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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Fundamentos de Geofísica. Jorge Miranda, JF Luís, Paula Costa, FAM Santos. «… obtidas da observação do movimento dos planetas do sistema solar diz respeito ao facto de, com excepção de Plutão, um planeta muito semelhante a um dos satélites de Neptuno…»

Cortesia de wikipedia

O Sistema Solar
«Durante muitos séculos os únicos dados disponíveis sobre o Sistema Solar foram os esboços desenhados por observadores: Galileu (1564-1642) viu as crateras da Lua no instante em que virou o seu primeiro telescópio nessa direcção, em 1609 e, nos séculos que se seguiram, as crateras foram minuciosamente medidas e fotografadas, foi-lhes atribuído um nome e foram registadas em mapas. As observações dos restantes planetas (e do Sol) permaneceram escassas e limitadas pelos meios existentes. A construção de grandes telescópios, no final do século XIX e no início do século XX, transformou o nosso conhecimento sobre as dimensões, a evolução do Universo e a estrutura do Sistema Solar. No entanto, a atmosfera terrestre impõe limites ao que podemos observar por meios ópticos, e a visão obtida por um telescópio modesto é quase tão boa como a que nos providencia um instrumento maior. A construção de grandes telescópios permitiu o aparecimento de muitos novos dados mas, subsequentemente, não permitiu avançar muito nos estudos sobre o Sistema Solar, e os nossos conhecimentos sobre a Lua e os outros planetas mantiveram-se estacionários durante um período prolongado. Uma das primeiras conclusões obtidas da observação do movimento dos planetas do sistema solar diz respeito ao facto de, com excepção de Plutão (que é um planeta muito semelhante a um dos satélites de Neptuno, Triton, e é muito mais pequeno que a Lua, o que o torna um caso específico dentro do sistema solar), as órbitas dos planetas se aproximarem significativamente do plano de eclíptica, que é o plano que contém a órbita da Terra em torno do Sol). Plutão apresenta 17 % de inclinação e, dos restantes planetas, o maior afastamento da eclipitica é o de Mercúrio, com 7 % de inclinação. Os dados relativos à cinemática do movimento dos planetas do sistema aqui se incluindo a distância ao Sol, o período de translação, o período de rotação axial, a inclinação do respectivo eixo (em relação ao plano da órbita) e a inclinação da órbita (em relação ao plano da ecliptica) estão contidos nas tabelas da página seguinte:


Alguns parâmetros geométricos de planetas do sistema solar

As leis de Kepler
Tycho Brahe (1546-1601) dedicou toda a sua vida à observação meticulosa dos planetas do sistema solar. A melhoria introduzida nos meios e (essencialmente) nos métodos de observação permitiu obter uma precisão avaliada em meio minuto de arco. Um dos seus assistentes, Johannes Kepler, recuperou as suas observações procurando testar a hipótese heliocêntrica, e em particular o modelo de Copérnico. Contudo, no que dizia respeito ao planeta Marte, os dados observados não se ajustavam de forma satisfatória a um círculo, sendo o desvio (8 minutos de arco) considerado por Kepler como não justificável pela precisão das observações. A figura matemática descrita por Marte na sua órbita em torno do Sol assemelhava-se muito mais correctamente, a de uma elipse, em que o Sol ocupa um dos focos. Se bem que Kepler não possuísse qualquer teoria física que justificasse a forma eliptica da orbita, que só viria a ser estabelecida cerca de 80 anos mais tarde por Newton, o ajuste obtido foi tão satisfatório que esta conclusão se tornou conhecida como a Primeira Lei de Kepler: Os planetas percorrem órbitas elipticas ocupando o Sol um dos focos. No caso de terem uma órbita circular (caso particular de uma elipse) o Sol ocupará o centro da circunferência. Desta lei podemos ainda deduzir um corolário importante: as órbitas dos planetas são planas e o plano da órbita contém o Sol.

A equação da elipse em coordenadas rectangulares é:

Em que a e b representam os eixos maior e menor, respectivamente. Esta geometria pode ser descrita por dois parâmetros, que podem ser os dois semi-eixos maior e menor ou um destes e uma quantidade chamada excentricidade e definida como

In JorgeM Miranda, JF Luís, Paula Costa, FAM Santos, Fundamentos de Geofísica, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2000.

Cortesia da FCUL/JDACT

terça-feira, 19 de julho de 2011

José Manuel Anes: Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos: «De facto, os heterónimos, mas também todas as outras personalidades literárias, exerceram sempre em Pessoa, um poder de exorcização dos seus medos e angústias. Eles foram uma via terapêutica e catártica, nesse processo alquímico de sucessivas metamorfoses de aperfeiçoamento, de "nigredo a rubedo". Neste sentido, o seu encontro com o Mestre foi a libertação necessária para que o processo se iniciasse»


Cortesia de wikipedia

Neopaganismo.
«Como salienta Paula Costa, o neopaganismo pessoano está em consonância com toda a Obra do Mestre Caeiro; mas para além de Outros Poemas e Fragmentos, é sobretudo o conjunto de poemas de O Guardador de Rebanhos que revela o momento áureo desta doutrina do Mestre. Também se faz sentir na Obra dos seus dois apóstolos: nas Odes de Ricardo Reis e em toda a teorização, para além dos inúmeros projectos de textos teóricos que ficaram por cumprir, que desta doutrina também fez o filósofo e sociólogo António Mora. De entre estes projectos inacabados de Mora, destacam-se «O Regresso dos Deuses», os «Prolegómenos a uma reconstrução do paganismo» e as «Origens do Cristianismo». Também Pessoa, ele próprio, mostrou interesse pelo neopaganismo, e por isso, se incumbiu de ajudar a introduzir e a apresentar o movimento. A sua postura de verdadeiro entusiasmo por esta causa leva-o ao ponto de imaginar um «Conselho Magistral do Neopaganismo Português» que em si próprio tivesse delegado (que escrevesse o volume introdutório da sua propaganda exterior.

Cortesia de wikipedia

Esta questão religiosa paralelamente à literário-filosófica, foi, segundo Paula Costa, o centro em torno do qual todas estas personagens pessoanas se organizaram.
Como verdadeiros apóstolos sentados à mesa com o seu «Messias-Caeiro», Reis e Mora, mas também Campos, Soares e Pessoa, ouviram e aprenderam os seus ensinamentos, para depois da morte de Caeiro, em 1915, inevitável para todo o simbolismo que dessa morte precoce advém, poderem pregá-la e evangelizá-la.
De facto, os heterónimos, mas também todas as outras personalidades literárias, exerceram sempre em Pessoa, um poder de exorcização dos seus medos e angústias. Eles foram uma via terapêutica e catártica, nesse processo alquímico de sucessivas metamorfoses de aperfeiçoamento, de «nigredo a rubedo». Neste sentido, o seu encontro com o Mestre foi a libertação necessária para que o processo se iniciasse.

Cortesia de wikipedia

Em «Notas para a recordação do meu Mestre Caeiro» (conjunto de textos que testemunha a ficção que Pessoa criou entre o Mestre Caeiro e os outros discípulos) percebemos que o encontro com o Mestre não é mais do que um «ritual de iniciação» onde os «neófitos, Pessoa, Reis, Campos e Mora», recebem esse «abalo espiritual», necessário para a descoberta de si-próprio e dos mistérios do mundo.
Depois de ouvir Caeiro, Campos confessa que o Mestre o seduziu com «abalo que lhe entrou nos alicerces da alma»; acrescenta ainda que o «efeito sobre mim foi receber de repente, em todas as minhas sensações, uma virgindade que não tinha tido». Outro dos «apóstolos» de Caeiro, não identificado porque o texto não apresenta assinatura, fala também do Mestre como um «bálsamo» necessário à vida:
  • «Quando estou muito triste, leio Caeiro e é uma brisa. Fico logo calmo, cantante e com fé - sim, fico com fé em Deus, na alma, na pequenez transcendente da vida depois de ler os poemas d'este atheu de Deus e do homem sem além na própria terra».
In José Manuel Anes, Fernando pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

domingo, 26 de junho de 2011

José Manuel Anes: Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos: «Caeiro foi o Mestre do neopaganismo; Ricardo Reis e António Mora seus discípulos e seguidores. Álvaro de Campos e Bernardo Soares, para além de ele próprio, o Ortónimo, foram os que, apesar de o desejarem, não conseguiram nunca libertar-se das raízes da Igreja de Roma e viveram, por isso mesmo, a angústia constante de não terem aprendido a serenidade dos ensinamentos do seu Mestre Caeiro»

Cortesia de luzparaasluzes

Neopaganismo
«Pessoa sentiu-se também dividido entre a religião de sua mãe, a da Igreja Católica, pela qual foi baptizado e preparado para a Primeira Comunhão, e a religião do seu pai, cristão-novo, de origem judaica, descendente de fidalgos e judeus. Menino e moço, foi o Deus da mãe que o dominou até ter idade de pensar e decidir por si. Em 1905, ao prontificar-se a deixar Durban e regressar a Lisboa, é para casa da avó paterna que decide ir viver, o que poderá significar um reatar os laços perdidos com a família de origem judaica. Sabendo que alguns dos seus antepassados paternos foram cristãos novos e combatentes de campanhas liberais, nomeadamente, o seu avô paterno, o General Joaquim António de Araújo Pessoa, preso pelos absolutistas pelo seu envolvimento nessas lutas liberais. Por eles, sentiu sempre Pessoa grande orgulho em ser um descendente directo; este passado que sempre quis rever, leva-o a entreter-se a desenhar brasões de armas e a percorrer a árvore genealógica até encontrar alguns companheiros do próprio D. Sebastião em África, ou mesmo descendentes de D. Nuno Álvares Pereira.

Cortesia de pecanhaleitao

Datam precisamente de 1905 os primeiros textos onde Pessoa se insurge contra a Igreja Católica. Alguns deles assinados pelas personalidades inglesas C. R. Anon e Alexander Search, outros em seu próprio nome, outros ainda em nome de uma outra personalidade literária, então criada para dar voz a este seu espírito contestatário, que é o poeta satírico, militante republicano, de nome Joaquim de Moura Costa. Esta sua rejeição pela Igreja de Roma, que o levará a definir-se, em 1935, como um cristão gnóstico, motivou-o a acreditar na possibilidade de reconstruir uma nova atitude religiosa, a que chamou de Neopaganismo português. O programa deste movimento neopagão era o de reconstruir o espírito religioso dos efeitos nocivos de que tinha padecido pelo Cristianismo.
A religião pagã é, para Pessoa, a mais natural de todas as religiões. Se a Natureza é plural, como diz Caeiro, então também o neopagão terá de admitir todas as metafísicas como verdadeiras, assim como o pagão aceita a existência de todos os deuses no seu panteão. Religião, por isso, politeísta na sua pluralidade, Pessoa encontrou a especificidade de cada uma das atitudes dos seus heterónimos e semi-heterónimos, como refere Paula Costa.

Cortesia de lasreligiones

Caeiro foi o Mestre do neopaganismo; Ricardo Reis e António Mora seus discípulos e seguidores. Álvaro de Campos e Bernardo Soares, para além de ele próprio, o Ortónimo, foram os que, apesar de o desejarem, não conseguiram nunca libertar-se das raízes da Igreja de Roma e viveram, por isso mesmo, a angústia constante de não terem aprendido a serenidade dos ensinamentos do seu Mestre Caeiro.
Aprender a saúde de espírito do pagão, por oposição à doença e decadência do espírito «cristista», como lhe chamou, foi outra das militâncias de muitas das personagens pessoanas. Através deste estádio neopagão que se desenvolve essencialmente (mas não exclusivamente) entre 1915/6 e 1918/9 (ou mesmo até 1920), Pessoa viu crescer e desenvolverem-se muitos dos seus objectivos esotéricos, ou apetência para o transcendente, oculto e sobrenatural, que num estádio posterior - o gnóstico - se irão realizar». In José Manuel Anes, Fernando pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 14 de junho de 2011

José Manuel Anes: Literatura e Esoterismo em Pessoa. «Os fragmentos mais antigos que existem no espólio de Fernando Pessoa, contendo cálculos e notas astrológicas, elaborados já com uma certa complexidade, datam de 1908, ou seja, dos seus vinte anos. O mesmo estudioso da faceta astrológica de Pessoa, que no referido livro, ensaia uma leitura astrológica da Mensagem, refere que “Existem no espólio centenas de textos (...)”, descrevendo as várias áreas da teoria astrológica»


Cortesia de pc

Astrologia
«A Astrologia forma, com a Alquimia e a Magia, as três colunas sobre as quais assenta o Esoterismo ocidental, sendo a Gnose e o Hermetismo as suas duas vertentes teóricas. Neste sentido, a Astrologia não é apenas uma arte divinatória, a chamada Astrologia «judiciária», mas sobretudo uma doutrina esotérica que permite conhecer, num quadro tradicional, o Homem, a Natureza e o Cosmos. É portanto natural que ela acolhesse o interesse de Pessoa.
Paulo Cardoso, investigador e astrólogo que se debruçou sobre o espólio astrológico do poeta e que, pela sua obra publicada, escolhemos como guia nesta área, afirma que «Os fragmentos mais antigos que existem no espólio de Fernando Pessoa, contendo cálculos e notas astrológicas, elaborados já com uma certa complexidade, datam de 1908, ou seja, dos seus vinte anos». O mesmo estudioso da faceta astrológica de Pessoa, que no referido livro, ensaia uma leitura astrológica da Mensagem, refere que «Existem no espólio centenas de textos (...), descrevendo as várias áreas da teoria astrológica. São, mais exactamente, 221 fragmentos de textos mais simples, mais elementares, e 261 mais complexos e com uma abordagem mais profunda dos temas».

Cortesia de nuestramizade

É também sabido que o poeta decidiu escrever, por volta de 1916, um Tratado de Astrologia, cuja autoria atribuiria a um heterónimo, Rafael Baldaia, e que incluiria na sua segunda parte «O horóscopo de uma nação (Portugal)» (in António Quadros); segundo Paulo Cardoso, existe no seu espólio «um horóscopo de algumas notas sobre as posições ocupadas por Neptuno, planeta regente dos Peixes, signo de Portugal, em momentos especiais da nossa história:
  • Alcácer Quibir,
  • a entrada dos espanhóis em Lisboa,
  • a Restauração,
  • a Fundação da Monarquia,
  • a aclamação de D. João I.
A intenção era, muito provavelmente, o levantamento de um horóscopo para Portugal».

NOTA: Como refere Paula Costa, heterónimos são seres fictícios criados por Pessoa, a partir de 1914. Os seus nomes são Ricardo Reis, nasceu em 1887, no Porto, e médico e viveu no Brasil, Alberto Caeiro, 1889, em Lisboa, poeta bucólico que viveu quase sempre no campo, e Álvaro de Campos, 1890, em Tavira, engenheiro naval por Glasgow. É interessante referir que as datas de nascimento dos heterónimos têm uma interpretação astrológica de acordo com as personalidades e interesses de cada um. Para além destes três heterónimos Pessoa criou também dois semi-heterónimos: Bernardo Soares, empregado de comércio e ajudante de guarda-livros e António Mora, filósofo pagão e também sociólogo, para os quais não atribuiu nenhuma indicação da sua data de nascimento.

Existe também, um «horóscopo da República Portuguesa (...) um dos vários que Pessoa fez em relação a Portugal». António Telmo que estudou esta questão do Horóscopo de Portugal, no seu livro homónimo, escreveu que «No pensar de Fernando Pessoa há (...) um primeiro, um segundo e um terceiro Portugal» e, para explicitar este pensamento, que tem um fundamento astrológico, cita a carta que o poeta enviou ao Conde de Keyserling, «que não gostava de portugueses, arrancada às trevas do baú por Teixeira da Mota». Há um Portugal triplo. Um nasceu com o próprio país: é esta alma da própria terra (…) que encontrará no fundo de cada português. O terceiro Portugal, que encontrareis à superfície dos portugueses visíveis, é aquele que (...) formou esta parte do espírito do português moderno que está em contacto com a aparência do mundo.

Horóscopo de Alberto Caeiro feito por Fernando Pessoa
Cortesia de esquilo

Esta terceira alma portuguesa é apenas um reflexo mal compreendido do estrangeiro. O Portugal essencial, a Grande Alma portuguesa, em toda a sua profundidade aventurosa e trágica, foi-lhe velada. Não é o objectivo desta carta desvendar-lha, "pois não é ainda chegado o tempo" (...). Há uma segunda alma portuguesa nascida (...) com o começo da nossa segunda dinastia, e retirada da superfície da acção com o fim, o fim trágico e divino, desta dinastia. Depois da Batalha de Alcácer-Quibir (...), a alma portuguesa, que procurará em vão, tornou-se subterrânea. A partir daí tornou-se verdadeira, pois a sua origem era também subterrânea, e veio-nos de mistérios antigos e de sonhos antigos (...)».
Interessante também é referir que, para cada um dos heterónimos principais, Pessoa elaborou um horóscopo de acordo com a sua personalidade literária e com a sua biografia. Com refere Paulo Cardoso, «Para dar um exemplo da importância deste suporte astrológico, logo na própria concepção heteronímica, basta dizer que a principal obra de Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos”, foi escrita exactamente na data em que astrologicamente devia ser feita, ou seja:
  • alguém que tivesse um horóscopo idêntico ao daquela personagem teria, para além de um processo de vida semelhante àquele que Fernando Pessoa lhe atribuiu, escrito a sua obra-prima naquela mesma data».
Para além dos horóscopos dos heterónimos, Pessoa elaborou também muitos outros de diversas pessoas, entre os quais Raul Leal, Almada Negreiros e...ele próprio, em cujo horóscopo se aponta como data possível da sua morte, Maio de 1935, seis meses antes do seu falecimento». In José Manuel Anes, Fernando pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

segunda-feira, 13 de junho de 2011

José Manuel Anes: Literatura e esoterismo em Pessoa. «Já no Ensaio sobre a Iniciação (...), se adivinhava que a experiência da escrita era também e sobretudo uma aventura iniciática. A busca e a revelação da palavra são o mesmo que a busca e a revelação da verdade. Se bem que Caeiro lhe tenha tentado fazer entender que o sentido oculto das coisas é elas não terem sentido oculto nenhum, este ensinamento do Mestre não vingou em Pessoa»

Cortesia de filosofiaperenezip


Literatura e esoterismo em Pessoa.
Jorge de Sena foi talvez dos primeiros que chamou a atenção para a importância das concepções esotéricas de Pessoa na própria obra do poeta, num artigo que saiu no Diário de Notícias de Março de 1957, a propósito da publicação de The Magician de Somerset Maugham, onde a personagem central é Aleister Crowley, e num outro artigo que publicou no jornal Estado de São Paulo em Março de 1963, e no Comércio do Porto em Janeiro de 1964, que merece, pela sua importância precursora, uma longa citação:
  • «O capítulo das relações e convicções esotéricas de Fernando Pessoa e, ainda hoje, com ser fundamental, um dos menos compreendidos. Não é possível compreender-se aquilo que não se toma a sério. Mas para bem compreendermos e apreciarmos a importância daqueles aspectos decisivos da personalidade civil e da personalidade poética de Fernando Pessoa, não é necessário ser-se ocultista, e é até inconveniente porque daríamos importância a coisas que esteticamente não importam. É, porém, indispensável tomarmos a sério, criticamente, aquilo que Pessoa assim tomava. Porque grande equívoco é, por deficiência de visão e de informação, não situar devidamente no seu contexto europeu um interesse pelo Oculto, que Pessoa partilhou com quase todos os grandes pares do post-simbolismo. Ele, Yeats, George, Rilke, Milosz, e tantos outros, não podem ser compreendidos e valorizados, se forem pudicamente amputados do que, com características várias, foi parte integrante das suas pessoais visões do mundo. E há que entender que uma visão esotérica do mundo (...) não existe, nem é possível, sem ironia, uma ironia de carácter transcendente, que, para uso de burgueses crédulos e assustadiços, pode assumir formas de mistificação».

Cortesia de vavadiando

Yvette Centeno escreveu que «Já no Ensaio sobre a Iniciação (...), se adivinhava que a experiência da escrita era também e sobretudo uma aventura iniciática. A busca e a revelação da palavra são o mesmo que a busca e a revelação da verdade» (in Fernando Pessoa: os Trezentos e Outros Ensaios). O próprio poeta, como salienta António Quadros, ao procurar «fazer a analogia, com a poesia, dos graus de Neófito, de Adepto e de Mestre numa Ordem Secreta (...) Pessoa diz que ao primeiro grau correspondem as noções culturais mais simples, a gramática, a cultura geral, a cultura literária particular, etc.; que ao segundo corresponde a capacidade de escrever poesia lírica, indo mesmo até à ode, poesia lírica ordenada ou filosofica; e que ao terceiro, o de Mestre crresponde:
  • escrever poesia épica,
  • escrever poesia dramática,
  • a fusão de toda a poesia, lírica, épica e dramática em algo para lá de todas elas,
  • o texto completo está em Y. K. Centeno, Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética.
Pessoa ao falar-nos da criação literária, ou artística em geral, como um acto alquímico-mágico exprime bem esses sentimentos de força e de poder superiores que sabe, porque sente, estarem na origem de todo o conhecimento oculto das coisas. Se bem que Caeiro lhe tenha tentado fazer entender que o sentido oculto das coisas é elas não terem sentido oculto nenhum, este ensinamento do Mestre não vingou em Pessoa. Por isso se interroga: «o que são os graus místicos, mágicos e alquímicos? o que é o sub-grau de senhor do Limiar?

Como refere Paula Costa, Pessoa, afirma ser a criaçao de Caeiro e dos discípulos Reis e Campos, comparável a «um grande acto de magia intelectual» que se concentra e prepara, como diz, para criar literariamente numa quarta dimensão da mente»:
  • "a criação de Caeiro e dos discípulos Reis e Campos parece, à primeira vista, uma elaborada partida da imaginaçao. Mas não é. E um grande acto de magia intelectual, uma obra magna do poder criador impessoal".

Cortesia de icicomup

Esta divisão criacionista, este criacionismo literário, como lhe chamou A. Quadros, que transformará o poeta num quase-deus, foi teorizado por Pessoa no seu «Ensaio sobre a Iniciação: «O Adepto, se conseguir a unidade entre a sua consciência e a consciência de todas as coisas, se conseguir transformá-la numa inconsciência (ou inconsciência de si próprio) que é consciente, repete dentro de si o Acto Divino que é a conversão da consciência individual de Deus na consciência plural de Deus em indivíduos».
Como sustenta também Paula Costa, pode afirmar-se que toda a obra de Pessoa é, mais tarde ou mais cedo, teorizada por ele em termos iniciáticos e encontra neles o seu fundamento. Yvette Centeno dirá que:
  • «Todos os textos, e são muitos, referentes à filosofia hermética me parecem indispensáveis para perceber a sua obra»
e Lima de Freitas proporá um paradigma hermético que será responsável pela obra do poeta: «o paradigma hermético é, finalmente, (...) o primeiro de todos, na hierarquia das causas responsáveis por aquilo que provaria ser a substância, e a essência, a mais fascinante e a mais perdurável, do pensamento, do texto e da significação última de Pessoa». In José Manuel Anes, ( Paula Costa), Fernando pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT