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quinta-feira, 22 de maio de 2014

O Navegador da Passagem. A História de um Descobridor que o Mundo Ignorou. Deana Barroqueiro. «Eu, Pêro da Covilhã... Eu, Afonso de Paiva... Eu, Bartolomeu Dias...Eu, João Infante... Eu, Diogo Dias... juro que na execução e obra deste descobrimento que vós, meu Rei e Senhor, me mandais fazer, com toda a fé, lealdade, vigia e diligência…»

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Jaz aqui, na pequena praia extrema, o Capitão do Fim. Dobrado o Assombro, o mar é o mesmo: já ninguém o tema! Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro. In Fernando Pessoa, ‘Mensagem

«(…) Acabo de saber que a rainha D. Isabel de Castela autorizou a viagem de descobrir de Cristóvão Colombo. Lançou a assombrosa novidade com uma voz desdenhosa que disfarçava a sua arrelia; porém, ouvindo o murmúrio de descrença e ira dos presentes, ergueu a mão num gesto apaziguador e acrescentou mordaz: - Pelos vistos, a minha estimada prima tem mais confiança nesse rebolão do que nós e crê que ele achará a derrota para a Índia navegando para Ocidente! Como mais vale prevenir do que remediar, temos de nos adiantar na corrida, não vá esse homem ter tratos com o demo e passar-nos à frente! Quando os risos cessaram, el-rei prosseguiu, animando-se à medida que falava: - Mem Rodrigues e Pedro Astoniga já partiram por mar para a Guiné e de lá seguirão, através da Tamala dos Fulas, para o interior da África, a fim de buscarem também ai novas do Preste João, o descendente do grande Salomão e da rainha de Sabá, pois João Afonso de Aveiro ouviu dizer ao rei de Benim que, a vinte luas de andadura para oriente das suas terras, existe o reino cristão do Ogané, a quem muitos outros povos prestam homenagem e fazem grandes peregrinações para receberem das suas mãos uma cruz de latão que veneram como santa relíquia.
Fez uma pausa e o seu olhar sombrio varreu a sala até pousar nele, perscrutador, como se estivesse a avaliá-lo. Sentiu um arrepio de angústia eriçar-lhe a pele. A armada de Bartolomeu Dias, com os seus capitães João Infante e Diogo Dias, não tardará em sair rumo ao Congo para daí prosseguir viagem até descobrir a passagem para o Oriente. Levará com ele os dois negros salteados por Diogo Cão para os devolver à sua terra e quatro degredados que deixará nesses lugares, onde dirão donde vêm e buscarão saber dos seus habitantes se ali chegaram novas do Preste João.
Fez nova pausa como se esperasse alguma pergunta, mas não era nenhuma surpresa que el-rei lhe desse alguns desses condenados que se salvavam da forca ou do cutelo oferecendo-se para explorar novas terras, pois Sua Alteza usava dizer a quem disso se espantava que lhes dava a vida porque um homem custa muito a criar e havia aí muitas ilhas para povoar. Como ninguém falasse, o rei João dirigiu-se a Pêro da Covilhã e a Afonso de Paiva: - Assi, tereis acção concertada com estes vossos companheiros e todos levarão cartas minhas para o Preste. Tu, Pêro, rumarás ao Levante, em busca da rota das especiarias, e tratarás de saber se há mesmo um Preste João das Índias, como dizem os antigos, enquanto tu, Afonso de Paiva, seguirás na Etiópia até achares esse Negus que dizem ser o verdadeiro Presbítero João. Levareis estas pastas de latão, com letras talhadas em língua portuguesa, arábica, latina, grega e hebraica, para mostrardes ao Imperador e a quem bem vos parecer. Mestre Rodrigo entregou-lhes as pastas, da feição de uns grossos medalhões, onde se lia ElRey Dom João de Portugal, Irmão dos Reys Christãos. Tendes tudo aquilo de que haveis mister: cartas, mapas, roteiros?, perguntou ainda.
 - Sim, meu senhor, Afonso de Paiva curvou-se numa profunda vénia. - Os vossos astrónomos e cosmógrafos são os melhores do mundo!, gabou Pêro da Covilhã, saudando com igual acatamento. - Sim, bem o sei, disse João II, sorrindo na direcção da sua junta de sábios, os quais se inclinaram também em sinal de agradecimento. Prestai agora o vosso juramento sobre este Livro Sagrado, ordenou Diego de Orty, pondo-lhes diante uma Bíblia e uma folha escrita. Um a um, pousaram a mão direita sobre o livro de capas vermelhas e letras douradas, lendo em uníssono as palavras do texto do bispo: - Eu, Pêro da Covilhã... Eu, Afonso de Paiva... Eu, Bartolomeu Dias...Eu, João Infante... Eu, Diogo Dias... juro que na execução e obra deste descobrimento que vós, meu Rei e Senhor, me mandais fazer, com toda a fé, lealdade, vigia e diligência, eu vos hei-de servir, guardando e cumprindo vossos regimentos que para isso me forem dados, até tornar onde ora estou, ante a presença de vossa real Alteza, mediante a graça de Deus em cujo serviço me enviais. Acabado o juramento, ajoelharam e, curvando as cabeças, receberam a bênção do bispo, indo em seguida beijar a mão que el-rei lhes estendia: - Ide os quatro, com a graça de Deus, mas deixai comigo a Bartolomeu Dias, que temos um ultimo negócio a tratar. Que teria el-rei para lhe dizer ainda? Os quatro homens ergueram-se e, fazendo as suas cortesias de despedida, abandonaram a sala, seguidos pelo seu olhar apreensivo». In Navegador da Passagem, A História de um Descobridor de Mundos, que o Mundo Ignorou, Deana Barroqueiro, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-0-04162-3.

Cortesia de Porto Editora/JDACT

sábado, 9 de março de 2013

O Navegador da Passagem. A História de um Descobridor que o Mundo Ignorou. Deana Barroqueiro. «A um vilão peco não há cousa que lhe não pareça que fará - lançou-lhe el-rei, com um sarcasmo tão violento que fez o piloto enrubescer de humilhação e, enfim, não faz nada! Nunca mais digas que o podes fazer, antes guarda muito segredo disso…»

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Jaz aqui, na pequena praia extrema,
o Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
o mar é o mesmo: já ninguém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.
Fernando Pessoa, in ‘Mensagem

«Fora convocado juntamente com o irmão Diogo e o capitão Infante, aos sete dias do mês de Maio do ano da graça do Senhor de mil quatrocentos e oitenta e sete, às casas de Santarém onde el-rei pousava aquando de uma das suas costumeiras andanças por desvairados lugares do reino a fim de conhecer o que se passava sob a sua governação e dar remédio aos males do povo, premiando os bons servidores e castigando os venais. A roda da fortuna girara de novo na sua vida, desta vez em seu benefício, ao provocar a queda de Diogo Cão das boas graças de João II, por não ter descoberto o cabo de África, ao contrário do que afirmara. Do mesmo modo como, no regresso da sua primeira viagem, havia cumulado o navegador de benesses pela falsa descoberta, contemplando-o com dez mil reais brancos e um brasão de armas, el-rei não hesitara agora, provado o seu erro, em correr com ele para sempre da corte como se fora um cão raivoso.
O moto do Príncipe Perfeito era Por tua Lei e por tua Grei, a sua divisa um pelicano ferindo o próprio peito para alimentar com o seu sangue os filhos no ninho e, como homem e cavaleiro, exigia de si tanto ou mais do que pedia aos seus servidores, raramente desculpando erros ou traições. Assim, ainda no auge da fúria, el-rei atentara nele, que, com outros capitães, assistia, aturdido, à penosa cena de humilhação do valoroso navegador, e encarregara-o de prosseguir a malograda viagem e descobrir por fim a passagem do Atlântico para o Índico. A convocação desse dia seria seguramente para el-rei lhes dar o seu regimento e últimas instruções. Sua Alteza estava a comer, numa mesa armada sobre um estrado alcatifado, tendo de pé a seu lado o cunhado, que se mantinha em silêncio, com o olhar sem vida dos seus olhos verdes quase brancos pairando por sobre as cabeças dos assistentes, fitando alhures. Diziam as más-línguas da corte que el-rei o queria sempre por perto para o ter mais vigiado, não fosse o dissimulado duque de Beja e de Viseu pretender vingar a morte do irmão mais velho e urdir uma nova conspiração para o assassinar.
Não deteve o pensamento muito tempo nestes mexericos cortesãos, pois o seu espírito estava prenhe de outros cuidados e ambições mais terrenas, ardendo em ânsias de receber finalmente a tão esperada ordem de partida. Inquietou-o uma assistência tão numerosa, entre emissários estrangeiros, astrónomos, pilotos, capitães e cortesãos, mas também de espiões como Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva. El-rei comia pouco e com tanta detença que causava pena e fadiga a quem o assistia, parecendo mais interessado na prática que entretinha com os embaixadores e cortesãos do que com a comida que tinha no prato. - Nenhum navio redondo consegue fazer a torna-viagem da Mina - a fala vagarosa e entoada pelo nariz tirava graça e sabor às suas palavras - por causa das grandes correntes que há no mar, somente as nossas caravelas de velas latinas o podem fazer.
 - As caravelas são como os cavalos mouros, disse alguém, vivas, velozes, mas também dóceis e sóbrias, próprias para viagens aventurosas. O Príncipe Perfeito saudou o dito com agrado, seguro de que em nenhuma outra parte da Cristandade, além de Portugal, se construíam navios latinos e o segredo da sua construção estava bem guardado. Pêro de Alenquer, o maior piloto da Costa da Guiné e a quem se deviam muitas descobertas daquela derrota, disse com um sorriso de confiança: - Meu senhor, juro-vos que serei capaz de trazer da Mina qualquer nau, por muito grande que seja. - Não se pode fazer - replicou el-rei, com secura. - Já muitas vezes foi tentado, porém, todas as naus que lá mandei não conseguiram tornar ao reino. - Eu fá-lo-ei, Sereníssimo Senhor - insistiu Alenquer, com orgulho, sem atentar no rosto fechado de João II, desde já a isso me obrigo!
 - A um vilão peco não há cousa que lhe não pareça que fará - lançou-lhe el-rei, com um sarcasmo tão violento que fez o piloto enrubescer de humilhação e, enfim, não faz nada!
Depois de comer, retirou-se a uma outra sala para receber aqueles que previamente convocara, causando espanto a todos os presentes e ao próprio Pêro de Alenquer ao enviar-lhe recado que lhe queria falar e, sem uma palavra, o piloto seguiu atrás dos convocados e entrou na sala em último lugar. El-rei tinha o rosto grave e a voz soou um pouco brusca, quase dura, quando dirigiu a palavra a Alenquer, que se mantinha diante dele de olhos baixos mas de cabeça erguida. - Pêro, se há pessoa que por seu ofício e arte de navegar merece ser favorecida e honrada, essa pessoa és tu e já o afirmei perante muitos. A causa de te haver dito aquilo de há pouco, e peço-te que me perdoes o agravo, foi porque cumpria a meu serviço... - ante o olhar desconcertado do piloto, justificou-se com um ligeiro sorriso de ironia: - Para ter o ouro da Mina guardado da cobiça de outros reinos, tenho de fazer crer que navios redondos como os deles não podem fazer a torna-viagem e até tenho dado ordens para afundarem algumas naus velhas e sem préstimo nos mares da Guiné, para os escolhos darem à costa e se julgue que foi desastre, provando que com tais embarcações não é possível fazer-se a volta do mar. Nunca mais digas que o podes fazer, antes guarda muito segredo disso e eu te farei grande mercê. Pêro de Alenquer curvou-se com muito acatamento, já esquecido da pública humilhação pelo pensamento da mercê que iria receber do seu generoso senhor que quando cometia uma injustiça contra qualquer dos seus vassalos sempre lhe dava uma compensação superior à ofensa que infligira». In Navegador da Passagem, A História de um Descobridor de Mundos, que o Mundo Ignorou, Deana Barroqueiro, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-0-04162-3.

Continua
Cortesia de Porto Editora/JDACT

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Bartolomeu Dias: «O “Capitão do Fim”. “Há tempos de coruja e tempos de falcão”, ouvira-lhe dizer mais de uma vez e, na verdade, D. João II mostrara-se no início da sua governação como a coruja, encoberta mas sempre à espreita, atacando na sombra para se assenhorear da sua presa. Agora, forte no seu pouso, como todos podiam ver, era chegado o tempo de o falcão voar à conquista de outros céus e de mais ricos terrenos de caça»

Cortesia de flickr

«Os leais servidores ali presentes, e ele era um dos seus mais fervorosos admiradores, sabiam que o “Príncipe Perfeito” não podia apresentar pontos fracos na sua governação. Fizera aumentar o seu poder esmagando o crescente número dos inimigos e descontentes, sobretudo entre a mais alta nobreza do reino e no seio da própria família, mandando degolar por crime de traição o duque de Bragança, D. Fernando, confiscando-lhe os vastíssimos domínios de terras, vilas e cidades, assim como os imensos bens de fortuna, em favor da Coroa.
Ao abater sem hesitações o mais poderoso fidalgo do reino, para mais seu primo e ainda cunhado da rainha, el-rei fizera despertar grande ódio e temor entre a nobreza, ciosa dos seus privilégios, nomes e brasões. Por obra da intervenção divina ou graças à sua poderosa rede de espiões, não tardara a descobrir uma nova conspiração para o assassinar, cujo chefe desta vez lhe era ainda mais próximo, pois se tratava de D. Diogo, o duque de Viseu, irmão preferido de D. Leonor e a quem ele criara em sua casa como a um filho. De novo se adiantara aos inimigos, atraindo o cunhado ao paço e, sem hesitações, apunhalara-o com a sua própria mão.

Cortesia de cnc

Ao receber a notícia da morte do irmão, a rainha rompera em gritos e prantos desesperados que se ouviram por todo o paço, sem que as aias lograssem impedi-la de arrancar os cabelos e torcer e ferir os braços e el-rei, informado do seu estado, fora visitá-la para lhe falar das culpas do irmão e das causas que tivera para o matar, mas, perante os seus gritos e a recusa de o ouvir, ameaçara-a de a tomar também por culpada na mesma intriga do duque de Viseu. D. Leonor, varada de medo, sufocara, então, o pranto mas não o ódio que lhe crescia no peito.

Os homens, nas cousas que lhe muito cumprem, dissera ao sair dos aposentos da esposa com o rosto fechado e os olhos raiados de vermelho, se de facto são homens, não devem ter nenhuma conta com as tenções nem desejos das mulheres, as quais são sempre mais inclinadas a seus particulares apetites e vontades, que a toda boa razão e honra de seus maridos.
Mandara prender e degolar em público, para servir de lição, todos os que haviam conspirado com o cunhado e nem escaparam os que haviam logrado fugir e esconder-se em Castela, julgando-se a salvo, Pois Pêro da Covilhã por lá andara, qual lebréu a farejar e a levantar a caça, até todos serem descobertos e o seu castigo confiado a alguns assassinos a soldo.
Ao todo, justiçara oitenta adversários, alguns de muita qualidade como Álvaro de Ataíde e Fernando de Meneses e, para não escandalizar as almas piedosas, fizera envenenar encobertamente, na cisterna onde o encarcerara, o bispo de Évora, seu inimigo principal.

Cortesia de retratosreaisportugueses

Só então os atemorizados opositores, entre os quais se incluía a rainha D. Leonor, encolheram as garras e converteram-se pelo menos aos olhos do mundo em vassalos submissos, tendo a Coroa ganho finalmente o poder e a riqueza de que o generoso D. Afonso V a esbulhara, entregando-os nas mãos gananciosas dos nobres, por via de mercês e privilégios. Mas por quanto tempo os guardaria?
Sois muito má de servir
e sois sempre ravinhosa,
nam quereis ver nem ouvir,
também tocais de raivosa;
sois soberba, sois infinta,
sois muito forte mulher.

A sua atenção fora mais uma vez desviada para o jogo das cartas. A trova lançada àquela dama da rainha poderia servir também à Sereníssima Senhora, sua ama, e escutou-a como um aviso e uma ameaça a el-rei que se mostrava sempre indiferente ante o perigo.
Há tempos de coruja e tempos de falcão”, ouvira-lhe dizer mais de uma vez e, na verdade, D. João II mostrara-se no início da sua governação como a coruja, encoberta mas sempre à espreita, atacando na sombra para se assenhorear da sua presa. Agora, forte no seu pouso, como todos podiam ver, era chegado o tempo de o falcão voar à conquista de outros céus e de mais ricos terrenos de caça.
Os arautos e passavantes tocaram as trombetas, anunciando a sua chegada e pondo fim ao jogo de cartas. Sua Alteza entrou na sala com o bispo D. Diego de Ortiz e os seus conselheiros mais privados, tomando assento na cadeira real, com os pés pousados sobre uma almofada de veludo carmesim». In Navegador da Passagem, Deana Barroqueiro, Porto Editora, 2008.

Wikipédia/Deana Barroqueiro/Porto Editora/JDACT

domingo, 20 de novembro de 2011

Bartolomeu Dias: «O “Capitão do Fim”. Não muito longe do estrado, um numeroso grupo de damas e gentis-homens jogava um jogo de cartas com trovas da invenção de Garcia de Resende, o escrivão da puridade d'el-rei e poeta nas horas vagas, muito ao gosto da corte…»

Cortesia de vidaslusofonas

«As paredes da sala principal da casa onde pousava D. João II tinham sido revestidas, para a audiência, de ricos panos de seda e de rás. Sobre um alto estrado forrado de veludo vermelho, com dossel de brocado carmesim, sentados de cada lado da cadeira real ainda vazia, a sereníssima rainha D. Leonor e o príncipe presidiam aos jogos e danças com que os cortesãos entretinham a espera da embaixada. De pé, um pouco atrás da rainha, viu o duque D. Manuel a quem el-rei concedera os bens e títulos de duque de Viseu e de Beja, do primogénito Diogo, a fim de apaziguar a esposa e manter satisfeito esse cunhado ambicioso, dissimulado e escorregadio como uma enguia.

Ao chegar da sua ultima viagem, achara D. Afonso muito formoso e espigado para os seus quase doze anos de idade, porém mais inclinado às coisas do avô D. Afonso V que às de seu pai, como este mesmo reconhecia. “É mais brando e macio do que cumpre a um príncipe herdeiro de um grande trono”, ouvira-o dizer um dia, vendo o filho trocar o jogo de canas pelo sarau de poesia. Desta vez, a função a que assistia seria seguramente ao gosto do moço príncipe.
Seu pai ordenara a todos os que tinham logrado permissão de assistir ao recebimento das embaixadas para se apresentarem em trajo de gala e com os seus melhores atavios, no que fora prontamente obedecido, pois, dada a singular austeridade de D. João e o seu defeso de luxos e ostentações, escasseavam as ocasiões para os cortesãos alardearem a sua opulência e supremacia e ninguém iria desperdiçar tão raro ensejo. Assim, os nobres e as suas damas luziam com soberba galanteria as sedas e brocados roçagantes, cheios de cor e de bordados, adornados com as suas mais belas jóias de oiro e pedraria.

Cortesia de esquilo

De igual modo, os oficiais do serviço de Sua Alteza trajavam de veludo e os seus moços e criados vestiam as librés de gala, desde o mordomo-mor, que dirigia as cerimónias, ao porteiro-mor, com a sua hoste de porteiros de maça e reis d'armas, assim como o vedor-mor, com os vedores da Fazenda, os dois mestres-sala ou ainda a capela real com todos os seus tangedores e cantores, além de inúmeros arautos e passavantes com trombetas, tambores, charamelas e sacabuxas, todos engalanados.

NOTA: Charamela era um instrumento musical com uma palheta metida numa caixa que se soprava com força, como nas buzinas. A sacabuxa assemelhava-se a uma trompa.

Não muito longe do estrado, um numeroso grupo de damas e gentis-homens jogava um jogo de cartas com trovas da invenção de Garcia de Resende, o escrivão da puridade d'el-rei e poeta nas horas vagas, muito ao gosto da corte, como lhe era dado ver pela grande animação dos jogadores, com os risos e malícias que ecoavam pela sala, de mistura com algumas zangas e amuos dos perdedores. Por desfastio, juntou-se aos espectadores que aplaudiam e vaiavam os jogadores.
Havia quarenta e oito cartas, cada uma com sua trova escrita, metade de mulheres e metade de homens, sendo doze trovas de louvor e doze de deslouvor para cada grupo. Bem baralhadas as cartas, o jogador tirava uma em nome de certa dama ou de gentil-homem e lia a trova em voz alta em sendo de louvor, aplaudia-se o visado, em sendo de escárnio, todos apupavam e se riam do desafortunado ou da desventurada. Ouviu o nome de um seu conhecido e prestou atenção à leitura da maliciosa D. Joana de Mendonça que proclamava:

Vossos dias já passaram,
logo pareceis passado,
sois das damas enjeitado
e nunca vos enjeitaram.

Cortesia de jcabral

Não pôde deixar de sorrir, pois, pelo menos naquele caso, a trova de escárnio acertara em cheio, visto o fidalgo ser bem servido de anos, muito emproado e amador confesso de damas a quem muito importunava e que dele zombavam sem dó nem piedade:

Sois mais pai que servidor,
sois mais avô que galante,
por isso des hoje avante
deixai as damas, senhor.

Ainda os risos não tinham esmorecido e já o estribeiro-mor, Francisco Homem, lia a sua trova a uma dama, cujo nome não ouvira, de novo absorto em outros pensamentos, com o olhar preso no estrado onde se sentavam as três pessoas mais chegadas a el-rei, o seu filho e herdeiro, a mulher e o cunhado e, no entanto, os dois últimos haveriam de ser os seus maiores inimigos, dissimulados e feros, trabalhando à sombra dos parentes de Castela, não desperdiçando a mínima ocasião de se opor aos seus desígnios». In Navegador da Passagem, Deana Barroqueiro, Porto Editora, 2008.

Continua
Wikipédia/Deana Barroqueiro/Porto Editora/JDACT

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Bartolomeu Dias: O «Capitão do Fim»

Rota da viagem de Bartomoleu Dias (1487-88)
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Bartolomeu Dias (c. 1450 - 1500) foi um navegador português que ficou célebre por ter sido o primeiro europeu a navegar para além do extremo sul de África, «dobrando» o Cabo da Boa Esperança e chegando ao oceano Índico a partir do Atlântico
Jaz aqui, na pequena praia extrema,
O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
O mar é o mesmo: já ningém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.
(Fernando Pessoa, «epitáfio de Bartolomeu Dias», in Mensagem)
(Deana Barroqueiro)
Dele, que possuía origens judaicas, não se conhecem os antepassados, mas mercês e armas a ele outorgadas passaram a seus descendentes. Seu irmão foi Diogo Dias. Há quem o diga descendente de Dinis Dias escudeiro de D. João I e como navegador descobrira Cabo Verde em 1445. Ignora-se onde e quando nasceu, no entanto alguns historiadores sustentam ter ele nascido em Mirandela, Trás-os-Montes.
Na sua juventude terá frequentado as aulas de Matemática e Astronomia na Universidade de Lisboa e serviu na fortaleza de São Jorge da Mina. Estava habilitado quer a determinar as coordenadas de um local, quer a enfrentar tempestades e calmarias como as do Golfo da Guiné.

Estátua de Bartolomeu Dias na Cidade do Cabo
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Em 1486, D. João II confiou-lhe o comando de duas caravelas e de uma naveta de mantimentos com o intuito público de saber notícias do Preste João. Ao comando da caravela S. Pantaleão estava João Infante. O propósito não declarado da expedição seria investigar a verdadeira extensão para Sul das costas do continente africano, de forma a avaliar a possibilidade de um caminho marítimo para a Índia. Porém antes disso, capitaneara um navio na expedição de Diogo de Azambuja ao Golfo da Guiné.

Segundo as palavras de Deana Barroqueiro: «Bartolomeu Dias aparece-nos como um comamdante a quem não é atribuído o justo valor e como um homem que caminha para a morte triste e amargurado, sem saudades do passado, mas orgulhoso do que fez e capaz de reconstituir passo a passo a viagem que o tornou o primeiro português a ultrapassar o Cabo e a abrir o caminho para o grande desígnio de D. João II». «Vivendo sob a égide de três reis, em tempo de grandes perturbações políticas e sociais, mas também de intensa efervescência cultural e científica, Bartolomeu Dias foi espectador, agente e por vezes peão nos lances mortais dos perigosos jogos de poder...». «Entregara-se de corpo e alma à empresa, porém o Venturoso, em favorecimento dos seus validos, acabara por lhe negar a honra que lhe pertencia por direito próprio, concedendo-a a Vasco da Gama. Mas atropelos e injustiças...». Como dissera um poeta:
Faz o tempo outra volta:
tornam-se boas vontades
maus desejos,
honram mais quem mais se solta,
e em todalas verdades
catam pejos.
Marinheiro experiente, o primeiro a chegar ao Cabo das Tormentas, como o batizou em 1488, um dos mais importantes acontecimentos da história das navegações. A expedição partiu de Lisboa em Agosto de 1487. Em Dezembro atingiu a costa da actual Namíbia, o ponto mais a sul cartografado pela expedição de Diogo Cão. Continuando para sul, descobriu primeiro a Angra dos Ilhéus, sendo assaltado, em seguida, por um violento temporal. Treze dias depois, procurou a costa, encontrando apenas o mar. Aproveitando os ventos vindos da Antárctica, que sopram vigorosamente no Atlântico Sul, navegou para nordeste, redescobrindo a costa, que aí já tinha a orientação este-oeste e norte (já para leste do Cabo da Boa Esperança, que foi renomeado pelo rei português D. João II, assegurando a esperança de se chegar à Índia. Continuou para leste, cartografando diversas baias da costa da actual África do Sul (úteis no futuro como portos naturais), e chegando até à baía de Algoa (800 km a leste do cabo da Boa Esperança), então conhecido como Cabo das Tormentas.
Bartolomeu Dias foi o primeiro navegador a navegar longe da costa no Atlântico Sul. A sua viagem, continuada por Vasco da Gama, abriu o caminho maritimo para a Índia.

Seria em 1500 o principal navegador da esquadra de Pedro Álvares Cabral. A carta de Pero Vaz de Caminha faz diversas referências a ele, apontando para a confiança total que nele tinha Cabral. Quando a armada navegava em direção ao Cabo, após sua estada no Brasil, um forte temporal causou o naufrágio de quatro naus, entre elas a de Bartolomeu Dias.
«... com a sua espantosa façanha, ultrapassou a dimensão de português e fez-se História de outras nações como a África do Sul onde, com direito a estátua e museu, goza de estatuto de herói primordial...». In Navegador da Passagem.
Wikipédia/Deana Barroqueiro/Porto Editora/JDACT