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terça-feira, 19 de julho de 2016

Nossa Senhora da Assunção. 1758. Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Portalegre. II «Tem a Ermida de Sancta Anna perto da Cidade na estrada que vay para Evora, Elvas etc. he muyto antigua, e antes da fundação da Sé…»

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Portalegre. Sé. Nossa Senhora da Assunção. 1758. Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Portalegre [ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 29, nº 223, pp. 1513 a 1539]

«(…) Alem destes tem hum convento da congregação Reformada dos Agostinhos descalssos, que haverá sessenta annos pouco mais ou menos, se estabellecerão no convento que athé então tinhão habitado os Relligiozos da venerável Companhia de Iezus com a Igreja de sancta Maria a grande que foy huma das freguezias que se vnio a Sé, e ainda hoje assim a Igreja como o convento concerva o nome de Sancta Maria e de prezente se está Renovando huma e outra couza com primoroso aceyo. Alem disto há nesta freguezia hum Recolhimento de Terceyras de são Francisco fundado há perto de quarenta annos junto da Igreja de são Bras que lhes foy dada pello Bispo e cabbido, vivem com grande Reforma, e exemplo, e vivem das esmollas que lhe administra a charidade dos fieis. Intramuros não tem esta freguezia Ermida alguma excepto a Igrejinha de São Lourenço a qual não consta tenha Padroeyro nem fabrica, nem há noticia da sua fundação; Extramuros tem a Ermida de são Christovão no sitio que se chama o Arrayal porque aly poz o seu ElRey Dom Deniz quando sercou esta Cidade. Tem a Ermida de Sancta Anna perto da Cidade na estrada que vay para Evora, Elvas etc. he muyto antigua, e antes da fundação da Sé pertencia a órdem de Christo como aprovão as cruzes da dita ordem, que ainda hoje se vem na Abobida da Capella mor e não tem Padroeyro.
Tem mais a Ermida de são Pedro perto da Cidade entre a porta, a que chamão falsa, e algum dia se chamava de Evora, e a porta a que chamão do Bispo. Esta Ermida tem três Altares, hum dedicado a São Pedro que he o principal, outro a são Paulo, e outro a sancta Petronilha, he muyto antiga não há noticia da sua fundação nem de que tenha Padroeyro. Pertence mais a esta freguezia, a Ermida da senhora [...] Da Penha nome que se lhe deu de huma na Rais da qual está fundada a Ermida em hum álto naõ muyto distante da cidade: a fundação naó he muyto antiga naõ se sabe porem o anno certo della; he tradição que a Imagem da Senhora fora trazida por hum Anjo em forma de perigrino a hum Prellado deste Bispado o qual juntamente com o corregedor que então era desta Cidade lhe fizerão aquella Igreja defronte do Pallacio Episcopal como hoje se ve, he da Abobida, alem do Altar principal, hum são Marcos, e outro de nossa Senhora do bom sucesso. Assima desta Ermida quazi ao meyo da Penha está outra do Apostollo são Thomé de cuja Ermida não sabemos Padroeyro, nem fundação he muyto acomodada para a vida Ermitica, e nos persuadimos que esta foy a Ermida na qual viveo penitente o veneravel Padre Manoel do Rego oriundo de Portalegre posto que nascido em Alter do chão, e não na Igreja de nossa Senhora da Esperança do termo desta Cidade como dis o Padre Frey Agostinho de sancta Maria no seu sanctuario Marianno tractando desta Imagem, porque a Igreja da Senhora da Esperança sita no termo de Portalegre foy fundada com o Convento dos Relligiozos capuxos da Provincia da Piedade desta Cidade, o qual aly teve o seu primeyro assento e fundação, e a Ermida de nossa senhora da Esperança na qual o veneravel Padre Manoel do Rego que ao depois morreo com grande opinião de santidade no Hospital de valladilli [sic], viveo, foy junto da cidade de Galiza depoiz de vizitar o corpo do Bemaventurado santhiago, como se collige, de Iorge Cardozo no Agiologio Luzitano no tomo segundo no dia vinte e dous de Março sublitera = F = Alem destas Ermidas há outra chamada da senhora do Socorro na fazenda chamada da Cabaça a qual foy [....] fundada pello Dezembargador Alvaro da Fonseca Coutinho, que está enterrado á porta da mesma Ermida, e os Padroeyros della são os seus sucessores, assim esta como a da senhora da Penha de que assima fallámos forão algum dia muyto frequentadas com Romagem, porem hoje tem diminuido muyto esta frequencia.
A Ermida que ao prezente há nesta freguezia mais freqüentada ds Romagenz he a de nossa senhora de Bellem, que em huma quinta sua fundou nas faldas da serra de Portalegre o Padre Frey Iozé do Sacramento, Relligiozo da Órdem de são Ioão de Deos haverá trinta e sinco annos pouco mais ou menos, á qual em todo o tempo do anno concorre muyto [sic] gente em Romaria assim da Cidade, como desta Provincia, e ainda muyta do Reyno de Castella, parte atrahidos da amenidade do sitio, e parte dos muytos milagres que fás a Imagem da Senhora ou Deos por sua intercessão, da quinta em que ella esta situada, he ao prezente possuidor o Reverendo Padre Iozé Meyra Barreto. A caza da Mizericordia que esta Cidade tem fica no destricto desta freguezia, tem huma aseáda Igreja ornada de custozo azulejo com tres Altares de talha dourada, e as Rendas que administra dizem que são de quatro para cinco mil cruzados. Ella administra o Hospital da cidade que está junto da Igreja do Espirito Santo no qual sitio havia antigamente huma Albergaria, e os Benz que a ella pertencião se entregarão á Mizericordia. Tambem houve antigamente outra Albergaria junto do convento de são Francisco desta Cidade quando era dos Padres claustraes como se prova de huma pedra que ainda hoje se acha junto da porta da Igreja na qual se escreveo esta memoria, na era mil tezentos e doze, que he o anno de Christo mil duzentos e setenta e quatro, que principia assim = ad honorem Dei et Gloriosa [...] // Virginis Mariae et omnium sanctorum ego Petrus Ioannes etc. as fazendas que pertencião a este Hospital ou Albergaria com justa rezão se entende estarem vnidas ao Convento de Sancta clara desta Cidade porque a elle se vnirão todas as que possuhião os claustraes do Convento desta Cidade quando delle forão expulsos, e entrarão a habitallo as Relligiozas observantes no tempo do Serenissimo Rey Dom Ioão terceyro de piedoza memoria […]».
Do Cura da Sé
O Padre Manoel Gonçalves Boroa1

In Ruy Ventura, As Memórias Paroquiais de 1758 do actual Concelho de Portalegre, Revista a Cidade, Revista Cultural de Portalegre, nº 10 (1995) (nova série), pp. 93-136.

Cortesia de Ruy Ventura, 28 de Junho de 2011

Nossa Senhora da Assunção. 1758. Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Portalegre. I «Os Beneficios desta Igreja Cathedral todos são da aprezentação de Sua Magestade Fidelissima, porem os curatos e Capellanias que são amoviveis ad nutum Episcopi são providos pello Excellentissimo Prellado»

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Portalegre. Sé. Nossa Senhora da Assunção. 1758. Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Portalegre [ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 29, nº 223, pp. 1513 a 1539]

«Cidade de Portalegre fica na Provincia de Alentejo da distancia em que está da Corte, sua antiguidade, nome, situação, e tempo em que foy eregida a Cidade, seu modo de governo, e terras que comprehendem o Bispado, e Correyção tractao Dom Luis Cayetano de Lima, na geografia histórica tomo segundo, dede pagina duzentas, e setenta e tres; Dom Frey Amador Arraez nos seus diálogos, dialogo quarto, capitullo oytavo aonde trata da Serra desta cidade; Iorge cardozo no Agiologio Luzitano tomo primeyro no comentário a treze de Fevereyro sub litera = D = aonde tracta da cathedral. Rodrigo Mendes Sylva em La poblacion general de Hespanha, discripsion del Reyno de Portugal no capitullo onze no qual allega muytos autores que tractão a mesma materia o Padre Bultiau no seu Vocabulario Litera = P = Garibay Livro trinta e quatro capitullo seis e Capitullo vinte e sinco, e Livro trinta e sinco capitullo trinta e nove. Frey Francisco Brandão, na quinta parte da Monarquia Luzitana Livro dezassete, capitullo sincoenta e quatro, em cujos autores se ve quazi tudo o que neste papel se pergunta; só devemos advertir que Dom Luis Cayetano de Lima na Rellação das terras que comprehendem este Bispado omitio por equivocação a villa de Ares que a elle pertence, e que Iorge Cardozo se equivocou que as Prebendas da Se da Cidade de Portalegre eraõ sette, como tabem que a capella mayor da Cathedral fora obra do Bispo Dom Frey Amador Arraéz, porque este Prellado só fes o Retábolo de talha dourada da mesma capella, porque o mais já se achava feyto com dinheyro da Fabrica, e empréstimo que lhe fizera o seu primeyro Bispo Dom Iullião de Alva. Os Ministros que tem a Sé cathedral de Portalegre ao prezente são sinco Dignidades das quais a primeyra he o Deão, sinco conegos, dos quais hum Doutoral, outro Magistral, e outro [...] Penitenciario os primeyros dous saõ da creação da Sé e devem ser graduados na Vniverssidade de Coimbra, o terceyro na forma do Consilio foy creado na Constituição synodal do anno mil e seis centos e trinta e dous. Tem mais seis meyos Conegos, dous curas, hum sobchantre, doze Capellans, dous Mestres da Capella, hum Capellão que se chama agonizante, e os mais officiaes precizos, para o bom serviço da Igreja.
Os Beneficios desta Igreja Cathedral todos são da aprezentação de Sua Magestade Fidelissima, porem os curatos e Capellanias que são amoviveis ad nutum Episcopi são providos pello Excellentissimo Prellado; este tambem com o Conego Magistral, e Doutoral fazem provimento do Capellão agonizante que foy instituhido pello Excelentissimo Prellado Dom Álvaro, e se chama agonizante por ter obrigação de agonizar os moribundos. As Irmandades que tem esta Igreja Cathedral são as seguintes: na Capella de São Pedro que fica ao Lado do Altar mór da parte do Evangelho, está sita a Irmandade dos clérigos, e a das Almas do fogo do Purgatorio; na Capella do [sic] senhora da Luz que he a primeyra na Nave da parte do Evangelho está a Irmandade da mesma senhora, na segunda que he dedicada á Senhora do Carmo a Irmandade da ordem terceyra da mesma Senhora na Terceyra que he de são Chrispim, e chrispianno está a Irmandade dos mesmos sanctos na Quarta que he de Sancta Catherina de Senna está a Irmandade de santhiago; ao Lado da Epistola do Altar mór está o Altar do Santissimo Sacramento, e nelle a Irmandade do Senhor, e na primeyra Capella da Náve deste lado, está a Irmandade das chagas de Christo ás quais he dedicado o Altar. Na terceyra [...] Capella desta Náve está a Irmandade do Santissimo nome de Iezus, a quem o Altar he dedicado. A Renda da Mitra deste Bispado ao prezente são nove mil cruzados, duzentos e vinte e sinco mil reiz e a terça parte que nela tem a sancta Igreja Patriarchal Rende ao prezente sinco mil cruzados, e cem mil reis. As Rendas da Mêza capitullar se devidem em vinte e huma Prebendas, das quais caberão a cada huma cento e oytenta mil reis de Renda pouco mais, ou menos. Deão tem duas Prebendas de Renda, as quatro Dignidades Prebenda e quarto, os conegos cada hum huma Prebenda, excepto hum que paga o terço á Mêza do sancto officio de Evora.
Os meyos conegos, e curas cada hum meya Prebenda; os capellanz, sobchantre, e thezoureyro, e órganista, cada hum tem hum terço de Prebenda. Tem esta freguezia da Sancta Sé fogos = seis centos e sessenta e tres = almas = duas mil setecentas e huma = pessoas de communhão = duas mil duzentas e tres = Devemos tambem advertir que o Rellicario de Christal com o sancto Lenho, do qual fazia menção Iorge Cardozo, o não tem já esta Cathedral, mas no Altar das Chagas se colocou há pouco tempo outro, como tambem que o Historiador aliaz como também que a este Historiador esquecerão em primeyro Lugar hum osso de Sancto Innocencio, por Rezão de cuja Relíquia se Reza delle no dia vinte e dous de Setembro de comunivnius Martyris; e em segundo Lugar numerar entre os ornamentos preciozos desta Cathedral hum de velludo encarnado alcaxofrado e bordado de ouro que foy do Reyno de Inglaterra sendo catholico, e por Bulla Pontificia, que se acha no Archivo do Cabbido, foy aplicado a esta Sé, com obrigação [...] de o Restituhir á Igrejade onde era tornado a ser catholico o Reyno de Inglaterra. Tambem devemos advertir que parece se equivocão os autores no tempo em que poem a fundação de Portalegre pois concordando todos em que o seu fundador foy Lizias, ou Luzo, o qual conforme todos os Historiadores Portuguezes e Estrangeyros foy o fundador da Luzitania ou Lizitania, e Sendo certo que este viveo, e foy sepultado nesta Cidade como dis o allegado Bispo Arraez, seguece daquy que esta povoação foy a primeyra, ou ao menos das primeyras do Reyno de Portugal, alem disto concordão todos que Lizias ou Luzo foy filho ou companheyro de Bácho, e Bácho deyxadas as fabullas he nome composto de Bar, e chus que significa filho de chus, como adverte Samuel Bochart na sua Geografia sacra, Livro primeyro capitullo primeyro; e conclue que Bácho, he Nemrod filho de chus, e Netto de cam, e segundo esta noticia vem a ser a fundação de Luzitania, e de Portalegre pellos annos do mundo mil oytocentos e sincoenta e dous antes de Christo nascido dous mil cento e oytenta e tres pouco mais ou menos.
Nesta freguezia da Sé há em primeyro Lugar seminário contíguo á Sé e Passo Episcopal no qual se crião Estudantes pobres, e as suas Rendas estão fundadas em pençõis impostas na Mitra, e outros Beneficios, e ns Rendas de hum Beneficio da villa da Ponte do Sor, que por Bulla Pontificia se lhe anexou no tempo que era Bispo deste Bispado o Excellentissimo Dom Álvaro de Castro Noronha. Tem mais hum Convento de Relligiozos observantes da Provincia dos Algarves da Órdem de São Francisco, e outro de Relligiozas de Sancta Clara da mesma Provincia sobre a fundação, Privillegios, Padroados, e mais particullaridades, dos quais não se pode dizer mais do que sobre elles dice o chronista da mesma Provincia Frey Hyeronimo de Bellem na sua chronica. [...]»
Do Cura da Sé
O Padre Manoel Gonçalves Boroa1

In Ruy Ventura, As Memórias Paroquiais de 1758 do actual Concelho de Portalegre, Revista a Cidade, Revista Cultural de Portalegre, nº 10 (1995) (nova série), pp. 93-136.

Cortesia de Ruy Ventura, 28 de Junho de 2011

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Memórias Paroquiais de 1758. Santa Margarida. Avis. «Ao 26º: Naô padesseo nesta freguezia, couza alguma ruina no terramoto, de mil setecentos e sincoenta e sinco; ao 27º: Naô há couza digna e memoria de que se possa dar conta»


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«Santa Margarida, 1758, Maio, 3. Memória Paroquial da freguesia de Santa Margarida, comarca de Avis. [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 22, nº 54, pp. 353 a 362]

Excelentissimo e Reverendissimo Senhor
Por ordem de Vossa Excelencia Reverendisima, me foj emtregue hum papel de letra empreça, com varios emterrogatorios para responder a elles; o que se procura saber; e satisfazendo aos perceitos de Vossa Excelencia Reverendisima, e ordens de Sua Magestade que Deus Guarde, vendo os interrogatorios, cada hum de por si; respondo aos mesmos; com a clareza que pude indagar, e toda a verdade sobre o que nesta
freguezia há.
Resposta ao primeiro: Não tenho Vila, e so tenho freguezia, Arcebispado, Cameras, termos;
Resposta ao segundo: Esta freguezia hé de campo, fica na Provincia de Alentejo Arcebispado de Evora pertençe a Camara da Vila de Avis, a major parte desta freguesia e a quarta parte dela pertençe a Camara da Vila das Galveas, por ficar no seu termo; a Vila de Avis, hé de Sua Magestade que Deos Guarde; e a das Galveas, hé de donatario que o hé dela o Ilustrissimo Cardeal;
Ao terceiro: Tem esta freguezia ojtenta e sinco vezinhos e pessoas trezentas e sincoenta e sinco;
Ao 4º: Está esta freguezia, situada em huma campina pequena; a povoaçaô que dela, se descobre, hé a Vila das Galveas, que dista dela huma legoa;
Ao 5º: Não tem termo seu esta freguezia, e só tem huma aldeja; que se chama Aldeja Velha; que consta de nove vezinhos que já está emcluidos no numero asima;
Ao 6º: Está esta Parochia, no campo junta com Aldeja Velha asima declarada; não há mais lugar algum dentro dela nem aldeja;
Ao 7º: O orago desta freguezia hé Santa Margarida, tem sinco altares mor, e dois coletrais e a parte direjta, hindo para a cappela mor, Nossa Senhora do Rozario; e a parte esquerda Santo Antonio, e por baixo deste, no pe direjto da Igreja, o altar das almas, e outro altar esta cem ornato algum, por que era das almas; mas como este se mudou para a outra parte; ficou ainda cem se demolir, em cujo pentendo [sic] por Nossa Senhora dos Prazeres, e Santa Luzia, que estão no mejo do altar mor; cem terem nicho onde estejaô; para o que, pertendo; pedir algumas esmolas para compor o altar, de toalhas, castisaes, e cortinaz que hé o que lhe falta, não tem esta Igreja nave alguma; nem irmandades; e só tem Santa Margarida, Jois, escrivaô, e Thezourejro, e Nossa Senhora do Rozario, e Santo Antonio, da mesma sorte;
Ao 8º: O Parocho hé cappelaô; por ser a Igreja cappela curada: aprezentaçaô hé de Sua Magestade que Deos Guarde; e hé de oppoziçaô na Meza da Consiençia, por ser da Ordem de Saô Bento de Avis de que Sua Magestade hé perpetuo admenistrador e governador; tem o Parocho de ordenado, ou de renda, dois mojos de trigo; mojo e mejo de sevada; para a besta, pagos pela Comenda que desfruta o real Comvento de Avis, e quinze mil reis em dinhejro, pagos pelo almoxarifado da Vila de Benavente;
Ao 9º: Não tem beneficiado algum;
Ao 10º: Não tem comventos de religiozos, nem religiosas;
Ao 11º: Não tem hospital;
Ao 12º: Não tem caza de mizericordia;
Ao 13º: Tem a Hermida de Nossa Senhora da Rabaça, que está no campo, tem esta altar mor, e dois colletrais, a parte direjta, Santo Antonio, e a parte esquerda Saô Bento; hé toda de aboboda; e tem tres naves, e tres colunas, de cada parte tem pulpito, a segunda coluna, da parte esquerda; e outro no alpendere, da parte exterior da Igreja, esta Ermida, desfruta o Prior de Avis por costume; tem duas moradas de cazas de que cobra a renda delaz, e juntamente as offertas de trigo, mortalhas, o dinhejro, e frangos, e outras couzas mais que os devotos oferessem, tanto a Senhora como aos mais Santos;Tem mais duas moradas de cazas, huma morada hé para o Jois da Frota, se aprezentar nos dias delas, como logo se dirá, e a outra morada hé, do ermitaô de Nossa Senhora e todas estaô pegadas a Igreja da Senhora. Esta Igreja, se fez de esmolas, que derão os devotos;
Ao 14º: Na primejra cesta fejra do mes de Março de cada hum anno, se fas hum sermão por costume antigo, e os mais dos annos. Se lhe canta a miça. Este hé obrigado o Jois, desta freguezia e neste dia, comcorre munta quantidade de gente. A çinco de Agosto, de cada hum anno se fazem nesta Igreja, da Senhora da Rabassa, tres festas com sermão, missa, cantada, e vesporas de tarde. A primejra festa, hé no dia sinco, com vesporas no dia quatro: e hé do Jois desta freguezia e no dia sinco de tarde, as vesporas eraô do Jois, da Vila de Monteargil, hoje porem naô vem ja o Jois, e mais devotos deste povo fazer a festa a Nossa Senhora, por duvidas que tiveraô com o Prior que desfruta estes lucros e lhe fazem a festa, na dita Vila de Avis, hé no dia sete e nestas tres partes: há Jois, iscrivão thezorejro e nestes tres dias comcorria munta quantidade, de gente de todas estas terras vezinhas, e se abarracavaõ em barracas, e de baxo de humas, sobrejras, que estão no sitio da Igreja, e se festejava a Senhora, alem das festas de Igreja: com comedias, e touros; hoje porem, acode munto pouca gente nestes dias; e se vaj, perdendo a devoção, ainda que pelo anno adiante; sempre comcorrem alguns devotos.
Ao 15º: Os frutos, que os moradores desta freguezia, recolhem, em major abundançia são trigo, centejo, milho e os montados;
Ao 16º: Não há Jois Ordinario, nem Camara e só o há da Ventena, está esta freguesia sobgejta [sic] ao Governo de Avis; por ser termo dela e huma pequena parte a Vila das Galveas, por ficar, no seu termo;
Ao 17º: Não há couto, cabessa de Conselho, honra ou behetria;
Ao 18º: Não há memoria que desta freguezia sahisem, nem foleressessem [sic], homes alguns, nem por letraz, nem por armas, nem vertudes;
Ao 19º: Não tem fejra, em dia algum dia anno nem franca, nem cativa;
Ao 20º: Não tem correjo, e servesse do correjo de Avis cada hum amanda buscar as suas cartas pelo seu criado, ou pessoa que para la vá o correjo chega a Vila de Avis, a quinta fejra de tarde de todas as semanas e parte ha cesta fejra ao mejo dia. Dista esta Vila, desta freguezia duas legoas;
Ao 22º: Dista esta freguezia da cidade Capital do Arcebispado que hé Evora, onze legoas, e da de Lisboa capital reino vinte e três;
Ao 22º: Não consta que tenha previlegios alguns, antiguidades, ou outras couzas, dignas de memoria;
Ao 23º; Não ha nesta freguezia ou perto dela alguma fonte ou lagoa, selebre, e so na Vila das Galveas, que dista huma legoa há a fonte do Povo, que dizem por espriencias, hé boa para os obestruidos, e que naoconssente obestujiaõ o mesmo me emforma, o lavrador da Erdade de Val de Figuejra, desta freguezia, que tem a mesma vertude por exprienssias, que ja tem fejto em algumas pessoas e que ou os poem sanos, ou os deruba de todo;
Ao 24º: Não hé porto do mar, nem o há, nestas terras vezinhas;
Ao 25º: Nao há nesta freguezia, couza murada, nem torre alguma, nem castelo;
Ao 26º: Naô padesseo nesta freguezia, couza alguma ruina no terramoto, de mil setecentos e sincoenta e sinco;
Ao 27º: Naô há couza digna e memoria de que se possa dar conta. O que se procura saber dessa Serra hé o seguinte.

Ao 1º Naô há nesta freguezia, Serra alguma, nem o mais que se procura saber sobre esta materia, e por iso nao respondo ao segundo, e terçeiro, interrogatorio. Ao 4º Naô há rio algum; que nassa da Serra. Ao 5º Não há vilas, que estejão na Serra, nem ao longo dela. Ao 6º Naô há fontes, de propriedades algumas, mais do que se dis asima no interrogatorio vinte e três. Ao 7º Naô há minas de metaes ou cantarias, de pedras, nem de outros matriaes de astimação. Ao 8º Naô ha plantas, nem ervas medessinaes. Ao 9º Naô ha mostejros, nem Igrejas, de romagem nem Imagens milagrozas. Ao dessimo e dessimo, e undessimo, e dessimo segundo, e dessimo tercejro, não tenho nem ha couza de que se possa dizer.

Ao 1º Naô há rio, e so ribejra esta se chama das Galveas nasçe no sitio da Estalage, do Cantarinho termo da Vila, das Galveas. Ao 2º Nasçe munto pouco caudeloza, e corre todo o anno em partes mas com pouca forteleza. Ao 3º Nesta Ribejra, emtra outra ribejra mais pequena, que corre todo o anno, e mais viva das agoaz esta nasçe junto da Erdade da Val de Figuejra e entra na outra junto da Erdade dos Moneroz logo por sima da Senhora da Rabassa, e se chama a da Sagolga e aonde nasçe, e entra , he tudo desta freguezia e termo da Vila de Avis. Ao 4º Naô he navegavel, nem capas, de embarcaçaô alguma. Ao 5º Em toda ela hé de curso sossegado e quieto. Ao 6º Corre do Nascente para o Poente. Ao 7º Os peixes que cria, saô bordalos, pardelhas, couza de munto pouca comssideraçaô. Ao 8º Não há pescarias algumas em todo o anno, maiz que pesca de cana, por devertimento e naô ser de canasde outro genero de pescariaz. Ao 9º Estas pescarias saô livres, e naô sej que haja Senhor algum delas. Ao 10º Estas suas margens se cultivão em algumas partes de Verão por milho meudo, grosso e feijaô fradinho e naô tem arvoredo algum. Ao 11º Naô há notissia, que as suas agoas, tenhô vertude alguma. Ao 12º Sempre comsserva o mesmo nome, asim no prinsipio, como no fim, e não há memoria de que em outro tempo tivesse outro nome. Ao 13º Emtra em Sor junto da Erdade da Sagolga, freguezia de Monteargil, Arsserdagado [sic] de Santarem, Patriarchado de Lisboa. Ao 14º Tem pouco desta freguezia que será quazi meja legoa, huma penha de huma e outra parte, que ainda que fosse capas de embarcassoens naô podiaô navegar, dela para sima, por cahir a agoa mais de vinte, ou trinta, palmos para baxo. Ao 15º Naô tem ponte alguma em toda a sua distançia, nem de pedra de cantaria, nem de madejra. Ao 16º Tem dois moinhos que estaô, quazi demolidoz e há muntos annos, que senaô uza delez e naô tem lagares de de azejte nem pizons, noraz nem outro algum emgenho. Ao 17º Naô há notissia que em tempo algum, se tenha tirado ouro, de suas arejas e só na ribejra da Sagolga que emtra nela se tira munta quantidade de area preta dela se preve munta gente desta provinssia. Ao 18º Todos os moradores nesta freguezia, sempre Sempre uzaraô das agoaz livremente, e sem penssaô alguma. Ao 19º Esta ribejra tem tres, para quatro legoaz, desde o seu nassimento, athe ao seu fim, onde se mete no rjo de ser, onde acaba. Ao 20º Naô há couza notavel de que se possa fazer mençaô digna de memoria. Santa Margarida 3 de Majo de 1758.
De Vossa Excelencia Reverendissima
O mais obediente e menor sudito
Frei Manuel Gonçalves Curado [assinatura autógrafa]»

Cortesia de Ofélia Sequeira, 12 Agosto 2013

sexta-feira, 8 de julho de 2016

As Freguesias do Distrito do Porto. Memórias Paroquiais de 1758. José Viriato Capela. «… publicações nos quadros concelhios, e por eles no Distrital, aproxima-se aqui muito de perto do quadro da Diocese Portucalense, dada a proximidade do desenho do Distrito com o da diocese»

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Memórias, história e património
«Em obediência ao programa editorial da Colecção Portugal nas Memórias Paroquiais de 1758, publica-se agora o volume 5 das Memórias Paroquiais respeitantes ao Distrito do Porto. Com esta publicação vai-se ao encontro, pelo menos no que diz respeito à região do grande Porto, de uma área cultural onde as Memórias Paroquiais foram precocemente e em grande extensão objecto de interesse e curiosidade local. Elas fizeram parte dos conteúdos e temas de referência de alguns investigadores e historiadores locais que ao longo da 1.ª metade do século XX se interessaram pela História Municipal e Local. Em especial, os autores que mais intensamente ao longo das décadas de 1920-1940, em correlação com o surto dos movimentos regionalistas, municipalistas e descentralizadores, prestaram mais atenção à História das terras e para ela procuraram as bases, os fundamentos e as origens histórico-culturais. Em alguns casos as Memórias Paroquiais foram mesmo objecto de publicação sistemática, como base do suporte da construção da identidade e história municipal. Este programa de estudo e publicação das Memórias teve depois continuidade no pós 1975 com o surto da História Local, em muitos casos em correlação com o revigoramento da vida municipal e apoiada pelos municípios. Por isso quando iniciamos a reunião de materiais para a publicação deste volume, fomos de certo modo surpreendidos com o enorme volume de Memórias que já tinham sido dadas à estampa e eram conhecidas da Cultura e História das Terras, mais do que da História e Historiografia Nacional. E que de um modo quase geral e sistemático cobrem os concelhos envolventes do Porto e a cidade.
É o caso das edições mais precoces dos anos de 1920/1930, para os municípios de Vila do Conde, Paredes e Gondomar, às seguintes das décadas de 1950-1970 de Santo Tirso, Matosinhos, Póvoa de Varzim e Porto, até às edições (ou reedições), mais recentes de Vila Nova de Gaia, Penafiel e Paredes. A edição do presente volume respeitante ao Distrito do Porto que continua a enquadrar-se para efeito de arrumação de publicações nos quadros concelhios, e por eles no Distrital, aproxima-se aqui muito de perto do quadro da Diocese Portucalense, dada a proximidade do desenho do Distrito com o da diocese. O quadro diocesano e da sua administração portuense apresenta-se-nos então muito robusto capaz de fixar e estabilizar precocemente os seus limites, mas também resistir às forças da sua diminuição, vindas sobretudo dos poderes régios, que do poder senhorial e temporal dos seus bispos pretende também diminuir o seu poder e jurisdição eclesiástica. Importante golpe seria o desferido por Pombal com a criação da diocese de Penafiel (1770-1778). Mas tal não vingaria nem sobreviveria ao afastamento do Ministro de José I e do seu projecto de poder regalista de reordenamento do poder eclesiástico e territorial e submissão dos bispos e quadros diocesanos.
Mas este é um assunto que tem os seus desenvolvimentos pós 1758. O quadro da divisão e administração diocesana é muito forte nas referências dos párocos memorialistas que sempre situam rigorosamente a posição das suas paróquias no quadro do ordenamento da divisão e administração eclesiástico-diocesana, mas também no da administração e governo eclesiástico e pastoral, onde os direitos de padroado e apresentação vão largamente desenvolvidos, a História da Igreja Portucalense regularmente evocada a partir do Catálogo dos Bispos do Porto de Rodrigo Cunha, obra maior da cultura e identidade político-religiosa do clero urbano e rural da diocese do Porto que poucos párocos desconheceriam. A força e pregnância da administração diocesana eclesiástica, vai expressa no longo espaço que toma ainda na obra do padre Agostinho Rebelo Costa, na sua Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, de finais do século XVIII (1.ª edição 1788-1789). Particularmente robusta e desenvolvida é a organização e vida paroquial diocesana. Ela exprime-se desde logo pelo desenvolvimento médio da dimensão demográfica das paróquias, e nelas pela centralidade paroquial das igrejas matrizes e da sua acção cultural e eclesiástica. É possível através das Memórias Paroquiais seguir e compor o quadro geral das igrejas matrizes que em meados do século XVIII têm sacrário e Santíssimo Sacramento, culto central à actividade eucarística e paroquial da igreja, mas também da instalação de algumas confrarias centrais à vida religiosa e administração eclesiástica das paróquias, da administração temporal da Igreja, a confraria do Subsino, e outras confrarias devocionais, suportes por excelência do enquadramento e desenvolvimento de cultos estratégicos da Igreja Portuguesa. E também pelas demais instituições religiosas de enquadramento da população, expresso na densidade de capelas, confrarias e irmandades e outros institutos pios, religiosos e sociais, todas elas contribuindo para o reforço e relevância da paróquia. E é também grande e importante o papel social e religioso que os inúmeros institutos e comunidades de religiosos têm na diocese e na cidade, com uma grande irradiação política e cultural.
Este desenvolvimento das instituições da administração eclesiástica no quadro das paróquias portuenses, explica também, com outros factores, o fraco desenvolvimento das estruturas civis e políticas da coroa e municípios, nos lugares e nas vintenas. Ao lado da diocese, só a cidade do Porto exerce tão grande força política, enquadradora e centralizadora deste território, mas também significativa irradiação social e monumental, que nesta conjuntura irá reforçar com o apoio do governo central. As Memórias Paroquiais urbanas, se bem que pobres para a caracterização social-económica urbana, são por outro lado, ricas de informação sobre as suas instituições religiosas e também da administração política e civil e seus equipamentos. Jaime Ferreira Alves relevou já o seu contributo para a história monumental e artística da cidade no fim do longo ciclo do Barroco e início do Neoclassicismo portuense, quando a cidade arranca para novos voos patrimoniais e urbanísticos. Por outro lado, as Memórias rurais, sobretudo das áreas peri e circum-urbanas e das terras dos julgados ou ouvidorias que constituem o vastíssimo termo do Porto, fornecem importantes elementos para vincar o papel central e centralizador do Porto neste território. A organização e estrutura dos julgados e ouvidorias vai, por regra, bem descrita nas suas instituições político-administrativas do governo destes termos concelhios e na sua articulação e dependência ao município do Porto. Através das ouvidorias reforçam-se as bases de articulação à cidade, pela constituição de patamares jurisdicionais e territoriais de administração do território que permitem gerir este vasto termo, único no quadro nacional pela sua vastidão e fórmula de articulação. Nas Memórias, na zona circundante à cidade, correspondentes a um primeiro círculo (à Thunem) de organização do território e suas actividades económicas em função do grande centro e mercado urbano, é bem visível, por um lado, o papel e tarefas daquelas freguesias dos actuais concelhos da Maia, Matosinhos, Vila Nova de Gaia e Valongo que se especializam no fornecimento de víveres e produtos industriais e matérias primas à cidade, mas também no suporte e articulação da cidade ao vasto território minhoto e duriense. Por outro lado, é possível seguir o papel que tem a rede hidrográfica na construção e unificação económica deste território e sua articulação ao Porto. As Memórias Paroquiais produzem por todo o lado importantes descrições dos rios, em toda a sua extensão, perfis e ligação às terras. Há aqui Memórias particularmente ricas de descrições dos grandes cursos de água que se articulam ao Douro (mas também ao Ave), e particularmente ao papel do Douro como unificador e construtor de grande centro portuário, mercantil e económico da região e de todo o Norte, que é a cidade do Porto». In José Viriato Capela, Henrique Matos, Rogério Borralheiro, As Freguesias do Distrito do Porto, Memórias Paroquiais de 1758, Memórias, história e património, colecção Portugal nas Memórias Paroquiais de 1758, volume 5, Braga 2009.

Cortesia de CPortugalMParoquiais1758/JDACT

Memórias Paroquiais. Joana Braga. «Quanto dista da cidade capital do bispado, e quanto de Lisboa, capital do reino? Se tem algum privilégio, antiguidades, ou outras cousas dignas de memória?»

Cortesia de ANTT

[…]
Esta colecção é constituída pelas respostas elaboradas pelos párocos ao interrogatório, através do qual se pretendia obter informações sobre as paróquias, abrangendo a totalidade do território continental português. Apesar de a exaustividade das respostas não ser constante, apresentam-se, na generalidade, de forma sequencial aos pontos do interrogatório (que está dividido em três partes relativas à localidade em si, à serra, e ao rio) fornecendo dados de carácter geográfico (localização, relevo, distâncias), administrativo (comarca, concelho, dimensão, e confrontações), e demográfico (número de habitantes), sendo possível obter informações sobre a estrutura eclesiástica e vivência religiosa (orago, benefícios, conventos, igrejas, ermidas, imagens milagrosas, romarias), a assistência social (hospitais, misericórdias, irmandades), as principais actividades económicas (agrícola, mineira, pecuária, feira), a organização judicial (comarca, juiz), as comunicações existentes (correio, pontes, portos marítimos e fluviais), a estrutura defensiva (fortificações, castelos ou torres), os recursos hídricos (rios, lagoas, fontes), outras informações consideradas assinaláveis (pessoas ilustres, privilégios, antiguidades), e quais os danos provocados pelo terramoto de 1755. Os volumes 42 e 43 contém apontamentos sobre múltiplas freguesias, elaborados pela mesma pessoa, provavelmente o Padre Luís Cardoso, incluindo algumas respostas originais de párocos, datadas de 1722, 1730 e 1732, e que deverão corresponder a um inquérito anterior ao de 1758.
O Dicionário Geográfico do Reino de Portugal, que o erudito e infatigável padre Luís Cardoso, da Congregação do Oratório de Lisboa, tinha composto sobre as memórias que os párocos do reino enviaram, por ordem superior, à Secretaria de Estado, perdeu-se miseravelmente nas ruínas do terramoto de 1755, escapando apenas, as letras A B e C do primeiro e segundo volumes, por estarem já impressas, e distribuídos por partes, aonde não chegou o estrago. A simples leitura destes volumes, que restam, basta para convencer os verdadeiros portugueses, quero dizer, os amantes da glória, e da Pátria, de que a perda dos que faltam, foi grande e irreparável, e o seria muito mais, se o autor, apesar de ser já avançado em anos, não concebera o projecto de refundar a sua obra, adicionando-a com a relação dos estragos e catástrofe, que acaba de mudar a face de todo o Reino. Com este fim pediu novamente, instou e conseguiu da Secretaria do grande e respeitável Sebastião José de Carvalho e Melo, ordem para que todos os párocos do Reino enviassem novas descrições das suas freguesias, com aquelas escrupulosas e circunstanciadas miudezas que mais abaixo constarão da cópia dos interrogatórios, que impressos, lhes foram enviados com o preceito de responderem, que a maior parte dos párocos cumpriram no mesmo ano de 1758, com que lhes foi intimado; não quis porém o padre Cardoso destas participações.
Não quis ou não pôde, porque as enfermidades, ou a velhice ou o pressentimento da morte, ou tudo junto fez, que o padre Cardoso olhasse como impossível a execução do seu projecto, e assim, por sua morte em 1769, ficaram em montão confuso mas bem guardado, todas as descrição que lhe tinham sido enviadas, guardadas até agora em que um padre da mesma Congregação do Oratório, e Casa das Necessidades, zeloso da utilidade, e instrução pública as fez arranjar com forma de dicionário e mandou encadernar em 44 volumes de fólio, incluso este índice para na biblioteca da mesma casa estarem patente a instrução, utilidade e curiosidade portuguesa. De todos os 43 volumes, todos com o título “Dicionário Geográfico de Portugal” se extraiu o presente índice geográfico para facilitar a invenção de qualquer cidade, vila, concelho ou aldeia paroquial, devendo advertir-se, que havendo sido, apesar de bem guardadas, havendo sido desvairadas mais de 500 descrições, foi necessário, para completar a obra, suprir com a leitura, estas faltas, suplemento que certamente, não há-de de satisfazer a muitos leitores; mas na sua mão está emendarem, e corrigirem nos suplementos, ou volumes 42 e 43. De resto, damos a cópia dos interrogatórios conforme aos quais se acham feitas as respostas e são do teor seguinte:
1. Em que província fica, que bispado, comarca, termo e freguesia pertence?
2. Se é d'el-rei, ou de donatário, e quem o é ao presente?
3. Quantos vizinhos tem e o número das pessoas?
4. Se está situada em campina, vale, ou monte, e que povoações se descobrem dela, e quanto dista?
5. Se tem termo seu, que lugares ou aldeias compreende, como se chamam, e quantos vizinhos tem?
6. Se a paróquia está fora do lugar, ou dentro dele, e quantos lugares, ou aldeias tem a freguesia, todos pelos seus nomes?
7. Qual é o orago, quantos altares tem, e de que santos, quantas naves tem; se tem irmandades, quantas, e de que santos?
8. Se o Pároco é cura, vigário, ou reitor, ou prior, ou abade, e de que apresentação é, e que renda tem?
9. Se tem beneficiados, quantos, e que renda tem, e quem os apresenta?
10. Se tem conventos, e de que religiosos, ou religiosas, e quem são os seus padroeiros?
11. Se tem hospital, quem o administra, e que renda tem?
12. Se tem casa de Misericórdia, e qual foi a sua origem, e que renda tem; e o que houver notável em qualquer destas cousas?
13. Se tem ermidas, e de que santos, e se estão dentro, ou fora do lugar, e a quem pertencem?
14. Se acode a eles romagem, sempre, ou em alguns dias do ano, e quais são estes?
15. Quais são os frutos da terra que os moradores recolhem em maior abundância?
16. Se tem juiz ordinário, etc., câmara, ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra, e qual é esta?
17. Se é couto, cabeça de concelho, honra, ou beetria?
18. Se há memória de que florescessem, ou dela saíssem, alguns homens insignes por virtudes, letras, ou armas?
19. Se tem feira, e em que dias, e quantos dura, se é franca ou cativa?
20. Se tem correio, e em que dias da semana chega e parte; e, se o não tem, de que correio se serve, e quanto dista a terra onde ele chega?
21. Quanto dista da cidade capital do bispado, e quanto de Lisboa, capital do reino? Se tem algum privilégio, antiguidades, ou outras cousas dignas de memória?
22. Se há na terra, ou perto dela alguma fonte, ou lagoa célebre, e se as suas águas tem alguma especial qualidade?
23. Se for porto de mar, descreva-se o sítio que tem por arte ou por natureza, as embarcações que o frequentam e que pode admitir?
24. Se a terra for murada, diga-se a qualidade de seus muros; se for praça de armas, descreva-se a sua fortificação.
25. Se há nela, ou no seu distrito algum castelo, ou torre antiga, e em que estado se acha ao presente?
26. Se padeceu alguma ruína no terramoto de 1755, e em quê, e se está reparado?
27. E tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório?» In Joana Braga, Memórias Paroquiais, Índice, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, 270.01.03, 1/2014, Lisboa, 2014, ID L 712.

Cortesia de ANTT/JDACT

terça-feira, 7 de junho de 2016

Memórias Paroquiais. 1758. Alvito. Transcrição de André Coelho. «… e daqui vem o serem as armas desta Villa hum toiro com huma aranha, mas tudo isto não tem mais certeza que huma simples tradição»

jdact

Com a devida vénia a Fernanda Olival e André Coelho

Alvito. 2 de Junho de 1758. Memória Paroquial da freguesia de Alvito, comarca de Beja, [ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 3, nº 9, pp. 365 a 370]

[…]
Na capella mor estão duas portas huma da sanchristia, e outra fronteira da caza do despacho da confraria do Santissimo Sacramento, e nella esta tambem o Santissimo Sacramento em hum cofre a que chamão depozito. Tem coro alto cujo arco se faz celebre por ser quazi direito, e ter muito pequena volta, e de bacho do coro está outra porta para a rua, que he a principal. O parocho he religiozo Trino com o titulo de Reitor he aprezentado pelo padre ministro do Convento da Santissima Trindade da Villa de Santarem comendador desta igreja, a qual rende fora da comenda trezentos mil reis, e nella não há beneficiados. Tem dous conventos hum de religiozos Trinos, e he dentro da Villa, em que assistem tres religiozos cujo património são as rendas da dita paroquia. Outro de religiozos de S. Francisco da Provincia dos Algarves e he conhecido pelo titulo de Mugem de Arem, por corrupção do vocabulo, que era dos monges de alem, por quanto havião nos seculos mais antigos dous conventos de religiozos de S. Bento, e a este por ficar mais distante da povoação e entravão o convento dos Monges de Alem. Neste mesmo sitio se acha hoje fundado o convento dos religiozos de S. Francisco, de que he padroeiro o Excelentissimo barão conde. Este titulo de Mugem de Arem he ja antigo por quanto no tombo das capellas desta matriz a primeira capella he da caza do Excelentissimo barão conde com missa quotidianno [sic] e humas das fazendas anexas a esta capella he a erdade de Mugem de Arem, e este tombo foy feito pelo pe. Diogo Manaxo no anno de mil quinhentos, noventa e quatro, anno em que comessou a ser vigario da vara. Tem hospital, e tem Mizericordia, tudo governado pela meza dos irmãos da Mizericordia. O hospital he mais antigo, porque a Jrmida de Nossa Senhora das Candeyas, que antigamente se chamava Senhora do Hospital he muito mais antiga, e a esta imagem da Senhora do Hospital concorrerão os moradores desta Villa estabelecendo nas suas fazendas alguma obrigação, sensos, e foros para a assistência dos infermos, e por este motivo chamarão a Senhora do Hospital, que depois o doctor Francisco Soares ha mais de cem annos fez a Mizericordia ao pe desta Jrmida de Nossa Senhora; e com breve, que alcansou, se anexarão á Mizericordia as rendas de Nossa Senhora do Hospital, que de então para ca se começou a chamar Senhora das Candeyas, e ficarão estas duas igrejas as quaes se comunicão, governadas pela mesma meza da Mizericordia, cujas rendas poderão ser huns annos por outro trezentos mil, de cuja despeza sahem as pensões, e legados da dita Mizericordia. Tem sette hermidas, a de Santo Antonio, e esta tem hũa confraria ou huns devotos que o festejão, S. Sebastião, e a de Nossa Senhora da Graça, que tambem tem confraria, e esta hermida foy no seculos [sic] antigo a freguezia, que então era de S. Romão, e todas estas tres hermidas estão juntas á Villa, e nos seus arrabaldes, mais distantes fica a de S. Miguel no alto da serra, que vay para Villa Nova, a de S. Bartholomeu, a de Santa Luzia e a de S. Pedro. Tem outra hermida mais ao pe da Villa de Agua dos Peixes [sic] com o titulo de S. Jozeph, em todas estas ha festa no [sic] seus dias mas sem romagem especial, mais que as pessoas da Villa, e todas estas jrmidas pertencem ao padroado do Convento da Santissima Trindade de Santarem. Nesta terra se recolhem de todos os frutos como trigo, sevada, senteio, vinho, mas com mayor abundancia azeite. Tem camara, e dous juizes ordinarios tudo nomeação do sobredito donatario. He cabeça das terras da baronia, por estar nella o castello e palacio do barão conde, e a elle vem poizar, quando vem ás suas terras. Nella ha uma feira, que começa em dia de Todos os Santos dura tres dias. Por ella passa o correyo, que vay para a cidade de Beja e chega a esta terra na quinta feira pela menham, e vem de Beja para Lisboa na sesta feira a noite, e parte no sabado de madrugada. Esta terra dista de Beja capital da comarca sinco leguas, de Evora capital do arcebispado seis leguas, e de Lisboa capital do reino dezoito léguas em que se contão as trez de mar da Villa da Moita a cidade de Lisboa. Não consta ter esta terra privilegio nem antiguidade que se faça digna de memoria. Na praça desta Villa ao pé do castello, e palacio tem huma grande fonte, a qual he como a de Alcabideque. sahe de huma grutta, quem tem a modo de hum portado, e com as suas aguas moem nove moinhos, e se regão doze ou quatorze hortas. A esta gruta, e principio desta fonte, que recolheo fugido hum toiro, o qual por ser muito branco lhe chamarvão Alvito, outros dizem, que achado pelos que o buscavão gritarão Alvim ca está o toiro, na entrada desta gruta se achava huma aranha, a qual era de extraordinaria grandeza, em forma que fazia deficultoza a entrada para tirarem o toiro, e daqui vem o serem as armas desta Villa hum toiro com huma aranha, mas tudo isto não tem mais certeza que huma simples tradição». In André Coelho e Fernanda Olival, ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 3, nº 9, pp. 365 a 370, Memórias Paroquiais de 1758, Universidade de Évora, CIDEHUS, FCTecnologia, 2011.

Cortesia de UÉvora, Cidehus, FCT/JDACT

Memórias Paroquiais. Joana Braga. «Um aviso de 18 de Janeiro de 1758 do Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Sebastião José Carvalho Melo, fazia remeter, através dos principais prelados, e para todos os párocos do reino, os interrogatórios sobre as paróquias…»

Cortesia de ANTT

[…]
O instrumento de descrição da colecção Memórias Paroquiais que se apresenta pretende substituir o antigo ID L 321, fotocópia do volume 44 da própria colecção e que lhe serve de índice.  Esta colecção constitui-se como uma fonte de informação incontornável para a realização de estudos de história local, para agrado da curiosidade de qualquer pessoa, ou para investigações sobre o século XVIII português, nas mais diversas áreas, como sejam a organização administrativa, judicial, ou eclesiástica, a demografia, a geografia, as actividades económicas, etc. A vasta bibliografia onde se estuda esta colecção ou as inúmeras monografias em que são utilizadas as memórias paroquiais para fotografar uma localidade tal como era em 1758, são demonstrativas e convincentes do interesse que estes documentos suscitam. Por ser uma documentação de utilização e requisição constante, desde há largos anos que a sua consulta apenas se efectuava através do recurso a microfilme. Para obter a cota de uma memória paroquial o utilizador tinha de recorrer ao ID L 321, e solicitar o microfilme relativo ao volume onde se encontrava tal memória. Posteriormente, este trabalho foi integrado na base de dados então em uso na Torre do Tombo, fazendo corresponder cada memória paroquial a um documento. A mesma base de dados possuía vários módulos de trabalho interrelacionados, construindo-se do primordial módulo de descrição de documentos uma rede de ligações a outros módulos de descrição e de gestão arquivística, um dos quais era o módulo de autoridades de lugares. Neste módulo de autoridades de lugares foi possível, também em 2005, constituir milhares de autoridades de lugares alimentadas automaticamente da Codificação normalizada do nome dos municípios e freguesias, documento utilizado mormente pelos arquivos distritais, desde a sua primeira versão quando foi produzido pelo Instituto Português de Arquivos. A resolução de utilização máxima das funcionalidades das aplicações informáticas determinou que se estabelecessem ligações entre cada memória paroquial e a respectiva localidade actual, consagrada numa autoridade de lugar. Foram ao todo 4123 as memórias paroquiais constituídas em registos ao nível do documento simples, e apesar das dificuldades inerentes ao facto de terem ocorrido algumas mudanças nas designações das localidades e de nem todas as paróquias que compõem esta colecção estarem representadas nas autoridades de lugares, que foram associadas a pontos de acesso normalizados, neste caso, os nomes das localidades, permitindo um outro tipo de acesso aos documentos. A mudança para uma outra base de dados, durante o ano de 2009, que oferecia outras funcionalidades, ditou a suspensão das autoridades de lugares, e provocou o descaminho desse trabalho de associação. Espera-se que a recuperação da associação memória paroquial com a correspondente freguesia permita potenciar a utilização das mesmas memórias. Até esse ambicionado momento, oferece-se este índice, que, como dito acima, pretende tão só substituir o antigo ID L 321.  No presente índice pode encontrar-se em primeiro lugar a descrição genérica da colecção Memórias Paroquiais, tal como surge no catálogo em linha. De seguida é apresentada a transcrição do Prólogo patente no volume 44 das Memórias Paroquiais, onde se expõem algumas informações e considerações sobre a colecção. As entradas do índice correspondem aos registos descritivos existentes na base de dados, sendo que cada registo equivale a uma memória paroquial. Está apenas registado o nome da localidade, a circunscrição administrativa (comarca ou termo) em que se integrava, e a cota, isto é a indicação da colecção, volume e fólios em que se encontra a memória. Procedeu-se ainda, sempre que possível, a uma nova actualização da grafia do nome das localidades de acordo com as Orientações para a descrição arquivística. Só com o contributo dos utilizadores será possível melhorar o serviço prestado. Qualquer partilha de informação com o Arquivo Nacional da Torre do Tombo é um acto de colaboração e de cidadania activa cujos maiores beneficiários são os nossos utilizadores». Lisboa, Torre do Tombo, Outubro 2014. Joana Braga

«Um aviso de 18 de Janeiro de 1758 do Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, fazia remeter, através dos principais prelados, e para todos os párocos do reino, os interrogatórios sobre as paróquias e povoações pedindo as suas descrições geográficas, demográficas, históricas, económicas, e administrativas, para além da questão dos estragos provocados pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. As respostas deveriam ser remetidas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino.  As respostas ao inquérito terão sido levadas para a Casa de Nossa Senhora das Necessidades, em Lisboa, da Congregação do Oratório, para serem trabalhadas pelo Padre Luís Cardoso (?-1769). O ex-libris existente na maioria dos volumes confirma esta custódia. O índice terá sido elaborado ou concluído no ano de 1832, data que apresenta. Passaram depois para a Biblioteca da Ajuda após a extinção das ordens religiosas, seguindo para o Depósito Geral das Livrarias, no antigo Convento de São Francisco da Cidade, e daí para a Torre do Tombo entre os anos de 1836 e 1838. As datas desta história custodial são incertas, mas encontra-se registado em livro do Ministério do Reino o ofício de 17 de Março de 1843, de D. Manuel de Portugal e Castro (vedor da Casa Real) reclamando como pertencentes à Biblioteca Real os 44 volumes que formam a colecção dos apontamentos para o dicionário geográfico de Portugal, reunidos pelo Pe. Luís Cardoso. Na sequência, surge a Portaria de 21 de Março de 1843 do Ministério do Reino para a Torre do Tombo, inquirindo sobre a existência dessa colecção neste arquivo, para onde tinha sido conduzida pelo Dr. António Nunes de Carvalho (guarda-mor da Torre do Tombo entre 1836 e 1838), retirando-a do Depósito Geral das Livrarias dos extintos conventos. A resposta dada pela Torre do Tombo, a 27 de Março do mesmo ano, confirmou a existência dessa colecção, referindo que não devia sair do arquivo, porque não era propriedade particular, mas sim o resultado de uma diligência que o Governo mandara fazer». In Joana Braga, Memórias Paroquiais, Índice, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, 270.01.03, 1/2014, Lisboa, 2014, ID L 712.

Cortesia de ANTT/JDACT

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Memórias Paroquiais. 1758. Alvito. Transcrição de André Coelho. «… achei, que esta terra e Villa de Alvito, está na provincia do Alemtejo pertence ao arcebispado de Evora, comarca da cidade de Beja, e he propria freguesia»

jdact

Com a devida vénia a Fernanda Olival e André Coelho

Alvito. 2 de Junho de 1758. Memória Paroquial da freguesia de Alvito, comarca de Beja, [ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 3, nº 9, pp. 365 a 370]

[…]
Excelentissimo e Reverendissimo Senhor
Satisfazendo ao que Vossa Excelencia me manda informar em vertude da ordem de Sua Magestade Fidelissima, e respondendo aos quezitos, que nella se contem, achei, que esta terra e Villa de Alvito, está na provincia do Alemtejo pertence ao arcebispado de Evora, comarca da cidade de Beja, e he propria freguezia. He de donatario, que ao prezente he o barão conde dom Jozeph Lobo Silveira. Consta ter dentro da Villa trezentos e noventa fogos ou vizinhos, e fora da Villa no seu termo oitenta não contando a Villa de Agua de Peixes, de que abacho darei noticia, a qual pertence ao governo espiritual desta Villa, e ao temporal do duque de Cadaval com que dentro da Villa nestes vizinhos ou fogos contão se mil cento e vinte pessoas, e fora da Villa trezentas, e sincoenta. Para a parte do Sul, e meyo dia esta situada em hum alto mas não muito eminente della se avistão o lugar de Odivelas em distancia de duas leguas, termo da Villa do Torrão, os lugares de Peraguarda, o de Alfundão cada hum em distancia de duas leguas e ambos termo da cidade de Beja, a Villa de Ferreira em distancia de três leguas, a Aldeya de Frigaches em distancia de duas leguas, a Villa de Bringel em distencia [sic] de tres leguas, a cidade de Beja em distancia de sinco leguas, alguma parte da Aldeya da Cuba em distancia de duas leguas, Villa Ruiva em distancia de meya legua, a Villa de Oriolla de Cima em distancia de duas leguas, e a Villa de Portel em distancia de quatro leguas. Tem termo proprio e para a parte do meyo dia tem duas leguas, e para as outras tem menos, e ha partes, que não chega a meya legua, e nelle não se comprehende aldeya alguma, e so tem a Villa de Agua de Peixes, que pertence ao duque de Cadaval, e tem dezoito fogos na villa e termo; tem quarenta pessoas. Na Villa está o palacio do duque de Cadaval aonde rezide o seu ouvidor, e almoxarife. A paroquia esta no arrabalde da villa, mas junto a ella para a parte do poente, não tem mais lugares, que a Villa de Agua dos Peixes [sic] o seu oragão he Nossa Senhora da Assumpção tem nove altares, o altar mayor de talha dourada; o qual na boca da tribuna tem debacho de hum docel a imagem de Nossa Senhora da Assumpção nas collunas do entalhados [sic] dous ninchos com as imagens de S. João da Mata e S. Feliz de Urebes[?], mas abacho no mesmo entalhado estão duas piannas, nas quaes estão as imagens de S. Pedro Apostolo e Santa Barbara. Da parte de fora do arco da capella mor estão dous altares o da parte do evangelho he de Nossa Senhora da Conceição e tem hum nincho mais alto com a imagem de S. João de Deos e he de talha dourado [sic], o da parte da epistola he de talha mas ainda não está dourado he de S. Chrispim, e S. Chrispiniano, e em sima tem e outro nincho a imagem do Arcanjo S. Miguel. Tem no cruzeiro dous altares colatraes, que ambos são capellas da caza do barão conde o da parte do evangelho tem em pintura as imagens de Santo André Apostolo, e do martir S. Sebastião na ilharga fica hum tumulo de predra com as armas do barão conde, que são sinco lobos, o da parte da epistola tambem em outra pintura o nascimento de Christo, e na ilharga tem outro tumulo com armas, que são seis costas, e duas cruzes. Tem três naves na da parte da epistola tem dous altares o primeiro he de talha dourada com três ninchos no do meyo está Nossa Senhora do Rozario de quem he a capella, e tem duas confrarias huma de brancos, outra de prettos, no nincho da parte direita esta a imagem de Nossa Senhora com ttitulo da Consolação, e no outro nincho a imagem de S. Jozé. O outro altar he pintado na parede, e tem em hum nincho a imagem de Christo crucificado com hũa vidrassa, tem nas ilhargas em ninchos a imagem do Menino Jezus, e a de Nossa Senhora dos Remedios e este altar se chama do Senhor dos Aflitos, e nelle se acha, e esta o sacramento que se divide aos fieis, e ambos estes altares estão em capellas mais dentro da parede, e no meyo delles está huma porta para a rua chamada a Porta do Sol, a qual fica ao meyo dia. Na nave da parte do evangelho tem outros dous altares em conrespondencia da outra nave, o primeiro he dourado, tem tres ninchos o do meyo he de Nossa Senhora com o titulo das Almas, a qual está anexa a Confraria das Almas, tem as imagens do Apostolo S. Thiago, e de S. Luiz Bispo a outra capella de pintada e tem tres ninchos no do meyo está Nossa Senhora do Carmo e tem confraria e nas ilhargas estão as imagens de S. João Baptista, e Santa Thereza nesta capella estão em hum sacrario duas reliquias a do Santo Lenho em huma cruz de prata, e a de S. Chrispim, e S. Chrispiniano tambem em hum reliquario de prata, e no meyo destas duas capellas está outra porta a que chamão a Porta da Sombra, e fica para o Norte»
. In André Coelho e Fernanda Olival, ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 3, nº 9, pp. 365 a 370, Memórias Paroquiais de 1758, Universidade de Évora, CIDEHUS, FCTecnologia, 2011.

Cortesia de UÉvora, Cidehus, FCT/JDACT

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Castelo de Vide: Os seus arredores em 1758, Parte VI. Freguesia de São João Baptista. «Um foi dizendo na vila da Póvoa que a sua igreja era filial de Santa Maria desta vila, sendo da de Sant’ Iago. O outro foi o dizer ser opinião se chamava “Castelo da Vide” por dividir Castela de Portugal…»


jdact

Com a devida vénia a Ruy Ventura, Arquivo do Norte Alentejano
Memórias Paroquiais de Castelo de Vide (Memória nº 222, volume 10, folhas 1461 a 1489)

Castelo de Vide em 1758, (folhas 1461 a 1476)
Notícia da muito sempre leal, nobre, grande e notável vila de Castelo de Vide.

NOTA: Actualizou-se a ortografia e pontuação do documento.
(continuação)

«É praça de armas, fortificação irregular e de mediana força, o recinto grande.
Para a parte do nascente tem o forte de São Roque, que é de quatro baluartes de força mediana.
No alto da vila tem o seu castelo. É talvez o mais grande e formoso que tem toda a raia do reino. Está em um alto dominante, por algumas parte inacessível. É castelo antigo e por fora o fortificaram com fortificação moderna desenhada por Cosmander. Se se aperfeiçoasse, era capaz de resistir a um poderoso exército.

Só padeceu no terramoto ruínas ordinárias.

O padre Carvalho na sua Corografia escreveu com acerto o estado presente e a terra aonde se pode ver o que escuso de referir. Só cometeu dois erros. Um foi dizendo na vila da Póvoa que a sua igreja era filial de Santa Maria desta vila, sendo da de Sant’ Iago. O outro foi o dizer ser opinião se chamava “Castelo da Vide” por dividir Castela de Portugal, sendo isto história apócrifa. As mesmas armas que lhe dá lhe desfazem o seu dito, que é um castelo cercado com uma vide com cachos de ouro, o que lhe vem porque esta vila se chamava só vila da Vide até o tempo de el-rei Dom Dinis, como se vê da doação que el-rei Dom Afonso III ao infante seu filho, na qual lhe dá a vila da Vide, com seu castelo, seus termos e suas pertenças.
A vila é antiquíssima. No tempo dos gentios havia aqui fábrica das ferrarias, que ainda conserva o nome. Ainda estão em pé oito ou nove antas, em que faziam os sacrifícios.
O castelo é antiquíssimo. O poço que tem dentro para se beber em tempo de sítio é de enorme despesa e bem se vê que em país aonde há tantos e tão grandes nascimentos de águas, só se faria aquela obra para defesa do castelo. Chamam ao poço “Alvacá”, nome mourisco. Ou os mouros o fizeram ou, achando-o feito, lhe puseram aquele nome.
No princípio da conquista do reino foi o castelo acometido e raso pela parte do norte, cuja muralha se vê hoje servindo de traseira à cadeia e outras casas. Esta ruína quis concertar o infante Dom Afonso, de que el-rei Dom Dinis seu irmão teve grandes ciúmes e veio pôr sítio a Castelo de Vide. O irmão, o infante, lhe escreveu de Arronches carta, prometendo-lhe que mandaria derrubar tudo o que tinha concertado nos muros e acrescentado na torre. Do que se vê o erro crassíssimo de muitos autores, que dizem que el-rei Dom Dinis povoara esta terra e fizera o castelo. El-rei Dom Afonso o 4º alargou o castelo, como se vê do letreiro que está sobre a porta dele, metendo no seu recinto todo o terreno por foi acometido o castelo velho.
E ficou tão formoso e grande que deu o nome à vila, tomando-o por armas e cercando-o com a vide, aludindo ao nome da antiga vila.
É erro crassíssimo de Duarte Nunes de Leão dizer que esta vila era naquele tempo aldeia, lugar aberto e chão do termo de Marvão. E padeceu este erro porque na explicação que el-rei Dom Afonso III fez à doação que tinha feito por estas palavras “quod est in termino de Marvão”, ali foi o mesmo que dizer “junto a Marvão” para diferençar esta vila da Vide da outra vide da Serra da Estrela, a que bem se vê das palavras da doação feita antes, em que lhe chama vila da Vide com seu castelo e seu termo e suas pertenças. Nem Marvão nesse tempo tinha termo separado, como se vê de sentença pouco depois dada e e sempre Marvão foi terrúncula [sic]». In Ruy Ventura, Memórias Paroquiais de Castelo de Vide.

A amizade de JCarvalho e SBorges/JDACT

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Castelo de Vide: Memórias Paroquiais. Os seus arredores em 1758. Parte V. Freguesia de São João Baptista

Cortesia de portugalbook 

Com a devida vénia a Ruy Ventura, Arquivo do Norte Alentejano.

Memórias Paroquiais de Castelo de Vide (Memória nº 222, volume 10, folhas 1461 a 1489).
Castelo de Vide em 1758, (folhas 1461 a 1476). Notícia da muito sempre leal, nobre, grande e notável vila de Castelo de Vide.

«Tem esta vila feira dia de Santo Amaro e dia de São Lourenço, francas de um só dia cada uma, e mercados todas as quintas-feiras do ano, francos até ao meio-dia.
Tem correio. Sai quarta de manhã e chega sábado à noite. Manda correio a carta do povo, dar e receber as cartas ao correio de Portalegre.
Dista esta vila da cidade de Portalegre, cabeça do bispado, duas léguas. E dista da cidade de Lisboa 34 léguas.

Cortesia de cafeportugal
Tem o privilégio de não sair da Coroa e com tanta restrição que, em foro de consciência, a não pode el-rei dar, porque sendo esta vila das filhas do infante Dom Afonso, quando a venderam a seu tio Dom Dinis, se estipulou no contrato que a vendiam a ele e a seus sucessores, com condição que nunca sairia da Coroa. E el-rei no contrato assim o prometeu. Consta da Monarquia Lusitana.
Tem mais o privilégio dos seus moradores não irem à guerra, salvo acompanhando el-rei em pessoa. E se tem observado na ocasião dos maiores apertos, como se vê no livro do tombo da Câmara.
Tem o privilégio de não pagar portagem e a todos os moradores da vila o privilégio que a Elvas se concedeu, só os que morassem na Corujeira.
Tem também isenção de ter éguas de coudelaria e este é o único que se tem quebrado.

Cortesia de olhares
Há nesta vila a fonte da Mealhada, cuja água é excelente remédio contra as dores nefríticas, a do Manguinhos, para as diarréias». In Ruy Ventura, Memórias Paroquiais de Castelo de Vide .

A amizade de JC e SB
Cortesia de Ruy Ventura/JDACT