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quinta-feira, 31 de agosto de 2023

No 31. A Sala das Perguntas Fernando Campos. «Oficialmente ninguém. Seria desacreditar tão feroz poder. Mas oficiosamente… Mesmo assim... Mesmo assim, só quem tivesse poder para isso, o inquisidor-geral em pessoa. O rei era jovem e visionário…»

 

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Enigma Ómega 1941

Uma janela no crânio

«(…) Os pedreiros, o coveiro, já lá estariam? Desmontar o túmulo, trasladar para a igreja de São Pedro as pesadas lápides, a do brasão, a que é encimada pela cabeça de Damião, não ía ser fácil. Não estava o amigo incumbido da trasladação pela Direcção-Geral.

Meu caro doutor, providenciei tudo.

Alcobaça? Alenquer? Mistério!... E esse papel, esse papel... ou papéis, que ainda conservava na mão? Talvez o diário a que ele próprio se referia no processo...

Talvez…

Os inquisidores fizeram-no surnir.

Não me admiraria nada.

E, não estava ele preso na Batalha? A sentença dos inquisidores condenara-o a cárcere penitencial perpétuo em lugar que Sua Alteza designaria...

O rei Sebastião ou o cardeal Henrique?

Luciano estava em crer que havia sido o inquisidor-geral, o cardeal, a indicar o mosteiro da Batalha. O superior de Santa Maria da Vitória, frei Francisco Pereira, frei António Nogueira e outros dominicanos receberam o preso das mãos de Rui Fernandes, solicitador do Santo Ofício (maldito), a dezasseis de Dezembro de mil e quinhentos e setenta e dois, e do acto lavraram certidão. Como havia aparecido então ali, no caminho ou em casa? Quem teria a coragem de, em tempos de tanto medo e perigo, se abalançar a soltar o condenado? O superior e os frades do mosteiro? Não, certamente. Cairiam nas garras do Santo Ofício (maldito) e isso constaria...

Então quem?

Oficialmente ninguém. Seria desacreditar tão feroz poder. Mas oficiosamente… Mesmo assim...

Mesmo assim, só quem tivesse poder para isso, o inquisidor-geral em pessoa. O rei era jovem e visionário. Dava lá a atenção a isso... Há quem admita ainda a comutação da pena...

Não pode ser. Estaria no processo e, que eu saiba... e Hipólito fazia menção de folhear de novo os papéis.

Também lhe parecia a Luciano. Dessem então por certo que Damião havia falecido na sua casa de Alenquer. Porque não supor que aí estivesse sob custódia?

Por mor de quê?

Se o amigo atentasse mais uma vez no texto do processo, acharia que, quando os inquisidores lavraram o acórdão de condenação a cárcere perpétuo, tiveram o cuidado de estabelecer que não fosse recebido à reconciliação e união da Igreja-ern público, mas somente na Mesa diante dos inquisidores, vista a qualidade da pessoa do réu». In Fernando Campos, A Sala das Perguntas, Difel 82, 1998, ISBN 972-290-437-X.

Cortesia de Difel/JDACT

 JDACT, Fernando Campos, Literatura, História, O Saber, Cultura, Damião de Góis,

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

A Sala das Perguntas Fernando Campos. «Estranha função esta nossa! Estamos a vinte e sete de Agosto de mil novecentos e quarenta e um… Trezentos e setenta e um anos!... aqui vamos nós a caminho da velha igreja de Santa Maria da Várzea…»

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Enigma Ómega 1941

Uma janela no crânio

«(…) Quem era ele? Não era aquela a grande interrogação?, respondia o doutor Luciano. Quem somos nós, a identidade de cada um, a consciência do eu? Desde o fundo dos tempos. Sim. Sabia-se muito pouco da vida e da morte dele. Só mistério.

O pavor da morte não é mais que o do aniquilamento da identidade, concordava Hipólito Cabaço.

A mesmidade, amigo, a mesmidade, insistia Luciano, ser uma pessoa si mesma e não outra, ter consciência de si, individualidade. entidade...

Concordo que são alguns os pontos obscuros da vida de Damião. Mas saber-se pouco, como dizes... , estranhava Hipólito olhando o companheiro enquanto o grupo descia a calçada.

Alguns? Muitos.

Acaso hesitou ele quanto a ser Fulano de Tal, filho de Sicrano e de Beltrana? Tenho aqui a cópia do processo, e Hipólito sacava de debaixo do braço um grosso caderno de papel almaço, de folhas tintas de uma letra miudinha, folheava nervosamente como diurno conhecedor do texto, as lunetas na mão, os olhos de míope muito chegados à escrita e lia: Aos cinco dias do mês de Abril de mil e quinhentos e setenta e um, em Lisboa, nos Estaus...

Isso pensava ele!, interrompia o doutor. Ter vivido com um nome, como quem diz com um eu que não era o seu...

Que queres dizer? Não era não saber um homem quem é. Era não saber que não sabe quem é. A suprema tragédia.

Ou saber homem que sabe quem é e não o poder dizer... A suprema comédia.

Uma vida inteira enganado, logrado, errada a letra do epitáfio que mandara lavrar no mármore…

Seguiram calados em seus pensamentos os tacões dos sapatos martelando nas pedras segundos de eternidade... Hipólito ia remordendo que não fora de bom-gosto a referência a comédia.

E onde o acharam morto? Aí tinha o amigo outro mistério.

Em casa, a cabeça caída sobre a lareira. Não esquecesse, amigo o testemunho do desembargador Vieira Sousa. Morrera indo da Batalha para o mosteiro dc Alcobaça. Pernoitara no caminho em uma venda. Era de invernada. Depois de cear mandara deitar os criados. Ele, por mor do frio, ficara-se ali à lareira, com uma manta pelos joelhos, a ler, a escrever. Os donos da hospedaria deram as boas-noites e retiraram-se. Pela manhã encontraram-no deitado de borco, as barbas queimadas das brasas, sem vida…

Sono? Um ar que lhe deu? … Alguns falam de icto apoplético, estrangulado por criados…

Sim, sirn, conhecia. Nos Hlspaniae Ilustratae de Andreas Schott; sive apoplectico correptus morbo, sive o furacibussuffocatus famulis incertus… Camilo fazio-o desancado a sacos de areia pelos esbirros do conde de Castanheira… Fosse como fosse, entre os dedos segurava o mesmo papel

Que papel?

Sabia-se lá. O mesmo, palavras do desembargador…

Mas outros asseveram que assim tal e qual apareceu morto na sua casa de Alenquer en trinta de Janeiro de mil quinhentos e setenta e quatro. O doutor fazia um trejeito de dúvida. Hipólito rebatia: O padre Luís Velho, ao tempo prior de Santa Maria da Várzea, lavrou-lhe o assento de óbito e o corpo foi sepultado na capela-mor, no jazigo que o próprio Damião mandara fazer para si, sua mulher e descendentes. Com o rodar dos séculos… Estranha função esta nossa! Estamos a vinte e sete de Agosto de mil novecentos e quarenta e um…

Trezentos e setenta e um anos!... aqui vamos nós a caminho da velha igreja de Santa Maria da Várzea…» In Fernando Campos, A Sala das Perguntas, Difel 82, 1998, ISBN 972-290-437-X.

Cortesia de Difel/JDACT

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segunda-feira, 30 de março de 2020

A Sala das Perguntas. Fernando Campos. «Sacrifiquei os meus vinte anos a tratar do pai e dos irmãos. Agora, com trinta e cinco, não achas que é tempo de casar? ... e de ter filhos...»

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Enigma Alfa. 1501 - 1545
O que murmuram os canaviais
«(…) Herdou as saboarias paterna, mas não a provedoria, que o pai vendera para pagar dívidas. Casava assim a irmã Inês com um homem bem dotado e rico. Uma pontinha de inveja? Ana era mais velha que Inês e lá se quedava naquele casarão de Santarém, condenada a cuidar do pai viúvo e dos irmãos, sem a companhia da irmã nem da aia Maria do Céu que Inês levava consigo. Súbito reio o luto: Inês morria do parto do filho Francisco; o cunhado casava segunda vez, com uma prima dele, Filipa, de quem teve o filho Fruitos; falecida a segunda mulher, volta a contrair matrimónio, agora Isabel Vieira que se finou de peste sem lhe dar geração: e pela quarta vez com Isabel Gomes Limi que gerou cinco filhos: primeiro Rui como o pai, falecido ainda no berço, o segundo Manuel e depois Damião, Baltasar e Antónia. A aia ia ficando na casa a cuidar das crianças. Em mil e quinhentos e onze, Isabel viu-se viúva. Foi então que ao menino Damião, nascera em mil e quinhentos e dois como o príncipe João, recordava Ana, após o saimento do pai levou-o para a corte, ainda na idade do eixo e do pião, o meio-irmão Fruitos, a sugestão de el-rei de quem era moço da guarda-roupa. Aí vão os dois rapazes a entrar nos Paços da Ribeira. Largo e comprido corredor de portadas de vidro viradas ao terreiro e, ao fundo, às naus varadas no Tejo. Grossos tocheiros em castiçais dourados. A espaços certos, pesadas portas de carvalho polido e nos intervalos, em frente das portadas, grandes espelhos a beberem a luz e a espalharem claridade. Soam-lhes os passos nas lajes de mármore, os de Fruitos mais largos, os do irmão miudinhos. Na última porta dois archeiros fardados de librés com galões de ouro fazem sentinela. Na antecâmara vem recebê-los o guarda-mor: por aqui. Vais ver o senhor do mundo, segreda Fruitos ao ouvido do irmão.
O rei Emanuel estava sentado em cadeirão de espaldar, junto a uma mesa com papéis, a ditar suas cartas ao secretário. Ao vê-los, parou de ditar e ergueu o olhar para o menino. Damião arregalou os olhos de água. O rei sorria-lhe: aproxima-te. Beija a mão a Sua Alteza, disse-lhe Fruitos em voz baixa. Damião, num dobrar de joelhos, os olhos cheios de lágrimas, beijou a mão do rei. Estás espantado, moço? Nunca viste um rei? Que se passa com teu irmão, Fruitos? Senhor, nosso pai foi a enterrar. E ver-te agora…, a tua parecença com ele... Até eu, habituado a ti, estou torvado. Vá meu filho, disse o rei afagando a cabeça do menino, enxuga-me essas lágrimas. Serei para ti um pai, verás. Ana Macedo recordava estas coisa com o susto na alma e, quando Maria do Céu se preparava para ingressar num convento… Volta para Santarém, propõe-lhe. A nossa casa continua a ser a tua. Maria do Céu ripostava: mas, menina… Céu, estou sozinha, meu paizinho Deus o chamou, meus irmãos na Índia... Cá me soou que a menina vai casar…
Sacrifiquei os meus vinte anos a tratar do pai e dos irmãos. Agora, com trinta e cinco, não achas que é tempo de casar? ... e de ter filhos... Mais uma razão para lhe fazeres companhia. Recordaremos os tempos felizes e tu ajudas-me a tratar das crianças que nascerem… Quem é ele? Um cavaleiro-fidalgo chamado Simão Vaz. Vem. Contar-te-ei tudo quando estiveres comigo. Um dia, já casada, foram viver para Lisboa e por essa altura vira Ana o rei pela primeira vez e logo notara a extrema semelhança dele com o defunto marido da sua defunta irmã, que ambos Deus fosse servido de ter em sua glória, amém. Homem de boa estatura de corpo el-rei Emanuel, mais delgado que grosso, a cabeça sobre o redondo, cabelos castanhos, a testa desanuviada deles, olhos alegres, de um verde quase branco, alvo, semblante bem-assombrado, risonho nas covas da face e na comissura dos lábios, os braços carnudos, tão compridos que as mãos lhe passavam abaixo dos joelhos, as pernas proporcionadas ao corpo...
Tão enleada ficou Ana que nem atentava na pompa, atabales e trombetas com que el-rei cavalgava a caminho do mosteiro dos frades jerónimos que andava a ser edificado. Adiante, a perder de vista, ladeada de mocetões negros com varapaus nas mão, caminhava uma pesada ganga ou rinocerota. Seguiam-se cinco elefantes e, precedendo el-rei, um alazão, acobertado, em cujas ancas um caçador pérsio levava uma onça de montaria, que lhe mandara o senhor de Ormuz». In Fernando Campos, A Sala das Perguntas, 1998, Difel, 1999, ISBN 972-290-437-X.

Cortesia de Difel/JDACT

domingo, 29 de março de 2020

A Sala das Perguntas. Fernando Campos. «Não devia ter vindo, não devia ter vindo!, desabou Maria do Céu em soluços no ombro da patroa. Moveu-se o coração de Ana…»

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Enigma Alfa. 1501 - 1545
O que murmuram os canaviais
«A cangosta de ao fundo da quinta leva ao rio sem ponte, pensou a aia. Acaba ali junto aos canaviais. Não chiam carros de bois carregados de gigas com cachos de uvas nem os muares dos lenhadores tiram carroças pejadas de madeiros. Não vêm para aqui embeber-se olhos nos olhos, arrenegando a morte, nem dar beijos furtivos os namorados de sangue impaciente. Escolherei um sítio ermo, onde ninguém passe, decidia-se Maria do Céu. Pôs o lenço preto pela cabeça, atou-o sob o queixo e ia a sair sem dizer nada... Aonde vais, Céu?, perguntou-lhe Ana Macedo suspendendo o bordado no bastidor. Havia dias já que sentia na velha aia grande inquietação: às vezes ela aproximava-se, o olhar angustiado, a boca quase a abrir-se, e calava-se. Que tens, mulher? Para quê esse
sacho?
Vou enterrar os gatinhos. A ninhada foi tamanha... Afoga-os no poço. Num saco com pedras. Têm sete fôlegos, disse desaparecendo porta fora. Tinham sete fôlegos! Tanto tinham sete fôlegos debaixo de água como debaixo de terra. Pousou o trabalho. levantou-se do escabelo e foi-lhe na peugada. Viu-a esgueirar-se lá adiante pelo portão da cortinha. Seguiu-a de longe, topou-a a caminhar açodada vereda abaixo em direcção à ribeira. Aonde vai o dianho da mulher? Boa meia légua andada, o caminho estacava junto às águas, tão serenas que ao pé dos junços nadavam alfaiates. Soava que em noites de ventania desferiam ali os pinhais o cântico de uma moira encantada. Nem vivalma, mas de detrás das canas vinha som de cavadas. Contornou a moita. Hei-de saber. A aia, cle bruços, abria um buraco e, ao ouvir passos, virou-se, largou desolada o sacho: ai, minha ama, que não devia ter vindo! Ninhada nenhuma. Para que é esse buraco? Não devia ter vindo, não devia ter vindo!, desabou Maria do Céu em soluços no ombro da patroa. Moveu-se o coração de Ana, ameigou a voz: é assim tão mau? Abre-te comigo. Há quase vinte anos que me queima a alma um segredo muito grande. Ia abafá-lo na terra.
Se o não podes contar, também não o deves enterrar. Com o vento dão as canas em murmurar e toda a gente o ficaria a saber. Partilha-o comigo. Sou cova sem fundo. Não o contarei a ninguém e tu ficas aliviada pelo menos de metade da carga, e Ana enxugava as lágrimas da pobre. Dispunha-se esta a falar... Não!, tapou-lhe Ana a boca. Não grites, não fales alto. Nem a agulha desses pinheiros nem as ervas do chão devem escutar. Diz-mo ao ouvido. A aia segredou junto à orelha de Ana e os olhos de Ana iam-se abrindo, abrindo de tão medonha coisa.
Nos dias que se seguiram desfilaram no espírito de Ana imagens antigas. A irmã Inês a sair da casa de Santarém, corria a era de mil e quatrocentos e noventa e dois, a casar com Rui Dias, um jovem de Alenquer, descendente dos senhores de Góis. Senhoria secular, sim senhor, do tempo do conde Henrique. Rui Dias era neto de Gomes Dias, criado de el-rei Fernando I e depois de el-rei João I, o da boa memória. Esteve este seu avô nas cortes de Coimbra e foi com o infante Henrique à conquista de Ceuta. Pagou-lhe o infante os serviços e o valor com lhe dar as seis saboarias de Alenquer a Atouguia e o rei João I a provedoria da gafaria de Coimbra. Casou com Brites Vaz Lemos de quem teve Lopo Dias. Quando os infantes Henrique e Fernando partiram na trágica expedição a Tânger. Gomes Dias não permitiu que o filho fosse consigo. Lopo Dias amuou e jurou nunca mais usar o apelido de Góis nem o transmitir aos filhos, mas herdou as saboarias e a provedoria do pai, que lhe foram confirmadas por el-rei Afonso, ao serviço de cuja mãe, a rainha Leonor, viúva do rei Duarte I se conservou até à morte dela em Toledo. Ora pois, este Rui Dias que aí vai a casar com minha irmã é o primogénito de Lopo Dias, desfiava Ana em seu pensamento. Guapo rapaz, boa estatura de corpo, mais delgado que grosso, a cabeça sobre o redondo, cabelos castanhos, a testa larga desanuviada deles, olhos de um verde claro, alegres, alvo, bem-assombrado, risonho nas covas da face e na comissura dos beiços, braços carnudos, tão compridos que as mãos lhe passavam abaixo dos joelhos, as pernas proporcionadas ao corpo, a voz um tanto enrouquecida». In Fernando Campos, A Sala das Perguntas, 1998, Difel, 1999, ISBN 972-290-437-X.

Cortesia de Difel/JDACT

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «Em o primeiro dia do mês de Agosto de mil e quinhentos e setenta e um anos, .m Évora, na ermida dos Reis Magos da dita cidade, o senhor licenciado Jerónimo Sousa, comigo, notário abaixo nomeado, por virtude de um precatório dos senhores inquisidores da cidade de Lisboa»

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Testemunho de Helena Jorge
«(…) E assim disse mais que era lembrada dizer-lhe, por ume vez, haverá três anos, pouco mais ou menos, Sebastião Macedo, seu marido, por o dito Damião de Goes mandar naquele tempo um filho para Flandres, que não tinha paciência mandar o dito Damião de Goes seu filho a Flandres, estando lá, a terra tão arruinada nas coisas da fé, a seu parecer. E que assim lhe parece que ouviu também dizer ao dito seu marido, assim agastado do dito Damião de Goes mandar seus filhos a Flandres, que não era mais cristão o dito Damião de Goes que essas paredes ou pedras ou paus. E que outra coisa não sabe do dito referimento, nem ouviu dizer nem fazer coisas ao dito Damião de Goes que lhe parecesse de mau cristão. E al não disse. E lhe foi mandado, sob cargo do juramento, ter segredo no caso. O que tudo disse estando presentes, por religiosas e honestas pessoas, que tudo viram e ouviram, os reverendos padres frei Francisco Santana, guardião do dito mosteiro, e frei Filipe S. José, morador no dito mosteiro, que juraram ter segredo no caso, e assinaram aqui. E ao costume disse a dita testemunha nada mais, que somente ser o dito Damião de Goes tio do dito seu marido. Pedro Álvares, notário do Santo Ofício (maldito), o escrevi, e a assinou ela aqui, juntamente com ele muito reverendo Domingos Simões. Pedro Álvares o escrevi. Helena Jorge. Domingos Simões. Frei Francisco Santana. Frei Filipe S. José.
E ida a dita testemunha, o muito reverendo Domingos Simões fez pergunta aos ditos reverendos padres que era o que lhes parecia acerca do crédito da dita testemunha e se lhes parecia que falava verdade. E por eles foi dito que lhes parecia que a falava, segundo a maneira de seu testemunhar e pola terem por muito católica cristã e por pessoa que falara verdade e tornaram assinar. Pedro Álvares, notário do Santo Ofício (maldito), escrevi. Domingos Simões, frei Francisco Santana, frei Filipe S. José.

Em Évora. Precatório
Os Inquisidores Apostólicos contra a herética pravidade e apostasia, em este arcebispado de Lisboa e sua comarca, etc., fazemos saber ao muito magnífico e muito reverendíssimo senhor doutor Diogo Mendes Vasconcelos, fidalgo da Casa de el-rei Nosso Senhor e do seu Desembargo, cónego da sé da cidade de Évora e Inquisidor Apostólico na mesma cidade e arcebispado e seu distrito, etc. Que, neste Santo Ofício (maldito), está preso Damião de Goes, cristão velho, e porque para despacho de seu processo é necessário o testemunho de sua filha dona Catarina, mulher de Luís Castro, que vive nessa cidade. Se é verdade que o dito Damião de Goes, em um dia de sábado, comeu carne, com dona Briolanja, sua sobrinha, andando ela prenhe, e depois na mesma mesa tornara a comer peixe; e sendo-lhe dito que como comia ele carne no dia de sábado, ele Damião de Goes respondera e dissera que o que entrava pela boca não sujava a alma; e que a isto estava presente ela dona Catarina. Pelo que requeremos a Vossa Mercê, da parte da Santa Sé Apostólica, e da nossa pedimos por mercê, que sendo-lhe este presentado, mande vir perante si a dita dona Catarina, ou ao lugar onde lhe parecer conveniente, e aí a perguntará, conforme ao estilo do Santo Ofício (maldito), pelo conteúdo na pergunta atrás, por ser testemunha referida no sobredito. E virá logo ratificada em forma; e o dito testemunho nos enviará cerrado e selado, por próprio sem suspeita. E isto se diz passar de catorze anos a esta parte. Dado em Lisboa, sob nossos sinais e selo do Santo Ofício (maldito), aos onze dias do mês de Julho, João Velho, notário da Santa Inquisição (maldita) o fez, de 1571. Jorge Gonçalves Ribeiro, Simão Sá Pereira.

Testemunho de dona Catarina Goes
Em o primeiro dia do mês de Agosto de mil e quinhentos e setenta e um anos, .m Évora, na ermida dos Reis Magos da dita cidade, o senhor licenciado Jerónimo Sousa, comigo, notário abaixo nomeado, por virtude de um precatório dos senhores inquisidores da cidade de Lisboa, perguntou dona Catarina, filha de Damião de Goes, preso no cárcere do Santo Oficio da Inquisição (maldito+maldita) da dita cidade de Lisboa, pelo conteúdo do dito precatório e, para em todo dizer verdade, lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos, em que ela pôs sua mão, e prometeu de a dizer. E sendo perguntada se seu pai, Damião de Goes, tinha uma sobrinha que se chamava dona Briolanja, disse que sim tinha; e que muitas vezes vinha a casa do dito seu pai. E, como eram parentes, a dita dona Briolanja se criara com ela testemunha, em casa do dito seu pai. Perguntada se a dita dona Briolanja comia muitas vezes em sua casa, disse que sim e que o mesmo fazia ela testemunha, em casa da dita dona Briolanja». In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

domingo, 8 de junho de 2014

Damião de Góis. The Life and Thought of a Portuguese Humanist. Elisabeth F Hirsch. « Se as cartas trocadas com Melanchthon não se tivessem perdido na totalidade, à excepção de uma, estaríamos em melhor situação para avaliar a extensão real da sua adesão à ‘Reforma’»

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Formação intelectual
«(…) Embora dissesse mais tarde que não sabia alemão, Góis, mal chegou a Wittenberg, num domingo, foi imediatamente à igreja de Lutero para o ouvir pregar. Depois do serviço religioso Góis assistiu a um jantar organizado pelo seu anfitrião, a maior autoridade militar da cidade, jantar a que estiverem presentes Lutero e Melanchthon. Isso proporcionou-lhe uma primeira oportunidade de discutir questões religiosas com as figuras mais representativas do protestantismo. Para um católico eminente como Góis um tal passo não era de pouca monta. Parece que Melanchthon lhe teria explicado, cheio de entusiasmo, os ensinamentos e as práticas dos protestantes e que Góis teria escutado com atenção, sem que, tanto quanto se sabe, tivesse levantado quaisquer objecções. Lutero contribuiu com o seu quinhão para a conversa, e provavelmente disse muito mais do que se sabe; Gois só mencionou a justificação de carácter geral e já muito conhecida que Lutero fez da Reforma, de que tudo o que ele fazra era com um bom fim e com o propósito de ensinar a verdade, a fim de salvar as almas desencaminhadas e perdidas.
Supõe-se que Gois teria respondido frouxamente que isso lhe parecia mal, e a sua conduta posterior leva a crer que Lutero não só não o ofendeu de modo nenhum mas que até, pelo contrário, lhe aguçou o apetite por mais informações. Nessa noite a discussão continuou em casa de Lutero. Foi uma reunião amigável em que Katharina Bora, mulher de Lutero, serviu nozes e maçãs. Embora só se conheçam alguns pormenores, é evidente que retomaram o debate de matérias controversas. Os reformadores, sem atender aos sentimentos do seu convidado, entregaram-se a uma livre crítica da Igreja Catolica. Quando a certa altura a conversa incidiu sobre o contraste entre o luxo de Roma e a simplicidade dos reformadores, Melanchthon sugeriu que se mostrasse [a Gois] a sua pobreza. Nessa questão, que era objecto de largo debate, Gois estava de acordo com os seus anfitriões e anuíu a ir a casa de Melanchthon para presenciar uma cena de vida modesta. O incidente estava-lhe ainda bem vivo na memória quando, já velho, relatou como ele viu a mulher de Melanchton fiando e vestida com uma saia velha de bocaxim, e que era pobre o dito Melanchthon.
Não há indicação de que Góis tenha tido dúvidas quanto à sua visita a Wittenberg; pelo contrário, apreciou encontros com os reformadores. Como muitos católicos de vistas liberais, Góis sentiu-se mais atraído por Melanchthon do que por Lutero, cujas maneiras um tanto ou quanto grosseiras e cujas falas fanáticas alienavam muitos simpatizantes católicos. (Dantiscus chamava-lhe possesso). O bom entendimento entre Gois e Melanchthon provinha da visão que Melanchthon tinha de uma fé culta semelhante à de Gois, e dos esforços bem conhecidos do reformador por manter o diálogo entre as igrejas. Gois estava mesmo disposto a adiar a partida por algumas horas para poder aceitar o convite de Melanchthon para um último encontro ao jantar. Os dois separaram-se como bons amigos e corresponderam-se durante um período de sete anos.
Se o testemunho da maioria dos seus compatriotas no Santo Ofício (maldito) era verdadeiro, e há poucas ou nenhumas razões para duvidar de que o fosse, Gois sentia uma profunda admiração por Melanchthon. Segundo os relatos de algumas testemunhas, o que o mais entusiasmava em Melanchthon era a humildade, e isso foi também corroborado por outras. Ao observar Melanchthon, um homem tão ilustrado, a andar a pé ao lado de Lutero (que ia a cavalo), discutindo pontos de doutrina, Góis ficou impressionado com a humilde submissão de Melanchthon à autoridade de Lutero. Conta-se que, quando Gois relatou este incidente a pessoas das suas relações, levantou os olhos ao céu como que num arroubo e exclamou: Quem viu uma coisa assim tem que confessar que ela era bem digna de se ver. A visita de Gois a Wittenberg resultou da mesma atitude que o levou a defender a Igreja da Etiopia. Embora não estivesse ainda preparado para definir a sua posição religiosa, agiu motivado pelo desejo de compreensão e de compromisso. Se as cartas trocadas com Melanchthon não se tivessem perdido na totalidade, à excepção de uma, estaríamos em melhor situação para avaliar a extensão real da sua adesão à Reforma. Por outro lado não restam dúvidas de que a sua propensão para a Reforma não era de carácter transitório, mas que, pelo contrário, representava sentimentos religiosos duradoiros. Mesmo depois de ter cortado relações com os reformadores não perdeu o espírito de tolerância que estava na origem do seu contacto com Wittenberg, o que continuou a ser vida fora a parte essencial da sua visão intelectual». In Elisabeth Feist Hirsch, The Life and Thought of a Portuguese Humanist, The Hague Netherlands, 1967, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002, ISBN 972-31-0677-9.

Cortesia de FCG/JDACT

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Damião de Góis. The Life and Thought of a Portuguese Humanist. Elisabeth F Hirsch. «O que entra pela boca não produz o mal. Na defesa, Góis falou de banquetes na Flandres em que era corrente insistirem uns com os outros para beberem mais do que o necessário, citando de brincadeira em tais ocasiões a frase bíblica, sem que ninguém se tornasse suspeito»

jdact e wikipedia

Formação intelectual
«(…) Várias testemunhas que depuseram anos mais tarde perante o Supremo Tribunal em Portugal acusaram Góis de desobedecer às regras do jejum e de justificar essa transgressão com uma citação da Bíblia: O que entra pela boca não produz o mal. Na defesa, Góis falou de banquetes na Flandres em que era corrente insistirem uns com os outros para beberem mais do que o necessário, citando de brincadeira em tais ocasiões a frase bíblica, sem que ninguém se tornasse suspeito. Essa afirmação, além de dar uma ideia da natureza um tanto ou quanto rude das reuniões sociais dos amigos de Góis, reflecte também queixas habituais da parte das autoridades católicas sobre o desleixo com que se observavam as regras do jejum. Não há razão para pensar que Gois fosse uma excepção à inclinação generalizada para não levar muito a sério certas práticas do cristianismo.
A fim de se compreenderem os erros religiosos de Góis, assim como a maneira como explorou ideias protestantes, é preciso lembrar  que tinha o apoio duma considerável comunidade católica. A geração dos católicos nascidos na viragem do século vivia num estado de grande tensão e numa atmosfera de dúvida a que se misturavam esperanças duma renovação espiritual. Para muitos católicos, insatisfeitos com Roma, o Lutero da fase inicial era a resposta a preces feitas no segredo dos corações. Como Erasmo, seu líder reconhecido, não condenavam Lutero em absoluto, nem mesmo depois do seu rompimento com a Igreja Católica.
Foi nesse clima intelectual que Góis investigou o panorama do protestantismo, fosse onde fosse e sempre que se oferecia uma oportunidade e, em especial, durante a missão de 1531. Na Dinamarca o diálogo que travou com o governante protestante, o rei Frederido, teve tamanho êxito que, por sugestão do mesmo rei, fez uma paragem para visitar um conselheiro de Schleswig, que era então território dinamarquês. Parece que aí recebeu uma surpreendente lição de protestantismo. O seu anfitrião convidou-o a um jantar espectacular, como nunca tinha visto, e que lhe ficou para sempre na memória. Como logo a seguir Gois confessasse a heresia e explicasse o incidente numa carta ao rei João III, ele tinha a certeza de que os pormenores eram bem conhecidos, e portanto admitiu esses factos, sem reservas, aos inquisidores.
O conselheiro, seu anfitrião, era um protestante fervoroso. Levantou-se de repente durante o jantar e voltou com um cálice consagrado cheio de vinho branco. Virou-se para [Gois] com o cálice na mão, observando que estava a beber de um vaso que muitas vezes o tinha traído a ele e aos seus antepassados. Quando Góis protestou, o anfitrião sentiu-se incitado a fazer ainda mais demonstrações. Colocou o vaso diante de Gois e erguendo as mãos ao céu pediu a Deus que mudasse o vinho em sangue, mostrando desse modo um [autêntico] milagre. Finalmente, passou o vaso a Góis, insistindo com ele para que bebesse; e como Gois se recusasse, o conselheiro acusou-o de ser supersticioso.
Depois dessa cena singular seria de esperar que Gois hesitasse em se dar de novo com protestantes, mas tal não sucedeu. Prosseguindo de Schleswig para Lübeck, Gois teve conversações com o conhecido reformador Johann Bugenhagen sobre a reorganização que este planeava para a Igreja e, possivelmente, (embora Gois não o relatasse), sobre problemas religiosos de carácter geral. Contudo a Dinamarca, Schleswig e Luebeck não foram senão o prelúdio do capítulo fatal das relações de Gois com os protestantes, capítulo esse que começou com uma visita de dois dias e meio a Wittenberg em 1531. Gois divulgou aos inquisidores muitos pormenores dos encontros que teve com os reformadores dessa cidade, sem lhes contar a historia toda, e é preciso ler nas entrelinhas para perceber o que se passou.
A visita de Gois a Wittenberg teve lugar um mês depois de príncipes e de cidades protestantes se terem unido na chamada Liga de Schmalkalden; esse acto exprimia claramente a desconfiança agressiva que sentiam pelos católicos. Góis não prestou a mínima atenção ao estado de tensão que lá reinava, nem à ameaça que o episódio de Wittenberg poderia constituir para a sua reputação como católico. Ê possível que tivesse sido da opinião do seu colega, o diplomata polaco Dantiscus, que, depois de ter estado em Wittenberg em 1523, observou: Quem não viu nem Roma nem Wittenberg não viu coisa alguma». In Elisabeth Feist Hirsch, The Life and Thought of a Portuguese Humanist, The Hague Netherlands, 1967, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002, ISBN 972-31-0677-9.

Cortesia de FCG/JDACT

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Damião de Góis. The Life and Thought of a Portuguese Humanist. Elisabeth F Hirsch. «Em 1527 João III criou bolsas para estudantes portugueses no colégio de Sta. Bárbara em Paris, de que Diogo Gouveia, ‘o Velho’, português de nascimento e conservador por inclinação, era director»

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O Humanismo em Portugal no reinado de João III (1521-1557)
«(…) Considerava o tremor de terra que tinha acabado de abalar Lisboa e o centro do Reino como um desses paradoxos. Avisava os frades de que não deviam tomar essa catástrofe como sinal da cólera divina contra os pecados dos Cristãos Novos, nem como pretexto para os perseguir. O tremor de terra era um acontecimento natural, que não era causado pela intervenção miraculosa de Deus, frisava Gil Vicente. Essa ênfase posta em sublinhar a lei da natureza por um grande poeta assinala o espírito científico nascente que, pelo menos em Portugal, estava tão ligado às explorações como ao humanismo ou ainda mais. Como o movimento humanista se expandiu em Portugal já depois de Gil Vicente ter sido moldado pelas principais influências formativas, ele não era humanista. O caso de Camões era diferente. Os Lusíadas, publicados em 1572, foram escritos no estilo grandíloquo da antiga poesia épica, tendo o poeta utilizado abundantemente a mitologia pagã e revelado a inspiração recebida da Eneida de Virgílio e, possivelmente, de outros modelos da Antiguidade.
As actividades dos cientistas portugueses eram até certo ponto estimuladas pelo humanismo. Por altura dos fins do século XV circulavam em Portugal, por entre um vasto público, escritos de antigos geógrafos como o De Situ Orbis de Pomponius Mela, a Geographia de Ptolomeu ou a História Natural de Plínio. Quer por influência dos autores da Antiguidade, quer pela das aventuras além-mar, a invulgar combinação de teoria e prática entre os cientistas portugueses insere-se no contexto do realismo humanista. Pode-se citar Garcia da Orta, o conhecido botânico dos Collóquios dos simples e drogas e cousos medicinais da India e assi de algumas frutas achadas nela, como exemplo de rigor científico na observação e experimentação. A descrição das plantas e drogas medicinais que Garcia da Orta descobriu na Índia baseava-se, em muitos casos, em experiências feitas por ele mesmo. Os intelectuais do resto da Europa aperceberam-se bem da importância do livro de Garcia da Orta que em 1567, isto é, apenas quatro anos após a sua publicação, foi traduzido para latim pelo botânico holandês Carolus Clusius. Também me ocorre o nome de Pedro Nunes, astrónomo e matemático. As experiências marítimas de João de Castro enriqueceram a base factual sobre a qual Pedro Nunes construiu as suas teorias, e João, como era de esperar, serviu-se por sua vez dos conhecimentos teóricos de Nunes. A maioria das figuras de destaque ligadas às aventuras marítimas escreviam diários ou deixavam memórias que ajudavam os estudiosos de campos muito diversos a utilizarem métodos que se aproximavam dos níveis modernos. A sofreguidão com que os viajantes portugueses recolhiam dados em países estranhos compara-se à avidez da procura de novos manuscritos pelos humanistas.
Por outro lado, a cultura humanística em Portugal não publicou nenhuma obra com a magnitude da Bíblia Poliglota de Alcalá. Para que isso se compreenda, é preciso ter em conta a pequena dimensão do país e o facto de que uma boa porção dos seus habitantes, entre os quais se contavam muitos jovens de talento, estava envolvida nas questões do ultramar. Isso também pode explicar a razão por que a comunidade humanista era um grupo reduzido e bastante selecto. intimamente ligado à corte. Apesar disso as actividadeí humanísticas dos portugueses merecem ser melhor conhecidas, em especial por terem florescido num clima intelectual único. Antes de o rei iniciar a reforma universitária, os estudantes jovens e ambiciosos procuravam uma educação humanística no estrangeiro, nas universidades de Itália, Espanha, França ou da Flandres. Em 1527 João III criou bolsas para estudantes portugueses no colégio de Sta. Bárbara em Paris, de que Diogo Gouveia, o Velho, português de nascimento e conservador por inclinação, era director. Mas só se pensou nisso como uma medida a curto prazo, pois que poucos anos mais tarde o rei ponderava as possibilidades de melhorar o ensino na Universidade». In Elisabeth Feist Hirsch, The Life and Thought of a Portuguese Humanist, The Hague Netherlands, 1967, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002, ISBN 972-31-0677-9.

Cortesia de FCG/JDACT

Damião de Góis. The Life and Thought of a Portuguese Humanist. Elisabeth F Hirsch. « A reforma académica de João III veio demasiado tarde e foi, portanto, menos eficiente do que se tivesse sido iniciada a tempo. A tolerância do rei para com vários grupos de humanistas de convicções largamente divergentes já não estava de harmonia…»

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O Humanismo em Portugal no reinado de João III (1521-1557)
«Damião de Gois desembarcou em Lisboa em Agosto de 1545, possivelmente sob o domínio de fortes emoções. Tendo saído de Portugal ainda moço, voltava agora como humanista de renome, casado e pai de três filhos. Com que orgulho não teria apresentado a Johanna o porto movimentado e a colorida cidade de Lisboa no cimo de altivas colinas! Mas era um regresso ensombrado. Johanna tinha trocado o seu mundo familiar por um país totalmente estranho, e o próprio Damião não negava que teria preferido viver no estrangeiro. Embora parecesse contar com um futuro brilhante na pátria, ao chegar encontrou Portugal mergulhado num aceso debate intelectual, que acabou por afectá-lo pessoalmente, e aflito com dificuldades económicas. Góis conta que o rei Manuel I tinha incutido nos filhos o amor pelo saber e pela cultura. e que o Príncipe João, seu sucessor, tinha recebido uma sólida formação historica. Desse modo o rei parecia bem apetrechado para modernizar as instituições de ensino superior em Portugal, uma vez resolvidas as questões no ultramar. É surpreendente que as gerações posteriores não tenham devidamente reconhecido tudo quanto ele fez, mas talvez nenhum outro dirigente português se tenha prestado tanto a juízos erróneos. João III tem sido descrito como fanático, hipócrita, homem de escassa cultura, e é precisamente um dos propósitos deste capítulo apresentar dele uma imagem mais realista. Veremos que não era tão fanático como pretendiam os seus inimigos e que a Inquisição (maldita) era tanto um instrumento calculado para aumentar o orçamento como para eliminar os hereges. A atitude que adoptou na controvérsia sobre a Igreja Etíope já demonstrou o seu pragmatismo, que os seus opositores classificavam de hipocrisia.
A reforma académica de João III veio demasiado tarde e foi, portanto, menos eficiente do que se tivesse sido iniciada a tempo. A tolerância do rei para com vários grupos de humanistas de convicções largamente divergentes já não estava de harmonia com a rápida evolução na maneira de pensar do século. Ao associar-se com humanistas liberais, erasmistas e conservadores, assim como com os Jesuítas. João III mostrava ter um espírito muito mais aberto do que qualquer outro governante da sua época, mas foi exactamente essa faceta da sua reforma que não lhe sobreviveu por muito tempo. A vida académica em Portugal foi em breve encaminhada para uma única via e, em consequência, os esforços de João III para estabelecer uma comunidade culta, composta por elementos variados, foram vistos a uma luz negativa.
Gil Vicente marcou o início do florescimento cultural do Portugal quinhentista, assim como Luís de Camões marcou o seu fim. Gil Vicente, favorito da corte, foi autor de numerosos autos que tiveram um vasto público. A enorme produção literária deste poeta assim como os seus escritos reflectiam uma era de grande orgulho nacional e uma certa tendência para a crítica social e religiosa. Gil Vicente apoiava com entusiasmo a expansão além-mar do seu país mas, da mesma maneira que outros autores portugueses, como o historiador João de Barros, referia-se ironicamente à degradação da vida monástica, e, tal como o humanista flamengo Clenardo, censurava as camadas mais altas da sociedade portuguesa pela sua indolência e amor do luxo. Conquanto os seus laços com a Idade Média fossem acentuados, exprimia às vezes ideias bastante modernas. Em 1531, num discurso que ficou famoso, feito aos frades dum mosteiro em Santarém, o poeta descreveu dois mundos, o mundo de Deus e o mundo do homem. Pintava um quadro colorido do universo de Deus, eternamente igual, realidade imutável, enquanto que imaginava o mundo dos seres humanos como um fluxo constante, um eterno devir, essencialmente uma luta entre opostos como o verão e o inverno, a noite e o dia, e, por causa dos seus paradoxos, um enigma para a compreensão do homem». In Elisabeth Feist Hirsch, The Life and Thought of a Portuguese Humanist, The Hague Netherlands, 1967, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002, ISBN 972-31-0677-9.

Cortesia de FCG/JDACT

sábado, 3 de maio de 2014

Damião de Góis. The Life and Thought of a Portuguese Humanist. Elisabeth F Hirsch. «… anos de mais estreito contacto com os ‘Protestantes’ e essa é que é a verdade apesar duma afirmação curiosa que ele fez num relatório para os inquisidores em Portugal, ‘durante o seu julgamento’ em 1571-1572»

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Formação intelectual
«(…) Apesar de Grapheus ter de dar os retoques finais a legatio (pois Góis nunca chegou a ser um bom estilista em latim), e apesar de essa obra ter sido publicada sem o conhecimento de Góis, devido à relutância que sentia em o fazer, ela representa o primeiro passo que ele deu como pensador e marca uma viragem na sua carreira. No prefácio, Góis presta o tributo devido a Johann Magnus por tê-lo iniciado no caminho em que se viria a realizar como humanista. As relações de Góis com Magnus estão na origem da sua dedicação a outra causa cristã, quando o arcebispo o associou a um problema que o comoveu a fundo. No bispado de Upsala, Magnus devia ter tido os Lapões sob a sua supervisão eclesiástica, mas esse povo, explorado por príncipes cristãos, resistia tenazmente à conversão ao cristianismo. Góis queria agir a favor dos Lapões, e quando Magnus lhe pediu que desse a conhecer ao público a situação lamentável em que eles se encontravam, Góis redigiu um sentido apelo, que acrescentou a legatio, para que se lhes desse um melhor tratamento. Embora os encontros posteriores entre os dois homens não fossem frequentes mantiveram uma amizade profunda que se baseava na compreensão mútua e que os influenciou a ambos. Depois de Góis se ter avistado com Magnus uma segunda vez, em Danzig, em 1531, tornaram a encontrar-se anos mais tarde em Itália, onde o português estava a prosseguir os seus estudos e onde Magnus esperava participar no projectado concílio de Mântua. O concílio não chegou a realizar-se e o arcebispo, juntamente com Olaus, seu irmão, que o acompanhava, ficou sem recursos financeiros. Góis fez um apelo ao Papa para que socorresse esse homem que já sofrera pela causa da religião, mas esses esforços bem intencionados foram em vão, e Magnus passou privações até morrer.
Os primeiros anos de preparação de Góis para a carreira humanística foram também os anos de mais estreito contacto com os Protestantes e essa é que é a verdade apesar duma afirmação curiosa que ele fez num relatório para os inquisidores em Portugal, durante o seu julgamento em 1571-1572. Lembrava aos acusadores que os erros religiosos que tinha cometido durante a estada em Antuérpia se deviam à sua ignorância do Latim, que fazia com que lhe fosse impossível debater com as autoridades na matéria. Esse argumento não deixa de ter o seu quê de ironia, vindo como vinha dum humanista erasmista como Góis, que estava bem ciente da insistência de Erasmo no estudo das línguas clássicas como processo de melhorar o ensino cristão tradicional. A inclinação que Góis revelou pela Reforma desde a chegada a Antuérpia até ao ano de 1538 deve ser interpretada em parte como sendo o fruto da sua intimidade com Cornelius Grapheus, mas em última análise é o próprio impulso interior que explica a forma favorável como Góis reagiu ao clima espiritual de Antuérpia. A cidade estava dominada por mercadores alemães que importavam e que difundiam ideias reformistas luteranas. Na velhice Góis falou francamente com os inquisidores sobre os contactos sociais que tivera com pessoas de Antuérpia que falavam da reforma e introduziam práticas luteranas, e disse que tinha caído num hábito comum entre homens e mulheres (isto é, o de errar quanto à verdade em religião), rejeitando naquele tempo tanto as indulgências como a confissão oral. Na realidade Góis assimilou muito mais completamente do que queria confessar à Inquisição (maldita) as inovações religiosas com que esteve em contacto em Antuérpia». In Elisabeth Feist Hirsch, The Life and Thought of a Portuguese Humanist, The Hague Netherlands, 1967, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002, ISBN 972-31-0677-9.

Cortesia de FCG/JDACT

domingo, 20 de abril de 2014

Damião de Góis. The Life and Thought of a Portuguese Humanist. Elisabeth F Hirsch. «Desde o dia em que conhecera Mateus, a curiosidade de Góis pela ‘Igreja Etíope’ tinha sido despertada, e tinha-se vindo a criar nele lentamente um forte impulso para defender essa religião controversa»

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Formação intelectual
«(…) À admiração de Góis pela Alemanha juntava-se um grande afecto pela Holanda e um caloroso apreço pela Flandres como local de residência. Embora se nos possa afigurar paradoxal que Góis tivesse tido sentimentos patrióticos ao mesmo tempo que nutria tamanha simpatia e consideração por outras nações, aparentemente esses sentimentos harmonizavam-se e, de certo modo, complementavam-se uns aos outros. Não tinha dificuldade em agir por vezes com um patriotismo fervoroso e em adoptar ao mesmo tempo uma visão global, ou em avaliar sem preconceitos os costumes das outras nações. Os pendores humanistas e históricos de Góis levantaram a questão de se dedicar ou não ao estudo por toda a vida. Enquanto estava ainda indeciso nesse ponto, Gois travou conhecimento em Danzig com Johann Magnus, arcebispo de Upsala no exílio, e conversou com ele por várias vezes. Esse foi um encontro importante para Góis, pois que o bispo exilado se veio a revelar como um amigo influente e com afinidades excepcionais; é possível que Gois ficasse a dever a Joannes Dantiscus, embaixador polaco na corte de Carlos V, o ter sido apresentado a Magnus, cujo espírito era tão receptivo à maneira de pensar do próprio Góis.
Johann Magnus tinha estado ao serviço diplomático do rei da Suécia até à altura da conversão de Gustavo Vasa ao protestantismo em 1527. Mesmo antes disso o rei tinha tratado Magnus com desdém e desconfiança, devido às diferenças religiosas entre eles. Quando Johann Magnus por fim fugiu da Suécia, não tinha ilusões quanto aos perigos duma intimidade demasiada com um governante. Agora que tinha conseguido uma educação humanística em muitos centros de estudo famosos e aprendido o valor da erudição, dedicava todas as energias a trabalhos históricos, sem guardar saudades da vida diplomática que tinha abandonado. A maneira culta de encarar o mundo e a concepção lata que Johann Magnus tinha do catolicismo, assim como o seu grande apreço por Erasmo, atraíam Góis, que passou a ter grande confiança nele e a respeitar os seus conselhos.
A modéstia que sentia quanto à sua própria capacidade como escolar levou Góis a adiar uma mudança drástica de ocupação. Um sentimento de inferioridade, talvez causado pela falta de escolaridade, fazia-lhe sentir a necessidade, não só como principiante, mas através dos primeiros anos de tentativas humanísticas, de ter a inteira sanção de um amigo autorizado antes de iniciar qualquer projecto de trabalho. Sentia uma necessidade igual de aprovação depois de completar um projecto, antes de consentir na sua publicação. Ao falar pela primeira vez com Johann Magnus em 1529 tinha em mente uma tarefa que não ousava ainda abordar. Desde o dia em que conhecera Mateus, o enviado do Négus, a curiosidade de Gois pela Igreja Etíope tinha sido despertada, e tinha-se vindo a criar nele lentamente um forte impulso para defender essa religião controversa. O relato pormenorizado que fez da questão da Etiópia foi bem recebido por Johann Magnus. Graças às numerosas viagens que tinha feito na juventude, Magnus estava mais habilitado do que qualquer dos amigos mais antigos de Gois a compreender a urgência do problema religioso dessa nação longínqua. O arcebispo exilado concordava com a opinião de Góis, de que a Igreja da Etiópia devia ser recebida como membro da comunidade ocidental cristã, e encorajou-o a chamar a atenção dum público mais vasto para o problema. Em vista disso, Gois ao regressar de Antuérpia, intensificou os seus estudos de latim até ser capaz, por fim, de traduzir do português para essa língua as cartas que Mateus tinha trazido para o rei português e para o Papa». In Elisabeth Feist Hirsch, The Life and Thought of a Portuguese Humanist, The Hague Netherlands, 1967, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002, ISBN 972-31-0677-9.

Cortesia de FCG/JDACT

Damião de Góis. The Life and Thought of a Portuguese Humanist. Elisabeth F Hirsch. «… insistia em que os príncipes e, supõe-se, os cortesãos, lessem regularmente as velhas crónicas. Por isso Damião aprendeu um pouco da disciplina a que mais tarde iria dedicar as suas energias de escolar, e começou a ter uma concepção da historiografia como ciência»

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A Corte de Manuel I
«(…) Enquanto se formava o carácter intelectual de Góis também se desenvolviam os seus interesses culturais. O rei Manuel I devia ter sido um professor sagaz que pelo exemplo e pelo entusiasmo foi capaz de despertar as capacidades latentes do discípulo. As inclinações de Góis harmonizavam-se com as predilecções pessoais do rei, e a personalidade do jovem desabrochava plenamente na atmosfera do palácio real que tão conforme era à sua própria índole. O tom da corte, alegre e despido de formalidades, tornou-se parte da atitude e do modo de vida de Góis. Como um príncipe típico da Renascença, Manuel I patrocinava múltiplas actividades culturais e espirituais. Assim, por exemplo, manifestava piedade religiosa deplorando abertamente os abusos verificados durante o pontificado de Alexandre VI. As comédias e farsas do maior dramaturgo português da época, Gil Vicente, famoso pela crítica social que incluía a censura severa da Igreja e das ordens religiosas, eram apresentadas regularmente na corte. É possível que Góis tivesse ganho o gosto pela discussão franca de pontos controversos de religião através de Gil Vicente, muito antes de se ter familiarizado com o Elogio da Loucura de Erasmo, mas os seus escritos não mencionam o nome do dramaturgo.
É provável que as peças ou autos de Gil Vicente tenham sido especialmente aliciantes para Góis pelos trechos musicais que continham. Embora Damião fosse sensível a todas as artes, era pela música que se exprimia o seu talento criador. A boa sorte de Gois quis que o rei fosse amigo da música, mantivesse uma capela excelente, e não só apreciasse a música nas horas de lazer mas também pedisse com frequência aos seus músicos que tocassem enquanto trabalhava. Gois familiarizou-se com vários instrumentos e tocava alguns. Ouviam-se os tons suaves da espineta, da harpa ou do violino nas reuniões sociais de maior intimidade, enquanto que a flauta ou o tamborim eram fontes de distracção ou de música de dança. Usavam-se o tambor e o trombone nos desfiles militares, e a trombeta nas funções de cerimonial.
Góis distinguiu-se como executante do clavicórdio, do címbalo e da cítara, e é possível que nessa época tenha tentado compor na tradição dos famosos músicos flamengos Ockeghem e Josquin. Embora não haja a certeza quanto às datas das suas composições, na juventude manifestou preferência pela polifonia. Manuel I, como Góis nos conta na crónica do monarca, procurava atrair à corte os melhores músicos da Europa e do além-mar; devem ter sido incluídos representantes da música polifónica, visto que esse género de música se tinha espalhado em muitos países e era popular na vizinha Espanha, em especial na Universidade de Salamanca e na corte de Carlos V. Durante a permanência de Góis no palácio, Manuel I pôs em prática um ambicioso programa de construção que só foi igualado pela reedificação de Lisboa por Pombal após o terrível terramoto de 1755. Os olhos de Gois cedo se treinaram a distinguir a obra do artista autêntico da de imitação inferior. Tornou-se um coleccionador entusiasta de quadros e acabou por ser conhecido pela sua colecção de obras de grandes artistas contemporâneos.
Por se preocupar com as artes, o monarca não mostrava interesse por reformas na esfera académica, embora elas fossem bem precisas, e em consequência Damião não teve no palácio grandes oportunidades para adquirir conhecimentos da literatura da Antiguidade. Apesar disso, contudo, recebeu bastante encorajamento nas suas primeiras mostras de interesse pela história. Manuel I tinha um grande sentido da tradição, e foi no seu reinado que começou a enfadonha tarefa de se pôr ordem nos Arquivos Nacionais, tarefa que seria continuada muitos anos mais tarde pelo próprio Góis. Para mais, Manuel I insistia em que os príncipes e, supõe-se, os cortesãos, lessem regularmente as velhas crónicas. Por isso Damião aprendeu um pouco da disciplina a que mais tarde iria dedicar as suas energias de escolar, e começou a ter uma concepção da historiografia como ciência». In Elisabeth Feist Hirsch, The Life and Thought of a Portuguese Humanist, The Hague Netherlands, 1967, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002, ISBN 972-31-0677-9.

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terça-feira, 8 de abril de 2014

Damião de Góis. The Life and Thought of a Portuguese Humanist. Elisabeth F Hirsch. «Ao invés do rei, o jovem Góis estava mais interessado na questão religiosa do que nos aspectos políticos da mensagem de Mateus. Chega até nós, nas palavras do próprio Góis, o relato da longa conversa que teve com o emissário…»

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A Corte de Manuel I
«(…) Mas Gois e grande número dos seus contemporâneos também viam nesses animais os mensageiros de um outro continente; os elefantes inspiravam-lhes orgulho no poder do homem sobre as forças selvagens da natureza. Assim como os astronautas da era espacial são considerados heróis nacionais, também os aventureiros portugueses do além-mar que tinham descoberto as terras donde vinham os maravilhosos elefantes devem ter suscitado em Góis e nos seus compatriotas uma grande impressão de orgulhos. Embora a Índia tivesse atraído sobremaneira a atenção de Góis durante muitos anos, outras civilizações estrangeiras tiveram para ele um significado pessoal. Estava presente quando foram apresentados ao rei alguns Índios do Brasil; Manuel I informou-se jovialmente do modo como viviam e desafiou-os a demonstrarem a sua famosa destreza com o arco e a flecha. Foi este o primeiro contacto de Góis com uma tribo primitiva, e dá-nos um exemplo da atitude despida de preconceitos que ele tinha para com a gente simples. Em vez de se sentir superior e condescendente, ou de conceber uma ideia romântica dos Índios, Góis, com curiosidade espontânea e calor humano, via-os tal como eles eram de facto. A capacidade de Gois para se colocar no lugar dos outros revelou-se particularmente no seu encontro com Mateus, emissário do Negus da Etiópia a Manuel I em 1514 / 1515. Gois tinha apenas treze anos de idade quando Mateus chegou a Lisboa com o oferecimento de uma aliança militar da parte do Negus e com o pedido de que a Igreja etíope fosse admitida como membro da comunidade cristã do Ocidente, esperança essa que viria, infelizmente, a ruir.
Desde os tempos da Alta Idade Média que circulavam na Europa histórias descrevendo a riqueza e o poder dum soberano cristão no coração da África ou da Ásia. O Infante Henrique tinha mandado os seus marinheiros para o alto mar na esperança de o descobrir e de fazer dele um aliado contra os mouros. Agora tinha-se finalmente encontrado o fabuloso Negus mas as aspirações religiosas dos seus súbditos haviam de ficar frustradas. O monarca Manuel I considerava a Etiópia um aliado militar desejável, potencialmente útil contra as arremetidas dos turcos em direcção ao Mar Vermelho, e recebeu Mateus com todas as honras devidas ao representante duma grande potência. Apesar disso, a resposta que deu ao pedido que o Negus fazia em matéria de religião foi francamente negativa. Reprovando os ensinamentos e as práticas religiosas dos Africanos por pouco ortodoxas, o rei não tinha a menor intenção de considerar a Igreja Etíope como parte do Catolicismo Romano.
Ao invés do rei, o jovem Góis estava mais interessado na questão religiosa do que nos aspectos políticos da mensagem de Mateus. Chega até nós, nas palavras do próprio Góis, o relato da longa conversa que teve com o emissário, o qual, muito provavelmente, lhe explicou os pontos principais da religião etíope. Embora se lhe tivessem apagado da memória os pormenores deste acontecimento, Gois estava bem lembrado do teor geral do diálogo travado com Mateus. Nas viagens posteriores que fez ao serviço do rei português Góis transmitiu a pessoas conhecidas informações sobre a Igreja da Etiópia e manifestou o seu espanto ante a expansão do Cristianismo até um posto tão remoto, pouco lhe interessando as diferenças de dogma entre a Igreja africana e a católica. Pela vida fora manteve-se favorável à religião etíope, defendendo-a vigorosamente quando já amadurecido, apesar dos perigos que daí adviriam à sua reputação religiosa. Esses contactos com outros países, resultantes das expedições além-mar dos portugueses, influenciaram grandemente o espírito de Góis no sentido duma visão larga do mundo. Também ajudaram a criar nele uma salutar consciência nacional e uma disponibilidade para aceitar ideias novas em diversos campos do empreendimento humano. Excepto no desenvolvimento do patriotismo, essas qualidades representam tendências do seu pensamento que em muito se assemelhavam ao humanismo erasmista». In Elisabeth Feist Hirsch, The Life and Thought of a Portuguese Humanist, The Hague Netherlands, 1967, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002, ISBN 972-31-0677-9.

Cortesia de FCG/JDACT

Damião de Góis. The Life and Thought of a Portuguese Humanist. Elisabeth F Hirsch. «Nas ruas da cidade apinhavam-se figuras coloridas vindas de terras distantes; uma nova população de mercadores representava quase todos os países da Europa. O porto movimentado estava cheio de navios que iam de partida, ou de caravelas que regressavam de expedições longínquas»

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A Corte de Manuel I
«As casas da terra natal de Damião de Góis, Alenquer, encarrapitavam-se no cimo dum monte íngreme e brilhavam, ao sol radioso, numa brancura que cegava os olhos. Chegava-se por estradas sinuosas ao topo do monte e à igreja da Várzea, onde Damião foi baptizado e onde viria a ser enterrado. Em rapaz talvez tivesse ido pescar no rio manso ou tivesse gozado da sombra fresca das árvores das margens. Damião nunca perdeu o amor à terra onde nasceu, embora tivesse saído de Alenquer aos nove anos para ir servir de pajem a Manuel I. Para o pequeno Damião a partida para a corte do rei constituiu uma mudança dramática, de um meio familiar abastado onde vivia com os irmãos e as irmãs, para o esplendor e fascinação dum palácio rico e para a companhia de príncipes e de outros cortesãos. Góis teve a sorte de nascer no Portugal dos Descobrimentos, período de feitos que não tiveram igual nos séculos que se lhe seguiram. A posteridade deu a Manuel I, cunhado de João II, o cognome de o Venturoso, cognome esse que Góis viria a empregar na crónica que fez do seu reinado. Manuel, como Góis havia de relatar, ascendeu ao trono de Portugal por um acto da Providência. João II desejava ter seu filho ilegítimo Jorge por sucessor, pois que o filho legítimo e outros herdeiros presuntivos já o tinham precedido no túmulo; mas sua mulher, D. Leonor, que pertencia à poderosa casa portuguesa de Bragança, desejava naturalmente que o seu próprio irmão fosse herdeiro do trono. Essa família eminente já estivera implicada na tentativa de impedir a concentração do poder no soberano. A conspiração tinha ficado gorada, e, em consequência, alguns dos Braganças tinham sido executados ou banidos.
Após a ascensão do rei Manuel I ao poder, a actividade cultural do país fez vastos progressos nas artes e nas ciências, culminando mais tarde em 1572 com a grande epopeia de Luís de Camões, Os Lusíadas. Durante o reinado de Manuel I, Góis assistiu a acontecimentos importantes. O jovem ouvia narrativas de marinheiros e soldados que tinham penetrado nas profundezas de África, contos sobre as riquezas e as maravilhas da história e da cultura da Índia, histórias das antigas civilizações da China e do Japão, relatos dos costumes primitivos de tribos recentemente descobertas no Brasil. O palácio de Manuel I resplandecia com sedas, brocados, tapeçarias do gosto mais requintado, e com pedras preciosas; e essa exibição de riqueza era um reflexo da fama do rei, que se estendia por três continentes. Lisboa, cujos habitantes se ufanavam da sua cidade construída sobre sete colinas como Roma Eterna, oferecia um panorama grandioso sobre o vasto oceano. Antes dos Descobrimentos era uma cidade sonolenta, mas agora que os portugueses tinham penetrado no segredo do além-mar, Lisboa, como o palácio real, era o espelho dum mundo em permanente expansão. Nas ruas da cidade apinhavam-se figuras coloridas vindas de terras distantes; uma nova população de mercadores representava quase todos os países da Europa. O porto movimentado estava cheio de navios que iam de partida, ou de caravelas que regressavam de expedições longínquas.
Numa idade facilmente impressionável, Damião integrou-se nessa cidade turbulenta, tão vitalizada pelos acontecimentos históricos. Dotado de aguda curiosidade, estava extraordinariamente atento aos acontecimentos em seu redor. Não se satisfazendo com o papel de observador passivo, Damião aproveitava todas as oportunidades para conhecer visitantes do estrangeiro e para se informar sobre terras e gentes que nunca vira. Desde os primeiros tempos passados no palácio até aos anos de maturidade Gois sentiu-se particularmente estimulado pela conquista da Índia e pelos estranhos costumes do seu povo. Os elefantes mandados ao monarca Manuel por príncipes indianos como marca de respeito deixaram nele uma funda impressão. O alvoroço com que esses animais foram recebidos deve ter sido causado em parte pela fama dos elefantes de guerra que se tinha espalhado pelo mundo depois da entrada de Alexandre Magno na Índia. Nos escritos de maturidade Gois relembrava muitas vezes a sensação causada por um desfile desses elefantes pelas ruas de Lisboa, e relatou uma vez um episódio destinado a mostrar a capacidade de compreensão do elefante, bem como a sua habilidade para comunicar com os homens. O caso passou-se no porto de Lisboa, onde um barco estava à espera de um elefante para o transportar para Roma como presente destinado ao Papa. Dizia-se que o animal, apesar de muito instigado, se recusava a entrar no barco, mas que, por fim, depois de o rei lhe ter assegurado que a sua transferência para outra personagem elevada era da vontade do primitivo dono indiano, o elefante obedeceu com lágrimas nos olhos. Não se devem pôr de lado como ingénuas ou símplices considerações como estas, relatadas por Gois em reacção a um tal espectáculo; o interesse que tinha por uma cena nova e por um comportamento invulgar era partilhado por muitos». In Elisabeth Feist Hirsch, The Life and Thought of a Portuguese Humanist, The Hague Netherlands, 1967, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002, ISBN 972-31-0677-9.

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