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domingo, 2 de agosto de 2015

Os Lagóias e os Estrangeiros. Garcia Castro e Raul Ladeira. «Não há critério seguro para distinguir o homem dos animais. O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não»

raul ladeira 
jdact

Os lagóias
Orbis pictus
«Ao lusco-fusco das manhãs de Outono,
estações do ano são humores do vida!,
homens do peixe do senhor Rabinha,
seus fatos negros de borracha húmida,
entre o estertor das camionetas Diesel
arrastam os caixotes reluzentes
o assobiar de fresco ao nevoeiro.
                            
As motoretas passam a grasnar
roufenhas, oleosas, proletárias,
de capacetes e faróis acesos,
um gosto popular de cosmonautas.

De quantos lados chegam! As mulheres,
de alcofas pela mão e as grandes nádegas,
já debruçadas, para aviar a praça,

gulosas do café com massa frita,
do qual o cheiro alastra, uma doçura,
o largo, os automóveis, e o meu quarto.

Ao lado, no Quartel, os corneteiros
já diluíram os clarins dolosos
sobre o cinzento do verniz dos plátanos.

Da serra para o mercado há os que passam
com suas botas de ferrar o chão,
ao bafo do vapor azul discreto
de algum oficial à porta-d’armas.

As bestas e as carroças de hortaliça,
impacientes, fumegando, chiam,
rangem os aros de metal dos rodas,
batem os cascos, rifles, na calçada.

Rapazes pobres do trabalho em obras,
andámos todos já na mesma escola,
nem é de mais que algum seja bombeiro,
falam-me sempre para fumar comigo.

Sete horas da manhã. Meia p’rás oito.

O apito do fábrica da Rolha
espichou agora, em sobressalto, vivo,
seu arrepio de esganar o ar…

Que pena o d’Assumpção, que se matou!

Talvez imaginasse apetecer-lhe,
aqui de Portalegre, alucinado,
um copo de nevoeiro».
In Portalegre, Setembro 1970

In Carlos Garcia Castro e Raul Ladeira, Os Lagóias e os Estrangeiros, edição da CM de Portalegre, 1992, Depósito legal nº 53094.

Cortesia de CMP/JDACT

domingo, 26 de julho de 2015

Os Lagóias e os Estrangeiros. Garcia Castro e Raul Ladeira. «Os sinos dobram na cidade branca. Os sinos de mais dobrar! Dobrar dos sinos na cidade branca, alguém do campo que lá foi morar. São sinos de São Lourenço!»

raul ladeira 
jdact

Os lagóias
«Da cidade nasce o povo,
baptizado, funeral,
amigos, vinho que provo
por tristeza ou arraial.

Cidade que tens o povo
das ruas da minha morte,
meu coração é tão novo
que morre sem que se importe.

Cidade, forma do povo
que tem por sorte a canseira,
no ganhar sou eu que o louvo
no perder, cidade inteira».
In Portalegre, Março 1974


Os sinos de São Lourenço
«Os sinos dobram na cidade branca.
Os sinos de mais dobrar!
Dobrar dos sinos na cidade branca,
alguém do campo que lá foi morar.
São sinos de São Lourenço!
Os sinos de mais morrer.
Os sinos dobram na cidade branca,
gente de fora que lá foi viver.
Dobram os sinos na cidade branca.
Os sinos que dão mais dó!
Dobrar dos sinos na cidade branca,
era um velhote que vivia só.
São sinos de São Lourenço!
Os sinos da maior dor.
Os sinos dobram na cidade branca,
na Casa de Saúde, um lavrador.

Dobram os sinos na cidade branca.
Os sinos do maior dano!
Não dobram sinos na cidade branca,
nem leva padre à frente, era um cigano.
São sinos de São Lourenço!
Os sinos de mais de um tom.
Não dobram sinos na cidade branca,
foi ontem, suicidou-se era tão bom!
Ai sinos de São Lourenço!
Não dobram por mais engano.
Lá vai deposto da cidade branca
um homem que morreu republicano.
Mais tristes sinos da cidade branca.
Os sinos do derradeiro.
Caixão de linho virgem, é um anjinho
filha tão nova, um rapaz bombeiro».
In Portalegre, Setembro 1970

In Carlos Garcia Castro e Raul Ladeira, Os Lagóias e os Estrangeiros, edição da CM de Portalegre, 1992, Depósito legal nº 53094.

Cortesia de CMP/JDACT

terça-feira, 23 de junho de 2015

Os Lagóias e os Estrangeiros. Garcia Castro e Raul Ladeira. «… lagóia virá de langóia, por sua vez proveniente de langor. Portalegre é cidade de há muito industrial, com fábricas que ocupam muita gente; por falta de matérias-primas, ou outras circunstâncias, as fábricas tinham que fechar por algum tempo, os sem-trabalho, os inactivos...»

jdact

«Vista à distância, mas ao alcance directo dos olhos, a cidade dos lagóias mantém hoje uma unidade que pode fazer pensar os estrangeiros. O recorte de Portalegre nas suas zonas altas tem uma marca tão inconfundível como a dentadura de uma chave. Numa curta faixa, sem pedir qualquer movimento de cabeça, sem exigir o menor truque fotográfico, mostram-se os restos do castelo a grande chaminé da fábrica da rolha, o vulto amarelo do palácio, as torres da Sé sobre o Paço do Bispo, o antigo sanatório. Mais à direita, subindo na fronteira com a planície, o cone escuro da Serra do Penha e a sua cruz branca espetada nos rochedos. Aí ninguém vai que não tenha Portalegre em vistoria, mas é necessário descer sem pressas à cidade-dupla, a de cima da freguesia da Sé e a de baixo, de São Lourenço, em que conversam, comem, amam e trabalham (também sempre a subir e a descer) os lagóias. Serão raros os portalegrenses que não sabem que um portalegrense é um lagóia. Quase tão raros como os que sabem o que lagóia quer reamente dizer. O apodo, ou alcunha meio afrontosa, tem provavelmente o percurso das palavras que perdem, ou ganham, alguma coisa com o tempo. No caso parece que se perdeu um n. Alexandre Carvalho Costa, nos seus Gentílicos e Apodos de Portugal Continental, recordou uma conversa com o ex-juiz de direito na cidade, Joaquim Dias Loução.
Poucos portalegrenses, ainda hoje, poderão desmentir esta hipótese publicada em edição de 1973 pela Junta Distrital de Portalegre: lagóia virá de langóia, por sua vez proveniente de langor que mais não é que moleza, prostração, preguiça. O contexto: Portalegre é cidade de há muito industrial, com fábricas que ocupam muita gente; quando por falta de matérias-primas, ou outras circunstâncias, as fábricas tinham que fechar por algum tempo os sem-trabalho, os inactivos demoravam-se às esquinas, nas ruas, nos largos. À espero de melhores dias, continua, dada a sua falta de hábito para os serviços do campo. O juiz Loução rematava nunca ter percebido a desnalização do na de langóia. Mas um lagóia, por intuição pode chegar lá. Na sua vocação escarninha, no gosto pelo ridículo auto-aplicado, largou-se em menor esforço o tal n. Um processo irmão ao das alcunhas com que metodicamente se carimbam os lagóias uns aos outros (eu tenho, em Portalegre) património da cidade. Ou do calão ofensivo com que se cumprimentam e divertem no dia-a-dia os melhores dos melhores amigos, em Portalegre, sem se ofenderem.
Cidade branca onde o negócio da tasca não perde energias, de mulheres escondidas nas janelas, donas de casa de saber quem passa (escreve Carlos Garcia Castro, lagóia), cidade do café-snack-restaurante Tarro, na zono novo, onde há sempre um caso para contar. A cidade onde muitos portalegrenses novos ainda repetem a ladainha aqui nunca se possa nada, mesmo quando se passa, o capital de um distrito que, e isto continua, parece disputar com o Alentejo do sul, ano a ano e taco-a-taco, o estranho campeonato do maior número de suicidas.
E no espaço em que quase todos se conhecem uns aos outros, a bem e a mal o poeta de olhos abertos e o fotógrafo de objectiva paralela (texto fotográfico de Raul Ladeira, outro lagóia) fazem alguns retratos completos. Dos estrangeiros que lá vivem também, sem ser necessário colocá-los como um contrário, um lagóia é só um modelo da sua própria cidade, não deve, nem ele pretende, servir de exemplo para mais lugar nenhum. O estrangeiro de Portalegre é, no seu ângulo pior o que vive subordinado às exigências rascas de Lisboa, a capital terra ardente, não se conhece ninguém, canseira da igualdade. É a amiba descarada que se atreve a comer açorda sem coentros, mas que parece poder puxar um lagóia para a armadilha: Inaugurarmos nossos velhos espaços onde só haja, como nós, medíocres. Quem diz isto assim, afinal de contas, só pode gostar muito da sua cidade, vista por fora e vista de dentro.
Estas palavras duplas, de lagóia e estrangeiro foram escritas em Lisboa em Outubro de 1992». In Rui Cardoso Martins

In Carlos Garcia Castro e Raul Ladeira, Os Lagóias e os Estrangeiros, edição da CM de Portalegre, 1992, Depósito legal nº 53094.

Cortesia de CMP/JDACT

domingo, 10 de março de 2013

Poesia. Gloria Victis. Não-Poemas. Carlos Garcia Castro. «Por ser concreto sem palavras lúdicas, meu gosto é mais de gestos que dizeres, aqui sentado ao canto na cozinha e sem barulho, para não estares sozinha»

jdact e raulladeira

Monogamia
- Olha! Não sei sequer pregar um prego.
Por diligência só de acompanhar-te,
que mais não sei cerzir outras tarefas
para te ajudar às lidas da cozinha,
aí me sento ao canto, sem barulho,
para não ficar nenhum de nós sozinho.
Por mais de amar-te no que posso e faço
com versos amestrados mas antigos,
que hei-de fazer nas lidas da cozinha?
Vou muita vez ao lixo na Praceta,
com ironia, para fazer de conta
ser tão vulgar como qualquer vizinho.
A minha ajuda é quase serviçal,
porque eu não sei sequer pregar um prego.

Versos que escreva saem sempre mínimos.
Em casa os faço, aqui os vou escondendo,
tão clandestinos fora como dentro,
vergonha de não serem conhecidos.
Por ser concreto sem palavras lúdicas,
meu gosto é mais de gestos que dizeres,
aqui sentado ao canto na cozinha
e sem barulho, para não estares sozinha.
Mal apareço em folhas dos Jornais,
e é disto que não passo ao ser doméstico.

Ter um escritório é ficar lá dentro,
ninguém do seu escritório faz cozinha,
poeta ao mesmo tempo destes versos
que na Praceta vai também ao lixo.

 - Eu que não sei sequer pregar um prego.

Ainda assim, lá vou compondo os versos
de alguma solução que é sofrimento.
Não é silêncio não fazer barulho.
Para não ficar nenhum de nós sozinho,
aqui me sento a ver-te na cozinha,
até que vá ao lixo na Praceta.

Escrever é vício, amar é condição.
Não é com versos que se prega um prego...
... nem é com versos que o amor se faz.

Fico sentado ao canto na cozinha.

Quando amanhã vierem cá jantar
os nossos netos mais os nossos genros
e a nossa nora, rapariga atenta,
os filhos sabem que eu não prego um prego.
 - Louvado seja o canto da cozinha.

Vou lá, para dentro, aqui não faço nada.

Todos cá vêm, vai haver jantar

Que hei-de dizer senão ficar sentado?
 - Sentindo quanto fazes na cozinha
e à espera de ir ao lixo na Praceta,
à espera da alegria do jantar.

Sabes que mais? Eu vou mas é deitar-me.
Mulher de amor, não vais ficar sozinha.

Não estar sozinho é dar-se em liberdade.
Do resto, o que é que fica? - A solidão?
Quem sabe a solidão? - A liberdade?

Poeta antigo sem pregar um prego,
tenho os limites dos meus versos métricos.
Dramas - se os há, não são da poesia.
Eu tenho os meus em ti já esclarecidos.

Uma cozinha pode ser um mito,
 - até, para quem souber pregar um prego.

Pode escrever-se sem se ter escritório,
contabilistas é que o não dispensam,
qualquer poeta vive sem escritório
 - mais fácil de entender que uma cozinha,
mais acessível do que ir ao lixo.
Mas eu não me dispenso aqui sentado,
suspenso, sem barulho, em companhia,
para não ficar nenhum de nós sozinho.

Nem o silêncio é não fazer barulho.

Há solidão também na companhia
de nem sequer saber pregar um prego,
embora seja ilustre fazer versos.

Por diligência, estes são convictos.

Aqui os deixo sem fazer de conta,
por fantasia em vida dos poetas...

(...) de alguma vez sentados na cozinha,
de alguma vez ao lixo na Praceta.

Carlos Garcia de Castro, in ‘Gloria Victis‘,
Portalegre, Abril de 2000

In Carlos Garcia de Castro, Gloria Victis. Não-Poemas, Edições Sempre-em-Pé, colecção Universos/Poesia, 2007, ISBN 978-972-8870-14-0.

Cortesia de Sempre-em-Pé/JDACT

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Poesia. Gloria Victis. Não-Poemas. Carlos Garcia Castro. «Gritos, se os houve, discussões ou sovas, encontros, desencontros, os sermões, as teimosias, birras, os caprichos que de menino fazem bem ao corpo e às almas trazem singulares segredos»

jdact e cortesia de raulladeira

Sucessores & Ca.
Morreu um homem, só deixou sarilhos.
Vou amanhã fazer umas escrituras.

Chegam e dizem, sem qualquer cinismo:
 - Que muitos anos viva para o lembrar.

Mas nada disto impede uma saudade,
nada retém o choro verdadeiro.

Tudo se lembra e ao mesmo tempo esquece,
assim serão nos astros os Buracos Negros.

Gritos, se os houve, discussões ou sovas,
encontros, desencontros, os sermões,
as teimosias, birras, os caprichos
que de menino fazem bem ao corpo
e às almas trazem singulares segredos,
tudo se esquece e ao mesmo tempo solta-se
para a dimensão genética do tempo,
lá onde tudo é certo e é viável
 - mas oculto.

Assim serão nos astros os Buracos Negros.
Morreu um homem, só deixou sarilhos.

Mas nesta concisão definitiva
de agora ter de haver novas escrituras,
em verso se dirá, no considerando,
daí surgir mais outra criação.

Assim serão nos astros os Buracos Negros.

Poema de Carlos Garcia Castro, in ‘Gloris Victis’, 19 de Maio de 1999

In Carlos Garcia de Castro, Gloria Victis. Não-Poemas, Edições Sempre-em-Pé, colecção Universos/Poesia, 2007, ISBN 978-972-8870-14-0.

Cortesia de Sempre-em-Pé/JDACT

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Retratos de Gente em Procissão. Aragonez Marques. «… assim fez, cal por cima e parede limpa de novo. Soube-se mais tarde que o Marchão tinha acabado de borrar o maior chamariz para o seu negócio. A jovem promissora chamava-se “Helena Vieira da Silva”»

jdact e raulladeira

«Na década de sessenta, Portalegre era uma cidade organizada, sustentada por uma indústria que garantia o trabalho, a fábrica dos tapetes (tapeçarias de Portalegre onde começaram a trabalhar em exclusivo as primeiras mulheres), a fábrica de lanifícios, a fábrica da rolha, a Finicisa, empresas de construção, o Malcata, o Emílio Castro, que construiu um grande edifício em frente ao mercado com um parque infantil original, logo apelidado de Aldeia dos Macacos, onde brincavam poucas ou nenhumas crianças pois ao ser de cimento, partiam braços, cabeças e pernas com facilidade, um comércio activo, sem a concorrência dos supermercados onde os comerciantes, gente séria que vendia fiado, era avalista da luz eléctrica e do contador da água dos seus clientes, frente à Hidro ou aos Serviços Municipalizados, e polícias, muitos e barrigudos os conhecidos, de chapéu, gabardina e gravata os outros que adivinhávamos, que auxiliavam essa organização.
Os dias corriam iguais e lentos, interrompidos de vez em quando pela fuga de casa de um adolescente, um suicídio ou um par de cor… Havia médicos que casavam com filhas de médicos, professores que casavam com professoras, agricultores que casavam com filhas de outros agricultores, enfermeiras que não podiam casar e operários que casavam com toda a gente disponível depois da tropa cumprida. Médicos os Sampaios, com a Casa de Saúde como catedral, agricultores um par deles, donos das terras e das casas brasonadas ainda heranças feudais, professores, Nunes, Serrotes, Pestanas, Barrocas, Cardosos, Castros, Salgados, Bacharéis, Fonsecas, Matos, Pratas, Martinós, Matelas, Raimundos, Freires, Patés, Mouratos, Heitores, Patrões, Mouras, Natálias, Quezadas, Moreiras e Martins... Alguns que passaram a raia da simples escolástica, Régio, Tavares, Garcia de Castro, Pestana, vários apelidos que a malta naquele tempo se reproduzia mais do que agora e os professores chegavam todos os anos e ficavam. Hoje já não chegam tantos, os que há são da terra, filhos e filhas da cidade antiga.
Havia bons e maus, como em todo o lado, mas os que mais admirava eram os rompedores silenciosos dos tabus, das ordens e do sistema rotineiro, mesmo que o empregado do Café Central lhes servisse o vinho da serra, camuflado em chávenas de café.
Juntavam-se no Marchão, a tasca citadina de mais êxito, pelos reservados que tinha depois de subir as escadas por trás do balcão. O vinho do melhor e venerado, um dia pedi um traçado e quase me puseram na rua. Tinha as melhores empadas, rissóis e pastéis de bacalhau do burgo e era o sítio preferido dos intelectuais que desciam a Rua do Comércio com cara de pau, gravata e lenço branco no bolso e aí se escondiam para rir, para despir o ar sério necessário nesse tempo para se ser levado a sério, até porque depois de uns copos e quando as aparências já não eram possíveis de se reconstituirem, havia sempre a porta traseira do Marchão, aberta à rua que baixava da Igreja de S. Lourenço e podia-se sempre dizer que se tinha acabado de vir da missa, ou de se ter acabado de confessar ao padre Jorge, que com os adultos não sei, mas com a catraiada, transformava o confessionário em inquisição erótica. Tens maus pensamentos? Tocas no teu corpo? Brincas aos médicos com as tuas primas? Qual delas? Sac… de padre.
Eu era um puto nesse tempo e frequentava a casa porque era amigo do Quim, o filho do Marchão e acompanhei de perto muito dos despires dos cinzentos, a que a cidade obrigava os seus mais ilustres. Conta-se que um dia, esteve aí o João Tavares, com uma série de amantes dos pincéis que tinham vindo à Fábrica dos Tapetes, para verem ser reproduzidas, a ponto, obras suas e estava com eles, uma jovem e promissora pintora, que com o adiantar dos risos e a desinibição do vinho, riscou a parede branca com vários rasgos a preto, numa composição organizada no caos. Diz-se que quando saíram pela porta de trás como era habitual, o Marchão chamou a mulher e disse-lhe:
  • Cada vez estão piores, agora temos que ser nós a caiar esta m… Assim fez, cal por cima e parede limpa de novo. Soube-se mais tarde que o Marchão tinha acabado de borrar o maior chamariz para o seu negócio. A jovem promissora chamava-se Helena Vieira da Silva.
Mas continuemos com a cidade onde a deixámos. Enfermeiras, não eram assim muitas, pois as freiras, normalmente espanholas, faziam-lhes concorrência no profissional, não no número de afilhados. Os operários e operárias eram a maior parte dos habitantes da cidade. Havia também pequenos negócios, poros necessários à respiração de uma comunidade, por todos conhecidos e que faziam parte da cidade como o Plátano ou a Fonte do Rossio. Carnes e enchidos, o Vitalino, o Brito, o Zé Maria do Talho... Os sapateiros, o Lagarto, o Adriano... Mercearias de bairro, o Camejo, o Carichas, o Alegre... Tabernas, upa! Uma por rua. Ourives. O Cabecinha, o Áreas, o Garção... Cabeleireiros, o Relvas monopolizava. Os alfaiates, o Traguil, o Moutoso... Mais tarde o Parreira, mestre em vestir noivos já na sacristia das igrejas». In Rui Aragonez Marques, Retratos de Gente em Procissão, Tribuna Livre, capa de Raul Ladeira, Edições Colibri, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-689-257-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Poesia. Gloria Victis. Não-Poemas. Carlos Garcia Castro. «Por mais que digam o amor em versos, por mais que o cante, róseo, a poesia, por mais que o chorem, ébrios, os poetas, por mais que tu pareças madrepérola, por mais que os dois sejamos um no outro uma avalancha abalançar de engenho, hábil momento, prontidão expedita»

jdact e cortesia de raulladeira

Cabeça de cã
A minha idade é já de senador.
Classicamente quer dizer sou velho.
Pouco me falta para o descuido inapto,
assim se diz da hora de morrer.
Tanto me faz pensar como sentir.
Prezo o direito de não ter pudor
da minha liberdade sem pachorra,
sem explicações e outras atenções
para as grandes frases ditas em poemas.
A vida é natural sem literatura,
nem dela mais precisa um ser comum,
que é o que a morte faz de todos nós.
Por isso prezo o meu descuido inapto,
quer tenha feito ou não qualquer poema.
O mesmo se dirá dum canastreiro,
quer tenha feito ou não muitas canastras.
Tanto me faz. Não tenho é mais pachorra
praa as grandes frases ditas em poemas.
A minha idade é já de senador,
classicamente quer dizer sou velho,
esclarecido então para o tal descuido
de ser poeta ou ser um canastreiro.
2005


Celebração
Pareces mas não és de madrepérola.
Pouco me interessam já tais fantasias
que fazem do amor escrita em papel
às ordens dos poetas, não de ti.
Versos de amor são sempre longitude,
traçadas geografias, medições
que eu próprio também fiz, como num mapa,
a toponímia azul, mas de aparência.
Dizer de amor em versos não é prático,
por mais inteligentes que eles sejam.
Não é de versos que o amor se faz:
nunca o amor se fez a escrever versos
(embora os necessite para os seus mitos),
não se reparte só duma só parte.

Por mais que digam o amor em versos,
por mais que o cante, róseo, a poesia,
por mais que o chorem, ébrios, os poetas,
por mais que tu pareças madrepérola,
por mais que os dois sejamos um no outro
uma avalancha abalançar de engenho,
hábil momento, prontidão expedita
(noutras camas se deita quem não ama)
 - nunca preciso desse amor em verso,
escrita em papel sem mais que o pensamento.
O amor em ti comigo é mais exacto,
sem fantasias, porque tem lugar.

 - Lugar das competências mais vulgares,
lugar todos os dias alegrias
onde lá estamos, tu - mulher e espírito
dum homem que dispensa a poesia.

Pena que tenho, lucidez de hormonas,
de aqui ficarem dados estes versos
 - agora que não servem já para nós.
1999

In Carlos Garcia de Castro, Gloria Victis. Não-Poemas, Edições Sempre-em-Pé, colecção Universos/Poesia, 2007, ISBN 978-972-8870-14-0.

Cortesia de Sempre-em-Pé/JDACT

domingo, 27 de maio de 2012

Fotografia. Raul Ladeira. Entreabertas. «A passagem do tempo deixa nas pessoas e nas coisas sulcos, manchas, cores e texturas que escapam aos nossos olhares apressados e saciados de lugares comuns. É essa beleza que Raul Ladeira faz sobressair, fotografando quem viveu e se confrontou às intempéries da vida…»



raulladeira

Parte 1.
«Estas imagens de Raul Ladeira são magníficas. Janelas entreabertas para uma realidade bem nossa, e com a qual, pessoalmente, me identifico bastante, elas mostram a beleza daquilo que não só nos passa despercebido como é, muitas vezes, depreciado. A passagem do tempo deixa nas pessoas e nas coisas sulcos, manchas, cores e texturas que escapam aos nossos olhares apressados e saciados de lugares comuns. É essa beleza que Raul Ladeira faz sobressair, fotografando quem viveu e se confrontou às intempéries da vida, mas também as coisas simples, os gestos e os momentos coloridos e luminosos que compõem a nossa existência.

raulladeira

Finalmente, são talvez esses momentos de atenção que mais nos preenchem. Quando um certo silêncio interior aquieta o bulício exterior e uma insustentável ternura nos dilata o coração, pousando-nos sobre o mundo ao de leve e com um olhar carinhoso. Encontro nas fotografias de Raul Ladeira o sopro de silêncio de onde brota essa ternura e é para mim uma alegria que a […]». In Raul Ladeira, Entreabertas, Tsering Paldron, Amara (Associação pela Dignidade na Vida e na Morte), Banco Espírito Santo, Parque Natural da Serra de S. Mamede, Corlito, 2005.




A amizade de JL
Cortesia de Amara/JDACT