Mostrar mensagens com a etiqueta Eduardo Roca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eduardo Roca. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «O quê? Não dizes nada? O olhar turvo tornou-se sério. Acaso não estás contente com o nosso novo “Burgermeister?”»

jdact

A cidade. Colónia. 1435
«(…) Por isso, reservara para ele o final do discurso. O novo burgomestre rogou-lhe que conduzisse todos os presentes numa prece. Cedeu-lhe a posição frente à assistência e Heller colocou-se junto à esposa. Sem olhar para ela, tomou-lhe a mão e adoptou uma atitude piedosa. Agripina baixou a cabeça e ouviu com fervor as palavras do arcebispo. Um solene ámen, encheu toda a praça. Nesse instante, os músicos fizeram soar os seus instrumentos e o silêncio desapareceu numa onda, tal como chegara. O público dirigiu-se aos diferentes locais que o alcaide havia disposto para que os seus concidadãos pudessem deleitar-se bebendo. De imediato foi lançada para trás das costas a piedade das palavras: o júbilo, as risadas e os bailes tornaram-se donos do centro da cidade.
Dentro do edifício, Heller dirigiu-se à sala para onde ele próprio havia convocado as autoridades a fim de celebrar a ascensão ao poder e onde já os aguardava o banquete pronto para o selecto grupo de comensais. Todos se apressaram a felicitar Heller pela nomeação e pelo discurso. Diferentemente do que acontecia na rua, ali corria o vinho mais delicioso. Um homem alto, de uns cinquenta anos, com uma larga boina magenta a combinar com a elegante túnica de tecido pesado e de requinte, esperava o momento para iniciar os elogios. Os meus mais sinceros parabéns, Burgermeister. Acompanhou as palavras com uma breve inclinação do corpo. Obrigado, meu bom Nikolas, respondeu, colocando especial ênfase no bom. Ides deleitar-nos com a vossa presença no banquete que a corporação preparou? Com certeza. Vós sabeis que a ocasião o merece, Herr…
Heller interrompeu-o, levantando a mão. Não há formalismos entre nós... Espero que desfruteis dos manjares que o consistório entendeu por bem preparar para celebrar este humilde acto. Não fiqueis afastado de mim, Nikolas. Noutro momento falaremos das vossas…, habilidades. Não duvideis. Estou à vossa inteira disposição, disse Nikolas Fischer enquanto franqueava a passagem ao burgomestre e à esposa com uma reverência. Agripina contemplava inebriada a conversa. A presença de tantas personalidades desorientava-a, pois na sua vida quotidiana via-se sempre rodeada das mesmas serviçais, de modos artificiais e melosos. O seu rosto ruborizou-se quando o homem da bela túnica magenta também a observou: surpreendida nos seus pensamentos, o olhar inteligente daquela figura parecia conhecê-los. Por um momento sentiu-se aturdida.
Um a um, foram desfilando todos os convidados. De cada qual, Heller procurou armazenar na memória o tom com que se referiam a ele, desejoso de distinguir os que estavam realmente contentes com a sua nomeação. Descobrir onde poderia ocultar-se o inimigo iria ser, a partir daquele instante, uma das suas tarefas quotidianas. O último a entrar foi o arcebispo. Heller tomou-lhe a mão entre as suas e, ajoelhando-se, beijou-lhe o anel. Bem, bem... Descontraí-vos, burgomestre. Heller apertou os dentes para simular um trejeito de orgulho. Hoje é o vosso dia. Reconheço que me surpreendeu o vosso belo discurso… Calou-se por um segundo, com a atenção fixada no bulício proveniente do exterior. Não há dúvida de que soubestes ganhar o coração dos cidadãos. Os olhos do arcebispo divergiam das suas amáveis palavras. Coroados por espessas sobrancelhas que caíam apontando ao cenho como flechas, mostravam-se duros, impenetráveis. Heller recordou-se do que se dizia: mais do que um havia tremido perante aquele olhar furibundo. Não foi mais do que um acto de agradecimento à cidade que tanto me tem dado, excelência reverendíssima. Estou convencido de que o Senhor se coloca ao lado daqueles que sabem ser agradecidos, assentiu o arcebispo com um leve sorriso. Heller sentiu um leve calafrio na nuca. Inclinou-se de novo enquanto o arcebispo deu a bênção, para se voltar lesto para a mesa do banquete. As suas mandíbulas estavam apertadas. A seu lado, Agripina suspirou. Que se passa contigo?, perguntou o marido, contrariado. Nada. É que o arcebispo foi tão amável ao saudar-nos... Não é verdade, esposo meu?
Uma figura esbelta, conquanto larga de ombros, atravessava a praça do município. Ia envolta numa túnica azul e num grande capuz da mesma cor que lhe ensombrava o rosto. Na praça, a celebração encontrava-se num momento culminante. Um homem bochechudo e rosado munido de uma enorme caneca de barro transbordante de cerveja interpôs-se no seu caminho. Pareceis um monge. Escapastes do mosteiro para virdes aqui, irmão? Soltou uma gargalhada que tresandava a álcool. O desconhecido não lhe respondeu. O homem, contrariado, afastou o capuz com um puxão. Céus, se não é um galhardo jovem! Acaso serves de escudeiro a algum cavaleiro? O outro continuava sem lhe responder. Só o cabelo ondulado e loiro se agitava quase imperceptivelmente. Os olhos, estranhamente escuros, estavam fixos no rosto do interlocutor.
O quê? Não dizes nada? O olhar turvo tornou-se sério. Acaso não estás contente com o nosso novo Burgermeister? És um desses desbocados que dizem que o grande Heller Overstolz é um assassino? Ah! Desgraçados! O seu rival morreu quando foi assaltado por meliantes, precisamente uma das muitas coisas que Heller resolverá! Decerto! Perante o silêncio, o homem franziu os lábios, visivelmente incomodado. Toma, bebe. Colocou-lhe a caneca frente ao rosto, firme. Vamos. Bebe! O jovem, após meditar um momento, segurou com uma só mão a caneca, sem a levar à boca. Por que esperas? Não estamos a celebrar?, insistiu o barrigudo, arrastando as palavras. Aproximou então a caneca dos lábios, levantou-a com rapidez e bebeu todo o seu conteúdo. Virou-a de boca para baixo para demonstrar ao bêbedo que já tinha terminado». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «Ao mesmo tempo que o marido manobrava no sentido da ascensão social, Agripina continuou a viver rodeada de criadas. Embora a princípio tenha protestado»

jdact

A cidade. Colónia. 1435
«(…) A vestimenta era constituída por valiosas roupagens de veludo preto, e um manto de pele de bela confecção resguardava-o do leve frio. Na cabeça, um chapéu largo e abaulado recentemente trazido da Flandres. Heller continuava a recitar o discurso enquanto a sua mente visitava outros lugares. Embora continuasse a sorrir, os seus olhos cinzentos emoldurados por umas sobrancelhas quase inexistentes deixaram de prestar atenção à plebe para olharem para dentro, para as suas recordações. Sentia-se extremamente satisfeito com o que conseguira. Hábil no ofício da construção, que herdou do pai, chegou muito jovem a mestre; o mais jovem de toda a Renânia. Mas rapidamente a sua ambição o conduziu pelas veredas da política e do poder. Subiu os degraus dentro do seu grémio até atingir a direcção do conselho da congregação dos mestres construtores. A partir daí, colheu fama de duro negociador na sua luta feroz pela manutenção da autonomia de todos os seus agremiados perante o poder local, sempre disposto a intervir, tentando controlar os preços, as transacções, os impostos. Heller aprendeu de maneira natural a ser persuasivo, constante e tenaz. E também a mostrar-se ameaçador quando era necessário. Porém, acima de tudo aprendeu que sem poder ficaria sempre às portas de atingir as suas metas.
Para as conseguir abrir tinha de ganhar a confiança dos nobres. Muitos burgueses compravam por bom dinheiro um título nobiliário. Pugnavam por conseguir a chave para uma muito privada instância do prestígio social, um patamar de onde se decidia o destino do resto da população. Com paciência de formiga, Heller foi acumulando o dinheiro necessário. De repente, apresentou-se-lhe um atalho: a filha de um idoso barão atravessou-se no seu caminho. Agripina, assim chamada em honra da mulher do imperador romano Cláudio, que cedeu o seu nome à cidade (Colonia Agrippina), era apenas uma adolescente fruto de um casamento tardio. A sua mãe falecera quando ela nasceu, pelo que a doce e ingénua rapariga cresceu menina mimada por um pai com mais de sessenta anos e pelas criadas que dela cuidavam.
A candura da moça era tal que, ao conhecê-la, Heller compreendeu que seria um delito não aproveitar a oportunidade. Fez uso de toda a sua capacidade de persuasão até que a menina se sentiu a mulher mais apaixonada do mundo. O casamento acabou por ser celebrado, malgrado a oposição inicial do barão, que pretendia reservar a filha para algum nobre de melhor linhagem. Heller, portanto, viu-se tornado barão por obra e graça do sacramento do matrimónio. Enquanto saboreava o mel dos esponsais precoces, conseguiu fazer com que o sogro, cada vez mais débil, lhe fosse confiando a direcção das suas propriedades e, sobretudo, a representação em público do seu cargo. Quando o barão faleceu, Heller já era tratado como mais um nobre e, com pouco mais de quarenta anos, um firme candidato a cargos de poder.
Ao mesmo tempo que o marido manobrava no sentido da ascensão social, Agripina continuou a viver rodeada de criadas. Embora a princípio tenha protestado, batendo o pé, tentando chamar a atenção de um marido que via cada vez menos, acabou por se render. Parecia que o seu destino estava escrito: viver sem que nada de material lhe faltasse e sem homem a quem abraçar. Enquanto o povo de Colónia o interrompia com aplausos, Heller desviou por um instante o olhar para a sua mulher e fez uma pausa. Chegara o momento dos agradecimentos. O novo Burgermeister estava consciente de que devia cuidar muito bem das suas relações. Sabia que estava colocado num lugar idóneo conquanto frágil. Encontrava-se entre os nobres pelo casamento. Era membro dos grémios, sempre tensos com as autoridades locais, das quais era agora a cabeça visível. Um passo em falso e ninguém lho perdoaria.
Havia ainda o arcebispo, o mais intransigente, o mais perigoso. Dieter von Morse era um dos homens mais poderosos de todo o Sacro Império Romano Germânico e, além de arcebispo, um dos sete príncipes eleitores. Entre as prerrogativas destes estava a de escolher o imperador. Devia mostrar-se submisso e obediente perante ele. A relação com o imperador, com o papa de Roma e com a nobreza, os Von Morse eram uma das famílias mais antigas, tornava-o depositário do poder autêntico em Colónia, se bem que vivesse realmente em Bona. As suas visitas eram constantes e inúmeras as suas propriedades por toda a cidade. Também o eram no campo: se um dia impedisse a passagem pelo seu território, Colónia ficaria isolada. Até a água do Reno se deteria a uma só ordem dele». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «A torre sul da catedral inacabada começava a erguer-se majestosa e espalhava o seu influxo sobre cada um dos presentes, dizia-se que, uma vez que as duas torres estivessem completas»

jdact

A cidade. Colónia. 1435
«(…) Nessa manhã de Outubro, o dia tinha-se levantado instável. Nas ruas desordenadas, multidões começavam a percorrer a cidade mais antiga do império. Havia já catorze séculos que fora fundada pelos romanos ao expulsarem uns bárbaros dos seus acampamentos nas margens do Reno. Apesar de ter amanhecido nublado e da chuva intermitente que ferroava do céu, as cores vivas estavam presentes como fragmentos de um mosaico espalhado pelas principais praças da cidade. Os habitantes transbordavam de alegria: o novo burgomestre celebrava a sua ascensão ao cargo com abundante cerveja e com numerosos actos para regozijo dos cidadãos. Muitos assistiam porque na maioria das oficinas tinham dado o dia como feriado; alguns, porque se sentiam contagiados pela estridência de outros; uns poucos, porque a aglomeração de gente lhes permitia aproximarem-se das bolsas dos mais descuidados. Em geral, Colónia respirava efervescência. A recente colheita não fora má. Logo chegaria o duro Inverno com as suas longas noites de frio e de preocupações.
A torre sul da catedral inacabada começava a erguer-se majestosa e espalhava o seu influxo sobre cada um dos presentes, dizia-se que, uma vez que as duas torres estivessem completas, do mais alto delas e num dia limpo seria possível divisar a cidade de Breda e a desembocadura do Reno. No interior das muralhas, não ficava recanto que um olhar de pássaro não alcançasse. Desde a praça, o Altmarkt, centro nevrálgico e dinamizador da cidade, até aos extremos da rua principal, a Hochstrasse, os cidadãos sentiam o abrigo clemente da pedra sagrada erguida como tributo a Deus e aos seus adoradores, os Reis Magos. Os seus restos descansavam ali, trazidos de terras longínquas.
Extramuros, a sua influência era também notável e, a partir do topo, avistavam-se muitas léguas em redor. O perfil recortado da grande sé prometia aos camponeses uma aproximação ao Criador. A paisagem ocre e dura da campina mostrava os canteiros poligonais a formarem as diferentes peças de um quebra-cabeças. No meio, como o talhe impossível de uma faca descomunal, o Reno, avançando sinuoso até se perder na distância, o ar cada vez mais espesso, o horizonte diluído na neblina dividindo a meio o quadro da paisagem: em cima, no alto de tudo, um azul rasgado pelas nuvens; ao fundo, o ocre e o amarelo das alamedas e dos freixiais que acompanhavam o curso das águas sem se atreverem a tocar-lhes. Mais longe, estendendo-se para leste e para norte, o verde dos bosques de coníferas: um imenso mar impossível de abarcar por inteiro. Dispersos, a meio caminho, o acobreado e o laranja dos telhados húmidos salpicando a natureza, avisando da presença humana para lá da cidade repleta e buliçosa que marcava o ponto final na harmonia da paisagem.
O recém-nomeado burgomestre tinha convidado os cidadãos a celebrar a sua ascensão ao poder consistorial, uma coisa por que ele, Heller Overstolz, ansiava havia anos. A figura de Heller mal se via da praça quando assomou à torre gótica que coroava a fachada da câmara municipal, a Rathaus. Num acto invulgar, dirigiu-se à cidadania com um discurso inflamado e cheio de promessas. Em baixo, a assistência silenciou-se por instantes, grata pela festa de que desfrutava. A maioria dos assistentes escutou enlevada o que dizia o novo Burgermeister, não tanto porque estivesse interessada no discurso em si, mas porque representava uma novidade, uma ruptura com a rotina. A boca de Heller esboçou um sorriso semelhante ao de um réptil aos olhos de todos aqueles rostos atentos. Não distinguia as fisionomias, tão-somente as ricas cores dos seus trajos festivos e as caras sorridentes daqueles que já haviam provado a cerveja grátis. Aspirou fundo enquanto continuava com as suas palavras, uma alocução embutida na memória na noite anterior. O seu corpo delgado mantinha-se estático, cativando a atenção no braço direito, que se movimentava para cima e para baixo como se estivesse a marcar um compasso». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

sábado, 21 de maio de 2016

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «As promessas daquele homem entravam-lhe pelos ouvidos como uma aprazível brisa primaveril, expandindo-se pelos nervos e prolongavam-se até à ponta dos dedos. Havia muito tempo que ninguém era amável com ele»

jdact

Arredores de Colónia. 1430
«(…) Desgrenhado, indefeso, débil e disforme, afastado da família por vontade própria, o rapaz avistou, de uma escarpa, as muralhas de Colónia, a maior cidade das redondezas. Encaminhou-se para lá, resignado, já acostumado ao silêncio que o acompanharia pelo resto da vida. Esperava esconder entre os milhares de almas que a habitavam o seu recém-adquirido aspecto. Pelo menos, entre o exército dos aleijados que povoavam as ruas, ninguém repararia na sua horrível cicatriz. Contava apenas treze anos, mas havia já dois meses que a infância o abandonara, amarrada junto a ele naquele castanheiro. No primeiro dia da sua estada na cidade, calhou dar com as pessoas que saíam da Igreja de São Miguel. Disseram-lhe que ali distribuíam sopa quente a todo aquele que estivesse disposto a aceitá-la. O sustento, conquanto escasso, era suficiente. E assim se foi aguentando. De repente, numa tarde como outra qualquer, uma mão forte e inesperada pousou no seu ombro, sobressaltando-o. Aquele que encontrou atrás si ao voltar-se não era muito mais alto, ia vestido com uma capa longa e um capuz de cor preta e manteve nele o olhar fixo do fundo das suas roupagens. Tinha a pele da mão pálida, quase transparente, sulcada de veias violáceas. Perante aquela aparição, tornaram os fantasmas do bosque que o haviam desfigurado, marginalizando-o para toda a vida. Desta vez, no entanto, decidiu que venderia cara a sua pele. Desatou a correr com todas as suas forças. O manto surrado que o cobria ficou agarrado na mão do estranho.
Corria sem olhar para trás. Pressentia na nuca o perigo, perseguindo-o por entre as ruas estreitas. Depressa os passos se multiplicaram. Não era o eco, nem sequer dos seus próprios passos, uma vez que ia descalço. Quando virou numa rua, deparou-se-lhe um muro alto que lhe cortava a saída. Chegou ao fim e encostou-se à parede como se assim pudesse fazê-la cair. Estava apanhado. Os passos já não ressoavam fortes. Agora eram lentos e pausados. Cinco figuras iguais à anterior apareceram no extremo oposto da calçada. Com os rostos envolvidos pela sombra, aproximavam-se sem pressa. O rapaz tremia, à procura de um buraco por onde fugir. Quando estavam próximos, lançaram-se sobre ele sem sequer perguntar. Agarraram-lhe os braços e puxaram por eles com força, imobilizando-o no solo. Nos olhos do jovem condensou-se o terror dos últimos tempos, das noites envolvidas na dor e no frio, das pancadas do pai quando era mais pequeno, do cheiro da sua própria carne queimada, dos seus pés pegajosos pelo sangue seco e pela lama, o terror do duro despertar do inverno envolto em tremuras. Começou a uivar como um animai que se sabe capturado e prestes a morrer.
Uma sexta sombra aproximou-se e puxou para trás o capuz, enquanto todos os outros se mantinham embuçados nas suas vestimentas. O rosto desta nova figura não era pálido. As feições tinham um desenho suave e os olhos azuis exibiam uma limpidez inabitual. Os gritos do menino foram-se esbatendo e o seu lugar foi ocupado por um sussurro delicado, dirigido só a ele. Lembrou-se da mãe, lá na aldeia, submetida a toda a brutalidade do pai, e umas palavras cálidas acompanharam a recordação: há já algum tempo que te observamos. Não precisas de te preocupar. Há muitos outros como tu. Em breve conhecê-los-ás. O rapaz continuava receoso, apesar de ter deixado de sacudir os braços e as pernas. Respirava com agitação. Sei o injusto que o mundo tem sido contigo e tens de saber que, a partir de agora, estás a salvo. Ninguém voltará. jamais a ferir-te e deixarás de estar só. Confia em mim.
As promessas daquele homem entravam-lhe pelos ouvidos como uma aprazível brisa primaveril, expandindo-se pelos nervos e prolongavam-se até à ponta dos dedos. Havia muito tempo que ninguém era amável com ele, ou pelo menos era o que lhe parecia. Afasta as tuas preocupações, pequeno. De agora em diante, Nikolas Fischer protege-te. Aquela figura selou a promessa com um abraço. Então, as obscuras personagens apartaram-se, deixando-o livre. O pequeno, envolto em lágrimas e ainda trémulo, devolveu o abraço e decidiu confiar nesse homem. Foi-se sossegando a pouco e pouco. Apegou-se ao desconhecido como um náufrago a um escolho. Uma nova família acabava de o adoptar e, mesmo que fosse só por isso, na sua desgraça estaria para sempre agradecido». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

sexta-feira, 20 de maio de 2016

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «Já não podes fazer nada! Os seus membros não lhe respondiam. Novas mãos ajudaram as anteriores nessa tarefa. Via que estava cada vez mais perto da saída e que nada podia fazer para o evitar»

jdact

Arredores de Colónia. 1430
«(…) Arrastou a arca das mantas e colocou-a sob o buraco. Subiu por ela e tentou alcançar o soalho do segundo piso. Deu um salto e a madeira a que tentou firmar-se com as mãos cedeu. Rodou até uma labareda junto à mesa. caído no chão, um estrondo fê-lo erguer o olhar. O tecto começara a fender-se. Uma viga caiu-lhe em cima, conquanto tenha conseguido esquivar-se dela. E, ao fazê-lo, colocou-se justamente no lugar onde caiu a seguinte. O golpe não foi tão forte como seria de esperar, mas uma queimadura atravessou-lhe as costas e fê-lo gritar, com o rasgão. Recobrou e voltou a subir para a arca. Quando se ergueu totalmente para ganhar impulso, a pele das costas retesou-se como a de um tambor e caiu outra vez dobrado aos pés do baú. Acocorou-se para se erguer de novo. No entanto, uma mão agarrou o que lhe festava de roupa e começou a puxar por ele. Não compreendia nada. Apenas sabia que a esposa estava lá em cima e que ainda a não tinha salvado. Tentou lutar com as poucas forças que lhe restavam.
Sai daqui, louco! Já não podes fazer nada! Os seus membros não lhe respondiam. Novas mãos ajudaram as anteriores nessa tarefa. Via que estava cada vez mais perto da saída e que nada podia fazer para o evitar. Um novo estrondo obrigou-o a erguer os olhos. O piso de cima caía em pedaços. Voltou a defender-se com pontapés, com safanões para o ar, com mordidelas. Um dos vizinhos aplicou-lhe um forte soco no queixo. Tudo na sua mente se foi dissipando e, quase inconsciente, derrotado, deixou-se levar. Os dois vizinhos estenderam-no no chão, onde a filha fora deitada um momento antes. Em poucos segundos, com o reflexo das chamas a encher-lhe as pupilas, pôde ver como o telhado da sua casa desabava por completo.
Permaneceu imóvel a observar o fogo, abrindo e fechando os olhos avermelhados, como se ainda esperasse despertar daquele terrível pesadelo. Os ruídos da demolição tornavam-se insuportáveis. Já não sobrava quase nada do que fora o seu lar. Perdera absolutamente tudo. Sentiu uma presença próxima. Uma das vizinhas havia-se aproximado com a filha dele nos braços. Sem dizer nada, depositou-lha no regaço. Só então reagiu. Olhou para a filha. Não podia cair, não podia afundar-se na tristeza incomensurável que lhe nascia muito de dentro. Abraçou-a fortemente, protector. A pequena não chorava; o seu olhar parecia ter ficado parado em algum lugar das recordações. Encostou o rosto enegrecido contra o peito do pai e, então sim, as primeiras lágrimas negras sulcaram lentamente a sua face suave, arrastando a fuligem. Alguma coisa começou a rasgar-lhe as costas. Uma dor pungente parecia arrancar-lhe a pele. Levou a mão atrás para perceber do que se tratava. Era o rasto que o fogo tinha deixado nele. Sentiu como a queimadura se expandia pelo corpo, abrasando-o por inteiro. Rendido à dor, as lágrimas começaram também a humedecer-lhe o rosto, juntando-se às da sua filha. Teve a inconfundível certeza de que, a partir daquele momento, só se tinham um ao outro.
Durante semanas, o pequeno mutilado errou pelos bosques próximos do rio, evitando aproximar-se dos lugares habitados. Sobreviveu à base de insectos e de raízes. A simples visão de um grupo de pessoas, ou das suas vozes a ecoar por perto, causava-lhe pânico. Mas, finalmente, teve de claudicar». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «Não esperou que respondesse. Ergueu a pequena para a colocar sobre o ombro, como antes fizera com a mulher. Mas esta não se desprendia da mão da mãe. Precisou de dar um puxão para as separar»

jdact

Arredores de Colónia. 1430
«(…) Um rangido fez tremer o soalho aos seus pés. Uma viga havia cedido e as chamas subiam com força em direção ao segundo piso. Olhou para a filha, pálida, assustada. Tossia, engasgada pelo fumo que tudo cobria. Depois, olhou para a esposa; parecia dormir tranquilamente e em paz na cama, por baixo do fumo intenso que roçava o tecto e ia descendo. Pensou que ainda havia algum tempo. Lançou um olhar em redor: o soalho podia resistir um pouco mais. Entre as pranchas de madeira distinguia-se em baixo o resplendor das labaredas, mas não parecia imediato o soçobro. Não havia tempo a perder. Ergueu a mulher e colocou-a sobre o ombro. Segurou depois a menina pela mão e estacou no topo das escadas. Ali, o espectáculo que se lhe apresentou obrigou-o a pensar. O fogo subia, degrau a degrau, lento mas constante. Estás a fazer-me doer, papá. Só os olhos assomavam por cima do lenço. Deu-se então conta da pressão que exercia com a mão. Lamento, filha. Voltemos por um momento. Deixou de novo a mulher sobre o leito e agachou-se até ficar à altura da pequena. Tinha os olhos vermelhos de cansaço e do fumo. Temos de deixar aqui a mamã. Não posso levar as duas. As escadas não aguentarão. Mas o fogo chegará à mamã e não a deixará sair. Não querida. Voltarei logo e salvá-la-ei. Não te preocupes.
Não esperou que respondesse. Ergueu a pequena para a colocar sobre o ombro, como antes fizera com a mulher. Mas esta não se desprendia da mão da mãe. Precisou de dar um puxão para as separar. A criança rompeu a chorar com mais força. As chamas invadiam já as escadas. Uma língua de fogo avançava como um ser vivo, em assaltos constantes. Tomou balanço e, sem pensar, saltou grande parte dos degraus. Caiu sobre o chão de pedra. Uma dor muito forte na planta dos pés fê-lo recuar. Não largou a filha. A casa havia-se tornado um inferno. O fumo e as chamas não o deixavam ver qualquer espaço livre por onde fugir. Na sua frente, a arca de madeira com mantas estava intacta. Deixou a filha no chão. A pequena, desfalecida e meio asfixiada, balbuciava palavras desconexas. Ao abrir o móvel, sentiu como o fogo se agarrava à palma das mãos; o ferro das dobradiças da arca recebia o calor do incêndio e fechava-o como a um tesouro. Incapaz de agir, reparou que as pernas se dobravam. Estava quase a render-se quando o choro abafado da criança o fez voltar a si.
Uma vez mais, colocou a filha sobre ele com um abraço, envolveu uma das mantas por cima com o cuidado de proteger os dois, agarrou-se firmemente ao cobertor e correu; correu até à entrada, ignorando as chamas que os envolviam. Arremeteu contra a porta e esta cedeu facilmente, já quase desfeita. Ao atravessá-la, saiu aos tropeções e caiu aos pés de todos os vizinhos, que tentavam organizar-se para apagar o incêndio. Muitos levavam já os seus baldes de madeira. Desorientado com a visão de toda aquela gente amontoada em seu redor e cm as tochas que se aproximavam e se afastavam na noite húmida, abraçou-se com força à sua pequena. A filha começou a tremer, uma vez que se viu a salvo, mas ainda teve tempo para soltar um lamento: mamã...
O pai pôs-se de pé, como que impelido por uma mola. Voltou a envolver-se na manta e atravessou as chamas que tinham substituído a porta de madeira. Cego pela imperiosa necessidade de salvar a esposa, não via o perigo terrível em que se internava. Atrás ficavam as visões alucinadas dos vizinhos e dos prantos das mulheres; todas se esforçavam por dar atenção à filha. Quando chegou ao interior, só sentiu o fogo. O ar quente quase irrespirável invadia-o todo. Tinha de encontrar maneira de chegar aonde estava a esposa e salvá-la. O terror apoderou-se dele: as escadas tinham desaparecido por completo. Um buraco negro abria-se no tecto e o fumo subia como que absorvido por uma chaminé. Volveu o olhar para o fogo e pareceu-lhe ver que as chamas eram formadas por semblantes luminosos que o observavam e se dirigiam a ele, que o increpavam e queriam apanhá-lo, rostos que engoliam tudo, desmembrando o que fora o seu lar durante tantos anos». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «Despertou-o a sua própria tosse. Ainda tinha a pena numa mão, gotejando tinta sobre o papel. Ao abrir os olhos, o fogo quase lhe lambia a cara. As chamas cobriam já a mesa»

jdact

Arredores de Colónia. 1430
«(…) Então, o oficial introduziu a ponta da lâmina naquela boca que teimava em permanecer fechada. Ao mesmo tempo que procurava não ferir Koller, que puxava com força paru abrir a mandíbula, tentou cortar a língua, pondo-se na ponta dos pés, basculando o seu própriopeso sobre o joelho no estômago do pequeno, como um barbeiro a arrancar um molar. Mas não podia. Quase sem fôlego, o rapaz não deixava de se mexer, e escapava por instantes da prisão dos soldados. O sangue começou a esguichar abundantemente. Os seus uivos de dor encheram o bosque. Mer…, segurai-o. Com mais força!, gritou o oficial. Estamos a tentar, senhor, disse Bawer, mas o cabrãozinho não para quieto. Pois tanto pior para ele. Levantou o punhal e deixou-o cair sobre o rosto assustado. Passou rente à mão de Koller, que se afastou mesmo a tempo. Um olhar de surpresa assomou aos olhos do soldado. Agravou-se com o terrível grito do rapaz, inumano. Já não tinha capacidade para emitir palavras, apenas sons abafados pelo gorgolejar do sangue que lhe entrava pela garganta e que, se não o socorressem, em breve inundaria os pulmões. O golpe, horrível, havia cortado rente os lábios do menino e ferido a língua e as gengivas. Algum dente caído revelava o branco por entre a erva e a lama. Ainda preso a um pedaço de carne viva, palpitava no solo como uma serpente decapitada. Os soldados não conseguiam afastar a vista do espectáculo sanguinário que se lhes apresentava. Não queriam olhar e, no entanto, não podiam deixar de o fazer, silenciosos. Passai-me esse pau. Os soldados não responderam, ausentes, atemorizados. Nenhum deles se mexeu. O oficial, entre pragas, apanhou uma acha da fogueira e aproximou-a do rosto do rapaz, que, ainda atado, permanecia inconsciente com a cabeça caída. Levantou-a, agarrando-o pelo cabelo, e aproximou a tocha até a apertar contra a ferida. O sangue deixou de imediato de esguichar, mas o cheiro a carne queimada gravou-se na consciência dos presentes como um estalo de chicote.
Na sua casa de Colónia, um homem dormitava a altas horas da madrugada, debruçado sobre uma grossa mesa de madeira. Despertou-o a sua própria tosse. Ainda tinha a pena numa mão, gotejando tinta sobre o papel. Ao abrir os olhos, o fogo quase lhe lambia a cara. As chamas cobriam já a mesa e alguma tapeçaria das paredes e estavam prestes a atingir as vigas. Desorientado, quis levantar-se e correr à procura da mulher e da filha, mas alguma coisa o tolhia, como se não estivesse completamente desperto ou como se o crepitar das chamas o houvesse hipnotizado. Quando se libertou dessa sensação, levantou-se; o fumo, denso e pesado, estreitou-se como uma mão sobre a sua garganta. Agachou-se e conseguiu chegar à bacia. Com o gomil, lançou a pouca água que restava. Não teve qualquer efeito sobre o fogo, que respondeu com raiva às intenções de ser apagado; o líquido parecia o combustível que o alimentava. Apanhou um trapo molhado e tapou com ele o nariz e a boca. Finalmente, conseguiu chegar ao primeiro degrau.
No piso de cima, o fogo não se tinha assenhoreado do espaço, mas o fumo era ainda mais consistente. Por entre a obscuridade, com o brilho do fogo a subir pelo vazio das escadas, mal se podiam ver as mãos. Quase a tatear, abriu caminho para a cama da filha. Estava vazia. Com o coração na garganta dirigiu-se ao quarto de dormir principal. No catre, a mulher dormia ausente de tudo, enquanto a filha, dominada por uma tosse agressiva, tentava despertá-la com sacudidelas e gritos. A mamã não acorda!, bradava, assustada. A madeira estalava por toda a parte. Se ninguém socorresse, a sua casa em breve haveria de tornar-se um monte de cinzas. O homem sacudiu a mulher com as duas mãos. A princípio com delicadeza, depois mais violentamente. Mexia-lhe a cara de um lado para o outro, levantando-lhe o tronco e tentando pô-la em pé, mas ela não reagia. Um nó no estômago provocou-lhe náuseas. Mami, por favor…, rogava a menina, agarrada à mão da mãe. O marido aproximou o ouvido da boca dela. Um débil alento parecia emergir do interior, concedendo um vislumbre de esperança. Tentou tranquilizar a filha. Está só adormecida». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «O rapaz não respondeu. Os pulsos ardiam-lhe, amarrados pela corda. O rosto começou igualmente a arder-lhe. O soldado tinha-o golpeado com a luva de malha...»

jdact

Arredores de Colónia. 1430
«Uma pequena figura observava acaçapada por entre as ramagens mais baixas de um imenso castanheiro. A densidade do bosque justificava a sua posição. De repente, a paciência compensou os seus desejos e um coelho, pardo e peludo, apareceu por trás de um grosso tronco de uma faia centenária. Mal se ergueu, esfregou o focinho com as patas dianteiras. Quando estava mais perto, lançou-se sobre ele a toda a velocidade. Um rápido movimento de punho, um estalido e a peça passou a estar pendente, inerte, no cinturão. Iniciou o caminho de regresso a casa com um alegre assobio. O pai tinha-o posto fora nessa mesma manhã chamando-lhe preguiçoso e aproveitador, mas poucas horas depois voltaria com um coelho para o jantar e ele teria de engolir as suas palavras. Despreocupado, continuou a subir a vereda sombria. O que viu quando chegou ao topo deixou-o paralisado: um destacamento de cinco guardas observava-o em silêncio. Ficou especado diante deles por uns instantes, mudo, e os soldados devolveram-lhe os olhares. Quando o pequeno soltou a correr, regressando pelo mesmo caminho montanha abaixo, começaram a persegui-lo. Koller, o mais rápido dos homens, largou o capacete e a alabarda e logo o alcançou. O soldado levantou-o em bolandas e, enquanto o rapazito esperneava no ar, esperou até que os outros chegassem. Depois, cumpriu a ordem do chefe da guarda, que mandou atá-lo a uma árvore. Casualmente, indicou o castanheiro atrás do qual o menino se escondera um momento antes. Ainda estavam frescas as marcas do pulo sobre a terra húmida. Não sabes que estas terras pertencem ao arcebispo?, gritou o oficial.
O rapaz não respondeu. Os pulsos ardiam-lhe, amarrados pela corda. O rosto começou igualmente a arder-lhe. O soldado tinha-o golpeado com a luva de malha. Agitava-a diante dele, ameaçador. Ah, não falas? Ter-te-á o gato comido a língua? Vamos já verificar. Acendam uma fogueira. Os quatro homens entreolharam-se sem compreender. Aquele furtivo era apenas um adolescente. Confirmava-o uma sombra de buço sob o nariz, acima do lábio superior. Não me ouvistes? Andai, instou o oficial. Instantes depois, a fogueira chegava sem dificuldade às ramagens da árvore. As tenras folhas do castanheiro começaram a retorcer-se sobre si próprias. O vento balançou uma delas, desprendeu-a e fê-la cair sobre o braço do menino, onde deixou o seu rasto de fogo. Uma queixa abafada saiu-lhe da boca. Hum... Quantos coelhos caçaste até hoje?, perguntou de novo o oficial. Mas ele mantinha-se em silêncio, os lábios apertados, o gesto desafiador. Não és mudo, isso é claro. E ainda assim não dizes nada. O olhar do rapaz tornou-se esquivo. Não queria falar com aqueles soldados: a peça era sua porque a havia conseguido com o seu esforço. E o bosque era de todos. Apertou mais os lábios para demonstrar a sua firmeza. Vendo esse gesto de desafio, o oficial não se conformou. Então é isso, hem? Pois agora sim, não falarás. E, brandindo o punhal, apertou com força o pescoço do menino. Bawer, Koller, ajudai-me. Os dois soldados entreolharam-se, assustados. Eram jovens e inexperientes e cumpriam a sua primeira missão extramuros. Que não se mova, ordenou a um. E, tu, prende-lhe a boca. Como se fosse um cavalo. Assim mesmo. Não tens nada para dizer?, dirigiu-se ao pequeno. É a tua última oportunidade. Qualquer um podia ver como o terror inundava os olhos do rapaz». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT