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quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Mago Mestre. Raymond Feist. «Na penumbra, ouviu passos que se aproximavam, parando aos pés de seu catre. Ao seu lado, ouviu uma súbita inspiração e soube que o menestrel também estava acordado»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Fez sinal aos escravos com os machados para que libertassem Pug, que, pouco depois, encontrava-se a salvo. Laurie levou-o até ao lugar onde estava o jovem soldado. Pug tossiu o que restava de água nos pulmões e disse, ofegante: agradeço ao meu amo pela minha vida. O homem nada disse, mas, quando o capataz se aproximou, dirigiu-lhe algumas observações: o escravo tinha razão e você não. A árvore estava podre. Não é certo castigá-lo por sua falta de discernimento e seu mau humor. Devia mandar espancá-lo, mas não vou perder tempo com isso. O trabalho avança devagar e o meu pai está descontente. Nogamu abaixou a cabeça. Sinto-me humilhado com o que meu senhor pensa de mim. Tenho permissão para tirar a minha própria vida? Não. Seria honra demais. Volte ao trabalho. O rosto do capataz enrubesceu de raiva e vergonha silenciosas. Erguendo o chicote, apontou para Laurie e Pug. Vocês dois, voltem ao trabalho. Laurie levantou-se e Pug tentou. Tinha os joelhos pouco firmes, pois quase se afogara, mas conseguiu ficar de pé após várias tentativas. Estes dois estão dispensados pelo resto do dia, disse o jovem lorde. Este aqui, apontou para Pug, não tem grande utilidade. O outro tem de tratar os cortes que você lhe fez ou irão infectar. Virou-se para o guarda. Leve-os de volta ao acampamento para que cuidem deles.

Pug sentiu-se grato, não tanto por ele, mas por Laurie. Com algum descanso, Pug poderia ter retomado o trabalho; no entanto, uma ferida aberta num pântano significava, na maioria das vezes, uma sentença de morte. As infecções eram rápidas naquele lugar quente e sujo, e havia poucos tratamentos disponíveis. Seguiram o guarda. Enquanto se afastavam, Pug percebeu que o feitor os fitava com ódio indisfarçado no olhar.

O assoalho rangeu e Pug acordou na mesma hora. A cautela nascida e desenvolvida pela escravidão advertiu-o de que aquele som não se encaixava no interior da cabana, no meio da noite.

Na penumbra, ouviu passos que se aproximavam, parando aos pés de seu catre. Ao seu lado, ouviu uma súbita inspiração e soube que o menestrel também estava acordado. Provavelmente, metade dos escravos tinha acordado com o intruso. O desconhecido pareceu hesitar e Pug esperou, tenso com a incerteza. Ouviu-se um grunhido e, sem esperar, Pug rolou para fora do catre. Escutou algo pesado batendo no chão, e o ruído surdo de uma adaga atingindo o lugar onde o seu peito estivera momentos antes. De repente, o alojamento explodiu num frenesi. Os escravos gritavam e corriam para a porta. Pug sentiu mãos agarrando-o na escuridão e logo uma dor aguda explodiu-lhe no peito. Tentou alcançar o agressor às cegas, brigando pela posse da lâmina. Outro golpe fez-lhe um corte na palma da mão direita. Subitamente, o atacante parou de se mexer e Pug percebeu que havia uma terceira pessoa em cima do pretenso assassino. Soldados entraram correndo na cabana, com lanternas nas mãos. Pug viu Laurie caído por cima do corpo imóvel de Nogamu. O Urso ainda respirava, mas, considerando a forma como a adaga saía de sua caixa torácica, não seria por muito tempo. O jovem soldado que salvara as vidas de Pug e Laurie entrou e os outros abriram caminho para que passasse. Parou perto dos três combatentes e simplesmente perguntou: está morto? O capataz abriu os olhos e, num sussurro fraco, conseguiu dizer: estou vivo, senhor. Mas morro pela espada. Um sorriso leve e desafiador apareceu no rosto suado. A expressão do jovem soldado não revelou qualquer emoção, embora seus olhos parecessem em chamas. Não creio, disse calmamente. Virou-se para os dois soldados: levem-no já para fora e enforquem-no. Não haverá honra alguma para ser cantada pelo seu clã. Deixem o corpo para os insectos. Servirá como aviso para que não me desobedeçam. Vão.

O rosto do moribundo empalideceu e os seus lábios tremeram: não, meu amo. Eu imploro, deixe-me morrer pela espada. São só mais uns minutos. Uma espuma avermelhada surgiu nos cantos da boca do homem. Dois rudes soldados agarraram Nogamu e, sem se importarem com o seu sofrimento, arrastaram-no para fora. Ele gritou por todo o percurso. A força que permanecia na sua voz era surpreendente, como se o medo da forca despertasse uma reserva profunda. Ficaram parados como em um quadro até o som terminar num grito sufocado. Nesse momento, o jovem oficial virou-se para Pug e Laurie. Pug estava sentado com sangue escorrendo do corte comprido e superficial no peito. Segurava a mão ferida com a outra. Este corte era fundo e os dedos não se mexiam». In Raymond Feist, Mago Mestre, 1982, 1992, Saída de Emergência, 2014/2015, ISBN 978-989-637-767-0.

 

Cortesia de SdeEmergência/JDACT


JDACT, Raymond Feist, Literatura, 

terça-feira, 24 de julho de 2018

Mago Mestre. Raymond Feist. «O tronco da árvore estava-se rachando ao meio, pois a parte de cima fora cortada. Embora não fosse um comportamento habitual, se uma árvore estivesse em estado avançado de degradação e a polpa tivesse perdido a força…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O capataz parou na base da árvore, segurando as vestes curtas acima da linha da água. Grunhiu como o urso que parecia e gritou para Pug: que história é essa de outra árvore podre? Pug falava o idioma tsurani melhor do que qualquer midkemiano no acampamento, pois era quem estava lá há mais tempo, tirando alguns velhos escravos tsurani. Gritou para baixo: tem cheiro de podre. Devíamos desbastar outra e deixar esta em paz, feitor. O capataz acenou com a mão. São todos preguiçosos. Esta árvore não tem nada de errado. Está boa. Não querem é trabalhar. Agora, corte-a! Pug suspirou. Não havia como discutir com o Urso, como Nogamu era conhecido por todos os escravos de Midkemia. Era óbvio que estava aborrecido com alguma coisa e seriam os escravos a pagar por isso. Pug começou a dar golpes na parte superior, que logo caiu. O cheiro de podre era intenso e Pug retirou as cordas depressa. Ainda com o último pedaço amarrado na cintura, ouviu o som da madeira rachando. Vai cair!, gritou para os escravos que se encontravam na água abaixo. Sem hesitar, todos fugiram. Quando se ouvia a palavra cair, ninguém ignorava o aviso.
O tronco da árvore estava-se rachando ao meio, pois a parte de cima fora cortada. Embora não fosse um comportamento habitual, se uma árvore estivesse em estado avançado de degradação e a polpa tivesse perdido a força, qualquer falha na casca poderia fazê-la sucumbir ao próprio peso. Os galhos das árvores afastariam as metades. Se Pug ainda estivesse preso ao tronco, as cordas o cortariam ao meio antes de arrebentarem. Pug calculou a direcção da queda. Quando a metade em que estava começou a se deslocar, atirou-se dela. Caiu de costas na água rasa, na esperança de que o meio metro de profundidade suavizasse a queda tanto quanto possível. O baque na água foi imediatamente seguido pelo impacto mais violento contra o chão. O fundo era feito principalmente de lama, logo ele não sofreu grandes danos. Com o choque, o ar que tinha nos pulmões explodiu pela sua boca, deixando-o tonto por um instante. Manteve presença de espírito suficiente para sentar e expirar fundo.
De repente, sentiu um peso golpear-lhe o estômago, deixando-o sem ar e empurrando a sua cabeça de novo para baixo da água. Debateu-se, tentando mexer-se, e sentiu um galho enorme em cima do estômago. Mal conseguia manter o rosto à tona para respirar. Sentia os pulmões ardendo e respirava descontroladamente. A água entrou pela traqueia e começou a sufocá-lo. Tossindo e cuspindo, tentou manter a calma, mas o pânico começava a apoderar-se dele. Desesperado, tentou empurrar o peso de cima dele, mas o galho não se mexeu. Subitamente, sentiu a cabeça fora da água e ouviu Laurie dizer: cuspa, Pug! Expulse essa porcaria ou vai pegar a febre dos pulmões. Pug tossiu e cuspiu. Com Laurie segurando a sua cabeça, recuperou o fôlego aos poucos. Laurie gritou: agarrem o galho. Eu puxo-o de lá de baixo. Vários escravos chapinhavam ao redor, com os corpos suados. Pegaram o galho submerso com esforço e o levantaram um pouco, mas não o bastante para que Laurie arrastasse Pug dali. Tragam machados. Temos de cortar o galho.
Os outros escravos começaram a levar machados, mas Nogamu gritou: não. Deixem aí. Não temos tempo para isso. Há mais árvores para cortar. Laurie quase gritou: não podemos deixá-lo aqui! Vai se afogar! O capataz avançou e bateu em Laurie com o chicote. Fez um corte profundo na face do cantor, que não largou a cabeça do amigo. Volte ao trabalho, escravo. Hoje à noite você será espancado por falar comigo dessa maneira. Há outros que conseguem subir até lá em cima. Agora, deixe-o! Voltou a bater em Laurie, que se encolheu mas manteve a cabeça de Pug acima da água. Nogamu ergueu o chicote para o terceiro golpe, mas foi impedido por uma voz que veio de trás: tirem o escravo de baixo do galho. Laurie viu que quem tinha falado fôra o jovem soldado que acompanhava o feitor. O capataz virou-se, desacostumado a ter suas ordens questionadas. Quando viu quem falara, reprimiu as palavras que estavam na ponta da língua. Assentindo com a cabeça, disse: seja feita a sua vontade». In Raymond Feist, Mago Mestre, 1982, 1992, Saída de Emergência, 2014/2015, ISBN 978-989-637-767-0.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

Mago Mestre. Raymond Feist. «Pug continuou a subir, atento à presença dos perigosos habitantes das árvores de Kelewan. Alcançando o lugar mais adequado para um corte na copa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O escravo agonizante gritava, caído. O dia estava quente demais. Os outros escravos continuavam se dedicando às suas tarefas, ignorando o som da melhor maneira possível. A vida no acampamento valia pouco e não era bom remoer o destino que tantos aguardavam. O moribundo tinha sido mordido por uma relli, uma criatura do pântano semelhante a uma cobra. O seu veneno era lento e doloroso; sem magia, não havia cura. De repente, fez-se silêncio. Pug levantou os olhos e viu um guarda tsurani limpando a espada. Sentiu uma mão no ombro. A voz de Laurie sussurrou ao seu ouvido: parece que o nosso ilustre capataz ficou perturbado com a agonia de Toffston. Pug amarrou com firmeza um pedaço de corda ao redor da cintura. Pelo menos, foi rápido. Virou-se para o cantor alto e louro de Tyr-Sog, uma das cidades do Reino, e disse: fique atento. Esta é velha e pode estar podre. Sem mais uma palavra, Pug subiu pelo tronco da ngaggi, uma árvore dos pântanos parecida com o abeto da qual os tsurani extraíam madeira e resina. Com a falta de metais, os tsurani se aperfeiçoaram em descobrir substitutos. A madeira daquela árvore podia ser trabalhada como papel, secando até ganhar uma dureza incrível, e servia para fazer centenas de objectos. A resina era usada para laminar madeiras e curtir peles de animais. Com peles devidamente curtidas, criavam armaduras tão resistentes quanto as cotas de malha de Midkemia, e as armas em madeira laminada quase igualavam o seu aço.
Quatro anos no acampamento do pântano tinham fortalecido o corpo de Pug. Os músculos delineados se retesaram quando subiu na árvore. Tinha a pele bronzeada pelo sol impiedoso do mundo natal dos tsurani e uma barba de escravo cobria-lhe o rosto. Pug alcançou os primeiros grandes galhos e olhou o amigo lá em baixo. Laurie estava atolado até aos joelhos na água turva, afastando, distraído, os insectos que os atormentavam enquanto trabalhavam. Pug gostava de Laurie. O trovador não devia estar ali, assim como não devia ter ido atrás de uma patrulha na esperança de ver soldados tsurani. Contara que procurava material para as baladas que iriam torná-lo famoso em todo o Reino. Vira mais do que esperava. A patrulha enfrentara uma grande ofensiva por parte dos tsurani e Laurie fora capturado. Chegara ao acampamento há mais de quatro meses e em pouco tempo se tornara amigo de Pug.
Pug continuou a subir, atento à presença dos perigosos habitantes das árvores de Kelewan. Alcançando o lugar mais adequado para um corte na copa, Pug parou ao perceber movimento. Relaxou ao perceber que era apenas um agulheiro, uma criatura cuja protecção era ser igual a um monte de agulhas de ngaggi. Fugiu da presença do humano e deu um salto curto até um galho da árvore próxima. Pug voltou a examinar os arredores e começou a amarrar as cordas. O seu trabalho era cortar as copas das enormes árvores, tornando a queda da planta menos perigosa para os que se encontravam no chão. Fez vários cortes na casca até que sentiu a lâmina do machado de madeira cortar a polpa mais macia por baixo. Um leve odor acre saudou o seu farejar cuidadoso. Praguejando, gritou para Laurie: esta está podre. Avise o capataz. Aguardou, olhando por cima da copa das árvores. À sua volta voavam insectos estranhos e criaturas parecidas com pássaros. Nos quatro anos em que era escravo naquele mundo, não conseguira acostumar-se com o aspecto daquelas formas de vida. Não eram tão diferentes das existentes em Midkemia, mas eram as semelhanças, mais do que as diferenças, que o faziam recordar constantemente que ali não era a sua terra. As abelhas deveriam ter listras amarelas e pretas em vez da tonalidade vermelha viva que as cobria. As águias não deveriam ter faixas amarelas nas asas, nem os falcões, roxas. Aquelas criaturas não eram abelhas, águias nem falcões, ainda que as semelhanças fossem impressionantes. Pug achava mais fácil aceitar as criaturas estranhas de Kelewan do que aquelas. Pug acabara se habituando aos needra de seis pernas, bestas de carga domesticadas semelhantes a um bovino com duas pernas adicionais e atarracadas, e aos cho-ja, criaturas parecidas com insectos que serviam os tsurani e falavam a sua língua. Porém, sempre que vislumbrava uma criatura pelo canto do olho e se virava, esperando que fosse de Midkemia, e via que não era, o desespero atacava.
A voz de Laurie despertou-o da sua divagação: o capataz está a chegar. Pug praguejou. Caso o capataz tivesse de se sujar na água, ficaria de péssimo humor. o que poderia significar espancamentos ou uma redução da já habitual parca refeição. Ele já devia estar aborrecido com o atraso nos cortes. Uma família de escavadores, criaturas semelhantes a castores com seis pernas, tinha-se acomodado nas raízes das grandes árvores. Iriam roer as raízes macias e as árvores adoeceriam e morreriam. A madeira polposa e macia azedaria, depois ficaria aguada e, decorrido algum tempo, a árvore cederia a partir do interior. Fora colocado veneno em vários túneis dos escavadores, mas as árvores já tinham sofrido os danos. Uma voz rouca, praguejando com vontade enquanto o seu proprietário chapinhava pelo pântano, anunciou a chegada do capataz, Nogamu. Ele também era um escravo, mas chegara ao patamar mais alto dentre eles e, embora não pudesse aspirar à liberdade, possuía muitos privilégios e podia mandar nos soldados e homens livres colocados às suas ordens. Era seguido por um jovem soldado de expressão ligeiramente divertida. Usava a barba raspada, como era costume entre os homens livres tsurani, e, ao olhar para Pug lá no alto, o escravo pôde dar uma boa espiada. Tinha as maçãs do rosto salientes e os olhos quase pretos, comuns a muitos tsurani. Os eus olhos escuros repararam em Pug e ele pareceu fazer um curto aceno com a cabeça. A armadura azul que envergava era de um tipo que o escravo desconhecia, ainda que, dada a estranha organização militar dos tsurani, não fosse de se estranhar. Cada família, região, área, burgo, cidade e província parecia ter seu próprio exército. O modo como se relacionavam uns com os outros no seio do Império estava além do entendimento de Pug». In Raymond Feist, Mago Mestre, 1982, 1992, Saída de Emergência, Brasil Editora, 2014, ISBN 978-856-729-602-9.

Cortesia de SdeEmergência/BEditora/JDACT