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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

O Pinhal de Cabeção. Maria Ângela Beirante e Cândido Beirante. «… casa o elemento primordial do povoamento, é evidente que o Pinhal esteve, desde muito cedo, ao serviço da política de povoamento em que a Coroa e a Ordem estiveram empenhadas e que perdurou por vários séculos»

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«(…) No tombo antigo da Ordem de Avis, datado de 1504, realizado por Diogo Azambuja, o Pinhal de Cabeção figura na lista dos bens da Ordem. A sua administração pertencia ao almoxarife da mesma que também tinha o encargo de dar em sesmaria as terras incultas. Porém, os pinheiros que existissem nessas terras ficavam sempre propriedade da Ordem e ninguém podia cortá-los sem licença do mestre. Os moradores de Cabeção que precisassem de madeira para construir ou reedificar suas casas só o poderiam fazer com licença do almoxarife que lhes assinalaria o local onde deviam realizar o corte, estando-lhes vedado cortar pinheiros pelo pé.
O tombo de 1556, da responsabilidade do licenciado Jorge Lopes, coincide, no essencial, com o anterior, mas é mais rico em pormenores descritivos. Ficamos a saber que a pena aplicada a quem cortasse um pinheiro sem licença era de 1 000 reais em dinheiro, mais 30 dias de cadeia. Porém, os moradores do lugar estavam obrigados a limpar todos os anos o Pinhal e, a troco deste trabalho, recebiam comida e a possibilidade de cortarem madeira para as suas casas. Acrescente-se uma novidade: Jorge Lencastre, filho bastardo de João II e Mestre da Ordem entre 1492 e 1550, dera o Pinhal ao Convento de Avis, ficando o Prior com o encargo do mesmo, pondo nele um guarda, morador em Cabeção. Era desta mata que o Convento tirava a madeira para as suas obras e alguns pinheiros que vendia para as despesas da sua fábrica.
Note-se, a propósito, que o corte de madeiras autorizado aos moradores de Cabeção se restringe, em ambos os documentos, ao madeiramento de suas habitações (sabemos, todavia, que, na Idade Média, era permitido aos moradores das cabeças das matas da Coroa cortarem a madeira de que precisassem, não só para a construção das suas casas, como também para as suas lavouras). Também neles nada se diz sobre a apanha de lenhas ou de outros produtos da mata, mas lendo um documento de 1574 e que se reporta a um costume antigo, podemos ter como certo que os moradores de Cabeção podiam aí colher pinhas, desde que o fizessem no tempo próprio, isto é, depois do dia de Santa Catarina (25 de Novembro). O que ressalta afinal da leitura dos documentos é que o direito ao corte de madeiras no Pinhal por parte dos moradores da vila tinha como fundamento a construção ou reparação das suas casas. Ora sendo a casa o elemento primordial do povoamento, é evidente que o Pinhal esteve, desde muito cedo, ao serviço da política de povoamento em que a Coroa e a Ordem estiveram empenhadas e que perdurou por vários séculos.
Prova eloquente do que acabamos de afirmar foi a doação que fez o Mestre Jorge Lencastre aos moradores de Cabeção de um chão, que fora ferragial da Ordem, para que nele construíssem casas. Confrontava, a poente, com adro da Igreja (que então se encontrava afastada da povoação) e, dos restantes lados, com ferragiais e hortas. Media de comprimento 160 metros e de largura 130 e constituiu o espaço onde se rasgou a Rua da Igreja (actual Manuel de Arriaga) e onde se traçou a quadrícula da Praça e das ruas adjacentes. Este chão, que foi transformado na povoação de baixo (por oposição à
mais antiga, situada no Castelo), já tinha muitas casas feitas em 1556 e corresponde ao casco urbano da vila que hoje conhecemos.
Podemos pois afirmar que o Pinhal de Cabeção foi matriz das casas mais antigas que se construíram no alto, mas que dele saíram principalmente as traves e as vigas com que se levantaram naquele chão as casas da vila nova. Mas se a mata foi mãe generosa das casas dos homens, não podia deixar de sê-lo das casas de Deus: igrejas e capelas que se erguiam ou reerguiam em terras da Ordem de Avis recorriam habitualmente aos melhores pinheiros que se criavam no Pinhal da Ordem. Exemplos desta última vocação encontramo-los no texto das Visitações da Ordem de Avis, que se realizaram em 1578 às igrejas da Ordem. Na visitação à igreja matriz de Benavila, o visitador constata que o alpendre tem muito ruins madeiramentos e recomenda: Sua Alteza deverá de mandar que do pinhal de Cabeção se desse uma dúzia de pinheiros para isso. Na visitação da capela de S. Domingos de Bembelide (Maranhão), reconhece que a igreja e a própria capela-mor estão em completa ruína, pelo que sugere: Sua Alteza devia mandar que se fizesse outra e podia-se fazer com pouco custo de alvenaria e forrada com madeira de pinho a qual se podia dar da mata de Cabeção e a capela-mor de abóbada em que se ponha um retábulo pintado». In Maria Ângela Beirante e Cândido Beirante, O Pinhal de Cabeção, Memória Histórica, Edições Colibri, 2009, ISBN 978-972-772-895-4.

Cortesia de EColibri/JDACT

O Pinhal de Cabeção. Maria Ângela Beirante e Cândido Beirante. «A necessidade premente de homens para a guerra levou este rei a proceder ao arrolamento dos besteiros do conto, nomeadamente os da comarca de Entre Tejo e Guadiana»

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«(…) A pedido do Mestre, e para atrair povoadores. o Rei concede vários privilégios e isenções aos seus moradores presentes e futuros. Não poderiam ser obrigados pelas justiças a levar presos, nem a transportar cargas ou dinheiros, ainda que destinados à corte. Ficavam também isentos de fornecer alimentos e vitualhas (como pão, vinho, carne, galinhas, roupas, bestas e palha) para aposentadorias e abastecimento da mesa dos senhores, sob pena do pagamento de 6 000 soldos ao rei. Estamos perante uma importante carta de privilégios (que alguns erradamente têm confundido com um foral) que punha os moradores da vila a coberto de abusos, a que os povos estavam normalmente sujeitos. Por isso, os moradores de Cabeção guardavam ciosamente o seu treslado dentro de uma caixa de pau, selado com selo de cera pendente.
A avaliar pelos documentos citados, parece fora de dúvida que foi João I (que antes fora Mestre de Avis) o rei que mais contribuiu para o povoamento ou repovoamento da vila e do termo de Cabeção. Os meios por ele utilizados foram a concessão de privilégios e isenções aos seus moradores e a distribuição de terras incultas pelo sistema de sesmaria, prática que deixou marcas na toponímia local (é o caso do topónimo Sesmarias que, em documentos do século XVIII, compreende a Sesmaria do Chiqueiro e a Sesmaria da Palhagueira). Embora não disponhamos, para esta época, de referências concretas ao Pinhal, somos informados, por documentos posteriores, de que João I, ao mandar distribuir as terras incultas aos povoadores, impôs a seguinte condição: todos os pinheiros que nascessem nessas propriedades ficariam reservados à Ordem, sem que os donos das terras pudessem dispor de tais pinheiros.
A necessidade premente de homens para a guerra levou este rei a proceder ao arrolamento dos besteiros do conto, nomeadamente os da comarca de Entre Tejo e Guadiana. Por este rol ficamos a saber que Avis, sede da Ordem, fornecia um contingente de 20 homens e que Montemor-o-Novo proporcionava 32. Cabeção (então associado militarmente a Montargil) contribuía com 12 besteiros para a hoste, facto que denota alguma importância estratégica e demográfica destas povoações.
Como atrás se disse, a primeira referência expressa conhecida ao Pinhal de Cabeção é uma carta de privilégios, passada em Coruche, a 11 de Abril de 1469, pelo rei Afonso V, a favor de Fernão Gonçalves, morador em Cabeção, que se propunha fazer uma estalagem, considerada muito necessária para os caminhantes que transitassem por este lugar (chancelaria de Afonso V. Esta estalagem situava-se no rossio conhecido por Eira do Quarto, à beira da estrada para Montargil, Avis e Galveias; referências à estalagem velha chegaram ao século XIX, para a distinguirem da estalagem nova que, no século XVIII, existia no Terreiro da Estalagem, actual largo da República, junto da estrada para Pavia, 1784): dispensa-o de prestar serviços, como o serviço militar, o exercício de tutorias e a condução de presos e dinheiros. Isenta-o de viários tributos, como peitas, fintas, talhas, pedidos e empréstimos e excusa-o do pagamento de sisa na compra das mercadorias necessárias ao abastecimento da estalagem.
Ficamos a saber que o sustento anual da mesma estava avaliado em: 6 moios de trigo e 3 de cevada; 2 cargas de azeite; 1 carga de pescado seco e 2 de pescado fresco; todas as carnes frescas ou secas que pudesse obter; 4 bestas para serviço da casa; mantas, chumaços (travesseiros) e lençóis; 24 cargas de vinho, vinagre, sal, cebolas, alhos, frutas e pescado do rio. Em contrapartida, o estalajadeiro obrigava-se a ter um par de camas e a manter uma barca para passar a ribeira de Raia. O rei concede-lhe o rendimento da barca e encarrega-o de guardar o Pinhal da Ordem de Avis, que existe neste lugar.
Como vemos, a necessidade de povoar a terra continua a estar presente nas intenções régias, mas os privilégios então dispensados pretendem assegurar a circulação de gentes e produtos. Constatamos ainda que a guarda do Pinhal estava a cargo do estalajadeiro, que era simultaneamente o detentor da barca de passagem, mas não ficamos a saber qual era o tipo de relação que existia entre os moradores da vila e o respectivo Pinhal. Para tanto, teremos de recorrer a documentos posteriores». In Maria Ângela Beirante e Cândido Beirante, O Pinhal de Cabeção, Memória Histórica, Edições Colibri, 2009, ISBN 978-972-772-895-4.

Cortesia de EColibri/JDACT

O Pinhal de Cabeção. Maria Ângela Beirante e Cândido Beirante. «… para cobramento da terre e haverem mantimento no dito logo os que per aí forem e vierem e esquivar mortes e roubos e outros males que se em aquela comarca fizeram e faziam»

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«Para lá de tais vicissitudes, este importante património natural tem uma história singular que é indissociável da história da vila de Cabeção e da região onde se situa. Mas a história do Pinhal reveste-se de um extraordinário alcance porque nela se reflecte toda a dinâmica da história de Portugal. Numa primeira fase, desde que Afonso II, em 1211, doou aos freires de Évora o lugar de Avis, para nele edificarem castelo e daí defenderem e povoarem toda a região circundante, o Pinhal de Cabeção pôde contribuir para a realização destes objectivos. Depois, quando a Coroa lançou ombros à empresa gigantesca dos Descobrimentos, esta Mata foi tida como uma reserva de matéria-prima ao serviço das armadas. No período das guerras da Restauração e das do final do Antigo Regime, as madeiras do Pinhal foram canalizadas para a defesa militar das praças fronteiriças. Seria, sem dúvida, a Revolução Liberal que, com a nacionalização dos bens das Ordens, mais havia de marcar a história deste património multicentenar, alterando, de forma dramática, a sua relação com a própria vila de Cabeção.
A abundância de documentos a que tivemos acesso, provenientes da época que decorre entre a queda do Antigo Regime e o triunfo da Revolução Liberal, levou-nos a dar especial enfoque à história do Pinhal, durante o segundo quartel do século XIX. Podemos, assim, constatar que, tratando-se embora de um período de crise e de controvérsia, ele foi, simultaneamente, um período de grandes iniciativas e realizações, que se traduziram numa das épocas mais activas da história desta Mata Nacional. Para tanto, contribuíram a determinação dos governantes, a perseverança e a actividade de alguns administradores e pessoal da Mata, bem como a vigilância laboriosa do povo da vila de Cabeção. Os limites cronológicos deste estudo são, a montante, o final do século XIII e, a jusante, o terceiro quartel do século XIX. Nele procurámos delinear as principais linhas de rumo que modelaram a história do Pinhal de Cabeção e, sempre que possível, identificámos os seus protagonistas. Podemos afirmar que a história inédita deste património multissecular é apaixonante. A sua divulgação contribuirá, segundo cremos, para o conhecimento das raízes da nossa identidade e para a tomada de consciência dos valores que herdámos e devemos preservar.

Na Idade Média e Antigo Regime
O Pinhal sob o domínio da Ordem
O documento mais antigo que conhecemos, contendo referências expressas ao Pinhal de Cabeção, como Pinhal da Ordem, data de 1469, mas é bem provável que a sua ligação à Ordem de Avis seja muito anterior. De facto, em 1279, já a capela de Cabeção, da invocação de Santa Maria, se contava entre as capelas fundadas pela mesma Ordem no termo de Avis (as outras capelas eram as de Cano, Sousel, Benavila e Figueira e, em todas elas, a Ordem de Avis tinha a prerrogativa de nomear os respectivos curas, que eram sempre freires da Ordem). Em 1295, o rei Dinis I doava vitaliciamente a sua filha dona Constança a Quinta de Cabeção e, em data desconhecida, esta propriedade foi doada pela Coroa à Ordem de Avis, senhora de bens e direitos na região. A importância da Quinta era tal que, num tombo de meados do século XVI, a própria vila de Cabeção se identifica como Quinta da Ordem (chancelaria de Dinis I, Direitos, Bens e Propriedades da Ordem e Mestrado de Avis nas suas três vilas de Avis, Benavila e Benavente e seus termos, no ano de 1556).
Podemos afirmar que o povoamento e a defesa da terra foram a razão de ser daquelas doações régias, mas que também a Ordem militar de Avis se distinguiu pela aplicação de regras sistemáticas de povoamento nos territórios que dominava. Durante toda a Idade Média, Coroa e Ordem conjugam-se na prossecução de objectivos comuns, sem esquecer o estabelecimento e segurança dos caminhos.
Foi a1iás, com este fim que o rei Dinis I fundou a póvoa de Mora: para cobramento da terre e haverem mantimento no dito logo os que per aí forem e vierem e esquivar mortes e roubos e outros males que se em aquela comarca fizeram e faziam.
Foi com intuito povoador que João I, a 31 de Janeiro de 1405, estando em Montemor-o-Novo, determinou que os sesmeiros dos lugares de Juromenha e Cabeção, ambos da Ordem de Avis, pudessem mandar apregoar e fazer éditos pelas respectivas comarcas, citando os possuidores de bens nas ditas localidades, que ao tempo estivessem ausentes, para os virem aproveitar, doar, escambar, aforar ou vender, no prazo de quatro meses, sob pena de esses bens serem distribuídos em sesmaria. Dois dias depois, o mesmo rei dá conta que o Mestre de Avis, frei Estêvão Rodrigues, se lhe queixara de que a vila de Cabeção e seu termo, que costumava ser muito bem povoada de gentes e lavradores que lavravam e aproveitavam bem as herdades, estava então muito despovoada, em virtude da guerra com Castela». In Maria Ângela Beirante e Cândido Beirante, O Pinhal de Cabeção, Memória Histórica, Edições Colibri, 2009, ISBN 978-972-772-895-4.

Cortesia de EColibri/JDACT

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Onomástica Galega em duas cidades do sul de Portugal. Santarém e Évora. Maria Ângela Beirante. «Em Santarém, os povoadores galegos ascendem com frequência ao nível superior da sociedade urbana como cavaleiros…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Em 1120, Diego Gelmirez obteve do papa Calisto II o reconhecimento de Compostela como metropolitana da província da Lusitânia, por oposição a Braga, metropolitana da Galécia. Deste modo, não só se fomentaram as rivalidades entre as duas metrópoles, como se reconheceu aos arcebispos galegos o direito de intervenção no governo eclesiástico de várias dioceses portuguesas, como Guarda, Lamego, Lisboa e Évora, situação que se manteve até ao final do século XIV. Como corolário desta ingerência galega nas dioceses portuguesas gera-se uma certa mobilidade de elementos da hierarquia eclesiástica de proveniência galega que se deslocam temporariamente pelas cidades do Sul engrossando deste modo o já avultado contingente de galegos aí residentes.
Todos estes factores matizam a explicação puramente quantitativa de emigração galega para Portugal no período medievo. Todos eles se conjugam e permitem compreender a inserção dos vários imigrantes nas duas cidades consideradas. Em Santarém, os povoadores galegos ascendem com frequência ao nível superior da sociedade urbana como cavaleiros terratenentes, mas a grande massa é integrada por pequenos proprietários ou simples agricultores das terras tomadas de presúria. Em Évora, eles constituem uma classe média de pequenos proprietários ou simples foreiros da propriedade rural ou urbana que, em casos esporádicos, exercem uma profissão diferente da agricultura, como por exemplo de carvoeiro, cutileiro ou corretor.
São estes os homens que usam o apelido de Galego que se transmite por gerações e que constituem como que o lastro desta sociedade transplantada. Porém, nos séculos XIV e XV, as referidas cidades dão acolhimento a vários elementos da nobreza galega que não usam o apelido de Galego, mas que ostentam nomes como: Barbosa, Valadares, Marinho, Camões e Castro, que denunciam a mesma origem. Estes nobres não vêm sós. Trazem consigo as suas comitivas de criados e dependentes, típicas da sociedade senhorial e implantam no meio urbano solidariedades clientelísticas. É o que sucede com os Castros, que se estabelecem em Évora e, no século XV, dominam a cidade na qualidade de capitães da mesma. Residem na antiga alcáçova dos freires de Évora e o seu prestígio mede-se não só em bens materiais, mas em cargos honoríficos e em amplas clientelas de escudeiros e criados.
Todas as circunstâncias apontadas nesta abordagem de carácter histórico têm o sabor de contingências espácio-temporais, mas não desmentem, antes confirmam, as palavras de Sanchez Albomoz quando chama aos Galegos eternos y abimdosos pobladores en todas Ias tierras y tempos». In Maria Ângela Beirante, Onomástica Galega em duas cidades do sul de Portugal, Santarém e Évora, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, nº 6, 1992-1993, III Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza, Vigo, 1990.

Cortesia da RevistaFCSH/JDACT

Onomástica Galega em duas cidades do sul de Portugal. Santarém e Évora. Maria Ângela Beirante. «Assim é que Pedro Fernandes Castro, o senhor mais poderoso da Galiza, foi educado na corte portuguesa de Dinis I»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Há que analisar os aspectos qualitativos que transcendem o simples crescimento demográfico, embora não se possam separar dele. Enumeremos então estes aspectos:

Um dos mais importantes é de natureza social, pois radica na essência da sociedade senhorial que a grande propriedade nobiliárquica e eclesiástica modelou na zona galaico-portguesa;
A sociedade galega medieva é constituída por uma grande massa de camponeses dependentes de uma minoria de senhores e as coacções senhoriais desencadeiam naturalmente a emigração. A fuga em direcção às terras do Sul constituía invariavelmente uma aventura bem sucedida. Nos lugares reconquistados, o antigo colono (que legalmente não podia abandonar a terra que cultivava) adquire direitos e liberdades;
Note-se que estas transferências de população coincidiram com a rotura dos vínculos de parentesco extenso e com a implantação da família conjugal. Como tipo de solidariedade reforçam-se os laços de vizinhança que são transplantados para as novas comunidades, sem esquecer por isso a marca da sua origem que, como vimos, se traduz em etno-topónimos;
Um outro aspecto igualmente importante é de natureza político-militar pois assenta nos interesses da nobreza e da monarquia, empenhadas no comando da sociedade e na manutenção de um status privilegiado. Sabemos, por exemplo, que a nobreza portuguesa procurou alianças com a galega através do casamento e que muitas linhagens portuguesas (Barbosa, Soverosa, Límia, Ribeira, Trava, Pereira, Nóvoa) têm origem galega.

Muitos nobres galegos, como que fugindo ao centralismo castelhano, demandam a corte dos reis de Portugal. Assim é que Pedro Fernandes Castro, o senhor mais poderoso da Galiza, foi educado na corte portuguesa de Dinis I. Os seus filhos são indissociáveis da história de Portugal: Inês de Castro ficou imortalizada na lenda e na arte. Álvaro Peres Castro foi o primeiro condestável de Portugal e, como valido de Fernando I foi o primeiro conde de Arraiolos. Fernando Castro, que foi adiantado-mor da Galiza, teve papel dominante nas guerras entre Pedro I e Henrique de Trastâmara, em que se envolveu Fernando I de Portugal, optando pelo partido legitimista. A vitória da monarquia trastamarista, eminentemente centralizadora e castelhanizante, canalizou para Portugal a maior parte da nobreza galega, sob a égide dos Castros que tinham grande influência na corte portuguesa. Maior ascendente na corte do monarca Fernando I (e mais ainda junto de Leonor Teles) veio a ter outro nobre galego, João Fernandes Andeiro, conde de Ourém. A sua influência foi-lhe, porém, funesta. Por ser partidário da união de Portugal a Castela, foi morto pelo Mestre de Avis, fundador da nova dinastia portuguesa. Devemos ainda sublinhar a importância de outro factor:

O político-religioso por se desenvolver ao nível da organização eclesiástica».

In Maria Ângela Beirante, Onomástica Galega em duas cidades do sul de Portugal, Santarém e Évora, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, nº 6, 1992-1993, III Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza, Vigo, 1990.

Cortesia da RevistaFCSH/JDACT

Onomástica Galega em duas cidades do sul de Portugal. Santarém e Évora. Maria Ângela Beirante. «Sabe-se que a migração tem sido, ao longo dos tempos, uma constante da história da Galiza»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Seis séculos mais tarde, os frades do mosteiro de Samos dispersam-se por lugares bem afastados da Galiza. É o caso de frei João Samos, Galego, que, em Santa Maria das Virtudes, não longe de Santarém, esconjurava os demónios, como se vê no Livro dos Milagres de Nossa Senhora das Virtudes compilado por Frei João da Póvoa em 1497. Mas se a Galiza foi inicialmente porto de abrigo para os que fugiam aos exércitos islamitas, em breve se converteu em foco de dispersão de povoadores. No repovoamento do Norte de Portugal (séculos X-XI) observa-se um movimento inverso ao dos primeiros tempos. Os galegos instalam-se nas terras entre Minho e Mondego, onde concorrem com os moçárabes na ocupação dos espaços disponíveis. Estes fluxos e refluxos populacionais foram certamente responsáveis pelo caldeamento de uma individualidade lexical comum à Galiza, Minho e Douro Litoral.
Na Idade Média é essencialmente como centro despoletador de emigrações que a Galiza nos aparece. Uma ligeira sondagem à história do repovoamento peninsular leva-nos a concluir que as gentes galegas estão presentes nas mais variadas regiões da Península. Encontramos galegos no repovoamento da Estremadura castelhano-leonesa, que se opera nos séculos XI-XII em cidades como Salamanca, Ávila, Segóvia e Zamora e até no reino de Toledo e na região de Alcarria se fixam gentes da Galiza. No século XIII vêmo-las ainda no repovoamento da Andaluzia e em Sevilha do século XIV existia mesmo a Rua dos Galegos, junto da praça onde era vendido o pescado (Collantes de Terán diz-nos que muitos galegos que se encontram em Sevilha se dedicam ao comércio de pescado ou de madeira). Manuel González assinala esta presença como sintomática de uma Galiza siempre provida en hombres.
Lindley Cintia observa que o topónimo Galegos tem uma frequência notável na Estremadura leonesa e, ao analisar a linguagem dos foros de Castelo Rodrigo, considera que o falar fundamentalmente galego, mas com leonesismos, de Castelo Rodrigo e de Riba-Coa no século XIII, se deve aos repovoadores galegos que, atraídos pelo seu rei Afonso IX, aí se fixaram como verdadeiras colmeias de imigrantes. É por esta mesma época que os galegos aparecem nas cidades portuguesas de Santarém e Évora onde, em vagas sucessivas, se vão enraizando. Sabe-se que a migração tem sido, ao longo dos tempos, uma constante da história da Galiza. É legítimo inquirirmos, para a época que nos ocupa, as causas da migração para Portugal.
Uma das causas principais que tem sido apontada como explicação para o fenómeno migratório em geral, é a taxa de natalidade juntamente com a escassez de recursos económicos. Trata-se de uma explicação económico-demográfica que se ajusta bem à Galiza medieva, verdadeiro reservatório de homens e de energias. Os historiadores dizem-nos que a população galega experimentou ao longo dos séculos XII e XIII um processo de crescimento demográfico. Alguns afirmam mesmo que a Galiza foi, na segunda metade do século XII e primeira do XIII, um dos centros políticos e culturais mais vivos da Península, criador da poesia trovadoresca e de obras como Pórtico da Glória de Compostela ou Pórtico do Paraíso de Orense. Estes incontestáveis depoimentos alertam-nos desde já para a limitação de uma explicação quantitativa para o fenómeno galego na Idade Média». In Maria Ângela Beirante, Onomástica Galega em duas cidades do sul de Portugal, Santarém e Évora, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, nº 6, 1992-1993, III Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza, Vigo, 1990.

Cortesia da RevistaFCSH/JDACT

Onomástica Galega em duas cidades do sul de Portugal. Santarém e Évora. Maria Ângela Beirante. «… o desenvolvimento demográfico das cidades medievais europeias se fez principalmente à custa de movimentos migratórios»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O meu interesse pela nossa história urbana levou-me a estudar o passado medieval de duas cidades portuguesas reconquistadas no século XII: Santarém, situada na margem direita do rio Tejo e Évora, no centro do Alto Alentejo, ambas localizadas portanto no Sul de Portugal. Em qualquer dos casos deparei com a presença constante da onomástica galega, quer a nível da antroponímia quer da toponímia. Em Santarém o apelido Galego surge nos documentos dos séculos XIII e XIV e atesta a fixação de gente do Norte que, vindo povoar a cidade, acaba por adquirir nela uma posição militar e económica de relevo. Os seus portadores residem de preferência na zona nobre: ou na Alcáçova, ou na freguesia de St.° Estêvão (ou do Santíssimo Milagre). Exemplifiquemos: João Domingues Galego, que em meados do século XIV vivia na freguesia de St.° Estêvão, era um rico proprietário da região. Era detentor de uma excelente lezíria do termo de Santarém, junto do Tejo, abaixo dos paços de Valada, onde recolhia 100 moios de pão meado e 2.000 pedras de linho. Esta lezíria era conhecida por Lezíria do Galego. É possível que se tratasse de um préstamo régio, pois em 1371 o rei Fernando I doou-a por jur de herdade a João Afonso Teles Meneses, conde de Ourem e tio de Leonor Teles.
Da antroponímia passamos à toponímia. Assim, abaixo dos paços do bispo de Lisboa, situados em Santarém, ficava o Vale dos Galegos, certamente agricultado por povoadores galegos. A 9 Km para N. da cidade fica o lugar da Póvoa dos Galegos (actual Póvoa de Santarém) que denuncia a mesma origem. Dentro da própria cidade ficava e ainda se conserva o Beco dos Galegos, na proximidade da antiga Mouraria e situado numa zona urbana periférica.
No caso de Évora inventariei todos os apelidos de família registados nos documentos conhecidos desde o século XIII ao XV relativos à cidade e constatei que perfazem o elevado número e 1694. Cerca de 20% destes apelidos são de origem geográfica. O apelido de origem geográfica que apresenta maior número de registos [53] é o de Castelão ou Castelhano, mas só surge na onomástica eborense na segunda metade do século XIV e no seguinte é frequentemente conotado com o epíteto de estrangeiro. O segundo apelido de origem geográfica mais frequente em Évora é o de Galego (42 registos). O seu aparecimento é contudo mais precoce que o anterior pois surge nos documentos no século XIII.
Charles Higounet considera que os nomes de origem geográfica constituem um material de alto valor para o estudo do movimento das populações. Por isso a frequência do apelido Galego em Évora da Idade Média não pode deixar de nos revelar uma corrente migratória de elementos populacionais oriundos da Galiza que se estabelecem na cidade alentejana a partir da reconquista. Esta corrente migratória é atestada pela toponímia urbana.
Existem em Évora medieval 2 ruas dos galegos, que parecem traduzir a fixação massiva de 2 colónias de imigrantes em momentos diferentes da história urbana. A Rua dos Galegos Velha situava-se a norte, à porta de Avis, perto da Mouraria, e onde, na época muçulmana, se encontrava o arrabalde moçárabe da igreja de S. Mamede. A segunda Rua dos Galegos ficava junto do mosteiro de S. Domingos e nela se achava a albergaria de S. Gião. Ambas as ruas se situam em lugares periféricos da urbe, mas importantes do ponto de vista da sua vida de relação. É possível que o convento dominicano tenha tido alguma intervenção no processo de instalação dos imigrantes, ao mesmo tempo que construía à sua volta casarias para os novos povoadores.
Sabemos que, de um modo geral, o desenvolvimento demográfico das cidades medievais europeias se fez principalmente à custa de movimentos migratórios. Porém estes movimentos foram particularmente intensos na Península Ibérica, pela existência do que podemos chamar uma fronteira em movimento. Esta fronteira em movimento é responsável pela ocorrência de fluxos e refluxos migratórios ao sabor das contingências da reconquista. Assim, por exemplo, no que toca à Galiza, no início do domínio islâmico, teria recebido numerosos refugiados do vale do Douro, facto que incrementou grandemente a sua densidade demográfica. A Galiza foi especial pólo de atracção para os religiosos moçárabes e ainda no século IX alguns monges cordoveses emigram para a Galiza, onde os encontramos, por exemplo, no mosteiro de S. Julião de Samos». In Maria Ângela Beirante, Onomástica Galega em duas cidades do sul de Portugal, Santarém e Évora, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, nº 6, 1992-1993, III Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza, Vigo, 1990.

Cortesia da RevistaFCSH/JDACT

terça-feira, 11 de julho de 2017

Évora na Idade Média. Maria Ângela Beirante. «Mas os vestígios romanos encontram-se em vários pontos ao redor da cidade: na Glória, a 300 m da Porta de Alconchel; na Horta do Bispo, a 600 m da Porta do Raimundo…»

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«(…) A muralha romana que parcialmente se conserva data de fins do século III. Quanto ao aqueduto, não temos dúvidas sobre a sua construção no tempo dos Romanos, pois só assim se justifica a existência da Rua do Cano, que já no século XIII se encostava ao velho aqueduto. O templo que, em meados do século II, se ergueu no ponto mais alto da cidade estava consagrado ao culto imperial, tendo por sacerdotes os servi Augustales. A divindade oriental de Némesis tinha também uma comunidade de fiéis em Évora, os amici Nemesiaci, que formavam uma confraria cuja função era dar sepultura aos seus membros. Évora era a cidade da Lusitânia onde habitava maior número de famílias de origem romana, como Júlia, Calpúrnia, Canídia e Catínia. Algumas tinham as suas residências nas villae dos arredores. Uma das mais importantes, que no início do século II pertencia à família Júlia, ficava na Tourega, por onde passava a via de Ebora a Salacia (é de notar que este lugar foi um centro de civilização megalítica, como o provam as antas de Valverde e do Barrrocal; aí fica o chamado castelo do Geraldo, e perto encontra-se o grande relevo metalúrgico da serra dos Monges, onde abunda o ferro; neste lugar encontra-se a Fonte Senta, à qual se ligam lendas de mártires cristãos).
Mas os vestígios romanos encontram-se em vários pontos ao redor da cidade: na Glória, a 300 m da Porta de Alconchel; na Horta do Bispo, a 600 m da Porta do Raimundo, à beira da estrada para Viana; na Herdade da Fonte Coberta, 10 km a sueste de Évora; na Herdade da Curraleira e na Herdade da Morgada, a caminho de S. Miguel de Machede. Na freguesia de S. Vicente de Valongo existe um pequeno forte que deve datar dos primeiros tempos do império e que, tal como o castelo da Lousa, na margem esquerda do Guadiana, tinha funções eminentemente defensivas. As setenta inscrições conhecidas provenientes de Évora e dos concelhos limítrofes são prova inegável da importância que a cidade alcançou na época rornana. A confirmar a supremacia de Évora conta-se o facto de, já no início do século IV, ser sede de bispado, suplantando deste modo a capital do convento pacensce, que só no século VI ascendeu àquela dignidade». In Maria Ângela Rocha Beirante, Évora na Idade Média, Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas, Dissertação de Doutoramento em História, Fundação Calouste Gulbenkian, 1ª Edição, 1995, ISBN 972-310-693-0.

Cortesia de FCG, CMÉvora/JDACT

sábado, 8 de julho de 2017

Évora na Idade Média. Maria Ângela Beirante. «Ebora era ponto obrigatório para quem, vindo de Emerita, se dirigia para os portos marítimos de Olisippo, Cetobriga e Salacia»

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«(…)
Antecedentes históricos
O antigo nome da cidade, Ebora, é, em si, um facto de civilização. Ele aparece noutros lugares da Península (como na Galiza e na Bética, sob a forma Ebora ou Ebura) e entre os Lusitanos existia Eburobrittium. Na Gália ficava Eburodunum e viviam os Eburones; o primitivo nome da ciclacle inglesa de York foi Eboracum. Trata-se de uma palavra de origem celta que testemunha a presença de povos celtas a sul do Tejo no primeiro milénio. Esta presença é ainda confirmada por Estrabão no século I a.C., no Livro III da Geografia, ao afirmar que na mesopotâmia, delimitada pelo Tejo e pelo Anas (Guadiana) viviam os Célticos e alguns lusitanos trazidos para as suas colónias pelos Romanos. Por importante que tenha sido a influência dos povos celtas na civilização do Ocidente peninsular, podemos, contudo, afirmar que é com os Romanos que a vida urbana se impôe. O domínio romano constitui, por isso, urn marco decisivo no destino da cidade.

Évora na época romana
Pode atribuir-se a André Resende a origem da lenda erudita que liga Sertório à cidade de Évora. Na luta que, à frente dos Lusitanos, sustentou contra Roma, Sertório teria escolhido a cidade para sua capital. Para isso mandou construir as muralhas e o aqueduto. Os seguidores de Resende encarregaram-se de acrescentar mais pormenores Entre eles conta-se o padre Manuel Fialho, autor de Évora Ilustrada, que atribuiu a Sertório a cronstrução do templo que chamou de Diana.
Sabe-se actualmente que esta tradição não tem fundamento e que o centro de operações de Sertório foi Osca (Huesca), mas é provável que tenha tido outras a ocidente, visto que o palco da guerra entre Sertório e Metelo foi o Alentejo e o Algarve, sendo as bases militares deste, entre outras, Metellinum (sobre o (Guadiana) e Caeciliana, (perto da actual Setúbal). Júlio César, governador da Hispânia Ulterior desde 61, desenvolveu a romanização do território além-Tejo, concedeu a Ebora o título de Liberalitas Julia e fundou possivelmente a colónia de Pax Julia (Beja). Com a divisão provincial da Península efectuada por Augusto, a Lusitânia estava dividida em três conventos jurídicos: Augusta Emerita, Pax Julia e Scallabis. Ebora pertencia ao convento pacence.
Segundo o célebre naturalista Plínio, o Velho, na sua Historia Naturalis, Évora era uma cidade-fortaleza (oppidum) que tinha a categoria de município com direito antigo do Lácio, tal como Mértola e Salacia (Alcácer do Sal). Situada no centro da plataforrna alentejana, num cruzamento de estradas militares, é como cidade-encruzilhada que Évora vai prosperar nos primeiros séculos do império. Segundo podemos constatar através do Itinerário de Antonino, do início do século III, Ebora era ponto obrigatório para quem, vindo de Emerita, se dirigia para os portos marítimos de Olisippo, Cetobriga e Salacia. Por ela tinha igualmente de transitar quem de Pax Julia se dirigisse para Scallabis. Como qualquer cidade romana, Évora obedece à organização dos acampamentos militares: portas orientadas segundo os pontos cardiais, duas vias que se cruzam em ângulo recto e, na intercepção de ambas, o forum». In Maria Ângela Rocha Beirante, Évora na Idade Média, Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas, Dissertação de Doutoramento em História, Fundação Calouste Gulbenkian, 1ª Edição, 1995, ISBN 972-310-693-0.


Cortesia de FCG, CMÉvora/JDACT

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Évora na Idade Média. Maria Ângela Beirante. «Reconhecendo a dificuldade de filiar a arte do barro numa única origem histórica, Orlando Ribeiro admite como provável a sua remota filiação ibérica»

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«(…) Os factorcs climáticos reflectem-se inevitavelmente no manto vegetal que, na sua forrna espontânea, se caracteriza pelo predomínio de árvores e arbustos de folha perene e odorífera e tem a sua expressão mais típica na charneca. A este tipo de vegetação associa-se, em regra, o gado ovino e suíno. Todos os elementos que acabamos de enumerar dizem respeito ao território que cronstitui o quadro geográfico da cidade. Porém, como lembra Orlando Ribeiro, o território de um povo já não é um simples dom da natureza, mas sim uma cornbinação original entre dois elementos: território e civilização. O povoamento concentrado e a fraca densidadc populacional; o regime latifundiário e a cultura extensiva; o pastoreio independente da agricultura que se observam na região alentejana são exemplos dessa combinaçào original de território e civilização.
Para o geógrafo do Mediterrâneo (Orlando Ribeiro), o Alentejo integra-se por inteiro na civilização do barro, que tem como elemento característico a preferência dada ao barro (taipa, adobe e tijolo) na arte de construir; mas aqui a respons:rlrilidade cabe muito mais à história do que à natureza. Segundo o mesmo autor, o Alentejo possui bons afloramentos graníticos, que nos tempos pré-históricos possibilitaram a construção de grandes necrópoles dolménicas nos actuais concelhos de Évora, Reguengos de Monsaraz, Mora (Pavia), Montemor-o-Novo. Arraiolos e Estremoz e fizeram desta região um importante centro de civilização megalítica. Todavia, a civilização do granito, que noss tempos históricos continuou florescente no Norte, foi suplantada no Sul pela civilização do barro, em virtude de uma maior susceptibilidade deste às correntes de civilização.
Reconhecendo a dificuldade de filiar a arte do barro numa única origem histórica, Orlando Ribeiro admite como provável a sua remota filiação ibérica e como centro difusor os planaltos castelhanos onde falta a pedra. Embora sublinhe o emprego do tijolo pelos Romanos, considera que foram os Mouros os principais responsáveis pela generalizaçào da taipa, que já traziam do mundo muçulmano. Não podemos, entretanto, deixar de lembrar que o uso da taipa e do adobe é apanágio das construções humildes. Só deste modo se justifica que, na actualidade, outro geógrafo (Amorim Girão) possa reivindicar para Évora (mais do que para Lisboa) o direito ao título de cidade de mármore e granito, e que na Idade Média, as construções da cidade, embora recorressem largamente ao barro, sempre tenham utilizado a pedra. A esta persistência não são alheios os dois factores convergentes da natureza e da história: de um lado, a abundância de material lítico; do outro, a marca indelével da arquitectura romana consubstanciada no próprio templo de granito». In Maria Ângela Rocha Beirante, Évora na Idade Média, Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas, Dissertação de Doutoramento em História, Fundação Calouste Gulbenkian, 1ª Edição, 1995, ISBN 972-310-693-0. 
Cortesia de FCG, CMÉvora/JDACT

quarta-feira, 29 de março de 2017

Salvação e Memória de Três Donas Coruchenses do século XIV. Maria Ângela Beirante. «Estabelece que, durante o ano imediato à sua morte, realizem sufrágios temporários por sua alma»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Para aniversários na igreja de S. João, deixa uma vinha situada no caminho de Évora. Ao fundar uma albergaria, Maria Raimundo destina-lhe quatro herdamentos (da Amoreira, além Sorraia; da Cavaleira, na Várzea de Coruche; do Porto das Zebras e do Vale Bem Feito) e ainda uma courela no caminho de Évora. Além disso, alguns dos bens que deixava aos seus criados reverteriam, por morte deles, para a albergaria. Assim, o herdamento das Oliveiras, donde sairia o azeite para alumiar a sua lâmpada. Porém, quando a capela necessitasse de ser refeita de ornamentos, seria à custa dos bens da albergaria.
V: na ausência de descendentes, que a testadora não menciona, seriam os colaterais, que, à partida, deveriam ser contemplados no testamento. Curiosamente muitos dos parentes nomeados são excluídos, ou melhor, arredados da herança, com a quantia simbólica de 5 soldos cada um, o que significa que, entre o bem da família e o bem da sua alma, a testadora escolheu o segundo (casos de indiferença ou mesmo de certa hostilidade em relação aos parentes foram já evidenciados em alguns testamentos medievos; um testamento redigido em Coimbra no tempo da peste negra; uma estratégia de passagem para o além; o testamento de Beatriz Fernandes Calça Perra). Não esqueceu, porém, alguns parentes e clientes. É o caso das mulheres da sua família e de sua casa, suas criadas, como Clara e Catarina Raimundo, Clara e Margarida Cré a quem deixa alfaias domésticas, por vezes a título de enxoval, ou mesmo uma casa para morar. É ainda o caso de Maria Dias, freira de Sta. Clara de Santarém e de Pero Raimundo, criado e certamente familiar da testadora, a quem, passados 15 anos após a sua morte, o testamenteiro daria 100 libras que entretanto deveria trazer a ganho. Contempla ainda todos os afilhados e afilhadas que tinha na vila e, naturalmente, os seus testamenteiros.
Determina, finalmente, que os testamenteiros deverão prestar contas da administração da capela e da albergaria aos clérigos de S. João. Para tal, dispõe que, do aluguer de uma casa pequena contígua à sua morada, deverão dar um jantar aos mesmos clérigos, revertendo o que sobejar em prol da albergaria. Proíbe terminantemente que alguém de sua linhagem ou fora dela se intrometa a execução do seu testamento. Como sanção final abençoa todos aqueles que respeitarem as suas últimas vontades e lança a maldição divina e a sua própria contra aqueles que eventualmente contrariem as suas disposições.

Testamento de Maria Simões (Coruche, 3 de Dezembro de 1348)
Escolhe para sua sepultura a igreja de S. João, onde era freguesa. Faz seus testamenteiros dois sobrinhos: Estêvão Esteves, clérigo, e Afonso Domingues, que deverão designar sucessores. Ainda que de uma forma simples e por vezes demasiado breve, a testadora preenche as várias finalidades atrás enunciadas:
I: com o seu corpo, manda à igreja 5 libras, mais 10 para sepultura, 10 por falhas e ainda 5 soldos a seu abade. Para as honras fúnebres propriamente ditas ordena uma missa oficiada no dia da sepultura e as matinas dos mortos. Para tudo isto, despenderiam a quantia de 30 libras. Como confrada de S. Brás, teria certamente o direito a que os membros da confraria acompanhassem o féretro à igreja, fazendo-lhe honra, facto que não carece ser lembrado, por óbvio.
II: estabelece que, durante o ano imediato à sua morte, realizem sufrágios temporários por sua alma. Deverão obradá-la (a obrada era uma oferta de carácter sufragante composta de pão, vinho e cera) semanalmente, com um alqueire de trigo, vinho, dinheiro e candeias, segundo o costume. No fim de cada mês, realizariam um saimento sobre a sua sepultura, seguido da inevitável refeição ritual que consistiria de quatro carneiros, quatro almudes de vinho e quatro canastras de pão cozido. A mesma cerimónia teria lugar ao fim do ano. Apesar dos lapsos do texto, dá ainda para perceber que a testadora exigia que fossem dadas por sua alma mesas de peixe e de carne, dispondo para isso de dinheiro e pão». In Maria Ângela Beirante, Salvação e Memória de Três Donas Coruchenses do século XIV, Território do Sagrado, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-109-1.

Cortesia de EColibri/JDACT

Salvação e Memória de Três Donas Coruchenses do século XIV. Maria Ângela Beirante. «… do seu testamento: fazer serviço a Deus e melhoramento de minha alma desy acresentamento e honra de meu auer»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Sabemos, por outro lado, que Maria Garavinha era servida por vários criados que contempla no seu testamento e que pôde ser sepultada na capela-mor da igreja. Conjugando estes elementos com o facto de possuir uma boa fortuna, podemos admitir estarmos em presença de uma dona de nobreza talvez recente, mas de certa projecção no meio. Nos testamentos em análise, registam-se, no total, 5 finalidades ou funções, pelas quais as testadoras entendem distribuir os seus patrimónios, o que não significa que todas sejam igualmente contempladas. Assim, enquanto Maria Raimundo não se ocupa com os sufrágios periódicos, Maria Garavinha não cuida das obras pias.

Testamento de Maria Raimundo (Coruche, 15 de Outubro de 1339)
A testadora começa por enunciar os objectivos religiosos e profanos do seu testamento: fazer serviço a Deus e melhoramento de minha alma desy acresentamento e honra de meu auer. Manda sepultar o seu corpo na igreja de S. João de Coruche, diante do altar de Santa Clara, sob uma pedra que mandara vir de Flandres e em cuja capela sepultara já, em dois moimentos alsados, os dois cavaleiros com quem fora casada. Mandara fazer nesta capela um altar de pedra, doara-lhe um cálice e um turíbulo de prata e mandara pôr na igreja uma pia baptismal. Faz seus testamenteiros João Lourenço Cidrão, a quem deixa a sua casa de morada, e João Cré, clérigo seu criado. Ambos deviam, por seu turno, nomear sucessores na administração da capela. Maria Raimundo distribui os seus bens por quatro das finalidades enunciadas:

I e II: para o dia da sua morte, ordena que, quando levarem o seu corpo a enterrar, paguem à igreja 10 libras e mais 20, por falhas. Dispõe que os clérigos que forem ao seu enterro lhe façam matinas e lhe rezem saltérios. Rezariam duas missas e mandariam tanger todos os sinos da vila. Comprariam uma arroba de cera para o funeral e finalmente fariam um saimento (procissão fúnebre que se realizava em torno da sepultura, com cruz, água benta, incenso e círios acesos e sempre seguida de refeição. sobre a sepultura com distribuição de alimentos) Deste modo, além dos gastos em cera, em 4 alqueires de trigo amassado, em carne e vinho, gastariam com as exéquias a quantia de 37,5 libras em dinheiro.

III: às obras pias destinou cerca de 50 libras assim distribuídas: obras das igrejas de Coruche; albergarias e gafarias da mesma vila; conventos de Santarém (Donas de Sta. Clara, Donas de S. Domingos, Menores de S. Francisco, Pregadores de S. Domingos e Trinitários, para resgate de cativos).

IV: o seu grande investimento projectou-se principalmente nas fundações perpétuas: capela, aniversários (celebração perpétua de missas, no dia do aniversário do óbito do instituidor, ou em certos dias escolhidos pelo mesmo, com particular destaque para os dias de festa religiosa) e albergaria. Para sustento das mesmas chegou a adquirir, por compra, vários bens imóveis para juntar aos que já possuía. Para suporte da capela, deixou quatro vinhas, uma adega e um lagar com todos os seus pertences, que entregou ao testamenteiro João Lourenço com o encargo de pagar anualmente 100 libras a dois capelães que rezassem missas quotidianas para todo o sempre. Nomeia então como capelães o seu testamenteiro João Cré e o clérigo Estêvão Boi, que vive numa casa da testadora». In Maria Ângela Beirante, Salvação e Memória de Três Donas Coruchenses do século XIV, Território do Sagrado, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-109-1.

Cortesia de EColibri/JDACT

terça-feira, 14 de março de 2017

Santarém Medieval. Maria Ângela Beirante. «Ao prior coube a Azoia toda livre (Azoyam totam liberam) e Rio Maior. Aos clérigos, a herdade de Alcoentre, o Calhariz e vinhas em Alvisquer»

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As ordens militares e as instituiçoes religiosas
«(…) No início do século XIII, os freires de Évora-Avis são proprietários de várias herdades na Azoia (na proximidade do Gualdim) que lhes foram doadas e vendidas pela família de Pero Sangalho. Nessa época, uma bula do papa Inocêncio II. datada de 1214, confirmava os bens da ordem de Calatrava-Avis, mencionando expressamente a posse das casas de Santarénr, bem como da herdade régia charnada Horta da Lagoa, junto de Monte de Trigo, nos campos da margem direita do Tejo. A ordem de Santiago ou de Uclés foi, tanto quanto sabemos, a terceira instituiçào religioso-militar a dar entrada em Santarém. Data de 1193 este facto, consoante se viu pela doação que lhe fez o rei Sancho I de casas e torre na Alcáçova, de uma herdade na Lagoa Negra, uma almuinha na Assacaia, vinhas à Ponte de Alcoça, de um forno e de um moinho. Em 1241, em composição realizada com o mestre de Avis, o comendador de Santiago recebeu a granja de Horta Lagoa que pertencera aos freires de Avis. Há notícias de que os de Santiago possuíam, no século XIII. herdades além do Tejo, junto de Alpiarça. Parece relativamente tardia a entrada da ordem do Hospital, embora o texto do foral de 1179 preveja a presença de Hospitalários na vila e um documento de 1180 registe o nome de uma testemunha com o determinativo do Hospital.
Já vai adiantado o século XIII quando nos apercebemos da presença desta ordem em Santarém. associada à igreja de S. João de Alpram (Alporão, na designação moderna). A instalação da nova ordem em Santarém suscitou rivalidades com a igreja-mãe do Alpram: S. Martinho de Alpram. Ocorre um diferendo entre o reitor e clérigos desta igreja, por um lado, e os Hospitalários, por outro. S. Martinho exigia o pagamento das dízimas de todas as propriedades que os freires de S. João tivessem no terrno. Em 1260, chegaram a um acordo amigável, sob o arbítrio do bispo de Coimbra, don Egas. O reitor de S. Martinho renunciava às dízimas de todos os banhos, tendas, alcaçarias, lagares de vinho e azelte. e às dízimas que pagavam os mancebos do gado do Hospital. Receberia metade das dízimas das herdades que S. João tinha no Bairro Novo e Assentiz e nas granjas de Tremês, da Rorneira e Ventosa. Todavia, se estas últimas fossem exploradas directamente pelos Hospitalários, não pagariam dízima, mas pagariam dízimas inteiras pelas propriedades que adquirissem depois.
A igreja de S. João do Hospital de Santarém recebe em 1269 uma courela de herdade em Trava (Alpiarça) e uma vinha na Ómnia que lhe deixou em testamento Maria Mendes, filha de Mendo Gonçalves e Maior Joanes, para sustento de uma capela na igreja de S. João, o'nde havia de ser sepultada. A aliança entre a classe militar e religiosa no comando das operações de conquista redundou, como é óbvio, numa dupla vantagem para ambas, possibilitando a capitalização em terras por parte dos institutos religiosos. Em Santarém, o instituto que ventagens mais directas tirou a Reconquista parece ter sido a colegiada de Santa Maria da Alcáçova que, desde a fundação, foi acumulando bens de raiz situados no termo da vila e que, em 1190. no tempo do prior Pedro Joanes, foram divididos entre os clérigos e o prior. Ao prior coube a Azoia toda livre (Azoyam totam liberam) e Rio Maior. Aos clérigos, a herdade de Alcoentre, o Calhariz e vinhas em Alvisquer. Algumas destas propriedades tinham sido deixadas à Igreja por legados pios, mas outras foram obtidas por um processo sui generis que podemos considerar típico desta época. Esse processo foi a presúria, forma secular usada na reconquista cristã, destinada a integrar regiões, se não totalmente despovoadas, pelo menos abandonadas pelos chefes e com uma população rarefeita pela devastação dos fossados e algaras». In Maria Ângela V. Rocha Beirante, Santarém Medieval, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (35813), 1ª edição em Português, Dezembro de 1980.

Cortesia da UNL/FCSH/JDACT

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Évora na Idade Média. Maria Ângela Beirante. «Mas a grande uniformidade de todo o Alentejo deve-se essencialmente ao relevo suave e ao clima mediterrâneo»

Cortesia de wikipedia e jdact

A imagem da Cidade
«A cidade é, antes de mais, imagem, ficção do real e do irreal. Évora não foge à regra. Ela tem os seus mitos, desde a corça de Sertório às errâncias de Geraldo e seus ladrões. Ela vive no lirismo dos poetas como Iça Ibne Alwakkil que, na época do domínio almorávida, exprimiu nestes termos a amargura do exílio:

«Um exilado na terra do Magrebe
tem o coração dividido
entre duas afeições:
Salé tomou uma parte
Évora a outra».

Ela perdura nos versos de Florbela Espanca: Évora! Ruas ermas sob os céus, cor de violetas roxas… e, em Virgílio Ferreira, encontramos a branca aparição desta cidade-ermida. À literatura junta-se a crónica. Fernão Lopes, antes de nos contar como os da çidade se levamtarom comtra Abadessa, e do geito que teverô em na matar, diz-nos que o castelo era bem forte (…) e como foi tomado, logo foi rroubado de quamto hiacharõ, e derribado per muitas partes, e posto fogo demtro em elle; de guisa que queimadas cassas e quamto em ell avia, ficou devasso come pardieiro, sem parte defensável quem ell ouvesse. A imagem da cidade é afinal uma amálgama de presente e passado, de ciência e fábula que se instala em cada um de nós. Ultrapassemos essa imagem e olhemos cientificamente o seu passado.

Factores ecológicos
Ao iniciarmos o estudo histórico da cidade de Évora, tomemos contacto com a região natural em que se situa o Alentejo. Segundo Amorim Girão, região natural é um território com uniformidade de constituição geológica dos terrenos, relevo do solo, clima, associações vegetais e animais. O Alentejo estende-se desde as margens do Tejo até à serra do Algarve. Évora, capital do Alto Alentejo, ocupa o centro desta vasta região. Geologicamente, a área de implantação da cidade pertence ao antigo maciço ibérico e nelas predominam as rochas metamórficas e as graníticas, havendo ainda em todo o quadrante leste formações xistentas e mesmo rochas detríticas sedimentares. Esta aparente variedade na constituição geológica em pouco influenciou a morfologia da área, não originando grandes barreiras físicas que constituíssem obstáculos à vida dos homens.
Mas a grande uniformidade de todo o Alentejo deve-se essencialmente ao relevo suave e ao clima mediterrâneo. O traço geográfico dominante da região transtagana é a peniplanície ondulada, descoberta nos vastos horizontes (…) e a secura do ar e do solo, a característica essencial do clima. Sendo a escassez de água o fenómeno geográfico principal, compreende-se a grande atracção pelas nascentes. Évora situa-se mesmo a poucos quilómetros a SE de um importante centro de dispersão hidrográfica, onde nascem os rios que lhe servem de suporte, como o Degebe, afluente do Guadiana, o Xarrama e o Valverde / Alcáçovas, afluentes do Sado, e ainda o Divor, que faz parte da bacia hidrográfica do Tejo, como afluente do Sorraia. As maiores altitudes na área envolvente de Évora são a serra de Ossa, 698 m, a NE; a serra de Monfurado, 423 m a Oeste e a serra Portel-Mendro, 412 m, a SE». In Maria Ângela Rocha Beirante, Évora na Idade Média, Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas, Dissertação de Doutoramento em História, Fundação Calouste Gulbenkian, 1ª Edição, 1995, ISBN 972-310-693-0.

Cortesia de FCG, CMÉvora/JDACT

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Conhecimentos no 31. Santarém Medieval. Maria Ângela Beirante. «… hum forno e hum lagar dazeite que an no dicto logo a par da torre da barata os quaes forom de Pero Anes de Pajuha (...) e tres portaes de casas que son na Rua da Alcaçova»

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O perímetro amuralhado
«(…) Montês Matoso refere-se assim à famosa torre: junto da porta da Alcaçova da parte do Poente, no lugar mais alto estava a celebrada Torre do Bufo… Zeferino Brandão, no capítulo X da obra citada, baseando-se num documento que encontrou na repartição da Fazenda do distrito de Santarém, afirma que defronte das casas do conde de Tarouca, na Alcáçova, havia uma cerca com árvores e, no alto dela, uma torre que se chamava do Bufo. Opina que esta ficava para a parte sul da cerca, sobre o muro da Alcáçova, e que tinha de comprido sobre a calçada que vai para o Alfange 105 varas e meia. Além de nos dar a indicação, tal como Montês Matoso, de que foi demolida em 1660, aventa a hipótese de ter sido esta a torre que Sancho I doara à ordem de Santiago, em 1193, como se disse. Ocorre aqui salientar que não são muitas as informações que conheço acerca da Torre do Bufo. As mais antigas encontram-se no tombo da Alcáçova de 1479, onde parece confundir-se com a Torre da Covilhã ou então pode admitir-se que fica situada no mesmo beco (beco primeiro que uay pera a torre da couylhãa ou torre do bufo que todo he hüu).
Em contrapartida, para os tempos mais recuados achei, pelo menos, três referências a uma torre situada na Alcáçova, chamada Torre da Barata. Na sua proximidade, encontrava-se uma casa (domus juxta turri de Barata) que foi legada à igreja de Santa Maria pelo seu proprietário Afonso Martins, segundo nos refere um obituário do século XIII. Em 1330, procedeu-se à arremataçâo por dívidas de alguns bens sitos na Alcáçova, contando-se entre eles: hum forno e hum lagar dazeite que an no dicto logo a par da torre da barata os quaes forom de Pero Anes de Pajuha (...) e tres portaes de casas que son na Rua da Alcaçova. Em conclusão: nos tempos mais recuados fala-se da Torre da Ladra e da Torre da Barata que não devem ser confundidas. A Torre do Bufo é um nome referido muito mais tarde. Será a designação posterior de uma das duas torres anteriores? É uma hipótese plausível.

As ordens militares e as instituiçoes religiosas
É um facto incontestável que um dos grandes suportes da reconquista cristã foi o espírito cruzadístico, cristalizado nas ordens religioso-militares de freires-soldados: actuando ao lado do rei nas operações militares, os freires viram magnanimamente recompensados os seus esforços pelas doações que os monarcas lhes fizeram. Tais doações eram-lhes prometidas, por vezes, mesmo antes das conquistas se concretizarem, servindo de estímulo para a luta. Deve ter acontecido assim com a ordem do Templo que, em Abril de 1147, recebeu de Afonso Henriques todas as rendas eclesiásticas da vila de Santarém, conquistada havia um mês, em cumprimento da promessa régia feita antes e para recompensar a ajuda prestada. Em consequência desta doação, os cavaleiros Templários edificaram na Alcáçova a igreja de Santa Maria, por mandado de mestre Hugo e sob a vigilância de Pedro Arnaldo, segundo a inscrição existente ainda na fachada do edifício que estava terminado em 1154.
Depois da conquista de Lisboa, a posse do eclesiástico de Santarém foi contestada pelo bispo Gilberto. Por isso. Afonso I, em 1159, fez doação do castelo de Cera e seus termos àquela ordem, em troca do referido eclesiástico que passava para a jurisdição episcopal de Lisboa, excepto a igreja de Santiago de Santarém que continuou a pertencer aos Templários. Mantiveram ainda as suas casas na Alcáçova. junto da Porta do Sol. Além da posse desta igreja, situada a meio caminho entre a Alcáçova e a Ribeira, os freires do Templo detinham muitas terras na periferia de Santarém. Em 1180 contavam-se, por exemplo, entre os proprietários das vinhas de Alvisquer. Outra ordem que se implantou no século XII. em Santarém e seu termo, foi a de Évora, também chamada de Calatrava ou de Avis. Em 1173, Afonso Henriques fez uma carta de doação e confirmação a Gonçalo Viegas, mestre daquela ordem, de certos bens em Évora e dumas casas que possuía em Santarém, em Seserigo: de domibus meis quos habeo in Sanctarene in Seserigo. É possível que, ainda no século XII, esta ordem tenha adquirido (talvez por doação) a quinta do Gualdim. a sete quilómetros de Santarém. que já possuía em 1219. De facto, um outro documento do cartório de Avis testemunha-nos a compra de uma herdade na Fonte da Pedra. contígua à quinta do Gualdim, no ano de 1186. Pertencia a Nuno Guterres e são seus compradores Gualdim (daí, o nome que se manteve) e sua mulher Ausenda Domingues». In Maria Ângela V. Rocha Beirante, Santarém Medieval, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (35813), 1ª edição em Português, Dezembro de 1980.

Cortesia da UNL/FCSH/JDACT