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sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O Perfume Secreto. Fiona McIntosh. «Era faustoso, sem dúvida absurdamente caro, ostentativo com as suas cores vivas, exigindo atenção. A sua forma era estranha e provocava já em mim…»

jdact

1 de Agosto de 1914
«(…) Que cancelemos tudo por um papel? Olhou-me com raiva. Vais desiludir a cidade inteira, todo o povo reunido para celebrar aquele que será, sem dúvida, o casamento mais importante dos últimos tempos ou mesmo de sempre em Grasse? Duas das suas famílias de elite formalmente unidas. É um sonho, Fleurette. Não arruínes o sonho, o optimismo, quando todos os homens capazes da cidade estarão prestes a marchar para servir o seu país. Precisamente! Como poderemos ter a certeza da oficialização dos documentos legais sem a presença de Aimery? Suspeitei que não teria uma resposta pronta para aquilo. Era o meu último esforço. A minha última defesa. Chocou-me perceber que estava mais do que pronto para mim, com a voz repleta de desdém.
A declaração de guerra será bravata alemã. Teremos de cumprir os nossos deveres de mobilização, mas suspeito que voltaremos para casa dentro de uma semana. Duas, no máximo. Durará pouco e Aimery voltará para casa, mas, por agora, quer deixar Grasse como homem casado, possivelmente com um herdeiro já semeado. E assegurar-te-ás da concretização de todas as expecptativas. É o teu dever. A repulsa fez-me fechar os olhos. Falava do meu corpo como se fosse uma terra pronta para ser lavrada e... Era demasiado medonho para contemplar.
Era impossível responder àquela tirada do meu irmão. Fiquei muda. Arregalei os olhos e fixei as mãos enluvadas e o pequeno volume sob a luva no terceiro dedo da mão esquerda. O brilho carmesim desafiava-me. Era um rubi de meio quilate colocado entre curvas de diamantes de corte simples e em rosa. O resultado era um anel com a forma de um olho..., e olhava-me por baixo da renda com um brilho acusador. Aimery não podia pedir-me em casamento com um anel herdado. Não tinha nada da sua mãe e suspeitei que, mesmo que tivesse alguma coisa sua, tê-la-ia ignorado. Aquele anel tinha sido desenhado com grande despesa em Paris, mas sem o meu envolvimento, claro. E, por isso, reflectia apenas Aimery... Era faustoso, sem dúvida absurdamente caro, ostentativo com as suas cores vivas, exigindo atenção. A sua forma era estranha e provocava já em mim a consciência sinistra de que me espiaria sem cessar. Odiava-o, mas também era verdade que todos os pormenores daquele casamento me pareciam desesperantes.
Uma dor estranha, aguda e agoniante, envolvia-me na carruagem claustrofóbica. Estávamos no pino do Verão e as flores que segurava e que me enfeitavam o cabelo podiam murchar. Fora esse o motivo avançado para não viajarmos num landau aberto. Trocista, decidi que o verdadeiro motivo seria, provavelmente, a preocupação de Henri com o seu cabelo e com a brilhantina cuidadosamente aplicada. A dor intensificou-se. Talvez entrasse em pânico como quando Felix cortou os dedos com uma foice de alfazema ou como na manhã do piquenique de Junho, quando caí do cavalo e as vozes de todos me pareciam demasiado distantes..., ou como no dia em que morreu a minha mãe, um acontecimento para além da minha compreensão de criança, recordando, mesmo assim, o corpo do meu pai parecendo perder a solidez, como um saco de pétalas de rosa, sem conseguir compreender porquê.
Não costumava sucumbir a caprichos e, em minha defesa, estas memórias pertenciam a acontecimentos isolados e emocionalmente intensos que conseguia conjurar com sinceridade. A ansiedade daquele dia não me parecia algo que passasse ou que alguém pudesse tornar melhor com a sua vinda. Aquele dia era o início de uma vida nova que me assustava. O desejo de desaparecer de tudo aquilo era suficientemente avassalador para parecer que tentava libertar parte de mim..., o meu corpo e o meu íntimo precisavam de se separar para conseguir suportar o dever que esperavam que cumprisse». In Fiona McIntosh, O Perfume Secreto, 2015, Quinta Essência, Oficina do Livro, 2016, ISBN 978-989-741-578-4.

Cortesia de QEssência/OdoLivro/JDACT

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O Perfume Secreto. Fiona McIntosh. «Tenho a minha moral... Esquece isso, Fleurette, afirmou, sacudindo pó imaginário das calças. Avançamos para uma guerra com a Alemanha!»

jdact

1 de Agosto de 1914
«Odiava o homem com quem me devia casar naquele dia. Uma mão foi estendida e cobriu-me o pulso. Não tinha pelos e as unhas estavam aparadas e bem cuidadas. Tranquila, Fleurette. Não percebera como estava inquieta. Recompõe-te, continuou o meu irmão. O nosso pai quereria que estivesses composta nesta representação tão pública da família. Henri ergueu-me o queixo sob o véu que, apesar de diáfano, me esconderia o suficiente para camuflar a expressão angustiada. A referência intencional de Henri ao nosso amável pai exigia a minha obediência. E, acima de qualquer coisa, era obediente. Diz-se que todos fazemos escolhas nas nossas vidas, mas nasci numa família que fez praticamente todas as escolhas da minha vida por mim. Em sua defesa, não tive grandes motivos de queixa. Era a filha preciosa, amada e admirada como um tesouro. No entanto, só recentemente tinha compreendido que não se tratava apenas de uma imagem encantadora. Era realmente o tesouro da família e podia ser trocada como se fosse moeda, negociada como dinheiro humano. Era tão impotente como um soberano de ouro reluzente passado de uma mão para outra. Um negócio fechado. Uma transacção assegurada. E, depois de concluído o acordo, bastando apenas o ritual para confirmar a sua existência ao mundo, a minha angústia de nada importaria. Fiz outra tentativa para invocar razões legais, o meu último reduto, o único aspecto daquela união maldita atrás do qual poderia tentar esconder-me. Parecia-me que a guerra poderia ser minha aliada.
Henri, aos olhos da lei permaneceremos solteiros. Sem o certificado do presidente da câmara, o padre não poderá casar-nos legalmente. Dizia a verdade. Não comeces outra vez com isso, irmãzinha. Asseguro-te que o presidente da câmara e os seus conselheiros têm mais com que se preocupar do que um casamento da alta sociedade. Insisti pessoalmente há uma hora e nem mesmo o nosso nome, e o peso que tem, ou as minhas ameaças e também as de Aimery, conseguiram convencer o seu assistente a interromper as reuniões municipais em que se discute a guerra. Além disso, o presidente da câmara e o seu adjunto nem sequer estão em Grasse, explicou, parecendo exasperado por saber que este último facto era do meu conhecimento.
Era verdade. Deveríamos ter tido a nossa cerimónia civil no dia anterior, mas com a França à beira da guerra, esperando apenas a declaração formal, nenhuma câmara municipal no país inteiro se teria mostrado inclinada a preocupar-se com a formalização legal de um casamento, mesmo que envolvesse famílias como as nossas.
Quando regressa o presidente da câmara? Henri ergueu um ombro impotente. Amanhã, espero. A reunião de emergência em Nice, na prefeitura, terminará hoje, com sorte, com a formalização de uma declaração de guerra. Não poderá outra pessoa... Não, interrompeu. Não será bem visto que um representante subalterno queira realizar um casamento hoje com a nação no alvoroço em que se encontra. Mesmo que fosse autorizado a fazê-lo. Quis insistir no meu argumento, mas Henri estava preparado. Vamos, continuou, cortando o ar com uma mão erguida. Basta. Foi difícil convencer o padre a avançar, mas, uma vez que acedeu, suspeito que não terás autoridade superior à sua.
Tenho a minha moral... Esquece isso, Fleurette, afirmou, sacudindo pó imaginário das calças. Avançamos para uma guerra com a Alemanha! As circunstâncias não são as adequadas. Deus perdoar-te-á. É apenas uma formalidade e, seja como for, a cerimónia civil realizar-se-á mesmo assim. Quando? O presidente da câmara mandou dizer que fará um esforço por nós. Esperamos que seja amanhã. A raiva acumulada deixava-o corado e vi-o passar um dedo entre o colarinho e o pescoço, dirigindo-me um esgar de desagrado. Nem eu nem a família De Lasset te perdoaremos se atrapalhares esta união tão importante. Não poderemos cancelar após meses de preparação. A cidade precisa deste casamento. Além disso, as nossas ordens de mobilização chegarão a qualquer momento. Vamos assegurar pelo menos o casamento religioso. Os deveres civis poderão ser resolvidos discretamente. Sei que não é o normal curso dos acontecimentos. Sei que sim. Mas preciso que toleres a discrepância. Se a nossa igreja pode fazê-lo, tu também poderás. Por favor, pensa em todos os outros... Pensa em qualquer pessoa além de ti própria, para variar.
A repreensão magoou-me. Não era egoísta, mas estava irritada com o padre por vergar as regras da nossa fé, as leis do nosso país, apenas porque as famílias mais ricas o exigiam. Sem dúvida que Henri ou o meu futuro marido, igualmente insensível, teriam coagido o padre... Talvez com a promessa da nova janela para a abside? Henri, deitar-me-ei com um homem que não será legalmente o meu marido, protestei. Não será teu marido aos olhos da lei, mas isso será resolvido. Que esperas?» In Fiona McIntosh, O Perfume Secreto, 2015, Quinta Essência, Oficina do Livro, 2016, ISBN 978-989-741-578-4.

Cortesia de QEssência/OdoLivro/JDACT