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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Entre a República e a Acracia. O Pensamento e a Acção de Emílio Costa (1897-1914). António Ventura. «Através da conferência, do folheto ou do artigo de jornal, Emílio Costa lidera o grupo apelidado pelos seus adversários de “guerrista”…»

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«(…) Um segundo momento relevante confrontou Emílio Costa com o novo regime saído das jornadas revolucionárias de 4 e 5 de Outubro de 1910. Não recusou colaborar com a República, chegando mesmo a desempenhar cargos no âmbito da Comissão de Trabalho criada para arbitrar conflitos laborais e, pouco depois, protagonizou uma breve experiência como Adido de Legação na embaixada portuguesa em Berna, sob insinuações de companheiros que o acusavam de, ao colaborar com o Estado, trair o ideal libertário. Mas foi sol de pouca dura esse benefício da dúvida. Em escassos seis meses tudo se desvaneceu e a expectativa é substituída pela descrença e mesmo pela oposição. Submeteu o novo regime a uma crítica impiedosa, sistemática mas equilibrada, exercida em jornais de grande expansão como O Intransigente, de Machado Santos, e A Capital. O partidarismo exacerbado, os propósitos asfixiantes do Terreiro do Paço, a incapacidade demonstrada pelos novos governantes em resolver os crónicos problemas nacionais e, de um modo particular, o divórcio irreversível declarado entre o Governo Provisório e o movimento operário e sindical, converteram Emílio Costa num céptico. A partir de 1911, analisa e denuncia a nova situação, em especial os seus aspectos mais controversos ou mesmo negativos. Não se quedava, porém, como tantos outros, no plano dos grandes princípios, nem se perdia no labirinto retórico das frases propagandísticas sem conteúdo. Isento das paixões partidárias, num sentido lato, deformantes, que contaminavam a imprensa nacional de então, optou por uma crítica pedagógica, escalpelizando metodicamente quer os grandes temas da vida nacional e internacional, quer os pequenos conflitos do dia a dia, resultantes de traumas e vícios ancestrais. Alertava com ênfase para os enormes contrastes entre a maneira de ser e viver dos portugueses e a dos suíços, belgas ou franceses, que conhecia em pormenor. Advertia contra os perigos do centralismo, da incompetência, da politiquice despudorada que ameaçava destruir, irremediavelmente, as expectativas depositadas na República. As dezenas de artigos escritos entre 1911 e 1914 permitem-nos compreender a sua postura perante a nova situação, mas também constituem um valioso e lúcido testemunho pessoal sobre a falência de um regime que malbaratou um enorme capital de esperança.
A eclosão da Grande Guerra possibilitou-lhe uma nova tomada de posição polémica, ao assumir-se como o mais destacado representante em Portugal do anarquismo intervencionista, expressão utilizada para designar a corrente favorável à intervenção no conflito, contra os impérios centrais, animado a nível internacional por Kropotkine e Jean Grave, entre outros. Através da conferência, do folheto ou do artigo de jornal, Emílio Costa lidera o grupo apelidado pelos seus adversários de guerrista, provocando assim uma irreversível cisão no anarquismo português. Os seus textos dessa época são guias seguros para o conhecimento sistematizado dos argumentos aduzidos por guerristas e antiguerristas, tanto a nível nacional como internacional». In António Ventura, Entre a República e a Acracia. O Pensamento e a Acção de Emílio Costa (1897-1914), Edições Colibri, Lisboa, 1995, ISBN 972-8047-94-0.

Cortesia de Colibri/JDACT

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O Cerco de Campo Maior em 1801. António Ventura. «Cumpria também acautelar outro inconveniente da mesma natureza, ainda que menos prejudicial, existente no fosso da tenalha, que formam os baluartes do Cavaleiro e Santa Cruz»

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Memória sobre a praça de Campo Maior com o jornal do sítio que principiou em 20de Maio de 1801 e terminou em 6 de Junho do mesmo ano (escrita por um oficial da guarnição)
«(…) Da mesma sorte se havia adoptado, sobre uma das cortinas fronteiras à porta de Santa Maria, o Forte denominado do Cachimbo, de que já se não descobriam alguns vestígios, existiam tão-somente duas pequenas lunetas, a primeira na estrada coberta em frente ao baluarte do curral dos Coelhos, que ainda conservava a denominação de Forte de Schomberg, destinada a defender a encosta de um monte, em cuja raiz se via situada uma pequena quinta, e a segunda no fosso do revelim da sobredita porta, a que davam o nome de Barrete de Mr. Parquer, a qual servia de cobrir aquela entrada, porém ao mesmo tempo mascarava o fogo do flanco que deveria lavar a face do dito revelim. Seria prolixa a numeração de outras muitas desvantagens que por toda a parte se descobriam assim no exterior como no recinto magistral desta Fortificação; pode dizer-se com imparcialidade, que os defeitos da sua primeira edificação, e os de algumas obras que depois se lhe adicionaram pareciam projectos daqueles mesmos que pelo tempo adiante a poderiam vir sitiar.
Tal era o estado de uma Praça que, pela sua posição relativa, deveria ter merecido mais algum cuidado no seu entretenimento; pois quando pela natureza do seu local, se não julgasse digna de uma completa instauração ainda os socorros da Arte lhe poderiam remediar muitos inconvenientes e aumentar consideravelmente a sua resistência: este foi o objecto que se pretendeu desempenhar na sua reparação. Como a urgência das nossas circunstâncias não permitia grandes meios para este fim era bastante difícil, entre tantas correcções que se propunham fazer, determinar o começo daqueles trabalhos: contudo alguns objectos que diziam respeito à saúde da guarnição não deixavam duvidosa a sua preferência, portanto se principiou por evacuar um grande charco, que existia no fosso da cortina entre os baluartes de S. Francisco e Santa Rosa, procedido da destruição de um cano antigo, por onde escorriam para a campanha as águas inúteis do interior da Vila, e se construiu oportunamente um novo aqueduto, a fim de evitar para o futuro a renovação deste depósito de vapores pútridos.
Cumpria também acautelar outro inconveniente da mesma natureza, ainda que menos prejudicial, existente no fosso da tenalha, que formam os baluartes do Cavaleiro e Santa Cruz (estes traveses quando principiaram as obras foram provisionalmente construídos de terra, e faxinas; depois se lhe fez um revestimento de alvenaria, para assegurar a sua duração; o qual na ocasião do sítio, deveria ser novamente revestido das mesmas faxinas, para amortecer a reflexão das balas, e não produzir estilhaços; porém o tempo, e os meios não deixaram praticar esta cautela: os estragos que sofreram, assaz comprovam a sua necessidade, pois visivelmente se conheceu que eles tinham evitado maiores danos em todas as obras em que foram colocados). Tal era o denominado lago, tão celebrado sem motivo pelos habitantes do lugar que de Inverno recebia as águas de dois pequenos ribeiros, cujas sobras trasbordavam por cima de um dique, que atravessava o fosso na direcção da Capital do segundo baluarte; e no Verão amortecendo a corrente, e diminuindo consideravelmente a sua profundidade, restava por muito tempo em perfeita estagnação. Esta porção de fosso aquático, havendo tão-somente alguma vantagem defronte de uma das faces do referido baluarte, conservava entre todos os defeitos que lhe são inerentes, o de ser bastante nocivo aos moradores daquele distrito: a sua evacuação extinguiu a causa deste prejuízo, como ainda hoje o pode atestar o Médico daquela Vila. Entretanto se cuidou em dar as convenientes dimensões ao parapeito das cortinas, pondo a coberto esta necessária comunicação dos baluartes; rebaixou-se o terrapleno em muitas tenalhas, alteou-se em outras, revestiram-se de alvenaria as golas dos baluartes de Santa Cruz, Cavaleiro, e Fonte do Conselho, e as cortinas do Príncipe, S. Sebastião, e porta de Santa Maria; foram completamente instaurados os baluartes da Boa Vista (este baluarte se chamou primitivamente de S. João Baptista; os moradores da Vila lhe davam o nome de baluarte do Cavaleiro ainda que dentro dele se não descobria algum vestígio de uma semelhante obra, porém julgamos, que por estar mais elevado, ou a cavaleiro da Cortina imediata, se lhe deu esta denominação; a qual presentemente lhe compete, pela obra incompleta levantada no seu interior), e Curral dos Coelhos, cujo âmbito se tornou muito mais amplo e menos condenado, formaram-se assim no interior de alguns baluartes como no reparo das cortinas traveses permanentes, (para evitar o inconveniente dos revestimentos de alvenaria nas arestas dos parapeitos, que sendo batidos pela artilharia inimiga produzem prejuízo dos estilhaços; se terminou por toda a parte a sua altura por uma grossa fiada de formigão. Esta matéria muito própria para se adoptar nas obras de fortificações, porque nela não entra a pedra, se forma pela combinação da cal e saibro, ou areia, na razão de um para três, cujos géneros depois de misturados e humedecidos, se batem a maço entre taipais, colocados no lugar em que se pretende levantar o muro: de que resulta um massame tão compacto, que depois de enxuto custa muito a destruir a bico de picareta), para desenfiar estas obras, e se construiu com o mesmo fim um cavaleiro no baluarte desta denominação; cujo revestimento ficou levantado até ao seu cordão e enquanto não ministrava uma segunda ordem de fogo se podia reputar por uma antecipada cortadura: foi necessário elevar por toda a parte o antigo parapeito da linha magistral adicionando-lhe as correspondentes banquetas, e rectificar os muros que interior e exteriormente o revestiam: sem a presença destes trabalhos, não pode fazer-se ideia da grande massa de terra removida, a fim de preencher os novos merloens, banquetas e traveses e tornar cheios os baluartes vazios, quais eram o da Fonte do Conselho e Santa Cruz». In António Ventura, O Cerco de Campo Maior em 1801, Edições Colibri, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, 2001, ISBN 972-772-270-9.

Cortesia de EColibri/JDACT

segunda-feira, 5 de junho de 2017

O Cerco de Campo Maior em 1801. António Ventura. «Enquanto às obras exteriores se fazia notável a sua irregular disposição, e o abandono a que estavam condenadas pelas suas danificações: a estrada coberta desmentia…»

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Memória sobre a praça de Campo Maior com o jornal do sítio que principiou em 20de Maio de 1801 e terminou em 6 de Junho do mesmo ano (escrita por um oficial da guarnição)
«(…) O Castelo desta vila desempenhava a solução de um problema contrário a todas as regras de fortificação, que vem a ser: construir uma cidadela, no lugar mais levantado de uma Praça, de tal sorte porém que apesar da altura das suas muralhas, e parapeitos fique sempre o seu interior descoberto de toda a Campanha. Era contudo neste recinto onde se achava colocado o grande armazém de pólvora, com um dos seus topos, em que se via rasgada uma janela, exposto a ser batido pela Artilharia assestada em pequena distância da estrada coberta: a humidade do seu solo havia apodrecido o assoalhado de madeira que ali existia, e a grossura da sua abobada era incapaz de resistir ao choque das bombas, e até mesmo das medianas granadas. Os outros armazéns destinados para deposito dos petrechos, não estavam isentos dos mesmos inconvenientes, as suas portas parece que de propósito tinham sido abertas fronteiras aos lugares mais próprios para a colocação das baterias da Campanha, e de facto na ocasião do Sítio enfiaram por elas muitas balas, uma das quais terminou a vida a um trabalhador, que ali se ocupava na construção de um través. Todas estas circunstâncias obstavam à grande vantagem de se poder daqui ministrar em todas as direcções uma segunda ordem de fogo, e o estado de ruína das suas muralhas, o seu baixo perfil, a indefensa da sua comunicação e a falta de abrigo para as Tropas e munições, não podia permitir que neste lugar se envidassem os últimos esforços de uma pertinaz resistência.
Os Quartéis do Regimento da Praça, além de insuficientes pela sua capacidade, estavam bastante expostos ao fogo direito dos canhões, principalmente os do andar superior ou segundo pavimento; e a singeleza das suas abobadas não dava a menor segurança aos defensores contra os tiros curvilíneos dos obuses ou morteiros. Os de Cavalaria, muito mais descobertos que os primeiros, e reduzidos a total ruína, ainda quando fossem bem reparados, seriam inabitáveis em tempo de sítio. Somente as oficinas do Assento, as melhores de toda a Província, se haviam construído debaixo das dimensões adoptadas nos edifícios próprios das Praças de Guerra. Esta falta é bem para lamentar em quase todas as nossas Fortalezas.
Enquanto às obras exteriores se fazia notável a sua irregular disposição, e o abandono a que estavam condenadas pelas suas danificações: a estrada coberta desmentia perfeitamente a sua denominação, da esplanada apenas se conservavam alguns vestígios oferecendo a interrupção do seu declive, diversos esconderijos, e o seu reconhecimento particular; não se divisava contra-escarpa em quase metade do contorno da estrada coberta, por onde se descia sem dificuldade ao fosso; o plano deste, se achava em diferentes níveis e em muitas tenalhas pouco profundo, talvez pela dificuldade da sua escavação, por ser em muitas partes aberto em roxa, ou tufo; de que resultava ser menos difícil a acessibilidade das muralhas: os cinco revelins que nada cobriam, eram todos incapazes da menor resistência; a sua comunicação com a Praça estava reduzida a uma única porterna; as portas principais eram descobertas da Campanha até ao seu limiar; e a de Santa Maria, nem mesmo recebia defesa de flanco, e estava colocada numa cortina que formava dois ângulos mortos: a largura do fosso desta tenalha e da contígua; as elevações irregulares nele compreendidas que mal deixavam distinguir a configuração de antigas obras não revestidas; a ruína da próxima estrada coberta, e os caminhos profundos que da Campanha adjacente, para esta parte se conduziam, faziam muito arriscada numa surpresa, esta fraca comunicação para o interior da praça.
Segundo os antigos sistemas de construir as Praças nos terrenos irregulares, em que se avaliavam em grande conta as obras destacadas, para ocupar com elas as alturas que a dominavam, se havia praticado sobre a direcção da capital do baluarte da Fonte do Castelo, o Forte quadrado de S. João Baptista, composto de três baluartes, e quatro cortinas, na distância de tiro de fuzil do dito baluarte, o qual além de ser um dos mais salientes e atacáveis, não tendo algum revelim nas tenalhas laterais, que pudesse cruzar o seu fogo sobre aquela direcção, vinha por consequência a prestar muito pouco auxílio ao dito Forte, que ficava reduzido a defender-se por si mesmo, o que lhe não permitia a capacidade do seu interior, a falta de alojamentos, e a dificuldade de comunicação com a Praça: todas estas razões unidas ao estado ruinoso das suas fortificações, em nada diminuíam os inconvenientes deste vizinho padrasto». In António Ventura, O Cerco de Campo Maior em 1801, Edições Colibri, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, 2001, ISBN 972-772-270-9.

Cortesia de EColibri/JDACT

O Cerco de Campo Maior em 1801. António Ventura. «… devendo considerar se Campo Maior, como um antemural da populosa Elvas, não deixará de ser acometida nas primeiras hostilidades da Campanha»

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«(…) Memória sobre a praça de Campo Maior com o jornal do sítio que principiou em 20de Maio de 1801 e terminou em 6 de Junho do mesmo ano (escrita por um oficial da guarnição)
Para dar uma ideia circunstanciada do Sítio que sofreu a Praça de Campo Maior, é necessário começar por descrever a influência militar da sua situação topográfica, o estado em que se achavam as suas fortificações, e as disposições que se haviam tomado para a sua defesa. Lançando os olhos sobre a carta da Província do Alentejo, se divisa Campo Maior ao Nordeste de Elvas, e ao Norte de Badajoz, formando entre si estas três Praças, um triângulo, aproximadamente equilátero, em que pode estimar-se cada um dos seus lados de três léguas horárias de extensão: Albuquerque lhe fica na distância de mais outra légua, para a parte do Nascente; e sendo as alheias Praças de que falamos, as mais próximas da nossa raia, aonde já se não encontra a ramificação das Serras, que desde Castelo de Vide vão terminar em Tagarrais; é de esperar que os nossos vizinhos sempre que projectarem a invasão desta Província e recearem forçar as montanhas, que ficam aquém do rio Sever, para se encostarem à margem meridional do Tejo, não deixarão de escolher aqueles dois pontos fortes, para reunião das suas Tropas, a fim de transporem os limites do seu País, por um terreno muito mais aberto e unido, que lhe facilita as incursões da sua Cavalaria.
Nesta hipótese, devendo considerar se Campo Maior, como um antemural da populosa Elvas, não deixará de ser acometida nas primeiras hostilidades da Campanha, porque os inimigos na sua conquista vêm a ganhar um grande apoio, de fácil comunicação com as ditas Praças, que lhe assegura o seu estabelecimento no estranho território, e lhe pode cobrir as operações do ataque contra a única Fortaleza que protege toda a Província. Ora enquanto nós sustentarmos este primeiro posto, o seu auxílio não só poderá ser muito útil ao nosso Exército, quando este se achar em força capaz de descer às planícies, a disputar a devastação daqueles Povos, mas também favorecerá as diversões ofensivas sobre a melhor parte da Estremadura Espanhola, logo que a Fortuna desamparar as Armas inimigas, ou estas variarem o antigo plano de nos fazer a guerra.
Estas razões, que fazem sensível a importância da nossa Praça, deram motivo a cuidar-se da sua reparação. O Oficial engenheiro que depois interinamente a governou, e defendeu foi encarregado em Abril de 1797 de remediar provisionalmente os danos, que o tempo havia causado no material do seu recinto, adicionando-lhe aquelas correcções que julgasse necessárias, a fim de o pôr ao abrigo de um golpe de mão. Infelizmente as circunstâncias particulares do local em que está levantada esta Fortificação, e os erros grosseiros do seu primitivo traçado, assaz restringem as vantagens que havemos apontado, relativas à topografia geral daquela Província. Talvez porque esta Praça conservava ainda em pé as suas muralhas, e havia resistido em 1712 a um sítio informe e mal dirigido, durante o qual foi por três vezes socorrida, se julgava muito maior a sua intrínseca força, porém a simples descrição dos seus defeitos fará avaliar precisamente, a máxima resistência de que ela seria capaz.
Parece que só um engenho destituído de todos os princípios da Arte, poderia escolher uma posição cercada por toda a parte de um terreno montuoso, e sobranceiro, para erigir uma Praça bastante irregular, composta de dez baluartes, um castelo e apenas cinco revelins por obras exteriores, sem que alguma destas obras, se referisse as irregularidades da Campanha circunvizinha: com efeito no ano de 1797 se não encontrava um só ponto sobre o terrapleno da linha magistral, que não pudesse ser ferido do exterior, assim de frente, como de enfiada, ou de revés: porque o parapeito dos baluartes, apesar de conservar em alguns o ordinário perfil, não encobria o plano do reparo, dominado pelos montes de mais alto novel, e o das cortinas (à excepção de três) simplesmente era formado de um frágil muro de dois palmos e meio de grossura e quatro de alto, que mal poderia cobrir em tempo de Sítio as Tropas que a guarneciam ou por ali transitassem». In António Ventura, O Cerco de Campo Maior em 1801, Edições Colibri, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, 2001, ISBN 972-772-270-9.
 Cortesia de EColibri/JDACT

sexta-feira, 2 de junho de 2017

O Cerco de Campo Maior em 1801. António Ventura. «Matias José Azedo, ao tempo com 62 anos, assumia o cargo de Secretário da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, desde 1 de Outubro de 1820 até 26 de Janeiro do ano seguinte»

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«(…) Por muitos anos foi lente da Academia de Fortificação. A Academia de Fortificação fora fundada em 13 de Junho de 1647 e instalada na Ribeira das Naus. Nela brilhou, no século XVII, o engenheiro Luís Serrão Pimentel, autor do célebre livro Método Lusitano (1680), a primeira obra dedicada à fortificação escrita em português. Passou a chamar-se Real Academia Militar e foi extinta em 3 de Agosto de 1779, depois de ter tido uma actividade irregular nos últimos anos. Quando Luís Pinto Sousa, futuro visconde de Balsemão, ao tempo Ministro da Guerra e dos Negócios Estrangeiros, criou a Academia de Fortificação e Desenho Militar, aberta solenemente no dia 20 de Janeiro de 1790, com a presença de muitos grandes do reino, oficiais generais, e oficiais de infantaria e engenharia, foi Matias José Dias Azedo, ao tempo lente do primeiro ano da mesma Academia, quem leu o discurso de abertura.
Matias Azedo assistiu às reparações da praça de Almeida, dirigiu superiormente a restauração das fortificações da praça de Valença, em 1809, e as operações defensivas da província do Minho, no mesmo ano. Em 1810, voltou a dirigir os trabalhos em Valença, e na ordem do dia, de 16 de Dezembro de 1810, era nomeado comandante do Corpo de Engenheiros, lugar que exerceu até falecer. Na lista de antiguidades de princípios de 1811 é dado na situação de lente da Academia Real de Fortificação, com a observação de ter exercido, depois de lente, várias comissões, especialmente a do governo de Campo Maior, em 1801.
Foi nomeado inspector do Arquivo Militar em 21 de Fevereiro de 1812; encarregado da inspecção das linhas de defesa de Lisboa e praça de Peniche em 3 de Junho de 1814, e novamente em 27 de Dezembro de 1816; membro da junta do Código Penal Militar em 17 de Maio de 1816, comissão que exerceu até 20 de Fevereiro de 1820 data em que foi concluído o projecto do código, mandado pôr em execução por alvará de 17 de Agosto do mesmo ano. Foi nomeado Conselheiro de Guerra em 17 de Dezembro de 1817. A 24 de Agosto de 1820 eclodiu no Porto um pronunciamento liberal. A 15 de Setembro, dia em que se celebrava na capital o aniversário da partida dos franceses, o Regimento de Infantaria 16 deixou o seu quartel em direcção ao Rossio, aclamando a futura constituição. Este pronunciamento, chefiado por um oficial subalterno, Aurélio José Morais, teve uma entusiástica adesão por parte do povo e de outras unidades da capital. O general conde de Resende apoiou a revolta, constituindo-se um governo provisório presidido por Gomes Freire Andrade (Principal Decano da Sé Patriarcal), conde de Sampaio, conde de Resende, conde de Penafiel, Filipe Ferreira Araújo Castro, pelo tenente general Matias José Dias Azedo e por Hermano José Braancamp Cruz Sobral.
Desse modo, Matias José Azedo, ao tempo com 62 anos, assumia o cargo de Secretário da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, desde 1 de Outubro de 1820 até 26 de Janeiro do ano seguinte. Foi também nomeado Inspector das Fortificações do Reino em 1 de Janeiro de 1821, poucos dias podendo exercer o cargo, visto ter falecido a 11 de Fevereiro». In António Ventura, O Cerco de Campo Maior em 1801, Edições Colibri, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, 2001, ISBN 972-772-270-9. 
Cortesia de EColibri/JDACT

O Cerco de Campo Maior em 1801. António Ventura. «As causas dessa prisão relacionam-se com a sua filiação na maçonaria, fazendo parte do numeroso grupo de maçons que então foram alvo de devassa»

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«(…) A 2.ª Divisão, comandada pelo Príncipe da Paz, Manuel Godoy, partiu de Albuquerque em direcção a Badajoz, a 15 de Maio, entrando em Portugal, junto a Campo Maior, no dia 20. Após algumas trocas de tiros de artilharia junto a esta vila, dirigiu-se para Santa Eulália, S. Vicente, Barbacena e Arronches, onde, juntamente com forças da Divisão de Vanguarda, tomou parte no combate de dia 29. Permaneceu durante três dias na vila de Arronches, e depois marchou para Portalegre, participando nas operações da Divisão de Vanguarda, incluindo o combate de Flor da Rosa, bem como em acções contra camponeses que atacaram soldados espanhóis na Serra de S. Mamede.
A 3.ª Divisão, comandada pelo marquês de Castelar, estacionada em Valverde, avançou no dia 20 de Maio para Olivença e Juromenha, cujos governadores se renderam sem a menor resistência, e tomou posições junto a Elvas, onde se registou algum tiroteio, e a Campo Maior. Participou no cerco àquela praça, até dia 27 de Maio, posicionando-se depois em Santa Eulália. Finalmente, a 4.ª Divisão, comandada pelo tenente-general  Francisco Xavier Negrete, concentrada em Badajoz, empenhou-se exclusivamente no cerco a Campo Maior.
A 25 de Janeiro de 1801, o coronel Inácio Freire Andrade ficava desobrigado do governo da Praça de Campo Maior, que passou a ser assegurado interinamente pelo tenente coronel de engenheiros, Matias José Dias Azedo. Vejamos, em primeiro lugar, quem era o novo Governador Militar de Campo Maior e quais os meios ao seu dispor para uma defesa eficaz.

Matias José Dias Azedo, governador da Praça de Campo Maior
Matias José Dias Azedo, um dos mais notáveis engenheiros militares portugueses do seu tempo, acabara de ser nomeado para o governo interino da praça. Vejamos quem era esse ilustre militar. Foram seus pais Caetano Dias Azedo, natural do Brasil, e Iria Joaquina Rosa, natural de Beja. Nasceu em Lisboa a 24 de Fevereiro de 1758 e ali morreu a 11 de Fevereiro de 1821, sendo sepultado no convento de S. Pedro de Alcântara.
Com vinte e dois anos, assentou praça em 11 de Março de 1780; foi promovido a 1.º tenente de infantaria com exercício de engenheiro por decreto de 2 de Junho de 1782, ascendendo regularmente aos diversos graus da hierarquia militar. Era Capitão em Dezembro de 1791, e lente da Academia Real de Fortificação, Artilharia e Desenho, quando foi detido e entregue à Inquisição (maldita), a 5 daquele mês. As causas dessa prisão relacionam-se com a sua filiação na maçonaria, fazendo parte do numeroso grupo de maçons que então foram alvo de devassa por parte das autoridades, dentro da política repressiva de Pina Manique, que levou à perseguição de 1791-1792. Matias Azedo pertencia a uma loja maçónica de Lisboa, fundada por volta de 1778, da qual faziam parte diversos militares. Foi condenado a abjurar de levi e a sujeitar-se a penitência espiritual e a instrução religiosa.
Em Junho de 1798, o seu nome aparece ligado à Sociedade Marítima, Militar e Geográfica para o desenho, gravura e impressão das cartas hidrográficas e militares, fundada por iniciativa do Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Rodrigo de Sousa Coutinho. Tinha, entretanto, prosseguido a sua carreira militar. Era sargento-mor, posto equivalente a Major, desde 4 de Abril de 1795, e atingia os postos de tenente coronel em 1800, de coronel e de brigadeiro em 1801, ano em que, a 16 de Outubro, foi nomeado Chefe de Brigada na Estremadura e Beira. Depois, foi promovido a marechal de campo, em7 de Julho de 1810, e a tenente general, o mais elevado posto do exército português, em 10 de Junho de 1813. O posto de coronel adquiriu-o, justamente, em 23 de Maio de 1801, pela maneira como fortificou e defendeu, naquele ano, a praça de Campo Maior, de que era governador». In António Ventura, O Cerco de Campo Maior em 1801, Edições Colibri, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, 2001, ISBN 972-772-270-9. 

Cortesia de EColibri/JDACT

O Cerco de Campo Maior em 1801. António Ventura. «O cerco de Campo Maior constitui uma excepção no quadro das operações ocorridas nesse breve conflito»


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«Completaram-se, no pp ano de 2001, dois séculos sobre a Guerra das Laranjas, onde de novo Portugal e Espanha se enfrentaram. Desta vez, o conflito teve uma origem exterior à Península, e foi motivado pela política expansionista da França, de quem a Espanha era aliada desde a celebração do Tratado de Santo Ildefonso, em 1796. O objectivo de privar a Grã-Bretanha do seu mais fiel apoio no Continente, Portugal, levava as autoridades francesas a pressionar o governo espanhol, no sentido de uma intervenção que obrigasse o nosso país a romper com a aliança inglesa, o que só aconteceu em 1801, depois de numerosas vicissitudes.
Para assinalar tal efeméride, publicamos o quarto estudo monográfico que dedicamos àquela campanha, depois dos que tiveram como tema os combates de Arronches e de Flor da Rosa na invasão de Portugal, em 1801. O cerco de Campo Maior constitui uma excepção no quadro das operações ocorridas nesse breve conflito, onde o desempenho das tropas portuguesas deixou muito a desejar, seja pela incompetência dos comandos, pela má preparação e motivação dos soldados e pela deficientíssima logística. Bem vistas as coisas, os resultados podiam ter sido muito piores…
No entanto, aquele triste panorama foi amenizado por três elementos positivos. O primeiro foi a resistência da Praça de Elvas, se bem que as operações militares em seu redor fossem escassas; o segundo foi a fortaleza de Marvão, que repeliu no dia 3 de Junho uma tentativa de assalto por parte de forças da Divisão de Vanguarda, e manteve fogo durante 14 horas, obrigando os assaltantes a retirar; o terceiro foi a defesa de Campo Maior. Sobre este episódio existem alguns estudo, que utilizámos, bem como abundante documentação inédita, tanto portuguesa como espanhola. A resistência daquela praça, cujo governador era o tenente coronel de engenheiros, Matias José Dias Azedo, foi uma acção militar que permitiu salvar a dignidade de Portugal e do seu exército. 

O Posicionamento das tropas espanholas
A declaração de guerra da Espanha a Portugal foi feita a 27 de Fevereiro de 1801 e as hostilidades iniciaram-se três meses depois. Manuel Godoy, nas suas memórias, descreve esse momento: a 20 de Maio, marcado para a marcha, entrou o exército em Portugal com um aparato solene e bateu o campo, afugentando os inimigos, encerando em Elvas e Campo Maior as guarnições destas praças, e tomando na sua largura as posições convenientes para assediar ambas as fortalezas.
A Divisão de Vanguarda, comandada pelo marechal de campo, marquês de Solana, que estava concentrada em Santa Engrácia, junto ao Xévora, tomou posições junto a Elvas, onde se registaram recontros esporádicos com as tropas portuguesas. O brigadeiro José Urbina intimou o Governador de Elvas, Francisco Xavier Noronha, para que se rendesse, mas este recusou firmemente tal exigência, confiante na inexpugnabilidade das suas fortificações e nos 9 000 homens de linha e milícias que as guarneciam. A mesma Divisão dirigiu-se depois para Campo Maior e dali para S. Vicente, que ocupou, encaminhando-se para Barbacena e Monforte. Desta localidade marchou sobre Arronches, onde, a 29 do mesmo mês de Maio, travou combate com forças portuguesas comandadas pelo coronel José Cárcome Lobo, as quais foram completamente derrotadas.
A 1.ª Divisão, comandada pelo tenente general Diego Godoy, irmão do Príncipe da Paz, igualmente acampada em Santa Engrácia, atravessou a fronteira no mesmo dia 20 de Maio e tomou posições junto a Elvas, cortando as ligações com Campo Maior. Dirigiu-se depois para S. Vicente e Barbacena, apertando o cerco a Elvas; um destacamento rumou a sul, entrando mais tarde em Borba e em Vila Viçosa». In António Ventura, O Cerco de Campo Maior em 1801, Edições Colibri, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, 2001, ISBN 972-772-270-9.

Cortesia de EColibri/JDACT

sábado, 3 de outubro de 2015

D. Miguel e o fim da Guerra Civil. Testemunhos. Autores Vários. «Uma das vertentes mais interessantes daquele conflito é a sua dimensão internacional, quer no plano diplomático, com a interferência directa ou indirecta dos governos estrangeiros na evolução da situação portuguesa»

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Introdução. A internacionalização da Guerra Civil. Liberais, miguelistas e carlistas
«A Guerra Civil de 1832-1834 continua a oferecer, não obstante os numerosos trabalhos já existentes, um vasto campo para os investigadores da História Militar, da História Diplomática e da História das Ideias, que podem contribuir, com novos estudos, para um melhor conhecimento e esclarecimento daquela época conturbada nas suas diversas vertentes, em que o político, o económico, o social, o cultural e o mental se articulam numa perspectiva global e integrada. De facto, a grande maioria das obras já existentes sobre aquela temática situam-se numa linha descritiva, seguindo uma tradição que remonta a Luz Soriano, enriquecida com algumas focagens regionais ou com visões mais interpretativas, e carecem de uma actualização quer no que diz respeito ao levantamento de novas fontes, quer no que diz respeito a aparelhos conceptuais e às metodologias adoptadas. Uma das vertentes mais interessantes daquele conflito é a sua dimensão internacional, quer no plano diplomático, com a interferência directa ou indirecta dos governos estrangeiros na evolução da situação portuguesa, o jogo de interesses, com variações decorrentes da alteração das respectivas situações políticas internas, em cada país, quer na participação directa de elementos de outras nacionalidades no conflito. São por demais conhecidos os casos dos militares estrangeiros empregados pelos exércitos liberal e miguelista. Recordamos os estudos exemplares de Henrique Ferreira Lima e os materiais a tal propósito carreados no Boletim do Arquivo Histórico Militar e o de J. Lorette. Sem olvidar, ainda os excelentes depoimentos que deixaram sob a forma de memórias. Alguns desses oficiais desempenharam por vezes cargos cimeiros de comando, com todas as consequências negativas e positivas desse facto. Os casos de Bourmont, Solignac, Macdonell, Sartorius e Charles Napier são exemplares.
Também é de todos conhecida a posição das grandes potências europeias face a Miguel, com a viragem profunda operada em 1830, após a queda de Carlos X, em França, e do ministério presidido pelo duque de Wellington, na Grã-Bretanha, propiciadora das condições políticas e logísticas que tornaram possível a expedição liberal aos Açores e o seu posterior desembarque no norte do país. Parece-nos desnecessário salientar a profunda ligação e o paralelismo entre os processos de implantação do liberalismo em Portugal e Espanha. A bibliografia existente sobre essa problemática não é escassa. É que no país vizinho decorria, também, um confronto político e ideológico que, embora latente, não deixava de constituir motivo de preocupação para o monarca espanhol.
Os realistas puros previram o seu acesso ao poder quando Carlos Maria Isidro, herdeiro do trono, sucedesse a seu irmão Fernando VII, que não tivera descendência de três casamentos. Esta situação alterou-se, porém, em 1829, quando o monarca, depois de ter enviuvado de Maria Josefa da Saxónia, contraiu novas núpcias, desta vez com Maria Cristina de Borbón-Nápoles, que se celebraram a 12 de Dezembro do mesmo ano. Se resultasse descendência deste novo casamento, então tudo se alteraria e as expectativas dos partidários de Carlos sairiam frustradas. A 29 de Março de 1830, o rei publicou uma pragmática que sancionava a lei aprovada nas Cortes de 1789, alterando o quadro legal sucessório. A 10 de Outubro nascia uma filha, Isabel. A pragmática abria dessa forma caminho para que a jovem princesa pudesse suceder a Fernando VII à frente dos destinos da Espanha». In Autores Vários (J. B.; Auget Sylvan; Francisco Lobo), D. Miguel e o fim da Guerra Civil, Testemunhos, Introdução de António Ventura, Caleidoscópio, Centro de História da UL, Lisboa, 2006, ISBN 989-801-012-6.

Cortesia de Caleidoscópio/JDACT

sexta-feira, 7 de março de 2014

Textos Dispersos. Flores da Inocência. José Duro. «… são os ossos da garruda... e pelas suas faces rudes e crestadas rolaram muitas lágrimas de sublime sentimento. Depois, lá foi pelas serranias apascentar o manso rebanho, com a resignação das almas ignorantes»

pai de joseduro
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Silvério e a Garruda
«Escondera-se o sol nas candentes bandas do poente; e a atmosfera coara morosamente os derradeiros clarões da sua auréola de deslumbrante luz, numa concupiscência indescritível. Do alto das escabrosas penedias ressoavam numa monotonia estridente e lúgubre, os gritos das aves agourentas, vindo unir-se ligeiramente com o vago troar dos ralos e das cigarras no fundo ressequido dos prados.
Nas balsas marginais dos riachos, os rouxinóis entoavam os seus alegretos; poemas rústicos de saudades imensas. À beira dos caminhos os ingénuos e acetinados pirilampos, mostravam o brilho um tanto fosco da sua luz subtil aos pequenos viageiros do crepúsculo, talvez invejosos dela. E pelas quebradas dos montes, ecoava o pungente ulular dos famintos lobos em busca dalguma presa inocente, refeição dessa noite.
Então o pastorinho Silvério, cansado das fadigas, e ébrio do sol daquele dia de Agosto, começou de reunir o manso rebanho, que todos os dias apascentava com a resignação das almas ignorantes. E depois de reunido, lá foi por atalhos e veredas conduzi-lo ao bardo, onde o pai o esperava para proceder à contagem. Contadas que foram, faltava uma ovelha, era a garruda.
E ele, o Silvério, sempre paciente e alegre, sem esperar que lho dissessem, tornou aos montes em busca da ovelha perdida. Chegando àqueles onde houvera estado durante o dia, sobe pelos pedregulhos grosseiros e irregulares, espraia a vista pelas cumeadas, embrenha-se nas fragas, chora, chega mesmo a zangar-se, e gritando sempre, garruda!... Garruda!... todos os esforços que emprega são baldados. Só uma cousa notaria se não fora o estado aflitivo em que se encontrava: Era que pelas quebradas dos montes, não se ouvia agora só o pungente ulular dos famintos lobos em busca de alguma presa inocente, mas sim também o rosnar surdo e raivoso de feras em disputa.

No dia seguinte, à hora matinal em que nas balsas marginais dos riachos os rouxinóis começavam a entoar desafogadamente os seus alegretos, passava o Silvério com o rebanho por uma vereda espessa e tortuosa, quando junto duma seara viu uns pequenos ossitos recentemente roídos, e ensanguentados.
Levado por um vago pressentimento, aproxima-se, mas de repente solta um grito lancinante ao mesmo tempo que por entre soluços murmura: são os ossos da garruda... e pelas suas faces rudes e crestadas rolaram muitas lágrimas de sublime sentimento. Depois, lá foi pelas serranias apascentar o manso rebanho, com a resignação das almas ignorantes». In J. A. Duro Junior, Portalegre, 24-8-93, Diário de Elvas, nº 55, 4-9-1893.

In José Duro, Textos dispersos, Coordenação de António Ventura, edições Colibri, 1999, ISBN 972-772-120-6.

Cortesia de EColibri/JDACT

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Um Paladino Discreto da República. Eusébio Leão. António Ventura. «… comum em todas as teses impressas, desde o seu director, José António Arantes Pedroso, até figuras bem conhecidas e prestigiadas como José António Serrano, natural de Castelo de Vide, Miguel Bombarda e José Curry Cabral»

Cortesia de franciscovalente e jdact

«A I República é um dos períodos fulcrais da história contemporânea de Portugal. Esse regime, que nasceu nas jornadas revolucionárias de 4 e 5 de Outubro de 1910, percorreu uma via dolorosa de 16 anos, abreviada pelo movimento militar de 28 de Maio de 1926, conheceu sobressaltos, equívocos, realizações louváveis a par de outras meramente superficiais. E, sobretudo, desperdiçou um grande capital de esperança. De entre os dirigentes republicanos que, a partir do Regicídio, prepararam com maior empenhamento o advento do novo regime, tanto na propaganda aberta, na imprensa, nos comícios ou nas conferências, como nos obscuros meandros das organizações secretas, Eusébio Leão teve uma acção decisiva que contrasta com o esquecimento a que tem estado votado. Esse facto não deixa de suscitar uma certa estranheza, tanto mais que ele integrava o Directório do Partido Republicano, seu órgão máximo, desde o Congresso de Setúbal (1909), com uma acção relevante nos trabalhos que antecederam a insurreição de Outubro de 1910. Esteve presente na varanda da Câmara Municipal de Lisboa, após a vitória, a ele cabendo o anúncio oficial da mudança de regime. Quem foi esse médico franzino que protagonizou um papel de primeiro plano naquele momento decisivo da nossa história, e que conheceu um relativo apagamento mesmo durante a República, agravado depois com a viragem operada em Maio de 1926?

De Gavião a Lisboa
Este percurso empreendido por Eusébio Leão foi, afinal, idêntico ao de alguns, poucos, portugueses que, nascidos em terras do interior, tinham que se deslocar, a fim de prosseguirem os seus estudos, para as Universidades de Lisboa e Coimbra, consoante os cursos que desejassem frequentar. Francisco Eusébio Lourenço Leão nascera em Degracia Cimeira, freguesia e concelho de Gavião, a 2 de Fevereiro de 1864, no seio de uma família humilde; era filho de Eusébio Lourenço, natural de Amieira (Nisa) e de D. Ana Heitor, natural de Atalaia (Gavião). Foi baptizado em casa por necessidade e depois solenemente, na Matriz da vila, a 3 de Abril seguinte. Após ter efectuado os estudos primários em Gavião, Eusébio Leão partiu-para Lisboa. Seus irmãos (...) arrancaram-no muito novo à província e começaram por mandar-lhe ensinar o suficiente para a vida comercial a que o dedicavam. Data de 9 de Dezembro de 1884 o requerimento em que solicitava à edilidade local autorização para transferir a sua residência para a freguesia de Santa Catarina, na capital.
Mas não estava destinado à carreira comercial; matriculou-se na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Não conseguimos localizar, no arquivo da actual Faculdade de Medicina de Lisboa, os documentos referentes à sua passagem por aquela escola, mas o curso não deve ter conhecido sobressaltos de maior, obtendo até louvores em quase todas as cadeiras e prémios pecuniários nos 3º e 5º anos. Foi ainda escolhido, quando frequentava o 5º ano, para prestar serviço no Hospital de Santa Marta por ocasião da grande epidemia de influenza. Em Julho de 1890 apresenta a sua dissertação inaugural intitulada Algumas Palavras sobre os Parasitas do Paludismo, que teve como Presidente o Doutor José Joaquim Silva Amado, Professor de Medicina Legal e Higiene, obtendo aprovação plena. Este pequeno livro de 64 páginas, o único, aliás, publicado por Eusébio Leão durante toda a sua vida, contém algumas informações e referências curiosas. Em primeiro lugar, o trabalho é dedicado Aos meus irmãos António e Ramiro Leão - aos vossos solícitos desvelos devo o meu curso. Está assim explicada a ida para Lisboa e a continuação dos estudos. Foi essencial o apoio dos irmãos, em especial o de Ramiro Leão, abastado comerciante da capital e com negócios no Brasil, o qual, não obstante diferenças políticas profundas, manterá sempre com Eusébio fortes laços de amizade. Mas o jovem estudante não queria depender exclusivamente da generosidade fraternal, durante os seus estudos leccionava, porque era preciso não se tornar pesado a seus irmãos.
No mesmo volume encontramos a relação dos professores da Escola Médico-Cirúrgica, o que era, aliás, comum em todas as teses impressas, desde o seu director, José António Arantes Pedroso, até figuras bem conhecidas e prestigiadas como José António Serrano, natural de Castelo de Vide, Miguel Bombarda e José Curry Cabral. Mas a terceira referência tem a ver com o tema da própria dissertação, muito ligado ao concelho de Gavião, obrigado por uma disposição regulamentar a escrever uma tese escolhi para assunto dela as afecções palustres que abundam na terra de onde sou oriundo. Curiosa alusão à gravidade de que o paludismo se revestia naquela região em finais do século XIX. A vida escolar de Francisco Eusébio Leão foi marcada, desde o início, por uma militância associativa digna de realce, durante os 6 anos que esteve em Lisboa foi Presidente da Caixa de Socorro aos Estudantes Pobres, que vegetava numa situação de decadência, e que ajudou a reerguer. Mas o ano em que termina o curso é um ano muito especial no que respeita à política portuguesa.


A 11 de Janeiro de 1890, a Grã-Bretanha apresenta ao governo português a célebre nota diplomática que ficou conhecida com a designação de Ultimatum, e que suscitou em todo o país uma onda de protestos antibritânicos e antigovernamentais. Embora esse movimento não fosse exclusivamente dinamizado por republicanos, enquadrando até personalidades monárquicas bem conhecidas na Comissão Executiva da Grande Subscrição Nacional, são aqueles primeiros que capitalizarão o descontentamento popular. A tibieza do  governo e a cedência perante as exigências inglesas confundem-se com a fraqueza da Monarquia. Redimir a pátria passaria, assim, pela mudança de regime. Só através da República, Portugal poderia readquirir a sua dignidade e lavar a honra ultrajada». In António Ventura, Eusébio Leão, Um Paladino Discreto da República, edição da CM do Gavião, capa de Raul Ladeiro (Lagóia), Gavião, 1991.

Cortesia da CMGavião/JDACT

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O Exílio, os Açores e o Cerco do Porto. Luís Sousa Coutinho nas Guerras Liberais. António Ventura. «Se exceptuarmos Miguel, sobre quem existe uma abundante bibliografia alimentada por um certo culto que se prolongou até ao presente século, são raros os estudos sobre os seus apoiantes mais destacados»

Cortesia de ricardomoita e jdact

(...) eu preferi abandonar pátria, família, empregos e bens; eu perdi bastante, mas não perdi tudo, porque, bem pouco perde quem conserva a honra.

«A primeira metade do século XIX foi um dos períodos mais agitados e turbulentos da nossa História, em que as intervenções estrangeiras e os confrontos ideológicos assumiram, por vezes, a forma de guerra efectiva. A implantação do liberalismo em Portugal revelou-se um processo conturbado e doloroso, gerador de cisões profundas na sociedade portuguesa que tiveram como momento decisivo e mais traumático a Guerra Civil que decorreu, de modo intermitente, desde 1822 e, de forma continuada, de 1832 a 1834. De um lado e de outro distinguiram-se figuras notáveis, coerentes e abnegadas que tudo sacrificaram em prol dos seus ideais e do modelo de sociedade que tinham como mais conveniente para o seu país. Naturalmente que a História é escrita pelos vencedores, cabendo aos vencidos um papel secundário de palhaço pobre, são outro que corporiza todos os vícios e todos os males e que, por isso mesmo, merece antecipadamente a derrota. Visão simplista esta que justifica a vitória de uns pela posse exclusiva da razão quando, afinal, existem várias razões, e o seu triunfo não se explica, necessariamente, pela justeza dos postulados.
Quando estudamos as Guerras Liberais, imediatamente emergem uns quantos nomes de protagonistas de primeiro plano no campo liberal, sobre os quais existe uma abundante bibliografia, Palmela, Sá da Bandeira, Terceira, Saldanha... - Ficando muitos outros na penumbra do desconhecimento. O mesmo já não sucede com o campo miguelista e com as suas figuras cimeiras. Se exceptuarmos Miguel, sobre quem existe uma abundante bibliografia alimentada por um certo culto que se prolongou até ao presente século, são raros os estudos sobre os seus apoiantes mais destacados. O caso do visconde de Santarém é uma excepção, centrando-se o interesse dos autores mais na sua obra como historiador. Outros destacados miguelistas foram estudados mais na vertente de teóricos da contra-revolução. Faltam estudos sobre os estadistas, os militares e os eclesiásticos miguelistas, excepção para José Agostinho Macedos e frei Fortunato de São Boaventura, tanto até 1834 como no período subsequente à derrota em que sobressai o incansável labor de António Ribeiro Saraiva. Centenas e centenas de liberais de todas as tendências partilharam as agruras do exílio e a glória da vitória, depois de tanto sofrimento, apenas constando de notas marginais nas obras clássicas sobre aquela época. O exílio liberal foi terrível, como todos os exílios políticos, agravado pela hostilidade de alguns governos europeus que toleravam de má vontade a presença desses portugueses expatriados, e, ainda mais, pelas divisões que lavraram entre eles, justificadas umas por razões do foro ideológico e outras por ódios e rivalidades pessoais. A maior parte da enorme produção literária dada à estampa na emigração está relacionada com disputas e querelas fratricidas...
Vitorino Nemésio escreveu uma obra notável sobre a vida dos emigrados liberais e do seu longo calvário até ao triunfo final; nessas páginas surgem, aqui e ali, nomes de personagens de segundo plano que carecem de um estudo mais aprofundado. Um deles é o 3.º conde de Alva, depois 1.º marquês de Santa Iria, um aristocrata e militar distinto, considerado e relacionado com algumas das melhores famílias do reino e que nos propomos estudar.. Ao mesmo tempo, publicamos um interessante conjunto de cartas suas escritas durante o exílio e a guerra civil, dirigidas a sua cunhada, D. Teresa Sousa Holstein, condessa de Vila Real, que são documentos pungentes onde se reflecte o drama pessoal do expatriado, profundamente marcado por dramas familiares, mas também o evoluir do conflito. Cremos que será mais um contributo valioso para a História de Guerra Civil e do exílio liberal.

O 3.º conde de Alva e 1º marquês de Santa Iria
A morte sem descendência dos primeiros condes de Alva, João Sousa Ataíde e D. Constança Luísa Monteiro Paim, 3.ª Senhora do morgado de Alva, fez com que o título passasse para a irmã da condessa, D. Maria Antónia de S. Boaventura Meneses Paim, a qual casou com Rodrigo Sousa Coutinho, filho segundo dos 11.os condes de Redondo. Deste consórcio nasceram sete filhos, mas só dois com descendência: Francisco Inocêncio Sousa Coutinho Meneses Monteiro Paim, progenitor dos condes de Linhares e dos marqueses do Funchal, e seu irmão gémeo, Vicente Roque José Sousa Monteiro Paim, senhor do morgado de Alva, capitão do regimento de Dragões de Chaves e diplomata nas cortes de Paris e Turin. Este último casou duas vezes. A primeira com D. Teresa Vital Câmara Coutinho, filha dos 9.os senhores das Ilhas Desertas, de quem teve uma filha, D. Isabel Juliana Bazeliza José Sousa Coutinho Paim, mãe do duque de Palmela». In António Ventura, O Exílio, os Açores e o Cerco do Porto, D. Luís Sousa Coutinho, primeiro marquês de Sta Iria, nas Guerras Liberais, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-138-9.

Cortesia Colibri/JDACT

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Entre a República e a Acracia. O Pensamento e a Acção de Emílio Costa (1897-1914). António Ventura. «... foi uma das mais destacadas figuras do movimento socialista e libertário português, tradicionalmente pobre quanto a produções autónomas e inovadoras. Assistiu aos grandes debates e testemunhou as transformações profundas operadas em Portugal e no mundo»

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Porquê consagrar quatro ou cinco anos da nossa vida a um determinado personagem, em vez de outro? Precisamente porque ele agrada-me, interessa-me, diverte-me, comove-me, pelos seus méritos, pelos seus triunfos, pelas suas misérias, pelas suas grandezas e, até, pelos seus defeitos e, por vezes, pelos seus vícios. In Jean Orieux, A Arte do Biógrafo, História e Nova História, Lisboa, 1989.

Introdução
«A frase - Ensinar, se soubesse! Sintetiza, em apenas três palavras, toda a vida e obra de Emílio Martins Costa, autor cujo pensamento e acção nos propomos estudar aqui parcialmente. Estamos perante uma figura que, vivendo entre 1877 e 1952, foi coeva das grandes transformações que marcaram a história de Portugal nas últimas décadas de oitocentos e nos primeiros trinta anos do século XX. Participou na revitalização do Partido Republicano a partir de 1897 e na agitação académica que se desenvolveu em Lisboa, com intensidade desigual, entre aquele ano e 1901; bebeu avidamente as ideias novas então em voga, ideias radicais que propunham drásticas transformações da sociedade, ideias maximalistas, aliciantes para uma juventude generosa, sempre disposta a destruir as injustiças ancestrais num ápice e a construir um mundo novo, hipoteticamente mais equilibrado, no momento seguinte.
O caminho que Emílio Costa escolheu e trilhou foi o da independência assumida até às últimas consequências, rejeitando tutelas e preconceitos de qualquer tipo que lhe condicionassem o pensamento e lhe dirigissem a acção. Essa assunção da liberdade como valor supremo, essencial e norteador, levá-lo-á a uma constante revisão de posições, frequentemente geradora de conflitos e de polémicas públicas, por vezes de grande dureza, as quais lhe acarretarão incompreensões e inimizades duradouras. Alguns momentos fulcrais da história do Portugal contemporâneo terão a sua intervenção empenhada e criadora. E o caso do grande debate sobre a questão do regime - Monarquia ou República - travado com particular ênfase a partir do início do século XX.
Sendo conscientemente libertário numa clara opção intelectual e não emocional, ao contrário de tantos outros, Emílio Costa não se esquivou a defender publicamente, numa primeira fase, a colaboração com os republicanos. Foi um dos raros teorizadores, sólido e coerente, do anarquismo intervencionista em Portugal, embora viesse depois a rever esta postura, remetendo-se para um criticismo que, no entanto, estava longe da neutralidade quietista. De facto, contrariando um esteio fundamental do pensamento libertário desde os tempos do grande debate entre Karl Marx e Miguel Bakunine no seio da Associação Internacional dos Trabalhadores, o apoliticismo, Emílio Costa não se furtava a pontuais tomadas de posição implicitamente políticas, que considerava legítimas e justificáveis em face dos fins a atingir. Distinguia claramente a política, enquanto atitude inerente à sociabilidade humana, e os partidos, em cuja teia nunca se deixou enredar e cuja actividade sempre julgou com desconfiança. Ele próprio confessará, em jeito de balanço, que nunca pertenci ao que se chama um partido político (...) e também devo dizer que nunca votei em eleições oficiais. Nunca contribuí para alguém ser deputado, vereador ou membro duma junta de freguesia. Não reduzia a sua actividade ao campo legal; bem pelo contrário, defendeu a necessidade de outras formas de organização e de acção, de carácter ilegal e revolucionário.
Ao mesmo tempo, traduziu para português as primeiras obras teóricas sobre o sindicalismo-revolucionário francês, inspirado na Carta de Amiens, trabalhos que datam de 1909, originalmente publicados pela Librairie des Sciences Politiques & Sociales na Bibliothèque du Mouvement Socialiste, depois Bibliothèque du Mouvement Prolétarien. Embora dedicasse especial atenção às questões então muito em voga, como o militarismo, a acção directa ou a organização da sociedade futura, não subestimava aquilo que designava por pequenas conquistas, isto é, tudo o que pudesse contribuir para o progresso e para o avanço da humanidade, passo a passo, em direcção a uma sociedade mais justa e mais feliz.
Não era um homem amarrado a ideias preconcebidas, por mais luminosas e salvadoras que pudessem parecer. Talvez seja essa a razão fundamental que explica uma certa resistência em se confundir no colectivo, não obstante ter participado com entusiasmo em grupos de propaganda ou noutras agremiações de diverso tipo. Ele, que estava longe e bem longe de Stirner, cujo pensamento criticou com veemência, e que nunca foi, por isso, um anarquista individualista, preferia actuar a solo em vez de se diluir no anonimato impessoal de um coro, emergindo aqui e ali, nos seus escritos, perspectivas implicitamente elitistas. Mesmo quando integrado em colectivos, a sua voz sobressaía pela qualidade do discurso e pela inovação das propostas». In António Ventura, Entre a República e a Acracia. O Pensamento e a Acção de Emílio Costa (1897-1914), Edições Colibri, Lisboa, 1995, ISBN 972-8047-94-0.

Cortesia de Colibri/JDACT

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Para a História da Fundação. Para uma cronologia da Fábrica Robinson. 1848–1966. António Ventura. «Os reflexos na sociedade local ultrapassaram os aspectos económicos, projectando-se nos domínios do social, do cultural e até do mental. A actividade corticeira moldou a sociedade portalegrense ao longo de 150 anos. As chaminés da fábrica, se converteram, juntamente com a silhueta da Sé Catedral, num ex-libris da cidade»



Cortesia da fundacaorobinson e jdact

«Quando Thomas Reynolds (Sénior) morreu na Nova Zelândia, em 1867, estava longe de imaginar que a pequena oficina de preparação de cortiça que vendera, alguns anos antes, a um seu compatriota, George Robinson, na cidade de Portalegre, se iria converter numa referência na história da indústria portuguesa. A Fábrica de Cortiça Robinson foi durante século e meio um caso invulgar no panorama industrial português. Fundada pelo empresário inglês George Robinson, manteve ao longo do tempo uma laboração sem interrupções, sabendo sempre  renovar-se mau grado as naturais dificuldades conjunturais.
A sua história confunde-se com a história de Portalegre, do Norte Alentejano e da Indústria Corticeira Nacional. Essa história consubstancia-se num importantíssimo património histórico, com destaque para um rico espólio no campo da arqueologia industrial. A empresa conservou numerosas estruturas e equipamentos do século XIX, alguns em perfeito estado de funcionamento, apesar das renovações tecnológicas periódicas. Para além do seu interesse museológico, esse material tem uma valiosa dimensão pedagógica. Mas a história da Robinson não se reduz a essa componente material. Há que acrescentar ao arquivo da empresa outros acervos documentais espalhados por arquivos públicos e privados, tanto em Lisboa como em Portalegre, uma iconografia que compreende essencialmente fotografias e postais e também um património de histórias de vida de muitos operários ainda vivos, que têm toda uma vivência social e cultural que fizeram desta empresa um caso invulgar, diríamos quase ímpar, no panorama industrial luso dos últimos cento e cinquenta anos.
A ela estiveram associadas organizações de beneficência e de instrução, corporações de bombeiros, iniciativas culturais do maior alcance que ajudaram a fazer com que esta região seja o que é hoje. A história da fábrica confunde-se com a história de Portalegre. Os reflexos da vida da empresa na sociedade local ultrapassaram em muito os aspectos meramente económicos, projectando-se nos domínios do social, do cultural e até do mental. Podemos dizer que a actividade corticeira moldou a sociedade portalegrense ao longo de cento e cinquenta  anos e que as chaminés da fábrica, embora edificadas numa fase tardia, se converteram, juntamente com a inconfundível silhueta da Sé Catedral, num ex-libris da cidade.
O caso de George Robinson não é inédito entre nós. Já  no século XVIII se assinalam diversos industriais ingleses que se fixam em Portugal, o que continua a ocorrer na centúria seguinte, em especial no sector dos vinhos do Porto e da Madeira, havendo neste último caso diversos estudos sobre a influência inglesa na economia e na sociedade madeirense.  Mas só no século XIX alguns britânicos se interessaram por um sector tradicional, mas ainda longe da expansão que alcançará em meados de oitocentos, o corticeiro, como sucedeu com os Reynolds e depois com George Robinson.
Apresentamos a seguir uma breve cronologia da história da Fábrica de Cortiça Robinson. É um pálido reflexo de uma vivência mais que secular, mas ilustrativo da sua importância no passado, no presente e no futuro. George William Robinson nasceu em Wakefield, condado de York, Inglaterra, em 1815. A sua família tinha interesses ligados à importação de cortiça portuguesa, que era transformada em fábricas britânicas. George Robinson veio a Portugal para contactar directamente com o comércio corticeiro local, visitando diversas localidades do litoral, Moita, Setúbal, Sintra, dirigindo-se depois a Portalegre. Aqui, um seu compatriota, Thomas Reynolds, fundara em 1837 uma pequena oficina para transformação de cortiça numa parte do extinto convento de São Francisco, que ficara devoluto após a extinção das ordens religiosas decretada pelos liberais triunfantes em 1834 e que traçou um novo destino para o Convento de São Francisco, o mais antigo da cidade, uma vez que a sua fundação data do século XIII


1848 – George Robinson instalou-se em definitivo em Portalegre, acabando por adquirir a pequena fábrica de Thomas Reynolds. Era o início de uma empresa que, começando lenta mas seguramente, se converteria na maior unidade fabril da cidade. George Robinson possuía todas as condições para triunfar: um estabelecimento fabril com trabalhadores dotados de um know-how, uma região produtora de matéria-prima e, sobretudo, bons contactos em Inglaterra. Iria beneficiar, também, do aumento vertiginoso das exportações de cortiça. Se em 1797 Portugal exportara 115182 grosas de rolhas e 1331 toneladas de cortiça em prancha, após uma quebra decorrente das Invasões Francesas e  da Guerra Civil, a partir de meados do século XIX as exportações não mais pararam de subir, ascendendo em 1880 a mais de 2 000 contos de réis. Ora a Grã-Bretanha absorvia mais de 50% desse volume». In António Ventura, Fundação Robinson, Publicações da Fundação Robinson nº 0, 2007, p. 8-23, ISSN 1646-7116

continua
Cortesia da F. Robinson/JDACT