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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Frida. Biografia. Hayden Herrera. «Fui amamentada por uma ama indígena, cujos peitos eram lavados todas as vezes que me dava de mamar, contou, orgulhosa, a uma amiga»

Cortesia de wikipedia e jdact

Infância em Coyoacán
«(…) Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, terceira filha de Guillermo e Matilde Kahlo, nasceu em 6 de Julho de 1907, às oito e meia da manhã, em plena estação das chuvas de Verão, quando o alto planalto da Cidade do México fica abafado e húmido. Os primeiros dois nomes foram dados a Frida para que ela pudesse ser baptizada com um nome cristão. O seu terceiro nome, o que a família usava, significa paz em alemão (embora na sua certidão de nascimento conste a grafia Frida, o nome da pintora foi escrito com um e Frieda à moda alemã, até ao final da década de 1930, quando ela abandonou a letra por causa da ascensão do nazismo na Alemanha). Pouco depois do nascimento de Frida, sua mãe caiu doente e durante certo período a menina foi amamentada por uma ama-de-leite indígena. Fui amamentada por uma ama indígena, cujos peitos eram lavados todas as vezes que me dava de mamar, contou, orgulhosa, a uma amiga. Anos depois, quando o facto de ter sido alimentada pelo leite de uma nativa passou a ser crucial para ela, Frida pintou uma tela em que a ama-de-leite aparece como a personificação da sua herança mexicana, a artista, com as feições de adulta e corpo de recém-nascida, aparece no colo da nutriz, mamando no seu seio.
Talvez em virtude da saúde de Matilde Kahlo, ao aproximar-se da meia-idade, ela começou a sofrer desmaios ou ataques, parecidos aos do marido, ou talvez por causa do seu temperamento, Frida e a irmã mais nova, Cristina, eram entregues aos cuidados das irmãs mais velhas, Matilde e Adriana, e, sempre que estavam em casa, das suas meias-irmãs María Luisa e Margarita, que tinham sido mandadas para um convento quando seu pai Guillermo se casou de novo.
Três anos após o nascimento de Frida, eclodiu a Revolução Mexicana, movimento armado que começou com motins em várias partes do país e com a formação de exércitos de guerrilheiros em Chihuahua (sob a liderança de Pascual Orozco e Pancho Villa) e em Morelos (sob o comando de Emiliano Zapata); os conflitos e focos de revolta se estenderiam por dez anos. Em Maio de 1911, caiu o antigo ditador, Porfirio Díaz, que partiu para o exílio. O líder revolucionário Francisco Madero foi eleito presidente do país em Outubro de 1912, mas em Fevereiro de 1913, depois da Dezena Trágica, etapa de dez dias de combates em que tropas antagónicas no Palácio Nacional e na Ciudadela bombardearam-se mutuamente, causando tremenda destruição e mortandade, Madero foi traído pelo general Victoriano Huerta e assassinado. No norte, Venustiano Carranza insurgiu-se para vingar a morte de Madero. Adoptando o título de Primeiro Chefe do Exército Constitucionalista e contando com um pequeno contingente à sua disposição, lutou para derrubar Huerta. A cruel disputa de poder e o inevitável derramamento de sangue só cessariam com a posse do presidente Álvaro Obregón, um dos generais de Carranza, em Novembro de 1920.
No seu diário, escrito na sua última década de vida e hoje em exibição no museu que leva seu nome, Frida lembra, com orgulho, e, segundo muitos suspeitam, com considerável dose de licença poética, ter testemunhado batalhas entre exércitos revolucionários na Cidade do México.

Lembro que eu tinha quatro anos [na verdade, ela tinha cinco], quando se deu a dezena trágica. Testemunhei com meus próprios olhos a batalha dos camponeses de Zapata contra os carrancistas. Minha situação era muito clara. Minha mãe abria as janelas na rua Allende. Ela dava acesso aos zapatistas, de modo que os feridos e famintos entrassem pelas janelas na minha casa, na sala de estar. Ela cuidava dos ferimentos e os alimentava com grossas tortillas, a única comida que se conseguia arranjar em Coyoacán naqueles dias [...] Éramos quatro irmãs: Matita, Adri, eu (Frida) e Cristi, a gordinha. [...] Em 1914, as balas passavam zunindo. Ainda hoje ouço aquele som sibilante extraordinário. No tianguis [mercado] de Coyoacán, a propaganda a favor de Zapata era feita com corridos [baladas revolucionárias] editados pelo [gravurista e desenhista José Guadalupe] Posada. Na sexta-feira, essas baladas custavam um centavo cada; escondidas dentro de um enorme guarda-roupa que cheirava a nogueira, Cristi e eu as cantávamos, enquanto meu pai e minha mãe ficavam atentos para que não caíssemos nas mãos dos guerrilheiros. Lembro de um carrancista ferido correndo para o seu baluarte perto do rio de Coyoacán. Da janela espiei também um zapatista com um ferimento de bala no joelho, agachado e calçando as sandálias [aqui Frida faz esboços do carrancista e do zapatista]». In Hayden Herrera, Frida, A Biografia, 1983, tradução de Renato Marques, Editora Globo, 2011, ISBN 978-852-505-353-4.

Cortesia de EGlobo/JDACT

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Frida. Biografia. Hayden Herrera. «Em 1936, Frida retratou o seu lugar de nascimento e a sua árvore genealógica na deliciosamente estranha e extravagante pintura Meus avós, meus pais e eu»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Casa Azul na rua Londres
«(…) De facto, Limantour escolheu bem: Guillermo Kahlo era um técnico obstinado, com um ponto de vista teimosamente objectivo acerca daquilo que via; nas suas fotografias, assim como nas pinturas da sua filha, não há lugar para truques, efeitos nem ofuscações românticas. Ele tentava transmitir o máximo possível de informações sobre a estrutura arquitectónica do lugar que registava com suas lentes, seleccionando cuidadosamente o seu ponto de observação e usando luz e sombra para delinear a forma. Um anúncio publicitário do seu trabalho, impresso em inglês e espanhol, prometia: Guillermo Kahlo, especialista em paisagens, edificações, interiores, fábricas etc., tira fotografias sob encomenda na capital ou em qualquer outro lugar da República. Embora ocasionalmente fizesse belos retratos de membros do governo Díaz e da sua própria família, ele afirmava não querer fotografar pessoas, pois não desejava melhorar o que Deus criara feio. Difícil afirmar se Guillermo tinha consciência do humor contido numa frase como essa, mas, quando os contemporâneos de Frida fazem referência ao pai da artista, quase sempre é das suas declarações que eles se lembram, e em geral são máximas a um só tempo directas, sardónicas, e, de maneira maravilhosamente fria e nem um pouco emotiva ou sentimental, engraçadas.
Isso não quer dizer que o pai de Frida fosse um homem alegre, de coração leve. Pelo contrário, era homem de poucas palavras, cujos silêncios tinham uma poderosa ressonância, e envolto numa aura de amargura. Ele jamais se sentiu realmente à vontade no México e, embora ansiasse por ser aceito como mexicano, nunca perdeu o forte sotaque alemão. Com o passar dos anos, foi se ensimesmando cada vez mais. Frida se recordava de que o pai tinha apenas dois amigos. Um era um velho largote [homem alto], que sempre deixava o chapéu em cima do armário. Meu pai e o velho passavam horas tomando café e jogando xadrez. Em 1936, Frida retratou o seu lugar de nascimento e a sua árvore genealógica na deliciosamente estranha e extravagante pintura Meus avós, meus pais e eu. Ali ela aparece como uma menininha (dizia ter por volta de dois anos de idade), nua, calma e controlada, de pé no pátio da sua casa azul; a sua cadeirinha está a seus pés, e ela segura uma fita vermelha, o seu sangue, que escora a árvore genealógica com a mesma facilidade de um balão preso a um barbante. O retrato dos pais é baseado n sua fotografia de casamento, em que o casal flutua no céu feito dois anjos, emoldurados por uma auréola de nuvens. Essa antiquada convenção fotográfica deve ter agradado a Frida: na sua tela, ela aninha o retrato dos avós em nuvens semelhantes. Os avós maternos de Frida, o índio Antonio Calderón e a gachupina (de origem espanhola) Isabel González y González, estão situados acima da mãe da pintora. Do lado paterno há um casal europeu, Jakob Heinrich Kahlo e Henriette Kaufmann Kahlo. Acerca da característica física mais notável de Frida não pode pairar dúvida: ela herdou da avó paterna as sobrancelhas espessas e unidas. A pintora dizia ser fisicamente parecida tanto com o pai como com a mãe: tenho os olhos do meu pai e o corpo da minha mãe. Na tela em questão, Guillermo Kahlo tem um olhar inquieto, penetrante, o mesmo olhar que, em toda a sua intensidade perturbadora, apareceria novamente nos olhos da sua filha.
Frida copiou fielmente da fotografia original cada prega, cada dobra, cada costura e cada laço do vestido de casamento da mãe, criando um jocoso realce para o feto cor-de-rosa, já bastante desenvolvido, que ela situou na virginal bainha branca. O feto é Frida; o facto de que pode também ser uma referência à possibilidade de que sua mãe já estava grávida quando se casou é uma ilustração do típico prazer que Frida sentia pelos múltiplos significados. Abaixo do feto há um falso retrato de casamento: um enorme espermatozoide, seguido por um cardume de competidores menores, penetra um óvulo: Frida no momento da concepção. Ao lado, outra cena de fecundação: um cacto carmesim, em formato de U, abrindo-se para receber o pólen carregado pelo vento.
Frida situa a sua casa não no subúrbio, mas na planície salpicada de cactos do platô central mexicano. À distância se estendem montanhas rasgadas por ravinas, invariavelmente a mesma paisagem dos seus autorretratos; logo abaixo da imagem de seus avós paternos vê-se o oceano. Os avós mexicanos são simbolizados pela terra, Frida explicou; os avós alemães, pelo mar. Contíguo à casa da família Kahlo, há um humilde lar mexicano; além, num campo, vê-se uma habitação ainda mais primitiva, uma choça indígena de adobe. Numa visão infantil, a artista incluiu todo o distrito de Coyoacán na sua própria casa, e depois apartou-a da realidade, num ermo. A sensação é que Frida está de pé no meio da casa, no meio do México, no meio do mundo». In Hayden Herrera, Frida, A Biografia, 1983, tradução de Renato Marques, Editora Globo, 2011, ISBN 978-852-505-353-4.

Cortesia de EGlobo/JDACT

Frida. Biografia. Hayden Herrera. «Aos 24 anos, Matilde, que havia muito já passara da idade usual do casamento, talvez estivesse particularmente susceptível depois de um caso amoroso anterior, de desfecho trágico»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Casa Azul na rua Londres
«(…) Ele chegou à Cidade do México quase sem dinheiro. Por meio de contactos com outros imigrantes alemães, arranjou emprego como caixeiro na Cristalería Loeb, loja de artigos de cristal. Depois, foi vendedor numa livraria. Por fim, trabalhou numa joalharia chamada La Perla, de propriedade de conterrâneos seus, alemães com quem ele tinha viajado para o México. Em 1894, Guillermo casou-se com uma mexicana que morreu quatro anos depois, ao dar à luz a segunda filha do casal. Depois apaixonou-se por Matilde Calderón, colega de trabalho na joalharia La Perla. A própria Frida contou assim a história: na noite em que a sua mulher morreu, meu pai chamou minha avó Isabel, que chegou trazendo minha mãe. Minha mãe e meu pai trabalhavam juntos. Ele se apaixonou profundamente por ela, e depois os dois acabaram casando. Não é difícil imaginar porque Guillermo amava Matilde Calderón. Fotografias dela na época do casamento mostram uma mulher impressionantemente bonita, com enormes olhos pretos, lábios carnudos e queixo resoluto. Ela parecia um sininho de Oaxaca, definiu Frida certa vez. Quando ia ao mercado, ela apertava bem a cinta, marcando graciosamente a cintura, e carregava a cesta com ar coquete. Nascida em Oaxaca, Matilde Calderón y González era a mais velha de doze filhos de Isabel González y González, criada em convento e filha de um general espanhol, e Antonio Calderón, fotógrafo de ascendência indígena nascido na cidade mexicana de Morelia. De acordo com Frida, a sua mãe era inteligente, embora analfabeta: o que lhe faltava em educação formal ela compensava em devoção religiosa.
É um pouco mais difícil imaginar por que a devota Matilde Calderón se encantou por Guillermo. O imigrante de 26 anos era judeu de nascimento, ateu por convicção, e sofria de epilepsia. Por outro lado, a pele clara e a educação europeia devem ter tido certo apelo, numa época em que qualquer coisa que vinha da Europa era considerada superior a tudo que fosse mexicano. Além disso, ele era inteligente, trabalhador e bastante bonito, apesar das enormes e proeminentes orelhas. Tinha cabelos castanhos crespos, uma boca formosa e delicada, um bigodinho de pontas finas viradas para cima e um corpo esbelto e ágil, ele era muito interessante e, quando caminhava, movia o corpo de maneira elegante, disse Frida. Se o seu olhar era um pouco intenso demais, e com o passar dos anos os seus enormes olhos castanhos ficariam cada vez mais inquietos, era também um olhar romântico.
Aos 24 anos, Matilde, que havia muito já passara da idade usual do casamento, talvez estivesse particularmente susceptível depois de um caso amoroso anterior, de desfecho trágico. Frida se lembrava de que, quando tinha onze anos de idade, a mãe mostrou-lhe um caderno de capa em couro russo em que ela guardava as cartas do seu primeiro namorado. Na última página, o caderno dizia que o remetente das cartas, um jovem alemão, se suicidara na presença dela. Esse homem continuava vivo na lembrança dela. É natural que a jovem mulher se sentisse atraída por outro alemão, e, se não amava Guillermo, Frida dizia que não, Matilde pelo menos achava que encontrara um bom partido. Foi Matilde Calderón de Kahlo quem convenceu o marido a seguir a carreira de fotógrafo, profissão do pai dela. Frida disse que o avô emprestou uma câmara a Guillermo e que a primeira coisa que os dois fizeram foi viajar pelo país. Eles produziram uma colecção de fotos da arquitectura indígena e colonial e voltaram para abrir a sua primeira loja, na avenida 16 de Septiembre.
As fotografias foram encomendadas por José Ives Limantour, secretário do Tesouro do ditador Porfirio Díaz, e ilustrariam uma série de publicações de luxo, em formato grande, para a celebração do centenário da independência mexicana. A empreitada levou quatro anos para ser concluída. De 1904 a 1908, usando excelentes câmaras alemãs e mais de novecentas placas de vidro que ele mesmo preparava, Guillermo registou a herança cultural do México e fez por merecer o elogioso epíteto de o primeiro fotógrafo oficial do património cultural do México». In Hayden Herrera, Frida, A Biografia, 1983, tradução de Renato Marques, Editora Globo, 2011, ISBN 978-852-505-353-4.

Cortesia de EGlobo/JDACT

Frida. Biografia. Hayden Herrera. «Quando Frida nasceu, a casa de Coyoacán tinha apenas três anos de existência. Seu pai a construíra em 1904, num pequeno pedaço de terra por ele adquirido quando a fazenda El Carmen…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Casa Azul na rua Londres
«(…) A história de Frida Kahlo começa e termina no mesmo lugar. Vista do lado de fora, a casa na esquina das ruas Londres e Allende é muito parecida com outras casas em Coyoacán, antigo distrito residencial nos arredores da periferia sudoeste da Cidade do México. Estrutura de um único andar em estuque, paredes pintadas num vivo tom de azul e alentadas por janelões quadriculados, venezianas verdes e a incansável sombra das árvores, exibe o nome Museo Frida Kahlo sobre o portal. Do lado de dentro, um dos lugares mais extraordinários do México, a casa de uma mulher, com todas as suas pinturas e pertences, convertida em museu.
A entrada é guardada por dois gigantescos bonecos de Judas em papel machê, figuras de quase seis metros de altura gesticulando entre si como se entretidas conversando. Passando por elas, o visitante entra num jardim com plantas tropicais, fontes e uma pequena pirâmide enfeitada com ídolos pré-colombianos. O interior da casa é notável pela sensação de que a presença dos seus antigos moradores anima todos os objectos e quadros em exibição. Ali estão a paleta e os pincéis de Frida, como se ela tivesse acabado de pousá-los sobre a mesa de trabalho. Ali, junto à cama, estão o chapéu Stetson de Diego Rivera, seus macacões e as suas enormes botinas de minerador. No canto, ao lado da enorme cama de cuja janela se avistam as ruas Londres e Allende, há um armário com portas de vidro que guarda o colorido traje típico da região de Tehuantepec usado por Frida. Em cima do armário, as palavras Aquí nació Frida Kahlo el día 7 de julio de 1910 (Aqui nasceu Frida Kahlo, no dia 7 de Julho de 1910), inscritas quatro anos depois da morte da artista, quando a casa se tornou um museu público. Outra inscrição adorna a parede vermelha e azul do pátio: Frida y Diego vivieron en esta casa 1929-1954 (Frida e Diego viveram nesta casa 1929-1954). Ah!, pensa o visitante. Que circunscrição precisa! Aqui estão os três factos mais importantes da vida de Frida Kahlo, o seu nascimento, seu casamento e sua morte.
O único problema é que nenhuma das inscrições é exactamente verdadeira. A rigor, conforme atesta a sua certidão de nascimento, Frida nasceu em 6 de Julho de 1907. Talvez optando por uma verdade mais estrita do que o facto permitiria, ela escolheu nascer em 1910, ano da eclosão da Revolução Mexicana. Uma vez que era filha da década revolucionária, quando as ruas da Cidade do México estavam coalhadas de caos e derramamento de sangue, Frida decidiu que ela e o México moderno haviam nascido no mesmo ano. A outra frase no Museu Frida Kahlo alardeia uma visão ideal e sentimental do casamento e do lar Kahlo-Rivera. Mais uma vez, a realidade era diferente. Antes de 1934, quando o casal regressou para o México depois de um período de residência de quatro anos nos Estados Unidos, Frida e Diego viveram apenas por um breve período na casa de Coyoacán. De 1934 a 1939, moraram num par de casas construídas para eles no distrito residencial de San Ángel. Depois disso, houve longos períodos em que Diego, preferindo a independência do seu estúdio em San Ángel, não viveu sob o mesmo tecto que Frida, sem mencionar o ano em que os dois se separaram, se divorciaram e por fim se casaram novamente. Assim, as duas inscrições são adornos da verdade. Como o próprio museu, elas são parte da lenda de Frida.
Quando Frida nasceu, a casa de Coyoacán tinha apenas três anos de existência. Seu pai a construíra em 1904, num pequeno pedaço de terra por ele adquirido quando a fazenda El Carmen foi dividida em lotes e vendida. Mas as pesadas paredes da casa, a estrutura de um único andar, o telhado plano e a planta em forma de U, com quartos intercomunicáveis dando para um pátio interno em vez de corredores, conferem ao lugar a aparência de uma edificação dos tempos coloniais. A casa fica a apenas algumas quadras da praça central do distrito e da paróquia de São João Baptista, onde a mãe de Frida tinha um banco especial reservado que ela e as filhas ocupavam aos domingos. Da sua casa, Frida podia caminhar por ruas estreitas, de paralelepípedos ou não asfaltadas, até Viveros de Coyoacán, parque florestal em que um dos encantos é um riacho que serpenteia entre as árvores.
Quando Guillermo Kahlo construiu a casa, era um bem-sucedido fotógrafo que recebera do governo mexicano a incumbência de registar a herança arquitectónica do país, realização extraordinária para um homem que havia chegado ao México sem grandes perspectivas, apenas treze anos antes. Seus pais, Jakob Heinrich Kahlo e Henriette Kaufmann Kahlo, eram judeus húngaros de Arad, hoje parte da Roménia, que haviam migrado para a Alemanha e se fixado em Baden-Baden, onde Wilhelm nasceu em 1872. Jakob Kahlo era um joalheiro e ourives que também negociava suprimentos fotográficos; quando chegou a hora, Jakob era suficientemente abastado para ter condições de mandar o filho estudar na universidade, em Nuremberg. Em algum momento de 1890, a promissora carreira académica de Wilhelm Kahlo terminou antes mesmo de começar: em decorrência de uma queda que resultou em lesões cerebrais, o jovem começou a sofrer ataques epilépticos. Mais ou menos no mesmo período, a sua mãe morreu e o seu pai se casou em segundas núpcias com uma mulher de quem Wilhelm não gostava. Em 1891, o rapaz, aos dezanove anos de idade, ganhou do pai dinheiro suficiente para comprar uma passagem para o México; Wilhelm mudou o nome para Guillermo e nunca mais voltou ao seu país natal». In Hayden Herrera, Frida, A Biografia, 1983, tradução de Renato Marques, Editora Globo, 2011, ISBN 978-852-505-353-4.

Cortesia de EGlobo/JDACT

quinta-feira, 31 de março de 2016

Pintura no 31. Frida. Biografia. Hayden Herrera. «As palavras desabavam de sua boca, intensamente, enfaticamente, velozmente, pontuadas por gestos rápidos e graciosos, risadas de barriga cheia, e ocasionais gritos agudos de emoção»

jdact e wikipedia

«Em Abril de 1953, menos de um ano antes de morrer aos 47 anos de idade, Frida Kahlo ganhou a primeira grande exposição das suas pinturas na sua terra natal, o México. Naquela altura a sua saúde estava tão deteriorada que ninguém esperava que ela conseguisse comparecer à estreia. Porém, às oito da noite, pouco antes da abertura das portas da Galeria de Arte Contemporânea da Cidade do México, uma ambulância aparece. A artista, usando o seu traje mexicano tradicional favorito, foi tirada do veículo e levada para dentro da galeria numa maca, até ser acomodada na sua cama de quatro colunas, que havia sido instalada na galeria naquela tarde. A cama estava adornada da maneira como ela gostava, com fotografias do marido, o grande muralista Diego Rivera, e dos seus heróis políticos, Malenkov e Stálin, esqueletos de papel maché pendurados no dossel, em cuja parte inferior havia um espelho afixado que reflectia o rosto de Frida, alegre, ainda que devastado pela doença. Um a um, centenas de amigos e admiradores fizeram fila para cumprimentar Frida Kahlo, depois formaram um círculo em volta da cama e cantaram baladas mexicanas até bem depois da meia-noite. O episódio a um só tempo resume e representa o ponto culminante da carreira dessa mulher extraordinária. A bem da verdade, esse evento comprova muitas das qualidades que marcaram Kahlo como pessoa e como pintora: a sua bravura e indomável alegria em face do sofrimento físico; a insistência na surpresa e na especificidade; o seu amor peculiar pelo espectáculo como máscara para preservar a privacidade e a dignidade pessoal. Acima de tudo, a estreia da sua exposição dramatizava o tema central de Frida Kahlo, ela mesma. A maioria dos cerca de duzentos quadros que ela produziu na sua curta carreira é de auto-retratos. Frida começou com um material formidável e impactante: quase bonita, ela tinha pequenos defeitos que só faziam aumentar o seu magnetismo. As suas sobrancelhas formavam uma única linha ao longo da testa e sua boca sensual era encimada pela sombra de um buço. Os seus olhos eram negros e amendoados, ligeiramente inclinados para cima nas extremidades. As pessoas que a conheciam bem dizem que a inteligência e o humor de Frida brilhavam naqueles olhos; dizem também que os olhos revelavam o seu estado de ânimo: devorador, fascinante, sedutor, céptico, desmoralizante ou destruidor. E na franqueza do seu olhar fixo havia algo que fazia com que os seus interlocutores se sentissem desmascarados, como se estivessem sob a vigilância atenta de uma jaguatirica. Quando Frida ria, era com carcajadas, gargalhadas profundas e contagiantes que explodiam ou como sinal de felicidade ou de reconhecimento fatalista do absurdo da dor. A sua voz era bronca, um pouco rouca. As palavras desabavam de sua boca, intensamente, enfaticamente, velozmente, pontuadas por gestos rápidos e graciosos, risadas de barriga cheia, e ocasionais gritos agudos de emoção. Em inglês, que ela falava e escrevia com fluência, Frida tendia a usar gírias. Lendo as suas cartas hoje, impressiona o que uma amiga dela chamou de as durezas ou asperezas de seu vernáculo; é como se ela tivesse aprendido inglês com Damon Runyon. Em espanhol, ela adorava usar linguagem chula, palavras como pendejo (que, em tradução polida, quer dizer estúpido) e hijo de su chingada (filho da pu…). Em ambas as línguas, ela saboreava o efeito sobre a sua plateia, efeito ampliado pelo facto de que esse vocabulário de sarjeta era proferido por uma criatura de aparência tão feminina, de cabeça altiva no pescoço comprido, com ares nobres de rainha. Ela vestia-se com roupas vistosas e dava preferência especialmente a compridos trajes mexicanos nativos, em detrimento de peças de alta-costura. Aonde quer que fosse, Frida causava sensação. Um nova-iorquino relembra que as crianças seguiam Kahlo pela rua, gritando, onde é o circo? Ela ficava indiferente». In Hayden Herrera, Frida (a biografia), 1983, tradução de Renato Marques, Editora Globo, São Paulo, 2011, ISBN 978-852-505-353-4.

Cortesia da EGlobo/JDACT

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Frida Kahlo. Pintora: Parte 2. «Teve uma vida muito problemática, cheia de casos amorosos, violência doméstica, acidentes rodoviários, etc. Tentou várias vezes o suicídio, denotando um percurso de vida extremamente infeliz. Deste modo, tornou-se um ícone da cultura popular mexicana»




(1907-1954)
Coyoacán, México
Cortesia de fridakahlo 

Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, foi uma pintora mexicana. Frida nasceu em 6 de Julho na casa de seus pais, conhecida como “La Casa Azul”, "A Casa Azul”, em Coyoacán, na época uma pequena cidade nos arredores da Cidade do México. Em 1939 expõe em Paris, na galeria Renón et Colle e a partir de 1943 dá aulas na escola La Esmeralda, no Distrito Federal. Alguns de seus primeiros trabalhos incluem; o Auto-retrato num vestido de veludo (1926), Retrato de Miguel Lira (1927), Retrato de Alicia Galant (1927) e Retrato de minha irmã Cristina (1928).





Cortesia de variasgaleriasdearte

Quatro anos após a sua morte, sua casa familiar conhecida como "Casa Azul" transforma-se no Museu Frida Kahlo. Frida, reconhecida tanto por sua obra quanto por sua vida pessoal, ganha retrospectiva de suas obras, com objectos e documentos inéditos, além de fotografias, desenhos, vestidos e livros.No dia 13 de Julho de 1954, Frida, que havia contraído uma forte pneumonia, foi encontrada morta. A certidão de óbito assinala embolia pulmonar como causa da morte. A última frase do seu diário, diz:
  • "Espero que a minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar, Frida", permite a hipótese de suicídio.

 

 Cortesia de variasgaleriasdearte

Frida Kahlo teve uma vida muito problemática, cheia de casos amorosos, violência doméstica, acidentes rodoviários, etc. Tentou várias vezes o suicídio, denotando um percurso de vida extremamente infeliz. Deste modo, tornou-se um ícone da cultura popular:
  • Em 2002, sob a direcção da realizadora Julie Taymor, foi lançado o filme Frida, que narra a história da pintora, interpretada por Salma Hayek. O papel de Diego Rivera foi desempenhado por Alfred Molina;
  • Em 2008, a banda inglesa Coldplay lançou o álbum “Viva la Vida” / “Death and All His Friends”, cujo título é inspirado num quadro de Frida, também intitulado "Viva La Vida" e que intitula também a principal canção do disco. Segundo o vocalista Chris Martin, o título foi escolhido devido ao optimismo de Frida, mesmo com os percalços percorridos pela artista, ao exaltar a vida no referido quadro. Ela vestia-se com vestes de pobre, mesmo possuindo uma pequena fortuna;
  • Em 2010 foi homenageada pelo Google com um “doodle” estilizado do seu auto-retrato.

 



Cortesia de varias galeriasdearte
In Wikipédia.
JDACT

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Frida Kahlo. Pintora: Parte 1. «André Breton qualifica a obra de surrealista num ensaio que escreveu para a exposição de Kahlo na galeria Julien Levy de Nova Iorque. Pensavam que eu era uma surrealista, mas eu não era. "Nunca pintei sonhos". Pintava a "minha própria realidade"»

(1907-1954)
Coyoacán, México
Cortesia de

Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, foi uma pintora mexicana.
Em 1913, com seis anos, Frida contrai poliomielite, a primeira de uma série de doenças, acidentes, lesões e operações que sofreu ao longo da vida. A poliomielite deixou uma lesão no seu pé direito, pelo que ganhou o apelido de "Frida pata de palo". Passou a usar calças, depois longas e exóticas saias, que se tornaram uma de suas marcas pessoais.
Em 1928, entrou no Partido comunista mexicano e conheceu o muralista Diego Rivera, com quem se casa no ano seguinte. Sob a influência da obra do marido, adoptou o emprego de zonas de cor amplas e simples, num estilo propositadamente reconhecido como ingénuo. Procurou na sua arte afirmar a identidade nacional mexicana, por isso adoptava com muita frequência temas do folclore e da arte popular do México.
http://fkahlo.com/






Quatro anos após a sua morte, sua casa familiar conhecida como "Casa Azul" transforma-se no Museu Frida Kahlo. Frida Kahlo, reconhecida tanto por sua obra quanto por sua vida pessoal, ganha retrospectiva de suas obras, com objectos e documentos inéditos, além de fotografias, desenhos, vestidos e livros.


JDACT