.
Aldebarã investindo nos céus
com um sol vegetal
uma espiga verde de sangue.
O céu é uma câmara
que de noite revela
em estrelas
a vida terrestre.
Invisíveis sombras
que do dia luzindo
são a memória.
Sinais.
Nomes.
Pistas.
Da vida os figurinos
as formas desenhando.
Constelações vivas e sensíveis
como animais da terra.
Constelações primitivas
como do jurássico fauna terrestre.
O céu é uma memória eterna.
Um alfabeto de formas.
Monstros mitológicos
povoando a floresta
do firmamento.
O céu a arca é
de um outro dilúvio eterno.
Amalteia espremendo
no pico dos céus»
Poema de António Cândido Franco, in ‘Estâncias Reunidas

In António Cândido Franco, Estâncias Reunidas, 1977-2002, Quasi edições, biblioteca Finita Melancolia, Vila Nova de Famalicão, 2002, ISBN 972-8632-64-9.

Cortesia de Quasi/JDACT