Mostrar mensagens com a etiqueta Yolanda Scheuber. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Yolanda Scheuber. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «Povoados de saudades e de sombras, entraram nos meus sonhos, e, apesar de se repetirem com frequência, nunca de forma tão obstinada como se abateram sobre mim naqueles tristes dias…»

jdact

«(…) Bebendo diariamente daqueles ideais, o menino sonhou a partir de então transformar-se no valente rei que todos desejavam que fosse e que levasse o seu país ao esplendor máximo. Em 1557, sua mãe, a princesa Joana, por recomendação do seu confessor Francisco Borja, fundou em Madrid o mosteiro das Clarissas, Nossa Senhora da Consolação, Convento das Descalças Reais, situado no mesmo palácio onde ela nascera e fora baptizada. Ali se recolheu e levou até à morte uma vida dedicada com total entrega ao serviço de Deus. Tristemente, a 7 de Setembro de 1573, partiu para a eternidade. Sebastião não derramou uma única lágrima porque nunca chegou a conhecê-la, apesar de eu, para que a amasse, nunca tivesse deixado de lhe falar dela. Também eu, na intimidade desta casa do Senhor, me sinto mais perto da minha família perdida... Já nem o meu esposo nem os meus nove filhos estão neste mundo, assim como nenhum dos meus irmãos. A eles falo através de Deus quando rezo e a eles me parece ouvir quando leio a sua palavra na Bíblia.
Recordo como se fosse hoje o dia em que transpus os portões deste claustro. Respirava-se aqui dentro uma atmosfera diferente, eram os aromas da paz e da alegria profunda de estar sempre com a mente posta em Deus, afastada do mundo. Aqui sente-se o estado de graça. Tanto a prioresa como o resto das monjas são mulheres piedosas, sinceras e devotas, naturais, verdadeiras..., que nunca deixam de pisar a terra sem cuidar dos pobres e desvalidos. Henrique, o cardeal, reinou em nome de Sebastião até à memorável data de 1568, em que meu neto, com catorze anos, tomou posse efectiva do trono e assumiu os destinos do reino.
O jovem monarca já tem nove anos de reinado pessoal. Dentro de seis dias fará vinte e três anos. Por muito poucos dias de diferença, nunca pudemos celebrar juntos os nossos aniversários. Para que fosse evidente que o meu desejo era viver recolhida dentro deste mosteiro, renunciei a tudo o que era mundano e ordenei que me conduzissem até aqui. A prioresa preparou com agrado uns claustros espaçosos para meu alojamento. Jurei interiormente, ao transpor o umbral, permanecer em clausura e nunca mais voltar a atravessá-lo em vida, a menos que algum funeral familiar o exigisse. Desde a morte do meu esposo, visto o meu corpo de negro e trago o rosto sombreado pela dor, dor que não posso arrancar da minha alma, por ter presenciado a morte de todos os meus filhos... O convento faz parte, desde esse ano, dos muitos lugares que deram acolhimento ao meu corpo e à minha alma ao longo de toda a existência. Nesta solidão em que me encontro, também se filtram habitualmente notícias políticas e, com elas, os meus pesares normalmente crescem.
Não foi por influência de ninguém, mas por decisão própria, que decidi viver e morrer neste sítio. Com ansiedade procurei este ambiente ao ficar sozinha e encarei-o com agrado, como quem aceita a tarefa que tem de realizar até ao último instante sem fazer mais perguntas; entre outras razões porque o desejo fervorosamente, ou talvez por este único motivo. E compreendi por fim, sem que a minha mente talvez o entendesse, que não é preciso lutar contra a solidão quando a velhice bate à porta, porque e um objectivo vão.
Saí do convento, não vos resguardeis dentro dele ou dentro de vós, ouvi muitas vezes dizer a voz da consciência. Não vos protegeis mais. Se escondeis os vossos olhos para que não os magoe o Sol, mais de mil vezes havereis de vos ofuscar com os seus raios. Já é tempo de provardes o vosso próprio remédio, o alívio não vos virá de fora. Podeis procurá-lo, não vos detendes, nem sequer é preciso que vos movais. Tudo está dentro de vós. Foi nos meses em que acabara de chegar ao mosteiro que surgiram os primeiros pesadelos. Povoados de saudades e de sombras, entraram nos meus sonhos, e, apesar de se repetirem com frequência, nunca de forma tão obstinada como se abateram sobre mim naqueles tristes dias de princípios de 1563. Nesses sonhos apenas eu existia. Quero dizer que só me via a mim mesma junto de um labirinto de atalhos que se abriam, confusos, e que me conduziam sempre para o nosso palácio de Sintra, onde já ninguém habitava, ou por vezes para os mesmos aposentos onde eu residira e por cujas janelas penetravam, imperativas, as primeiras escuridões da tarde. À medida que os pesadelos se repetiam, as minhas noites iam-se tornando mais penosas; esforçava-me durante o dia por afastar da mente aqueles pensamentos carregados de preocupações, mas eles, adiados e não mortos, apareciam novamente todas as noites, mostrando-me as imagens esbatidas dos meus filhos». In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «Após várias noites de vigília, pálida e com olheiras, tomei a decisão. A minha sobrinha Maria foi a primeira a sabê-lo. Depois, chamei Sebastião…»

jdact


«(…) O principezinho, alheio a tudo o que à sua volta acontecia, sorriu à mãe quando ela o beijou naquela triste despedida e depois, entre os meus braços, voltou a sorrir-me, talvez intuindo que eu iria tornar-me, a partir daquele dia, sua mãe substituta. Joana partiu,o escondendo o pranto dos olhos sob as dobras de um véu negro e com as mãos sufocou os soluçs. Eu, longe de me consolar com a clara manifestação de inocente carinho de meu neto, desfiz-me em prato sobre o morno peito do pequeno órfão. O principezinho acariciou com os dedos o meu toucado em jeito de terno bálsamo. Ao voltar a olhar para ele, os seus claros olhos trouxeram-me a recordação indelével de meu amado filho recentemente falecido. Durante muitos dias, não pude deixar de pensar na simultaneidade dos nossos destinos. Ambos havíamos perdido os nossos progenitores antes de nascer e, em obediência às ordens dos reinos, éramos obrigados a permanecer onde estávamos, só que eu tinha tido a imensa sorte de continuar ao lado da minha adorada mãe, e ele, a riqueza de gozar de uma liberdade que a nós sempre fora negada.
Depois da morte de meu esposo, recordo que assumi a regência agarrada a ele, com integridade e coragem, como se naquele bem-amado principezinho pudesse abraçar todos os meus filhos mortos. A sua mãe nunca mais o pôde voltar a ver, apenas o viu crescer através dos retratos que todos os anos eu mandava pintar aos retratistas da corte, entre eles o português Cristóvão Morais, enviando-os para Espanha. Ela respondia-lhe com presentes que enviava através de Cristóvão Moura, cavaleiro português que fora para Castela como menino da princesa Joana, quando a princesa regressou de Portugal.
Passado o tempo, a dor e o esgotamento levaram-me a abandonar o palácio, em 1562, procurando o único consolo que podiaencontrar, mais perto de Deus, dentro deste convento. Teria gostado de continuar ao lado de meu neto, de o criar e educar com todo o amor de mãe de que sou capaz, até que atingisse a maioridade, mas quando fez oito anos senti que estava na altura de me afastar. Perdera as forças. As amarguras começavam a vergar-me e a minha vida apenas ressumava resignação e cansaço. Foi então que compreendi que era preciso deixar o caminho livre para que outro ocupasse o meu lugar. Verifiquei que já não me sentia capaz de continuar com a minha tarefa de mãe substituta. Estava na hora de ceder o lugar a outra pessoa mais forte do que eu, que pudesse guiar o principezinho pelo caminho certo da formação, tanto física como espiritual, para que, chegada a altura, fosse um monarca bom, digno e amado pelo povo.
Creio que o conseguiu. O seu ideal de grandeza sempre o levou com verdadeiro entusiasmo a procurar os mais altos valores, aqueles que possam tornar reais os maiores sonhos dos Portugueses. Preparou-se com grande esforço e fervorosa fé cristã e creio que Deus o iluminou e amparou até ao dia de hoje. No entanto, por vezes penso que o seu excessivo idealismo e o seu misticismo lhe podem causar grandes desgostos. A sua decisão de não contrair matrimónio espanta-me e inquieta-me ao mesmo tempo. Não deseja casar-se para que ninguém ou nada influencie a sua preparação como monarca. Treinado na arte da guerra e nas virtudes cavaleirescas, sonhou desde criança com a glória de Portugal, e o reino adora-o tanto como eu. Na solidão deste claustro, devo confessar que foi muito duro para mim afastar-me dele. Mas, acreditem, não tinha forças para continuar, todos temos o nosso tempo para servir os outros, mas o meu esgotou-se.
Após várias noites de vigília, pálida e com olheiras, tomei a decisão. A minha sobrinha Maria foi a primeira a sabê-lo. Depois, chamei Sebastião, fui-lhe dizendo devagar, como um condenado quando se confessa, tentando prolongar o tempo que ainda lhe resta para a sua execução, à procura do perdão. Ambos me compreenderam. Com grande alívio no meu coração, renunciei à tutela do menino em favor do cardeai Henrique e entrei nesta santa casa antes de terminar o ano do Senhor de 1562. Fi-lo, não com a ideia de ser uma monja, mas como forma de me isolar do mundo e de permanecer mais tempo em oração do que em tarefas e esforços. Creio que nesses dias tomei a decisão mais acertada da minha vida. Eram tempos difíceis para o reino e para a minha alma. Em Março, um exército marroquino tomara a praça de Mazagão e o reino, que já vira com tristeza Portugal abandonar, entre 1541 e 1549, as praças de Agadir, Azemur, Safi, Alcácer Ceguer e Arzila no país marroquino, viu no pequeno herdeiro a sua própria salvação». In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «Quando o meu esposo, João III, faleceu, no ano do Senhor de 1557, todos os nossos filhos já tinham morrido. Com apenas três anos e estando sob os meus cuidados, o meu neto Sebastião…»

jdact

«(…) No dia em que decidi entrar nele, as monjas acolheram a minha chegada com imensa alegria, consideraram que era uma grande honra eu as ter preferido. No entanto, a minha corte experimentou um profundo pesar, pois entendeu-o como um abandono da minha parte. E Portugal transformou-se a partir de então no alvo da política imperial dos Habsburgo, ao passar a minha regência, sobre o único herdeiro possível da Casa de Avis, o meu pequeno neto, o rei Sebastião, para o meu cunhado, o cardeal Henrique, irmão do meu esposo. Desejava recolher-me em solidão para rezar. Precisava disso quando tomei a decisão de o fazer e continuo a precisar ainda hoje; ou, por outras palavras, só desejei ser rainha para acompanhar o meu fiel esposo no difícil caminho da governação, mas, ao ficar viúva, não desejava continuar a ser soberana. À minha volta fui tecendo valas de silêncio e oração, e também de reflexão; aquilo a que aspirava era a amarrar-me à alma dos que mais amei e que já não são vivos. Apesar dos possíveis reparos que originava a minha decisão indeclinável de abandonar o mundo para me recolher no mosteiro, fiz saber por todo o reino que renunciava à regência do meu neto. Fazia-o porque já não desejava governar em seu nome, nem me encontrava com as forças necessárias para reger em seu lugar devido à minha idade. O único horizonte dos meus olhos nesses tempos era o convento, como quando era criança, e o único espaço onde se detinha o meu olhar eram os velhos muros de uma fortaleza abandonada.
Quando o meu esposo, João III, faleceu, no ano do Senhor de 1557, todos os nossos filhos já tinham morrido. Com apenas três anos e estando sob os meus cuidados, o meu neto Sebastião herdou o trono lusitano. O pequeno principezinho parecia estar condenado à felicidade e à boa esperança. Nascera a 20 de Janeiro de 1554, sob a protecção de São Sebastião, e, apesar de ter chegado ao mundo dezoito dias depois da morte do pai, o meu querido filho João Manuel, todo o Portugal o considerou um dom do céu, pelo que, para evitar o receio de a Lusitânia acabar por ser um território espanhol, o reino exultante o aclamou como Sebastião, o Desejado.
A sua mãe, a princesa Joana, arquiduquesa de Áustria e infanta de Espanha, era a filha mais nova do meu irmão, o imperador Carlos V que, com a intenção de abdicar do trono, a mandou visitar Espanha com urgência, a 17 de Maio desse ano, deixando o herdeiro aos meus cuidados. A jovem tinha apenas dezanove anos quando assumiu a regência daquele reino, a 12 de Junho de 1554. (Fê-lo porque seu irmão e herdeiro, o príncipe Filipe, viúvo da nossa filha Maria Manuela, tinha de partir para Inglaterra para desposar Maria I. Durante cinco anos, exerceu em seu nome a administração do governo. Amiga pessoal do fundador da Companhia de Jesus, Ignacio Loyola, e de quem fora na minha infância meu pajem em Tordesilhas, Francisco Borja, seu confessor, contou sempre com um apoio incondicional quando teve de assumir a regência.) E, assim, o pequeno infante, sem ter ainda feito quatro meses, teve de ser abandonado pela mãe, pois, ao ser herdeiro legítimo de Portugal, não a pôde acompanhar no seu destino.
Recordo a trágica tarde em que, com lágrimas nos olhos, Joana beijou com ternura, pela última vez, a testa do filho e deixou o menino entre os meus enlutados braços. Obrigada pelas urgências do império, o seu coração partiu-se em dois. A gravidade das circunstâncias encurtou o tempo da despedida. Eu considerei-o um triunfo pessoal do meu irmão e, na tarde em que Joana me anunciou a sua partida, invadiu-me uma profunda dor por ela e pelo menino». In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «Mal passaram uns instantes. A fila de religiosas dirige-se em recolhimento para comungar. O coro enaltece com as suas vozes angelicais um canto seráfico que parece impregnar de santidade todo o convento»

jdact

«(…) Ontem à noite, ao concluir a oração de matinas, pedi autorização à prioresa para passar o dia de hoje a rezar no meu claustro até chegar Maria para me visitar. Receava não me sentir bem porque as emoções por vezes pregam-me partidas, provocando-me desmaios onde quer que me encontre. A prioresa, com a sua bondade infinita, aceitou que me recolhesse no silêncio da minha clausura, donde posso igualmente louvar e adorar a Deus. Agradeci o seu gesto maternal e recordei com tristeza como era assistir a um ofício divino prestes a desmaiar. Não foi necessário fazer muito esforço para o lembrar. Sabia-o de cor, mas, mesmo sabendo-o, recordei como a angústia me ia roubando o ar e me era impossível respirar, como se uma força gigantesca me oprimisse a garganta e me atingisse no estômago, turvando-me o entendimento, e mesma sensação que sabia que a minha mãe experimentava quando sentia que escorregava sem conseguir parar naquele abismo sem fim.
A imagem da minha desolação, experimentara-a na carne com a morte de cada um dos meus filhos. No meio de um louco aturdimento, era obrigada a encabeçar os seus cortejos fúnebres vestida de luto rigoroso. Esmagada, mas erguida, tinha de aparentar força, apesar de por dentro ir morrendo de tristeza à medida que avançava atrás dos seus esquifes. Sem conseguir mexer os pés, fazia um esforço sobre-humano a cada passo para continuar a avançar. Dentro dos meus ouvidos, uma voz monótona e absurda ia-me repetindo até ao cansaço que não me desse por vencida. Nessas provações que me coube viver, parecia-me que a minha vida deixara de ter sentido. Sem saber como, ou talvez porque dentro da minha mente via reflectida a imagem de minha mãe, tirava forças do fundo da minha alma, e à cabeça de toda a minha corte e do meu povo, usando forças que desconhecia e revelando uma coragem que não sentia, tal como se exige a uma rainha, continuava sem claudicar.
Lembro-me de, quando tive de voltar a ser mãe, além de avó do único neto que restava a meu lado, dezoito dias depois de seu pai ter morrido, o meu último filho, ...ou quando, ao morrer meu esposo e ao ficar viúva, tive de assumir com coragem a regência do reino em nome do pequeno herdeiro, para salvar Portugal de voltar a ser, no futuro, um território de Espanha. As minhas recordações não chegam sozinhas, fazem-no acompanhadas de nostalgia. A rapidez com que me invadem deixa a sua marca furtiva. Ainda mais depressa me acometem as emoções que se anunciam depois delas com a urgência do inesperado. A contundência do seu predomínio faz fracassar qualquer possibilidade de indiferença, impedindo-me de as esquecer... De um ponto afastado, contemplo a missa que se está a celebrar. O cónego ergue a santa eucaristia com unção, entre as mãos. Com veneração, ajoelho-me aos pés do meu leito e voo veloz com a mente para o pai consagrado e peço, sobre o meu neto-rei e sobre o reino, a bênção misericordiosa dos céus. As monjas, com as cabeças reclinadas, meditam sobre o mistério divino. E, enquanto continuo a observá-las, soam nos meus ouvidos os pequenos carrilhões que anunciam a consagração do vinho, emudecendo repentinamente tudo.
Mal passaram uns instantes. A fila de religiosas dirige-se em recolhimento para comungar. O coro enaltece com as suas vozes angelicais um canto seráfico que parece impregnar de santidade todo o convento. As monjas regressam em silêncio aos seus genuflexórios. Com a alma alegre, agradeço ter procurado a solidão do Convento de Nossa Senhora da Boa Esperança, cujos claustros servem, além disso, de internato onde vêm recolher-se as clamas e donzelas da nobreza lusitana». In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.
                                                                                                              
Cortesia de CdasLetras/JDACT

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «Espero que em vosso novo lar de Portugal sejais tratada como merece vossa bondosa juventude. Embora os acordos assumidos pelos reinos exijam obrigações…»

jdact

«(…) Estimulada pela data do meu aniversário, que atrai ao meu coração alvoroçado agitações e angústias, recordo a primeira vez que os meus olhos descobriram uma rosa: foi em Portugal, naquela Primavera depois dos meus esponsais. Nunca havia visto flores tão delicadas. Magnólias, rosas e jasmins de deliciosos aromas elevaram o meu espanto adormecido, durante tantos anos oprimido em Tordesilhas. Habituada à simplicidade das flores silvestres, sem graça e singelas que se moviam ao ritmo do vento sobre os solitários campos que rodeavam o castelo, os meus olhos deleitaram-se ao descobrir aqueles extensos jardins, salpicados de verdes labirintos e de graciosas fontes de águas saltitantes que refrescavam as quentes manhãs portuguesas. Não imaginam quanto me custou aprender o nome de tantas flores e árvores desconhecidos, catalogados por folhas, pétalas e estames. Nos meus primeiros dias de rainha portuguesa, considerava um problema imenso tudo o que tinha de aprender depressa para me poder comportar com graça e desenvoltura. A tudo dispensava a minha atenção total, por considerar o preço de ter sido escolhida como rainha consorte deste reino. A primeira tarefa foi aprender rapidamente a língua, algo que não me custou muito em virtude da semelhança das suas palavras com o espanhol. Recordei a urgência de solicitar conselhos à minha irmã Leonor para preservar a autoridade sobre os membros da corte. As suas orientações motivaram-me a continuar pelo caminho que havia começado a percorrer com serenidade e confiança, porque considerava que os dois sentimentos me levariam pelo caminho seguro da estima e da amabilidade.

Queridíssima Catarina, muito saudosa irmã:
Espero que em vosso novo lar de Portugal sejais tratada como merece vossa bondosa juventude. Embora os acordos assumidos pelos reinos exijam obrigações, desejo que a vossa boda traga a vosso coração uma felicidade sem par… Escrevei-me… Recebei um forte abraço,
Leonor

Aquela carta manteve-me absorta durante horas, mas o redobrar dos sinos volta a afastar-me das minhas meditações e, com a inocente curiosidade de uma noviça, observo através da janela. Daqui consigo ver o perfil airoso do campanário com as suas soalhas a repicarem da torre e as pombas a revoltearem à sua volta. Pela galeria alta em penumbras vejo afastarem-se as monjas, a caminho do ofício divino. Mais do que a primeira oração matinal, parece um quadro animado que avisto do meu claustro, como se fosse um entretenimento que me pode distrair dos meus melancólicos pensamentos. A prioresa, encabeçando a silenciosa procissão, dir-se-ia ensimesmada naquele impenetrável silêncio, como se revisse mentalmente a leitura bíblica do dia ou as intenções do ofertório. Atrás dela seguem todas as religiosas do convento por ordem de idades, com o semblante amável e sereno, pensando talvez na adoração ao Santíssimo que farão de joelhos logo que passem o umbral do recinto sagrado. Imagino o sacerdote de pé, frente ao sacrário, esperando-as para a adoração. Umas atrás das outras, vão-se ajoelhando nos genuflexórios frente às cadeiras do coro. Da minha janela, observo o duplo portal da igreja, aberto de par em par, donde consigo ver o perfil perfeito dos seus hábitos negros e os seus rostos iluminados pelo fulgor vermelho das velas. Como se um raio de luz divina tivesse aberto caminho no céu, um brilho penetrante pousa em cada uma delas, convidando-as à santidade. Todas admiram a sua prioresa, por isso tentam imitá-la. Ela é fervorosa, devota e alegre, propõe-lhes um acordo lindo com Deus e a prática constante da oração rodeada por trabalhos fecundos que façam avançar a economia do mosteiro, bem como práticas e tradições que agradem a Deus através da caridade, da obediência, da pobreza, da castidade e da penitência...» In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.
                   
Cortesia de CdasLetras/JDACT

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «Hoje, desde que a alvorada se anunciou silenciosa sobre um céu cinzento de chumbo e que o dia avançou com preguiça, tentando libertar os seus raios de luz…»

jdact

«(…) Todas as manhãs, quando me levanto, vou pressurosa pelo caminho da galeria alta para os ofícios religiosos da sua bela capela, mas nunca vivi nele um dia igual a este. Será talvez a nostalgia dos anos. Quanto mais avanço na velhice, mais recordo o tempo da infância, esse período claro da minha vida em que não sentia desamparo porque tudo estava nas mãos de minha mãe. ... O que teria sido de mim sem ela?, pergunto-me hoje com a mesma incerteza com que ela mo perguntava então. Ela dizia-me que não teria sabido o que fazer se eu não tivesse nascido e fazia votos para seguir os passos de meu pai, e sei que eu também não poderia ter resistido à minha vida sem o seu constante apoio e a sua presença, pois a companhia de minha mãe também substituiu a de meu pai. O que teria sido de mim sem ela, se nunca pude conhecer meu pai... Nem conseguia imaginá-lo galhardo e alegre como todos afirmavam que era. Não conseguia imaginá-lo criança de olhos ternos e amendoados como era o meu irmão Fernando, nem ver o seu cabelo emaranhado. Não conseguia avistá-lo erguido no seu cavalo, elegante e airoso, porque o imaginava sempre morto, dentro do seu caixão fechado. Cheirando a fragrante incenso e a cera das velas consumidas juntamente com o fumo resinoso das tochas. Não me impressionava nessa altura que se tivesse determinado que seu corpo fosse enterrado em Espanha e que o seu coração fosse enviado para a Flandres num cofre de ouro forrado a veludo, escoltado por uma procissão de flamengos, o que me angustiava era já não estar ao nosso lado, nunca poder vir a conhecê-lo ou abraçá-lo.
Hoje, desde que a alvorada se anunciou silenciosa sobre um céu cinzento de chumbo e que o dia avançou com preguiça, tentando libertar os seus raios de luz por entre as fendas das nuvens, o esplendor das velas foi-se apagando mansamente, consumido pelas horas. Essas horas implacáveis que não param diante de muros ou distâncias e que chegam, presunçosas, para cumprir com os prazos que assinalam o fim de cada coisa. Esses prazos que se agitam no nosso coração ao evocar recordações longínquas, aqueles dias que já foram e já não são, avisando-nos, ao ritmo inalterável de um relógio próximo, a sua decisiva chegada e a sua inadiável partida. Ainda nem chegaram e já têm de se ir embora, e assim continuam numa interminável e incansável procura de um presente que, logo que se aflora, se transforma em passado.
Só possuo este minuto, nem os que passaram nem os que hão de vir serão meus. Noto que o tempo corre depressa, com o único intuito de me acordar, de me fazer notar com toda a sua crueza que me encontro de passagem/ que estou limitada a um determinado tempo, em que terei de viver pela graça que o destino me conceder. E assim, como a abençoada chuva do Inverno que molha lentamente a horta e os jardins, a minha memória detém-se em cada vivência, sem que possa evitá-lo, recaindo sobre os momentos importantes da minha vida, recordando-os. Vida pela qual peregrinei até chegar hoje ao lugar onde me encontro, através de caminhos desconhecidos, marcados pelos contrastes mais extremos que foram gravando na minha alma os matizes mais intensos dos prazeres e das dores.
As luzes da madrugada surpreenderam-me acordada, enquanto lamentava a falta dos meus entes mais queridos. Abertos os olhos e sem conseguir conciliar o sono, contemplei sem cansaço o lavrado do tecto, firmemente esculpido em carvalho claro, em cada quadrilátero perfeito, uma rosa inclina-se para mim prestes a soltar-se do caule, e é tal o realismo das suas formas que, ao observar o conjunto de baixo, me parece detectar um ramo imenso que espalha o seu perfume pelos ares». In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.
                   
Cortesia de CdasLetras/JDACT

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «O reino ardia em discórdias. Meu avô, o rei de Aragão, Fernando, o Católico, e o arcebispo Cisneros eram quem conduzia as rédeas do poder em Castela»

jdact

«(…) Tento deixar para trás essa memória e, enxugando as lágrimas, vislumbro, sob as abóbadas sumptuosas da sala, pendurados das paredes caiadas, alguns panos de ouro da minha mãe que representam a vida e a coroação da Virgem, mas os meus olhos, carregados de pranto, não conseguem olhá-los. Na minha alma, guardo apenas boas recordações dela... Graças ao muro invisível erigido, pelo seu carinho, à minha volta, consegui suportar o meu triste destino de infanta de Espanha e, graças à minha precoce presença, costumava recordar-mo com frequência, ela conseguiu resistir ao sofrimento causado pela morte de meu pai.
Recordo-a como uma imagem viva da desolação. Sempre vestida de negro e com o pensamento alheado pela presença impalpável e perpétua do seu eternamente jovem esposo morto. A desdita e o desconsolo que arrastava consigo eram duas asas de chumbo que a impediam de levantar voo. A sua viuvez aos vinte e sete anos roubara-lhe as rédeas da alegria. Da sua boca já não saía o riso fresco e espontâneo que tanto seduzia meu pai quando era uma despreocupada arquiduquesa na corte de Borgonha. Em Tordesilhas, sentia que meu avô a tinha amordaçado, humilhado, esquecido, e parecia afundar-se a pouco e pouco num abismo que a ia esmagando cada vez mais fundo. Apenas com serenidade conseguia dominar aquela sensação estranha que a embargava. Era como se uma mão invisível a empurrasse involuntariamente para o fundo e, sem conseguir libertar-se dela, fosse caindo sem poder parar.
Absorta na sua dor e esmagada pelas incontáveis dívidas que meu pai lhe havia deixado, o desassossego encarregava-se de que não tivesse paz. Quando Filipe de Habsburgo morreu, as arcas reais estavam vazias e, face à grave situação, o seu séquito flamengo reclamou o pagamento dos salários em dívida há seis meses. Aqueles nobres tinham o firme propósito de regressar à sua terra, mas, pressentindo as dificuldades económicas que minha mãe teria em resolver as suas dificuldades pecuniárias, os ilustres flamengos, entre os quais se encontravam o conde de Nassau e Floris van Egmont, duque de Borgonha, o conde de Büren e Leederman, o senhor de Ijsselstein e de San Maartensdilk, embarcaram no porto de Bilbau, levando apressadamente consigo os principais pertences e os maiores tesouros do património de meu pai. O resto, o que ficou em Espanha, foi roubado, dividido e malbaratado pela outra parte do cortejo, que, desejoso de obter o dinheiro necessário para regressar à Flandres, concluiu a obra de despojamento.
Tudo quanto pertencia a meu pai foi usurpado. Para a minha mãe e para nós, seus filhos, não deixaram nada, nenhuma recordação visível de que nos pudéssemos comprazer ao chorá-lo, as suas jóias, os seus luxuosos trajes, a sua baixela de ouro e prata, os seus móveis, as suas tapeçarias... Tudo desapareceu. Restou apenas o seu corpo embalsamado, e, perante o receio de que aqueles flamengos também o profanassem, minha mãe mandou instalar à volta do féretro uma escolta permanente, vinte e quatro horas por dia.
O reino ardia em discórdias. Meu avô, o rei de Aragão, Fernando, o Católico, e o arcebispo Cisneros eram quem conduzia as rédeas do poder em Castela. Impunham a sua vontade e manuseavam arbitrariamente as potestades de minha mãe, enquanto ela, angustiada pelo peso insondável da solidão, dava cumprimento à última promessa, feita de joelhos frente ao leito de meu pai moribundo, de levar o seu amado corpo para as terras do Sul para o enterrar em Granada. Todas estas recordações sucederam há já muitos anos e, embora tenha passado muito tempo e hoje me encontre nas verdes terras de Portugal, nunca as pude esquecer. Um ventinho frio entra pela janela entreaberta e acaricia-me o rosto, tal como o fazia em Tordesilhas, quando, empoleirada atrás das grades, via passar o Douro rumorejando por entre os álamos. Hoje faço setenta anos e há quase três lustros que me encontro recolhida por minha própria vontade neste mosteiro». In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Catarina de Habsburgo. Rainha de Portugal. Yolanda Scheuber. «Era espantoso, o mesmo silêncio de madrugada, os mesmos repiques, o mesmo hábito negro. Se não fossem os cinquenta e dois anos que me separam daquele inesquecível solar»

jdact

«Como uma premonição, o nome de Tordesilhas inscreveu certeiramente na alma de Catarina de Habsburgo, a última das filhas da rainha Joana I de Castela, a Louca, e do rei Filipe de Habsburgo, o Belo, uma marca indelével. Condenada a cumprir por obrigação, nos anos mais luminosos da sua infância e juventude, uma clausura ingrata ao lado da mãe, o destino acumulou sobre ela dores que poderiam considerar-se insuportáveis, mas a abnegação, a humildade e a prudência assistiram-na no caminho da vida, sem que nunca se desse por vencida.
A infanta nasceu em Torquemada, no ano do Senhor de 1507, quatro meses depois da morte do pai. Desde o próprio dia do seu nascimento e até fazer dois anos, a pobre foi destinada a acompanhar a enlutada mãe num triste peregrinar pelos caminhos castelhanos, levando como cortejo fúnebre o corpo inerte do progenitor, que, por disposição testamentária, pedira para ser enterrado em Granada. Viajando durante a noite, sob as estrelas, e recolhendo-se durante o dia, para evitar a luz do Sol, a mãe procurava protegê-la da peste e da reclusão. Rapidamente os olhos da princesa se habituaram às sombras, à eterna companhia de um cortejo sombrio rodeado por archotes acesos e por um féretro que arrecadava os despojos daquele que fora em vida seu pai, o arquiduque de Áustria, Filipe, o Belo.
Por ordem do avô, Fernando, o Católico, mal fez dois anos, foi encerrada com a mãe, que adorava, no desolado castelo de Tordesilhas. Perdeu tristemente a sua infância e adolescência ao ser privada da liberdade e, em determinados períodos, até lhes foi proibida a comunicação uma com a outra. Quando chegou à idade de compreender, vendo a mãe sofrer tanto, pediu ao irmão, o imperador Carlos V que as libertasse de tão terrível e injusto isolamento. Mas tudo foi em vão. Viveu encarcerada com ela até aos dezoito anos, data em que, por ordem imperial, saiu do indigno encerramento para desposar o primo, o rei João III de Portugal.
As suas núpcias pareciam tê-la amparado no seu ingrato destino, mas não conseguiram protegê-la das grandes tristezas que a vida ainda lhe reservava. Todo o seu existir foi agitado pelas contradições. Conheceu a pobreza mais extrema e a mais assombrosa riqueza; o feliz amor de um esposo apaixonado e o calvário das mortes dos seus nove filhos, mas nunca nada nem ninguém conseguiu vergar a sua fé inquebrantável, que a ajudou a superar as dores mais extremas com profunda e serena valentia.
Foi urna rainha modesta, simples e prudente, virtudes herdadas da mãe, que a acompanharam durante toda a vida, fazendo dela uma mulher admirável. Os anos em Tordesilhas não passaram em vão para ela. E é esse desamparo perante o destino que hoje a transforma num paradigma válido para todas as mulheres». In Salta, Argentina, a 29 de Março de 2011                                                                                                      
Convento da Nossa Senhora da Boa Esperança
Lisboa, 14 de Janeiro do ano do Senhor de 1577
«Conseguia ouvir o repicar prudente e melodioso das laudes, mas não conseguia ver para 1á do livro de horas que tinha entre as mãos. As lágrimas turvavam-me o olhar, uma inesperada calma entre cada chamada envolvia o ar e, como um vislumbre dos prazeres esquecidos, parecia-me agradável aos ouvidos o toque musical dos sinos. Talvez porque a sua diáfana cadência me recordava os de Santa Clara, deitando por terra os céus de Tordesilhas, convocando às orações... Era espantoso, o mesmo silêncio de madrugada, os mesmos repiques, o mesmo hábito negro. Se não fossem os cinquenta e dois anos que me separam daquele inesquecível solar, poderia dizer que estava ali, junto de minha mãe, a escassos dias de realizar o meu último aniversário em terras de Castela. Essa Castela ressequida e poeirenta, esquecida pela mão de Deus, como nós. Quando me afastei para sempre da sua companhia, ainda me faltavam cinco dias para fazer dezoito anos e levava na alma, ligadas nas mesmas proporções, as angústias e as alegrias». In Yolanda Scheuber, Catarina de Habsburgo, Rainha de Portugal, Ediciones Nowtilus, 2011, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2013, ISBN 978-972-462-077-0.

Cortesia de CdasLetras/JDACT