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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Política. História. Cidadania. Jaime Cortesão. Elisa N. Travessa «… promoção de uma cultura mais abrangente do povo português, por meios diversos e tendo por suporte uma intenção de intervenção cívica e cultural dos intelectuais»

jdact

O contributo de Jaime Cortesão. Concretização do sonho
«(…) Esta última carta foi escrita durante a polémica que o opôs a Cortesão nas páginas de A vida Portuguesa. Ela confirma a ruptura de Sérgio com a Renascença evidenciando, como principal motivo, a divergência em relação ao credo da Saudade que Pascoaes pretendia impor como doutrina do movimento. Sérgio explica mais tarde os fundamentos do seu afastamento da Renascença considerando que no seu interior existiam dois ramos divergentes que alimentavam dois sectores socialmente antagónicos, a saber: o ramo anti-intelectualista e o ramo intelectualista. Sérgio filiava-se no segundo, radicando a sua divergência na oposição à tendência saudosista que Pascoaes apresentou como sendo a doutrina de toda a Renascença: resolvi declarar o meu desacordo com todos os anti-intelectuais e saudosismos, e seguir sozinho o meu rumo próprio aproveitando as facilidades de carácter editorial que a Renascença Portuguesa me proporcionava. Tendência que determina também o afastamento e a dissidência do grupo de Lisboa, explicada por Proença com alguns dos argumentos utilizados por Sérgio. Não existiu pois uma ruptura total com a Renascença e as suas iniciativas. Embora discordando da tendência saudosista que Pascoaes lhe imprimiu, continuam a vincular-se aos objectivos mais gerais dos Estatutos da Sociedade, que propugnavam pela promoção de uma cultura mais abrangente do povo português, por meios diversos e tendo por suporte uma intenção de intervenção cívica e cultural dos intelectuais: em suma, passam da dissidência a uma colaboração distanciada, pontual e crítica.
Retomemos, entretanto, o rumo de Cortesão que seguia entusiasticamente a sua obra no seio da Renascença, sobretudo com o lançamento de A Vida Portuguesa. cujo primeiro número seria publicado em 31 de Outubro de 1912. Para além das iniciativas pedagógicas, Cortesão publica na 2ª série de A Águia artigos de reflexão e alguns poemas. Interessa-nos destacar um desses artigos porque nele se determina com maior precisão a sua posição face às tendências que se formaram na Renascença. Constitui, no dizer de António Reis, uma resposta às críticas de Proença e Sérgio relativamente às orientações da revista e do movimento, embora sem nenhuma referência directa aos dois amigos. Neste artigo, reconhece que um dos grandes males dos portugueses seja a fraqueza, o pessimismo, o abandono fatalista que se projecta numa hesitação da vontade, impulsiva e brusco de carácter efémero e pouco consistente. Havia então que acordar uma vontade adormecida e o único meio de o conseguir seria despertando os impulsos afectivos, educando a vontade, alicerçando-se nas teorias da psicologia experimental de Ribot e Payot.
Um desvanecimento da consciência nacional que teria de ser reafirmada pela valorização dos sentimentos, da consciência histórica e da fisionomia espiritual do povo português. As causas desse mal, dessa pantanosa inércia do povo português, identifica-a Cortesão, na senda de Antero e Herculano e também de Pascoaes, com a educação jesuítica, que desde o meado do século XVI até hoje ainda nos não abandonou e que determinou a falta de consciência nacional, que o nosso povo perdeu ao findar daquele século e que só agora entra palidamente a afirmar-se. Encontramos então uma valorização da vontade, na linha de Antero e do movimento do espiritualismo ou idealismo protagonizado por Fouillées, na formação e educação dos cidadãos no contexto social que integram: sem o alicerce da vontade não há carácter, e o que se afirma do indivíduo pode igualmente afirmar-se da colectividade, que, sem os nobres e persistentes caracteres, não realizará obra de fôlego, qual seja a do ressurgimento da nacionalidade. A ideia de que são os sentimentos que governam o mundo, na esteira de Spencer, e, citando Michelet na sua obra Les femmes de la Révolution diz: o advento duma ideia não é tanto a primeira aparição da sua fórmula, como a sua definitiva incubação, quando, depois de ter sido aquecida pelo amor, desabrocha, fecunda pela força do coração, só os impulsos afectivos e vitalistas, os sentimentos originais, poderiam despertar a vontade». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, Sinais do Pendsamento Contemporâneo, Ensaio, Política, História e Cidadania, 1884-1940, ASA Editores, Setembro de 2004, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006, ISBN 972-41-4002-4.

Cortesia de Edições ASA/JDACT

domingo, 8 de novembro de 2015

Política. História. Cidadania. Jaime Cortesão. Elisa N. Travessa «Quando o saudosismo apareceu, não o ataquei, fugi, deixando de colaborar na Águia; o saudosismo continuou, e eu fugi mais, abandonando a Renascença»

Cortesia de wikipedia e jdact

Renascença Portuguesa e a Guerra. O projecto cultural da Renascença Portuguesa. O contributo de Jaime Cortesão. Concretização do sonho
«(…) Este último corrobora a posição de Proença e transmite-a a Pascoaes, criticando o saudosismo, sobretudo a ligação estreita deste à definição ideológica do projecto e como doutrina essencial da Renascença. Em relação à revista, órgão do movimento, Proença e Sérgio sugerem modificações. Cortesão considera as propostas, mas continua a filiar-se no misticismo e no idealismo da Saudade, suportado numa espécie de santidade civil: Esta revista é para nós um templo: a nossa esperança, esforço, fervor patriótico, lutas de ideias ou realizações de Beleza, unge-os a nossa fé de profunda religiosidade. Proença chega mesmo a sugerir a Cortesão a alteração do título da revista para Renascença. Considera que A Águia, servia para título de uma revista literária, exclusivamente literária, de gente moça, exclusivamente moça. O título mantém-se, como sabemos, e a tendência predominantemente saudosista também, embora enriquecida com a polémica entre Pascoaes e António Sérgio. A segunda série da revista inicia a sua publicação em Janeiro de 1912, como órgão da Renascença, tendo como director literário Teixeira Pascoaes, director artístico António Carneiro e director científico José Magalhães. Jaime Cortesão não integra a direcção talvez porque decida empenhar-se na intervenção pedagógica da Renascença com a direcção de A Vida Portuguesa e a criação das Universidades Populares. O projecto da Renascença vai ganhando forma, embora permaneça e prevaleça a tendência saudosista de Pascoaes expressa desde logo no texto que serve de editorial à 2ª série de A Águia intitulado Renascença e que pretendia acentuar a sua visão do movimento.
Foi Cortesão que sugeriu que fosse Pascoaes a escrever o texto de abertura da segunda série. Retomando ideias expressas no projecto do programa por ele apresentado, considera que o fim da revista, como órgão da Renascença, era dar um sentido às energias intelectuais que a nossa raça possui. Tenta justificar algumas das críticas que lhe são dirigidas considerando que a palavra Renascença não significa um simples regresso ao Passado, é regressar às fontes originais da vida, mas para criar uma nova vida. No entanto, insiste na Saudade como o próprio sangue espiritual da raça, o sentimento-ideia, a emoção reflectida e a própria Renascença original e criadora. Condena ainda todas as influências negativas, do ponto de vista moral, cultural, político ou religioso, vindas do estrangeiro. Pascoaes insiste no número dois da revista nas ideias defendidas no primeiro artigo. Esta insistência motiva a reacção de Sérgio e Proença à qual responde Teixeira Pascoaes e também, embora sem dedicatória, Cortesão.
Sérgio, mais tarde, numa carta a Cortesão confessa: me penaliza a ideia de que você tomou uma ala da Renascença, sem oferecer um lugar nela a um seu amigo, e da Renascença, que não tem lugar na do Pascoaes. Manifesta as suas esperanças n’A Vida Portuguesa, questionando Cortesão se esta cairia nos erros de A Águia. Sugere que se crie nela uma secção intitulada Tribuna Livre aberta a todas as opiniões e a todos os interesses de assunto geral. Funcionaria como uma arena para não dissidentes, para dissidentes, e até mesmo para adversários. Reitera a sua confiança na ideia geral da Renascença, como estava expressa nos Estatutos, e define uma série de ideias comuns ao grupo, que deveriam ser privilegiadas relativamente às ideias particulares: que a Nação Portuguesa poderá levantar-se, se o quiser; que é mister acordar as almas pelo sentimento; é preciso chamar todos à grande obra colectiva. Na mesma data envia uma carta a Proença, dizendo-lhe que já tinha escrito a Pascoaes, criticando certos conceitos do poeta que tinham vindo a ser apresentados como credos ou dogmas da Renascença: a intransigência artística e religiosa, a exclusão da cultura estrangeira, etc. Mais tarde, esclarece o seu procedimento para com Pascoaes declarando que fugiu dele tanto quanto lhe foi possível: Quando o saudosismo apareceu, não o ataquei, fugi, deixando de colaborar na Águia; o saudosismo continuou, e eu fugi mais, abandonando a Renascença. O nosso poeta continuou não só a dar-nos o seu saudosismo, como a ridicularizar e amesquinhar os estrangeirados, embasbacados com Paris de França; sou dos que o Poeta chama estrangeirados, se bem que não principalmente». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, Sinais do Pendsamento Contemporâneo, Ensaio, Política, História e Cidadania, 1884-1940, ASA Editores, Setembro de 2004, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006, ISBN 972-41-4002-4.

Cortesia de EdASA/JDACT

Política. História. Cidadania. Jaime Cortesão. Elisa N. Travessa «Só mais tarde, Cortesão supera teoricamente o nacionalismo saudosista de Pascoaes afirmando a impossibilidade de separar o patriotismo do humanismo universalista…»

jdact

Renascença Portuguesa e a Guerra. O projecto cultural da Renascença Portuguesa. O contributo de Jaime Cortesão. Concretização do sonho
«(…) O programa proposto por Proença, resultado da reunião de Lisboa, evidencia alguns aspectos comuns mas denuncia também claras contradições com o pensamento de Pascoaes. A existência da pureza fundamental da alma lusitana renascida e o repúdio em relação a todas as influências que emanavam do exterior eram ideias que não contavam com a adesão de Proença. A alteração do título do programa e do movimento para Renascença Portuguesa denuncia desde logo que Proença não partilhava do patriotismo saudosista, nem da investida contra o espírito europeu, considerando prejudicial um isolamento da nação em busca de uma identidade própria. Coincide na necessidade de dar uma alma nova à nação, mas acentua a necessidade de formar um núcleo de renascença nacional mais abrangente, passível de concentrar todas as tendências dispersas, contanto que úteis, e os espíritos mais díspares, contanto que dedicados. No diagnostico dos males, doença colectiva, que afectavam a sociedade aponta, entre outras, uma causa genérica, de índole moral, ou seja, os três séculos de educação jesuítica, princípio defendido por Antero, que a partir de um ensino de esquecimento, anulou todas as forças vivas e energias que tinham colocado a sociedade portuguesa a par da civilização mundial. Um isolamento da nação que transformou as ideias e as vivências nacionais anacrónicas em relação ao meio europeu. Os ventos novos do exterior, cientismo, positivismo, evolucionismo, determinismo, eram absorvidos tardiamente e por isso tornavam-se prejudiciais, e constituíam-se em estorvos e em preconceitos. O remédio, a terapêutica ou estratégia proposta por Proença, em contraste com a de Pascoaes, consistia em pôr a sociedade portuguesa em contacto com o mundo moderno, fazê-la interessar pelo que interessa aos homens lá de fora, dar-lhe o espírito actual, a cultura actual, sem perder nunca de vista, já se sabe, o ponto de vista nacional e as condições, os recursos e os fins nacionais. A criação de uma elite consciente e uma opinião pública esclarecida eram os fins essenciais da Renascença, tomando como meios a instrução, o livro, a revista, o panfleto etc., em tudo idênticos, neste aspecto preciso, aos propostos por Pascoaes. Considerando que era necessário dar ao país uma alma que o ressuscite, não concordava que esse intento tivesse como objectivo criar um país dependente das glorias do passado, mas grande da dignidade de um povo que quer ser livre e que merece ser livre. Curiosamente, Cortesão, à data da publicação destes manifestos, procura defender a Renascença desses males que Proença diagnosticava. Considera exagerada a opinião daqueles que propugnavam como remédio, para inverter o rumo da decadência, a educação cosmopolita, o banho salutar nas águas lustrais da civilização estrangeira, e injusta a acusação de isolamento que recai sobre a Renascença, lembrando a obra realizada na promoção das Universidades Populares. Cortesão aproxima-se, neste período, das tendências manifestadas por Pascoaes no seu manifesto e considera que o ideal de lusitanização conduz as nacionalidades a definirem nitidamente a sua obra civilizadora, procurando fazer da sua acção actual um corpo vivo com raízes no passado. Só mais tarde, Cortesão supera teoricamente o nacionalismo saudosista de Pascoaes afirmando a impossibilidade de separar o patriotismo do humanismo universalista, e acreditando nos benefícios de uma abertura às novas ideias que provinham do exterior.
Cortesão procura, em todo este contexto, adoptar uma posição consensual e congregante entre as tendências e atitudes distintas, de forma a manter a unidade e concretizar os objectivos da Renascença. Ainda antes da reunião de Lisboa manifesta a Pascoaes a concordância com o seu programa embora lhe falte filiar o papel da Renascença no alto papel e no profundo fim da Arte na Vida. Mostrar a necessidade de desenvolver o culto da Arte entre nós e as vantagens de substituir por uma atmosfera de Beleza, de alta tolerância e de nobre desinteresse essa atmosfera de mesquinhas ambições, intolerância e reles politiquice em que vive actualmente o público. Após o encontro de Lisboa, Cortesão informa Pascoaes que aí quase todos discordaram do seu manifesto e que a reunião dera bons resultados embora muito diferentes daqueles que ele esperava. Não define claramente a sua posição, indica apenas os pontos controversos apontados ao manifesto de Pascoaes na reunião de Lisboa, sobretudo em relação ao ressurgimento da Raça propugnado por este. No que diz respeito ao manifesto de Proença refere que os presentes foram da opinião que ele correspondia melhor ao pensamento da maioria dos que o iam assinar. Cortesão, procurando conciliar as posições, destaca os resultados mais positivos, para Pascoaes entenda-se, da reunião: todos concordaram com a indicação do Poeta da Saudade para director literário de A Águia. A opção pela não publicação destes programas demonstra a necessidade de atenuar as divergências latentes e gerir consensualmente as singularidades de pensamento dos vários promotores. Estas divergências acabaram por se manifestar e transformam-se posteriormente em afastamento e numa cisão parcial, caso de Raul Proença e António Sérgio». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, Sinais do Pendsamento Contemporâneo, Ensaio, Política, História e Cidadania, 1884-1940, ASA Editores, Setembro de 2004, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006, ISBN 972-41-4002-4.

Cortesia de EdASA/JDACT

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Política, História e Cidadania. Jaime Cortesão. Elisa Neves Travessa «O primeiro, da autoria de Pascoaes, intitulado Ao Povo Português. A Renascença Lusitana, defende a obra patriótica que reúne um conjunto de indivíduos cheios de esperança e fé na nossa Raça…»

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Renascença Portuguesa e a Guerra. O projecto cultural da Renascença Portuguesa. O contributo de Jaime Cortesão. Concretização do sonho
«(…) O projecto toma forma e consolida-se a partir da reunião preparatória de Coimbra embora sem a presença de nenhum dos elementos do grupo de Lisboa. Nesse encontro Teixeira de Pascoaes é escolhido para redigir um projecto de programa da Associação e é também nessa ocasião que se elabora um projecto de estatutos, para serem discutidos numa reunião marcada para 17 de Setembro em Lisboa. Esta última reunião conta com a ausência de Pascoaes, para que não imaginem lá que me quero salientar neste assunto e do Porto apenas comparecem Cortesão e Álvaro Pinto a que se juntam Proença, Sérgio, Câmara Reis, Joaquim Manso, Mário Beirão, Veiga Simões, Gastão Correia Mendes e Albino Forjaz Sampaio. Neste encontro é já claro o confronto entre duas tendências que gravitam em torno da génese da Renascença, realçado pela oposição ao texto programático de Pascoaes que colidia, pelo seu saudosismo exacerbado e pelo nacionalismo romântico, com as ideias de Sérgio e Proença, que reconheciam a necessidade de diagnosticar os problemas do país e regenerar a sociedade pela mobilização dos grupos de intelectuais, mas discordavam dos meios, propugnando por uma abertura à cultura europeia, sem descurar os interesses nacionais. Álvaro Pinto revela que o programa de Pascoaes não reuniu o consenso favorável nesta reunião, embora todos concordassem em entregar a Pascoaes a direcção da 2ª série da revista A Águia. As decisões tomadas no encontro de Lisboa não agradaram ao poeta da Saudade que comunica a Álvaro Pinto o seu desagrado pela adulteração da sua ideia e tece algumas críticas aos que se reuniram na capital: Há muita gente obcecada por teorias científicas, sociais, etc., etc.! Há muita gente deslumbrada pelo falso fulgor que vem das nações da Europa! (...) Portugal pertence à Europa, é certo, mas tem qualidades próprias e originais capazes de realizar, depois de reveladas e definidas, uma grande civilização. Cortesão diverge também do texto proposto por Proença, não tanto em termos de conteúdo mas sobretudo pelas consequências, a possibilidade de ferir susceptibilidades, pedindo a Proença que aguarde em relação à redacção final do texto, procurando chegar a algum consenso, sem precipitações.
Os textos programáticos acabaram por não ser publicados na revista e procura-se redigir os estatutos da Renascença com os objectivos, ideias e actividades em que o grupo portuense e o da capital eram unânimes, embora Pascoaes não desista da sua cruzada pelo saudosismo no selo da Renascença. Estes projectos têm interesse para indagarmos como Cortesão se posiciona face a cada um deles. O primeiro, da autoria de Pascoaes, intitulado Ao Povo Português. A Renascença Lusitana, defende a obra patriótica que reúne um conjunto de indivíduos cheios de esperança e fé na nossa Raça, na sua originalidade profunda, no seu poder criador duma nova civilização. A verdadeira alma lusitana tinha vindo a perder o seu carácter, a sua fisionomia original e as suas forças vitalistas e criadoras devido às influências estrangeiras. Combater essas influências contrárias ao nosso carácter étnico era tarefa da Renascença de forma a conseguir a emergência de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas, para que a alma desta bela Raça ressurja (...). Um nacionalismo romântico e espiritualista, um misticismo laico, que o levava a insistir na sagrada ideia que mobilizava aquela elite: o acordar na Pátria um novo alento criador de beleza, justiça e de bondade, definindo ainda os objectivos essenciais da Renascença Lusitana; dar ao povo uma educação lusitana e não estrangeira; uma arte e literatura que sejam lusitanas, e uma religião no seu sentido mais elevado e filosófico, que seja também lusitana. Religião enquanto ansiedade poética das almas para a perfeição moral, para a beleza eterna, para o mistério da Vida... A alma lusitana sentia esta ansiedade e a convergência ente paganismo e cristianismo de uma maneira singular, e isso era passível de ser detectado nas tradições populares, nas lendas e na obra de alguns artistas e poetas. É então que Pascoaes filia a Associação no movimento saudosista elegendo como a suprema criação sentimental da Raça, a Saudade, a verdadeira religião. As estratégias propostas para alcançar os objectivos passavam pela promoção de conferências, pela edição de livros e de uma revista, orgão da sociedade, intitulada Águia, aproveitando a revista já existente, como propusera Cortesão. Os dois textos comprovam o desencontro entre os dois comités, o de Lisboa e o do Porto, e profetizavam as dissidências ou o afastamento de alguns dos seus membros, Raul Proença e António Sérgio». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, Sinais do Pendsamento Contemporâneo, Ensaio, Política, História e Cidadania, 1884-1940, ASA Editores, Setembro de 2004, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006, ISBN 972-41-4002-4.

Cortesia de Edições ASA/JDACT

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Política, História e Cidadania. Jaime Cortesão. Elisa Neves Travessa «… também depois de implantada a República, um grupo de Artistas pretendia ‘erguer com as suas obras a nova catedral da Raça’. Pretendia-se erguer um monumento espiritual de forma a “coroar a Revolução de Beleza, já que a não souberam coroar de Justiça!”»

jdact

Renascença Portuguesa e a Guerra. O projecto cultural da Renascença Portuguesa. O contributo de Jaime Cortesão. Concretização do sonho
«(…) Cortesão, nas palavras que dirige a Raul Proença, defende que a Associação, de carácter secreto, oriente a sua acção por meio de um programa e de um regulamento interno. Sugere que seja Raul Proença a elaborar o primeiro desses documentos, tendo em conta a profunda amizade e reconhecimento das suas competências e, talvez a partilha do mesmo idealismo optimista e a comunhão em torno de um mesmo conceito de revolução. Embora declare a sua preferência, não deixa de sugerir algumas directrizes: ao programa deveria presidir uma orientação idealista, um largo espírito de tolerância, uma fundamentação rigorosa e a imposição de altos deveres a todos os associados. Cortesão revela, pela correspondência a que temos feito referência, que procurou desempenhar no seio deste projecto uma posição conciliadora para que as divergências latentes e as singularidades do pensamento e acção enriquecessem o projecto, ao invés de desvirtuarem o principal objectivo de toda a acção a empreender. Segundo o Poeta-historiador essa missão teria sido cumprida até porque o pensamento orgânico da Renascença correspondia a uma aspiração da consciência colectiva e as acções que desencadearam, nos anos seguintes à sua fundação, teriam sido marcadas pela unidade e coerência íntima das manifestações espirituais, vindas de várias personalidades e sectores alheios ao grupo mais combativo da Renascença propriamente dita. Estas palavras confirmam que o idealista, que vagueou durante quarenta anos pelo mundo real, mantém o mesmo vigor e a mesma capacidade de sonhar e acreditar nas possibilidades de criar, consensualizar, regenerar, construir.
A Renascença congregou vontades e ideais num objectivo comum e procurou tornar-se a consciência activa dum fenómeno social de ressurgimento, mas nem sempre a unanimidade foi conseguida. A explicação talvez resida no facto deste movimento integrar elementos de tendências diversas e diferentes formas de pensamento e estratégias de acção que mais tarde acabaram por provocar o afastamento dos que enveredaram por caminhos diversos. O próprio Cortesão o reconhece lembrando os representantes de uma ala de renascentes que se opunham ao ideal literário, político ou filosófico do saudosismo, António Sérgio e Raul Proença. Para além disso, a preferência de Cortesão por Proença para a redacção do programa e as considerações em torno da direcção da revista A Águia denunciam também a existência de clivagens desde a definição do programa do movimento. Embora expressando diversas vezes admiração pelo poeta do Saudosismo, e sendo por ele muito influenciado, Cortesão procurou delinear um sentido de voo singular e liberto do pensamento filosófico de Pascoaes, divergindo mais tarde deste em relação a considerar o estrangeirismo como factor de decadência. Na análise retrospectiva do movimento, ao fazer referência a Sérgio e Proença, que defendiam uma reforma mais vasta da mentalidade portuguesa, Cortesão acaba por concluir que nação alguma pode viver perpétua e exclusivamente sobre tradições próprias; e que a assimilação de valores culturais estranhos representa, na maioria dos casos, um acto de saúde e rejuvenescimento indispensável. No entanto, na fase inicial da Renascença, Cortesão anunciava a sua obra patriótica perpassada por um misto de idealismo vitalista e espiritualismo, concebida por uma legião de homens fortes e serenos, de olhos postos num ideal de pura Beleza. Assim, como após a Batalha de Aljubarrota o monarca João I mandou erguer o Mosteiro da Batalha e, depois da descoberta do caminho marítimo para a Índia, o rei Manuel I ergueu os Jerónimos, também depois de implantada a República, um grupo de Artistas pretendia erguer com as suas obras a nova catedral da Raça. Pretendia-se erguer um monumento espiritual de forma a coroar a Revolução de Beleza, já que a não souberam coroar de Justiça!» In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, Sinais do Pendsamento Contemporâneo, Ensaio, Política, História e Cidadania, 1884-1940, ASA Editores, Setembro de 2004, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006, ISBN 972-41-4002-4.

Cortesia de Edições ASA/JDACT

Política, História e Cidadania. Jaime Cortesão. Elisa Neves Travessa «Dois fins essenciais teriam congregado estes homens na concretização desta obra titânica: restituir Portugal à consciência dos seus valores espirituais próprios e promover através de uma série de iniciativas uma acção cultural e educativa…»

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Renascença Portuguesa e a Guerra. O projecto cultural da Renascença Portuguesa. O contributo de Jaime Cortesão. Profeta dessa ideia
«(…) Continuando este percurso pela génese da Renascença devemos recordar as iniciativas que antes da sua criação congregaram alguns dos seus fundadores e contribuíram para a formulação concreta do projecto. Juntos no Porto (1906), Pascoaes, Leonardo Coimbra e Cortesão, por feliz acaso ou prenúncio inspirador, acabam por participar em projectos diversos, que agora podemos considerar como preparatórios da Renascença. É o caso do periódico Nova Silva e do grupo d’Os Amigos do ABC (1908), sedeado no Porto, na Rua da Fábrica, onde se iniciavam, segundo o testemunho de um contemporâneo, os operários no conhecimento das primeiras letras e se tentava formar o cérebro na doutrina anarquista, então familiarmente designada, entre nós, pela palavra Ideia. Cortesão confirma esta acção de educação cívica activa e de vulgarização doutrinária e cultural, lembrando que era intuito desse grupo realizar uma fraterna acção cultural junto das camadas populares. Segundo Veiga Pires, muitos académicos dessa geração integraram este centro de doutrinação e combate que exerceu grande influência cultural e ideológica: aí era lido e comentado Kropotkine como um profeta dos tempos, visionário duma humanidade perfeita.
Um grupo que se inspirava na leitura social dos ideais huguescos, e se empenhou numa acção alternativa à pedagogia do regime. Acção que a Renascença irá efectivar com as publicações, conferências e outras iniciativas de cariz pedagógico, é o caso das Universidades Populares, embora liberta do inicial ímpeto anarquista presente nas primeiras iniciativas. De notar ainda que possuímos poucas referências relativamente aos Amigos do ABC, nomeadamente no que se refere à sua estrutura, composição, programa e funcionamento. O próprio Cortesão solicita, em carta enviada a Álvaro Pinto em 1951, informações sobre a génese da Renascença em que surgem algumas referências ao referido grupo. Não obstante este condicionalismo importa considerar estas iniciativas pelo carácter precursor que assumiram em relação à Renascença.

Concretização do sonho
Na tentativa de perceber como se concretiza o sonho e como o nosso anarquista libertário da juventude transmuda as suas aspirações e ideais para o investimento na construção do grande projecto cívico e cultural, A Renascença, cruzaremos dois documentos essenciais. O primeiro contemporâneo do referido movimento, carta a Raul Proença, a que sumariamente fizemos referência, e o outro, escrito posteriormente, reflexões em torno da Renascença. Separam-nos quarenta anos de uma vida pautada por um combate permanente pela difusão dos ideais democráticos e pela vulgarização histórica, mas une-os a mesma força interior, o mesmo imperativo ético e o mesmo idealismo de um viajante no mundo real, para utilizar uma expressão de Raul Proença. Nas palavras que dirige ao seu contemporâneo, Cortesão considera-se invadido por um proselitismo sagrado que o impelia para a acção, para o desempenho de uma espécie de missão, de apostolado laico, tendo em vista o bem comum e o progresso da humanidade. Numa sociedade em que são os burros que triunfam e portanto a burrice também e em que escasseiam os grandes homens e as grandes ideias, cabia aos intelectuais a missão de desempenharem uma acção cultural e pedagógica que permitisse a criação de um público consciente e ilustrado.
As bases desta nova organização foram lançadas em Coimbra, numa reunião em que participaram, além de Cortesão, Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, Álvaro Pinto e Augusto Casimiro. Os ideais destes intelectuais que se reuniram no Choupal não poderão ser considerados como vãs aspirações. O diagnóstico pessimista do presente pressupunha a inventariação de estratégias para a superação da crise moral e cultural. Dois fins essenciais teriam congregado estes homens na concretização desta obra titânica: restituir Portugal à consciência dos seus valores espirituais próprios e promover através de uma série de iniciativas uma acção cultural e educativa junto de todas as camadas da população. Esta necessidade, vinculada às esperanças de regeneração moral, filia-a Cortesão na geração dos Vencidos da Vida. Filiação que não surge isenta de críticas, sobretudo no diagnóstico excessivamente decadentista e céptico que esses Vencidos fizeram do Portugal finissecular. Foram as suas últimas realizações,  principalmente as de Ramalho Ortigão e Oliveira Martins, que permitiram perceber que havia um programa implícito a realizar, um programa de regeneração retomado, e em certa medida renovado pela Renascença». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, Sinais do Pendsamento Contemporâneo, Ensaio, Política, História e Cidadania, 1884-1940, ASA Editores, Setembro de 2004, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006, ISBN 972-41-4002-4.

Cortesia de Edições ASA/JDACT

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Política, História e Cidadania. Jaime Cortesão. Elisa Neves Travessa «A nova geração que então surgia tinha como objectivo revelar, definir e enaltecer a consciência nacional e filiava-se nas correntes de pensamento do século XIX. A ideia de dar à Pátria a unidade dum pensamento colectivo»

jdact

Renascença Portuguesa e a Guerra. O projecto cultural da Renascença Portuguesa. O contributo de Jaime Cortesão. Profeta dessa ideia
«(…) Já referimos que a Renascença, sonhada pelo Poeta d’A Morte da Águia, não representa uma ruptura com as suas convicções, antes revela uma persistência no combate cívico, sempre enquadrado por uma clara consciência histórica. Relembremos as iniciativas que congregaram muitos dos iniciadores da Renascença em projectos similares, como sejam: a revista Nova Silva (1907) e o grupo de acção pedagógica dos Amigos do ABC. Marcados pelo idealismo e pelos ideais anarquistas, libertários e altruístas com influências doutrinárias de Kropotkine, Tolstoi, Ferrer i Guardia, Victor Hugo, entre outros, e do socialismo proudhoniano, propagandeado por Antero de Quental, numa vertente que acentuava a justiça, o pacifismo, a solidariedade e a fraternidade. Filiavam-se também no republicanismo, embora se distanciassem da vertente marcadamente positivista presente, fundamentalmente, em Teófilo Braga. Um escol de intelectuais ecléctico que certamente recebeu a influência de outros pensadores do século XIX, como do poeta Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno, ensaísta e doutrinador idealista portuense, e Basílio Teles.
Lembremos, por exemplo, que a efémera Liga Patriótica do Norte (Fevereiro de 1890), curiosamente também criada no Porto, presidida pela alma idealista de Antero, apresenta objectivos com algumas semelhanças, a nível dos propósitos do projecto reformador, com os da Renascença Portuguesa. Criada apos a humilhação patriótica produzida pelo Ultimato britânico (1890), a referida Liga tinha como princípio agir fora da acção dos partidos e ser um órgão da opinião pública, pugnando por reformas económicas, sociais e administrativas, pela moralização dos poderes, actuando como uma força moral. Uma reforma que deveria, para ser concreta e fecunda, partir do interior, do mais fundo da alma colectiva, ou seja, que empreendesse uma reforma moral e ética das consciências e das almas. Era a consciência dos momentos críticos vivenciados que exigia atitudes veementes que revigorassem o patriotismo humilhado. Lembramos e registamos o paralelismo com os objectivos que delinearam a formação da Renascença e a atitude desta em momentos cruciais de exaltação patriótica. Referimo-nos especificamente à propaganda pela intervenção de Portugal na Grande Guerra, em que o movimento assumiu papel proeminente. De salientar que a Renascença Portuguesa constitui-se como um movimento intelectual a que não é alheia uma feição nacionalista e patriótica mais predominante no saudosismo de Pascoaes. Animava-os o sentido de uma revivescência da alma lusitana que pudesse responder, como Cortesão mais tarde explicava, à necessidade, sentida por todos, de dar um conteúdo renovador e fecundo à revolução republicana.
A nova geração que então surgia tinha como objectivo revelar, definir e enaltecer a consciência nacional e filiava-se nas correntes de pensamento do século XIX. A ideia de dar à Pátria a unidade dum pensamento colectivo, e rejuvenescê-la com o ar da vida europeia, teve origem no movimento do romantismo liberal, na história e pela arte, de que Herculano e Garrett eram os mais dignos representantes. Desde aí até à contemporaneidade de Cortesão foi percorrido um longo caminho que passou pela apresentação de novas soluções políticas contra a ameaça do constitucionalismo monárquico. Foi encetado um movimento de regeneração que embora hesitante não deixou de produzir bons frutos. Cortesão lembra Junqueiro, voz profética e arrebatada pela esperança depositada na Pátria; Ramalho, que nas Farpas despertara a necessidade de valorizar o património artístico; Teófilo Braga, que, não obstante o seu cego positivismo, enalteceu na literatura, na historia e nas tradições populares a alma nacional; João de Deus e António Nobre, que deram voz ao lirismo lusitano; e Oliveira Martins, que, embora levado por um doentio e negro pessimismo, teve o mérito de revelar a degradação a que chegara a nacionalidade portuguesa. Toda esta herança é reclamada por Cortesão quando formaliza o projecto da Renascença: havia que dar continuidade a esse movimento e retemperar as forças, abandonando a descrença e o pessimismo, optando por um caminho progressivamente reformista». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, ASA Editores, Setembro de 2004, ISBN 972-41-4002-4, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006.

Cortesia de Edições ASA/JDACT

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Política, História e Cidadania. Jaime Cortesão. Elisa Neves Travessa « Se a Renascença nasceu de um sonho, esse sonho é como o caos, donde nascem os mundos. Não há grande poeta, herói, santo, legislador, cujos poemas, virtudes ou acções não houvessem surgido de um sonho»

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Renascença Portuguesa e a Guerra. O projecto cultural da Renascença Portuguesa. O contributo de Jaime Cortesão. Profeta dessa ideia
«(…) Nas palavras que dirige a Raul Proença traça as linhas gerais do seu projecto, embora sem acentuar o espiritualismo que privilegiou na carta ao poeta da Saudade, que passava pela formação de uma Associação com o fim principal de exercer a sua acção, isenta de facciosismos políticos dentro da actual sociedade. Acção social orientadora e educativa (...). Transparece destas palavras a ideia de uma pedagogia cívica e uma exigência moral e ética que pudesse revigorar as forças da fragilizada e tão idealizada República, que definhava em lutas político-partidárias e na instabilidade social. Reencontramos aqui a perspectiva, mais tarde confirmada nas palavras de Pascoaes, de que a consciência do momento genésico e caótico da Pátria, exigia a congregação das energias intelectuais e a consumação do sonho que inundava o espírito do Poeta. A institucionalização desta associação de intervenção educativa, cívica e cultural não determinaria, por si só, a eliminação das dissenções políticas e da instabilidade social que afectavam a nação, daí que os espíritos que se congregavam em torno da Renascença, procurassem agir no âmbito cultural, incentivados pelo imperativo ético de devolver à nação a grandeza heróica do passado. A intenção não era a de criar um simples movimento literário, o objectivo pragmático de intervenção na sociedade era primordial e determinava a concepção do programa de acção educativa e cívica implícito ao projecto, ainda que idealisticamente concebido.
Encontramos este ideal. pela primeira vez formalizado, numa carta de Cortesão a Álvaro Pinto, ao tempo director da revista A Águia. Lança a ideia de formar em Portugal uma espécie de Maçonaria dos Artistas e intelectuais, referência interessante e que denuncia, em parte, a filiação maçónica do republicanismo português e a proximidade de alguns sectores intelectuais às suas propostas. Com o fim de dar uma direcção nova à sociedade portuguesa esta associação, de aspecto um pouco secreto, de cariz sindical, deveria ter um órgão, uma publicação periódica que divulgasse as ideias defendidas e as iniciativas promovidas pela associação. Lamentando-se da possível extinção da revista A Águia, sugere que esta poderia assumir esse lugar, desde que renovada, conferindo-lhe um carácter mais educativo e crítico, de modo a tomar uma feição orientadora.
Um primeiro testemunho de Cortesão, sobre a génese do movimento, regista-se nas páginas da revista A Vida Portuguesa, periódico que dirigiu, e que dá continuidade ao projecto da Renascença, fundamentalmente na sua vertente educativa. Refere-se, nessas linhas, à reunião preparatória ocorrida em Coimbra, a 27 de Agosto de 1911, em que participou Teixeira de Pascoaes, encarregado de redigir um manifesto Ao Povo Português. Nas palavras de Cortesão, relembrando o encontro, entrevemos a perspectivação de um sonho, um projecto que contém latente um certo optimismo e idealismo messiânico: a consciência da elevada e superior missão, de educação e orientação da sociedade, atribuída aos intelectuais. Um apelo ao heroísmo e à renúncia quotidiana para a prática de um franciscanismo civil, no sentido duma superação e transcendência espiritual da vida, alargada a toda a humanidade. Se a Renascença nasceu de um sonho, esse sonho é como o caos, donde nascem os mundos. Não há grande poeta, herói, santo, legislador, cujos poemas, virtudes ou acções não houvessem surgido de um sonho. Continua num tom simbólico, eivado dum paganismo espiritualista que Leonardo Coimbra vislumbrou na sua poesia: Não mais poderei esquecer aquela tarde de sonho, em que numa paisagem de Campos Elísios, sonhada e diluída, nasceu no coração de um grupo de moços a Renascença Portuguesa. Foi no choupal de Coimbra; e nessa tarde de tanto sonhar, tão ardentemente imaginosa, nada sonhámos que igualasse sequer em grandeza a realidade presente. As suas palavras impregnadas de idealismo místico, de sonho, de esperança, atingem expressão elevada numa oração ou prece à Terra-Mãe: ...eu pedirei à Terra de Portugal, à paisagem divina, às boas árvores que nos viram nascer esse sonho, que nos deixem eternamente sonhar assim. O sonho que germinou no espírito do Poeta foi divulgado, pela sua pena, junto daqueles que com ele já tinham participado noutros combates. As referências que fizemos à correspondência trocada com Teixeira de Pascoaes, Raul Proença e Álvaro Pinto, consubstanciam o papel proeminente desempenhado por Cortesão na idealização e concretização deste projecto». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, ASA Editores, Setembro de 2004, ISBN 972-41-4002-4, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006.

Cortesia de Edições ASA/JDACT

sábado, 19 de janeiro de 2013

Política, História e Cidadania. Jaime Cortesão. Elisa Neves Travessa «A ideia de um movimento cívico e cultural, de cariz inovador e renovador em luta contra o decadentismo finissecular, germina no espírito do poeta desde muito cedo. Implantada a República, Cortesão considera que estão criadas as condições…»


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Renascença Portuguesa e a Guerra
O projecto cultural da Renascença Portuguesa. O contributo de Jaime Cortesão.
Profeta dessa ideia
«Interessa-nos destacar o papel desempenhado por Cortesão na emergência do grupo Renascença Portuguesa, ideia surgida e fomentada no espírito do autor, paternidade confirmada pelo próprio. Neste contexto, importa questionar: Será que essa ideia surgiu meteoricamente no espírito de Cortesão? O percurso do escritor e o contexto cultural e mental do Portugal de finais do século XIX, inícios do século XX, fornecem indicações claras para que possamos dar uma resposta negativa.
A necessidade de afirmação da memória nacional e a falta de confiança das elites e de parte da opinião pública nas possibilidades de regeneração da pátria intensificam-se em Portugal na última década de Oitocentos. A luta contra o perigo de dissolução da identidade nacional justificara, por exemplo, um investimento no comemorativismo e na vulgarização histórica. As estratégias de união dos indivíduos, como meio de reanimar o sentimento patriótico e por ele regenerar e renovar a sociedade portuguesa, possuíam também intenções doutrinárias e políticas. A resistência ao regime constitucional monárquico e a reacção patriótica antibritânica congregaram em torno de algumas iniciativas, como é o caso do Centenário da Índia (1898), grupos de republicanos interessados em propagandear os seus ideais.
Em 1911, ano em que Cortesão sugere a criação de uma associação de artistas e intelectuais, já a I República contava um ano e a questão da natureza do regime não se colocava com tanta pertinência. O que movia então este homem e os que o apoiaram? Pensamos que o princípio básico que os congregou já havia determinado a acção de outros intelectuais nas décadas que os precederam. Lembremos a Geração de 70, nomeadamente Antero, por quem Cortesão já tinha expressado admiração na sua tese de licenciatura em Medicina. A consciência da decadência do presente, o diagnóstico dos males que afectavam a sociedade do seu tempo, a necessidade premente de conhecer as causas e de encontrar soluções para reabilitar a Pátria e, ainda, o papel que as elites desempenhavam nesse processo de renovação cultural e espiritual está presente no espírito dos homens do último terço do século XIX e também no pensamento de Cortesão e dos que o acompanharam neste primeiro voo em comum. Antero, como toda a Geração de 70 considerava que os males acumulados do passado histórico haviam descaracterizado a originalidade do carácter nacional e que o único meio de reverter a situação seria o de se constituir um movimento colectivo capaz de erguer as energias nacionais, lutando contra uma nação imobilizada e apática. O ponto de vista de Antero e profundamente idealista e a regeneração dos grupos de intelectuais revelava-se fundamental para a consumação da regeneração social e política.
Também Cortesão determina em 1910 um sentido de voo profundamente idealista e espiritualista. No texto O Poeta, o autor apresenta a sua crença nas possibilidades de o poeta transformar na sua essência o coração dos homens, que é de gelo e pedra (...) os Poetas desvendam, franqueiam outros mundos que estão à nossa volta, sob os nossos pés, ao alcance dos nossos braços, em contacto connosco, dentro de nós mesmos e que sendo ate aí os vedados e longínquos paraísos, tornam-se assim a habitação comum de todos os homens. Aos artistas, à elite intelectual, cabia o esforço de mobilização para realizar uma profunda alteração nos valores e costumes morais da sociedade portuguesa. Uma elite unida pelo voto de serviço social, mas laica, inconformista e actuando em todo o mundo. As suas palavras e as suas intenções ao fundar a Renascença reflectem ainda uma reacção ao cientismo e ao positivismo, como vimos na poesia, pelo regresso à livre metafisica, ao idealismo e ao espiritualismo romântico.
A ideia de um movimento cívico e cultural, de cariz inovador e renovador em luta contra o decadentismo finissecular, germina no espírito do poeta desde muito cedo. Implantada a República, Cortesão considera que estão criadas as condições para a concretização da sua ideia, em virtude da consciência do agravamento da crise política e moral, que, para Cortesão, era mais que uma crise social, era uma verdadeira crise de consciência que exigia uma transformação cultural e moral. Comunica-a a Teixeira de Pascoaes, a quem carinhosamente trata por divino Poeta, numa carta escrita em São João do Campo, em 4 de Agosto de 1911:
  • Eu fiz-me um pouco profeta dessa ideia e uns dias que estive em Lisboa e em que a preguei, notei que era de todos muito bem aceite. O fim da Associação de Artistas e intelectuais, todos muito bem escolhidos, seria pugnar pela Arte, dentro da Arte pelo espiritualismo e estabelecer uma forte corrente orientadora dentro desta Terra tão desorientada, poderia fazer, da Águia o seu orgão e dar-lhe-ia uma feição orientadora, educativa e crítica para restituir a Raça ao seu profundo sentido.
Uns dias antes de redigir esta carta, Cortesão comunicava a outro dos colaboradores de A Águia a ideia de dar forma a esse projecto cultural». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, ASA Editores, Setembro de 2004, ISBN 972-41-4002-4, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006.

A amizade da Elisa
Cortesia de Edições ASA/JDACT

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Jaime Cortesão. Política, História e Cidadania. Elisa Neves Travessa «O teatro não é um mero parêntesis na obra de Cortesão, não é um capítulo que se fecha, ele é a expressão da sua permanente intervenção cívica, do dinamismo que imprimiu aos grupos cívico-culturais em que interveio e da dramaticidade que se vislumbra na escrita da história»

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«No drama Adão e Eva o cenário da acção e a história recente e os acontecimentos vividos pelo autor, nomeadamente a sua dolorosa experiência na frente de combate, e o clima de instabilidade que se seguiu. Percebem-se também as esperanças nas possibilidades de alterar o rumo dos acontecimentos, uma crença idealizada na construção dum mundo mais solidário, justo e livre.
A peça termina com ‘uma afirmação de carácter individualista e construtivo’:
  • O Paraíso, agora o sei, está nas nossas almas.
O herói que ‘sonhou a realização do paraíso para toda a História acabará por afirmar que o paraíso apenas se pode encontrar na alma de cada um e que a grande revolução a fazer tem que realizar-se não exteriormente [mas] nas almas’. A expressão de um interessante conceito de revolução, a revolução nas almas, com o qual Cortesão pretendia demonstrar a necessidade de acordar as vontades adormecidas para reformar a República que degenerava em conflitos sociais e políticos, desvirtuando os anseios e os sonhos de quem por ela combateu e colocou todas as esperanças messiânicas. Raul Proença acompanha-o nestas reflexões e por isso considera que todas,
  •  ‘as revoluções que se fazem por mutações bruscas no cenário social; que não procuram antes de realizar-se na ordem dos factos, realizar-se na ordem das consciências; (...) todas essas revoluções são, no fundo, os grandes contos do vigário, a grande trapaça colectiva, em que os crentes sinceros são sempre as maiores vítimas. (...) Esta peça de um revolucionário que condena as revoluções tem a maior oportunidade e o maior valor educativo e catequético’.
São as intenções implícitas na obra que devemos valorizar e não tanto a qualidade técnica da peça no âmbito da produção contemporânea. Neste campo, Romero Magalhães considera que este drama ‘não acrescenta nada com interesse ao panorama do nosso teatro’, opinião partilhada por alguns críticos contemporâneos que discutiram o valor dramático, literário e moral da peça. Adão e Eva recebe as críticas negativas de António Ferro, que a considera ‘uma peça retórica, atafulhada de palavras’, e de Almada Negreiros, que confessa que esperava ver durante os três actos ‘transparecer por cima dos seis nojentos personagens, a voz do autor anunciando claramente o nome daquela estrada para a qual temos as pernas bem treinadas, mas a nossa expectativa levou uma derrota tão grande como a própria peça’.
Opiniões discordantes dos seus contemporâneos, talvez mais com as ideias do autor expressas na peça do que com a análise do drama em si. O que nos interessa destacar é que a ‘função didáctica’ do teatro, expressa na comunicação O Teatro e a educação popular, e nesta peça reafirmada. Sem o ‘arrebatamento épico’ dos anteriores, mas continuando a apelar aos sentimentos e à consciência, o protagonista da peça é contaminado pelo impulso heróico na busca do paraíso perdido, que encontra, não pela via revolucionária e violenta mas pela revolução interior, a revolução da alma.
Concluímos que o teatro não é um mero parêntesis na obra de Cortesão, não é um capítulo que se fecha, ele é a expressão da sua permanente intervenção cívica, do dinamismo que imprimiu aos grupos cívico-culturais em que interveio e da dramaticidade que se vislumbra na escrita da história». 
In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, ASA Editores, Setembro de 2004, ISBN 972-41-4002-4, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006.

A amizade da Elisa
Cortesia de Edições ASA/JDACT

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Elisa Neves Travessa: Jaime Cortesão. Política, História e Cidadania. «(...) uma peça em que o autor se debate, e é talvez a sua própria consciência que põe a nu; em que sentimos que há alguém que grita, que se desespera, que se despedaça. (...) eu entendo que a liberdade e a felicidade humanas dependem simplesmente do esforço e da vontade dos homens»



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«Depois das incursões pelo drama de temática histórica, que conheceu inúmeros cultores e ampla divulgação no século XIX, Cortesão escreve “Adão e Eva”, representado pela primeira vez em 20 de Maio de 1921, no Teatro Ginásio, em Lisboa. Divergindo dos dramas anteriores, da exaltação heróica, épica e epopeica, nesta obra o autor dá voz aos anseios de justiça e à aspiração latente de um mundo melhor, que nos vícios de uma orgânica social defeituosa encontravam a sua mais legítima justificação. É um drama de intervenção social, que versa a actualidade, onde o autor exprime uma tendência progressivamente realista ‘a síntese literária de toda evolução decorrida entre o entusiasmo juvenil universitário de ideário acrata e as grandes provações sofridas na Guerra’.
Embora versando outra temática, a essência da função do teatro, enquanto veículo de cultura e de aperfeiçoamento moral e social, mantém-se no espírito do autor, e insere-se na constante intervenção cívica que caracteriza a sua acção e as suas produções. Já não encontramos o recurso a génios do passado histórico, os protagonistas da acção são figuras actuais, heróis da sua contemporaneidade, que comungam dos mesmos ideais. Apresenta-nos um cenário naturalista da época, em que os perfis do Infante e Egas Moniz, homens predestinados e de acção, estão presentes no protagonista da peça: Marcos. Este, tal como Cortesão, combatente da Grande Guerra, revolucionário e idealista, desiludido com o ambiente social, político e moral do Portugal do pós-guerra'". Uma empatia vislumbrada por Raul Brandão no artigo que redige no âmbito do inquérito à peça Adão e Eva, promovido pelo Diário de Lisboa: ‘(...) uma peça em que o autor se debate, e é talvez a sua própria consciência que põe a nu; em que sentimos que há alguém que grita, que se desespera, que se despedaça’. Vincula-se o protagonista ao autor, numa simbiose e miscigenação claramente patenteadas nas palavras de Marcos: ‘(...) eu entendo que a liberdade e a felicidade humanas dependem simplesmente do esforço e da vontade dos homens’. Uma esperança renovada nos poderes reformadores da vontade e a tentativa, ao longo de toda a peça, de definir o ‘conceito heróico de liberdade’ e de revolução… Este drama envolve um debate em torno da questão social, nomeadamente nas consequências da intervenção de Portugal na I Guerra. Nas palavras de Marcos surge a revolta e a indignação: a ‘figura do revolucionário’ declamava no palco o que os idealistas proclamavam na vida, ‘continuamente feridos pela rudeza contundente dos interesses e das paixões ruins’. E por isso a ‘tragédia espiritual de Marcos’ era também a expressão da tragédia da ‘alma de poeta e de cidadão’, do autor da peça.
Esta inflexão do autor no campo da produção dramática acompanha as novas opções no âmbito da intervenção cívica e da própria visão da história. O projecto idealista da Renascença, surge de forma mais concretizada e pragmática nos objectivos que definiram a acção da Seara. Uma intervenção na vida social para atingir também alguns objectivos políticos, mas seguindo a via da educação moral e cívica, ‘fora do campo estrito das escolas políticas, dos dogmas e programas partidários’, de forma a construir ‘uma sociedade mais justa e uma ordem mais perfeita’. Um conceito de revolução, devedor de Antero, bem expresso nas palavras de Marcos que proclama a supremacia da ‘grande revolução nas almas’: ‘as almas também estão cercadas de muralhas; e a grande revolução a fazer é mais lenta e tem que realizar-se dentro delas’. Neste sentido, há que integrar a individualidade do autor na construção deste drama: pela valorização do sonho e do esforço criador projectados de forma heróica ao longo da peça no papel do seu protagonista: ‘Fui soldado voluntariamente. Combati pela humanidade’.

A ‘estética naturalista’, que desde os finais do século XIX vinha progressivamente a afirmar-se em Portugal, encontra eco em Adão e Eva, quer através do tipo de personagens quer pelos ambientes recriados. Curiosamente é nesta altura que Cortesão, director da Biblioteca Nacional, publica os primeiros trabalhos de investigação e interpretação histórica sobre a época dos descobrimentos, distantes do tom épico, lírico, heróico e lendário das suas primeiras produções dramáticas».  
In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, ASA Editores, Setembro de 2004, ISBN 972-41-4002-4, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006.

A amizade de Elisa
Cortesia de Edições ASA/JDACT

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Elisa Neves Travessa: Jaime Cortesão. Política, História e Cidadania: Parte VI. «O significado patriótico das lendas veiculadas no drama em questão e a própria imagem heróica de Egas Moniz, modelo de fidelidade, dedicação e honra, símbolo da independência nacional, inclui também um fascínio, com raízes na sensibilidade romântica, por um período determinado da história nacional, a Idade Média»

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«O drama histórico pelo apelo à imaginação e à emoção, a que se junta a comunhão interactiva espectador-actor e as incursões na história nacional, proporcionava a reabilitação do sentimento patriótico, o fortalecimento da memória histórica da nação, garante da continuidade nacional. Um nacionalismo, ou melhor «um patriotismo ecuménico e prospectivo», como princípio de unificação e identificação pelas lendas históricas, contrariando o esquecimento e a amnésia, compreensível se lembrarmos as lutas da elite intelectual na procura de soluções para a regeneração nacional. Reavivar a memória nacional e histórica na convicção implícita de que a sua perda poderia determinar graves alterações na «identidade colectiva».
Independentemente da sua autenticidade e de corresponderem à «verdade histórica», Cortesão atribui às lendas uma função pedagógica privilegiada na divulgação e vulgarização da história nacional e na consolidação da memória da nação. Lembremos ainda que estamos perante um drama e não uma obra histórica com preocupações de investigação histórica evidenciadas noutras publicações posteriores do autor. O significado patriótico das lendas veiculadas no drama em questão e a própria imagem heróica de Egas Moniz, modelo de fidelidade, dedicação e honra, símbolo da independência nacional, inclui também um fascínio, com raízes na sensibilidade romântica, por um período determinado da história nacional, a Idade Média. No caso específico da lenda que envolve Egas Moniz, Cortesão considerava que ela excedia em beleza o que a história já tinha averiguado e isso justificava a sua divulgação:
  • «Maior que Guilherme Tell, o herói nacional da Suíça, ele ergue-se sobre todos os seus rudes contemporâneos como a mais heróica e cavaleirosa figura no drama do nascimento de Portugal».


jdact e cortesia de openlibrary 

Um herói de acção, que acompanha o herói fundador da nacionalidade na busca da independência. A exigência de cultivar o sentimento patriótico da continuidade nacional e a necessidade de alimentar a memória histórica para que se investisse na redenção da Pátria percorrem o espírito de Cortesão. A coerência do seu percurso, enquanto escritor, historiador e cidadão, é pontuada pela incorporação constante destes sentimentos e ideias. O que o singulariza é a forma como a consciência histórica determina a sua conduta cívica e a forma como integra a sociedade do seu tempo. Assim, o recurso ao drama histórico não representa uma aventura ocasional, ele constitui uma «espiga da mesma seara».
Estes dramas tiveram, a crer nas palavras de Cortesão, um êxito considerável junto do público. Na sua noite de estreia em Lisboa o primeiro dos dramas «obtém um triunfo retumbante e dá azo a uma grande manifestação patriótica, amplamente justificada pelo tema e pelo momento de exaltação nacional que então decorria». “Egas Moniz” é representado pela primeira vez no antigo Teatro República, em Lisboa, no dia 9 de Janeiro de 1919, estreado num momento político conturbado, alcança igualmente grande êxito. A plateia aplaude o dramaturgo e elogia a sua coragem e patriotismo pela participação no esforço de guerra. A crer neste testemunho podemos inferir que as intenções que determinaram a escrita destes dramas teriam tido alguma concretização. O reduzido acesso à leitura neste período torna as manifestações teatrais momentos privilegiados de vulgarização cultural e, neste caso, de divulgação da história nacional, ainda que pelo recurso ao lendário, sem que sejam descuradas as intenções de verosimilhança. O teatro, a par de outras iniciativas, assumiu lugar de destaque no comemorativismo de finais do século XX, consagrado à memória dos grandes homens e de épocas ou acontecimentos notáveis da história nacional.


Cortesia de amazonca 

A conjugação da narrativa dramática e da representação com os cenários, o guarda-roupa e a música permitiam criar um clima de emotividade propício à transmissão das mensagens contidas no texto. O cuidado com a encenação é aliás revelado na carta de Ricardo Jorge a Jaime Cortesão, aquando da preparação da representação do seu primeiro drama.
Sugere que o autor faça algumas alterações ao texto original, devido ao elevado número de personagens, de forma a viabilizar a sua representação. Esta exigência relaciona-se com motivos técnicos, mas ilustra também a escassez de meios com que se debatiam as companhias de teatro neste período.
Quanto à eficácia da intencionalidade reflexiva, pedagógica e patriótica junto do público ela é, por escassez de documentos, muito difícil de determinar. Conhecemos a opinião favorável de alguns críticos que assistiram à representação, que podemos registar mas não generalizar. Até porque é difícil caracterizar o perfil socioeconómico e cultural do público que frequentava o teatro e que assistiu às suas peças. De considerar ainda que as peças foram apenas representadas em Lisboa e no Porto, e por isso deduzimos que o seu impacto junto da população de outras regiões tenha sido reduzido ou mesmo nulo. O próprio Cortesão refere, anos mais tarde, que o êxito da peça foi circunstancial, justificava-se pelo contexto em que foi representada, as ansiedades do público e a própria temática histórica que a obra versava. No entanto, valoriza a sua actualidade em termos de intenções e objectivos:
  • «(...) por bem pago nos daríamos se conseguíssemos transmitir ao leitor actual um pouco do entusiasmo heróico, da aspiração ideal, da fé no homem, com que pretendemos animar a nossa primeira obra de teatro e que, hoje como ontem dão valor e dignidade à Vida».
In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, ASA Editores, Setembro de 2004, ISBN 972-41-4002-4, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006.

A amizade de ENT
Cortesia de Edições ASA/JDACT

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Elisa Neves Travessa: Jaime Cortesão. Política, História e Cidadania: Parte V. «Este herói de Cortesão correspondia à teorização de uma história pragmática, consubstanciada na apresentação de modelos de heroísmo moral e servindo-se do teatro como veículo privilegiado de apelar à consciência histórica do público que assistia à representação dos dramas, recorrendo à criatividade artística e à efabulação»

Cortesia de asa 

«O Infante de Sagres aproxima-se, no dizer do próprio autor, do modelo heróico e dramático criado por Oliveira Martins. Do complexo perfil do Infante traçado pelo autor «dos filhos de D. João I» é possível entrever algumas semelhanças com o Infante dramático de Cortesão.
Homem de acção e de missão, e não apenas um herói épico, que marca indelevelmente o percurso histórico da nação, e desta forma que Oliveira Martins o caracteriza. Eleva-lhe a vontade que o impelia para a acção energética. O seu Infante «era um homem-tipo, encarnara a arma nacional no momento histórico em que vivia».
No retrato romântico do Infante desenhado por Cortesão retomam-se muitas das teses oitocentistas e projecta-se a imagem de um herói possuidor de uma vontade exacerbada, quase transcendente, numa espécie de miscigenação entre o herói e a nação. Revela-se ainda o herói santo, pelas virtudes de homem religioso, imbuído de fé e de crença no futuro, num misto de messianismo e profetismo:

«Obedeci ao céu! Vim por mando divino.
Dar ao Homem e à Terra outro e maior Destino.
Por mando seu rasguei de sobre o Mundo a Treva (...)».

A prioridade dos descobrimentos portugueses e a ideia pré-determinada de chegar ao oriente projecta-se na figura do Infante.

Cortesia de eb1ancarcts  

Um herói com qualidades superiores, quase providencial, que não perde os atributos humanos, o Infante ama, sofre, angustia-se e revolta-se quando se vê obrigado a aceitar o sacrifício da vida do irmão para dar continuidade à sua missão patriótica e universalista.
Na descrição do ambiente cénico é ainda possível encontrar a imagem do Infante cientista, aliada à lendária existência de uma escola de cosmografia e náutica em Sagres: «A sala de estudo na casa do Infante em Sagres. (...) sobre a mesa livros, portulanos, a esfera armilar, poisando unicamente sobre um alto pé, duas pomas, a balestilha e o quadrante. Duma das paredes pende à astrolábio plano. (...) Mestres Jaime e Rodrigo, sentados junto da mesa, debruçados e atentos, lêem passagens de livros e vão confrontando num mapa».

Eis em largos traços a imagem do Infante de Sagres, «herói, génio e místico da acção», descobridor de novos mundos e, acima de tudo, «dum Homem Novo». Este herói de Cortesão correspondia à teorização de uma história pragmática, consubstanciada na apresentação de modelos de heroísmo moral e servindo-se do teatro como veículo privilegiado de apelar à consciência histórica do público que assistia à representação dos dramas, recorrendo à criatividade artística e à efabulação. Era a forma de fazer chegar factos e personagens da história nacional a um universo mais alargado de receptores, considerando o reduzido número daqueles que tinham acesso à leitura dos seus dramas ou obras de erudição histórica.

Cortesia de portocroftcultarte 

É com o mesmo fim reflexivo, educativo e patriótico que Cortesão, ao escrever o seu segundo drama, recorre ao lendário como veículo de divulgação histórica. Ideal pedagógico?
Sem dúvida. A efabulação da narrativa histórica, a idealização legendária, aliada à intenção de divulgação, pela representação dramática, viabilizavam o objectivo de despertar no público a vontade heróica, pela empatia e diálogo íntimo com a memória do glorioso passado nacional.

No prefácio ao drama «Egas Moniz», o autor justifica o recurso a algumas lendas mais características da época em que decorre a acção pela intenção de enriquecer o enredo dramático e «dar à obra mais sabor nacional». Não lhe interessa escrever uma obra erudita, embora reconheça, no período em que escreve, fundamentos e origens da nossa independência mais vastos que os atribuídos por Herculano, prefere utilizar as lendas enquanto «história idealizada pelo sonho colectivo», na «atmosfera ideal que o génio popular lhes criou». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, ASA Editores, 1ª edição, Setembro de 2004, ISBN 972-41-4002-4, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006.

A amizade de ENT.
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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Jaime Cortesão. Política, História e Cidadania: Parte IV. «A sua peça, O Infante D. Henrique, respondia assim às inquietações do momento, transportando o entusiasmo heróico e epopeico para o público leitor e sobretudo para a plateia que assistiu aos seus dramas»

Cortesia de wikipedia

«Nos seus primeiros dramas, recuperando o gosto romântico pelo drama/ficção histórica, são escolhidos para protagonistas da acção figuras que encarnam virtudes heróicas em momentos decisivos da história nacional. Homens que pelas suas qualidades e virtudes, pelo seu heroísmo, são modelos a apresentar aos cidadãos, como guias da «transformação social». Uma vinculação à teoria de heroísmo romântico de Carlyle, que mais tarde confirmará. Procura Cortesão «génios da acção, aureolados por uma lenda de heroísmo ou santidade», que exprimissem de modo singularmente dramático a nostalgia de um destino heróico. Projectados no palco estes heróis eleitos adquirem vida e movimento dramático, ainda que por vezes efabulado, de forma a causar emoção e empatia num público vasto.
Cortesão esperava que este público fosse além do pequeno número de pessoas que então versava os estudos históricos. Um propósito claro de educação popular, apelando ao heroísmo, à imaginação e à memória colectiva, procurando também corresponder aos anseios e horizontes de expectativa do público. A par deste objectivo e complementando-o surge o recurso ao drama como forma de difusão e divulgação da História de Portugal, tendo como suporte o «individualismo romântico e a sua concepção heróica da história». Uma intenção pedagógica de divulgação cultural que recebe influências de autores oitocentistas. como Oliveira Martins.

jdact
Na generalidade, os dramas históricos não possuem a preocupação com a verdade histórica, à maneira positivista, não é no entanto de excluir a existência de uma intencionalidade «de verosimilhança e credibilidade histórica», aliada à expressão, imaginação literária e criatividade artística. A superioridade da intenção pragmática do drama em relação à «verdade histórica», documental e crítica, é confirmada pelo  autor:
  • «o que nos interessa, (...) não é a exacção histórica dos factos, aliás impossível de realizar, mas a pura representação dos sentimentos que os influíram».
O recurso à ficção não é incompatível e não elimina alguma preocupação com a veracidade histórica na caracterização das personagens e dos ambientes em que estas se movimentavam.
Definindo as bases para perceber as várias tendências que se expressam na literatura histórica ou de fundo histórico, Luís Reis Torgal identifica em Jaime Cortesão, e também em Raul Brandão, a procura de um
sentido de reconstrução nacional e também uma «concepção originária e idealista de República», que se revela na forma como a literafura se entranha na história, reflectindo muitas vezes as amarguras e anseios do presenter. O primeiro dos aspectos é referido por Cortesão quando esclarece que as suas intenções ao escrever um drama épico seriam as de divulgar «a participação heróica do povo português no maior esforço cìvìlizador do seu tempo».

Cortesia de purl
Por outro lado, estas reflexões e a escrita do primeiro drama enquadram-se no período em que Portugal discutia a sua intervenção no grande conflito mundial e daí acresce também a necessidade de buscar no passado exemplos que revigorassem os ânimos e as vontades para o dever ético e moral da participação da Pátria nesse drama da Humanidade. A sua peça, O Infante D. Henrique,  respondia assim às inquietações do momento, transportando o entusiasmo heróico e epopeico para o público leitor e sobretudo para a plateia que assistiu aos seus dramas. Jaime Cortesão participou activamente na propaganda intervencionista, quer no Parlamento, quer na direcção do diário portuense O Norte.No prólogo escrito no Porto, quando Portugal já tinha efectivado a sua participação na I Guerra, o apelo reveste-se de palavras de esperança e entusiasmo para os que partiram e para os que, sofrendo, ficaram:
«E já que hoje, como dantes
No tempo dos Navegantes,
Os heróis da tua terra
Vão às paragens distantes
Ganhar a honra na guerra
 (...)
Eis que brilha num clarão
A velha espada da Raça
De novo na sua mão».

Cortesia de becrevidago
Indagamos agora a simbologia que julgamos existir na escolha dos períodos da história de Portugal em que decorrem as acções dos dois dramas históricos. Ambos os heróis, o Infante e Egas Moniz, movem-se em contextos sociais e culturais, em épocas históricas, que se coadunam com a sua elevação e heroísmo épico:
  • a expansão marítima e a fundação da nacionalidade.
Dois períodos privilegiados por Cortesão, fundamentalmente o primeiro, na sua obra histórica. A eleição destes momentos da história nacional continha, no caso do drama, uma função explícita:
  • inspirados no passado e nos ideais de heroísmo nele existentes, procurava-se a unidade e a regeneração da Pátria.
A emoção, o messianismo, a vibração heróica aliados à construção simbólica e ao culto da Pátria presentes nos versos que se seguem revelam o sentido da obra:

«Ó guerreiros, navegantes,
E vós, ó altos infantes,
Acordai, voltai à vida;
Sede a Pátria ressurgida».

In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, ASA Editores, 1ª edição, Setembro de 2004, ISBN 972-41-4002-4, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006.

A amizade de ENT.
Cortesia de Edições ASA/JDACT