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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «O serviço militar era uma ocupação para toda a vida e, supostamente, bem remunerada. Ainda assim, não havia muito entusiasmo entre as camadas mais civilizadas do Império, sendo a evasão generalizada»

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Sociedade e Economia

«(…) Contudo, este valor, não inclui os limitanei, pelo que poderá eventualmente representar antes um aumento em vez de uma diminuição. Simultaneamente, devemo-nos lembrar que uma força expedicionária tinha normalmente entre dez mil e vinte e cinco mil homens, e um exército de cerca de cinquenta mil, como aquele que eventualmente terá sido accionado contra a Pérsia, era consideravelmente grande. O serviço militar era uma ocupação para toda a vida e, supostamente, bem remunerada. Ainda assim, não havia muito entusiasmo entre as camadas mais civilizadas do Império, sendo a evasão generalizada. Na altura do reinado de Justiniano, o recrutamento havia-se tornado voluntário e dependia em grande parte das províncias mais vigorosas, como a llíria, a Trácia e a lsáuria, onde a vida militar era já tradicional. Também se utilizavam muito os bárbaros, tais como os Godos, os Hunos e os Citas, que ou haviam sido criados em casa, ou tirados de tribos fronteiriças aliadas ao Império (foederati). Contudo, a lealdade destes últimos nem sempre podia ser tida como certa. No Período Inicial os comandos militar e civil estavam geralmente separados, embora na segunda metade do século VI se tivessem começado a fundir em algumas províncias mais inseguras (particularmente em África e na Itália). Havia, assim, uma hierarquia nas tropas do exército, culminando em vários magistri militum, bem como uma hierarquia civil preocupada com a justiça, com as finanças e com o funcionamento de vários serviços, tais como os postos públicos (cursus publicus), o Estado policial e o serviço secreto (magistriani ou agentes in rebus), entre outros. A administração das províncias estava nas mãos dos chefes de prefeitura pretorianos, agora destituídos da autoridade militar que detinham anteriormente, havendo descido a vicarii das dioceses e governadores das províncias. Constantinopla, como Roma, tinha uma administração separada sob a alçada de prefeitos urbanos. Dever-se-á referir que, enquanto os escalões médio e baixo dos funcionários do Estado gozavam da segurança que lhes conferia o título de posse, ao ponto da efectiva irremovibilidade, os oficiais superiores possuíam esse benefício apenas por um breve período de tempo. Alguns historiadores têm falado de um estrangulamento burocrático do Império Romano Tardio, no entanto, pelos padrões modernos, o número mínimo de funcionários do Estado era reduzido: calcula-se que ao todo não haveria mais de trinta mil a quarenta mil no Oriente e no Ocidente, conjuntamente (400 d.C.). A razão traduz-se pelo facto de serem as cidades a tratar dos seus próprios assuntos através dos conselhos municipais (curiae), compostos por proprietários locais. Estes últimos, normalmente chamados decuriões, formavam uma classe razoavelmente numerosa. Se presumirmos que haveria cerca de duzentos por cidade, o número total no Oriente terá sido perto dos duzentos mil. A sua importância para a história da civilização, todavia, ultrapassa largamente a sua força numérica, visto que a elite intelectual do Império, as profissões liberais, os escalões superiores da Igreja e uma grande parte dos cargos de função pública eram preenchidos por membros da classe dos decuriões. Havemos de considerá-los com mais pormenor. É lugar-comum da história romana do Período Tardio que a pequena nobreza municipal estava em declínio. Independentemente da tolerância relativamente a reivindicações por interesses pessoais de que os membros desta classe beneficiavam (sendo Libanus o exemplo mais frequentemente citado), o facto é que os decuriões de Constantino a Justiniano se esforçaram bastante no sentido de fugir às suas responsabilidades, que eram, de um modo geral, vistas como uma servidão. Do ponto de vista da lei, todos os proprietários que alcançavam uma reserva de propriedade estabelecida eram obrigados a servir nos conselhos, e os seus herdeiros a segui-los. Eram, colectivamente, responsáveis pelos trabalhos municipais, pela reparação dos edifícios públicos, aquedutos e fortificações, por manter as ruas e os esgotos limpos, pela organização de espectáculos, por vigiar o mercado, pela manutenção dos postos de serviço e por todos os deveres extraordinários impostos pelo Estado, tais como alojar os soldados, fazer as compras necessárias para reunir provisões, recrutar homens para o exército (quando o recrutamento era preciso), etc. As cidades, por seu lado, possuíam recursos provenientes dos impostos da terra e do mercado que faziam face às despesas necessárias. Ainda assim, os decuriões tinham normalmente de abrir os cordões à bolsa. Embora os encargos inerentes à sua função fossem respeitáveis, não admira que explorassem todas as escapatórias possíveis para os evitar. A forma mais comum de serem dispensados consistia em juntarem-se aos funcionários do Estado ou aos do senado de Constantinopla (apesar das várias leis que o proibiam), a fim de entrarem na Igreja ou de se tornarem professores no serviço público. Alguns nunca casavam para não deixar um herdeiro legítimo. Outros simplesmente fugiam. O resultado desta pressão contínua foi a ruptura da classe curial: os membros mais pobres desapareceram, enquanto os ricos ficaram mais ricos à custa dos seus vizinhos». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

 JDACT, Cyril Mango, História, Cultura e Conhecimento, 

Cyril Mango. Bizâncio. O Império da Nova Roma. «A seguir às reformas de Constantino, o exército passou a ser composto por dois organismos principais: uma força móvel de comitatenses e uma milícia de limitanei, cujos números para o Império do Oriente foram, cerca de cem mil e duzentos e cinquenta mil homens»

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Sociedade e Economia

«(…) Em teoria, a autoridade do imperador não tinha limites, excepto aqueles impostos pelas leis divinas. No capítulo pf 12 avaliar-se-á a definição ideal de imperador bizantino. No entanto, aqui, estamos preocupados com a prática, e, na prática, o imperador era um homem que habitava o palácio imperial de Constantinopla, longe dos olhares públicos, rodeado pela sua corte. Mais do que nunca, devia a sua posição a um princípio de hereditariedade mal formulado, mas respeitado; em alternativa, poderá ter sido apontado pelo seu antecessor, escolhido por um grupo influente ou pode ter ficado a dever o trono a uma rebelião bem-sucedida. Por mais estranho que pareça, o Estado bizantino nunca desenvolveu uma teoria de sucessão imperial. Um homem tomava-se imperador por vontade de Deus, a eleição era assinalada pela aclamação por parte do exército e do senado e oficializada, a partir do século V, por uma coroação religiosa realizada pelo patriarca de Constantinopla. Para quem observava de fora, este sistema parecia curiosamente instável e mal definido: alguns autores árabes acreditavam que o imperador romano devia a sua posição a uma vitória e seria dispensado se não tivesse êxito. Mas, quaisquer que fossem as circunstâncias da tomada de posse do imperador, este não poderia governar o Império sozinho. Os seus principais ministros seriam escolhidos a seu bel-prazer e o poder efectivo que os mesmos exerciam não era expresso pelos seus títulos. Alguns imperadores, os mais fortes, assumiram um papel preponderante na condução dos assuntos, enquanto outros ficavam satisfeitos se os pudessem relegar à responsabilidade de um parente ou a um ou mais oficiais do Estado. Embora se acreditasse, de um modo geral, que o imperador tinha o dever de liderar o seu exército no campo de batalha, muitos imperadores não o faziam, quer fosse por incapacidade pessoal, quer porque receavam uma rebelião na capital durante a sua ausência. Existem tantas variações, que o mais correcto é falarmos de um governo em termos do palácio imperial e não em termos do imperador. A sociedade a que o imperador presidia devia supostamente ser governada com base na ordem. As partes constituintes são descritas de várias maneiras nas nossas fontes. Às vezes encontramos um sistema tripartido: exército, clero e agricultores. Também nos é dito que o exército se situava na primeira linha da organização política, ou que as ocupações fundamentais eram a agricultura e o serviço militar, em que os agricultores alimentavam os soldados, enquanto os soldados protegiam os agricultores. Do século VI, existe uma classificação muito mais complexa da sociedade civil, na qual se distinguem dez categorias, nomeadamente: 1) o clero; 2) os juízes; 3) os senadores; 4) os financeiros; 5) os técnicos profissionais; 6) os comerciantes; 7) os artesãos e produtores de matérias-primas; 8) os servos; 9) os inválidos (ou melhor, e por outras palavras, os idosos, os doentes e os loucos); 10) os artistas (cocheiros, músicos, actores) .

Por mais interessantes que estas classificações possam ser, elas não nos revelam o funcionamento da sociedade bizantina. Antes de tentarmos construir um modelo mais realista, devíamos começar pelo Período Inicial, e considerar, por momentos, os serviços do Estado, o governo municipal, a Igreja, os ofícios e profissões urbanos e, finalmente, as actividades agrícolas. Todo o serviço imperial, quer militar quer civil, era designado pelo termo militia (strateia em grego). Dentro dele, o exército formava o maior grupo: a sua força total para o Oriente e para o Ocidente em finais do século IV era composta por seiscentos e cinquenta mil soldados. Não nos devemos surpreender com um número que poderia parecer, à partida, elevado, se tivermos em conta que estamos perante uma população total de provavelmente mais de quarenta milhões de habitantes. Porém, tratar-se-á, por outro lado, de um número efectivamente alto, considerando-se o modo como o baixo rendimento da economia bizantina do Período Tardio constituíra um fardo considerável sobre a sociedade. A seguir às reformas de Constantino, o exército passou a ser composto por dois organismos principais: uma força móvel de comitatenses e uma milícia de limitanei, cujos números para o Império do Oriente foram, respectivamente, cerca de cem mil e duzentos e cinquenta mil homens. Os comitatenses não tinham acampamentos permanentes, sendo habitualmente alojados nas cidades, onde poderiam ser chamados a desempenhar deveres policiais (o Império não tinha uma força policial regular). Alguns queixavam-se de que, como resultado, os soldados tornavam-se brandos e impunham privações insuportáveis nas cidades que não precisavam de protecção. Os limitanei, por outro lado, eram recrutados localmente entre os agricultores, os quais se encarregavam do fornecimento às guarnições militares dos fortes fronteiriços, nos períodos em que não estavam a trabalhar no cultivo dos campos. Não eram vistos como sendo particularmente eficazes. O historiador Agathias destaca que Justiniano, o maior dos conquistadores bizantinos, não tinha mais de cento e cinquenta mil homens armados espalhados pelas várias províncias, na fase final do seu reinado, quando a defesa do Império necessitaria de quatro vezes mais homens». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

JDACT, Cyril Mango, História, Cultura e Conhecimento,

Cyril Mango. Bizâncio. O Império da Nova Roma. «Porque o que parece ter motivado os Sírios e os monofisitas egípcios não terá sido, tanto a sua crença em alguma questão da doutrina que lhes interessava, antes a sua lealdade à sua própria Igreja»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas

«(…) A identidade religiosa era muitas vezes mais sentida do que a identidade regional. Tivesse a Igreja sido mais intolerante, e poderia bem ser que os diferentes grupos religiosos tivessem vivido mais pacificamente lado a lado. Mas, normalmente, havia algum bispo ou monge zeloso que incitava um pogrom, e depois iniciava-se o combate. Não é de admirar que os judeus e alguns pagãos que restavam tivessem experimentado os elementos consistentemente mais desleais do Império. No entanto, dentro da Igreja, a religião e o regionalismo coincidiram até um certo ponto, e talvez aqui resida a chave para os grupos heréticos, que irão ser descritos mais pormenorizadamente em capítulos seguintes. Porque o que parece ter motivado os Sírios e os monofisitas egípcios não terá sido, tanto a sua crença em alguma questão da doutrina que lhes interessava, antes a sua lealdade à sua própria Igreja, o seu bispo e o homem santo da sua aldeia. Sempre que um grupo cristão dissidente houvesse instalado uma base territorial de forma consolidada, todas as tentativas de se lhe impor uma uniformização levavam ao fracasso da ortodoxia imperial. No Período Inicial bizantino a ideia de Romanitas continha pouca força, o que se revelou ainda mais verdadeiro no que respeita ao Período Médio, quando a velha capital imperial havia retrocedido um pouco para o deserto cítico e a língua latina fora esquecida. Até em contextos de confronto internacional, o factor emotivo estava mais associado à identidade cristã do que à identidade romana. Com efeito, quando em 922 Romano I Lecapeno instigou os seus oficiais do exército a montar uma defesa audaz contra Simeão da Bulgária, fizeram-se votos de morrer em nome dos cristãos. E note-se que os próprios Búlgaros também se apelidavam nesta altura de cristãos. Contudo, sublinhe-se que nenhum termo novo emergiu para referir a identidade do Império como um todo. Nem tal foi muito necessário no quotidiano das populações. Quando, no início do século IX, São Gregório, o Decapolita, natural do Sul da Ásia Menor, desembarcou no porto de Ainos na Trácia, foi prontamente preso pela polícia imperial e sujeito a uma bastonada. Não se sabe bem porquê, talvez porque se parecesse com um árabe. Foi-lhe depois perguntado: Quem é você, e qual a sua religião? A resposta foi: Sou um cristão, os meus pais são tal e tal pessoa, e faço parte da crença ortodoxa. A religião e a origem geográfica constituíam o seu passaporte. Não lhe ocorreu descrever-se simplesmente como romano.

Sociedade e Economia

Diz-se que um abade do século VI se terá dirigido com estas palavras a um noviço: Se o imperador terreno pretendia nomeá-lo patrício ou camareiro, dar-lhe dignidade no seu palácio (esse palácio que irá desaparecer como uma sombra, ou um sonho), não iria desprezar rodas as suas posses e correr para ele com roda a prontidão? Não estaria disposto a passar por todo o ripo de dor e de trabalhos, até arriscar a própria vida para poder testemunhar o dia em que o imperador, na presença do seu senado, o recebesse e acolhesse no seu serviço? Poucos Bizantinos, podemos imaginar, ter-se-ão comportado de forma diferente, visto que a característica mais óbvia do Estado bizantino era o poder esmagador do governo central. Excepto as rebeliões, não havia uma força eficaz para contrabalançar esse poder excepto no atraso, ineficiência, corrupção ou simples distância. Isto permaneceu verdade até à desintegração gradual do governo central, que podemos situar aproximadamente no século XI». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

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segunda-feira, 12 de julho de 2021

Cyril Mango. Bizâncio. O Império da Nova Roma. «Os Arménios eram quase todos descritos em termos do seu carácter abusador. Até os demónios, tinham fortes sentimentos de afiliação local…»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas

«(…) Obviamente, estes eslavónios formavam ainda um grupo distinto. No século seguinte, Anna Comnena refere-se a uma aldeia na Bitínia localmente chamada Sagoudaous, presumivelmente por causa da tribo Sagoudatai, atestada na Macedónia no século VII. Um pouco mais tarde, o contingente eslavónico na Bitínia foi aumentado pelo imperador João II Comneno, que estabeleceu perto de Nicomédia um grupo de eslavos cativos. As aldeias sérvias ainda são mencionadas nesses locais no século XIII. Por outras palavras, é bem possível que os eslavos da Bitínia, ou pelo menos parte deles, tenham sido assimilados pelos Turcos Otomanos sem que nunca se tornassem gregos. A conclusão óbvia a tirar destes e de muitos outros casos é a de que o Império Bizantino do Período Médio não foi de modo nenhum um Estado solidamente grego. Além dos elementos arménios e eslavos, havia muitos outros elementos estrangeiros, tais como os Georgianos e os Valáquios dos Balcãs. A afluência maciça de Sírios e outros cristãos orientais seguiu a expansão do Império em direcção ao Oriente, em finais do século X; e quando, em 1018, a fronteira imperial se estendeu mais uma vez até ao Danúbio, abrangia vastas áreas onde o grego nunca fora falado ou se havia extinguido há muito tempo atrás. Se os falantes de grego formavam na altura a maioria ou a minoria dos habitantes do Império permanece uma incógnita. De um modo geral, não é fácil definir o sentimento de solidariedade, se é que haveria algum, que unia os habitantes multinacionais do Império. No século VI o mote Gloria Romanorum aparecia ainda, por vezes, na cunhagem de moedas imperiais, mas não é provável que existisse muita devoção nas províncias orientais à ideia de Romanitas. Além disso, lealdade a Roma e admiração pela sua antiga grandeza haviam sido um tema regular da polémica pagã, enquanto a Igreja mantinha a posição de que os cristãos eram, acima de tudo, cidadãos da Jerusalém Celestial e, ao fazê-lo, provavelmente terá enfraquecido a coesão do Império. Para não falar do facto de não ter havido exemplos de lealdade ao Estado na história bizantina, com efeito, verifica-se completamente o contrário. Será suficiente lembrar o desespero da população de Nísibis quando a sua cidade fora cedida aos Persas em 363, a demonstração de sentimentos pró-romanos em Edessa em 449, no contexto de lutas sectárias, e uma série de casos semelhantes. Porém, devemo-nos de seguida recordar que na altura a única alternativa a viver sob a lei romana era viver sob a lei persa (o que era, normalmente, pior). As pessoas esmagadas pelo peso dos impostos sentiam-se muitas vezes tentadas a desertar para o inimigo, e até a juntar-se a alguma tribo bárbara onde não se cobrasse impostos. Todavia, isso não era uma opção para aqueles que desfrutavam de um bom nível de vida. Um sentimento de Romanitas dificilmente era um factor decisivo. Ao que se pode julgar, os principais elos de solidariedade foram dois: regional e religioso. As pessoas identificavam-se com as suas aldeias, as suas cidades e as suas províncias muito mais do que com o Império. Quando alguém estava longe de casa, não passaria de um estranho, sendo muitas vezes tratado como suspeito. Um monge da Ásia Menor Ocidental que se juntou a um mosteiro no Ponto foi denegrido e maltratado por todos como se fosse um estranho. O corolário para a solidariedade regional era a hostilidade regional. Encontramos muitos testemunhos depreciativos em relação aos Sírios astutos que falavam com um sotaque cerrado, aos grosseiros Paflagónios, os pedintes de Creta. Os Alexandrinos incitavam à ridicularização de Constantinopla. Os Arménios eram quase todos descritos em termos do seu carácter abusador. Até os demónios, tinham fortes sentimentos de afiliação local e não queriam associar-se aos seus companheiros das províncias vizinhas». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

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Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «Não será mais provável que a ausência de um clero linguisticamente qualificado, a relativa inacessibilidade das Escrituras eslavónicas…»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas

«(…) Por muito elucidativa que possa ser em determinados aspectos, uma visão demasiado abrangente não ajudará o historiador bizantino a resolver os problemas específicos com os quais se confronta. Terá sido a helenização, por exemplo, um objectivo consciencioso do governo imperial, se foi, como se implementou e com que sucesso? E se teve sucesso na Idade Média, porque não o terá atingido na Antiguidade, sob as condições de uma vida mais estável e uma civilização superior? Quando consideramos as nossas fontes precárias, compreendemos que a formulação das anteriores perguntas não se adapta à forma de pensar bizantina. Primeiro que tudo, a própria designação grego, que usamos livremente hoje em dia para descrever os bizantinos que não pertenciam a nenhum grupo alheio, está inteiramente ausente na literatura da época. Um habitante do Sul da Grécia, da Tessália, ter-se-ia se referido a si próprio como um Helladikos (um nome já comum no século VI d.C.), mas tanto podia ter sido eslavo como grego. O mesmo se pode dizer sobre regiões cujos habitantes se chamavam pelos nomes das suas respectivas províncias, por exemplo, Paflagónios ou Thrakésians (segundo o tema Thrakésian na Ásia Menor Ocidental). Por isso, visto que não existia uma noção de grego, é difícil explicar como poderá ter existido o conceito de helenização. O único passo que se conhece, e que o poderá explicar, refere-se ao modo como o imperador Basílio I converteu as tribos eslavónicas da sua antiga religião e, dando-lhes uma forma grega (graikósas), tornou-os governantes de acordo com o costume romano, honrou-os com o baptismo e libertou-os da opressão dos seus próprios governantes. Contudo, há muito tempo que se vem a discutir o significado que o termo helenizado poderá ter no presente contexto. O que ouvimos, muitas vezes, é que se relaciona com a conversão de vários povos ao cristianismo ortodoxo e com a implantação de uma organização eclesiástica, tal como atesta a Crónica de Monemvasia. que descreve a actividade do imperador Nicéforo I no Peleponeso: ele construiu de novo a cidade de Lacedemónia e implantou uma população diversificada: nomadamente, os caíres, os Thrakésians, os Arménios e outros, reunidos de vários sítios e cidades, e transformou-a num bispado. Decerto, nem os cafres (possivelmente um termo genérico para referir os convertidos do Islão); nem os Arménios contribuíram para a helenização da Lacónia. O objectivo do imperador era simplesmente reunir uma população cristã e estabelecer um bispado. Não há qualquer dúvida de que a evangelização dos povos não cristãos instalados no Império foi levada a cabo em grego. Isto pode causar alguma surpresa no caso dos Eslavos, pois o alfabeto eslavónico foi ele mesmo inventado por um bizantino, São Cirilo, provavelmente na década de 860. No entanto, a sua invenção e a consequente tradução dos textos cristãos fundamentais destinavam-se a uma região eslava bem distante, a Morávia; e foi inteiramente por uma questão de sorte que a missão cirilo-metodiana, após o seu fracasso inicial, encontrara um solo fértil num país em que tal não seria suposto acontecer, nomeadamente, o reino búlgaro. Tanto quanto se sabe, nenhuma tentativa foi alguma vez realizada para evangelizar os Eslavos na Grécia na sua própria língua, sendo que o uso litúrgico do grego foi imposto na Bulgária conquistada depois de 1018. Como é evidente, esta situação deverá ter contribuído para a difusão da língua grega. Mas terá havido alguma política deliberada também nesse sentido? Não será mais provável que a ausência de um clero linguisticamente qualificado, a relativa inacessibilidade das Escrituras eslavónicas, e a natureza heterogénea da população tenham conjuntamente levado a fazer uso do grego, como sendo a opção mais fácil? Por mais que a imposição litúrgica do grego se tenha provado eficaz, temos de admitir que a assimilação dos enclaves bárbaros foi um processo muito lento. No Peloponeso a presença dos Eslavos pagãos a uma curta distância do Sul de Esparta é atestada nos finais do século X, aproximadamente duzentos anos depois das primeiras tentativas para provocar a sua conversão. Igualmente eficaz terá sido o caso dos Eslavos na Bitínia. Vimos que estes foram transplantados em número considerável no final do século VII e até meados do século VIII. Cerca de duzentos anos mais tarde, os exércitos bizantinos que reuniram esforços para conquistar Creta em 949, incluíam um contingente de eslavónios que estavam instalados em Opsikion (sendo este o nome administrativo de uma parte da Bitínia) situado abaixo dos seus comandantes». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

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domingo, 11 de julho de 2021

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «O Império de Roma no Mediterrâneo simplesmente deixara de existir, enquanto o Estado bizantino ficara limitado à Ásia Menor, às ilhas do mar Egeu e a um pedaço da Crimeia e da Sicília»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas

«(…) Simultaneamente. com a perda dos Balcãs, o Império sofreu uma amputação mais grave ao ser destituído das províncias orientais e do Sul, num processo em que se poderá distinguir duas fases. Primeiro, entre os anos 609 e 619, os Persas conquistaram toda a Síria, a Palestina e o Egipto. Foram posteriormente derrotados pelo imperador Heraclio e retiraram-se para o seu país. Todavia, alguns anos mais tarde, as mesmas províncias foram invadidas pelos Árabes e, desta vez, perdidas para sempre. Toda a costa norte-africana sucumbiu também ao invasor. O Império de Roma no Mediterrâneo simplesmente deixara de existir, enquanto o Estado bizantino ficara limitado à Ásia Menor, às ilhas do mar Egeu e a um pedaço da Crimeia e da Sicília.

Os Persas iniciaram também outro processo que viria a ter consequências demográficas importantes, ao atacarem Constantinopla através da Ásia Menor. Ao fazê-lo causaram uma devastação imensa. Quando os Árabes sucederam aos Persas e se assenhorearam de todos os territórios até às montanhas do Tauro, também atacaram a Ásia Menor, não uma ou duas vezes, mas praticamente todos os anos. As incursões continuaram durante quase dois séculos. Muitos dos ataques de surpresa não penetraram muito para além da fronteira, mas vários deles estenderam-se até ao mar Negro e ao mar Egeu e alguns chegaram mesmo à própria Constantinopla. No entanto, os Árabes nunca conseguiram ganhar uma base de operações no planalto da Anatólia. Ao invés, o que sucedeu foi que cada vez que entravam, a população local refugiava-se em fortes inacessíveis, dos quais a Ásia Menor está liberalmente provida. Os Árabes passavam entre os fortes, fazendo prisioneiros e pilhando, enquanto os Bizantinos queimavam as colheitas para privar os inimigos das provisões e mantê-los em movimento. As consequências deste processo prolongado são fáceis de imaginar: grande parte da Ásia Menor foi devastada e despovoada quase de forma irreversível.

Deste modo, criou-se uma lacuna demográfica enorme. O Império precisava urgentemente de agricultores assim como de soldados. Para atingir este fim, teria de recorrer a transferências em massa de populações. O imperador Justiniano II, em particular, aplicou esta política em grande escala. Deslocou uma grande parte da população do Chipre para a região de Cízico na costa sul do mar de Mármara. Ao que parece, foi um fracasso: muitos dos imigrantes morreram no caminho, e aqueles que chegaram ao destino pediram mais tarde para ser repatriados. Justiniano II deslocou também uma grande multidão de Eslavos para a Bitínia. Mais uma vez, teve pouca sorte: os trinta mil soldados que organizou de entre aquele grupo para lutar contra os Árabes não foram suficientes para vencer o inimigo, após o que o imperador infligiu represálias cruéis sobre as famílias. No entanto, nos anos 760, sabe-se que duzentos e oito mil eslavos vieram viver para a Bitínia por mútuo acordo. No século VIII ouvimos falar repetidamente da colonização organizada dos Sírios na Trácia. Contudo, os imigrantes mais proeminentes foram os Arménios, muitos dos quais chegaram sem terem sido forçados. Eram soldados excelentes e o Império, privado do seu terreno de recrutamento na Ilíria, precisava muito deles. De facto, a imigração dos Arménios começara no século VI, e a partir do reinado de Maurício formaram a espinha dorsal do exército bizantino. A entrada dos Arménios no Império prolongou-se durante muitos séculos. Muitos estabeleceram-se na Capadócia e em outras partes da Ásia Menor Oriental perto da sua terra natal, outros na Trácia e outros ainda na região de Pérgamo. É impossível avançar com um valor aproximado do seu número. No entanto, ao contrário dos Eslavos, os Arménios ascenderam rapidamente a posições proeminentes, e até mesmo ao trono imperial, dominando a instituição militar durante o Período Médio bizantino. Desta forma, se nos situarmos mais ou menos na altura em que o Império iniciou o lento percurso da sua recuperação, digamos, em fins do século VIII, encontramos a população que havia sido agitada tão minuciosamente dispersa, que é difícil dizer que grupos étnicos viviam onde e em que números. Afirma-se muitas vezes que afastando, por muito doloroso que seja, os principais elementos que não falavam grego, tais como os Sírios, os Egípcios e os Ilírios, o Império tomara-se mais homogéneo. Também se afirma que os que não eram gregos foram gradualmente sendo assimilados ou helenizados através da actuação da Igreja e do exército, o que, de resto, se verificou particularmente com as populações indígenas da Ásia Menor, assim como com os Eslavos no Peloponeso e noutros locais da Grécia. Poder-se-á aconselhar o leitor mais crítico a encarar estas generalizações com alguma cautela. É evidentemente verdade que após a queda do latim, o grego passara a ser a única língua oficial do Império, pelo que para a aprender se tomara necessário seguir uma carreira de negócios ou de comércio. Nem o arménio nem o eslavónio alguma vez suplantaram o grego como meio de comunicação geral. Também é verdade que, a longo prazo, o eslavónio morrera na Grécia e na Bitínia, e se se falou algum arménio na Trácia, tanto quanto temos na memória, não terá sido pelos descendentes dos colonos que lá se estabeleceram no século VIII. Mas depois também se sabe que o grego sobrevivera na Ásia Menor continuamente apenas no Ponto e numa pequena parte da Capadócia, ao passo que ter-se-á praticamente extinto na parte oriental do subcontinente até à sua reintegração pelos imigrantes nos séculos XVIII e XIX. Não discutiremos a última observação de que a Ásia Menor Ocidental não falou predominantemente grego durante a Idade Média». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «A última importante colonização eslavónica foi a dos Sérvios e dos Croatas, que no reino de Heraclio ocuparam as terras, onde ainda chegaram a habitar. Depois, em 680. vieram os Búlgaros turcos…»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas
«(…) Outra observação poderá ser feita com base no nosso levantamento, nomeadamente, o facto de apesar da crescente insegurança em quase todas as partes do Império, muitos dos súbditos de Justiniano viviam ainda nas suas terras de origem tradicionais. A diáspora dos Gregos, dos Judeus e, a um menor grau, dos Sírios, acontecera alguns séculos antes. Do ponto de vista etnográfico, assim como em muitos outros aspectos, a era justiniana representa, portanto, o final da Antiguidade. Seria maçador descrever todas as mudanças etnográficas que o Império testemunhou depois do século VI, mas devemos mencionar e comentar aquela que representou a maior mutação de todas, que teve início algumas décadas depois da morte de Justiniano. O primeiro sinal fez-se sentir com a instalação em massa de Eslavos na península Balcânica. Com efeito, vieram várias vagas de Eslavos e, ao contrário de invasores anteriores, estes vieram para ficar. Num passo muito citado de João de Amida (também conhecido por João de Éfeso). regista-se que em 581:

um povo execrável, os chamados Eslavónios, invadiu toda a Grécia e o país dos Tessalonicenses, bem como toda a Trácia, tomando cidades e vários fortes, devastando e queimando o que lhes surgia pela frente, e escravizando as populações. Fizeram-se senhores do país inteiro que colonizaram à força, e ali passaram a habitar, vivendo em paz em territórios romanos, sem ansiedades ou receios, capturando prisioneiros, chacinando e destruindo tudo.

Outra fonte, a chamada Crónica de Monemvasia, refere que no ano de 587-588 os Turcos Ávaros (com os quais os Eslavos eram normalmente aliados):

capturaram toda a Tessália e toda a Grécia, o antigo Epiro, Árica e Eubeia. De facto, atacaram os Peloponenses e tomaram as suas terras pela força das armas. Depois de expulsarem e destruírem os povos helénicos autóctones, estabeleceram-se no 1ocal. Aqueles que conseguiram escapar às suas mãos assassinas dispersaram-se por várias zonas. Assim, os cidadãos de Patras mudaram-se para a região de Reggio, na Calábria, os Argivos para a ilha de Orobe, os Coríntios para a ilha de Egina [...] Apenas a parte oriental do Peloponeso, de Corinto ao cabo Maleas, não fora invadida pelos Eslavónios, devido à natureza inacessível e inóspita da região.

Existem algumas dúvidas em relação à data exacta destes acontecimentos, mas é inegável que no final do século VI e início do século VII, quando a fronteira danubiana entrou em completo colapso, praticamente toda a península Balcânica escapou ao controlo imperial. Apenas alguns postos avançados costeiros, tais como Mesêmbria no mar Negro, Tessalonica, Atenas e Corinto, se mantiveram. Em todos os outros locais, a população antiga procurou refúgio nas ilhas perto da costa, assim como em Monemvasia, ou emigrou para Itália. O domínio dos bárbaros estendia-se até às defesas exteriores de Constantinopla, as chamadas Longas Muralhas Anastasianas, que descreviam um largo arco desde o mar Negro a Selímbria (Silivri) no mar de Mármara, mas até estas iriam em breve ser abandonadas.
A última importante colonização eslavónica foi a dos Sérvios e dos Croatas, que no reino de Heraclio ocuparam as terras, onde ainda chegaram a habitar. Depois, em 680. vieram os Búlgaros turcos e conquistaram o país ao qual deram o seu nome, e onde viriam a ser assimilados pela população eslavónica. A barbarização dos Balcãs começou a inverter-se apenas no final do século VIII, mas por essa altura os efeitos já se haviam tornado irreversíveis». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «Comparada com o crescimento do latim na Gália e em Espanha, dever-se-á presumir que a língua grega terá tido uma evolução limitada entre o século III a.C. e o século VI d.C..»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas
«(…) Procópio não menciona aqui que algumas das invasões da península Balcânica ocorreram antes da época de Justiniano, nomeadamente, aquelas levadas a cabo pelos Godos em 378, pelos Hunos em 441-447, pelos Ostrogodos em 479-482 e pelos Búlgaros a partir de 493. Não existe grande dúvida no que diz respeito à imensa devastação causada por estas e outras incursões mais tarde, mas é difícil avaliar o efeito na etnografia das regiões em questão. As populações nativas eram os Ilírios a oeste, os Trácios e os Daco-Misianos a leste e, claro, os Gregos a sul, mas seria preciso um grande historiador para determinar, em meados do século VI, quem vivia onde e em que número. Os Eslavos já haviam começado a colonizar, especialmente na área entre Nis e Sófia, como se comprova pelos nomes dos locais listados por Procópio, e podemos imaginar que a presença prolongada das tropas góticas e outras tropas bárbaras terá deixado alguns rastos. Quanto às línguas, já comentámos a fronteira entre latim e grego. Do ilírio (cuja relação com o albanês moderno é contestada) pouco se sabe, mas o trácio, em particular o béssico, estava ainda muito vivo no século VI.
Em síntese, eram estes os povos e as línguas do Império de Justiniano; e se se deu mais ênfase aos elementos autóctones foi para poder corrigir a parcialidade das nossas fontes literárias e narrativas. Por exemplo, Libânio, o retórico do século IV, que nasceu em Antioquia e viveu a maior parte da sua vida nessa cidade, cujos escritos enchem onze volumes impressos e são uma mina de informação útil, menciona apenas uma vez a existência da língua siríaca. No entanto, é um facto incontestável que a Antioquia, onde se falava grego, era uma ilha num mar de siríaco. Autores eruditos simplesmente não repararam em tal fenómeno desconcertante. Nem as inscrições são muito mais elucidativas. Quem quer que tenha feito uma inscrição, mesmo numa lápide, usou naturalmente a língua de prestígio da zona. Além disso, muitos dialectos vernáculos não eram escritos. É em grande parte entre os monges que somos confrontados, ocasionalmente, com o povo iletrado, permitindo-nos ter uma vaga ideia de como falavam. Como seria de esperar, tinham a sua língua autóctone, o patois. Daí o hábito de implantar os mosteiros nacionais. No entanto, outros eram multilingues: aqueles Que não Dormem (Akoimetoi) estava dividido em quatro grupos por língua, latim, grego. siríaco e copta. No mosteiro fundado por São Teodósio, o Cenobiarca, na Palestina, reinava o grego, o béssico e o arménio. No monte Sinai, no século VI, ouvia-se falar latim, grego, siríaco, copta e béssico. Em 518 o abade de um mosteiro em Constantinopla não pôde assinar o seu nome numa petição porque não sabia grego. Exemplos semelhantes facilmente se multiplicaram.
O nosso levantamento teria sido muito mais informativo se tivéssemos sido capazes de exprimir em números a importância relativa dos vários povos. Infelizmente, não temos números certos à nossa disposição. Um escolástico de relevo aventurou-se, no entanto, a contrariar a ideia de que o Império de Justiniano, incluindo as províncias ocidentais reconquistadas, não teria mais de trinta milhões de habitantes. Não levando em conta as perdas causadas pela grande peste de 542, esta estimativa parece-nos demasiado baixa: podemos estar mais perto da verdade postulando trinta milhões na metade oriental do Império. Aproximadamente, a distribuição teria sido a seguinte: oito milhões no Egipto. nove milhões na Síria, Palestina e Mesopotâmia, conjuntamente, dez milhões na Ásia Menor, e três a quatro milhões nos Balcãs. Se estes números estiverem perto da realidade, os falantes autóctones do grego representariam menos de um terço da população total, digamos oito milhões, abrindo-se concessões para os povos não assimilados da Ásia Menor e para os falantes do latim e do trácio dos Balcãs. O grego, o copta e o aramaico teriam estado, assim, em pé de igualdade. Comparada com o crescimento do latim na Gália e em Espanha, dever-se-á presumir que a língua grega terá tido uma evolução limitada entre o século III a.C. e o século VI d.C.. Esta situação deveu-se, sem dúvida, ao facto de a helenização se ter centrado, em grande medida, nas cidades. Cerca de um século depois da conquista árabe, o grego foi praticamente extinto, tanto na Síria como no Egipto, o que só pode querer dizer que não teria criado fortes raízes». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

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Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «Quanto à composição da população, não pode haver grande dúvida de que os Italiôtai, como Procópio lhes chamava, eram basicamente latinos»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas
«(…) Com a Líbia chegamos ao limite das províncias de língua grega. Mais a oeste fica a Tripolitânia, urna faixa costeira estreita, e depois as regiões de Bizacena, Proconsularis e Numídia, e, finalmente, as duas Mauritânias, que se estendem até ao estreito de Gibraltar. Estas haviam sido todas extensivamente romanizadas e as terras mais ricas, correspondentes à actual Tunísia, terão feito parte das zonas mais prósperas e desenvolvidas do Império em melhores dias. Até que ponto a população autóctone foi assimilada permanecerá como algo incerto. Do mesmo modo, também não se sabe ao certo se a língua vernácula das cidades, à qual Santo Agostinho chama púnico, constituía um legado do antigo fenício (como nos parece ser mais provável), ou se era berbere. Em todo o caso, em 560, o nosso viajante teria encontrado uma situação algo diferente daquela que o bispo de Hipona terá conhecido, um século e meio antes, pois a África acabara de ser recuperada pelos Vândalos (em 533), os quais a haviam dominado durante um século como uma potência independente. Os Vândalos eram suficientemente numerosos a ponto de poderem causar um impacto significativo na etnografia da população, mas a sua intrusão levou à irrupção das várias tribos berberes, que agora ameaçavam seriamente as áreas colonizadas.
Não necessitamos de nos preocupar com Espanha, embora parte da sua costa a sul tenha sido recuperada por Justiniano aos Visigodos e permanecido nas mãos bizantinas durante cerca de setenta anos. E assim podemos levar o nosso viajante até Itália, onde o domínio de Justiniano fora estabelecido, assente numa base um pouco duvidosa, depois de um período sangrento. O país inteiro estava, então, numa situação terrível. O estado de guerra contínuo entre Bizâncio e os Ostrogodos, que durou de 535 até 562, resultou na destruição de Milão, com uma perda reputada em trezentos mil homens, o efectivo despovoamento de Roma, a qual sofrera três cercos, e a fome generalizada no campo. A Itália tornou-se, em toda a parte, ainda mais desprovida de homens do que a Líbia, escreveu Procópio, talvez sem estar a cometer um grande exagero.
Quanto à composição da população, não pode haver grande dúvida de que os Italiôtai, como Procópio lhes chamava, eram basicamente latinos. Até na capital imperial de Ravena, que mantinha relações próximas com o Oriente e numerosos colonos orientais, o latim era o meio de comunicação normal. Alguns pequenos focos de grego poderão ter sobrevivido na parte mais a sul da península, tendo certamente continuado a ser falado na costa leste da Sicília. Existiam outros grupos minoritários, tais como os Judeus e os recém-chegados Ostrogodos, mas os segundos dificilmente poderão ter ultrapassado os cem mil. Muitas mais vagas de invasores e colonos haviam de vir sem, contudo, alterar o carácter da população fundamentalmente latina.
Ao cruzar o Adriático, o nosso viajante poderá ter desembarcado em Dirráquio e percorrido toda a Via Egnatia até Constantinopla. As regiões que teria de atravessar eram, então, tão despovoadas como a Itália. Para citar Procópio novamente:

A Ilíria e toda a Trácia, isto é, toda a região desde o mar Jónio [o Adriático] até aos arredores de Bizâncio, incluindo a Grécia e Quersoneso, foi invadida quase todos os anos pelos Hunos, os Eslavos e os Anteus, desde que Justiniano se tornou imperador de Roma, causando imensos estragos entre os habitantes dessas zonas. Com efeito, acredito que em cada invasão mais de duzentos mil romanos terão sido mortos e capturados, para que um verdadeiro deserto cítico, pudesse existir em toda esta terra».

In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «Naucrátis no Delta e Ptolemais na Tebaida; nem a helenização teve grande progresso sob a administração romana»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas
«(…) A peregrina Egéria, que testemunhara as festividades da Páscoa em Jerusalém por volta do ano 400. disse o seguinte:

Constatando que naquele país parte da população sabe quer o grego quer o siríaco, embora uma outra parte saiba apenas grego e uma outra ainda saiba apenas siríaco, e tendo igualmente em conta que o bispo, embora saiba siríaco, fala sempre em grego e nunca em sírio, está sempre a seu lado um padre que, enquanto fala em grego, traduz os seus comentários para siríaco para que rodos o possam entender. De igual modo, para as leituras que são proferidas na igreja, e visto que têm de ser lidas em grego, está sempre alguém presente para as traduzir para siríaco, para benefício das pessoas, no sentido em que isso lhes permite receber instrução. Quanto aos latinos que se encontrem lá, isto é, aqueles que não sabem nem siríaco nem grego, também para eles é dada uma interpretação para que não fiquem descontentes; pois existem alguns irmãos e irmãs que, proficientes em grego e em latim, lhes explicam os textos na sua língua.

Os Árabes, que se haviam espalhado por todo o Norte até à Mesopotâmia, eram outro povo que marcava presença entre a população da Síria e da Palestina. Alguns deles, como os Nabateus de Petra e os Palmirenos, haviam-se tornado sedentários e perderam a sua língua autóctone. Outros atravessaram os desertos, quer como salteadores quer como vassalos do Império, cujo dever era proteger as áreas colonizadas e vigiar a transumância dos nómadas. Não devemos, em caso algum, imaginar que a conquista árabe do século VII introduziu um elemento estranho nestas províncias: os Árabes sempre haviam ali estado, e porque o seu número aumentava, assumiram cada vez mais o papel de guardiães da paz do imperador, no reinado de Justiniano. Quando, por exemplo, os Samaritanos organizaram uma revolta sangrenta em 529, foi um chefe árabe, Abukarib, que os venceu.
Intimamente ligada à Síria, em virtude da sua situação, estava a ilha de Chipre. Aqui o grego havia sido falado desde a pré-história, e havia também uma colónia bastante grande de Sírios como se pode deduzir pela prevalência da heresia monofisita. Santo Epifânio, o bispo mais famoso de Salamina (falecido em 403). era palestiniano e diz-se que sabia cinco línguas, grego, siríaco, hebraico, egípcio e latim. Um exagero talvez, mas, ainda assim, um indício do multilinguismo que caracterizava, como ainda o faz, os mais empreendedores entre os Levantinos. Separada da Palestina por uma área deserta, estende-se a rica e antiga terra do Egipto. Aqui, também, a disseminação do grego era um legado directo da era helénica. A capital, Alexandria, era uma cidade predominantemente grega, mas oficialmente descrita como sendo ad Aegyptum, não in Aegypto, uma intromissão num país desconhecido: e para quanto mais longe de Alexandria se viajasse, menos grego se falava. À excepção da capital, apenas duas cidades haviam sido fundadas pelos Gregos.
Naucrátis no Delta e Ptolemais na Tebaida; nem a helenização teve grande progresso sob a administração romana. Não contando com a colónia judaica, que no século I d.C. diz-se ter contado com cerca de um milhão de pessoas, a maior parte da população, embora fosse administrada em grego, continuava a falar egípcio (copta), e existem sinais de que no Período Inicial bizantino o copta ganhava terreno, pelo que, no século VI, até alguns actos oficiais eram publicados na língua autóctone. Acima de tudo, o copta era a língua oficial do cristianismo egípcio, enquanto o grego se identificava com a hierarquia estrangeira imposta pelo governo imperial.
A parte do Egipto colonizada, que estava praticamente limitada ao vale do Nilo e ao Delta, via-se ameaçada em todas as suas frentes pelas tribos bárbaras. Do Leste vinham os saqueadores sarracenos; no Sul os Nobadae e Blémios negros eram particularmente problemáticos, enquanto o Ocidente estava aberto a incursões berberes, assim como a Líbia, uma província administrativamente associada ao Egipto. São Daniel, um monge de Scetis, não muito longe de Alexandria, foi raptado pelos bárbaros três vezes e conseguiu escapar, somente após matar o raptor, um crime pelo qual cumpriu pena durante o resto da vida. Quando. Na segunda metade do século VI, o monge itinerante João Moscho visitou os mosteiros egípcios, contou muitas histórias de depredação de bárbaros e de salteadores nativos. Alguns mosteiros estavam praticamente desertos». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

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domingo, 25 de junho de 2017

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «A Palestina era assim uma babel de línguas, mas a população autóctone, e que esta incluía dois grupos étnicos distintos, nomeadamente, os Judeus e os Samaritanos, falava aramaico»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas
«(…) Situadas a leste da Capadócia, e abrindo caminho a uma série de cadeias montanhosas, encontram-se algumas províncias arménias que haviam sido anexadas ao Império em 387 d.C., quando o reino arménio se repartia entre a Pérsia e Roma. Estas províncias eram estrategicamente muito importantes, mas praticamente intocadas pela civilização greco-romana, pelo que continuaram a ser governadas pelos sátrapas nativos até Justiniano lhes impor uma nova forma de administração militar. No século V, os Arménios adquiriram o seu próprio alfabeto e começaram a construir uma literatura à base de traduções do grego e do sírio, fortalecendo o sentimento de identidade nacional. De facto, os Arménios, que desempenharam um papel crucial na história de Bizâncio, revelaram-se bastante resistentes à assimilação, tal como os outros povos caucasianos.
A fronteira entre a Arménia e a Mesopotâmia correspondia, aproximadamente, ao rio Tigre. Três séculos de ocupação da Pártia (desde meados do século II a.C. até à conquista romana cerca de 165 d.C.) apagaram praticamente todos os traços de helenização da Mesopotâmia, que os reis da Macedónia tanto haviam querido impor. A forma literária síria usava o dialecto de Edessa (Urfa), sendo nessa cidade abençoada, assim como em Amida (Diyarbakir), Nísibis (Nusaybin) e em Tur Abdin, que um vigoroso movimento monástico de crença monofisita alimentava o cultivo dessa língua. A Mesopotâmia era uma região fronteiriça: a fronteira entre Roma e a Pérsia apresenta uma curta distância a sueste da cidade-guarnição de Dara, enquanto Nísibis havia sido ingloriamente cedida aos Persas pelo imperador Joviano em 363. A separação cultural da Mesopotâmia certamente não ajudou o governo imperial, essencialmente por se tratar de uma área sensível.
O domínio dos dialectos aramaicos, a que pertence o sírio, estendia-se através da Síria e da Palestina até aos confins do Egipto. Aqui testemunhamos um fenómeno de considerável interesse. Quando os reinos helénicos se estabeleceram, a seguir à morte de Alexandre, o Grande, a Síria estava dividida entre os Ptolomeus e os Selêucidas. Os Ptolomeus, que obtiveram a metade do país a sul, pouco fizeram para estabelecer ali as colónias gregas. Pelo contrário, os Selêucidas, para quem o Norte da Síria tinha uma importância crucial, levaram a cabo uma colonização intensiva. Colonizaram algumas cidades novas, tais como Antioquia Orontes, Apameia. Selêucia e Laodiceia, introduzindo um elemento grego nas cidades existentes, tais como Alepo. A partir dessa altura, toda a Síria permaneceu continuamente sob uma administração de língua grega. No entanto, cerca de nove séculos mais tarde, a língua grega não está confinada apenas às cidades, mas alargada às mesmas cidades que haviam sido fundadas pelos reis helénicos. O campo, em geral, e as cidades que não eram de origem grega, como Emesa (Homs), mantiveram-se fiéis à sua língua autóctone, o aramaico.
É pouco provável que o uso do grego tivesse sido mais divulgado na Palestina do que foi no Norte da Síria, excepto em relação a um fenómeno artificial, nomeadamente, o desenvolvimento dos locais sagrados. A começar pelo reino de Constantino, o Grande, praticamente todos os lugares com fama bíblica se tornaram, como diríamos hoje, numa atracção turística. As pessoas vinham em grande número para a Palestina, oriundas de todos os cantos do mundo cristão: alguns como peregrinos em trânsito, outros procurando uma permanência mais duradoura. Mosteiros de todas as nacionalidades emergiram como cogumelos no deserto ao lado do mar Morto. A Palestina era assim uma babel de línguas, mas a população autóctone, e devemo-nos lembrar que esta incluía dois grupos étnicos distintos, nomeadamente, os Judeus e os Samaritanos, falava aramaico, como sempre o fizera». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

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sábado, 24 de junho de 2017

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «… e o celta, por seu lado, seria falado na Galácia e na Capadócia, mais a este. Os rebeldes isáuricos, que haviam sido pacificados…»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas
«(…) Constantinopla, como todas as grandes capitais, era uma miscelânea de elementos heterogéneos: todas as setenta e duas línguas conhecidas do homem estavam nela representadas, segundo uma fonte contemporânea. Provincianos de todos os géneros tinham-se estabelecido ali, ou iriam entrar e sair ao acaso de negócios comerciais ou oficiais. A classe servil incluía muitos bárbaros. Outro elemento estranho era o das unidades militares, as quais no século VI eram compostas ou por bárbaros (Alemães, Hunos, e outros), ou por alguns dos provincianos mais robustos, tais como os Isauros, os Ilírios e os Trácios. Diz-se que setecentos soldados foram aquartelados em casas de famílias de Constantinopla no reinado de Justiniano. Os monges sírios, mesopotâmios e egípcios, que falavam pouco, ou nem sequer falavam, grego, dirigiram-se em massa para a capital, para usufruir da protecção da imperatriz Teodora e impressionar os autóctones com as suas proezas bizarras de ascetismo. Os judeus omnipresentes ganhavam a vida como artesãos ou mercadores. Constantinopla fora fundada como um centro de latinidade no Oriente e contava ainda com muitos Ilírios, Italianos e africanos entre os seus residentes, cuja língua autóctone era o latim, também a língua do próprio imperador Justiniano. Além disso, várias obras da literatura latina eram produzidas em Constantinopla, como a famosa Gramática de Prisciano, a Crónica de Marcelino e o panegírico de Justino II do africano Corippus. Embora o latim fosse necessário para as profissões jurídicas e para certos ramos da administração pública, a balança pendia inexoravelmente a favor do grego. No final do século VI, como o papa Gregório, o Grande, afirma, não era fácil encontrar um tradutor competente do latim para o grego na capital imperial.
Em frente a Constantinopla estendia-se uma enorme massa de terra pertencente à Ásia Menor, que havia sido comparada a um pontão ligado à Ásia e a apontar para a Europa. As partes mais desenvolvidas sempre foram as orlas costeiras, especialmente a face oeste suavemente inclinada, favorecida por um clima temperado e guarnecida com cidades famosas. A faixa costeira do mar Negro é muito mais estreita e descontínua, enquanto a costa sul não tem, à excepção da planície de Panfília, nenhuma orla de baixa altitude. As áreas costeiras, salvo a zona montanhosa Cilícia (Isáuria), onde a cordilheira do Tauro se estende até ao mar, haviam sido helenizadas durante cerca de mil anos, e ainda antes do reinado de Justiniano. Ao longo da costa do mar Negro, o limite da língua grega correspondia à fronteira actual entre a Turquia e a ex-União Soviética.
A este de Trebizonda e Rizaion (Rize) viviam vários povos caucasianos, tais como os Ibéricos (Georgianos), assim como os Laz e os Abasgos (Abcazes), sendo que os dois últimos mal se aproximavam das missões cristãs. O Império também possuía uma base de operações helenizada na costa sul da Crimeia, enquanto o alto planalto da península da Crimeia era habitado por Godos. Muito diferente das áreas costeiras da Ásia Menor é o alto planalto no interior do país, onde o clima é tempestuoso e a terra, na sua maioria, imprópria para a agricultura. Na Antiguidade, como na Idade Média, o planalto tinha uma população pouco densa e a vida urbana era relativamente pouco desenvolvida. As cidades mais importantes situavam-se ao longo das principais estradas, tal como a chamada Estrada Real que ia de Esmirna e Sardes, via Ancira e Cesareia, até Metilene; a estrada que ligava Constantinopla a Ancira via Dorileia; e a estrada a sul que se estendia de Éfeso a Laodiceia, Antioquia na Pisídia, Icónio, Tiana e, através das Portas da Cilícia, até Tarso e Antioquia, na Síria. A composição étnica do planalto não havia sofrido nenhuma alteração assinalável durante os setecentos anos antes do reinado de Justiniano, consistindo num mosaico desconcertante de povos autóctones, assim como em enclaves de imigrantes há muitos fixados, tais como os Celtas da Galácia, os Judeus, que se haviam estabelecido na Frígia e em outras partes durante o período helénico, e grupos persas de origem ainda mais antiga. Parece que muitas das línguas indígenas ainda eram faladas no período bizantino antigo: a língua da Frígia provavelmente ainda existiria, pois aparece nas inscrições até ao século III d.C.; e o celta, por seu lado, seria falado na Galácia e na Capadócia, mais a este. Os rebeldes isáuricos, que haviam sido pacificados pela força das armas em 500 d.C., tendo muitos deles percorrido todo o Império como soldados profissionais e pedreiros, eram um povo distinto, que falava o seu próprio dialecto, muitas vezes excluindo o grego. No entanto, ao seu lado, na planície da Cilícia, o grego havia-se enraizado solidamente, excepto, talvez, entre as tribos do interior». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

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quinta-feira, 8 de junho de 2017

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «Quase todas as pessoas instruídas do Oriente sabiam falar grego, assim como todas as pessoas instruídas do Ocidente sabiam falar latim»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas
«Todos os impérios exerceram o seu governo sobre uma diversidade de povos e, a este respeito, o Império Bizantino também não fora excepção. Tivesse a sua população sido fundida de modo sensato, tivesse ela sitdo unida na aceitação comum da civilização bizantina enquanto civilização dominante do Império, talvez nem fosse necessário dedicar um capítulo a esta matéria. Contudo, a verdade é que até ao momento anterior ao Período Inicial bizantino, nomeadamente, quando a grande construção de Roma começou a mostrar os primeiros hiatos na aproximação do século II d.C., as várias nações dominadas por Roma tenderam a separar-se e a reclamar a sua individualidade. O crescimento da religião cristã, longe de vir colmatar este hiato, através da introdução de uma aliança universal, apenas o acentuou. Devemos, portanto, começar pela questão: quem foram os Bizantinos? Numa tentativa de responder, devemos percorrer rapidamente todo o Império, reparando como seguimos as populações das várias províncias e as línguas por elas faladas. A época escolhida situa-se cerca do ano 560 d.C.. pouco tempo após a recuperação, pelo imperador Justiniano, de grandes áreas da Itália e do Norte de África, e várias décadas antes das maiores alterações etnográficas, que iriam acompanhar a desintegração do Estado bizantino do Período Inicial.
Teria sido suficiente para o nosso viajante imaginário, desde que não se afastasse das cidades, saber duas línguas, nomeadamente, o grego e o latim. As fronteiras da sua respectiva difusão não foram bem definidas em todos os lugares. No entanto, pode dizer-se, como um cálculo aproximado, que a fronteira linguística percorre a península Balcânica ao longo de uma orientação no sentido este-oeste, nomeadamente, de Odessos (Varna), no mar Negro, até Dirráquio (Dürres) no Adriático; enquanto a sul do Mediterrâneo, a fronteira separava a Líbia da Tripolitânia. Com excepção das terras balcânicas, onde existia uma união razoável, a metade ocidental do Império era substancialmente latina e a metade oriental fundamentalmente grega, na medida em que foram estas as línguas da administração e da cultura.
Quase todas as pessoas instruídas do Oriente sabiam falar grego, assim como todas as pessoas instruídas do Ocidente sabiam falar latim. Porém, uma grande parte da população comum não sabia falar nenhuma dessas línguas. O nosso viajante teria tido uma grande dificuldade em conseguir um roteiro actualizado. Poderia ter deitado a mão a um simples catálogo de províncias e cidades chamadas Synecdemus de Hiérocles, tal como alguns itinerários mais antigos que informavam as distâncias entre as albergarias que poderia encontrar ao longo das estradas principais. Poderia ter retirado informação útil, embora antiquada, a partir de um pequeno livro conhecido por nós pelo nome de Expositio totius mundi e gentium, que foi composto em meaclos do século IV. Mas se quisesse um guia mais sistemático, combinando geografia e etnografia, teria de trazer na mala um exemplar da Geografia de Estrabão. Se tivesse conseguido encontrar o guia geográfico (agora perdido) da autoria do mercador alexandrino Cosmas Indicopleustes, provavelmente teria tirado dele poucas vantagens a nível prático. Imaginemos que o nosso viajante estava satisfeito com tal imperfeita documentação e que, partindo de Constantinopla, tinha intenção de viajar por toda a Europa, na direcção dos ponteiros do relógio». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

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