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quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O Vaticano contra Cristo. I Millenari. «Deixei-me levar nesta digressão, porque entendi abrir-te os olhos sobre este aspecto particular característico daquilo que te envolve. Voltemos agora ao assunto…»

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A Cizânia no Meio do Trigo
«(…) Eis a chaga. Compete-te curá-la; não te é licito dissimulá-la. Porventura ris-te de mim, pensando que a chaga é incurável. No fim de contas, tem sentido dizer: trata da cura e não cura-o ou sara-o. Disse bem um poeta: nem sempre é uma questão de médico o doente recuperar a saúde. Chegámos, agora, ao ponto crítico e o problema torna-se mais melindroso. Por onde começar para exprimir o que penso? Testemunho-te que não cuides das riquezas, não mais que os teus predecessores. Aqui está o grande abuso: as riquezas são utilizadas de modo diverso. Poderias citar-me um único caso em que não te tenham aceite como Papa sem que interviessem ofertas de dinheiro ou a esperança dele? Agora, que foram declarados ao teu serviço, pretendem todo o poder. Declaram-se fiéis para mais facilmente fazer o mal a quem neles confia. A partir de agora não farás nenhum plano do qual se creiam excluídos; não terás segredo no qual não se intrometam. Não queria estar no lugar de um porteiro que faça esperar, à porta, um desses, durante um minuto!
Podes verificar, portanto, por estes acenos, se não conheço um pouquinho o carácter desta gente. São habilíssimos em fazer o mal mas incapazes de fazer o bem. Odeiam a terra e o céu e sobre ambos estendem as mãos; são incrédulos em relação a Deus e desavergonhados em relação às coisas santas; turbulentos entre eles, invejosos dos vizinhos, impiedosos para com os outros; ninguém consegue amá-los e, por sua vez, também não amam ninguém; enquanto se vangloriam de ser temidos por todos, jogam com o medo que eles mesmos têm. Não aceitam ser súbditos, mas nunca aprenderam a mandar; são infiéis para com os superiores e insuportáveis para com os inferiores. Não têm moderação no perguntar e são altivos no responder. Insistem com petulância quando querem obter qualquer coisa e tornam-se impacientes até que a consigam. São os mais ingratos quando a obtêm. Aprenderam a encher a boca com grandes palavras, mas são mesquinhos nas acções. São grandiosos nas promessas, mas calculistas em manter-se fiéis; são acariciadores na adulação e cortantes na maledicência; dissimulam com a mais inocente candura e atraem com a mais experimentada perfídia.
Deixei-me levar nesta digressão, porque entendi abrir-te os olhos sobre este aspecto particular característico daquilo que te envolve. Voltemos agora ao assunto. Que sistema é este de comprar com o espólio das igrejas saqueadas o favor daqueles que te aclamam? É a vida dos pobres que se dissipa nos caminhos dos ricos. É verdade que este costume ou outros meus costumes não começaram contigo e queira Deus que contigo terminem. Mas continuemos. Eis que caminhas tu, o pastor, todo resplandecente de ouro, cintilante de mil cores. Que vantagem retira daí o teu rebanho? Poderei dizer que isto é mais um alimento de demónios do que de ovelhas. Pedro ocupava-se destas coisas? Paulo divertia-se com isto? Vê como aproveita o zelo dos eclesiásticos, só para garantir o lugar! Tudo é feito em função da carreira, nada ou quase nada pela santidade. Se por qualquer boa razão tentasses reduzir este aparato e ser mais acessível, diriam: por favor, não está certo, não está conforme com os tempos, não é adequado à vossa majestade; cuidai da dignidade da vossa pessoa. O seu último pensamento é o que agrada a Deus; sobre o risco da salvação não alimentam dúvidas desse género a não ser que julguem estar a saudar como magnificente e justo o que resplandece de glória.
Tudo o que é modesto é detestado de tal forma pela gente do palácio que será mais fácil encontrar quem prefira ser humilde a parecer humilde. O temor de Deus é considerado uma ingenuidade, para não dizer um disparate. Quem é judicioso e dá importância à própria consciência é marcado com o selo da hipocrisia. Quem ama a paz e se dedica, de vez em quando, a si mesmo, consideram-no um mandrião. Mas sobre estas coisas é já bastante o que dissemos. Apenas toquei ao de leve no muro, sem o arrombar. Compete a ti, enquanto filho de profeta, ir mais ao fundo das coisas e ver claro. Não me é lícito ir mais longe. Lemos no Evangelho que houve uma discussão entre os discípulos para saber qual deles seria o mais importante. Serás desafortunado se à tua volta as coisas correrem desta maneira. A cúria enfada-me e convém sair do palácio. Espera-nos o pessoal da tua casa, que não só te rodeia mas, de certo modo, está dentro de ti. Não é inútil reflectir sobre os meios e os modos para reordenar a tua casa; direi até que é necessário, sem descurar os negócios de máxima importância para te reduzir a assuntos de secretaria, e fazer-te perder em minúcias. Todavia, sendo necessário atender às coisas que têm significado, não se pode, no entanto, descurar as pequenas». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.
                                            
Cortesia Casa das Letras/JDACT

O Vaticano contra Cristo. I Millenari. «Cada papa deveria decorar e repetir todas as manhãs o que S. Bernardo (1090-1153) escreveu ao seu discípulo cisterciense, que se tornou Pontífice com o nome de Eugénio III…»

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A Cizânia no Meio do Trigo
«(…) Cada um tem dificuldades diferentes e os graus de culpa não são mensuráveis apenas pela balança do decálogo: os pesos morais estão em pratos correspondentes, o do seu conhecimento consciente e o da paternidade divina. A moral não é uma coisa estática; é um processo no qual valores passados são testados de novo, postos à prova em contextos de vida diferentes. Por vezes, estes valores éticos são repensados à luz da experiência da vida contemporânea, revelam-se como não plenamente adequados e, por conseguinte, carecem de ser readaptados à autenticidade da mensagem de Cristo que, não sendo, nunca, estática, é sempre original.
Embora os Apóstolos tivessem escrito, no primeiro Concílio de Jerusalém, em carta aos irmãos de Antioquia, Síria e Cilícia decidimos, o Espírito Santo e nós, não impor-vos nenhuma outra obrigação para além destas coisas necessárias: abster-vos das carnes oferecidas aos ídolos, do sangue dos animais sufocados e da impudícia. Andareis bem se vos abstiverdes destas coisas, hoje nenhum moralista imporia aquelas proibições sob pena de pecado grave, que, na fase da revelação apostólica, foram julgadas coisas necessárias e impostas pelo Espírito Santo.
O conceito de bons costumes é um conceito dinâmico para o qual concorrem, em diferentes medidas, múltiplos elementos de princípio e práticos, de ideologias e de contextos, de tradições e de técnica, de humanismo e de ciência, de progresso e de involução, de orientações e de comportamentos. O Senhor serve-se também da miséria, diz Primo Mazzolari. Não sabemos até onde um pecado nos afasta momentaneamente de Deus e onde Ele coloca os comandos de uma ponte para o caminho do regresso. E Einstein dizia, à sua maneira, crer num Deus grande e misericordioso que pensa e se ocupa de tudo, tão-santo que o considerava alheio à morbosidade de inspeccionar quando muito os testículos do homem.
Santo Isac Sírio chegou a dizer: Deus não é justo, mas Amor sem limites; e Estêvão Avtandilian, bispo arménio de Tíflis, em1789, ensinava: uma tolerância não reactiva sobre factos morais em consciência não inquietantes, embora repreensíveis, pode, na prática, tornar-se, em alguma medida, mais vantajoso do que um estéril ensinamento pastoral proibitivo. De facto, o Evangelho ensina que a cizânia arrancada a tempo sem ter estragado o trigo ao lado, se se extirpasse inoportunamente, levaria a que se arrancasse também o trigo e à esterilidade do campo. Nesse caso não é aconselhável inquietar as consciências dos homens.

A lição de S. Bernardo
Cada papa deveria decorar e repetir todas as manhãs o que S. Bernardo (1090-1153) escreveu ao seu discípulo cisterciense, que se tornou Pontífice com o nome de Eugénio III, que pedia ao seu Mestre que o aconselhasse sobre como desempenhar bem as funções de Papa. Se, para além disso, o Pontífice reinante fosse alguém que viesse de longe, isto é, em completo jejum acerca dos movimentos subterrâneos da cúria romana, esse Papa desconhecedor deveria recitar com a mesma frequência do breviário o que foi escrito por S. Bernardo na sua Consideração IV. Eugénio III (1145-53) nunca tinha pensado tornar-se Papa; escolheu a rigorosa solidão claustral dos cistercienses para não se embrenhar nas peias mundanas que já então enfraqueciam a Igreja de Roma. Era um dos melhores discípulos de Bernardo, também ele de nome Bernardo, talvez da família dos Paganelli de Montemagno, na província de Asti. Depois da sua morte foi-lhe prestado o culto de beato, confirmado em l872. S. Bernardo prescindiu dele apenas para o dar à Igreja para que a reformasse. Embora já Papa, S. Bernardo continuou a julgar Eugénio III como aluno da sua escola onde lhe ministrou lições de vida, as mais difíceis e duras. Extraímos aqui algumas passagens mais relevantes não para servir de consolação aos protagonistas que fazem degenerar a cúria e a Igreja, hoje, mas para exortar os reformadores a dispor-se para a obra que a Senhora de Fátima pedia». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia Casa das Letras/JDACT

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O Vaticano contra Cristo. I Millenari. «Cada pessoa tem diferentes fraquezas e diferentes limitações, derivadas do seu património genético, da sua índole, da sua biografia, do seu ADN»

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Erros da cúpula da Igreja
«(…) Eis dois homens santos, Orione e Padre Pio, que, declarados imorais com provas, actualmente se encontram na linha de chegada, transportados da lama ao altar. Ao entardecer o Sol envia os raios mais compridos e pinturescos. É de facto verdade que os santos não se fazem a pincel, mas a espátula e a cinzel. Usar desinibidamente para além da medida o que favorece os próprios interesses, manipulando, com arte as expressões bífidas e as calúnias subtis, e para João Baptista Vico suprema astúcia, habilmente subtraída ao jogo da Providência para a entregar ao diabo. E Dostoiewski acrescenta: Há muitos homens que nunca mataram e, no entanto, são muito piores do que quem matou seis vezes.
Estas almas fortemente privilegiadas pelo Senhor foram vistas em vida por certos organismos eclesiásticos com suspeição e desconfiança quando não com clara desaprovação e com perseguição. Uma vez desaparecidas, escrevem-se as suas biografias, reconhecem-se os seus carismas e difunde-se a sua mensagem profética. A diferença está em que os mortais se debatem com os problemas e os santos vivem com as soluções.
Logo que em Roma se difundiu o comunicado de aprovação do milagre obtido por intercessão do Padre Pio, os mass media informaram, num relâmpago, o mundo inteiro que ele viria a ser elevado às honras dos altares com o título de beato, no dia 12 de Maio de 1999. Deus o quis a despeito de quem tanto o hostilizou. Ai de vós, doutores da lei, que construís os sepulcros dos profetas, e os vossos pais os mataram. Mestre, dizendo isto, ofendes-nos a nós!... Ai de vós também... Deus permite que apareçam espinhos ao longo do caminho, na medida em que a sua acção se enxerta na nossa vida como preço para tornar mais nossos os seus dons. É sempre assim o modo de agir de Deus. Mas não obstante os erros dos fariseus, quem paga esse preço não tarda a sentir a presença divina.
                 
A Cizânia no Meio do Trigo
A tábua dos dez mandamentos é a maior jangada que Deus pôs à disposição dos homens em travessia para, em cima dela, se poderem salvar. Mas sobra-lhe um número infinito de outras chalupas para lançar ao mar em socorro de outros navegadores em perigo.
Sabemos que o que os mandamentos dizem é excelente, porque promana da bondade infinita de Deus. Todavia, Deus não pode conter-se só no finito e limitado dos dez mandamentos, que não são senão uma parcela da Sua infinitude. Daí resulta que o amor infinito de Deus necessariamente transborda o amor do bem circunscrito no decálogo. Dá-se o caso de que muitos cumprem os mandamentos e permanecem, no entanto, afastadíssimos de Deus. E dá-se também o contrário. Os obstáculos do amor são diferentes para cada criatura.
Cada pessoa tem diferentes fraquezas e diferentes limitações, derivadas do seu património genético, da sua índole, da sua biografia, do seu ADN. Do mesmo modo que um relógio, mesmo avariado, marca horas duas vezes por dia, também em cada um de nós há sempre um reduto de humanidade e um vislumbre de consciência». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia Casa das Letras/JDACT

O Vaticano contra Cristo. I Millenari. «… quando Orione chegava a qualquer lugar, a multidão era tal que as forças da polícia só a custo conseguiam manter a ordem pública; por isso foi convidado a notificá-las muitos dias antes…»

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Erros da cúpula da Igreja
«(…) Beijar a mão estigmatizada do padre Pio incrustada de escaras, não era uma empresa fácil. Sempre protegidas por mitenes, apenas as descalçava na sacristia antes de ir celebrar e calçava-as logo que colocava o cálice na mesa, no fim. Estas eram as ordens e a sua obediência era impecável. A epiqueia dos superiores apenas excepcionava o felizardo, que se colocava ao seu lado mal ele depositava o cálice. O jovem diácono, talvez despreocupado de viver um momento litúrgico muito intenso, planeou consigo mesmo comungar antes da missa das mãos do Padre e, depois, ir dar acção de graças na sacristia, colocando-se no lugar exacto em que o Padre devia depor o cálice para se desparamentar; dessa forma conseguiria o privilégio de beijar-lhe a mão chagada e sem luva. Dito e feito; mas a partir daí é que foi o bom e o bonito.
Pobre jovem diácono! Mal terminou a missa, quantos estavam dentro da igreja invadiram a sacristia, como numa maré, com empurrões e safanões que faziam abanar os pedestais dos santos. Por mais que tentasse resistir à multidão, o diácono viu-se atirado à distância de um metro e meio do Padre e assediado à volta por quantos desejavam beijar-lhe a mão. Desiludido do seu propósito, que tinha corrido mal, pensou logo tentar de novo e melhor na manhã seguinte. Quando padre Pio, repreendendo todos os outros, levantou a mão direita acima das cabeças, fê-la girar em semicírculo e chegando sobre o diácono baixou-a e deu-lha a beijar: Fá' subbte sbrigat, anda depressa, despacha-te; enquanto dizia aos outros, em voz alta: Basta, agora; basta!
Era sabido de todos que o Senhor dava ao padre Pio o carisma de perscrutar os corações, isto é, de ler no coração e na mente de quem se lhe apresentava, de forma a desvendar os pensamentos e os pecados de quantos a ele recorriam ou de ausentes aos quais mandava informar. Naquela manhã, quis satisfazer deste modo a boa intenção espiritual daquele diácono, depois sacerdote, que ainda hoje o relata comovido até às lágrimas.

Luigi Orione, fundador da Piccola Opera della Divina Providenza, agora canonizado, sem nunca ter conhecido pessoalmente o padre Pio mas conhecendo-o profundamente em espírito e através do fenómeno da bilocação, desenvolveu, nos anos 20, uma activa defesa a favor do padre Pio, em Roma, junto do dicastério do Santo Oficio (maldito). O juízo deste santo fundador era tido em grande consideração por muitos eclesiásticos em virtude da sua vida santa, das suas obras de caridade e dos factos extraordinários que operava. Para ele o Padre Pio era um verdadeiro santo, dissessem o que dissessem os outros, incluindo os da cúria. Já perto do fim da vida, também Luigi Orione teve de beber o cálice amargo da calúnia por causa de algumas fraquezas apregoadas em relação ao outro sexo; exactarnente como o Padre Pio.
Refira-se, antes de mais, que, quando Orione chegava a qualquer lugar, a multidão era tal que as forças da polícia só a custo conseguiam manter a ordem pública; por isso foi convidado a notificá-las muitos dias antes das suas deslocações. Todavia chegavam circunstanciadas notícias escritas a seu respeito em que o acusavam de manter relações carnais com diversas mulheres; como não se lhes dava crédito, os fautores decidiram passar à demonstração dos factos; era necessário apresentar a prova provada. No limite das forças, Orione começava a sentir consequências físicas desagradáveis. Persuadiram-no a deixar-se consultar e o veredicto foi surpreendente: doença venérea, a sífilis. Com aquela doença, teria de manter-se longe das pessoas. Confiaram-no a uma casa de irmãs em Sanremo, onde passou os últimos anos de vida sob estreita vigilância. Aí morreu sem explicar como lhe tinha sido transmitida a sífilis, consciente que estava de nunca ter tido relações com ninguém.
Se bem que todos continuassem a considerá-lo santo depois da morte, as ordens foram draconianas dissuadindo quem pudesse testemunhar no processo canónico acerca da veracidade das virtudes de Orione; a doença que contraíra desaconselhava-o. Todos se calaram. Quando já ninguém falava dele, um barbeiro-cirurgião de Messina, em perigo de vida, pediu a presença de um padre e de duas testemunhas para restabelecer a verdade, abafada pela calúnia: quando era barbeiro no colégio dos padres de Orione, em Messina, apercebera-se de que muitas vezes tinha feito a barba e cortado o cabelo ao fundador Orione, a seguir ao terramoto de 1908. Instigado e corrompido por um eclesiástico da congregação, aceitou ferir, como que por acaso, a sua nuca e, fingindo desinfectá-la, aplicou-lhe o conteúdo do frasco que recebera, que, só depois, soube tratar-se de vurmo sifilítico». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia Casa das Letras/JDACT

O Vaticano contra Cristo. I Millenari. «Uma manhã, durante a celebração da missa do padre Pio, muito cedo, na antiga pequena igreja, os homens, por falta de espaço, apinhavam-se no pequeno presbitério até mais não poder ser…»

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Erros da cúpula da Igreja
«(…) Seja irrepreensível a vossa conduta entre os pagãos, porque quando vos caluniam como malfeitores, ao ver as vossas boas obras, calais a boca à ignorância dos estultos. À distância de trinta anos da morte daquele padre, hoje declarado venerável e a caminho do altar, a que a tese vai agarrar-se aquele superlativo dicastério, durante cinquenta anos adversário daquele homem de Deus, para não aparecer como escândalo e justificar perante o mundo o seu inaceitável comportamento?
O desaforo dos homens que se faziam passar por Igreja infalível é tal que já não lhes é possível compatibilizar a santidade do homem taumaturgo e as condenações que lhe foram impostas e nunca foram retractadas. Agora que será levado às honras dos altares quem por eles foi definido como mistificador e corruptor de costumes e que não cessa de chamar ao seu túmulo milhões de crentes e não crentes de todo o mundo, realizando os mais extraordinários prodígios (actualmente toda a área à volta do convento capucinho de S. João Rotondo é insuficiente para acolher a enorme quantidade de veículos que transportam os sete milhões e meio de peregrinos que aí se dirigem durante o ano. As multidões lamentam-se porque são obrigadas a permanecer durante horas em fila para visitar os passos e os sítios do santo religioso, onde, cinquenta anos atrás, era um caminho de mulas que levava, por entre bosques, àquele escondido convento habitado por poucos capucinhos, esquecidos na eremitagem. Pelos fins dos anos 20 eram ainda muito poucos os que a conseguiam atingir para se confessar e dirigir-se àquele jovem frade estigmatizado, que dormia num casebre hospitaleiro nas imediações. Uma rapariga Cerigrolana decidira passar cinco ou seis meses ao lado do padre Pio para ser orientada espiritualmente por ele. De família abastada, duas das irmãs mais novas tinham entrado como religiosas numa comunidade religiosa da região, hoje muito florescente noutros continentes. A rapariga em causa não se sentia atraída a seguir o mesmo caminho, mas queria permanecer solteira. Tendo recebido a sua quota-parte do património familiar, titubeava perante o projecto de adquirir um quadrado de terreno à venda defronte da pequena igreja do convento dos Capucinhos para construir uma habitação só para si, onde permanecer durante a sua longa estada. Perguntou ao padre Pio, seu director espiritual: padre, vende-se aquela leira de terra logo fora da porta da igreja que, disse, posso comprar ou não para construir uma pequena casa? Sabeis que possuo algum dinheiro para investir... Padre Pio parecia distraído por outros pensamentos e caminhava sem dizer o que pensava. Eh, Padre, que pensa disto? Expliquei-me? Que devo fazer?, Sim, sim! Compre-o, compre-o!, diz ele. A rapariga, embaraçada por ter de o contradizer face àquela opinião, que não tinha presente a situação do lugar solitário, disse: padre, não sei como hei-de dizê-lo: vós estais morre, não morre, quando vós já não estiverdes cá, que farei de uma casita perdida nesta floresta? E padre Pio continuando a caminhar distraidamente, mas com o olhar posto no futuro, talvez fixando os fenómenos que se verificavam naquele lugar, profetiza no dialecto tradicional: Falla, falla... ca dop'é pégj!, compra e constrói porque por causa da afluência, depois da morte será pior que agora. Aquele quadrado de terreno actualmente situa-se sob a praça, em frente à pequena igreja) muitos se hão-de perguntar: que parcela da Igreja continuou a errar neste fim de século? Quem viu bem? A Igreja da base ou a Igreja do vértice? Pode afirmar que possui o carisma de reconhecer todos os carismas divinos essa instituição vaticana que durante cinquenta anos declarou não constar nada acerca da sobrenaturalidade daqueles fenómenos, sistematicamente desatenta aos fiéis da base, que, não obstante tudo, acorriam a ele? Um tal modo de proceder é verticalizar a Igreja e separá-la dos fiéis, também eles impregnados do sensus Dei.
Uma manhã, durante a celebração da missa do padre Pio, muito cedo, na antiga pequena igreja, os homens, por falta de espaço, apinhavam-se no pequeno presbitério até mais não poder ser, empurrando-se involuntariamente uns aos outros. Entre eles estava um jovem diácono que desde há anos ali se dirigia, apesar de os superiores do seminário lhe recordarem as severas proibições da cúria romana. O clérigo respondia que nada havia de mal em ir verificar as maravilhas de Deus provadas num seu servo. Mas eles julgavam o seu comportamento pouco conforme as ordens superiores, porquanto era necessário obedecer a quem sabia, a esse respeito, mais do que ele». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia Casa das Letras/JDACT

sexta-feira, 18 de maio de 2018

O Vaticano contra Cristo. I Millenari. «Mas lá se deslocaram os papas. Que Igreja via correctamente e que Igreja se enganava, então? O vértice ou a base?»

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Erros da cúpula da Igreja
«(…) Nos primórdios do século que agora termina (século XX), a Virgem Mãe de Deus proferia em Fátima, com grande sofrimento do Papa, impotente, palavras duras sobre o comportamento dos dignitários de topo da Igreja: bispos contra bispos e cardeais contra cardeais. Fazia entender àquelas três crianças analfabetas que a Igreja seria sujeita a violência a partir de dentro, como prostituta honrada, por parte de prelados em escala da para o poder através de conjuras urdidas na corte. Tenta-se esconder o fundamento da acusação, embora o prazo da revelação da mensagem profética já tenha passado. Enquanto a humanidade desliza, uma avalanche de lama e de podridão invade o sinédrio e espalha-se. Poderá a criatura contrariar a ordem do Criador silenciando-o? Na verdade, durante as aparições de Fátima, o patriarca de Lisboa, António Mendes Belo, várias vezes manifestou à opinião pública a sua clara oposição ao que estava a acontecer, chegando a proibir aos seus padres a sua deslocação a Fátima em peregrinação. Mas lá se deslocaram os papas. Que Igreja via correctamente e que Igreja se enganava, então? O vértice ou a base?
Um caso bastante estranho é o do padre Pio de Pietrelcina, que durante cinquenta anos foi simultaneamente considerado um santo taumaturgo pelos fiéis cada vez mais numerosos que a ele acorriam e um mistificador perigoso e corruptor dos costumes, pelo Santo Oficio (maldito). Basta recordar aqui a infamante acusação do dito dicastério que, por diversas vezes, intimou a rodos, mas em especial aos clérigos, a não se aproximar do padre Pio, religioso a evitar pela sua santidade impostora, visionária e milagreira. Por essa razão, aquele pouco santo oficio tomou a estranha iniciativa, jamais repetida nem antes nem depois, de trocar o director espiritual do padre Pio, interditando o religioso de se confessar por escrito, a partir daí (2 de Junho de 1922). Não satisfeita, a mesma suprema congregação, em 31 de Maio de 1923, promulgou um decreto contra o dito Padre, no qual declarava nada constar acerca da sobrenaturalidade dos factos, no respeitante ao fenómeno místico da estigmatização, decreto devidamente publicado no Osservatore Romano de 5 de Julho seguinte, para conhecimento de toda a Igreja. Mas que Igreja, responda, se souber, se enganava: a do vértice que proibia ou a da base que o venerava, se dirigia a ele e contrariava as directivas do vértice? A declaração foi retomada no fascículo Analecta Cappuccinorum através do qual o padre Pio soube da notícia, que lhe dizia respeito, ao abri-lo logo na página exacta, o que o entristeceu e fez chorar.
Para fazer cessar o escândalo, o mesmo dicastério, não satisfeito com a imposição da pena da suspensão sem prazo de celebrar a missa em público (de 1931 a 1933), projectava também a transferência secreta do padre Pio para a Itália Setentrional ou mesmo para Espanha. Atenuadas as condenações, foram, depois, retomadas com maior veemência em 1960, quando aquele religioso, já com73 anos, foi novamente considerado como pessoa imoral, invocando-se relações sexuais com algumas das suas penitentes, segundo constava de bobinas viciadas de um gravador colocado por um padre no confessionário do padre Pio por incumbência do visitador apostólico, que se atribuía, como se vê, poderes que nem o papa podia conferir-lhe». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

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quarta-feira, 28 de junho de 2017

O Vaticano contra Cristo. I Millenari. «Os sucessores desses homens da Igreja foram, depois, obrigados a fazer reentrar pela porta de serviço, com a maior confusão e o maior embaraço»

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A Igreja não é o Vaticanismo
«(…) Jesus, ao fundar a Igreja, deu-lhe toda a riqueza de graça suficiente para que os homens de todas as épocas possam conseguir a salvação de si próprios e salvar os outros, mas não podia dar-lhe a capacidade de conter em si mesma, criatura finita, todo o infinito bem de Deus, que Ele dispensa livremente, em forma de chuveiro, também fora da Igreja. Ela não pode, por isso, tornar-se guarda de Deus, fechando-o à chave atrás da porta do seu tabernáculo para o distribuir como e quando lhe agradar. A sua missão traduz-se melhor através da imagem de um ostensório que mostra Cristo aos homens sem, por isso, d' Ele se apropriar. O Absoluto não pode privar-se do poder de se manifestar seja como for a todas as suas criaturas, dentro e fora da Igreja, no tempo e no espaço, através de carismas e graças especiais sempre novos e nunca conferidos em obediência a clichés.
Os carismas divinos ou graças especiais, às vezes extraordinários como o dom dos milagres, são meios pelos quais o Espírito Santo opera e revela a jorros a presença omnipotente de Deus na criação. Tais sinais expressam o alfabeto divino através do qual o Senhor esconde por vezes uma mensagem ao homem e à humanidade e que, fazendo parte do natural poder divino ad intra, não se circunscrevem a priori aos limites de uma acção concreta ad extra, mesmo que seja de instituição divina como a Igreja, cuja finitude, repetimos, não pode circunscrever o infinito poder de Deus.
Então, qual a actuação conforme à natureza da Igreja face a um evento prodigioso ou a uma mensagem extraordinária? Deverá interpretá-los à luz da regra infalível ditada por Jesus: uma árvore boa não pode dar maus frutos, nem uma árvore má pode dar frutos bons. A Igreja deveria saber permanecer fiel aos grandes princípios denunciando o que possa não ser carisma divino, mas estando bem atenta para não atribuir a Deus os erros e os preconceitos de alguns homens da Igreja, que historicamente o obrigaram a embarcar no comboio que circula apenas no espaço dos seus carris. Um facto histórico que interessa directamente à Igreja apenas será totalmente claro na parúsia; num corte vertical da história, o Eterno pode tornar-se visível sem que a substância divina seja afectada e sem que a espessura do temporal desapareça, de modo a que a Revelação seja compatível com a Incarnação, como a profecia do Apocalipse que se materializa na humanidade distraída.
A tese sobre a eclesiologia é de uma evidência óbvia, quer sob o aspecto teológico quer sob o aspecto histórico. Quantas vezes o juízo humano eclesiástico, tentado a ensinar Deus sobre como deveria intervir no mundo, sempre através dele, não soube identificar a intervenção do divino no temporal, chegando a pronunciar, sem reflexão suficiente, sentenças de reprovação, com as quais condenavam o próprio Autor desses carismas que os provocava para os ensinar. Muitas vezes se chegou ao absurdo de pensar que o que a Igreja ordenava era a verdade, em oposição ao que Deus operava através de homens de santidade comprovada ou de revelações, que, no seu pensar, seriam falsas. Sois capazes de entender os sinais do céu e da terra, como não sois capazes de entender o que acontece no tempo presente? Porque não julgais por vós mesmos o que é justo?, pergunta-lhes Jesus.
Os sucessores desses homens da Igreja foram, depois, obrigados a fazer reentrar pela porta de serviço, com a maior confusão e o maior embaraço, alguns fenómenos sobrenaturais. Exemplos de Galileu Galilei, Santa Joana d'Arc, Santa Teresa de Ávila, S. João da Cruz, S. José de Cupertino, Jerónimo Savonarola, Antonio Rosmini, padre Pio de Pietrelcina, Zeno Saltini (fundador de Nomadelfia), para terminar com o fenómeno de Medjugorie, aonde trinta milhões de membros da Igreja viva ainda hoje se dirigem em penitência enquanto trinta eclesiásticos insistiram em condená-lo. A história recorda vários erros registados na cúpula da Igreja». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia Casa das Letras/JDACT

terça-feira, 29 de novembro de 2016

O Vaticano contra Cristo. I Millenari. «… a Igreja quer, a Igreja não quer; a Igreja permite, a Igreja não permite; a Igreja ordena, a Igreja obriga; a Igreja aprova, a Igreja desaprova; a Igreja proíbe, a Igreja admite; a Igreja confirma aquele fenómeno, a Igreja não encontra nada de sobrenatural naquela aparição ou naquela pessoa…»

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A Igreja não é o Vaticanismo
«(…) Muitas vezes, porém, esta perspectiva sofre desvios e é feita em pedaços pela plebe e pela autoridade hierárquica. Por isso, quando se fala de Igreja, facilmente se resvala para se referir apenas o seu vértice, como se fosse a única expressão constitutiva e selectiva desejada e querida por Nosso Senhor, balanceando no ar como uma estalagmite. Não só os teólogos do Renascimento, mas também os do nosso tempo gostam de pensar a base dos fiéis como um amorfo rebanho de ovelhas, curvado humildemente perante o pastor. Assim, quando se fala de Igreja, tal referência tem mais que ver com o vértice hierárquico composto pelo conjunto de papa, cardeais, bispos, cúria romana e altos prelados, investidos de autoridade e de poder, que se gastam em nada na erosão do tempo e que muito frequentemente se esquecem de se pôr em questão, confrontando a sua missão com a de Cristo que se anulou na cruz exactamente para servir a humanidade. Elipse teológica em voga a que correspondem expressões erradas: a Igreja quer, a Igreja não quer; a Igreja permite, a Igreja não permite; a Igreja ordena, a Igreja obriga; a Igreja aprova, a Igreja desaprova; a Igreja proíbe, a Igreja admite; a Igreja confirma aquele fenómeno, a Igreja não encontra nada de sobrenatural naquela aparição ou naquela pessoa. E quando assim falam, sabem que estão a referir-se a certos homens e eclesiásticos que exercem e manobram as alavancas do poder naquela altura e que, como protagonistas que julgam ser, já demonstraram muitas vezes estar a pronunciar-se erroneamente sobre certas verdades históricas respeitantes a fenómenos e a pessoas.
Mas é aqui que está a dicotomia do pensamento. Por um lado, afirma-se que a Igreja somos nós todos juntos, autoridades e fiéis e, por conseguinte, qualquer ferida infligida a um dos seus membros é infligida-directamente a todo o seu corpo místico. Mas, por outro lado, quando alguns dos seus membros, profetas de qualquer maneira interessados na compaixão do Cristo místico, denunciam a infecção cancerígena, são apostrofados como insubordinados e rebeldes, suspeitos heréticos, semeadores de cizânia, homens e mulheres a silenciar, não obstante vir a reconhecer-se, à distância do tempo e com arrependimentos inúteis e perdões tardios, terem-se enganados nos seus juízos. Mas a quem faz jeito calar a todos para que ninguém intervenha? Não é certamente para deixar tudo como antes, para que quem erra continue a errar? Pelo contrário, a Igreja ou é tudo em conjunto, base, lados e vértice, ou não é a Igreja que Cristo desejou. Cristo não fundou a sua Igreja com um poder de governo de dominação incontrolada. A Igreja de Cristo tem apenas um modo de governar: colocar-se ao serviço. Os dignitários, os cardeais, os príncipes, se de príncipes se pode falar, não deveriam ter qualquer outra ambição, alguma outra aspiração e nenhuma outra pretensão: entre vós, porém, o exercício do poder não é assim, mas aquele que quer ser grande entre vós faça-se vosso servidor, e quem quer ser o primeiro entre vós seja o servo de todos.
A Igreja de Jesus, quando se torna serva, é a mais completa obra divina, colocada como protecção de toda a sociedade humana. Não pode, todavia, ser infinita como Deus, sendo Sua obra ad extra. Por princípio teológico, Deus é o infinito. A Igreja, pelo contrário, é obra divina, mas finita. Por isso, não tem o carisma de poder reconhecer todos os infinitos carismas de Deus. Se conhecesse a omnipotência infinita de Deus, isso significaria ser o seu contentor, por abranger o Infinito. Eis que os céus e os céus dos céus não podem conter-te, ainda menos esta casa que eu construí. Não é possível, nem mesmo a Deus, criar uma instituição contingente e ao mesmo tempo capaz de circunscrever a sua infinitude: criaria, por absurdo, um outro deus dominador. Os nossos esquemas, infinitamente estreitos, mesmo os da Igreja, não poderiam conter num invólucro a infinita omnipotência do Criador». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia Casa das Letras/JDACT

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O Vaticano contra Cristo. I Millenari. «Certo é que a organização da Igreja de Jesus é, sociologicamente, em pirâmide: o papa indissociavelmente unido aos bispos, aos sacerdotes e aos fiéis; separá-los em blocos seria forçar a sua natureza, isto é, desvirtuá-la»

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A Igreja não é o Vaticanismo
«(…) Este plano universal de Deus para a salvação do género humano não se concretiza apenas numa forma, por assim dizer secreta, na mente dos homens, que procuram Deus de modo vário no esforço de o atingir, talvez às apalpadelas, e de encontrá-lo, embora não esteja longe de cada um de nós..., iniciativas que podem constituir sempre um encaminhamento pedagogicamente válido para o verdadeiro Deus ou preparação para a mensagem do Evangelho. Assim diz o Vaticano II. Pelo contrário, os padres do Ocidente deixaram-se condicionar bastante pela escultural definição agostiniana que inexoravelmente estabelecia: Extra Ecclesiam nulla salus, fora da Igreja não há salvação, asserção teologicamente válida mas não exclusivamente única. O axioma tornou-se dogma insubstituível para todos os tempos e a razão pela qual os nossos teólogos latinos, com vista a conseguir salvar os outros quatro biliões de não baptizados, recorreram ao expediente do baptismo de desejo que os tornaria inconscientemente cristãos. No Ocidente recorre-se a isto para salvar o conceito, teologicamente incompleto, de que sem a Igreja, contentora de Deus e dos homens, não nos salvamos. Jesus, quando pensou fundar a sua Igreja, por exemplo, quando prometeu a Pedro conferir-lhe o primado sobre ela (Tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; a ti enquanto responsável máximo, darei as chaves do edifício do Reino dos céus; tudo o que ligares e desligares dentro e nos lados poligonais desta construção social, pelos séculos, tudo será confirmado pelo meu Pai que está nos céus, certamente que a imaginou construída sobre uma rocha única e compacta, referindo-se a uma figura geométrica poligonal precisa, sobre cujo vértice faria sentar Pedro, Seu Vigário.
Na Sua memória estava a recordação de infância daquelas maravilhosas pirâmides que continuarão a desafiar os séculos futuros, cuja figura geométrica, segundo a teoria de Luís Alvarez, prémio Nobel, era e é um poderoso acumulador cósmico de energia unitiva e coesivo, característica já conhecida dos antigos egípcios e persas. Jesus, emigrante no Egipto desde os primeiros anos da sua meninice, antes de voltar para Nazaré terá sido levado por São José e Sua Mãe a ver as gigantescas e fmosas pirâmides dos faraós, meta de turismo internacional até hoje. Como acontece com todas as crianças, também na criança Jesus, homem e Deus, terá ficado indelevelmente gravada, na Sua mente e na Sua memória, aquela maravilha. pensando em comunicar aos outros homens, sob forma plástica, a ideia da Sua Igreja instituenda, terá encontrado naquela forma geométrica das pirâmides a melhor referência para a Sua obra divina em razão de ser também plasticamente expressão de unidade e de coesão de toda a família humana.
A Igreja, em forma de pirâmide, respondia melhor aos traços que Cristo lhe conferia através do Espírito Santo, sintetizados nas características, todas elas essenciais, de una santa, católica e apostólica. É uma hipótese que poderá ser mais ou menos compartilhada. Certo é que a organização da Igreja de Jesus é, sociologicamente, em pirâmide: o papa indissociavelmente unido aos bispos, aos sacerdotes e aos fiéis; separá-los em blocos seria forçar a sua natureza, isto é, desvirtuá-la. A Igreja é, pois, uma estrutura viva, essencialmente una e indivisível. Foi este o magnífico papel dos  padres da Igreja e da Idade Média cristã, de que às maravilhosas catedrais foram exemplos plásticos. Para as erguer, recortadas nas alturas, contribuíram o engenheiro, o técnico, o pintor, o escultor, os artistas das artes murais, os geólogos, os físicos, os doutores em teologia, os sacerdotes, a hierarquia, a fé do povo, a arte dos poetas, a arte dos músicos, as preces dos santos, numa amálgama harmoniosa e compacta. Desde então até aos nossos dias, o louvor e a glória à unidade e à trindade de Deus criador são constantes. De resto, também o mistério da Santíssima Trindade se refere à figura geométrica de um triângulo equilátero, geralmente piramidal». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia Casa das Letras/JDACT