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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Camila. A Virgem Guerreira. João Nunes Torrão. «Terá esta diferente maneira de vestir algo a ver com o seu comportamento guerreiro? É que, no tempo em que andava coberta com uma pele de tigre, conseguia vencer, sem dificuldade, os animais da floresta, apesar de ser ainda uma criança»

Cortesia de wikipedia

«(…) Na realidade, Camila fica cega para tudo o resto; os seus olhos só vêem o guerreiro Cloreu:

unum ex omni certamine pugnae
caeca sequebatur totumque incauta per agmen
femineo praedae et spoliorum ardebat amore,

Era apenas a ele que, em todas as refregas, perseguia, na sua cegueira e,
sem precaução [corria] por todo o campo, numa ânsia bem feminina por
aquela presa e por aqueles despojos.

E assim esta enorme sede de despojos acaba por se transformar numa sombra fatal para Camila e para as tropas que estavam sob o seu comando. A caracterização desta figura apresenta, contudo, alguns pontos que permanecem na obscuridade. De facto, quando era uma criança de tenra idade, vai com o seu pai, Métabo, para o exílio. Mais tarde, porém, surge perante o leitor como rainha incontestada dos Volscos, povo que tinha afastado Métabo do trono e do seu território através de uma perseguição impiedosa. Como se verifica este regresso à pátria e ao trono de onde o seu pai fora expulso? Virgílio nada nos diz sobre o assunto. Associada a esta diferença na maneira de viver, aparece também uma maneira diferente de se vestir. Enquanto criança e jovem caçadora, Camila envergava como vestuário uma simples pele de tigre, e este facto é apontado por Diana como um motivo de orgulho, dado o contraste estabelecido:

Pro crinali auro, pro longae tegmine pallae
tigridis exuuiae per dorsum a uertice pendent.

Em vez de um gancho de ouro no cabelo, em vez de um longo vestido, é uma
pele de tigre que, desde a cabeça, lhe pende pelas costas.

Quando, porém, se apresenta como rainha dos Volscos, já aparece adornada com um belo manto de púrpura e com um gancho de ouro no cabelo, fazendo com que todos fiquem admirados com a sua beleza. Mais tarde ainda, não contente com as suas ricas vestes reais, vai perseguir um guerreiro, só porque ele vem adornado com vestes ricas e vistosas. Terá esta diferente maneira de vestir algo a ver com o seu comportamento guerreiro? É que, no tempo em que andava coberta com uma pele de tigre, conseguia vencer, sem dificuldade, os animais da floresta, apesar de ser ainda uma criança; quando, porém, aparece ricamente vestida e, sobretudo, quando deseja os vistosos despojos dos outros, apesar de vencer uma série de guerreiros, acaba por suportar em si própria a dureza da morte. Mas, haverá alguma razão para a existência destes pontos obscuros na figura de Camila?
A este facto não serão, naturalmente, estranhos os diferentes modelos que Virgílio utilizou no desenho desta sua virgem guerreira. Na verdade, foram vários os elementos que contribuíram para o esboço desta personagem. Camila é, antes de mais, uma personagem itálica, ainda que não conheçamos com muita profundidade os elementos locais de que Virgílio se terá servido, pois o Mantuano é o único autor que dela nos fala. Em contrapartida, sabemos que no delineamento desta jovem heroína entraram elementos de algumas personagens mitológicas, nomeadamente Hipólito, Pentesileia e Harpálice.
Hipólito é o modelo de fundo. O amor de Ártemis, tal como o amor de Diana em relação a Camila, é uma das grandes linhas de orientação da vida de Hipólito, mas, em ambos os casos, a protecção concedida por estas deusas não impede que elas se afastem no momento da morte. Além disso, uma das ocupações predilectas de Ártemis é a caça e, por isso, Hipólito passa a sua vida nesta tarefa, como vai acontecer com Camila antes de ir para a guerra. Pentesileia é, como sabemos, a rainha das Amazonas que, após a morte de Heitor, participa na guerra de Tróia, onde é morta por Aquiles. Trata-se, pois, de uma mulher que desempenha as altas funções de rainha no meio de um povo que tinha a particularidade de ser constituído só por mulheres, uma vez que os homens que aí eram admitidos se destinavam apenas a trabalhos servis e à procriação. Esta facto implica que a corte da rainha teria de ser obrigatoriamente feminina e isto vem realçar ainda mais a semelhança com Camila, que nos aparece rodeada por uma corte formada apenas por virgens como ela». In João Manuel Nunes Torrão, Camila, A Virgem Guerreira, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sábado, 17 de janeiro de 2015

Camila. A Virgem Guerreira. João Nunes Torrão. «Assim fala a donzela e, com a rapidez da chama, ultrapassa, com os seus pés alados, o cavalo na corrida, enfrenta-o, segurando-o pelo freio e vinga-se em sangue que lhe é odioso: assim também, e com a mesma facilidade, o falcão, ave sagrada…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mas se, a nível individual, o comportamento de Camila é de molde a ofuscar as tropas inimigas e a contagiar o comportamento das mulheres da cidade, ainda que fique obscurecido pela desatenção que a jovem manifesta aos perigos que a rodeiam, a actuação no comando das tropas que lhe estão confiadas aparece manchada por zonas de penumbra. De facto, a posição de Camila como comandante de tropas só é brilhante na sua fachada, lembremos o final do canto sétimo e a sua apresentação a Turno, porque a realidade é bem diferente: a jovem rainha dá mostras de alguma pressa e até de certa inconsciência (e assim paga o preço da sua ousadia). Ainda na apresentação a Turno, quando se oferece para, sozinha, defrontar o exército de Eneias, demonstra a sua precipitação, além de mostrar alguma presunção e certa agressividade. Na verdade, ela não possuía um conhecimento suficientemente amplo da situação militar para empreender sem risco tal iniciativa, e só depois Turno lhe expõe as posições dos Troianos e o seu (bom) plano para os defrontar. Além disso, a confiança que manifesta em si própria e a atitude quase agressiva que assume para com Turno, ao pôr-se em pé de igualdade com ele e a quase se arvorar em chefe supremo, não deixam de manifestar uma certa presunção: Me sine prima manu temptare pericula belli, tu pedes ad muros subsiste et moenia setua (Deixa-me enfrentar com o meu braço os primeiros perigos da guerra; tu, com a infantaria, fica junto dos muros e defende a cidade). Como já vimos, Turno não aceita esta posição e expõe o seu plano que se apresentava bem estruturado (na estratégia defendida nota-se um nítido contraste entre os dois comandantes; Turno, como personagem da noite, prepara uma emboscada; Camila pretende uma missão mais perigosa, mas também mais clara: enfrentar o inimigo em campo aberto); mas, para resultar, necessitava também de bons executantes. Ora, nem Camila, como comandante das forças que defendiam a cidade, nem Turno, como general das tropas emboscadas nas montanhas, estão completamente à altura das circunstâncias.
Camila, nomeadamente, revela que não tem grande capacidade de chefia, pois dá mostras de grande inconsciência e de alguma precipitação: inconsciência, quando, caeca, persegue Cloreu por todo o campo de batalha, indiferente a tudo o resto, mostrando assim que está mais preocupada com a satisfação do seu desejo feminino de despojos, femineo praedae et spoliorum ardebat amore, do que com as tropas que devia comandar; precipitação, quando, prestes a expirar, envia uma mensagem cheia de alarmismo a Turno e lhe pede que abandone a sua posição, extremamente favorável, para vir defender a cidade. Turno, por seu lado, também não está isento de culpas, pois, após ter elaborado um bom plano, não se atreve a concretizá-lo, e dá ouvidos a uma mensagem alarmante que o leva a abandonar imediatamente a emboscada que tinha preparado. Poderemos, pois, dizer, que é a inaptidão de Camila para a chefia de tropas que vai dar início ao processo moroso da derrota de Turno, pois este abandona a única posição onde lhe era possível vencer Eneias, aliando o efeito de surpresa com a configuração favorável do terreno, para lhe vir dar luta numa situação de aparente igualdade.
Mas a penumbra atinge outras zonas da caracterização de Camila. De facto, apesar de mulher, não estava habituada aos tradicionais lavores femininos: as suas mãos femininas não estavam habituadas à roca nem aos cestos de Minerva, e, talvez por isso, se tenha dedicado em demasia aos duros combates, sendo perseguida por um destino precoce. Ora, apesar da sua ardente dedicação à arte guerreira, aparece a combater com alguma ingenuidade, deixa-se ludibriar pelo filho de Auno e corre despreocupada pelo campo de batalha, como se o único inimigo existente fosse Cloreu. Esta sua paixão ardente pelos combates faz com que o combate lhe dê prazer e assim, no meio da carnificina, o seu coração exulta de alegria: Mas, eis que, no meio do massacre, surge uma Amazona, com um dos seios a descoberto para melhor combater: é Camila, de aljava ao ombro. Este prazer, que a leva ao combate e a matar os inimigos, faz com que ela pratique uma autêntica chacina e demonstre toda a sua violência e rusticidade. Ora, esta chacina, a outros olhos que não os de Virgílio, seria apenas um motivo de glória militar, mas, para o Mantuano, é também uma oportunidade para a caracterização negativa de Camila. É que a jovem rainha não se contenta com as mortes, e, perante os vencidos, já caídos por terra, assume uma atitude de desprezo e mesmo de insulto cruel: Julgaste, Tirreno, que andavas nos bosques a perseguir feras? Chegou o dia em que armas de mulher deviam refutar as tuas palavras. Contudo, é uma glória não insignificante que irás referir aos Manes dos teus antepassados; a de teres caído sob o ferro de Camila.'
Daí que Virgílio deixe transparecer esta crueldade ao longo da narrativa. Ela torna-se visível na adjectivação usada, nomeadamente no início da descrição do morticínio: Quem é o primeiro, quem é o último, virgem cruel, que tu derrubas com o teu dardo ? e também a meio, para traduzir a reacção da jovem à enganosa proposta do filho de Auno para combaterem, a pé: mas ela, em fúria e acesa de mordente despeito. Mas é com o símile do falcão e da pomba, que põe termo a este catálogo de mortes, que a crueldade de Camila é confirmada e acentuada: Assim fala a donzela e, com a rapidez da chama, ultrapassa, com os seus pés alados, o cavalo na corrida, enfrenta-o, segurando-o pelo freio e vinga-se em sangue que lhe é odioso: assim também, e com a mesma facilidade, o falcão, ave sagrada, descendo a voar do alto de um rochedo, apanha uma pomba numa nuvem, empoleirada lá nas alturas, e, mantendo-a presa, lhe rasga as entranhas com as garras aduncas ; e eis que das alturas tomba o sangue e as penas arrancadas. Mas a sombra final, e a mais negra, acaba por ser a sua sede de despojos ricos e vistosos. De facto, é esta sede que a leva a expor-se, de maneira desmedida, aos perigos que a espreitam e lhe traz a escuridão da morte; é esta sede que traz a desordem às hostes itálicas e que dá início às movimentações que vão desembocar no duelo entre Eneias e Turno e na morte do paladino do Lácio». In João Manuel Nunes Torrão, Camila, A Virgem Guerreira, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Camila. A Virgem Guerreira. João Nunes Torrão. «Vindo das casas e dos campos, toda a juventude e uma multidão de mães a admiram e a contemplam no seu desfile, boquiabertos e de espírito estupefacto diante do adorno real que lhe cobre de púrpura os delicados ombros, diante da fíbula de ouro que lhe prende os cabelos…»

Cortesia de wikipedia

«(…) É este carácter sagrado que vai exigir a punição de quem lhe causar a morte e é também por isso que a própria Diana se encarrega de retirar do campo de batalha o corpo inanimado da sua protegida para lhe dar sepultura na sua pátria: Haec cape et ultricem pharetra deprome sagittam: hac, quicumque sacrum uiolarit uolnere corpus, Tros Italusque, mihi pariter det sanguine poenas. Post ego nube caua miserandae corpus et arma inspoliata feram tumulo patriaeque reponam. (Toma estas armas e retira desta aljava uma seta vingadora: que, por meio dela, me pague com o seu sangue quem quer que, Troiano ou Itálico, tiver violado com uma ferida o seu corpo sagrado. Depois, eu mesma, no recôncavo de uma nuvem, levarei o corpo da desventurada e as armas de que não será despojada e a hei-de depor num túmulo, na sua pátria). Assim, Arrunte terá de morrer às mãos de Ópis, lugar-tenente de Diana, logo após a morte de Camila. É interessante constatar o afastamento da deusa na altura das mortes de Camila e de Arrunte, como que a querer significar que uma imortal não se pode contaminar, com o bafejo sequer, da morte. O mesmo se passa, de maneira ainda mais explícita, no Hipólito de Euripides, onde Ártemis, quando se aproxima o momento da morte do seu protegido, se retira e diz: Adeus! A mim não me é lícito ver pessoas mortas, nem os olhos manchar diante dos mortais que soltam o último suspiro. Ora, já que se trata do comportamento dos deuses, poderemos apontar outra semelhança entre o episódio de Camila e o Hipólito de Euripides : em ambos os casos, os deuses não interferem nas realizações de outras divindades. No caso de Camila, Diana não vai contra os fata que condenam a sua protegida e, mais tarde, Apolo não concede a Arrunte o regresso à pátria, porque iria interferir com a condenação a que Diana o votou. No Hipólito, Artemis diz que um deus não interfere nos propósitos dos outros deuses.
Mas há uma outra característica que, desde a primeira apresentação de Camila, no final do catálogo das forças itálicas, nos faz olhar para ela como um ser sobrenatural. Trata-se, evidentemente, da sua extraordinária velocidade, para a qual poderemos encontrar uma predestinação no voo sobre o Amaseno: Ela voaria sobre o cimo verdejante de uma seara sem lhe tocar e sem danificar, na sua corrida, as tenras espigas, ou, suspensa nas ondas encapeladas, caminharia sobre o mar, sem molhar na superfície líquida as plantas dos seus pés velozes. É esta sua velocidade que, depois de ter sido ludibriada pelas artimanhas do guerreiro, lhe vai permitir vingar-se do filho de Auno, quando consegue ultrapassar o galope fugitivo do cavalo do Lígure. Todas estas características, pelo seu aspecto sobre-humano, nos apresentam uma jovem brilhante e cheia de luz. Será que esta intensa luminosidade se vai manter nos aspectos puramente humanos? A resposta é afirmativa, ainda que tenhamos de colocar algumas restrições. A aparição de Camila, ao terminar o catálogo das forças aliadas de Turno, é tão esplendente que causa assombro às mulheres e aos jovens que contemplam com admiração o seu manto de púrpura, descaído pelas costas, a fíbula de ouro a adornar-lhe os cabelos e o seu porte altivo no comando das tropas: Vindo das casas e dos campos, toda a juventude e uma multidão de mães a admiram e a contemplam no seu desfile, boquiabertos e de espírito estupefacto diante do adorno real que lhe cobre de púrpura os delicados ombros, diante da fíbula de ouro que lhe prende os cabelos e ao verem como leva a aljava lícia e o mirto pastoril, arvorando-o na ponta de uma lança.
É com este pormenor das roupagens de Camila que Virgílio termina o canto VII do Poema e nos deixa com uma visão de maravilha e garridice, mas também de vaidade feminina que pressagia o desenlace fatal. Mas é no combate que esta figura vai receber ainda maior lustre. A virgem, desde sempre habituada a proelia dura pati apresenta-se a Turno cheia de confiança em si própria e chega mesmo a propor-se para ir, apenas com as suas tropas, defrontar as forças de Eneias que, dizia-se, se aproximava de modo ameaçador da cidade: Turno, se a coragem deve ter, com razão, alguma confiança em si própria, eu ouso, e prometo-te, marchar contra o esquadrão dos Enéadas, e sozinha enfrentar os cavaleiros tirrenos. Turno, porém, possuía dados mais completos sobre a situação militar e não aceita esta proposta, mas a autoconfiança de Camila vai ter oportunidade de ser confirmada e assume tal significado, que Júpiter tem de intervir para incitar Tárcon ao combate e assim restabelecer o equilíbrio de forças. Este aspecto luminoso vai lançar ainda alguns lampejos nos momentos finais da heroína. Com efeito, apesar de disposta a viver mais tempo, ainda tenta arrancar a lança que, fatal, a atingiu, encara a morte com calma. É esta calma que lhe permite preocupar-se com os outros, nomeadamente através do envio de uma mensagem militar a Turno. Só depois deste aviso a Turno é que larga as rédeas e se deixa tombar, inanimada, para o solo». In João Manuel Nunes Torrão, Camila, A Virgem Guerreira, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Camila. A Virgem Guerreira. João Nunes Torrão. «Enfrenta então a morte com serenidade: envia as últimas recomendações a Turno e, só depois, ‘a vida, com um gemido, lhe foge, indignada para o reino das sombras’. O seu nome era “Camila”»

Cortesia de wikipedia

«Jovem e bela; as suas mãos, não habituadas aos lavores femininos, costumavam empunhar dardos e retesar arcos de setas voadoras; ocupava-se nos duros combates. Era a rainha dos Volscos. A sua velocidade era tal que lhe permitiria passar sobre uma seara verdejante sem danificar as tenras espigas e sobre a superfície do mar sem que os seus pés delicados sentissem a humidade da água. Métabo, seu pai, quando foi expulso do reino graças ao despotismo cruel com que governava o seu povo e se apressava a fugir para o exílio, levou-a consigo, ainda recém-nascida. Na fuga, consagrou-a a Diana, quando, para a salvar, a envolveu nas casca de um sobreiro e, amarrada a uma lança, a arrojou pelos ares para a outra margem do impetuoso Amaseno. O lançamento foi bem executado; a aterragem, perfeita: a criança chegou sã e salva à outra margem. Passaram a viver nos montes com os pegureiros e o leite de uma égua selvagem servia de alimento à jovem criança. Mal se sustinha de pé e, ainda a custo, dava os primeiros passos, e já começava a lançar o dardo e as setas. Os seus adornos eram o arco e a aljava; a roupa, uma pele de tigre.
Já núbil, muitas mães a desejam para nora, mas ela contenta-se apenas com o culto de Diana; dedica-se aos combates e rodeia-se, qual Amazona, de uma coorte feminina. Ei-la diante de Turno a oferecer-lhe o seu auxílio e disposta a avançar de imediato ao encontro do exército dos Teucros para suster o seu avanço. Turno, porém, confia-lhe o comando da cavalaria e entrega-lhe a defesa da cidade. A dureza do combate vem demonstrar a sua capacidade bélica e a sua velocidade e permite-lhe provocar uma verdadeira carnificina entre os inimigos. Mas eis que a sua juventude e feminilidade, até aí dominadas, rompem as amarras: ao longe, avança um guerreiro adornado de vestes esplendentes e de armas magníficas. A donzela olha para ele e não mais o perde de vista. Cega para tudo o resto, deseja apenas aquelas armas e a todo o preço. Mas este vai ser demasiado elevado: ... a morte. Na mira daqueles despojos, não vê outro guerreiro que, de longe, a persegue sem cessar; não ouve sequer o ruído do dardo que para ela se encaminha; só vê o esplendor dos adornos do cavaleiro frígio e ... só sente a dor provocada pelo dardo veloz, quando este, certeiro, a atinge profundamente no seio descoberto. Ainda tenta arrancar o dardo, mas as forças já desfalecem. Enfrenta então a morte com serenidade: envia as últimas recomendações a Turno e, só depois, a vida, com um gemido, lhe foge, indignada para o reino das sombras. O seu nome era Camila.
Esta personagem, que, no seu conjunto, nos surge desenhada com um misto de fantasia e realismo, quase nos dá a impressão de se tratar de uma semideusa. Esta sensação é ainda reforçada pelo significado do seu nome que, como substantivo comum, camillus / Camilla, está ligado ao ritual religioso etrusco e designa um jovem empenhado no culto dos deuses. Ora Camila está empenhada no culto de Diana, ainda que o não faça de forma institucional. Este carácter semidivino de Camila é acentuado pelo próprio Virgílio que, por três vezes diferentes, utiliza adjectivos que pretendem traduzir sensações que se experimentam perante os seres divinos: em 11.507 é Turno que tem a visão de pavor que se sente diante da divindade: em 11.699-701 é a vez do filho de Auno, que territus se detém diante dela e, finalmente, em 11.806, a de Arrunte, que fugit ante omnis exterritus. O aspecto maravilhoso, que lhe dá uma aparência sobre-humana, começa a desenhar-se desde a infância e é reforçado pela maneira como a sua história nos é apresentada. Com efeito, é a deusa Diana quem, cheia de desvelo, dá a conhecer a Ópis o passado de Camila, repleto de acontecimentos extraordinários.
A fuga para o exílio é marcada por eventos miraculosos. Na realidade, apesar das precauções de Métabo, só uma intervenção divina explica que esta criança tenha chegado incólume à outra margem do impetuoso Amaseno. E a deusa da caça que, invocada por Métabo através da dedicação de Camila, vem em socorro da criança e a faz chegar, sem dano, ao outro lado do rio. Mas se este voo sobre o Amaseno é miraculoso, ele serve também de predestinação para a vida desta criança. Camila vai ficar, para sempre, consagrada a Diana, mas vai ficar também ligada, para sempre, à vida guerreira. Os nós, que agora a amarraram à lança que a salvou, só por outra lança poderão ser desfeitos: a que, arremessada por Arrunte, a vai prostrar, sem vida, aos pés da sua coorte feminina. A partir de então, passa a viver nos bosques e, numa vida cheia de simplicidade, treina-se, desde os primeiros passos, no lançamento do dardo e no uso do arco e, começa a abater, desde a sua meninice, os animais do mato. Diana não foi esquecida, e este culto que Camila lhe presta não deixa indiferente a filha de Latona que quase concede à sua protegida o papel de semideusa e considera mesmo que ela possui um sacrum corpus». In João Manuel Nunes Torrão, Camila, A Virgem Guerreira, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O Mouro Lazeraque e o Infante Fernando. Um ‘Exemplum’ de Jerónimo Osório. João Nunes Torrão. «Mas o exército cristão vai sofrer um revés, resultado de uma traição, diz Osório e, como consequência, o ‘Infante Fernando’ fica preso às ordens dos mouros para, mais tarde, sofrer a deportação para o interior da Mauritânia»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Mouro Lazeraque e o Infante Fernando
«(…) Osório, ao responder a uma interpelação de Agustin, pretende demonstrar que as opiniões manifestadas pelas multidões sobre os mais diversos assuntos não diferem, no essencial, das opiniões defendidas pelos homens sábios. E, para melhor defender esta ideia, vai servir-se de alguns exemplos: assim, inicialmente, tenta comprovar, através da utilização do exemplo de Príamo, que os próprios inimigos reconhecem a virtude e o valor, mesmo quando estes se encontram nos seus antagonistas. Mas, para que a demonstração seja ainda mais convincente e prove, afinal que há em todos os homens, de forma inata, uma opinião correcta e justa, vai apontar vários casos em que inimigos públicos e declarados da virtude deram mostras de uma profunda admiração por aqueles que a praticavam e, em outros casos, chegaram mesmo a pô-la em prática, dentro de alguns aspectos particulares. O primeiro dos exemplos apontados é uma personagem de Eurípides, Fedra, e Osório chega mesmo a apresentar uma tradução de sua autoria dos versos de Hipólito.
Depois faz também uma breve referência à figura de Medeia para, de seguida, deslocar a sua intervenção do campo das fábulas, como ele próprio diz, para o de algumas personagens históricas. A primeira que nos é apresentada é Dion, tirano de Siracusa, que, apesar de todos os seus crimes, fica profundamente impressionado com a amizade de dois discípulos de Pitágoras e chega mesmo a desejar entrar no círculo dessa amizade; volta ainda a referir-se a esta personagem para narrar a frontalidade e dignidade com que a irmã o enfrentou. Faz depois uma breve referência ao tratamento que o filho deste tirano deu ao filósofo Platão e vai demorar-se algum tempo a apresentar a figura de Nero. Chega, finalmente, a descrição da morte do Infante Fernando que tem como objectivo imediato utilizar em favor das ideias que está a defender a reacção de Lazeraque a essa mesma morte. Logo após esta descrição, Osório apresenta o seu comentário às palavras de Lazeraque, reforçando, através da repetição e de algumas considerações complementares o ponto de vista que pretende demonstrar.
Esta apresentação da morte do Infante Fernando é feita de uma forma muito sintética, mas sem, no entanto, deixar de referir de modo claro os dados que, na sua óptica, são fundamentais. Assim, começa por chamar a atenção do seu antagonista para o facto de ir utilizar um exemplo que se refere a uma personalidade da história portuguesa:
  • In re tamen adeo perspicua unico tantum eoque recenti atque domestico contentus ero (Contudo, em assunto tão evidente, vou limitar-me a um único exemplo e mesmo este recente e nacional).
Faz, em seguida, a idenficação da personagem em causa, através da referência ao nome próprio e ao nome do pai, e situa a acção em termos cronológicos e de espaço geográfico, com o registo do reinado do rei Duarte I e da deslocação para África. Indica ainda que, do ponto de vista militar, a situação nesta campanha africana era a vitória das tropas portuguesas:
  • Fernandus quidam fuit regius Lusitaniae prínceps, Ioannis regis hoc nomine primi filius. Is, defuncto patre, cum ab Eduardo rege illius fratre exercitum cum imperio obtinuisset, in Africam traiecit atque signis collatis ita parua manu cum innumerabili hostium multitudine saepe conflixit ut sempre ex illis uictorium reportaret (D. Fernando foi um magnânimo príncipe português, filho do rei D. João, o primeiro com este nome. Este príncipe, após a morte do seu pai e depois de obter do rei D. Duarte, seu irmão, o comamdo de um exército, passou a África. Aí, em batalha campais, lutou muitas vezes com pequenos contingentes contra uma multidão inumerável de inimigos e com tal denodo que sobre eles sempre alcançou vitória).
Mas o exército cristão vai sofrer um revés, resultado de uma traição, diz Osório e, como consequência, o Infante Fernando fica preso às ordens dos mouros para, mais tarde, sofrer a deportação para o interior da Mauritânia:
  • Sed tandem effectum est ut insidis oppressus in hostium potestatem perueniret et in mediterrâneas Mauritaniae regiones deportaretur (Ora, sucedeu, por fim que, vencido à traição, caiu em poder dos inimigos e foi deportado para as zonas interiores da Mauritânia)».
In João Manuel Nunes Torrão, O Mouro Lazeraque e o Infante Fernando. Um ‘Exemplum’ de Jerónimo Osório, Revista Biblos, volume LXVII, Universidade de Coimbra, 1991.

Cortesia de Biblos/JDACT

terça-feira, 21 de maio de 2013

O Mouro Lazeraque e o Infante Fernando. Um ‘Exemplum’ de Jerónimo Osório. João Nunes Torrão. «É na intervenção de Osório, como seria de esperar, que nos surge o episódio da morte do Infante Fernando (o Santo?) e, por sinal, quase logo no início da sua argumentação»

Cortesia da uc

O Mouro Lazeraque e o Infante Fernando
«Os humanistas sempre mantiveram uma relação privilegiada com a história e alguns chegaram mesmo a notabilizar-se com obras históricas. Está neste caso Jerónimo Osório, o famoso bispo do Algarve. A sua fama europeia, terá sido, talvez, o autor português mais conhecido no estrangeiro no século XVI, ficou a dever-se ao vasto conjunto da sua obra se inclui o De rebus Emanuelis gestis publicado pela primeira vez em Lisboa em 1571.
Esta obra tornou-se tão conhecida que, além de nove edições na versão original em língua latina até 1597, teve também, só no século XVI, onze traduções, todas em francês, e viria a ter ainda mais sete, uma novamente em francês, duas em holandês, uma em inglês, uma em alemão, ainda que de forma abreviada, e duas em português. Foi, certamente, a leitura do De rebus Emanuelis gestis que levou Montaigne a afirmar nos seus Essais: l’évesque Osorius, non mesprisable historien latin de nos siècles.
Mas o gosto do humanista português pela apresentação de dados históricos já tinha antecedentes, uma vez que estes vão surgir, embora em pequenos quadros, praticamente ao longo de toda a sua obra. Como seria de esperar, e a própria obra de cariz histórico de Jerónimo Osório demonstra-o de forma clara, é a história de Portugal que vai merecer maior atenção por parte do nosso humanista. Neste aspecto, se nos debruçarmos sobre o tratado De gloria, publicada pela primeira vez em Coimbra em 1549, ao contrário do que a maior parte das obras de carácter bibliográfico referem, quando adiam a edição princeps desta obra para 1552, em Florença, mais algumas reminiscências do conhecimento profundo que o humanista possuía da história portuguesa.
Lembremos, para referir só algumas, todo o conhecimento da história contemporânea revelada pela descrição da actividade do rei João III, incluída na carta dedicatória que, na edição prínceps, iniciava esta obra, recordemos, ainda, ainda, as referências ao segundo cerco de Diu, ocorrido em 1546; não esqueçamos também uma breve abordagem das navegações portuguesas, nomeadamente através do conhecimento que os marinheiros e mercadores portugueses tiveram da China. Vejamos, agora, com mais pormenor o aproveitamento que Jerónimo Osório faz de alguns acontecimentos ligados à morte do Infante Fernando. Antes, porém, importa verificar qual o contexto que leva o nosso humanista a optar pela utilização deste episódio.
Como já observámos, esta referência a uma das personagens marcantes da família de Avis surge no tratado De gloria. Ora, como o próprio nome indica, esta obra pretende abordar a problemática da glória e tentar demonstrar que, apesar de alguns aspectos pretensamente negativos, ela é um bem para a humanidade desde que inserida numa perspectiva cristã. Para melhor poder desenvolver toda esta temática, vai o futuro bispo de Silves pôr em cena três personagens: ele próprio e dois colegas de estudo no seu percurso italiano, o espanhol Antonio Agustín e o francês Jean Matal. Para cenário é escolhida uma casa de campo nos arredores de Florença, cuja posse é atribuída a Agustín. Quanto à forma literária, a opção vai para o diálogo, na esteira de Platão e, sobretudo, de Cícero, mas sem se apresentar como uma cópia fiel dos modelos adoptados.
Osório opta, deliberadamente, por um confronto directo entre dois grandes interlocutores, Agustín e ele próprio, e apresenta, ainda, uma terceira figura, Jean Matal, que quase se limita ao papel de figurante; é, contudo, um figurante que reserva para si, desde o início, o papel de árbitro na discussão que se vai travar e que, no final, acaba por trazer alguns pontos importantes para serem analisados. Agustín, que no seu íntimo, aprecia a glória, vai, no entanto, desencadear um ataque fortíssimo contra ela e chega mesmo a defender que se trata de um conceito totalmente incompatível com a doutrina cristã e que, como consequência, deve ser afastado do espírito humano. Este ataque cerrado à glória vai ocupar os dos primeiros livros do tratado osoriano.
Os três livros restantes vão ser utilizados para a resposta, ainda mais forte, que Osório vai dar à argumentação do seu colega espanhol. É na intervenção de Osório, como seria de esperar, que nos surge o episódio da morte do Infante Fernando (o Santo?) e, por sinal, quase logo no início da sua argumentação. Antes, porém, de nos debruçarmos sobre o episódio propriamente dito, convirá talvez verificar o contexto em que ele é apresentado no esquema argumentativo do humanista português». In João Manuel Nunes Torrão, O Mouro Lazeraque e o Infante Fernando. Um ‘Exemplum’ de Jerónimo Osório, Revista Biblos, volume LXVII, Universidade de Coimbra, 1991.

Cortesia de Biblos/JDACT